Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

O “CANUDINHO”

A faixa de terras entre os rios Canoas e Pelotas, formadores do Uruguai, foi conhecida em geral como Entre-Rios. Por ela passa a chamada estrada velha, ligando Campos Novos a Lages, fazendo-se a travessia do Canoas através de uma balsa de cabo tirada a muque pelo balseiro (*).

Ali se situa hoje o município de Celso Ramos, desmembrado de Anita Garibaldi, minha primeira comarca como Promotor de Justiça.

Nessa região surgiu, no final do Século XIX, um movimento messiânico sobre o qual ouvi algumas referências mas que foi pouco estudado, sendo, em consequência, um episódio quase desconhecido de nossa história. Lendo agora o excelente livro “Lideranças do Contestado”, de autoria do historiador e professor da UFSC Paulo Pinheiro Machado (Editora da UNICAMP – Campinas – 2004), deparei com breve relato desse fato que ficou conhecido como “Canudinho”, ou seja, um “Canudos” pequeno, e que julgo merecedor de um comentário.

Paulo Pinheiro Machado (Divulgação)

Segundo o autor, entre agosto e setembro de 1897, um comerciante de nome Francelino Subtil de Oliveira, associado a um homem a quem chamavam “São” Miguel ou “São” Miguelito, que se declarava primo-irmão do “monge” João Maria, “estabeleceram o culto a uma forma rochosa que havia na região, afirmando que a pedra era uma santa que estava encantada.” Para libertar a santa, os devotos tinham que fazer preces e ladainhas sem fim, entoar cantos e confessar-se com Francelino, o “puxador” das orações. Como penitência dos pecados praticados, deveriam permanecer algum tempo com pesada pedra sobre a cabeça. Os devotos da nova fé passaram a se reunir no local, onde não tardou a nascer um vilarejo com cerca de oitenta ranchos e trezentos moradores. E como esse tipo de apelo “religioso” tem grande poder de atração, pessoas pobres, doentes e marginalizadas começaram a afluir ao local, ameaçando a formação de um reduto ou arraial, fato que assustou as autoridades da região (p. 173).

Os “coronéis” Henrique Rupp e Lucidóro Luiz de Mattos, ambos de Campos Novos, solicitaram a intervenção do Estado para debelar o surto messiânico. Soldados do Regimento de Segurança do Estado e homens de confiança daqueles “coronéis” tentaram atacar o povoado, mas, para surpresa deles, foram repelidos a tiros pelos devotos enfurecidos e por estes perseguidos até a entrada da então Vila de Campos Novos, distante cerca de quarenta quilômetros. Foi o vexame dos vexames, e os sertanejos, sagrados heróis pela boca do povo, tiveram sua bravura entoada em prosa e verso, espalhando-se por toda a região. Alarmado, o governador enviou nova expedição armada, contando com auxílio de forças gaúchas, e assim foi debelado o foco revolucionário que ameaçava imitar Canudos, na Bahia, onde as derrotas governistas se repetiam. Destruída a povoação, o episódio logo foi esquecido, ainda que contribuísse para o desgaste político daqueles “coronéis”, cujo prestígio estava em decadência. Segundo o autor, teria havido uma chacina no Entre-Rios (p. 174).

O novo “monge”, que se dizia “São” Miguel, tirou partido da devoção que existia em relação a João Maria, cuja pregação impregnava a região, chamando a atenção do povo e fazendo profecias apocalípticas, como o fim do mundo no virar do Século, as pesadas pragas que viriam e outros males. Com o aumento dos moradores, começaram os inevitáveis abusos, como brigas, saques de roças e fazendas, furto de gado e porcos. Por outro lado, o movimento revelou a existência de uma “população errante, suscetível de seguir até o fim suas lideranças religiosas e as pessoas estavam disponíveis a qualquer tipo de luta” (p. 174).

O “Canudinho”, tema pouco explorado, está à espera dos pesquisadores. E fica aqui no Estado, em região de fácil acesso e investigação.

(*) Hoje existem pontes.  

Escrito por Enéas Athanázio, 24/12/2019 às 12h06 | e.atha@terra.com.br

POR AMOR À MÚSICA

Dmitri Shostakovich

Com origens siberianas, Dmitri Shostakovich (1906/1975) nasceu em São Petersburgo em uma família de antigas tradições revolucionárias e de acentuada tendência musical. Desde seu avô, vários membros da família participaram de algumas das tantas insurreições populares que marcaram a história russa. Por outro lado, o amor e o cultivo da música foram uma constante, e sua mãe, Sonya, mulher de grande coragem, foi extraordinária pianista e liderou a família com habilidade e valentia, mesmo nos momentos em que esteve beirando a miséria. Desde cedo percebeu a genialidade do filho e o estimulou sempre na busca da realização artística. Graças a ela o clã familiar se manteve unido e ativo.

No período pós-revolucionário, nos anos posteriores a 1917, o país viveu tempos aflitivos. Toda a economia se desorganizou em virtude da mudança de regime e as carências se sucederam. Foram dias, meses e anos de privações, racionamento, desabastecimento, frio e medo. O desemprego campeava, enquanto se multiplicavam os boicotes, as sabotagens e toda sorte de resistência à implantação do novo sistema econômico. Havia desemprego e os salários eram miseráveis. Apesar de tudo, porém, os Shostakovih lutavam com bravura pela sobrevivência e nunca deixaram de cultivar a música. O jovem Dmitri, chamado de Mitya pelos familiares, aos treze anos de idade já se revelava exímio pianista e até realizava pequenas composições musicais.

Dotado de constituição frágil, embora de postura elegante, o rapaz estudava e estudava. Frequentou aulas particulares com mestres renomados, fez cursos em escolas famosas e passou por importantes conservatórios. Seu talento era exaltado e suas produções musicais começaram a aparecer e despertar vivo interesse. Grandes maestros e virtuoses por elas se interessaram e a crítica as aclamou. Suas obras passaram a ser apresentadas em São Petersburgo, Moscou a outras cidades europeias, sempre atraindo numeroso público e merecendo o aplauso dos “experts.” Já casado, Dmitri melhorou de condição financeira e passou a desfrutar uma vida de fausto e luxo, desaprovada pela mãe, cujo senso prático não via aquilo com bons olhos. Apesar do sucesso, ele se torna nervoso e irritadiço, não poupando nem mesmo os familiares.

