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Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Rum e Lama

Romances de amor nunca saem de moda. Existe considerável quantidade de leitores fiel ao gênero. Romances como “Amor de Salvação” e “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco, fascinam até hoje numerosas pessoas, em que pese sejam muito antigos. Outros tantos exemplos poderiam ser lembrados. Aliás, a palavra romance, num dos seus sentidos lineares, significa história amorosa.

A produção de um romance exige de seu autor muito fôlego e paciência para escrever textos longos, recheados de incidentes e envolvendo muitos personagens. A escritora catarinense Adair Dittrich revela possuir tais qualidades em sua primeira obra romanesca: “Rum na Lama Vermelha”, publicada pela Editora da UNIUV (2017).

Ambientada numa pequena e remota cidade do interior, destituída dos chamados melhoramentos urbanos, com suas ruas poeirentas nos tempos de seca e com lama vermelha nas chuvaradas, a história decorre num meio rude e pobre onde todos se conhecem e a vida de cada um é vigiada por olhos curiosos. Ali acontece a aproximação de uma médica jovem e bonita com um farmacêutico boêmio inveterado, amante dos bares e do cuba-libre. Ela é uma pessoa sensível, dedicada à profissão e preocupada com a precária condição sanitária dos moradores da cidade e dos arredores. Ele é descuidado, acostumado a dormir até tarde e a gastar suas noites bebericando. Dois temperamentos díspares, indicando um relacionamento problemático. Não obstante, se apaixonam e têm momentos de mútua e total entrega.

Os empecilhos à realização desse amor não são poucos. Enfrentam a oposição do outro médico da cidade e, mais ainda, da esposa dele, uma mulher dada à maledicência descontrolada, ou seja, uma “faladeira”. A maledicência não parte apenas dela, mas também de outras pessoas. As insinuações, os risinhos maldosos, os gestos tendenciosos, sem esquecer a maledicência pesada, aquela que parece urdida para provocar tragédias e desgraças. Mas os apaixonados tudo enfrentam e até planejam recomeçar a vida em outra cidade.

O amor, no entanto, nunca se realiza por inteiro e o rapaz acaba perdendo a amada. Cenas de ciúme, sempre provocadas por ele, discussões, desentendimentos, desconfiança. São circunstâncias que se interpõem no caminho e acabam por separar o rapaz e a moça, apesar de várias tentativas frustradas de reatar o relacionamento. O rompimento é doloroso, traumático, uma punhalada no coração. O casal se ama mas não consegue conviver.

Após longa separação, sobrevém o inesperado, a nota trágica que envolve o rapaz e surpreende o leitor. Para completar, há momentos surreais vividos pelo personagem Joel, o rio e suas águas barrentas. Nada falta, enfim, na trama romanesca.

O romance contém muito de memorialismo, refletindo fatos da vida de sua autora, assim como de suas experiências como médica. O relato é feito em segunda pessoa, o que é bastante raro, mas a autora demonstra dominar com segurança as normas da língua. Também chama a atenção o uso da forma indireta ou inversa das frases, colocando o verbo sempre no final. São detalhes de um estilo próprio e pessoal, pois, como dizia Monteiro Lobato, o estilo é como o nariz, cada um tem o seu.

O romance de Adair é bem estruturado, cada episódio está no lugar e no tempo próprio, os personagens são coerentes e bem definidos, e a leitura prende o leitor curioso até a derradeira página.

Escrito por Enéas Athanázio, 15/01/2018 às 09h25 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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