Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

A VIDA IMITA A ARTE

“O Louco de Bergerac”, romance de Georges Simenon (1903/1989), integrante da série do comissário Jules Maigret e publicado em 1932 é uma das mais admiradas obras do escritor belga. Nesse livro a imaginação do autor chega aos limites do inacreditável prendendo o leitor até o fim, sequioso por desvendar o mistério que envolve o complexo caso. O livro foi publicado em tradução brasileira pela Editora Nova Fronteira (Rio de Janeiro – 1984).

Em férias de suas atividades na Polícia Judiciária francesa, o comissário viaja de trem pelo interior da França. No beliche superior de sua cabine o ocupante parece agitado, não cessa de se mover e respira de forma irregular e pesada. Na altura da pequena cidade de Bergerac (fato que o comissário só saberia mais tarde), o homem senta-se com as pernas penduradas, momento em que Maigret observa que usava sapatos de verniz e meias tricotadas. Na meia luz da cabine não consegue ver com clareza a fisionomia da pessoa. Numa longa curva o trem reduz a marcha, quase parando, tempo suficiente para que o homem se precipitasse pelo corredor e saltasse no meio de uma densa floresta. Impelido pelo agudo faro policial, Maigret imagina algo de anormal e salta do trem atrás do companheiro de cabine. Levanta-se às pressas e inicia uma perseguição mas ele saca de uma arma e atira contra o comissário, atingindo-o em cheio no ombro. O comissário perde os sentidos e só acorda no hospital de Bergerac para onde alguns camponeses o transportaram. É assistido pelo médico Dr. Rivaud e dias depois transferido para o quarto de um hotel situado na praça central.

A Sra. Maigret, sempre discreta e modesta, vem de Paris e passa a cuidar do marido enclausurado e cercado de rigorosos cuidados médicos. Nesse meio tempo corre na cidade a notícia de que um louco andava atacando e violentando mulheres na região. As autoridades locais começam a frequentar o quarto de Maigret, inclusive o comissário aposentado Leduc, que reside nas proximidades. Todos comentam os ataques do presumido louco, o que leva o comissário a se fixar no assunto, embora esteja fora de sua jurisdição. Mais adivinhando que desvendando, como tantas vezes acontece, ele intui que o criminoso está entre os frequentadores de seu quarto. Perplexa, a Sra. Maigret não pode crer no que o marido diz, pois ali estão as pessoas gradas da cidade.

Mesmo a distância, Maigret investiga. Através de perguntas bem direcionadas, assim como quem não quer nada, vai descobrindo uma trama intrincada e complexa que começou em Argel, passou pela Polônia e chegou à Franca, envolvendo um vendedor de selos que falsificava passaportes e que, por incrível que fosse, era o pai do médico Dr. Rivaud, o mesmo que dava assistência ao comissário. E ao final, sem sair do quarto, Maigret descreve os fatos nos seus mínimos detalhes. Impressiona como tudo se encaixa, revelando uma extraordinária imaginação e um senso de observação que não deixa escapar o menor senão.

Mas não apenas por isso o livro obteve tal notoriedade. “Assassino é preso na França graças a livro de Simenon” – noticiou a imprensa internacional. E os jornais relatavam: “A notícia surpreendeu a todos que leram o noticiário internacional de nossos principais jornais no início de 1984 (...) Graças à trama desse livro, escrito em 1932, a polícia francesa conseguiu desvendar o mistério de um assassino que há cinco anos aterrorizava a cidade de Bergerac, com seus sequestros, assassinatos e inúmeras agressões sexuais.”

E a Editora, por sua vez, afirma: “Sem este livro, a polícia francesa não teria descoberto o criminoso sexual que agiu impunemente de 1979 a 1984.”

Foi mais uma vez em que a vida imitou a arte.

Escrito por Enéas Athanázio, 23/11/2020 às 18h16 | e.atha@terra.com.br

UM LIVRO FASCINANTE

Depois de longos anos, tive um reencontro com uma figura exótica e genial: Toulouse-Lautrec. Isso aconteceu nas páginas de um livro fascinante, de autoria de Pierre La Mure, integrante da Academia Francesa, publicado no Brasil pela extinta e saudosa Editora Mérito, responsável por um catálogo de primeira linha, em tradução de Lígia Junqueira, tradutora respeitada pela perfeição de suas versões. Trata-se de “Moulin Rouge” (S. Paulo – 1956).

Henri Marie Raymond de Toulouse-Lautrec (foto) nasceu em Albi, na província francesa, em 24 de novembro de 1864. Era filho do Conde de Toulouse-Lautrec, integrante de antiga linhagem aristocrática que remontava à liderança das Cruzadas, o que constituía motivo de orgulho da família. O menino, portanto, era conde, embora jamais usasse o título. Ele vivia com a mãe e a criadagem em majestoso castelo dotado de luxo e conforto, uma vez que o pai, boêmio e dandy inveterado, permanecia em Paris a maior parte do tempo. A condessa proporcionava ao menino o mais dedicado tratamento e ele retribuía com imenso e sincero amor. Já o pai, nas poucas visitas, planejava para o filho um futuro de luxo e fama, como convinha a um membro da nobreza. Com a mãe, o menino Henri desfrutava de uma vida agradável, com passeios, viagens e toda sorte de diversões. Até que chegou a idade escolar e ele teve que ser enviado à escola, acontecendo a primeira separação da mãe, fato que o marcou de forma profunda. No colégio, porém, houve uma compensação: conheceu Maurice, que seria dedicado amigo durante toda a vida e com quem firmara o pacto de irmão de sangue.

O menino crescia forte e bonito, revelando aguda inteligência. De repente, sem razão plausível, começou a sentir fortes dores nas pernas e parou de crescer. Não conseguia caminhar, permanecia acamado, gemendo sem parar. Médicos do maior renome foram chamados mas não encontravam remédio para a estranha moléstia. Recomendavam temporadas em estações de águas medicinais e assim ele e a mãe peregrinaram por quantos balneários existiam na França. Sem resultado. O menino só crescia da cintura para cima enquanto as pernas, atrofiadas, permaneciam finas e fracas, só permitindo um andar desajeitado, amparado numa bengala. À medida que os anos passavam, constatava-se uma terrível realidade: Henri se tornou um anão desconforme e muito feio, tanto de corpo como de rosto. Diante da cruel realidade o pai se afastou do filho e só se encontrariam raras vezes ao longo da vida. O conde se sentia frustrado nos projetos que arquitetara para o filho.