Tudo corria bem, sua obra estava consagrada, a vida prosseguia numa linha ascendente. Mas, como raios que caem do céu sem aviso, dois editoriais do “Pravda”, jornal oficial do governo e do partido, o fulminam. Com mão pesada, a censura o acusa de produzir obra burguesa, afastada dos interesses do povo e, portanto, condenável. Usando das costumeiras frases feitas e expressões de sentido duvidoso, os censores reprovam suas produções, em especial a ópera “Lady MacBeth do Distrito de Mzensk”, sobre a qual recai o ódio virulento da censura. Nela o compositor procura tornar simpática a vilã de um conto célebre, o que parece ter irritado o todo-poderoso Stálin, cuja mão era sentida por detrás dos editoriais. Pareciam entender que a edulcoração de uma criminosa não ficava bem, ainda mais no exterior, no contexto da Guerra Fria.

Em consequência, Dmitri cai no ostracismo. Suas obras são retiradas dos repertórios, perde as mordomias, é forçado a tocar nos cinemas, como outrora, e permanece esquecido por longo tempo. Mais tarde, após a morte de Stálin, reconquista sua posição, recupera o espaço e sua música volta a ser executada, não apenas na Rússia mas em todo o mundo. Desde então é colocado entre os grandes compositores da música universal. Foi autor de 59 composições de elevado sentido musical, segundo relações efetuadas por seus biógrafos, entre eles Victor Seroff, cujo livro foi traduzido por Guilherme de Figueiredo e publicado no Brasil, com excelente prefácio de Mário de Andrade. Nessa relação não estão incluídas as obras que permanecem em manuscrito.

Apesar das dificuldades e dos tropeços, o gênio de Dmitri Shostakovich se realizou na plenitude e sua obra é reverenciada em todo o mundo pelos apreciadores da boa música.

Outro excelente livro sobre o compositor é “O ruído do tempo”, de autoria de Julian Barnes, um dos expoentes da moderna literatura britânica (Editora Rocco – Rio de Janeiro – 2017). Nele o autor revela o sofrimento de Shostakovich, espírito sensível, diante da pressão a que foi submetido antes e depois da reabilitação. Teve que ler discursos que não escreveu, assinar artigos que não eram escritos por ele, fazer declarações que contrariavam seu pensamento e se conformar com uma vigilância permanente. Nomearam-lhe até mesmo um orientador com o objetivo de “reeducá-lo.” Em certa fase, temendo ser preso a qualquer momento, permanecia horas a fio em pé, diante do elevador e com a mala na mão para poupar a esposa de um trauma ao ser retirado da cama na calada da noite, como acontecia com frequência. Estarrecedor.

Escrito por Enéas Athanázio, 16/12/2019 às 13h14 | e.atha@terra.com.br

O BARULHO DO TEIXEIRA

Advogado com longa militância no Rio de Janeiro e folclorista, Francisco de Vasconcellos é autor de uma obra ampla e variada que não cessa de crescer. Tem abordado os mais diversos temas da chamada cultura popular de vários pontos do país, sempre fundamentado nas melhores fontes e em pesquisas próprias. Em seu mais recente livro, - “Temas de Feira e de Cordel” (Arteg Impressões – Juiz de Fora – 2019), - focaliza três curiosos eventos da vida sertaneja e seus personagens, além de realizar interessante incursão no exame da poesia popular.

No primeiro deles analisa um episódio que ficou gravado na memória do povo e que aconteceu na remota Vila do Teixeira, povoado pobre e desconhecido do sertão da Paraíba. A mulher, a terra e a política, ressalta o autor, eram as causas de frequentes lutas de famílias que se tornavam inimigas. No caso em tela, tudo indica que a política colocou em posições opostas os Dantas, conhecidos como a Família Terrível, e os Nóbregas. A serviço dos primeiros estavam os Guabirabas, “mestres nas tocaias, nos insultos e nas insinuações malévolas. Sua crueldade não conhecia limites...” Delphino e Liberato, delegados em sucessão, teriam perseguido os Dantas, adversários políticos, tendo aquele se afastado do cargo para que assumisse o segundo.

Cirino Guabiraba, um dos irmãos facínoras, envia ao delegado Liberato um recado atrevido: estaria na feira da Vila e, de fato, lá compareceu quando ela estava no auge. Saindo um por um, para não despertar suspeitas, os homens do delegado prepararam uma tocaia num local por onde Cirino teria forçosamente que passar. E ali o mataram à traição, não lhe permitindo nem sequer confessar-se, enquanto o cavalo ensanguentado voltava para casa e dava o sinal de que o dono fora preso ou morto. A família se movimenta para o revide e tanto Liberato como Dekphino foram mortos, embora este, a rigor, não participasse dos acontecimentos. Seguiram-se outros desdobramentos e os episódios entraram na história como o Barulho do Teixeira.

Barulho do Teixeira atraiu a atenção dos cantadores de feiras e da literatura de cordel, tendo variadas versões. É tema de livros de Pedro Batista e de Gustavo Barroso, tendo ultrapassado as fronteiras nordestinas para ecoar no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e no Espírito Santo. O cantador Hugolino Nunes da Costa seria o autor da primeira versão rimada e metrificada dos acontecimentos. Outros poetas populares também se dedicaram ao assunto.

Nesse período histórico o cangaço vicejava em todo o Nordeste. Apesar das volantes policiais que os perseguiam, os bandos de cangaceiros aterrorizavam as populações indefesas das pequenas cidades e vilas. O caso de Cirino caiu no gosto do povo, talvez pela valentia com que tentou reagir ou por ter morrido sem padre e confissão.

Com seu ensaio, Francisco de Vasconcellos reaviva um episódio dos mais conhecidos e cantados nas feiras populares.

Nos ensaios seguintes, o autor analisa a figura e a época do Valente Valério que, de bandido virou santo, e, a seguir, a de Inácio da Catingueira (1845/1879), herói cultural de seu povo, escravo, pobre e analfabeto que se tornou um dos maiores cantadores e poetas populares do sertão, falando pela gente miserável e conquistando os corações. Jamais foi esquecido. O ensaio de Vasconcellos é merecida homenagem

Para fechar seu belo livro, o autor tece eruditas considerações sobre a hipérbole na poesia popular.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/12/2019 às 12h35 | e.atha@terra.com.br

JORGE AMADO EM CORPO INTEIRO

Jorge Amado foi dos poucos brasileiros que viveu na plenitude a vida do escritor. Foi profissional das letras e delas tirou o sustento. Nunca quis escrever memórias ou autobiografia. Em sua obra, o livro que mais se aproxima do gênero é “Navegação de Cabotagem”, repertório de recordações de pessoas, lugares e fatos, embora sem a ordem e o método costumeiros. Relatou muito de sua vida em entrevistas mas isso nunca foi organizado e publicado em conjunto. É curioso notar que só teve um biógrafo em vida, Miécio Tati, mas parece que o livro não mereceu boa aceitação e foi pouco comentado.

