Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Lutador solitário

 Em ligeira viagem pelo Estado, chegamos à cidade de Irani, às margens da BR 153 – a Transbrasiliana. Nas cercanias ocorreu o combate que daria início real à Guerra do Contestado que se estenderia até 1916. Ali pereceram, no dia 22 de outubro de 1912, o coronel João Gualberto, comandantes das forças legais, e o monge José Maria, líder dos revoltosos. Fatos que calaram fundo na alma do povo e transformaram a cidade no local onde foi aceso o estopim da mais sangrenta conflagração civil de nossa história. O cemitério e o monumento do Contestado são atrações turísticas muito visitadas.

Percorrendo o centro urbano, limpo e bem cuidado, conversando com um e outro, logo veio à tona o nome do Prof. Vicente Telles, segundo a vox populi a maior autoridade nos assuntos do Contestado. Já o conhecia de nome há muitos anos, tinha notícia de suas atividades e havia lido trabalhos de sua autoria. Reside numa fazenda, herdada dos antepassados, cerca de dois quilômetros além da cidade, e para lá nos dirigimos. Tem uma casa ampla e bonita, construída num pátio elevado e limpo, de onde de avista o imenso vale verdejante que se estende a perder de vista, com os campos manchados de capões e onde farfalham muitos pinheiros e árvores nativas. Ali não se toca em nada, diria o dono, mais tarde.  Como fosse um sábado, tivemos a sorte de encontrá-lo em casa e ele não tardou a aparecer. Homem alto, com os cabelos pelos ombros, simpático e falante, logo entrosamos uma conversa algo desencontrada, como é comum nos primeiros encontros. Ele nos deixou à vontade e logo pudemos avaliar a amplitude de seus conhecimentos sobre o Contestado, seus feitos, causas e conseqüências. Modesto, ele se considera um rábula da história, embora eu prefira dizer que é doutor pela boca do povo, como se considerava o poeta Ascenso Ferreira. Naquele dia, como em todos os sábados, ele faria um programa na rádio local, “A Voz do Contestado”, para o qual me convidou e lá fomos nós, realizando uma entrevista improvisada na qual pude falar um pouco de minha obra.

Vicente Telles é um lutador solitário. Criou e dirige a “Fundação do Contestado”, cuja sede está instalada numa espécie de museu que construiu por sua conta nas proximidades da casa. Bate-se pela implantação do Parque Temático cuja “maquette” nos exibiu, expondo em detalhes o projeto. Esbarra, como sempre acontece, nas teias da burocracia e nos enredos da política, retardando a consecução de uma obra que introduziria a região no mapa turístico e cultural do Estado de forma destacada. Luta também pela preservação da memória da Guerra, desfigurada em tantos pontos, e, acima de tudo, pela afirmação da identidade catarinense e pelos valores espirituais que nortearam a ação dos revoltosos. Apóia e participa do grupo Folclore Itinerante do Contestado, apresentando peças, montagens e performances de grande porte, algumas em praça pública. Musicista e poeta, é autor de vários trabalhos sobre o assunto, alguns dos quais nos ofertou. Sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, foi membro do Conselho Estadual de Cultura.

Como tantos que lutam pela cultura em nosso país, ele trabalha só, enfrentando todas as dificuldades. Mas tem a vontade férrea dos idealistas e nada o fará desistir. Está convencido de que, mais dia menos dia, suas realizações integração Irani e a região entre os mais visitados itinerários de nosso Estado.   

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Outra vez na estrada, pouco adiante de Irani, fazemos uma parada para rever o Monumento do Contestado, erigido em concreto escuro, à margem da BR 1 5 3. São duas imensas mãos que seguram uma cruz em sinal de paz e fé. Está em local estratégico, no pico elevado de um coxilhão, e pode ser visto a grande distância. Tem sido vítima dos vândalos e uma de suas peças foi arrancada e lançada ao chão. Pensei em escrever ao prefeito, mas – que diabo! – eu não sou a palmatória do mundo. Outrem que o faça!

Visitamos, em seguida, o Cemitério do Contestado, na outra margem da rodovia. Tem o portão aberto e contém túmulos muito antigos que guardam os restos mortais de caboclos anônimos que pereceram no primeiro grande embate, aquele que deflagrou a Guerra do Contestado, em 22 de outubro de 1912. Existem também túmulos mais recentes. Está conservado e a grama é baixa, sinal de que é bastante visitado. Como afirmou Vicente Telles, foi a única lembrança que restou daqueles miseráveis que perderam a vida na luta por um pedaço de terras onde plantar para comer. Ao lado, em casarão de madeira imitando rancho caboclo, está o Museu Histórico do Contestado. Como tantos outros pelo país a fora, está fechado.

Dando largas à imaginação, visualizei a luta naquele remoto e trágico dia. À esquerda, descendo pelo coxilhão, avançam os “jagunços” (os “pelados”), maltrapilhos, armados de picapaus, garruchas, lanças e facões feitos de madeira de cerne. À direita, costeando a lagoa, marcham os soldados bem armados (os “peludos”), arrastando a metralhadora – a “matadeira” – que deveria “costurar” os insurgentes. E ali se dá o entrevero, morrendo o coronel João Gualberto, comandante das forças legais, e o monge José Maria, líder dos revoltosos. Gritos, tiros, relinchos, latidos enchem de sons os descampados e ecoam pelas coxilhas, espantando os bichos e os pássaros, viventes pacíficos daqueles ínvios. Mas o engasgo da metralhadora seria fatal para os fardados, impedindo que o coronel desfilasse “com a caboclada xucra amarrada em cordas” pela Rua XV de Novembro, em Curitiba, como vinha proclamando o comandante. Ali, à beira de uma plácida lagoa campeira, ele derramou seu sangue, regando o chão seco dos campos.

A Guerra durou quatro anos, custou a vida de milhares de pessoas e marcou para sempre a sofrida população da região.

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Republico este artigo em homenagem ao Prof. Vicente Telles, falecido no dia 28 de dezembro de 2017, aos 86 anos de idade. Lamentei muito. Perde o nosso Estado um profundo conhecedor da história do Contestado e um divulgador incansável daqueles eventos. Musicista, poeta e historiador.

Escrito por Enéas Athanázio, 22/01/2018 às 15h12 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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