Mas a natureza, piedosa, concedeu uma compensação. Desde menino, Henri revelava extraordinário talento para o desenho e estava sempre traçando retratos de pessoas e paisagens. Esses trabalhos infantis provocavam a maior admiração e grande parte deles se encontra hoje nos museus. Já moço, Henri sentiu necessidade de um ambiente mais livre onde pudesse se dedicar à arte. Contrariando a condessa, que temia pela sua saúde, parte para Paris e se instala no bairro boêmio de Montmartre. Ali aprimora o desenho e a pintura e passa a usar outras técnicas, inclusive a gravura. Prepara-se para tentar o ingresso no “Salon”, a mais importante e consagradora exposição da capital francesa, mas é recusado porque seus quadros foram considerados muito revolucionários, retratando a vida simples do povo. Enquanto isso, ele se entregava à boêmia, frequentando todo tipo de casas de mulheres, desde as mais luxuosas até as mais sórdidas, e chegando a morar por algum tempo em uma delas. Conhecia as mulheres pelos nomes, tornou-se confidente de algumas e pintou os retratos de muitas. Descobriu que a ingestão de conhaque aliviava sua dor nas pernas e passou a consumir doses cada vez maiores da bebida, tornando-se incurável dependente. Tomava grandes bebedeiras, caía e se machucava, adormecia sobre as mesas de bar. Seu modo de vida escandaliza a nobreza; ele encolhe os ombros e ri do falso pudor dos aristocratas. Torna-se famoso, é reconhecido aonde vai e seus quadros começavam a aparecer nas vitrines das galerias, despertando o interesse dos maiores marchands. Convive com a ralé do bairro e retrata com insistência o cancan, dança popularesca e sensual considerada imoral pelos conservadores. É visto sempre numa roda de aspirantes a artistas, entre os quais se destaca Vincent Van Gogh.

Numa dessas noitadas conhece um alsaciano de nome Zidler que planejava a criação de uma boate sem similar em todo o mundo e para a qual procurava o melhor. Bailarinas, atrizes, recepcionistas, garçons, barmen, gente da retaguarda. Para isso erigiu um prédio em formato de moinho, pintado de um vermelho vivo, iluminado de maneira feérica, destacando-se no centro do bairro. Era o Moulin Rouge que nascia, tornando-se desde logo uma das maiores atrações da capital e repercutindo em todo o mundo. Henri se alistou entre os frequentadores mais assíduos e lá pintava seus quadros inspirando-se em cenas vivas e coloridas.

A boate, no entanto, começou a declinar. Zidler decide promover intensa campanha publicitária e procura Henri. Quer que ele desenhe e imprima um cartaz monumental em litografia, ou seja, impressão na pedra, um dos gêneros mais difíceis da arte gravurista. Henri reluta, Zidler insiste, o artista cede. Sem experiência, Henri se aproxima de Père Cotelle, a maior autoridade no assunto, e passa a frequentar sua oficina. Em pouco tempo dominou a técnica, causando geral espanto. E assim nasceu o cartaz sobre o Moulin Rouge, colorido, vibrante, exibindo nítidas cenas de cancan. Em poucos dias ele aparecia em paredes, muros e fachadas de toda Paris e o nome de Toulouse-Lautrec caiu na boca do povo e nas colunas de jornais.

-É indecente! – diziam.

-É uma obra de arte! – replicavam outros.

-É imoral! – afirmavam muitos.

-É uma obra-prima! – bradavam outros tantos.

Os críticos se renderam à beleza da obra e ao talento do artista, consagrando-os nas suas análises e Henri entrou para sempre no mapa artístico francês. A campanha impulsionou a obra de Henri, cujos quadros alcançaram elevados preços e começaram a repercutir no exterior.E o Moulin Rouge se levantou e firmou.

Mas se a carreira vai bem, os amores vão de mal a pior. Denise, o grande amor da juventude, o repele com palavras ásperas, tachando-o de feto e aleijado; Marie Charlet chega a viver com ele no estúdio, exigindo cada vez mais um dinheiro que repassa ao gigolô, até que ele a expulsa; a linda e suave Myriame o abandona sem explicações quando ele se encontrava no exterior acompanhando uma de suas exposições. Solitário, só lhe resta o amor mercenário das mulheres da vida. Amargurado, afunda no conhaque e começa a definhar. Doente e fraco, refugia-se em Albi e se entrega aos cuidados da mãe. A condessa se desdobra em tratamentos e atenções, mas tudo é inútil. Ele não caminha mais e permanece acamado o tempo todo. Nos dias derradeiros recebe a visita do pai, arrependido do abandono em que deixara o filho infeliz.

Pouco antes de partir, Henri recebe um telegrama de Maurice, o irmão de sangue:

“O governo acaba de aceitar a coleção Camondo para o Louvre. Você venceu, Henri!”

Era uma compensação final à recusa do “Salon.”

No silêncio de Albi, diante de uma mãe desolada, desaparece um artista que o mundo todo venera. Foi em 9 de setembro de 1901.

Tinha 37 anos de idade.

Escrito por Enéas Athanázio, 16/11/2020 às 20h37 | e.atha@terra.com.br

DOIS LIVROS NOVOS

Sânzio de Azevedo, escritor cearense, professor da UFC e doutor em letras é um pesquisador diligente e minucioso. Seus trabalhos no campo do ensaio são sempre profundos e vão até os últimos detalhes. Deixam a sensação de que ele lê, relê e treslê sem cansaço cada palavra, no caso da prosa, e cada verso, no de poesia, comparando, observando e interpretando para penetrar no âmago do que o autor analisado pretendeu expressar. Eu o imagino de livro em punho, no silêncio da sala, afundando pela noite a rebuscar textos e seus sentidos para bem enquadrá-los na escola a que pertencem, as influências sofridas, a técnica empregada e tudo mais. É um desses analistas que não existem mais ou, pelo menos, não os tenho encontrado nas minhas leituras.

“Escritores de outras plagas” (Expressão Gráfica e Editora – Fortaleza – 2020), seu livro mais recente, é uma confirmação cabal do que afirmei acima. Nele o autor se entregou com afinco à análise das obras de cinco autores de grande renome, alguns deles pouco lembrados, praticando uma obra ressuscitadora e justiceira. São eles: Raul de Leoni, Da Costa e Silva, Victor Hugo, Guerra Junqueiro, Antônio Nobre e uma página memorialista envolvendo Pedro Nava. Cada análise é realizada com extremo cuidado, revelando a erudição e o conhecimento do autor.