Agora, porém, surge uma biografia para valer, compensando a ausência de outras. Trata-se de “Jorge Amado – Uma biografia”, de autoria de Josélia Aguiar (Todavia Editora – S. Paulo – 2018 – 635 págs.). Baiana de Salvador, radicada em São Paulo, a autora é jornalista e historiadora. Foi correspondente da “Folha de S. Paulo” em Londres, editora da revista “Entrelinhas” e curadora da Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP). Dedicou nada menos que sete anos à confecção desta obra.

A narrativa tem início nos dias do menino grapiúna correndo solto no meio cacaueiro da Bahia, convivendo com as pessoas e absorvendo a cultura local. Depois, os duros tempos do internato, de onde foge e vai se abrigar na casa do avô, fazendo longa caminhada a pé e sozinho. Acontece a primeira paixão, ardente e arrebatada, mas que acaba em nada. A mudança para o Rio de Janeiro para estudar Direito, entregando-se a intensa militância literária, escrevendo para os jornais, e exercendo grande atividade política. Nesse período faz amplo relacionamento com numerosas pessoas com as quais se cruzará em muitas outras oportunidades.

Com o lançamento do primeiro romance, “País de Carnaval”, tem início a carreira literária. Embora o autor fosse muito jovem e com pouca experiência, o livro desperta a atenção da crítica e agrada aos leitores. A partir daí, não cessa de escrever e publicar. Com o passar dos anos sua obra vai se aprimorando, é muito lida e ele se transforma no escritor mais célebre do país. Viaja muito, conquista prêmios e distinções, seus livros são traduzidos para 49 idiomas. É dos raros brasileiros que enriquece com a literatura.

A militância política não cessa e as perseguições acontecem em vários períodos de nossa confusa vida institucional. Eleito Deputado Federal por São Paulo, tem o mandato cassado em 1948 por decisão da Justiça Eleitoral, em pleno regime democrático e na vigência da Constituição de 1946. Têm início os diversos exílios a que é forçado. Esconde-se em Estância, no interior de Sergipe, onde fica em paz e muito escreve. Mais tarde iria para a Argentina, o Uruguai e Paris, sendo expulso da França por pressão do governo brasileiro, e para Dobris, na antiga Tchecoslováquia. Lá, ele e a esposa Zélia vivem por longo tempo e nasce a filha Paloma. Regressando ao país, vai se afastando da militância política, ingressa na Academia Brasileira de Letras e se muda para Salvador, passando a viver na célebre Casa do Rio Vermelho, à rua Alagoinhas 33. Conhecido em todo o mundo, vive cercado pelos amigos, seus romances são adaptados para o cinema, o teatro e a televisão, e continua viajando. Como diz a biógrafa é ali, na Bahia, que se dá o outono do patriarca.

O pensamento do escritor e suas variações no correr do tempo sobre temas cruciais é abordado pela autora com clareza e segurança, sempre com base em sólidas fontes. Jorge Amado jamais abdicou de suas convicções políticas e formou sempre com as correntes progressistas.

Assim foi, em largas pinceladas, a rica existência de Jorge Amado. A autora esmiúça todas as fases da vida do escritor com impressionante quantidade de detalhes e informações. Para isso se valeu de imensa bibliografia, consultando livros, revistas e jornais velhos, arquivos e documentos, sem falar nas incontáveis entrevistas que realizou e nas constantes releituras da obra do próprio biografado. Rico álbum de fotografias enriquece ainda mais a obra.

Os admiradores do escritor baiano podem ter agora um retrato em corpo inteiro de Jorge Amado e a resposta para todas suas indagações.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/12/2019 às 10h11 | e.atha@terra.com.br

A HISTÓRIA DA ESCRITA

Adovaldo Fernandes Sampaio é um dos maiores linguistas do país. Tem produzido obras fundamentais sobre os temas de sua especialidade e que são autênticos marcos no campo da linguística. Cabe mencionar, dentre elas, “Línguas e dialetos românicos e germânicos”, livro enciclopédico, revelador de impressionante erudição, e que comentei nesta coluna (Editora Kelps – Goiânia – 2010). No ano anterior, pela Ateliê Editorial (S. Paulo), havia publicado “Letras e memória – Uma breve história da escrita”, livro que encanta pela beleza e fascina pelo conteúdo. Em tamanho grande e fartamente ilustrado, é o resultado de anos de pesquisas, trabalho e dedicação de quem não se contenta com o comum, o ordinário, o convencional.

Não satisfeito com as fontes disponíveis, o ensaísta estendeu uma rede de contatos com entidades e especialistas de diferentes áreas do conhecimento em todo o mundo. Com paciência e organização, fez contatos que lhe trouxeram informações valiosas que enriqueceram seu trabalho e lhe deram ainda maior base científica. Consultando a relação desses contatos surgem pessoas e instituições da Mauritânia, Croácia, Rússia, Cazaquistão, Alemanha, França, Inglaterra, Índia, Etiópia, Austrália, Geórgia, Turquia e muitas outras, obtendo de cada uma informações, documentos, fotografias e reproduções que lhe forneceram material para enriquecer seu notável ensaio. O resultado foi um livro que considero único.

Mas na busca da história da escrita, objeto maior do livro, o autor afundou no passado da humanidade na caça dos mais rudimentares resquícios da escrita até seu pleno desenvolvimento através de longo e tortuoso avanço. Começa informando que o orgulhoso homo sapiens passou nada menos que 150.000 anos em estado de selvageria e de barbárie. Não tinha a menor ideia do que fosse escrever; era ágrafo. Entre 45.000 e 35.000 anos, movido pela necessidade de comunicação, começou a gravar em paredões sinais e figuras que podem ser considerados os embriões da escrita. Esse costume evoluiu no correr dos tempos e surge na Mesopotâmia a escrita cuneiforme e, mais tarde, no Egito, aparecem os hieróglifos gravados em papiros. São invenções revolucionárias, permitindo o aparecimento da literatura sobre variados assuntos e a formação de bibliotecas. Os fenícios contribuem com seu alfabeto e de avanço em avanço o homem chega ao alfabeto latino que muito tem servido às línguas que o utilizam. A criatividade sem limites conduz por caminhos jamais imaginados até a escrita real e a virtual. Línguas surgem e prosperam; outras morrem ou são abandonadas. E assim, no mundo de hoje, a escrita está em toda parte e as sociedades se organizam em torno dela.

