Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Vaqueiro e poeta

“Crônica Memorista”, de autoria de José Peixoto Júnior (Editora Kelps – Goiânia – 2017) é um livro escrito com o coração. Ele contém as remembranças de um homem vivido, calejado e sofrido, mas nem por isso brigado com a vida. Revela-se uma pessoa sensível, observador arguto e dono de admirável memória. Como dizia Gilberto Amado, soube prestar atenção à vida e rechear o minuto, condições indispensáveis a um bom memorialista.

Nascido nos ínvios da Chapada do Araripe, de origem modesta, com esforço e tenacidade foi galgando os degraus do sucesso. Estudou sem cansaço, muito aprendeu, conquistou posições. Perambulou no exercício de suas atividades por diversas cidades, cada uma delas deixando marcas nas recordações e, ao mesmo tempo, nelas deixando um pouco de si mesmo, como acontece com aqueles que a carreira leva por diferentes lugares.

Para mim, porém, o período mais interessante foi aquele em que Peixoto Júnior foi vaqueiro. Vaqueiro encourado, com peitoral, gibão, perneiras e chapéu de couro, varando a caatinga áspera e espinhenta na busca do gado xucro criado à solta. Essa fase é relatada no delicioso capítulo “Vaqueiro do derradeiro gado solto campeado na Serra Araripe.” Em linguagem típica, por ele ainda retida na memória de maneira admirável, o autor recorda os tempos aventureiros e brabos num meio rude, em contato com a natureza bruta do sertão nordestino. Apesar de tudo, eleva-se do texto uma aura de nostalgia, tanto pela ação em si como pelo tempo vivido e que já vai longe. Tudo se desenha de forma nítida aos olhos do leitor.

Num desses momentos, noite alta e céu límpido, o vaqueiro jovem observa pela primeira vez um eclipse total da lua, fenômeno jamais esquecido. Espera as reses, campeia-as nos seus pastos, as conduz estrovadas, está presente nos coletivos das apartações dos currais, reúne o gado pasteiro. Participa do esporte da vaquejada urbana, ainda recente naqueles dias, impetuoso pela força da idade, não decepciona seus pares. Enverga com orgulho a vestimenta de couro do vaqueiro, “traje romântico, uma armadura de cavaleiro. Dos pés à cabeça protege quem a veste, desde as chinelas de rosto fechado e as perneiras muito justas ao relevo das pernas e das coxas, o guarda-peito colado ao torso, o gibão amplo que mais acentua a esbelteza do homem e por fim o chapéu que é quase a cópia exata do elmo de Mambrino.” E assim entrajado, ele inflete a galope pelo mato a dentro, levando no peito tudo que encontra pela frente, a galharia batendo no peito, nos braços, nas pernas e até no rosto. Defende-se com extrema agilidade e conduz o cavalo com mão firme e segura.

Não raro, os acidentes acontecem.

“Zé nos encontrou caídos – relata ele -, um morto, um arquejando e este seu criado a gemer. Vinte e nove dias de motoro, perna entre duas telhas de barro, amarradas, e muito sumo de mentruz e caldo de pinto pilado com pena e tudo para o osso soldar.”

Os Zés não eram poucos. “Zé-de-Zeca é como me chamam desde eu vaqueiro – explica o memorista. – Somos três primos José e vaqueiros, ao mais velho coube o nome familiar, eu e Zé-de-Luna tomamos o nome paterno para a identificação quando necessário saber quem é quem de nós três.”

Essa vivência de memória saudosa revoluteia na cabeça do antigo vaqueiro e começa a retornar em forma de poemas, contos, novelas. As imagens da Chapada do Araripe, da qual manam as incontáveis fontes que fazem do Cariri um oásis em meio ao deserto, se transmudam em versos, as pessoas se transfundem em personagens, os idos e acontecidos são vertidos em contos, crônicas, novelas. O vaqueiro despiu o gibão, empunhou a pena, deixou de lado a luta com as bestas e travou-a com as palavras. Destacou-se na capital federal, sua obra se impôs, acabou presidente da Associação Nacional de Escritores (ANE).

