Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

LITERATURA INDÍGENA

A Professora Maria Inês de Almeida publicou em abrangente coletânea de trabalhos a respeito da literatura mineira um ensaio interessante sobre assunto pouco tratado sob o título de “Cantares de Leitura – Apontamentos sobre literatura indígena em Minas Gerais” (*). Especialista no assunto e com larga experiência na área indígena, ela expõe as razões da importância dos livros produzidos por indígenas brasileiros na preservação de sua identidade, da sobrevivência da cultura indígena e da sua condição de índios. O ensaio é redigido em rigorosa linguagem científica e em certas passagens chega a ser tão hermético que fico em dúvida se bem entendi o pensamento da ensaísta.

“Elas (escrita, leitura, traduções) são emblemáticas porque dizem muito sobre o que chamamos de literatura indígena na contemporaneidade” – escreveu a ensaísta. Ela prossegue na exposição, mostrando que os livros saídos das aldeias, em geral através de programas governamentais, contribuem para o bilinguismo e a interculturalidade previstas na Constituição Federal. Além disso, continua a autora, “é um esforço das redes públicas de educação escolar de incorporar ao sistema literário brasileiro uma escrita fora dos padrões tradicionais. Cada processo editorial configura uma cena diferente, em que a paisagem, na perspectiva de cada povo, vai se desvelando aos olhos dos leitores.” São obras criadas por quem é indígena e vê o mundo como tal, ou seja, de dentro para fora, ao contrário do indigenismo literário que vai de fora para dentro. Também é importante o papel pedagógico, mostrando ao leitor a realidade desse mundo.   

A ensaísta anota, em seguida, que o índio sempre esteve presente nas manifestações orais e escritas dos colonizadores em toda a América. No Brasil, ela incursiona pela história e pela literatura para encontrar sempre “o mito do índio” desde o período barroco, passando pelo romântico e até pelo modernismo, destacando-se a obra de Oswald de Andrade. Nesse longo período histórico a língua portuguesa vai absorvendo vocábulos indígenas hoje presentes em grande quantidade no português falado no Brasil. Lembra ainda que o Nheengatu era a língua falada em geral pelos brasileiros do Norte e do litoral sudeste, sendo até hoje falada no Amazonas.

Ciente da importância da literatura indígena na escola e na vida, o índio é insistente “para fazer o nosso livro” – como ressalta a autora do ensaio. “Um livro vivo, porque não rompe com a tradição oral, mas se constitui, em sua textualidade, como performance” – prossegue ela. E para arrematar estas notas, vai mais um trecho à guisa de conclusão: “Todos os livros produzidos coletivamente pelos indígenas, publicados em Minas Gerais, com a assinatura de cada etnia envolvida, são exemplares, paradoxalmente, no sentido da singularidade de cada experiência. Cada projeto gráfico se deu como um roteiro no jogo político. O objetivo dos autores, percebe-se, era retirar do lugar de pobre perdedora a comunidade étnica que pretendiam encenar; era mostrar ao público uma existência além dos valores burgueses.” Falou e disse.

Coroando seu trabalho, a ensaísta relaciona os títulos e os autores de obras indígenas que vieram a público de 1997 a 2020 e assim facilitando o acesso dos interessados. Por fim, alinha extensa bibliografia de especialistas nem sempre conhecidos do grande público por trabalharem em área mais restrita.

Maria Inês de Almeida é professora da UFMG e da UFAC, tendo se dedicado a inúmeras experiências na área indígena. Seu ensaio é um apelo à consciência dos leitores para que sintam o empenho com que os indígenas buscam sua afirmação na sociedade brasileira sem abdicar de sua condição.                                

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                                  (*) “Literatura Mineira: Trezentos Anos”,

                                  Org. Jácintho Lins Brandão, Belo Horizonte,

                                  BDMG CulturaL, 2019, P. 174.

Escrito por Enéas Athanázio, 10/05/2021 às 16h23 | e.atha@terra.com.br

Crônicas Intimistas

A crônica é um gênero literário considerado leve, o que não significa que seja fácil. Nela, o autor tem as antenas ligadas para captar os temos “cronicáveis”, fiapos de vida às vezes mínimos, para transformá-los em belas páginas literárias. Rubem Braga chegou a usar o voo de uma borboletinha amarela, no centro do Rio, para produzir uma de suas mais belas crônicas.

Raquel Naveira, escritora prolífera e atuante nos periódicos destinados às letras, em seu livro “Leque Aberto” (Editora Penalux – S. Paulo – 2020) buscou caminhos diferentes e criativos nas crônicas que reuniu no volume. Tomando como ponto de partida velho leque encontrado nos guardados da mãe, distribuiu os textos em capítulos que melhor representam seu conteúdo: abre-se o leque, as hastes do leque, a renda do leque, os adornos do leque, fecha-se o leque, o mofo do leque e epílogo. Nas crônicas ela aborda os mais variados temas, inclusive filosóficos, psicológicos, históricos e outros, revelando-se sempre uma escritora erudita e bem informada nos mais diversos campos do conhecimento. Confesso que li o livro de ponta a ponta, contrariando a regra que aprendi de que a crônica deve ser lida uma a uma para bem saborear e reter seu conteúdo.

Chamou minha atenção em particular, neste livro, o caráter intimista de muitas crônicas, escritas com franqueza e sinceridade, como se a autora desejasse fazer confissões íntimas, revelar o que vai no fundo de sua alma, talvez procurando livrar-se de pensamentos pesados à maneira de quem se submete à psicanálise e, deitada no divã, coloca-os para fora. Por outro lado, é constante a busca do autoconhecimento.

No correr da leitura começam a despontar os agrados e desagrados da cronista. A vaidade avulta entre estas. “Vaidade de vaidades! É tudo vaidade! – escreveu o rei Salomão, por ela lembrado. E prossegue: “Confessemos o quanto somos vaidosos. O nosso cuidado exagerado com a aparência. O desejo de atrair admiração e elogios. A necessidade de ter a própria existência reconhecida.” Por desagradável que seja, a vaidade está em toda parte e os que “se acham e têm certeza” são cada vez mais numerosos.

Em outra passagem a autora confessa que é tomada do mesmo ímpeto deambulatório de Lima Barreto que palmilhava sem cansaço as ruas cariocas. Andar é um de seus prazeres. “Sou da estirpe dos andarilhos, – escreveu ela -  dos peregrinos, dos forasteiros. Ando bem e rapidamente pelas vias do tempo. Sinto-me sempre estrangeira. Não caibo aqui, mesmo sendo minha terra, mesmo sendo meu destino. E avanço, adianto-me com o peito para a frente, navego estendendo velas brancas. Não posso parar. Parar não paro.” Faz-me lembrar de Neruda, que sonhava em percorrer todas as estradas do mundo.