Na sequência, o livro exibe incontáveis reproduções de todos os tipos de escrita e de línguas. É espantosa a quantidade e a variedade desses elementos obtidos pelo autor, permitindo ao leitor fazer ideia segura do que está lendo. Surgem figuras rupestres, caracteres cuneiformes, escrita chinesa, etrusca, hieróglifos e outras. A seguir o livro se estende por diferentes línguas e diferentes escritas. O alfabeto grego, hebraico, árabe, copta, aramaico, samaritano, híndi, cingalês, armênio, persa, gaélico e uma infinidade de outros. Aborda a escrita gótica, o alfabeto cirílico, a escrita quíchua, o alfabeto quadrado, escritas mongol, iídiche, malaio, abcázio e incontáveis outras línguas e escritas, antigas e modernas, faladas por muitos ou por poucos, vivas e mortas, deixando herdeiras ou não. Também há lugar para a língua de sinais, o alfabeto braile, o código Morse, o semáforo, a escrita matemática, a escrita musical, a escrita pictográfica, línguas e escritas imaginárias, escritas universais, escrita hip-hop (grafite e pichação) e até a escrita epidérmica (tatuagem). O Latim, de onde veio nosso musical português, merece tratamento especial.

Tudo isso ilustrado à farta, com clareza e boa definição, num trabalho gráfico da melhor categoria, formando um conjunto impressionante. Acentuo a imensa tarefa que o autor se impôs, manuseando por longo tempo uma enormidade de línguas e dialetos, milhões de palavras, símbolos e desenhos, escritas estranhíssimas, algumas grafadas da direita para a esquerda e caracteres indecifráveis. Trabalho sem similar.

Registro, por fim, a bibliografia de que se valeu o autor. É espantosa pela quantidade, toda estrangeira e da melhor qualidade.

Dizer que o Prof. Adovaldo merece parabéns é muito pouco. Ele merece a consagração.

Escrito por Enéas Athanázio, 25/11/2019 às 10h52 | e.atha@terra.com.br

O ROMANCE DE UMA VIDA

Ao publicar minhas reminiscências do internato, no livro “Vida Confinada”, lançado em 1997, classifiquei-o como autoficção. Eu me rendia à posição mais recente da crítica européia, fundada em princípios psicanalíticos, de que memórias exatamente fiéis aos fatos não existem e que a cada vez que nos lembramos de algum episódio ele volta acrescido de novos ingredientes imaginários ou, ao contrário, despido de alguns detalhes. Eu andava lendo na época alguns escritos da psiquiatra e escritora Betty Milan, que vinha divulgando entre nós esses conceitos inovadores. Alguns resenhistas estranharam um pouco o novo gênero, mas parece que ele não encontrou maior aceitação e permaneceu pouco usado. Como leitor inveterado de autobiografias e memórias, não me lembro de ter encontrado outro livro com tal classificação.

Mas eis que agora me vem às mãos o romance autobiográfico “Innocens Manibus”, de autoria de Vasco de Sant’Anna, publicado no Rio Grande do Sul (2012), e que acabo de ler. Para surpresa minha, ele é classificado como autoficção, vale dizer, é um livro de memórias. É muito mais abrangente que o meu, uma vez que procura reconstituir de forma romanceada toda a existência do personagem central, alter-ego do autor-narrador, desde os bancos escolares até os dias atuais. E nesse particular ele revela o fôlego do romancista, estendendo-se por 330 páginas repletas dos mais variados acontecimentos, sempre contextualizados com a história regional e do país. É um vasto painel que exibe um homem vivido e que, como ministrava Gilberto Amado, nunca foi um distraído mas soube prestar atenção à vida.

As recordações mais antigas remontam aos tempos do seminário. Esses anos de vida reclusa têm a característica de se incrustar para sempre na memória, talvez porque naquela idade ela funciona como disco virgem e retém tudo de maneira indelével. Nessa fase se entremeiam as lembranças da terra natal, típica cidade gaúcha da fronteira com todos seus tiques e cacoetes. É ali que explode como bomba em família a sua revelada intenção de virar padre. Para os machões do clã, aquilo soava como o maior dos despautérios. Onde já se viu semelhante coisa? As reações de Tio Henrique, em particular, são antológicas, e as soluções que indica para debelar a “vexata quaestio” são extraordinárias. E quando é advertido pela mãe do rapaz de que irá para o inferno, ele retruca: “Mas é isso mesmo que eu quero, festa e mulherada. O céu deve ser muito chato, só santos, anjos e beatas!” (p. 25). O dia-a-dia no seminário, com os pequeninos acontecimentos da rotina ganhando relevância aos olhos da garotada reclusa e submetida a rígida disciplina. Surgem os dramas, as comédias, os atos de grandeza e de mesquinharia, como as delações, e tudo mais que é próprio de uma vida vigiada. Mas o tempo implacável se escoa e um dia o rapaz deixa o seminário para ingressar em outras fases da vida. As páginas sobre esse período são intensas e absorventes, talvez o ponto alto do livro.

Marcha da Liberdade (foto Reprodução/Arquivo)

Segue-se o período universitário na busca da profissão. Forma-se em engenharia e se especializa na construção de rodovias. Depois de um casamento algo arranjado, inicia a lenta e dura luta pela afirmação profissional. A ascensão é difícil, enfrentando as disputas e, mais que isso, a corrupção institucionalizada no setor, onde as propinas, o tráfico de influência e as maquinações parecem uma constante. Nesse ponto o livro se torna um libelo contra corruptos e corruptores, entrando em minúcias espantosas de quem viveu para contar. A Justiça e sua proclamada lentidão, as malandragens dos burocratas para obter vantagens e a venalidade de muitos não escapam ilesos. Sucedem-se quadros admiráveis de situações e personalidades que se cruzam e entrecruzam ao longo dos anos, não faltando os eternos e inúteis embates entre capitalistas e socialistas na defesa de suas convicções. E permeando tudo, a situação do país, desde a marcha pela Legalidade, liderada por Brizola, até o golpe e os pesados anos de chumbo. Um amor de maturidade, espécie de tábua de salvação, culmina em desastre. E o final é trágico mas, de certo modo, intuitivo. Para alguém com tais princípios de formação e tão a fundo marcado pela vida, quer me parecer que não haveria outra saída para continuar fiel a si mesmo.

Afinal, como expressavam as frases inscritas na capela do seminário e gravadas a ferro na memória do personagem: “Quem subirá ao monte do Senhor? Aquele que tiver as mãos inocentes e o coração limpo!” 