Agora, neste livro saboroso, conta aos amigos e leitores o que viveu, sentiu e aprendeu. Tudo num estilo viril e movimentado como as lidas do competente vaqueiro que foi.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/12/2017 às 10h59 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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Vaqueiro e poeta

“Crônica Memorista”, de autoria de José Peixoto Júnior (Editora Kelps – Goiânia – 2017) é um livro escrito com o coração. Ele contém as remembranças de um homem vivido, calejado e sofrido, mas nem por isso brigado com a vida. Revela-se uma pessoa sensível, observador arguto e dono de admirável memória. Como dizia Gilberto Amado, soube prestar atenção à vida e rechear o minuto, condições indispensáveis a um bom memorialista.

Nascido nos ínvios da Chapada do Araripe, de origem modesta, com esforço e tenacidade foi galgando os degraus do sucesso. Estudou sem cansaço, muito aprendeu, conquistou posições. Perambulou no exercício de suas atividades por diversas cidades, cada uma delas deixando marcas nas recordações e, ao mesmo tempo, nelas deixando um pouco de si mesmo, como acontece com aqueles que a carreira leva por diferentes lugares.

Para mim, porém, o período mais interessante foi aquele em que Peixoto Júnior foi vaqueiro. Vaqueiro encourado, com peitoral, gibão, perneiras e chapéu de couro, varando a caatinga áspera e espinhenta na busca do gado xucro criado à solta. Essa fase é relatada no delicioso capítulo “Vaqueiro do derradeiro gado solto campeado na Serra Araripe.” Em linguagem típica, por ele ainda retida na memória de maneira admirável, o autor recorda os tempos aventureiros e brabos num meio rude, em contato com a natureza bruta do sertão nordestino. Apesar de tudo, eleva-se do texto uma aura de nostalgia, tanto pela ação em si como pelo tempo vivido e que já vai longe. Tudo se desenha de forma nítida aos olhos do leitor.

Num desses momentos, noite alta e céu límpido, o vaqueiro jovem observa pela primeira vez um eclipse total da lua, fenômeno jamais esquecido. Espera as reses, campeia-as nos seus pastos, as conduz estrovadas, está presente nos coletivos das apartações dos currais, reúne o gado pasteiro. Participa do esporte da vaquejada urbana, ainda recente naqueles dias, impetuoso pela força da idade, não decepciona seus pares. Enverga com orgulho a vestimenta de couro do vaqueiro, “traje romântico, uma armadura de cavaleiro. Dos pés à cabeça protege quem a veste, desde as chinelas de rosto fechado e as perneiras muito justas ao relevo das pernas e das coxas, o guarda-peito colado ao torso, o gibão amplo que mais acentua a esbelteza do homem e por fim o chapéu que é quase a cópia exata do elmo de Mambrino.” E assim entrajado, ele inflete a galope pelo mato a dentro, levando no peito tudo que encontra pela frente, a galharia batendo no peito, nos braços, nas pernas e até no rosto. Defende-se com extrema agilidade e conduz o cavalo com mão firme e segura.

Não raro, os acidentes acontecem.

“Zé nos encontrou caídos – relata ele -, um morto, um arquejando e este seu criado a gemer. Vinte e nove dias de motoro, perna entre duas telhas de barro, amarradas, e muito sumo de mentruz e caldo de pinto pilado com pena e tudo para o osso soldar.”

Os Zés não eram poucos. “Zé-de-Zeca é como me chamam desde eu vaqueiro – explica o memorista. – Somos três primos José e vaqueiros, ao mais velho coube o nome familiar, eu e Zé-de-Luna tomamos o nome paterno para a identificação quando necessário saber quem é quem de nós três.”

Essa vivência de memória saudosa revoluteia na cabeça do antigo vaqueiro e começa a retornar em forma de poemas, contos, novelas. As imagens da Chapada do Araripe, da qual manam as incontáveis fontes que fazem do Cariri um oásis em meio ao deserto, se transmudam em versos, as pessoas se transfundem em personagens, os idos e acontecidos são vertidos em contos, crônicas, novelas. O vaqueiro despiu o gibão, empunhou a pena, deixou de lado a luta com as bestas e travou-a com as palavras. Destacou-se na capital federal, sua obra se impôs, acabou presidente da Associação Nacional de Escritores (ANE).

Agora, neste livro saboroso, conta aos amigos e leitores o que viveu, sentiu e aprendeu. Tudo num estilo viril e movimentado como as lidas do competente vaqueiro que foi.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/12/2017 às 10h59 | e.atha@terra.com.br



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