Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O romance do sofrimento

Rena e Danka Kornreich, moças polonesas e irmãs, viviam numa vila chamada Tylicz, na Polônia. Vida simples, tranquila e honesta. de família judia da classe média. O pai, ortodoxo, usava trancinhas nos cabelos e orientava a família a observar os rituais religiosos. Mas eis que nuvens turvas surgem no horizonte, os nazistas invadem o país e tem início a implacável perseguição aos judeus. Por medida de segurança, as irmãs são enviadas à Eslováquia, cruzando a fronteira de maneira clandestina, na calada da noite, correndo risco de vida caso fossem apanhadas. No país vizinho não acreditavam no que acontecia na Polônia, até que os nazistas lá também chegaram. Como as pessoas que abrigavam judeus eram fuziladas de forma sumária, as duas irmãs decidiram se entregar para salvar os parentes em cuja casa viviam. Imaginavam, na santa ingenuidade, que iriam para um campo de trabalho forçado de onde seriam libertadas mais tarde. Ledo e trágico engano.

Rena tinha 22 anos, Danka um pouco menos.

Conduzidas em um trem destinado ao transporte de gado, foram levadas ao campo de extermínio de Auschwitz, onde funcionavam a pleno vapor as câmaras de gás e as chaminés exalavam dia e noite a fumaça negra e fétida dos crematórios. Faziam parte da primeira leva de moças e mulheres destinadas à execução dentro do plano de “solução final do problema judaico”, arquitetado com técnica e precisão matemáticas. Mas, apesar dos horrores, Rena estava tomada da decisão inabalável de sobreviver e salvar a irmã mais jovem, alimentando o sonho quase impossível de retornarem juntas para casa, um dia. Tem início, então, a luta da inteligência contra a brutalidade.

Observando detalhes, analisando as atitudes dos soldados da SS e das Kapos, obtendo pequenos favores, furtando ínfimas porções de alimentos, negociando a ração diária de pão, ela tentava por todos os meios driblar os perigos e sobreviver. Tiradas das tarimbas em que dormiam às quatro da madrugada, formavam imensas filas para a contagem e depois eram forçadas a trabalhar até o anoitecer nos serviços mais rudes, sem qualquer reclamo, sob pena de açoites, chutes e pancadas. Pisando na neve ou suportando o granizo que caía, penavam com o frio intenso e a fome aguda. Sujas pela falta de água, cheias de sarna, piolhos e percevejos, eram proibidas de usar roupas de baixo. Em conseqiência, o roçar das roupas grosseiras (peças de uniformes de soldados russos fuzilados) feriam os seios, os pescoços e as pernas, transformando-os em verdadeiras chagas. Mas Rena não se rendia e tudo suportava. Cada dia vivido constituía uma vitória. Em momentos de desespero, elevava as mãos aos céus e clamava: Ó Deus, como permitis que isto aconteça?

Sufocando os gritos, as lágrimas e a revolta, assistiram a incontáveis cenas de inaudita brutalidade. Viram moças e mulheres fuziladas ao tentarem se suicidar lançando-se contra as cercas eletrificadas; contemplaram vidas serem tiradas a socos, pontapés, chibatadas e pisoteios; acompanharam as “seleções” para as câmaras de gás e os “experimentos científicos” de Mengele; acompanharam enormes colunas de crianças pequenas conduzidas às câmaras de gás e a chegada de novas levas de mulheres e, mais tarde, de homens cujos destinos estavam traçados. Sob a mira dos fuzis, foram forçadas a enterrar os mortos cujos corpos se deterioravam em toda parte. Enquanto isso, na maior tranquilidade, Irma Geese, brutal soldado da SS, tomava banhos de sol e exigia que Rena esfregasse suas costas bronzeadas com protetor solar, afirmando enfática que os nazistas estavam vencendo a guerra, dominariam o mundo e os poloneses seriam enviados a Madagascar como escravos vitalícios. Ela não contava com a chegada dos soviéticos e a corda com a qual seria enforcada aos 22 anos de idade.

Rena e Danka são transferidas para Birkenau e Neustadt Glewe, esqueléticas, doentes, desdentadas, famintas, mas ainda vivas, como por milagre. Notam que o campo começa a silenciar; muitos soldados fogem. Segue-se a tentativa frenética de esconder os vestígios antes que os soviéticos cheguem. Aviões aliados bombardeiam o campo. O caos se instala e tem início a Marcha da Morte tentando levar os prisioneiros para a Alemanha. Mas é tarde, muito tarde. Entram no campo os soviéticos e depois os britânicos. Rena e Danka são libertadas e ambas iniciam a inacreditável luta para reiniciar a vida.

Muitos anos depois, em depoimento à jornalista americana Heather Dune Macadam, já residindo nos Estados Unidos, Rena relata sua terrível história. O resultado foi o livro “Irmãs em Auschwitz”, publicado no Brasil pela Editora Universo dos Livros (São Paulo – 2015), um verdadeiro romance do sofrimento.

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O celebrado crítico literário Antônio Torres propunha a criação de um Gabinete de Profilaxia e Extinção de Poetas, anexo à Chefia de Polícia e destinado a catrafilar todo indivíduo que, tendo mais de vinte e cinco anos de idade, tivesse o desaforo de fazer um soneto amoroso. Com agências em todos os Estados, a repartição teria tantos funcionários quantos fossem necessários para deitar a mão aos poetas. Como seria impossível prendê-los todos, uma vez que se reproduzem como coelhos, a eliminação de boa parte serviria de bom exemplo para demover os plumitivos a suspenderem a pena e arquivar o estro. A proposição provocou protestos, em prosa e verso, mas o crítico a sustentou por longos anos, como informou mestre Wilson Martins em sua monumental “História da Inteligência Brasileira.”

Nos dias atuais – penso eu – a competência do tal Gabinete deveria ser estendida aos organizadores e participantes das ditas “antologias” que pululam por aí. Juntam-se algumas pessoas, recolhem uns tantos textos mal acabados, muitas vezes sem pé nem cabeça, e lançam um livro que, de livro mesmo, só tem o formato. Depois, em bombásticos lançamentos, são distribuídos ao público incauto. É dose!

Escrito por Enéas Athanázio, 21/11/2017 às 10h48 | e.atha@terra.com.br

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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 48 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
















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