No caso de Victor Hugo, ele se entregou ao estudo de toda a obra romanesca do celebrado escritor francês, comentando cada um de seus romances no contexto em que foram escritos e levando em conta as condições existenciais do autor. “Os Miseráveis” é comentado de maneira magistral e me fez reviver os dramas de Jean Valjean, condenado por um furto famélico, como dizem os juristas. Todos os demais romances são abordados, assim como a fortuna crítica que mereceram e acentuando seus aspectos mais importantes. O ensaio é uma notável contribuição para o conhecimento da formidável obra de Victor Hugo com o detalhe de que foi produzido por um brasileiro.

No caso dos poetas, a análise se aprofunda aos menores detalhes. Acentua a escola a que se filiou o poeta, as inclinações para outros sentidos, as influências recebidas e as concessões a outras tendências. Tudo é analisado estrofe por estrofe, verso por verso, palavra por palavra. Sobre Raul de Leoni, ele diz: “Não foi um parnasiano. Sua poesia aproxima-o bem mais do Simbolismo, não obstante ser inteiramente alheio a algumas notas dessa corrente.” Uma observação arguta de quem muito leu, comparou, interpretou. Da Costa e Silva, o poeta-mor do Piauí, é evocado num ensaio raro sobre ele e sua obra. O autor do magnífico soneto “Saudade” é filiado ao Sincretismo mas com uma nota forte de telurismo, como exemplificam o referido soneto e outros poemas. O rio Parnaíba, grande mar interno do Piauí, atravessa toda sua obra e foi por ele batizado de Velho Monge. Conclui o ensaísta, afinal, que Da Costa e Silva foi acima de tudo um Simbolista. Um bom e merecido ensaio evocando a obra do extraordinário poeta do Piauí, pelo qual aquele povo tem verdadeira admiração.

Todos os demais autores são abordados com a mesma dedicação e idêntico empenho. É um livro para ler, reler, pensar e aprender. São verdadeiras aulas de literatura, poética e história da literatura daqui e d’além. Está de parabéns o Prof. Sânzio de Azevedo pela publicação deste modelar conjunto de ensaios.


Outro livro que merece atenção é “Nas entrelinhas da vida” (Sarau de Letras Editora – Mossoró – 2020), de autoria de Ieda Chaves Freitas (foto), escritora potiguar radicada em Florianópolis. Trata-se de uma coletânea de crônicas escritas com esmero no correr dos dias e tendo como elo de ligação o amor pela vida, essa febre que acomete os viventes. Segundo me parece, a cronista age como recomendava Gilberto Amado, prestando atenção à vida e recheando cada minuto.

As crônicas são bem escritas, em estilo vivo e elegante, e visam celebrar a vida cujos caminhos a autora vem percorrendo com intensidade. O cenário que elas traçam é sempre descrito em tons suaves como o pintor faz nas aquarelas. São sempre escolhidas palavras suaves, de sorte que a intensidade é acentuada pelo descritivo e não pelo peso de um vocabulário forte. São páginas saídas de quem festeja cada momento vivido.

Nesse afã ela comemora as conquistas profissionais, a família, os filhos, os parentes e os amigos, ressaltando o que vislumbra de positivo em cada um deles, filtrando com olhares agudos a personalidade de cada um. Embora seja arriscado afirmar, são crônicas de uma pessoa feliz. É um livro para ler em momentos relaxados, sentado numa poltrona confortável, avistando o mar de um lado e o verdor da mata de outro.

Meus parabéns à catarinense por adoção e meus votos de muito sucesso  para sua obra. Concluiria dizendo que o livro está muito bem editado, casando-se com o conteúdo, pelo que a editora merece aplausos. 

Escrito por Enéas Athanázio, 09/11/2020 às 17h39 | e.atha@terra.com.br

GUERRA AO LIVRO

Nos anos 20 do século passado, o escritor Monteiro Lobato saiu em campo na defesa do livro. O governo federal, cedendo à ganância do fisco, pretendia criar um imposto sobre o papel destinado à impressão de livros, ferindo de morte a incipiente indústria livreira nacional. Em sucessivos artigos, publicados nos grandes jornais, hoje recolhidos à segunda parte do livro “Mr. Slang e o Brasil”, de suas Obras Completas, ele fustigou a infeliz iniciativa com palavras candentes. Encontrou aliados no Congresso Nacional e vozes credenciadas se elevaram na condenação do projeto.

Entre outras coisas, escreveu Lobato: “É um profundo golpe em nossa débil, incipiente cultura... A cultura se faz por meio do livro. Asfixiar o livro é matar a cultura, Esse ônus equivale àquela famosa medida adotada pelo governo português contra os prelos do Brasil-colônia, mandando-os destruir a marreta. A mentalidade metropolitana d’antanho irmana-se agora com a mentalidade dos nossos republicaníssimos fazedores de leis. Ambas querem a mesma coisa: trevas mentais. Todos os povos civilizados procuram aplainar por todos os meios o caminho da cultura. Matá-lo (o livro) por estrangulação imediata: garrote velho! “

Esses desabafos de Lobato me vieram à memória ao ler nos noticiários que o governo federal pretende taxar o livro, lançando um imposto sobre ele. A esdrúxula justificativa é a de que o livro é um objeto de luxo. Para as pessoas de menores recursos seriam oferecidos livros gratuitos. Confesso que custei a acreditar nos meus olhos, mas é isso mesmo. É inacreditável mas verdadeiro.

Numa só jogada, o governo torna o livro inacessível e faz uma lavagem cerebral através dos livros doados. Faz lembrar o que acontecia na ditadura Vargas, quando milhões de livros eram distribuídos endeusando o “papai dos pobres.” Só que agora os endeusados serão outros. Como disse Lobato, são as trevas mentais rondando o país.

Mais deprimente ainda é que ninguém protesta, nem mesmo os editores, livreiros e instituições culturais. Em qualquer outro país a notícia provocaria uma enxurrada de manifestações, mas tudo indica que por aqui vai passar batida. O país lê muito pouco e com o livro encarecido lerá ainda menos. Será esse o objetivo?

Lobato faz muita falta.
 

Escrito por Enéas Athanázio, 02/11/2020 às 10h28 | e.atha@terra.com.br

NO VALE DO GENGIBRAL

Recordar é viver ou é sofrer duas vezes? Não sei qual das hipóteses é a verdadeira, mas o fato é que muitas pessoas, no meio literário, se entregam com afinco ao trabalho de escrever suas memórias. Grandes escritores têm lançado no papel os acontecimentos de suas existências, alguns deles obtendo aceitação incomum e se notabilizando com elas, a exemplo de Humberto de Campos, Gilberto Amado e Pedro Nava. No caso de Gilberto, o sucesso de suas memórias obscureceu o restante de sua obra, hoje em dia votadas ao esquecimento. Curioso é observar que memórias, autobiografias e biografias durante longo tempo não foram bem aceitas como se fossem um gênero literário inferior. Com o passar dos anos, porém, conquistaram seu espaço e se tornaram gêneros com inumeráveis leitores cativos, entre os quais me incluo.