Mais adiante ela confessa que se fosse flor seria uma margarida. Depois navega com a margarida nas lembranças de criança, nas lendas, nos fatos da vida, nas línguas, nas artes. A beleza da flor e seu significado. E conclui: “Beleza e bondade encantam e mudam as circunstâncias difíceis (ainda acredito nisso).”   

Considerando a avassaladora presença do mal e a brutalidade reinante nos dias de hoje a autora escreve uma página dura mas realista. “Estamos leprosos, cheios de feridas emocionais que nos isolam do convívio com nossos semelhantes. A lepra penetra as raízes nervosas e faz com que não tenhamos mais sensibilidade. Estamos cativos de nossos erros imundos, negando a verdade. Não sentimos mais a presença do divino em nós e no outro. É preciso clamar para que as cascas sejam retiradas e voltemos a ter compaixão. Livremo-nos desse mal bruto, que nos cega e nos dá aspecto de leões. Que caiam as escamas e cogumelos de nossos olhos. Que possamos ver.”

Para não me estender além do razoável, registro alguns pensamentos esparsos da cronista. “O teatro e a peste são benfazejos porque fazem cair as máscaras e põem a descoberto o quanto somos pobres, miseráveis e nus” (p. 106).  “E eu me encontrei com Ricardo Reis, no Rio de Janeiro, certa vez. Assim, este ensaio é um delírio, um labirinto, um novelo, uma teia” (p. 148) “Às vezes, como Clícia, penso que carrego um fardo enorme. Meu corpo se curva e retorce como um girassol amargurado. De repente, quando vejo o sol lá no alto, abro-me em pétalas, ergo a face cansada  e me entrego como oferta viva, pura, alma sedenta de luz” (p. 151) “Essas figuras preocupadas com a pouca comida são a representação da fome. Nos lugares com fome de ética, o povo padece fome” (p. 154) “Sentimo-nos sensíveis às mais diversas causas, choramos, empunhamos bandeiras, enquanto milhares de seres humanos morrem de forme ao nosso lado e não vertemos sequer uma lágrima por eles” (p. 156). “Não creio em felicidade. Tenho alegria, força, bom ânimo e escrevo” (p. 194) “Peço a vocês, meus queridos, que não me cremem. Que não destruam esse corpo que os amou, que gerou filhos e poemas, que se quebrou como vaso de barro em vários pontos. Cubram-me com um vestido de mangas longas e pintem meus lábios” (p. 200) “Somos sobreviventes quando continuamos vivos, depois de uma situação desastrosa” (p. 213).

Não quero encerrar sem uma palavra sobre o poema “Jardim Fechado”, uma beleza envolta em suave sensualidade onde tudo é dito sem usar as palavras para dizê-lo. Seriam desnecessárias (pp. 186/188).

Comentar o livro de Raquel Naveira é um desafio. Cada viés dele justificaria uma análise. Respingo aqui estas mal traçadas para que sobre ele não reine o silêncio neste cantão de praia.

Deixo no ar uma pergunta: a cronista é pessimista ou realista? Com a palavra o leitor.

E assim se fecha o leque.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/05/2021 às 18h21 | e.atha@terra.com.br

MENDIGOS CANINOS

Um leitor atento andou procurando os cachorros que aparecem nos meus contos e crônicas. Encontrou com facilidade os três mais notórios: Joli, Jasper e Pulga, cada qual no seu ambiente, mas todos sem raça definida (SRD) ou, como dizemos, guapecas, além de alguns anônimos.

Meu amigo Trajano Pereira da Silva, incansável leitor, recordou em mensagem os numerosos cachorros que vivem nas páginas dos livros e se tornaram figuras destacadas na literatura. Quem não se recorda, - indagou ele, - de Baleia, a cadelinha que acompanha os retirantes no romance “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, ou de Quincas Borba, do romance do mesmo nome, de Machado de Assis, que se tornou amigo íntimo de Rubião, seu dono, e que o escritor descreveu com tanta ternura?  Ou, ainda, do Cunegundes, que Monteiro Lobato colocou no conto “Um suplício moderno” e numa das cartas de “A Barca de Gleyre”?  Mais interessante é que todos esses guapecas ganharam o mundo, uma vez que os livros onde aparecem foram traduzidos para diversas línguas. Ficaram eternizados.

Dentre todos, no entanto, o único que existiu na realidade foi Cunegundes. Tratava-se de um cão de rua que perambulava pelo centro de São Paulo, no início do século passado, e que merecia as simpatias do chamado Cenáculo, o grupo a que pertencia Monteiro Lobato. Magruço, com os fios das costelas à mostra, sarnento e sujo, tinha vagos traços de policial alemão e vivia da caridade alheia, sempre arredio e temeroso dos maus tratos. Era um mendigo canino. Dali Lobato o pinçou e lhe deu destaque nos seus escritos, embora não fosse o único. É que o pobre Cunegundes mereceu páginas carinhosas de outros escritores

Cícero Marques, escritor que se relacionava com o pessoal do Cenáculo, embora a ele não pertencesse, escreveu admirável crônica sobre o Cunegundes, começando por descrevê-lo no aspecto físico. Ele retrata o cachorro “roendo uns ossos de coxa de galinha, quando não mastigando, voraz, uns restos de croquetes que mãos piedosas atiravam ao chão, para matar-lhe a fome canina. E estas refeições fazia-as, amedrontado, rabo encolhido entre as pernas, com um olho no padre e outro na missa, isto é, voltado para as amplas portas abertas a-fim-de, ao primeiro contato com o pé do garçom Felício, ou a ponteira da bengala de um cliente, pôr-se ao fresco, sem maiores contratempos.” Creio que isso acontecia no Café Guarany, onde o grupo tinha mesa cativa.

“Outras vezes – continua o cronista – a um insignificante estalar de dedos, ou a carícia duvidosa de um guarda-chuva passando-lhe no dorso esquálido, exagerava a alegria, e se permitia a uns tênues ganidos para demonstrar o seu contentamento.” O mísero animal retribuía o menor carinho. Entretanto, pondera o autor, ninguém jamais se lembrou de levá-lo para casa, dando-lhe um teto no fundo do quintal, onde ficasse ao abrigo do sol causticante, das chuvaradas gélidas e do frio dos invernos. E, mais importante ainda, sem padecer os rigores da fome crônica. É verdade que, sendo Cunegundes um libertário andarilho, talvez recusasse tais mordomias, preferindo as incertezas da rua à segurança sem liberdade.

Mas vai que um dia – arremata o cronista – Cungeundes, distraído, namorava uma Luluzinha que o fitava por trás de um portão gradeado. Aproxima-se dele, com um laço na mão, o homem da carrocinha, implacável perseguidor de cães sem dono. O pobre animal sente no pescoço a dureza da corda, esperneia, grita, uiva, resiste, mas tudo em vão. É jogado na carrocinha e conduzido ao local tenebroso em que será transformado em sabão. Por ironia do destino, seu corpo sempre imundo virou sabão destinado a “limpar a roupa suja de muita gente.” E conclui o cronista: “Afinal de contas, Cunegundes, tu tens na tua raça cachorros que são bons, outros que são cachorros pra cachorro, tal qual no gênero humano onde existem indivíduos que têm ações cachorras para os seus semelhantes.”

