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Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O método de não ter método

O comissário Jules Maigret, integrante da Polícia Judiciária francesa e o mais célebre personagem do escritor belga Georges Simenon (1903/1989) é um investigador diferente e que costuma desvendar seus casos de uma maneira muito particular, o que nunca o impediu de chegar a bom resultado. Homem grande e pesadão, envergando sempre o sobretudo preto com gola de lã e sugando o inseparável cachimbo, ele se mostra apático e indiferente diante do crime, mas, na verdade, está atento a tudo e com a máquina cerebral funcionando a todo vapor. Muitas vezes desconcerta as pessoas quando olha para quem fala com seus imensos olhos, fixando-a de perto e, de repente, “grunhir algo ininteligível e virar as costas com jeito de não considerar o outro grande coisa.” Indagado a respeito de algum aspecto, responde sempre: “Não acho nada! Não deduzo nada!” Quando um membro mais jovem de sua equipe procura imitá-lo, explica como procedeu num caso: “Fiz a investigação às avessas, o que não me impedirá, talvez, de fazer a próxima às direitas. É uma questão de atmosfera. Uma questão de caras. Quando cheguei aqui, dei com uma cara que me seduziu e não a larguei mais.”

Aí o comissário se referia à investigação realizada no romance “O Cachorro Amarelo”, publicado pela Cia. das Letras (S. Paulo – 2014) e cujo resultado foi perfeito. Nele, a cidade praiana de Concarneau, tão antiga que ainda ostenta muralhas medievais cercando um populoso bairro, se vê de repente assolada por uma série inexplicável de crimes violentos e que deixam em pânico a população. Maigret para lá se dirige, instalando-se no Hotel de L’Amiral, cujo bar é o ponto de encontro das pessoas gradas: o prefeito, o médico (que não clinica), o jornalista, o negociante matriculado e outros. E nesse caso, como em nenhum outro de que me lembro, fica mais visível que nunca que o método investigativo do célebre comissário é mesmo a falta de método. No correr da leitura fica a impressão de que ele mais adivinha que descobre, mas, no final, o leitor percebe que todos os detalhes se juntam com exatidão como um quebra-cabeça.

É então que entra em cena um misterioso cão amarelo. Grandalhão, desajeitado, feio, sem raça definida (SRD), ninguém o conhece ou sabe a quem pertence. Silencioso e humilde, o animal costuma entrar no bar e ali se enrodilhar aos pés da garçonete Ema, figurante obscura na história e que nem sequer chega a ser mais ou menos bonita. Há no ar vago comentário de que o cão poderia pertencer a um embarcado. Mas fica nisso e, no entanto, nele está a chave do mistério que envolve a série de crimes que vêm ocorrendo. E através do mísero cão, que acaba baleado e morto, o comissário desvenda a trama antiga de um vultoso contrabando de drogas que fracassou e do qual participaram várias pessoas da cidade, entre elas aquela sobre a qual ninguém lançaria a menor suspeita. Tudo termina bem e sobrevém até um final feliz pouco comum no fecho de suas obras.

Simenon foi um prodígio de produtividade. Em seus 86 anos de vida escreveu assombrosa quantidade de obras sem decair na qualidade. Romances, novelas, contos, crônicas, artigos, reportagens e páginas de memórias, estas últimas pouco valorizadas porque, segundo a crítica, são por demais fantasiosas e fogem à realidade. Seu biógrafo Pierre Assouline registrou 171 obras, maiores ou menores, escritas por ele sob pseudônimos e 232 já como Georges Simenon, dentre as quais cerca de 200 romances, e sem contar várias coletâneas posteriores reunindo textos esparsos. Para compensar, a quantidade de trabalhos sobre sua vida/obra é espantosa, sendo detentor de uma das maiores fortunas críticas entre os autores modernos. Sua ficção tem sido aproveitada pelo cinema e televisão, existindo incontáveis filmes nela inspirados.

“O Cachorro Amarelo”, agora publicado pela Cia. das Letras, merece leitura. Existem alguns defeitos visíveis de tradução, como repetição desnecessária de vocábulos e vários lugares-comuns que, por certo, não devem estar no original e que poderiam ser evitados.

Escrito por Enéas Athanázio, 08/01/2018 às 10h45 | e.atha@terra.com.br

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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 48 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
















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