Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Nilto Maciel

Nilto Maciel (1945/2014) foi um dos escritores mais dedicados e produtivos que conheci. Ler e escrever foram sempre, desde muito cedo, suas ocupações predominantes, ao passo que abominava as atividades rotineiras e cotidianas. Também não se dava bem com as entidades de escritores, academias literárias e grupos do gênero. Considerava-se um marginal no mundo literário, produzindo, divulgando, mantendo correspondência, inventando engenhosas maneiras de chegar ao leitor. Quase sempre sozinho. Foi romancista, contista, poeta e crítico literário. Publicou numerosos livros, recebeu muitos prêmios, participou de incontáveis coletâneas e aparecia com frequência em suplementos, revistas e jornais. Como ele próprio disse, “menos vivi do que fiei palavras...” (título de um de seus livros mais conhecidos).

Bacharel em Direito, foi funcionário da Câmara Federal, do Supremo Tribunal Federal e da Justiça do Distrito Federal. Nunca quis advogar; creio que não teria paciência para enfrentar juízes, cartórios, oficiais de justiça. Seu mundo era o gabinete de trabalho, escrevendo, corrigindo, revisando, cortando, acrescentando. “Não sou escritor por querer – escreveu ele. – Fui feito assim, desse jeito, como há abestados desse mesmo feitio, músicos, pintores, dançarinos, atores. Deus me quis escritor. Eu bem poderia ter sido apenas um advogado, um funcionário público, um açougueiro.”

Como revelou em muitos episódios, também não tolerava a conversa fiada, o jogar conversa fora, e nessas situações se fechava ou falava de maneira um tanto ríspida ou irônica. “Conversar sobre tempo de menino, de bola e de bila, eu já fiz muito. Quero falar de literatura. Outro assunto não me interessa.” Repetia isso abertamente a todos e o tempo todo, como depôs um amigo, o que lhe valeu antipatias e até inimizades. Recebia livros em quantidade mas, quando os considerava ruins, não os resenhava, alegando “falta de tempo, morte de parente próximo, incêndio em casa, paralisia nas mãos, cegueira momentânea, doença grave” – segundo um biógrafo. Assim evitava futuros ressentimentos.

Vivendo período de apertura financeira, chegou a abrir um bar e restaurante, tal como Monteiro Lobato fizera em Nova York. O resultado foi o mesmo para ambos: experiências mal sucedidas, deixando dívidas e dissabores. Como, aliás, era de se esperar. Não tolerava ser explorado e farejava de longe os que se aproximavam com segundas intenções. Solitário e marginal, também se recusava a participar de farras desbragadas. Dizia, então, que “encontrou Jesus, embora fosse ateu.” E assim se esquivava desses desregramentos.

Em 1976, com alguns amigos, lançou a revista “O Saco”, experiência das mais criativas e que alcançou grande repercussão. O periódico era apresentado envolvido em um saco de papel, o que contribuía para despertar a curiosidade. Creio que fui dos primeiros colaboradores da revista na região sul do país, com a publicação de meu conto “Formiga Correição”, bem apresentado e ilustrado. Mais tarde, em 1991, criou “Literatura: revista do escritor brasileiro”, com o ambicioso propósito de se tornar nacional, o que, acredito, alcançou, publicando autores e angariando leitores de todos os recantos do país. Integrei o Conselho Editorial desde o número inicial, ao lado de Emanuel Medeiros Vieira (catarinense), Dimas Macedo (cearense) e Uílcon Pereira (paulista). A revista tece 35 números publicados. O número 20 foi dedicado a mim, numa homenagem inesquecível, realizada no auditório da Associação Nacional de Escritores (ANE), em Brasília. Fui matéria de capa e foi publicada ampla entrevista minha ao escritor João Carlos Taveira. Em seguida, Nilto Maciel criou a Editora Códice. Embora se declarasse “doente de vlhice”, tão logo retornou a Fortaleza, depois de longos anos em Brasília, inventou o blog “Literatura sem fronteiras”, esmerado e bonito, que também foi bem recebido e publicou trabalhos meus.

Tive a satisfação de receber a visita de Nilto Maciel em minha casa, onde passamos juntos uma tarde inteira às voltas com um só e único assunto: a literatura. Nessa ocasião, em meu escritório, ele foi fotografado com um chapéu de vaqueiro, foto depois estampada em vários livros seus.

Em merecida homenagem ao talentoso e profícuo escritor, Raymundo Netto deu a público o livro “Nilto Maciel” (Edições Demócrito Rocha – Fortaleza – 2017), comovente e verídico retrato desse incansável batalhador de nossas letras. Desse livro me vali em várias passagens deste comentário. O autor merece o aplauso incontido de quantos conheceram o seu biografado.

Nilto Maciel faz muita falta. Oxalá cada Estado contasse com um só igual a ele!