Escrito por Enéas Athanázio, 18/11/2019 às 11h56 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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Por Enéas Athanázio

O “CANUDINHO”

A faixa de terras entre os rios Canoas e Pelotas, formadores do Uruguai, foi conhecida em geral como Entre-Rios. Por ela passa a chamada estrada velha, ligando Campos Novos a Lages, fazendo-se a travessia do Canoas através de uma balsa de cabo tirada a muque pelo balseiro (*).

Ali se situa hoje o município de Celso Ramos, desmembrado de Anita Garibaldi, minha primeira comarca como Promotor de Justiça.

Nessa região surgiu, no final do Século XIX, um movimento messiânico sobre o qual ouvi algumas referências mas que foi pouco estudado, sendo, em consequência, um episódio quase desconhecido de nossa história. Lendo agora o excelente livro “Lideranças do Contestado”, de autoria do historiador e professor da UFSC Paulo Pinheiro Machado (Editora da UNICAMP – Campinas – 2004), deparei com breve relato desse fato que ficou conhecido como “Canudinho”, ou seja, um “Canudos” pequeno, e que julgo merecedor de um comentário.

Paulo Pinheiro Machado (Divulgação)

Segundo o autor, entre agosto e setembro de 1897, um comerciante de nome Francelino Subtil de Oliveira, associado a um homem a quem chamavam “São” Miguel ou “São” Miguelito, que se declarava primo-irmão do “monge” João Maria, “estabeleceram o culto a uma forma rochosa que havia na região, afirmando que a pedra era uma santa que estava encantada.” Para libertar a santa, os devotos tinham que fazer preces e ladainhas sem fim, entoar cantos e confessar-se com Francelino, o “puxador” das orações. Como penitência dos pecados praticados, deveriam permanecer algum tempo com pesada pedra sobre a cabeça. Os devotos da nova fé passaram a se reunir no local, onde não tardou a nascer um vilarejo com cerca de oitenta ranchos e trezentos moradores. E como esse tipo de apelo “religioso” tem grande poder de atração, pessoas pobres, doentes e marginalizadas começaram a afluir ao local, ameaçando a formação de um reduto ou arraial, fato que assustou as autoridades da região (p. 173).

Os “coronéis” Henrique Rupp e Lucidóro Luiz de Mattos, ambos de Campos Novos, solicitaram a intervenção do Estado para debelar o surto messiânico. Soldados do Regimento de Segurança do Estado e homens de confiança daqueles “coronéis” tentaram atacar o povoado, mas, para surpresa deles, foram repelidos a tiros pelos devotos enfurecidos e por estes perseguidos até a entrada da então Vila de Campos Novos, distante cerca de quarenta quilômetros. Foi o vexame dos vexames, e os sertanejos, sagrados heróis pela boca do povo, tiveram sua bravura entoada em prosa e verso, espalhando-se por toda a região. Alarmado, o governador enviou nova expedição armada, contando com auxílio de forças gaúchas, e assim foi debelado o foco revolucionário que ameaçava imitar Canudos, na Bahia, onde as derrotas governistas se repetiam. Destruída a povoação, o episódio logo foi esquecido, ainda que contribuísse para o desgaste político daqueles “coronéis”, cujo prestígio estava em decadência. Segundo o autor, teria havido uma chacina no Entre-Rios (p. 174).

O novo “monge”, que se dizia “São” Miguel, tirou partido da devoção que existia em relação a João Maria, cuja pregação impregnava a região, chamando a atenção do povo e fazendo profecias apocalípticas, como o fim do mundo no virar do Século, as pesadas pragas que viriam e outros males. Com o aumento dos moradores, começaram os inevitáveis abusos, como brigas, saques de roças e fazendas, furto de gado e porcos. Por outro lado, o movimento revelou a existência de uma “população errante, suscetível de seguir até o fim suas lideranças religiosas e as pessoas estavam disponíveis a qualquer tipo de luta” (p. 174).

O “Canudinho”, tema pouco explorado, está à espera dos pesquisadores. E fica aqui no Estado, em região de fácil acesso e investigação.

(*) Hoje existem pontes.  

Escrito por Enéas Athanázio, 24/12/2019 às 12h06 | e.atha@terra.com.br

POR AMOR À MÚSICA

Dmitri Shostakovich

Com origens siberianas, Dmitri Shostakovich (1906/1975) nasceu em São Petersburgo em uma família de antigas tradições revolucionárias e de acentuada tendência musical. Desde seu avô, vários membros da família participaram de algumas das tantas insurreições populares que marcaram a história russa. Por outro lado, o amor e o cultivo da música foram uma constante, e sua mãe, Sonya, mulher de grande coragem, foi extraordinária pianista e liderou a família com habilidade e valentia, mesmo nos momentos em que esteve beirando a miséria. Desde cedo percebeu a genialidade do filho e o estimulou sempre na busca da realização artística. Graças a ela o clã familiar se manteve unido e ativo.

No período pós-revolucionário, nos anos posteriores a 1917, o país viveu tempos aflitivos. Toda a economia se desorganizou em virtude da mudança de regime e as carências se sucederam. Foram dias, meses e anos de privações, racionamento, desabastecimento, frio e medo. O desemprego campeava, enquanto se multiplicavam os boicotes, as sabotagens e toda sorte de resistência à implantação do novo sistema econômico. Havia desemprego e os salários eram miseráveis. Apesar de tudo, porém, os Shostakovih lutavam com bravura pela sobrevivência e nunca deixaram de cultivar a música. O jovem Dmitri, chamado de Mitya pelos familiares, aos treze anos de idade já se revelava exímio pianista e até realizava pequenas composições musicais.

Dotado de constituição frágil, embora de postura elegante, o rapaz estudava e estudava. Frequentou aulas particulares com mestres renomados, fez cursos em escolas famosas e passou por importantes conservatórios. Seu talento era exaltado e suas produções musicais começaram a aparecer e despertar vivo interesse. Grandes maestros e virtuoses por elas se interessaram e a crítica as aclamou. Suas obras passaram a ser apresentadas em São Petersburgo, Moscou a outras cidades europeias, sempre atraindo numeroso público e merecendo o aplauso dos “experts.” Já casado, Dmitri melhorou de condição financeira e passou a desfrutar uma vida de fausto e luxo, desaprovada pela mãe, cujo senso prático não via aquilo com bons olhos. Apesar do sucesso, ele se torna nervoso e irritadiço, não poupando nem mesmo os familiares.