Dentre as obras memorialistas recentes destaca-se “No Vale do Gengibral – Das terras da lendária dona Beja ao sertão de Goiás”, de autoria do escritor goiano Edir Meirelles e que me foi gentilmente oferecido por ele (Editora Kelps – Goiânia – 2017). Radicado no Rio de Janeiro, o autor é figura destacada da União Brasileira de Escritores (UBE/RJ), da qual foi presidente, e tem vários livros publicados, sem contar a volumosa produção jornalística. Neste livro dois aspectos merecem referência desde logo. O primeiro é o incessante crescimento da narrativa até seu clímax e o segundo a circunstância de que o autor-narrador abre o livro na condição de clandestino por ser perseguido político durante a ditadura. Assim, cria uma expectativa que só será desvendada nas derradeiras páginas. Recurso inteligente que prende o leitor até o fim.

Tudo tem início quando o jovem casal Orozimbo e Ibrantina afunda no cerrado goiano em busca de um local para estabelecer sua fazenda. Vencendo longas distâncias, em lombo de cavalo, vai dar nos ínvios de um vale inóspito e selvagem e ali decide fincar as raízes da família. O casamento deles havia sido “ajeitado” pelos pais. Desde então o casal inicia a luta árdua com a natureza e a fazenda prospera ao mesmo tempo em que nascem os filhos, entre estes o autor. Vida rústica, pobre, típica dos sertanejos, mas livre e feliz. O inesperado, porém, acontece e o pai falece aos 33 anos de idade, deixando a mãe com os filhos e sem maiores recursos. Logo surgem os pretendentes e um padrasto entra na família. Homem usurário ao extremo, inferniza a vida das crianças e tenta impedir que estudem. A mão forte da mãe, no entanto, equilibra a situação e todos buscam seu destino. É ela quem relata as peripécias da família, permitindo a reconstituição de todas as fases e que aparece sempre como pano de fundo das memórias do autor. O relato assume ares de um romance histórico e documental, tal a quantidade de fatos e detalhes trazidos ao texto.

A linguagem é escorreita, as frases bem construídas e as palavras aplicadas com correção, revelando um escritor tarimbado e dono da língua. O relato é bem encadeado e leva com segurança ao epílogo. No correr do texto ficou evidente para mim a semelhança com o falar aqui do Sul. Exceto alguns nomes de acidentes geográficos, plantas e expressões populares, não percebi diferenças. É um regionalismo mais de fundo que de forma, para usar a conhecida divisão.

O livro de Edir Meirelles é um trabalho escrito com sinceridade e emoção e por isso espelha mais que a vida porque, como dizia Gilberto Amado, literatura é mais que vida porque é a vida ampliada no coração do artista. 

Escrito por Enéas Athanázio, 26/10/2020 às 10h25 | e.atha@terra.com.br

RECEITA DE BEM VIVER

Graças à gentileza do amigo Trajano Pereira da Silva, recebi um livro que é verdadeira raridade (*). Trata-se do penúltimo volume que integra a coleção das memórias de Gilberto Amado, considerado dos maiores memorialistas brasileiros de todos os tempos, só igualado por Humberto de Campos e Pedro Nava. Nesse volume há o capítulo denominado Maturidade que constitui verdadeiro guia ou receita de bem viver. Escrito quando o autor atingia o apogeu de sua capacidade intelectual, depois de superados os graves problemas com que se deparou, ele medita sobre o passado e sobre a maneira como fruir a vida com tranquilidade e paz de espírito. Gilberto Amado amou a vida como poucos e em sua longa existência sempre soube aproveitar tudo de bom que ela lhe concedia. O segredo, dizia ele, é rechear o minuto, nunca permitindo que o tempo o esvazie. Tinha o chamado sentimento lúdico da vida. Muitas de suas reflexões sobre esse tema estão no capítulo referido.

Em primeiro lugar – escreveu ele – “cabeça e coração devem se entender bem. Nada de contradições separando-nos ou quebrando-nos em pedaços soltos. Nenhum complexo ou recalque.” Desde muito cedo, continua, “preparava-me para suportar a dor, amenizá-la quanto possível, não dramatizar o acontecido, encadear o inesperado na corrente do cotidiano.” A dramatização dos fatos, em especial dos negativos, parece ser uma constante no ser humano. E com isso o mal acontecido se avulta, ganha dimensões dramáticas, muitas vezes acima da gravidade real. “Minha primeira obrigação a meu respeito – declarou – era não deixar o sofrimento me subjugar. Para isso penso que muito me serviu o estudo, o exame das causas das coisas, a boa literatura que explica sem explicar, mostrando só.”

Mais adiante, explica como enfrentar com equilíbrio o ruim e o bom de cada dia. “Naturalmente cada hora me trazia uma pena, cada dia o seu aborrecimento. Se viver não é fácil, conviver é o diabo. Mas quem pensa que o seu mal é único, engrandece-se por falta de imaginação. Seu mal é de muitos. Não há sofrimento inédito, nem original. Quase tudo é plágio, réplica, reprodução, imitação.” Os remédios para enfrentar o negativo são simples e práticos. Diz o escritor: “Uma manhã de praia me forra para o dia todo contra o que vier de desagradável depois. É preciso não esquecer, na hora do aborrecimento, o prazer fruído momentos antes, guardá-lo bem no paladar para que a boca possa receber sem engulho o mau bocado que há de vir.” Mais além, outra observação interessante: “Não sou dos que levam jornal ou livro para ler deitado na areia. Considero isso um absurdo. A praia é do corpo e daquela parte do espírito que ajuda o corpo a aproveitar a praia.” Gilberto foi praiano convicto e exímio nadador.

O homem moderno, sempre atarefado, não contempla mais a natureza. Ele, porém, se conservou fiel “ao namoro habitual com as coisas amanhecentes” e de sua janela contemplava o espetáculo que é o nascer de cada novo dia. Depois de várias observações a respeito da invasão das praias pelas multidões, do telefone, “esse estuprador do silêncio”, e da barulheira infernal dos tempos modernos, conclui: “O homem de quem Deus gosta é o de carne e osso, tanto que não lhe ressuscita apenas a razão mas o corpo todo. Prazer usufruído nos ajuda a compensar com a lembrança dele o desprazer superveniente.”

_________________________________
(*) “Presença da Política”, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1ª. Edição, 1958, págs. 303 a 314.
 