O fim trágico de Cunegundes foi reconstituído de maneira fictícia numa série de fotos de Armando Barreto e que mereceu o Prêmio Nikon Internacional. Na sequência fotográfica, um garoto consternado e em lágrimas observa impotente a prisão do animal e imagina seu doloroso fim.

Escrito por Enéas Athanázio, 26/04/2021 às 19h35 | e.atha@terra.com.br

A CIDADE DESABAFA

Escrever o romance de uma cidade através de entrevistas, se não é inédito é, pelo menos, incomum. Procurar pessoas dos mais diversos ofícios, costumes e formação e delas arrancar, sem qualquer forma de censura, o que pensam de bem ou de mal e tudo quanto lembram do passado, recente ou remoto, de uma cidade, eis uma tarefa que me parece das mais complicadas. É preciso vencer a resistência de algumas e superar o receio que outras tenham de se manifestar sem o temor de represálias ou ressentimentos. Mas foi isso que fez Franklin Jorge, jornalista experiente, através de 50 entrevistas com as mais diversas personalidades de Natal (RN), num verdadeiro balanço da vida da cidade no correr do século passado. Com toda propriedade, foi assim que ele escreveu o romance de uma cidade, como diz o subtítulo de seu livro “O Spleen de Natal” (Editora da UFRN – Natal – 2001). E, se isso não bastasse, fez uma história com gente, algo vivo e palpitante, revelando a alma e o sentimento urbano, não se limitando aos elogios bairristas mas, ao contrário, destacando o negativo, quando merecido.

É curioso notar que as entrevistas não têm títulos e nem tampouco as costumeiras perguntas e respostas. As palavras do entrevistador e do entrevistado se misturam sem que surja qualquer confusão, uma vez que o leitor percebe com perfeição quando fala este ou aquele. Daí resultam textos que se assemelham a crônicas, cada uma delas compondo um capítulo desse curioso romance de uma cidade conhecida como a terra do sol e por sua paisagem natural e urbana.

Para bem captar a atmosfera da cidade, seu espírito e seu humor, o autor entrevistou todo tipo de gente. Poetas, escritores, jornalistas, cantores populares, atores, músicos, artistas plásticos, figuras pitorescas, visitantes, profissionais, funcionários, gente simples do povo, pescadores, favelados, líderes comunitários, agitadores, idosos e jovens. E de cada um foi extraindo com habilidade as informações desejadas e, mais que isso, as opiniões a respeito da vida urbana, sua história, sua cultura, as personalidades destacadas e tudo o mais. É frequente a queixa contra o desinteresse e a ausência de apoio do poder público às coisas da cultura, males que parecem nacionais, uma vez que a quase totalidade dos políticos ainda julga a cultura uma espécie dispensável de perfumaria. Por outro lado, há quem lamente a apatia dos jovens e sua incapacidade de indignação. E quando isso acontece, “as coisas estão pretas.” Também há quem lamente as costumeiras “panelas” que surgem em defesa de interesses mútuos, nem sempre legítimos, como existem em toda parte. Surge mesmo quem não goste do passado porque “o passado transforma as coisas e faz os mortos melhores do que foram em vida. O passado é falsário por natureza...” (p. 75).

Uma presença perpassa o livro do começo ao fim, revelando a força de sua personalidade e a influência que exerceu. Trata-se de Luís da Câmara Cascudo (1898/1986), folclorista e historiador da cidade. Aparece como o jovem “dândi”, filho-de-papai, deitado numa rede e acocado pelas mulheres da casa, assim como em tantas outras fases da vida. O pesquisador, o escritor, o professor, o orador, o mestre. Sua reconhecida bondade, a discrição permanente, o interesse pela cultura popular, a repercussão nacional de sua obra, o amor à cidade da qual nunca quis sair e a imensa roda de amigos que invadiam seu chalé e que ele, com a maior franqueza, mandava baixar em outro terreiro quando se excediam nas visitas. Cascudo que foi vítima permanente dos invejosos, sempre tentando diminuí-lo, desprezado pela gente bem porque se dedicava às coisas do povo humilde, frequentando bibocas do porto e da praia.   Com quem tive a sorte de passar toda uma tarde, numa descontraída conversa, em 1983, três anos antes de seu falecimento.

Alheio e acima dessas miudezas, ele trabalhou e trabalhou, tornando-se o maior e mais festejado folclorista nacional. E com seu reconhecido bom humor, saboreando o inseparável charuto, dizia que parente é amigo por obrigação, enquanto amigo é parente por vocação.

Escrito por Enéas Athanázio, 19/04/2021 às 15h17 | e.atha@terra.com.br

A ANGÚSTIA DO POETA

É uma observação antiga a de que nós, latino-americanos, pouco nos conhecemos e temos as costas voltadas uns para os outros. Fenômeno semelhante ocorre na literatura. Excetuados os mais notórios, como Jorge Luis Borges, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Pablo Neruda e mais um punhado de escritores famosos, pouco conhecemos de outros autores e lemos suas obras. Por isso mesmo, foi uma agradável e aliciante surpresa a leitura de “O Caso Neruda”, de autoria do escritor chileno Roberto Ampuero, publicado pelo Benvirá (S. Paulo – 2011), que eu só conhecia de nome e de maneira muito vaga. Nascido em 1953, Ampuero é professor de redação e escrita criativa da Universidade de Iowa, tendo se radicado nos Estados Unidos, como exilado, para fugir das perseguições da ditadura de Augusto Pinochet. Segundo a crítica, é um dos mais festejados escritores das novas gerações chilenas e suas obras têm alcançado grande sucesso, embora raros sejam os comentários sobre elas na imprensa brasileira.

O livro é um romance policial, embora fugindo um pouco do gênero porque tem muito de biográfico e um fundo histórico. Já doente, o poeta Pablo Neruda se convence de que o jovem Cayetano Brulé poderia se transformar num detetive e investigar para ele uma questão cuja resposta procurava e que muito o angustiava. Licenciado do cargo de embaixador do Chile na França, o poeta se encontrava em sua casa de Valparaíso, – La Sebastiana, - onde convence o rapaz a realizar a busca, sugerindo-lhe a leitura das obras de Georges Simenon para aprender a ser detetive. Embora surpreso, o detetive improvisado aceita a incumbência e se lança numa busca frenética, correndo sem cansaço para obter a resposta enquanto o poeta ainda vivia. No desenrolar do relato vai aparecendo muito da tumultuada vida do poeta, desde a juventude, enquanto o enredo tem como pano de fundo o Chile de Salvador Allende, pouco antes do golpe militar que já se anunciava no horizonte. Começa, então, a corrida contra o tempo e a distância.

