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Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Zorico contra a Lumber

A formação do chamado Homem do Contestado foi lenta e complexa. Juntaram-se na região os índios, os caboclos autóctones e as levas de gaúchos que se retiraram das revoluções do sul. Gerou-se, em consequência, um habitante com características bem definidas, agarrado ao chão natal, sua geografia, paisagem, flora e fauna típicas da região serrana. Vivendo nos seus ranchos de madeira bruta e cobertos de tabuinhas, explorando a erva-mate, cultivando roças de manutenção e criando seus animais, ali consumia seus dias na paz bucólica daquele sertão. Gerações se sucediam na posse imemorial de terras que nunca precisaram de documentos e que ninguém jamais contestou. Mas o monge João Maria, de longa data, havia profetizado que um monstro de ferro e fogo invadiria o sertão, alterando em tudo o modo de vida daquele povo. Tratava-se do trem-de- ferro, cujos trilhos avançavam sem cessar, trazendo consigo inovações preocupantes. E atrás dele vieram as colonizadoras, em especial a célebre Companhia Lumber, um dos braços do chamado Sindicato Farquhar, que havia recebido uma faixa de quinze quilômetros em cada margem da ferrovia para explorá-la como bem entendesse. Tudo feito nos gabinetes, ignorando a presença dos posseiros, como se estes não existissem. Não tardam a iniciar os despejos sumários e violentos dos posseiros das terras por eles ocupadas dês que o mundo é mundo.

A maioria dos posseiros expulsos reunia o pouco que tinha e se punha nas estradas, mesmo porque contra a força não há resistência. Muitos iriam engrossar a caudal de miseráveis que formariam os redutos que, pouco mais tarde, ingressariam na história da Guerra do Contestado. Alguns poucos, porém, decidiam resistir à sua maneira, mesmo intuindo que se tratava de uma atitude suicida. Foi o caso de Zorico Tamanqueiro, assim conhecido pela rara habilidade com que fabricava tamancos. Inconformado com o despejo, decidiu reagir e realizou uma defesa muito peculiar, aproveitando o conhecimento que tinha da região, suas florestas e seus acidentes.

Tão logo o chefe do grupo de emissários cuspiu no chão e determinou que Zorico desaparecesse antes que seu cuspe secasse, o caboclo pôs em prática sua estratégia e iniciou um combate desesperado e desigual em armas e homens. Traquejado naqueles ínvios, senhor de cada detalhe das redondezas, Zorico se valeu da surpresa e da astúcia e foi eliminando um a um os integrantes do grupo, provocando inclusive a confusão entre eles, o que facilitou sua luta. Para completar, submeteu o chefe a uma humilhação sem precedentes. Naquelas horas de luta Zorico se alçou à condição de um super-herói, embora ciente de que a retaliação viria, violenta e brutal. No entanto, ainda que por pouco tempo, ele pôde saborear o gosto da vitória numa terra de derrotados. “Zorico Tamanqueiro fez seu cavalo empinar, encheu os pulmões com aquele ar que vinha respirando desde criança e soltou um extenso e forte grito de sapucaí que reverberou pelas coxilhas, igual ao grito de guerra de seus antepassados.”

Essa é, em linhas gerais, a trama do romance “Contestado: que o povo fique com a história”, de autoria de Pedro Penteado do Prado (Nova Letra – Blumenau – 2016). Nele, a ficção parece expressar o agudo sentimento de um povo que foi explorado pela ganância sem limites das multinacionais em conluio com vendilhões da pátria.

O volume é recheado de ilustrações, fotografias, mapas e documentos, alguns deles raros e difíceis de encontrar. Reproduz até mesmo as notas de dinheiro utilizadas pela Lumber e que só tinham curso em seus próprios armazéns, prática proibida pela legislação brasileira mas exercida às claras. Lembra ainda que a Lumber tinha suas próprias leis e suas sedes funcionavam como território americano dentro do país, festejando inclusive o 4 de julho, dia da independência dos Estados Unidos.

O sentido do romance é claro: evidencia que nem todos os brasileiros se rendem com facilidade e existem aqueles que resistem, ainda que nas piores circunstâncias.

O autor é professor de Química, integrante da Academia de Letras de Canoinhas e publicou “O Pássaro Abatido” e “Mácula”, além de livros de sua especialidade.

Seu romance é uma boa contribuição para a estante do Contestado e segue rumos inovadores nos trabalhos sobre o tema.

Escrito por Enéas Athanázio, 18/12/2017 às 11h56 | e.atha@terra.com.br

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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 48 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
















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