Escrito por Enéas Athanázio, 22/10/2020 às 10h24 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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Por Enéas Athanázio

A VIDA IMITA A ARTE

“O Louco de Bergerac”, romance de Georges Simenon (1903/1989), integrante da série do comissário Jules Maigret e publicado em 1932 é uma das mais admiradas obras do escritor belga. Nesse livro a imaginação do autor chega aos limites do inacreditável prendendo o leitor até o fim, sequioso por desvendar o mistério que envolve o complexo caso. O livro foi publicado em tradução brasileira pela Editora Nova Fronteira (Rio de Janeiro – 1984).

Em férias de suas atividades na Polícia Judiciária francesa, o comissário viaja de trem pelo interior da França. No beliche superior de sua cabine o ocupante parece agitado, não cessa de se mover e respira de forma irregular e pesada. Na altura da pequena cidade de Bergerac (fato que o comissário só saberia mais tarde), o homem senta-se com as pernas penduradas, momento em que Maigret observa que usava sapatos de verniz e meias tricotadas. Na meia luz da cabine não consegue ver com clareza a fisionomia da pessoa. Numa longa curva o trem reduz a marcha, quase parando, tempo suficiente para que o homem se precipitasse pelo corredor e saltasse no meio de uma densa floresta. Impelido pelo agudo faro policial, Maigret imagina algo de anormal e salta do trem atrás do companheiro de cabine. Levanta-se às pressas e inicia uma perseguição mas ele saca de uma arma e atira contra o comissário, atingindo-o em cheio no ombro. O comissário perde os sentidos e só acorda no hospital de Bergerac para onde alguns camponeses o transportaram. É assistido pelo médico Dr. Rivaud e dias depois transferido para o quarto de um hotel situado na praça central.

A Sra. Maigret, sempre discreta e modesta, vem de Paris e passa a cuidar do marido enclausurado e cercado de rigorosos cuidados médicos. Nesse meio tempo corre na cidade a notícia de que um louco andava atacando e violentando mulheres na região. As autoridades locais começam a frequentar o quarto de Maigret, inclusive o comissário aposentado Leduc, que reside nas proximidades. Todos comentam os ataques do presumido louco, o que leva o comissário a se fixar no assunto, embora esteja fora de sua jurisdição. Mais adivinhando que desvendando, como tantas vezes acontece, ele intui que o criminoso está entre os frequentadores de seu quarto. Perplexa, a Sra. Maigret não pode crer no que o marido diz, pois ali estão as pessoas gradas da cidade.

Mesmo a distância, Maigret investiga. Através de perguntas bem direcionadas, assim como quem não quer nada, vai descobrindo uma trama intrincada e complexa que começou em Argel, passou pela Polônia e chegou à Franca, envolvendo um vendedor de selos que falsificava passaportes e que, por incrível que fosse, era o pai do médico Dr. Rivaud, o mesmo que dava assistência ao comissário. E ao final, sem sair do quarto, Maigret descreve os fatos nos seus mínimos detalhes. Impressiona como tudo se encaixa, revelando uma extraordinária imaginação e um senso de observação que não deixa escapar o menor senão.

Mas não apenas por isso o livro obteve tal notoriedade. “Assassino é preso na França graças a livro de Simenon” – noticiou a imprensa internacional. E os jornais relatavam: “A notícia surpreendeu a todos que leram o noticiário internacional de nossos principais jornais no início de 1984 (...) Graças à trama desse livro, escrito em 1932, a polícia francesa conseguiu desvendar o mistério de um assassino que há cinco anos aterrorizava a cidade de Bergerac, com seus sequestros, assassinatos e inúmeras agressões sexuais.”

E a Editora, por sua vez, afirma: “Sem este livro, a polícia francesa não teria descoberto o criminoso sexual que agiu impunemente de 1979 a 1984.”

Foi mais uma vez em que a vida imitou a arte.

Escrito por Enéas Athanázio, 23/11/2020 às 18h16 | e.atha@terra.com.br

UM LIVRO FASCINANTE

Depois de longos anos, tive um reencontro com uma figura exótica e genial: Toulouse-Lautrec. Isso aconteceu nas páginas de um livro fascinante, de autoria de Pierre La Mure, integrante da Academia Francesa, publicado no Brasil pela extinta e saudosa Editora Mérito, responsável por um catálogo de primeira linha, em tradução de Lígia Junqueira, tradutora respeitada pela perfeição de suas versões. Trata-se de “Moulin Rouge” (S. Paulo – 1956).

Henri Marie Raymond de Toulouse-Lautrec (foto) nasceu em Albi, na província francesa, em 24 de novembro de 1864. Era filho do Conde de Toulouse-Lautrec, integrante de antiga linhagem aristocrática que remontava à liderança das Cruzadas, o que constituía motivo de orgulho da família. O menino, portanto, era conde, embora jamais usasse o título. Ele vivia com a mãe e a criadagem em majestoso castelo dotado de luxo e conforto, uma vez que o pai, boêmio e dandy inveterado, permanecia em Paris a maior parte do tempo. A condessa proporcionava ao menino o mais dedicado tratamento e ele retribuía com imenso e sincero amor. Já o pai, nas poucas visitas, planejava para o filho um futuro de luxo e fama, como convinha a um membro da nobreza. Com a mãe, o menino Henri desfrutava de uma vida agradável, com passeios, viagens e toda sorte de diversões. Até que chegou a idade escolar e ele teve que ser enviado à escola, acontecendo a primeira separação da mãe, fato que o marcou de forma profunda. No colégio, porém, houve uma compensação: conheceu Maurice, que seria dedicado amigo durante toda a vida e com quem firmara o pacto de irmão de sangue.

O menino crescia forte e bonito, revelando aguda inteligência. De repente, sem razão plausível, começou a sentir fortes dores nas pernas e parou de crescer. Não conseguia caminhar, permanecia acamado, gemendo sem parar. Médicos do maior renome foram chamados mas não encontravam remédio para a estranha moléstia. Recomendavam temporadas em estações de águas medicinais e assim ele e a mãe peregrinaram por quantos balneários existiam na França. Sem resultado. O menino só crescia da cintura para cima enquanto as pernas, atrofiadas, permaneciam finas e fracas, só permitindo um andar desajeitado, amparado numa bengala. À medida que os anos passavam, constatava-se uma terrível realidade: Henri se tornou um anão desconforme e muito feio, tanto de corpo como de rosto. Diante da cruel realidade o pai se afastou do filho e só se encontrariam raras vezes ao longo da vida. O conde se sentia frustrado nos projetos que arquitetara para o filho.