A missão do improvisado investigador consistia em encontrar um médico de sobrenome Bracamante, envolvido em pesquisas sobre ervas curativas, cuja esposa, Beatriz, era a única pessoa no mundo que poderia responder à angustiante indagação do poeta doente. E assim, confiando em frágeis indícios, apalpando, ouvindo e procurando, Brulé sai em busca da misteriosa mulher que, por mal da sorte, estava sempre trocando de nome e de país. No apagado rastro dela vai a Cuba, ao México, à Alemanha Oriental e à Bolívia até que, mais adivinhando que descobrindo (tal como Maigret), acaba por localizá-la em Santiago e, por vias curvas, obtém dela a confissão tão procurada. Mas era tarde. Nesse meio tempo se havia desencadeado o processo golpista e Allende foi morto, o que contribuiu de forma decisiva para apressar o falecimento de Neruda, chocado com tudo que acontecia no país. O Autor relata, com base em fatos reais, o impressionante sepultamento do poeta, com a multidão desafiando os golpistas e gritando seu nome, mesmo cercada pelas tropas, como se o poeta pudesse levantar do caixão e colocar em risco o regime implantado. As peripécias vividas pelo detetive para tentar chegar até o poeta numa cidade policiada ao extremo e com os atos de violência se repetindo em toda parte são impressionantes. As casas do poeta, tanto em Valparaíso como em Santiago e na Isla Negra foram invadidas e rebuscadas, provocando grandes danos às suas célebres coleções.

Mas tudo passa, os anos correm. Embora sofrido, mais maduro e experiente, Cayetano Brulé se transforma em famoso investigador. Nunca esqueceu, porém, de que fora uma criação de Neruda, por ele inventado como seus poemas e personagens. Cultivou para sempre a memória do poeta, Nobel de Literatura, e protagonizou outros romances do Autor, sempre com grande sucesso de crítica e de público.

Escrito por Enéas Athanázio, 12/04/2021 às 18h33 | e.atha@terra.com.br

A BUSCA DA IMORTALIDADE

Com as exceções de praxe, as pessoas em geral não desejam morrer e, quando isso acontece, mesmo porque é inevitável, não querem ser esquecidas. Como a morte esconde um mistério insondável, as religiões prometem a vida eterna, após o desenlace, pregando a crença na imortalidade da alma. O ser humano é dúplice, composto de corpo e alma, segundo os que têm fé. Enquanto o corpo acaba, vira pó, a alma galga outros mundos, escondidos sob o véu do mistério. Por via das dúvidas, o ser humano busca outras formas através das quais espera alcançar a imortalidade. Por duvidosas que sejam, não são poucos os que acreditam piamente nisso.

Entre tais meios estão a realização de grandes obras que marquem a passagem terrena da pessoa, como a publicação de livros, a produção de obras de arte, as conquistas científicas, e o ingresso nas agremiações e academias. No que concerne aos escritores, persiste a crença de que o autor desaparece mas a obra fica, embora essa permanência quase sempre seja efêmera. Poucas produções literárias perduram por longo tempo, como acontece com as de Platão, Aristóteles, Goethe, Balzac, Cervantes e outros tantos. A maioria das obras morre com o autor, quando não desaparece antes dele. Tenho conhecido muitos autores de obras mortas. Seja como for, no entanto, a ilusão de perenidade mantém o escritor na labuta, entregue ao mais solitário dos ofícios, esperançoso de que suas palavras cheguem ao futuro.

Outros buscam a imortalidade nas academias. Lutam com todas as forças para obter uma vaga, uma vez que a proposta dessas entidades é a de manter viva a memória de seus integrantes, o que nem sempre acontece. Aqui no Brasil o sonho de muitos é entrar na Academia Brasileira de Letras (ABL), pretensão difícil ao extremo. Há quem batalhe por anos e anos por uma vaga. Outros, no entanto, não se interessam. Escritores de grande renome, cujas obras exerceram notável influência, não foram acadêmicos: Érico Veríssimo, Gilberto Freyre, Mário de Andrade, Lima Barreto, Câmara Cascudo, Monteiro Lobato, Sílvio Meira, Joaquim Inojosa. Muitos políticos, por outro lado, usaram a força do cargo para abrir as portas da ABL: Getúlio Vargas, Lauro Muller, Fernando Henrique Cardoso e até ministros da ditadura. Tornaram-se corpos estranhos dentro da Instituição. Diante da dificuldade, muitos se contentam com a imortalidade estadual e até mesmo municipal. Quem não tem cão, caça com gato.

Meu saudoso amigo Nilto Maciel, escritor prolífico e talentoso, costumava dizer que o ingresso nas academias é a imortalidade inventada. Desde cedo – dizia ele – se convenceu de que não tinha alma, sendo, portanto, um mortal comum, e assim só lhe restava escrever e escrever para permanecer na lembrança das pessoas. Sua constante atividade despertou a atenção de alguns acadêmicos e estes decidiram levá-lo para o seu meio. “Pois eis que no meio do caminho desta vida – escreveu ele – me apareceu um desses seres eternos. Chamava-se Almeida Fischer, que queria ser mais imortal do que era, pois pertencia à Academia Brasiliense de Letras. Não se apresentou em corpo e alma, para não se fazer tão objetivo; mandou um seu colega me fazer comunicado quase letal: Eu fora escolhido para constituir a nova casa federal de letras, a Academia de Letras do Brasil. Tomei um susto, mas não morri. Ora, eu não queria vestir fardão. Muito menos farda. . .” Dias depois recebeu a visita do próprio acadêmico e “disse duas ou três frases indecorosas”, alegando que não se sentia acadêmico, considerava-se em fase de crescimento e despreparado para a vida acadêmica e, acima de tudo, não via necessidade da criação de mais uma academia. “Ele parecia não acreditar no que ouvia – disse Nilto. – Talvez eu estivesse brincando. Ou delirando. Você bebeu muito ontem? Certamente me acometia um surto de loucura. Ora, quem não quer ser imortal, quem não se sente excepcionalmente envaidecido e comovido de ser convidado a ingressar no círculo restrito dos olimpianos?” Espantado, incrédulo, olhos esbugalhados, o acadêmico parecia estatelado na cadeira. Onde já se viu alguém recusar semelhante convite? Como esse energúmeno se atreve a tanto?

Para melhor esclarecer as coisas, Nilto prometeu enviar uma carta detalhando seus motivos. Mas a carta chegou tarde demais. “Dias depois eu soube da tragédia: O homem se tinha morrido. Ou tinha deixado de ser vivo. Eu continuei mortal. . .” – concluiu Nilto Maciel.