Tudo corria bem, sua obra estava consagrada, a vida prosseguia numa linha ascendente. Mas, como raios que caem do céu sem aviso, dois editoriais do “Pravda”, jornal oficial do governo e do partido, o fulminam. Com mão pesada, a censura o acusa de produzir obra burguesa, afastada dos interesses do povo e, portanto, condenável. Usando das costumeiras frases feitas e expressões de sentido duvidoso, os censores reprovam suas produções, em especial a ópera “Lady MacBeth do Distrito de Mzensk”, sobre a qual recai o ódio virulento da censura. Nela o compositor procura tornar simpática a vilã de um conto célebre, o que parece ter irritado o todo-poderoso Stálin, cuja mão era sentida por detrás dos editoriais. Pareciam entender que a edulcoração de uma criminosa não ficava bem, ainda mais no exterior, no contexto da Guerra Fria.

Em consequência, Dmitri cai no ostracismo. Suas obras são retiradas dos repertórios, perde as mordomias, é forçado a tocar nos cinemas, como outrora, e permanece esquecido por longo tempo. Mais tarde, após a morte de Stálin, reconquista sua posição, recupera o espaço e sua música volta a ser executada, não apenas na Rússia mas em todo o mundo. Desde então é colocado entre os grandes compositores da música universal. Foi autor de 59 composições de elevado sentido musical, segundo relações efetuadas por seus biógrafos, entre eles Victor Seroff, cujo livro foi traduzido por Guilherme de Figueiredo e publicado no Brasil, com excelente prefácio de Mário de Andrade. Nessa relação não estão incluídas as obras que permanecem em manuscrito.

Apesar das dificuldades e dos tropeços, o gênio de Dmitri Shostakovich se realizou na plenitude e sua obra é reverenciada em todo o mundo pelos apreciadores da boa música.

Outro excelente livro sobre o compositor é “O ruído do tempo”, de autoria de Julian Barnes, um dos expoentes da moderna literatura britânica (Editora Rocco – Rio de Janeiro – 2017). Nele o autor revela o sofrimento de Shostakovich, espírito sensível, diante da pressão a que foi submetido antes e depois da reabilitação. Teve que ler discursos que não escreveu, assinar artigos que não eram escritos por ele, fazer declarações que contrariavam seu pensamento e se conformar com uma vigilância permanente. Nomearam-lhe até mesmo um orientador com o objetivo de “reeducá-lo.” Em certa fase, temendo ser preso a qualquer momento, permanecia horas a fio em pé, diante do elevador e com a mala na mão para poupar a esposa de um trauma ao ser retirado da cama na calada da noite, como acontecia com frequência. Estarrecedor.

Escrito por Enéas Athanázio, 16/12/2019 às 13h14 | e.atha@terra.com.br

O BARULHO DO TEIXEIRA

Advogado com longa militância no Rio de Janeiro e folclorista, Francisco de Vasconcellos é autor de uma obra ampla e variada que não cessa de crescer. Tem abordado os mais diversos temas da chamada cultura popular de vários pontos do país, sempre fundamentado nas melhores fontes e em pesquisas próprias. Em seu mais recente livro, - “Temas de Feira e de Cordel” (Arteg Impressões – Juiz de Fora – 2019), - focaliza três curiosos eventos da vida sertaneja e seus personagens, além de realizar interessante incursão no exame da poesia popular.

No primeiro deles analisa um episódio que ficou gravado na memória do povo e que aconteceu na remota Vila do Teixeira, povoado pobre e desconhecido do sertão da Paraíba. A mulher, a terra e a política, ressalta o autor, eram as causas de frequentes lutas de famílias que se tornavam inimigas. No caso em tela, tudo indica que a política colocou em posições opostas os Dantas, conhecidos como a Família Terrível, e os Nóbregas. A serviço dos primeiros estavam os Guabirabas, “mestres nas tocaias, nos insultos e nas insinuações malévolas. Sua crueldade não conhecia limites...” Delphino e Liberato, delegados em sucessão, teriam perseguido os Dantas, adversários políticos, tendo aquele se afastado do cargo para que assumisse o segundo.

Cirino Guabiraba, um dos irmãos facínoras, envia ao delegado Liberato um recado atrevido: estaria na feira da Vila e, de fato, lá compareceu quando ela estava no auge. Saindo um por um, para não despertar suspeitas, os homens do delegado prepararam uma tocaia num local por onde Cirino teria forçosamente que passar. E ali o mataram à traição, não lhe permitindo nem sequer confessar-se, enquanto o cavalo ensanguentado voltava para casa e dava o sinal de que o dono fora preso ou morto. A família se movimenta para o revide e tanto Liberato como Dekphino foram mortos, embora este, a rigor, não participasse dos acontecimentos. Seguiram-se outros desdobramentos e os episódios entraram na história como o Barulho do Teixeira.

Barulho do Teixeira atraiu a atenção dos cantadores de feiras e da literatura de cordel, tendo variadas versões. É tema de livros de Pedro Batista e de Gustavo Barroso, tendo ultrapassado as fronteiras nordestinas para ecoar no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e no Espírito Santo. O cantador Hugolino Nunes da Costa seria o autor da primeira versão rimada e metrificada dos acontecimentos. Outros poetas populares também se dedicaram ao assunto.

Nesse período histórico o cangaço vicejava em todo o Nordeste. Apesar das volantes policiais que os perseguiam, os bandos de cangaceiros aterrorizavam as populações indefesas das pequenas cidades e vilas. O caso de Cirino caiu no gosto do povo, talvez pela valentia com que tentou reagir ou por ter morrido sem padre e confissão.

Com seu ensaio, Francisco de Vasconcellos reaviva um episódio dos mais conhecidos e cantados nas feiras populares.

Nos ensaios seguintes, o autor analisa a figura e a época do Valente Valério que, de bandido virou santo, e, a seguir, a de Inácio da Catingueira (1845/1879), herói cultural de seu povo, escravo, pobre e analfabeto que se tornou um dos maiores cantadores e poetas populares do sertão, falando pela gente miserável e conquistando os corações. Jamais foi esquecido. O ensaio de Vasconcellos é merecida homenagem

Para fechar seu belo livro, o autor tece eruditas considerações sobre a hipérbole na poesia popular.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/12/2019 às 12h35 | e.atha@terra.com.br

JORGE AMADO EM CORPO INTEIRO

Jorge Amado foi dos poucos brasileiros que viveu na plenitude a vida do escritor. Foi profissional das letras e delas tirou o sustento. Nunca quis escrever memórias ou autobiografia. Em sua obra, o livro que mais se aproxima do gênero é “Navegação de Cabotagem”, repertório de recordações de pessoas, lugares e fatos, embora sem a ordem e o método costumeiros. Relatou muito de sua vida em entrevistas mas isso nunca foi organizado e publicado em conjunto. É curioso notar que só teve um biógrafo em vida, Miécio Tati, mas parece que o livro não mereceu boa aceitação e foi pouco comentado.