Mas a natureza, piedosa, concedeu uma compensação. Desde menino, Henri revelava extraordinário talento para o desenho e estava sempre traçando retratos de pessoas e paisagens. Esses trabalhos infantis provocavam a maior admiração e grande parte deles se encontra hoje nos museus. Já moço, Henri sentiu necessidade de um ambiente mais livre onde pudesse se dedicar à arte. Contrariando a condessa, que temia pela sua saúde, parte para Paris e se instala no bairro boêmio de Montmartre. Ali aprimora o desenho e a pintura e passa a usar outras técnicas, inclusive a gravura. Prepara-se para tentar o ingresso no “Salon”, a mais importante e consagradora exposição da capital francesa, mas é recusado porque seus quadros foram considerados muito revolucionários, retratando a vida simples do povo. Enquanto isso, ele se entregava à boêmia, frequentando todo tipo de casas de mulheres, desde as mais luxuosas até as mais sórdidas, e chegando a morar por algum tempo em uma delas. Conhecia as mulheres pelos nomes, tornou-se confidente de algumas e pintou os retratos de muitas. Descobriu que a ingestão de conhaque aliviava sua dor nas pernas e passou a consumir doses cada vez maiores da bebida, tornando-se incurável dependente. Tomava grandes bebedeiras, caía e se machucava, adormecia sobre as mesas de bar. Seu modo de vida escandaliza a nobreza; ele encolhe os ombros e ri do falso pudor dos aristocratas. Torna-se famoso, é reconhecido aonde vai e seus quadros começavam a aparecer nas vitrines das galerias, despertando o interesse dos maiores marchands. Convive com a ralé do bairro e retrata com insistência o cancan, dança popularesca e sensual considerada imoral pelos conservadores. É visto sempre numa roda de aspirantes a artistas, entre os quais se destaca Vincent Van Gogh.

Numa dessas noitadas conhece um alsaciano de nome Zidler que planejava a criação de uma boate sem similar em todo o mundo e para a qual procurava o melhor. Bailarinas, atrizes, recepcionistas, garçons, barmen, gente da retaguarda. Para isso erigiu um prédio em formato de moinho, pintado de um vermelho vivo, iluminado de maneira feérica, destacando-se no centro do bairro. Era o Moulin Rouge que nascia, tornando-se desde logo uma das maiores atrações da capital e repercutindo em todo o mundo. Henri se alistou entre os frequentadores mais assíduos e lá pintava seus quadros inspirando-se em cenas vivas e coloridas.

A boate, no entanto, começou a declinar. Zidler decide promover intensa campanha publicitária e procura Henri. Quer que ele desenhe e imprima um cartaz monumental em litografia, ou seja, impressão na pedra, um dos gêneros mais difíceis da arte gravurista. Henri reluta, Zidler insiste, o artista cede. Sem experiência, Henri se aproxima de Père Cotelle, a maior autoridade no assunto, e passa a frequentar sua oficina. Em pouco tempo dominou a técnica, causando geral espanto. E assim nasceu o cartaz sobre o Moulin Rouge, colorido, vibrante, exibindo nítidas cenas de cancan. Em poucos dias ele aparecia em paredes, muros e fachadas de toda Paris e o nome de Toulouse-Lautrec caiu na boca do povo e nas colunas de jornais.

-É indecente! – diziam.

-É uma obra de arte! – replicavam outros.

-É imoral! – afirmavam muitos.

-É uma obra-prima! – bradavam outros tantos.

Os críticos se renderam à beleza da obra e ao talento do artista, consagrando-os nas suas análises e Henri entrou para sempre no mapa artístico francês. A campanha impulsionou a obra de Henri, cujos quadros alcançaram elevados preços e começaram a repercutir no exterior.E o Moulin Rouge se levantou e firmou.

Mas se a carreira vai bem, os amores vão de mal a pior. Denise, o grande amor da juventude, o repele com palavras ásperas, tachando-o de feto e aleijado; Marie Charlet chega a viver com ele no estúdio, exigindo cada vez mais um dinheiro que repassa ao gigolô, até que ele a expulsa; a linda e suave Myriame o abandona sem explicações quando ele se encontrava no exterior acompanhando uma de suas exposições. Solitário, só lhe resta o amor mercenário das mulheres da vida. Amargurado, afunda no conhaque e começa a definhar. Doente e fraco, refugia-se em Albi e se entrega aos cuidados da mãe. A condessa se desdobra em tratamentos e atenções, mas tudo é inútil. Ele não caminha mais e permanece acamado o tempo todo. Nos dias derradeiros recebe a visita do pai, arrependido do abandono em que deixara o filho infeliz.

Pouco antes de partir, Henri recebe um telegrama de Maurice, o irmão de sangue:

“O governo acaba de aceitar a coleção Camondo para o Louvre. Você venceu, Henri!”

Era uma compensação final à recusa do “Salon.”

No silêncio de Albi, diante de uma mãe desolada, desaparece um artista que o mundo todo venera. Foi em 9 de setembro de 1901.

Tinha 37 anos de idade.

Escrito por Enéas Athanázio, 16/11/2020 às 20h37 | e.atha@terra.com.br

DOIS LIVROS NOVOS

Sânzio de Azevedo, escritor cearense, professor da UFC e doutor em letras é um pesquisador diligente e minucioso. Seus trabalhos no campo do ensaio são sempre profundos e vão até os últimos detalhes. Deixam a sensação de que ele lê, relê e treslê sem cansaço cada palavra, no caso da prosa, e cada verso, no de poesia, comparando, observando e interpretando para penetrar no âmago do que o autor analisado pretendeu expressar. Eu o imagino de livro em punho, no silêncio da sala, afundando pela noite a rebuscar textos e seus sentidos para bem enquadrá-los na escola a que pertencem, as influências sofridas, a técnica empregada e tudo mais. É um desses analistas que não existem mais ou, pelo menos, não os tenho encontrado nas minhas leituras.

“Escritores de outras plagas” (Expressão Gráfica e Editora – Fortaleza – 2020), seu livro mais recente, é uma confirmação cabal do que afirmei acima. Nele o autor se entregou com afinco à análise das obras de cinco autores de grande renome, alguns deles pouco lembrados, praticando uma obra ressuscitadora e justiceira. São eles: Raul de Leoni, Da Costa e Silva, Victor Hugo, Guerra Junqueiro, Antônio Nobre e uma página memorialista envolvendo Pedro Nava. Cada análise é realizada com extremo cuidado, revelando a erudição e o conhecimento do autor.