Escrito por Enéas Athanázio, 06/04/2021 às 14h07 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 59 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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Literatura
Por Enéas Athanázio

LITERATURA INDÍGENA

A Professora Maria Inês de Almeida publicou em abrangente coletânea de trabalhos a respeito da literatura mineira um ensaio interessante sobre assunto pouco tratado sob o título de “Cantares de Leitura – Apontamentos sobre literatura indígena em Minas Gerais” (*). Especialista no assunto e com larga experiência na área indígena, ela expõe as razões da importância dos livros produzidos por indígenas brasileiros na preservação de sua identidade, da sobrevivência da cultura indígena e da sua condição de índios. O ensaio é redigido em rigorosa linguagem científica e em certas passagens chega a ser tão hermético que fico em dúvida se bem entendi o pensamento da ensaísta.

“Elas (escrita, leitura, traduções) são emblemáticas porque dizem muito sobre o que chamamos de literatura indígena na contemporaneidade” – escreveu a ensaísta. Ela prossegue na exposição, mostrando que os livros saídos das aldeias, em geral através de programas governamentais, contribuem para o bilinguismo e a interculturalidade previstas na Constituição Federal. Além disso, continua a autora, “é um esforço das redes públicas de educação escolar de incorporar ao sistema literário brasileiro uma escrita fora dos padrões tradicionais. Cada processo editorial configura uma cena diferente, em que a paisagem, na perspectiva de cada povo, vai se desvelando aos olhos dos leitores.” São obras criadas por quem é indígena e vê o mundo como tal, ou seja, de dentro para fora, ao contrário do indigenismo literário que vai de fora para dentro. Também é importante o papel pedagógico, mostrando ao leitor a realidade desse mundo.   

A ensaísta anota, em seguida, que o índio sempre esteve presente nas manifestações orais e escritas dos colonizadores em toda a América. No Brasil, ela incursiona pela história e pela literatura para encontrar sempre “o mito do índio” desde o período barroco, passando pelo romântico e até pelo modernismo, destacando-se a obra de Oswald de Andrade. Nesse longo período histórico a língua portuguesa vai absorvendo vocábulos indígenas hoje presentes em grande quantidade no português falado no Brasil. Lembra ainda que o Nheengatu era a língua falada em geral pelos brasileiros do Norte e do litoral sudeste, sendo até hoje falada no Amazonas.

Ciente da importância da literatura indígena na escola e na vida, o índio é insistente “para fazer o nosso livro” – como ressalta a autora do ensaio. “Um livro vivo, porque não rompe com a tradição oral, mas se constitui, em sua textualidade, como performance” – prossegue ela. E para arrematar estas notas, vai mais um trecho à guisa de conclusão: “Todos os livros produzidos coletivamente pelos indígenas, publicados em Minas Gerais, com a assinatura de cada etnia envolvida, são exemplares, paradoxalmente, no sentido da singularidade de cada experiência. Cada projeto gráfico se deu como um roteiro no jogo político. O objetivo dos autores, percebe-se, era retirar do lugar de pobre perdedora a comunidade étnica que pretendiam encenar; era mostrar ao público uma existência além dos valores burgueses.” Falou e disse.

Coroando seu trabalho, a ensaísta relaciona os títulos e os autores de obras indígenas que vieram a público de 1997 a 2020 e assim facilitando o acesso dos interessados. Por fim, alinha extensa bibliografia de especialistas nem sempre conhecidos do grande público por trabalharem em área mais restrita.

Maria Inês de Almeida é professora da UFMG e da UFAC, tendo se dedicado a inúmeras experiências na área indígena. Seu ensaio é um apelo à consciência dos leitores para que sintam o empenho com que os indígenas buscam sua afirmação na sociedade brasileira sem abdicar de sua condição.                                

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                                  (*) “Literatura Mineira: Trezentos Anos”,

                                  Org. Jácintho Lins Brandão, Belo Horizonte,

                                  BDMG CulturaL, 2019, P. 174.

Escrito por Enéas Athanázio, 10/05/2021 às 16h23 | e.atha@terra.com.br

Crônicas Intimistas

A crônica é um gênero literário considerado leve, o que não significa que seja fácil. Nela, o autor tem as antenas ligadas para captar os temos “cronicáveis”, fiapos de vida às vezes mínimos, para transformá-los em belas páginas literárias. Rubem Braga chegou a usar o voo de uma borboletinha amarela, no centro do Rio, para produzir uma de suas mais belas crônicas.

Raquel Naveira, escritora prolífera e atuante nos periódicos destinados às letras, em seu livro “Leque Aberto” (Editora Penalux – S. Paulo – 2020) buscou caminhos diferentes e criativos nas crônicas que reuniu no volume. Tomando como ponto de partida velho leque encontrado nos guardados da mãe, distribuiu os textos em capítulos que melhor representam seu conteúdo: abre-se o leque, as hastes do leque, a renda do leque, os adornos do leque, fecha-se o leque, o mofo do leque e epílogo. Nas crônicas ela aborda os mais variados temas, inclusive filosóficos, psicológicos, históricos e outros, revelando-se sempre uma escritora erudita e bem informada nos mais diversos campos do conhecimento. Confesso que li o livro de ponta a ponta, contrariando a regra que aprendi de que a crônica deve ser lida uma a uma para bem saborear e reter seu conteúdo.

Chamou minha atenção em particular, neste livro, o caráter intimista de muitas crônicas, escritas com franqueza e sinceridade, como se a autora desejasse fazer confissões íntimas, revelar o que vai no fundo de sua alma, talvez procurando livrar-se de pensamentos pesados à maneira de quem se submete à psicanálise e, deitada no divã, coloca-os para fora. Por outro lado, é constante a busca do autoconhecimento.

No correr da leitura começam a despontar os agrados e desagrados da cronista. A vaidade avulta entre estas. “Vaidade de vaidades! É tudo vaidade! – escreveu o rei Salomão, por ela lembrado. E prossegue: “Confessemos o quanto somos vaidosos. O nosso cuidado exagerado com a aparência. O desejo de atrair admiração e elogios. A necessidade de ter a própria existência reconhecida.” Por desagradável que seja, a vaidade está em toda parte e os que “se acham e têm certeza” são cada vez mais numerosos.

Em outra passagem a autora confessa que é tomada do mesmo ímpeto deambulatório de Lima Barreto que palmilhava sem cansaço as ruas cariocas. Andar é um de seus prazeres. “Sou da estirpe dos andarilhos, – escreveu ela -  dos peregrinos, dos forasteiros. Ando bem e rapidamente pelas vias do tempo. Sinto-me sempre estrangeira. Não caibo aqui, mesmo sendo minha terra, mesmo sendo meu destino. E avanço, adianto-me com o peito para a frente, navego estendendo velas brancas. Não posso parar. Parar não paro.” Faz-me lembrar de Neruda, que sonhava em percorrer todas as estradas do mundo.