Escrito por Enéas Athanázio, 14/02/2018 às 11h00 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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Nilto Maciel (1945/2014) foi um dos escritores mais dedicados e produtivos que conheci. Ler e escrever foram sempre, desde muito cedo, suas ocupações predominantes, ao passo que abominava as atividades rotineiras e cotidianas. Também não se dava bem com as entidades de escritores, academias literárias e grupos do gênero. Considerava-se um marginal no mundo literário, produzindo, divulgando, mantendo correspondência, inventando engenhosas maneiras de chegar ao leitor. Quase sempre sozinho. Foi romancista, contista, poeta e crítico literário. Publicou numerosos livros, recebeu muitos prêmios, participou de incontáveis coletâneas e aparecia com frequência em suplementos, revistas e jornais. Como ele próprio disse, “menos vivi do que fiei palavras...” (título de um de seus livros mais conhecidos).

Bacharel em Direito, foi funcionário da Câmara Federal, do Supremo Tribunal Federal e da Justiça do Distrito Federal. Nunca quis advogar; creio que não teria paciência para enfrentar juízes, cartórios, oficiais de justiça. Seu mundo era o gabinete de trabalho, escrevendo, corrigindo, revisando, cortando, acrescentando. “Não sou escritor por querer – escreveu ele. – Fui feito assim, desse jeito, como há abestados desse mesmo feitio, músicos, pintores, dançarinos, atores. Deus me quis escritor. Eu bem poderia ter sido apenas um advogado, um funcionário público, um açougueiro.”

Como revelou em muitos episódios, também não tolerava a conversa fiada, o jogar conversa fora, e nessas situações se fechava ou falava de maneira um tanto ríspida ou irônica. “Conversar sobre tempo de menino, de bola e de bila, eu já fiz muito. Quero falar de literatura. Outro assunto não me interessa.” Repetia isso abertamente a todos e o tempo todo, como depôs um amigo, o que lhe valeu antipatias e até inimizades. Recebia livros em quantidade mas, quando os considerava ruins, não os resenhava, alegando “falta de tempo, morte de parente próximo, incêndio em casa, paralisia nas mãos, cegueira momentânea, doença grave” – segundo um biógrafo. Assim evitava futuros ressentimentos.

Vivendo período de apertura financeira, chegou a abrir um bar e restaurante, tal como Monteiro Lobato fizera em Nova York. O resultado foi o mesmo para ambos: experiências mal sucedidas, deixando dívidas e dissabores. Como, aliás, era de se esperar. Não tolerava ser explorado e farejava de longe os que se aproximavam com segundas intenções. Solitário e marginal, também se recusava a participar de farras desbragadas. Dizia, então, que “encontrou Jesus, embora fosse ateu.” E assim se esquivava desses desregramentos.

Em 1976, com alguns amigos, lançou a revista “O Saco”, experiência das mais criativas e que alcançou grande repercussão. O periódico era apresentado envolvido em um saco de papel, o que contribuía para despertar a curiosidade. Creio que fui dos primeiros colaboradores da revista na região sul do país, com a publicação de meu conto “Formiga Correição”, bem apresentado e ilustrado. Mais tarde, em 1991, criou “Literatura: revista do escritor brasileiro”, com o ambicioso propósito de se tornar nacional, o que, acredito, alcançou, publicando autores e angariando leitores de todos os recantos do país. Integrei o Conselho Editorial desde o número inicial, ao lado de Emanuel Medeiros Vieira (catarinense), Dimas Macedo (cearense) e Uílcon Pereira (paulista). A revista tece 35 números publicados. O número 20 foi dedicado a mim, numa homenagem inesquecível, realizada no auditório da Associação Nacional de Escritores (ANE), em Brasília. Fui matéria de capa e foi publicada ampla entrevista minha ao escritor João Carlos Taveira. Em seguida, Nilto Maciel criou a Editora Códice. Embora se declarasse “doente de vlhice”, tão logo retornou a Fortaleza, depois de longos anos em Brasília, inventou o blog “Literatura sem fronteiras”, esmerado e bonito, que também foi bem recebido e publicou trabalhos meus.

Tive a satisfação de receber a visita de Nilto Maciel em minha casa, onde passamos juntos uma tarde inteira às voltas com um só e único assunto: a literatura. Nessa ocasião, em meu escritório, ele foi fotografado com um chapéu de vaqueiro, foto depois estampada em vários livros seus.

Em merecida homenagem ao talentoso e profícuo escritor, Raymundo Netto deu a público o livro “Nilto Maciel” (Edições Demócrito Rocha – Fortaleza – 2017), comovente e verídico retrato desse incansável batalhador de nossas letras. Desse livro me vali em várias passagens deste comentário. O autor merece o aplauso incontido de quantos conheceram o seu biografado.

Nilto Maciel faz muita falta. Oxalá cada Estado contasse com um só igual a ele!

Escrito por Enéas Athanázio, 14/02/2018 às 11h00 | e.atha@terra.com.br



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