No caso de Victor Hugo, ele se entregou ao estudo de toda a obra romanesca do celebrado escritor francês, comentando cada um de seus romances no contexto em que foram escritos e levando em conta as condições existenciais do autor. “Os Miseráveis” é comentado de maneira magistral e me fez reviver os dramas de Jean Valjean, condenado por um furto famélico, como dizem os juristas. Todos os demais romances são abordados, assim como a fortuna crítica que mereceram e acentuando seus aspectos mais importantes. O ensaio é uma notável contribuição para o conhecimento da formidável obra de Victor Hugo com o detalhe de que foi produzido por um brasileiro.

No caso dos poetas, a análise se aprofunda aos menores detalhes. Acentua a escola a que se filiou o poeta, as inclinações para outros sentidos, as influências recebidas e as concessões a outras tendências. Tudo é analisado estrofe por estrofe, verso por verso, palavra por palavra. Sobre Raul de Leoni, ele diz: “Não foi um parnasiano. Sua poesia aproxima-o bem mais do Simbolismo, não obstante ser inteiramente alheio a algumas notas dessa corrente.” Uma observação arguta de quem muito leu, comparou, interpretou. Da Costa e Silva, o poeta-mor do Piauí, é evocado num ensaio raro sobre ele e sua obra. O autor do magnífico soneto “Saudade” é filiado ao Sincretismo mas com uma nota forte de telurismo, como exemplificam o referido soneto e outros poemas. O rio Parnaíba, grande mar interno do Piauí, atravessa toda sua obra e foi por ele batizado de Velho Monge. Conclui o ensaísta, afinal, que Da Costa e Silva foi acima de tudo um Simbolista. Um bom e merecido ensaio evocando a obra do extraordinário poeta do Piauí, pelo qual aquele povo tem verdadeira admiração.

Todos os demais autores são abordados com a mesma dedicação e idêntico empenho. É um livro para ler, reler, pensar e aprender. São verdadeiras aulas de literatura, poética e história da literatura daqui e d’além. Está de parabéns o Prof. Sânzio de Azevedo pela publicação deste modelar conjunto de ensaios.


Outro livro que merece atenção é “Nas entrelinhas da vida” (Sarau de Letras Editora – Mossoró – 2020), de autoria de Ieda Chaves Freitas (foto), escritora potiguar radicada em Florianópolis. Trata-se de uma coletânea de crônicas escritas com esmero no correr dos dias e tendo como elo de ligação o amor pela vida, essa febre que acomete os viventes. Segundo me parece, a cronista age como recomendava Gilberto Amado, prestando atenção à vida e recheando cada minuto.

As crônicas são bem escritas, em estilo vivo e elegante, e visam celebrar a vida cujos caminhos a autora vem percorrendo com intensidade. O cenário que elas traçam é sempre descrito em tons suaves como o pintor faz nas aquarelas. São sempre escolhidas palavras suaves, de sorte que a intensidade é acentuada pelo descritivo e não pelo peso de um vocabulário forte. São páginas saídas de quem festeja cada momento vivido.

Nesse afã ela comemora as conquistas profissionais, a família, os filhos, os parentes e os amigos, ressaltando o que vislumbra de positivo em cada um deles, filtrando com olhares agudos a personalidade de cada um. Embora seja arriscado afirmar, são crônicas de uma pessoa feliz. É um livro para ler em momentos relaxados, sentado numa poltrona confortável, avistando o mar de um lado e o verdor da mata de outro.

Meus parabéns à catarinense por adoção e meus votos de muito sucesso  para sua obra. Concluiria dizendo que o livro está muito bem editado, casando-se com o conteúdo, pelo que a editora merece aplausos. 

Escrito por Enéas Athanázio, 09/11/2020 às 17h39 | e.atha@terra.com.br

GUERRA AO LIVRO

Nos anos 20 do século passado, o escritor Monteiro Lobato saiu em campo na defesa do livro. O governo federal, cedendo à ganância do fisco, pretendia criar um imposto sobre o papel destinado à impressão de livros, ferindo de morte a incipiente indústria livreira nacional. Em sucessivos artigos, publicados nos grandes jornais, hoje recolhidos à segunda parte do livro “Mr. Slang e o Brasil”, de suas Obras Completas, ele fustigou a infeliz iniciativa com palavras candentes. Encontrou aliados no Congresso Nacional e vozes credenciadas se elevaram na condenação do projeto.

Entre outras coisas, escreveu Lobato: “É um profundo golpe em nossa débil, incipiente cultura... A cultura se faz por meio do livro. Asfixiar o livro é matar a cultura, Esse ônus equivale àquela famosa medida adotada pelo governo português contra os prelos do Brasil-colônia, mandando-os destruir a marreta. A mentalidade metropolitana d’antanho irmana-se agora com a mentalidade dos nossos republicaníssimos fazedores de leis. Ambas querem a mesma coisa: trevas mentais. Todos os povos civilizados procuram aplainar por todos os meios o caminho da cultura. Matá-lo (o livro) por estrangulação imediata: garrote velho! “

Esses desabafos de Lobato me vieram à memória ao ler nos noticiários que o governo federal pretende taxar o livro, lançando um imposto sobre ele. A esdrúxula justificativa é a de que o livro é um objeto de luxo. Para as pessoas de menores recursos seriam oferecidos livros gratuitos. Confesso que custei a acreditar nos meus olhos, mas é isso mesmo. É inacreditável mas verdadeiro.

Numa só jogada, o governo torna o livro inacessível e faz uma lavagem cerebral através dos livros doados. Faz lembrar o que acontecia na ditadura Vargas, quando milhões de livros eram distribuídos endeusando o “papai dos pobres.” Só que agora os endeusados serão outros. Como disse Lobato, são as trevas mentais rondando o país.

Mais deprimente ainda é que ninguém protesta, nem mesmo os editores, livreiros e instituições culturais. Em qualquer outro país a notícia provocaria uma enxurrada de manifestações, mas tudo indica que por aqui vai passar batida. O país lê muito pouco e com o livro encarecido lerá ainda menos. Será esse o objetivo?

Lobato faz muita falta.
 

Escrito por Enéas Athanázio, 02/11/2020 às 10h28 | e.atha@terra.com.br

NO VALE DO GENGIBRAL

Recordar é viver ou é sofrer duas vezes? Não sei qual das hipóteses é a verdadeira, mas o fato é que muitas pessoas, no meio literário, se entregam com afinco ao trabalho de escrever suas memórias. Grandes escritores têm lançado no papel os acontecimentos de suas existências, alguns deles obtendo aceitação incomum e se notabilizando com elas, a exemplo de Humberto de Campos, Gilberto Amado e Pedro Nava. No caso de Gilberto, o sucesso de suas memórias obscureceu o restante de sua obra, hoje em dia votadas ao esquecimento. Curioso é observar que memórias, autobiografias e biografias durante longo tempo não foram bem aceitas como se fossem um gênero literário inferior. Com o passar dos anos, porém, conquistaram seu espaço e se tornaram gêneros com inumeráveis leitores cativos, entre os quais me incluo.