Mais adiante ela confessa que se fosse flor seria uma margarida. Depois navega com a margarida nas lembranças de criança, nas lendas, nos fatos da vida, nas línguas, nas artes. A beleza da flor e seu significado. E conclui: “Beleza e bondade encantam e mudam as circunstâncias difíceis (ainda acredito nisso).”   

Considerando a avassaladora presença do mal e a brutalidade reinante nos dias de hoje a autora escreve uma página dura mas realista. “Estamos leprosos, cheios de feridas emocionais que nos isolam do convívio com nossos semelhantes. A lepra penetra as raízes nervosas e faz com que não tenhamos mais sensibilidade. Estamos cativos de nossos erros imundos, negando a verdade. Não sentimos mais a presença do divino em nós e no outro. É preciso clamar para que as cascas sejam retiradas e voltemos a ter compaixão. Livremo-nos desse mal bruto, que nos cega e nos dá aspecto de leões. Que caiam as escamas e cogumelos de nossos olhos. Que possamos ver.”

Para não me estender além do razoável, registro alguns pensamentos esparsos da cronista. “O teatro e a peste são benfazejos porque fazem cair as máscaras e põem a descoberto o quanto somos pobres, miseráveis e nus” (p. 106).  “E eu me encontrei com Ricardo Reis, no Rio de Janeiro, certa vez. Assim, este ensaio é um delírio, um labirinto, um novelo, uma teia” (p. 148) “Às vezes, como Clícia, penso que carrego um fardo enorme. Meu corpo se curva e retorce como um girassol amargurado. De repente, quando vejo o sol lá no alto, abro-me em pétalas, ergo a face cansada  e me entrego como oferta viva, pura, alma sedenta de luz” (p. 151) “Essas figuras preocupadas com a pouca comida são a representação da fome. Nos lugares com fome de ética, o povo padece fome” (p. 154) “Sentimo-nos sensíveis às mais diversas causas, choramos, empunhamos bandeiras, enquanto milhares de seres humanos morrem de forme ao nosso lado e não vertemos sequer uma lágrima por eles” (p. 156). “Não creio em felicidade. Tenho alegria, força, bom ânimo e escrevo” (p. 194) “Peço a vocês, meus queridos, que não me cremem. Que não destruam esse corpo que os amou, que gerou filhos e poemas, que se quebrou como vaso de barro em vários pontos. Cubram-me com um vestido de mangas longas e pintem meus lábios” (p. 200) “Somos sobreviventes quando continuamos vivos, depois de uma situação desastrosa” (p. 213).

Não quero encerrar sem uma palavra sobre o poema “Jardim Fechado”, uma beleza envolta em suave sensualidade onde tudo é dito sem usar as palavras para dizê-lo. Seriam desnecessárias (pp. 186/188).

Comentar o livro de Raquel Naveira é um desafio. Cada viés dele justificaria uma análise. Respingo aqui estas mal traçadas para que sobre ele não reine o silêncio neste cantão de praia.

Deixo no ar uma pergunta: a cronista é pessimista ou realista? Com a palavra o leitor.

E assim se fecha o leque.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/05/2021 às 18h21 | e.atha@terra.com.br

MENDIGOS CANINOS

Um leitor atento andou procurando os cachorros que aparecem nos meus contos e crônicas. Encontrou com facilidade os três mais notórios: Joli, Jasper e Pulga, cada qual no seu ambiente, mas todos sem raça definida (SRD) ou, como dizemos, guapecas, além de alguns anônimos.

Meu amigo Trajano Pereira da Silva, incansável leitor, recordou em mensagem os numerosos cachorros que vivem nas páginas dos livros e se tornaram figuras destacadas na literatura. Quem não se recorda, - indagou ele, - de Baleia, a cadelinha que acompanha os retirantes no romance “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, ou de Quincas Borba, do romance do mesmo nome, de Machado de Assis, que se tornou amigo íntimo de Rubião, seu dono, e que o escritor descreveu com tanta ternura?  Ou, ainda, do Cunegundes, que Monteiro Lobato colocou no conto “Um suplício moderno” e numa das cartas de “A Barca de Gleyre”?  Mais interessante é que todos esses guapecas ganharam o mundo, uma vez que os livros onde aparecem foram traduzidos para diversas línguas. Ficaram eternizados.

Dentre todos, no entanto, o único que existiu na realidade foi Cunegundes. Tratava-se de um cão de rua que perambulava pelo centro de São Paulo, no início do século passado, e que merecia as simpatias do chamado Cenáculo, o grupo a que pertencia Monteiro Lobato. Magruço, com os fios das costelas à mostra, sarnento e sujo, tinha vagos traços de policial alemão e vivia da caridade alheia, sempre arredio e temeroso dos maus tratos. Era um mendigo canino. Dali Lobato o pinçou e lhe deu destaque nos seus escritos, embora não fosse o único. É que o pobre Cunegundes mereceu páginas carinhosas de outros escritores

Cícero Marques, escritor que se relacionava com o pessoal do Cenáculo, embora a ele não pertencesse, escreveu admirável crônica sobre o Cunegundes, começando por descrevê-lo no aspecto físico. Ele retrata o cachorro “roendo uns ossos de coxa de galinha, quando não mastigando, voraz, uns restos de croquetes que mãos piedosas atiravam ao chão, para matar-lhe a fome canina. E estas refeições fazia-as, amedrontado, rabo encolhido entre as pernas, com um olho no padre e outro na missa, isto é, voltado para as amplas portas abertas a-fim-de, ao primeiro contato com o pé do garçom Felício, ou a ponteira da bengala de um cliente, pôr-se ao fresco, sem maiores contratempos.” Creio que isso acontecia no Café Guarany, onde o grupo tinha mesa cativa.

“Outras vezes – continua o cronista – a um insignificante estalar de dedos, ou a carícia duvidosa de um guarda-chuva passando-lhe no dorso esquálido, exagerava a alegria, e se permitia a uns tênues ganidos para demonstrar o seu contentamento.” O mísero animal retribuía o menor carinho. Entretanto, pondera o autor, ninguém jamais se lembrou de levá-lo para casa, dando-lhe um teto no fundo do quintal, onde ficasse ao abrigo do sol causticante, das chuvaradas gélidas e do frio dos invernos. E, mais importante ainda, sem padecer os rigores da fome crônica. É verdade que, sendo Cunegundes um libertário andarilho, talvez recusasse tais mordomias, preferindo as incertezas da rua à segurança sem liberdade.

Mas vai que um dia – arremata o cronista – Cungeundes, distraído, namorava uma Luluzinha que o fitava por trás de um portão gradeado. Aproxima-se dele, com um laço na mão, o homem da carrocinha, implacável perseguidor de cães sem dono. O pobre animal sente no pescoço a dureza da corda, esperneia, grita, uiva, resiste, mas tudo em vão. É jogado na carrocinha e conduzido ao local tenebroso em que será transformado em sabão. Por ironia do destino, seu corpo sempre imundo virou sabão destinado a “limpar a roupa suja de muita gente.” E conclui o cronista: “Afinal de contas, Cunegundes, tu tens na tua raça cachorros que são bons, outros que são cachorros pra cachorro, tal qual no gênero humano onde existem indivíduos que têm ações cachorras para os seus semelhantes.”