Agora, porém, surge uma biografia para valer, compensando a ausência de outras. Trata-se de “Jorge Amado – Uma biografia”, de autoria de Josélia Aguiar (Todavia Editora – S. Paulo – 2018 – 635 págs.). Baiana de Salvador, radicada em São Paulo, a autora é jornalista e historiadora. Foi correspondente da “Folha de S. Paulo” em Londres, editora da revista “Entrelinhas” e curadora da Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP). Dedicou nada menos que sete anos à confecção desta obra.

A narrativa tem início nos dias do menino grapiúna correndo solto no meio cacaueiro da Bahia, convivendo com as pessoas e absorvendo a cultura local. Depois, os duros tempos do internato, de onde foge e vai se abrigar na casa do avô, fazendo longa caminhada a pé e sozinho. Acontece a primeira paixão, ardente e arrebatada, mas que acaba em nada. A mudança para o Rio de Janeiro para estudar Direito, entregando-se a intensa militância literária, escrevendo para os jornais, e exercendo grande atividade política. Nesse período faz amplo relacionamento com numerosas pessoas com as quais se cruzará em muitas outras oportunidades.

Com o lançamento do primeiro romance, “País de Carnaval”, tem início a carreira literária. Embora o autor fosse muito jovem e com pouca experiência, o livro desperta a atenção da crítica e agrada aos leitores. A partir daí, não cessa de escrever e publicar. Com o passar dos anos sua obra vai se aprimorando, é muito lida e ele se transforma no escritor mais célebre do país. Viaja muito, conquista prêmios e distinções, seus livros são traduzidos para 49 idiomas. É dos raros brasileiros que enriquece com a literatura.

A militância política não cessa e as perseguições acontecem em vários períodos de nossa confusa vida institucional. Eleito Deputado Federal por São Paulo, tem o mandato cassado em 1948 por decisão da Justiça Eleitoral, em pleno regime democrático e na vigência da Constituição de 1946. Têm início os diversos exílios a que é forçado. Esconde-se em Estância, no interior de Sergipe, onde fica em paz e muito escreve. Mais tarde iria para a Argentina, o Uruguai e Paris, sendo expulso da França por pressão do governo brasileiro, e para Dobris, na antiga Tchecoslováquia. Lá, ele e a esposa Zélia vivem por longo tempo e nasce a filha Paloma. Regressando ao país, vai se afastando da militância política, ingressa na Academia Brasileira de Letras e se muda para Salvador, passando a viver na célebre Casa do Rio Vermelho, à rua Alagoinhas 33. Conhecido em todo o mundo, vive cercado pelos amigos, seus romances são adaptados para o cinema, o teatro e a televisão, e continua viajando. Como diz a biógrafa é ali, na Bahia, que se dá o outono do patriarca.

O pensamento do escritor e suas variações no correr do tempo sobre temas cruciais é abordado pela autora com clareza e segurança, sempre com base em sólidas fontes. Jorge Amado jamais abdicou de suas convicções políticas e formou sempre com as correntes progressistas.

Assim foi, em largas pinceladas, a rica existência de Jorge Amado. A autora esmiúça todas as fases da vida do escritor com impressionante quantidade de detalhes e informações. Para isso se valeu de imensa bibliografia, consultando livros, revistas e jornais velhos, arquivos e documentos, sem falar nas incontáveis entrevistas que realizou e nas constantes releituras da obra do próprio biografado. Rico álbum de fotografias enriquece ainda mais a obra.

Os admiradores do escritor baiano podem ter agora um retrato em corpo inteiro de Jorge Amado e a resposta para todas suas indagações.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/12/2019 às 10h11 | e.atha@terra.com.br

A HISTÓRIA DA ESCRITA

Adovaldo Fernandes Sampaio é um dos maiores linguistas do país. Tem produzido obras fundamentais sobre os temas de sua especialidade e que são autênticos marcos no campo da linguística. Cabe mencionar, dentre elas, “Línguas e dialetos românicos e germânicos”, livro enciclopédico, revelador de impressionante erudição, e que comentei nesta coluna (Editora Kelps – Goiânia – 2010). No ano anterior, pela Ateliê Editorial (S. Paulo), havia publicado “Letras e memória – Uma breve história da escrita”, livro que encanta pela beleza e fascina pelo conteúdo. Em tamanho grande e fartamente ilustrado, é o resultado de anos de pesquisas, trabalho e dedicação de quem não se contenta com o comum, o ordinário, o convencional.

Não satisfeito com as fontes disponíveis, o ensaísta estendeu uma rede de contatos com entidades e especialistas de diferentes áreas do conhecimento em todo o mundo. Com paciência e organização, fez contatos que lhe trouxeram informações valiosas que enriqueceram seu trabalho e lhe deram ainda maior base científica. Consultando a relação desses contatos surgem pessoas e instituições da Mauritânia, Croácia, Rússia, Cazaquistão, Alemanha, França, Inglaterra, Índia, Etiópia, Austrália, Geórgia, Turquia e muitas outras, obtendo de cada uma informações, documentos, fotografias e reproduções que lhe forneceram material para enriquecer seu notável ensaio. O resultado foi um livro que considero único.

Mas na busca da história da escrita, objeto maior do livro, o autor afundou no passado da humanidade na caça dos mais rudimentares resquícios da escrita até seu pleno desenvolvimento através de longo e tortuoso avanço. Começa informando que o orgulhoso homo sapiens passou nada menos que 150.000 anos em estado de selvageria e de barbárie. Não tinha a menor ideia do que fosse escrever; era ágrafo. Entre 45.000 e 35.000 anos, movido pela necessidade de comunicação, começou a gravar em paredões sinais e figuras que podem ser considerados os embriões da escrita. Esse costume evoluiu no correr dos tempos e surge na Mesopotâmia a escrita cuneiforme e, mais tarde, no Egito, aparecem os hieróglifos gravados em papiros. São invenções revolucionárias, permitindo o aparecimento da literatura sobre variados assuntos e a formação de bibliotecas. Os fenícios contribuem com seu alfabeto e de avanço em avanço o homem chega ao alfabeto latino que muito tem servido às línguas que o utilizam. A criatividade sem limites conduz por caminhos jamais imaginados até a escrita real e a virtual. Línguas surgem e prosperam; outras morrem ou são abandonadas. E assim, no mundo de hoje, a escrita está em toda parte e as sociedades se organizam em torno dela.