Dentre as obras memorialistas recentes destaca-se “No Vale do Gengibral – Das terras da lendária dona Beja ao sertão de Goiás”, de autoria do escritor goiano Edir Meirelles e que me foi gentilmente oferecido por ele (Editora Kelps – Goiânia – 2017). Radicado no Rio de Janeiro, o autor é figura destacada da União Brasileira de Escritores (UBE/RJ), da qual foi presidente, e tem vários livros publicados, sem contar a volumosa produção jornalística. Neste livro dois aspectos merecem referência desde logo. O primeiro é o incessante crescimento da narrativa até seu clímax e o segundo a circunstância de que o autor-narrador abre o livro na condição de clandestino por ser perseguido político durante a ditadura. Assim, cria uma expectativa que só será desvendada nas derradeiras páginas. Recurso inteligente que prende o leitor até o fim.

Tudo tem início quando o jovem casal Orozimbo e Ibrantina afunda no cerrado goiano em busca de um local para estabelecer sua fazenda. Vencendo longas distâncias, em lombo de cavalo, vai dar nos ínvios de um vale inóspito e selvagem e ali decide fincar as raízes da família. O casamento deles havia sido “ajeitado” pelos pais. Desde então o casal inicia a luta árdua com a natureza e a fazenda prospera ao mesmo tempo em que nascem os filhos, entre estes o autor. Vida rústica, pobre, típica dos sertanejos, mas livre e feliz. O inesperado, porém, acontece e o pai falece aos 33 anos de idade, deixando a mãe com os filhos e sem maiores recursos. Logo surgem os pretendentes e um padrasto entra na família. Homem usurário ao extremo, inferniza a vida das crianças e tenta impedir que estudem. A mão forte da mãe, no entanto, equilibra a situação e todos buscam seu destino. É ela quem relata as peripécias da família, permitindo a reconstituição de todas as fases e que aparece sempre como pano de fundo das memórias do autor. O relato assume ares de um romance histórico e documental, tal a quantidade de fatos e detalhes trazidos ao texto.

A linguagem é escorreita, as frases bem construídas e as palavras aplicadas com correção, revelando um escritor tarimbado e dono da língua. O relato é bem encadeado e leva com segurança ao epílogo. No correr do texto ficou evidente para mim a semelhança com o falar aqui do Sul. Exceto alguns nomes de acidentes geográficos, plantas e expressões populares, não percebi diferenças. É um regionalismo mais de fundo que de forma, para usar a conhecida divisão.

O livro de Edir Meirelles é um trabalho escrito com sinceridade e emoção e por isso espelha mais que a vida porque, como dizia Gilberto Amado, literatura é mais que vida porque é a vida ampliada no coração do artista. 

Escrito por Enéas Athanázio, 26/10/2020 às 10h25 | e.atha@terra.com.br

RECEITA DE BEM VIVER

Graças à gentileza do amigo Trajano Pereira da Silva, recebi um livro que é verdadeira raridade (*). Trata-se do penúltimo volume que integra a coleção das memórias de Gilberto Amado, considerado dos maiores memorialistas brasileiros de todos os tempos, só igualado por Humberto de Campos e Pedro Nava. Nesse volume há o capítulo denominado Maturidade que constitui verdadeiro guia ou receita de bem viver. Escrito quando o autor atingia o apogeu de sua capacidade intelectual, depois de superados os graves problemas com que se deparou, ele medita sobre o passado e sobre a maneira como fruir a vida com tranquilidade e paz de espírito. Gilberto Amado amou a vida como poucos e em sua longa existência sempre soube aproveitar tudo de bom que ela lhe concedia. O segredo, dizia ele, é rechear o minuto, nunca permitindo que o tempo o esvazie. Tinha o chamado sentimento lúdico da vida. Muitas de suas reflexões sobre esse tema estão no capítulo referido.

Em primeiro lugar – escreveu ele – “cabeça e coração devem se entender bem. Nada de contradições separando-nos ou quebrando-nos em pedaços soltos. Nenhum complexo ou recalque.” Desde muito cedo, continua, “preparava-me para suportar a dor, amenizá-la quanto possível, não dramatizar o acontecido, encadear o inesperado na corrente do cotidiano.” A dramatização dos fatos, em especial dos negativos, parece ser uma constante no ser humano. E com isso o mal acontecido se avulta, ganha dimensões dramáticas, muitas vezes acima da gravidade real. “Minha primeira obrigação a meu respeito – declarou – era não deixar o sofrimento me subjugar. Para isso penso que muito me serviu o estudo, o exame das causas das coisas, a boa literatura que explica sem explicar, mostrando só.”

Mais adiante, explica como enfrentar com equilíbrio o ruim e o bom de cada dia. “Naturalmente cada hora me trazia uma pena, cada dia o seu aborrecimento. Se viver não é fácil, conviver é o diabo. Mas quem pensa que o seu mal é único, engrandece-se por falta de imaginação. Seu mal é de muitos. Não há sofrimento inédito, nem original. Quase tudo é plágio, réplica, reprodução, imitação.” Os remédios para enfrentar o negativo são simples e práticos. Diz o escritor: “Uma manhã de praia me forra para o dia todo contra o que vier de desagradável depois. É preciso não esquecer, na hora do aborrecimento, o prazer fruído momentos antes, guardá-lo bem no paladar para que a boca possa receber sem engulho o mau bocado que há de vir.” Mais além, outra observação interessante: “Não sou dos que levam jornal ou livro para ler deitado na areia. Considero isso um absurdo. A praia é do corpo e daquela parte do espírito que ajuda o corpo a aproveitar a praia.” Gilberto foi praiano convicto e exímio nadador.

O homem moderno, sempre atarefado, não contempla mais a natureza. Ele, porém, se conservou fiel “ao namoro habitual com as coisas amanhecentes” e de sua janela contemplava o espetáculo que é o nascer de cada novo dia. Depois de várias observações a respeito da invasão das praias pelas multidões, do telefone, “esse estuprador do silêncio”, e da barulheira infernal dos tempos modernos, conclui: “O homem de quem Deus gosta é o de carne e osso, tanto que não lhe ressuscita apenas a razão mas o corpo todo. Prazer usufruído nos ajuda a compensar com a lembrança dele o desprazer superveniente.”

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(*) “Presença da Política”, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1ª. Edição, 1958, págs. 303 a 314.
 

Escrito por Enéas Athanázio, 22/10/2020 às 10h24 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.