O fim trágico de Cunegundes foi reconstituído de maneira fictícia numa série de fotos de Armando Barreto e que mereceu o Prêmio Nikon Internacional. Na sequência fotográfica, um garoto consternado e em lágrimas observa impotente a prisão do animal e imagina seu doloroso fim.

Escrito por Enéas Athanázio, 26/04/2021 às 19h35 | e.atha@terra.com.br

A CIDADE DESABAFA

Escrever o romance de uma cidade através de entrevistas, se não é inédito é, pelo menos, incomum. Procurar pessoas dos mais diversos ofícios, costumes e formação e delas arrancar, sem qualquer forma de censura, o que pensam de bem ou de mal e tudo quanto lembram do passado, recente ou remoto, de uma cidade, eis uma tarefa que me parece das mais complicadas. É preciso vencer a resistência de algumas e superar o receio que outras tenham de se manifestar sem o temor de represálias ou ressentimentos. Mas foi isso que fez Franklin Jorge, jornalista experiente, através de 50 entrevistas com as mais diversas personalidades de Natal (RN), num verdadeiro balanço da vida da cidade no correr do século passado. Com toda propriedade, foi assim que ele escreveu o romance de uma cidade, como diz o subtítulo de seu livro “O Spleen de Natal” (Editora da UFRN – Natal – 2001). E, se isso não bastasse, fez uma história com gente, algo vivo e palpitante, revelando a alma e o sentimento urbano, não se limitando aos elogios bairristas mas, ao contrário, destacando o negativo, quando merecido.

É curioso notar que as entrevistas não têm títulos e nem tampouco as costumeiras perguntas e respostas. As palavras do entrevistador e do entrevistado se misturam sem que surja qualquer confusão, uma vez que o leitor percebe com perfeição quando fala este ou aquele. Daí resultam textos que se assemelham a crônicas, cada uma delas compondo um capítulo desse curioso romance de uma cidade conhecida como a terra do sol e por sua paisagem natural e urbana.

Para bem captar a atmosfera da cidade, seu espírito e seu humor, o autor entrevistou todo tipo de gente. Poetas, escritores, jornalistas, cantores populares, atores, músicos, artistas plásticos, figuras pitorescas, visitantes, profissionais, funcionários, gente simples do povo, pescadores, favelados, líderes comunitários, agitadores, idosos e jovens. E de cada um foi extraindo com habilidade as informações desejadas e, mais que isso, as opiniões a respeito da vida urbana, sua história, sua cultura, as personalidades destacadas e tudo o mais. É frequente a queixa contra o desinteresse e a ausência de apoio do poder público às coisas da cultura, males que parecem nacionais, uma vez que a quase totalidade dos políticos ainda julga a cultura uma espécie dispensável de perfumaria. Por outro lado, há quem lamente a apatia dos jovens e sua incapacidade de indignação. E quando isso acontece, “as coisas estão pretas.” Também há quem lamente as costumeiras “panelas” que surgem em defesa de interesses mútuos, nem sempre legítimos, como existem em toda parte. Surge mesmo quem não goste do passado porque “o passado transforma as coisas e faz os mortos melhores do que foram em vida. O passado é falsário por natureza...” (p. 75).

Uma presença perpassa o livro do começo ao fim, revelando a força de sua personalidade e a influência que exerceu. Trata-se de Luís da Câmara Cascudo (1898/1986), folclorista e historiador da cidade. Aparece como o jovem “dândi”, filho-de-papai, deitado numa rede e acocado pelas mulheres da casa, assim como em tantas outras fases da vida. O pesquisador, o escritor, o professor, o orador, o mestre. Sua reconhecida bondade, a discrição permanente, o interesse pela cultura popular, a repercussão nacional de sua obra, o amor à cidade da qual nunca quis sair e a imensa roda de amigos que invadiam seu chalé e que ele, com a maior franqueza, mandava baixar em outro terreiro quando se excediam nas visitas. Cascudo que foi vítima permanente dos invejosos, sempre tentando diminuí-lo, desprezado pela gente bem porque se dedicava às coisas do povo humilde, frequentando bibocas do porto e da praia.   Com quem tive a sorte de passar toda uma tarde, numa descontraída conversa, em 1983, três anos antes de seu falecimento.

Alheio e acima dessas miudezas, ele trabalhou e trabalhou, tornando-se o maior e mais festejado folclorista nacional. E com seu reconhecido bom humor, saboreando o inseparável charuto, dizia que parente é amigo por obrigação, enquanto amigo é parente por vocação.

Escrito por Enéas Athanázio, 19/04/2021 às 15h17 | e.atha@terra.com.br

A ANGÚSTIA DO POETA

É uma observação antiga a de que nós, latino-americanos, pouco nos conhecemos e temos as costas voltadas uns para os outros. Fenômeno semelhante ocorre na literatura. Excetuados os mais notórios, como Jorge Luis Borges, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Pablo Neruda e mais um punhado de escritores famosos, pouco conhecemos de outros autores e lemos suas obras. Por isso mesmo, foi uma agradável e aliciante surpresa a leitura de “O Caso Neruda”, de autoria do escritor chileno Roberto Ampuero, publicado pelo Benvirá (S. Paulo – 2011), que eu só conhecia de nome e de maneira muito vaga. Nascido em 1953, Ampuero é professor de redação e escrita criativa da Universidade de Iowa, tendo se radicado nos Estados Unidos, como exilado, para fugir das perseguições da ditadura de Augusto Pinochet. Segundo a crítica, é um dos mais festejados escritores das novas gerações chilenas e suas obras têm alcançado grande sucesso, embora raros sejam os comentários sobre elas na imprensa brasileira.

O livro é um romance policial, embora fugindo um pouco do gênero porque tem muito de biográfico e um fundo histórico. Já doente, o poeta Pablo Neruda se convence de que o jovem Cayetano Brulé poderia se transformar num detetive e investigar para ele uma questão cuja resposta procurava e que muito o angustiava. Licenciado do cargo de embaixador do Chile na França, o poeta se encontrava em sua casa de Valparaíso, – La Sebastiana, - onde convence o rapaz a realizar a busca, sugerindo-lhe a leitura das obras de Georges Simenon para aprender a ser detetive. Embora surpreso, o detetive improvisado aceita a incumbência e se lança numa busca frenética, correndo sem cansaço para obter a resposta enquanto o poeta ainda vivia. No desenrolar do relato vai aparecendo muito da tumultuada vida do poeta, desde a juventude, enquanto o enredo tem como pano de fundo o Chile de Salvador Allende, pouco antes do golpe militar que já se anunciava no horizonte. Começa, então, a corrida contra o tempo e a distância.