Na sequência, o livro exibe incontáveis reproduções de todos os tipos de escrita e de línguas. É espantosa a quantidade e a variedade desses elementos obtidos pelo autor, permitindo ao leitor fazer ideia segura do que está lendo. Surgem figuras rupestres, caracteres cuneiformes, escrita chinesa, etrusca, hieróglifos e outras. A seguir o livro se estende por diferentes línguas e diferentes escritas. O alfabeto grego, hebraico, árabe, copta, aramaico, samaritano, híndi, cingalês, armênio, persa, gaélico e uma infinidade de outros. Aborda a escrita gótica, o alfabeto cirílico, a escrita quíchua, o alfabeto quadrado, escritas mongol, iídiche, malaio, abcázio e incontáveis outras línguas e escritas, antigas e modernas, faladas por muitos ou por poucos, vivas e mortas, deixando herdeiras ou não. Também há lugar para a língua de sinais, o alfabeto braile, o código Morse, o semáforo, a escrita matemática, a escrita musical, a escrita pictográfica, línguas e escritas imaginárias, escritas universais, escrita hip-hop (grafite e pichação) e até a escrita epidérmica (tatuagem). O Latim, de onde veio nosso musical português, merece tratamento especial.

Tudo isso ilustrado à farta, com clareza e boa definição, num trabalho gráfico da melhor categoria, formando um conjunto impressionante. Acentuo a imensa tarefa que o autor se impôs, manuseando por longo tempo uma enormidade de línguas e dialetos, milhões de palavras, símbolos e desenhos, escritas estranhíssimas, algumas grafadas da direita para a esquerda e caracteres indecifráveis. Trabalho sem similar.

Registro, por fim, a bibliografia de que se valeu o autor. É espantosa pela quantidade, toda estrangeira e da melhor qualidade.

Dizer que o Prof. Adovaldo merece parabéns é muito pouco. Ele merece a consagração.

Escrito por Enéas Athanázio, 25/11/2019 às 10h52 | e.atha@terra.com.br

O ROMANCE DE UMA VIDA

Ao publicar minhas reminiscências do internato, no livro “Vida Confinada”, lançado em 1997, classifiquei-o como autoficção. Eu me rendia à posição mais recente da crítica européia, fundada em princípios psicanalíticos, de que memórias exatamente fiéis aos fatos não existem e que a cada vez que nos lembramos de algum episódio ele volta acrescido de novos ingredientes imaginários ou, ao contrário, despido de alguns detalhes. Eu andava lendo na época alguns escritos da psiquiatra e escritora Betty Milan, que vinha divulgando entre nós esses conceitos inovadores. Alguns resenhistas estranharam um pouco o novo gênero, mas parece que ele não encontrou maior aceitação e permaneceu pouco usado. Como leitor inveterado de autobiografias e memórias, não me lembro de ter encontrado outro livro com tal classificação.

Mas eis que agora me vem às mãos o romance autobiográfico “Innocens Manibus”, de autoria de Vasco de Sant’Anna, publicado no Rio Grande do Sul (2012), e que acabo de ler. Para surpresa minha, ele é classificado como autoficção, vale dizer, é um livro de memórias. É muito mais abrangente que o meu, uma vez que procura reconstituir de forma romanceada toda a existência do personagem central, alter-ego do autor-narrador, desde os bancos escolares até os dias atuais. E nesse particular ele revela o fôlego do romancista, estendendo-se por 330 páginas repletas dos mais variados acontecimentos, sempre contextualizados com a história regional e do país. É um vasto painel que exibe um homem vivido e que, como ministrava Gilberto Amado, nunca foi um distraído mas soube prestar atenção à vida.

As recordações mais antigas remontam aos tempos do seminário. Esses anos de vida reclusa têm a característica de se incrustar para sempre na memória, talvez porque naquela idade ela funciona como disco virgem e retém tudo de maneira indelével. Nessa fase se entremeiam as lembranças da terra natal, típica cidade gaúcha da fronteira com todos seus tiques e cacoetes. É ali que explode como bomba em família a sua revelada intenção de virar padre. Para os machões do clã, aquilo soava como o maior dos despautérios. Onde já se viu semelhante coisa? As reações de Tio Henrique, em particular, são antológicas, e as soluções que indica para debelar a “vexata quaestio” são extraordinárias. E quando é advertido pela mãe do rapaz de que irá para o inferno, ele retruca: “Mas é isso mesmo que eu quero, festa e mulherada. O céu deve ser muito chato, só santos, anjos e beatas!” (p. 25). O dia-a-dia no seminário, com os pequeninos acontecimentos da rotina ganhando relevância aos olhos da garotada reclusa e submetida a rígida disciplina. Surgem os dramas, as comédias, os atos de grandeza e de mesquinharia, como as delações, e tudo mais que é próprio de uma vida vigiada. Mas o tempo implacável se escoa e um dia o rapaz deixa o seminário para ingressar em outras fases da vida. As páginas sobre esse período são intensas e absorventes, talvez o ponto alto do livro.

Marcha da Liberdade (foto Reprodução/Arquivo)

Segue-se o período universitário na busca da profissão. Forma-se em engenharia e se especializa na construção de rodovias. Depois de um casamento algo arranjado, inicia a lenta e dura luta pela afirmação profissional. A ascensão é difícil, enfrentando as disputas e, mais que isso, a corrupção institucionalizada no setor, onde as propinas, o tráfico de influência e as maquinações parecem uma constante. Nesse ponto o livro se torna um libelo contra corruptos e corruptores, entrando em minúcias espantosas de quem viveu para contar. A Justiça e sua proclamada lentidão, as malandragens dos burocratas para obter vantagens e a venalidade de muitos não escapam ilesos. Sucedem-se quadros admiráveis de situações e personalidades que se cruzam e entrecruzam ao longo dos anos, não faltando os eternos e inúteis embates entre capitalistas e socialistas na defesa de suas convicções. E permeando tudo, a situação do país, desde a marcha pela Legalidade, liderada por Brizola, até o golpe e os pesados anos de chumbo. Um amor de maturidade, espécie de tábua de salvação, culmina em desastre. E o final é trágico mas, de certo modo, intuitivo. Para alguém com tais princípios de formação e tão a fundo marcado pela vida, quer me parecer que não haveria outra saída para continuar fiel a si mesmo.

Afinal, como expressavam as frases inscritas na capela do seminário e gravadas a ferro na memória do personagem: “Quem subirá ao monte do Senhor? Aquele que tiver as mãos inocentes e o coração limpo!” 

Escrito por Enéas Athanázio, 18/11/2019 às 11h56 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.