A missão do improvisado investigador consistia em encontrar um médico de sobrenome Bracamante, envolvido em pesquisas sobre ervas curativas, cuja esposa, Beatriz, era a única pessoa no mundo que poderia responder à angustiante indagação do poeta doente. E assim, confiando em frágeis indícios, apalpando, ouvindo e procurando, Brulé sai em busca da misteriosa mulher que, por mal da sorte, estava sempre trocando de nome e de país. No apagado rastro dela vai a Cuba, ao México, à Alemanha Oriental e à Bolívia até que, mais adivinhando que descobrindo (tal como Maigret), acaba por localizá-la em Santiago e, por vias curvas, obtém dela a confissão tão procurada. Mas era tarde. Nesse meio tempo se havia desencadeado o processo golpista e Allende foi morto, o que contribuiu de forma decisiva para apressar o falecimento de Neruda, chocado com tudo que acontecia no país. O Autor relata, com base em fatos reais, o impressionante sepultamento do poeta, com a multidão desafiando os golpistas e gritando seu nome, mesmo cercada pelas tropas, como se o poeta pudesse levantar do caixão e colocar em risco o regime implantado. As peripécias vividas pelo detetive para tentar chegar até o poeta numa cidade policiada ao extremo e com os atos de violência se repetindo em toda parte são impressionantes. As casas do poeta, tanto em Valparaíso como em Santiago e na Isla Negra foram invadidas e rebuscadas, provocando grandes danos às suas célebres coleções.

Mas tudo passa, os anos correm. Embora sofrido, mais maduro e experiente, Cayetano Brulé se transforma em famoso investigador. Nunca esqueceu, porém, de que fora uma criação de Neruda, por ele inventado como seus poemas e personagens. Cultivou para sempre a memória do poeta, Nobel de Literatura, e protagonizou outros romances do Autor, sempre com grande sucesso de crítica e de público.

Escrito por Enéas Athanázio, 12/04/2021 às 18h33 | e.atha@terra.com.br

A BUSCA DA IMORTALIDADE

Com as exceções de praxe, as pessoas em geral não desejam morrer e, quando isso acontece, mesmo porque é inevitável, não querem ser esquecidas. Como a morte esconde um mistério insondável, as religiões prometem a vida eterna, após o desenlace, pregando a crença na imortalidade da alma. O ser humano é dúplice, composto de corpo e alma, segundo os que têm fé. Enquanto o corpo acaba, vira pó, a alma galga outros mundos, escondidos sob o véu do mistério. Por via das dúvidas, o ser humano busca outras formas através das quais espera alcançar a imortalidade. Por duvidosas que sejam, não são poucos os que acreditam piamente nisso.

Entre tais meios estão a realização de grandes obras que marquem a passagem terrena da pessoa, como a publicação de livros, a produção de obras de arte, as conquistas científicas, e o ingresso nas agremiações e academias. No que concerne aos escritores, persiste a crença de que o autor desaparece mas a obra fica, embora essa permanência quase sempre seja efêmera. Poucas produções literárias perduram por longo tempo, como acontece com as de Platão, Aristóteles, Goethe, Balzac, Cervantes e outros tantos. A maioria das obras morre com o autor, quando não desaparece antes dele. Tenho conhecido muitos autores de obras mortas. Seja como for, no entanto, a ilusão de perenidade mantém o escritor na labuta, entregue ao mais solitário dos ofícios, esperançoso de que suas palavras cheguem ao futuro.

Outros buscam a imortalidade nas academias. Lutam com todas as forças para obter uma vaga, uma vez que a proposta dessas entidades é a de manter viva a memória de seus integrantes, o que nem sempre acontece. Aqui no Brasil o sonho de muitos é entrar na Academia Brasileira de Letras (ABL), pretensão difícil ao extremo. Há quem batalhe por anos e anos por uma vaga. Outros, no entanto, não se interessam. Escritores de grande renome, cujas obras exerceram notável influência, não foram acadêmicos: Érico Veríssimo, Gilberto Freyre, Mário de Andrade, Lima Barreto, Câmara Cascudo, Monteiro Lobato, Sílvio Meira, Joaquim Inojosa. Muitos políticos, por outro lado, usaram a força do cargo para abrir as portas da ABL: Getúlio Vargas, Lauro Muller, Fernando Henrique Cardoso e até ministros da ditadura. Tornaram-se corpos estranhos dentro da Instituição. Diante da dificuldade, muitos se contentam com a imortalidade estadual e até mesmo municipal. Quem não tem cão, caça com gato.

Meu saudoso amigo Nilto Maciel, escritor prolífico e talentoso, costumava dizer que o ingresso nas academias é a imortalidade inventada. Desde cedo – dizia ele – se convenceu de que não tinha alma, sendo, portanto, um mortal comum, e assim só lhe restava escrever e escrever para permanecer na lembrança das pessoas. Sua constante atividade despertou a atenção de alguns acadêmicos e estes decidiram levá-lo para o seu meio. “Pois eis que no meio do caminho desta vida – escreveu ele – me apareceu um desses seres eternos. Chamava-se Almeida Fischer, que queria ser mais imortal do que era, pois pertencia à Academia Brasiliense de Letras. Não se apresentou em corpo e alma, para não se fazer tão objetivo; mandou um seu colega me fazer comunicado quase letal: Eu fora escolhido para constituir a nova casa federal de letras, a Academia de Letras do Brasil. Tomei um susto, mas não morri. Ora, eu não queria vestir fardão. Muito menos farda. . .” Dias depois recebeu a visita do próprio acadêmico e “disse duas ou três frases indecorosas”, alegando que não se sentia acadêmico, considerava-se em fase de crescimento e despreparado para a vida acadêmica e, acima de tudo, não via necessidade da criação de mais uma academia. “Ele parecia não acreditar no que ouvia – disse Nilto. – Talvez eu estivesse brincando. Ou delirando. Você bebeu muito ontem? Certamente me acometia um surto de loucura. Ora, quem não quer ser imortal, quem não se sente excepcionalmente envaidecido e comovido de ser convidado a ingressar no círculo restrito dos olimpianos?” Espantado, incrédulo, olhos esbugalhados, o acadêmico parecia estatelado na cadeira. Onde já se viu alguém recusar semelhante convite? Como esse energúmeno se atreve a tanto?

Para melhor esclarecer as coisas, Nilto prometeu enviar uma carta detalhando seus motivos. Mas a carta chegou tarde demais. “Dias depois eu soube da tragédia: O homem se tinha morrido. Ou tinha deixado de ser vivo. Eu continuei mortal. . .” – concluiu Nilto Maciel.

Escrito por Enéas Athanázio, 06/04/2021 às 14h07 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 59 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.