Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

UMA PUBLICAÇÃO MODELAR

Tenho em mãos o número XXIII da Revista da Academia Brasileira de Filologia. Com sede no Rio de Janeiro, a entidade tem como presidente Amós Coelho da Silva, como vice-presidente Deonísio da Silva e como diretor da publicação Antônio Martins de Araújo. Todos seus integrantes são linguistas de destaque, como tais reconhecidos pela melhor crítica especializada. Os temas veiculados na revista são de elevado rigor técnico e científico.

Este número se abre com um amplo e profundo ensaio de autoria do Prof. Adovaldo Fernandes Sampaio, autor de obras monumentais nas áreas da linguística, da escrita e sua história. Aborda dicionários curiosos publicados em Goiás e depois se debruça sobre a volumosa e rica obra de Willim Agel de Mello, diplomata, escritor e linguista, autor de um conjunto de dicionários sem similar em todo o mundo. Graças ao seu imenso trabalho, diz o ensaísta, William Agel de Mello “tornou agora as línguas românicas ainda mais próximas e tangíveis e os povos que as falam ainda mais irmãos e amigos.”

Deonísio da Silva contribui com dois interessantes artigos, um sobre Cruz e Sousa e outro sobre John dos Passos. Aplaude a atitude do escritor norte-americano ao não se submeter às exigências sectárias do chamado realismo socialista e se manter independente, atitude que também inspirou seus seguidores brasileiros. Dos Passos participou da Guerra Civil Espanhola, como outros de seus compatriotas, operando como motorista de ambulâncias no fronte de combate. Hemingway dá a entender que a presença dele na Espanha foi muito curta e que estava mais interessado na tradução de suas obras para o espanhol que em assuntos bélicos. A guinada do escritor para a direita, depois de ter apoiado os republicanos, gerou a acusação de traidor, aliando-se ao abominável franquismo que toda a intelectualidade combatia e contribuindo para a sua vitória. O tradutor da obra dele para o espanhol foi assassinado e, ao que parece, em circunstâncias nunca bem esclarecidas. O ensaísta fornece alguns dados pouco conhecidos e curiosos sobre Dos Passos.

Já Francisco da Cunha e Silva Filho presta uma homenagem ao mestre Júlio de Matos Ibiapina. Faz um relato sobre a vida, a obra e as atividades desse professor que foi também jornalista, deputado, major do exército e grande viajante. Figura admirável de estudioso, poliglota e cronista aguerrido. É um ensaio ressuscitador e justiceiro.

Outros trabalhos de valor enriquecem a revista. Afrânio da Silva Garcia e Ida Alves abordam diferentes facetas do Modernismo em longos e substanciosos ensaios. Autores de reconhecida competência publicam ensaios abordando variados temas da linguística e da literatura. O volume se fecha com entrevista, resenhas, memória e noticiário. Trata-se, pois, de uma publicação modelar, a única no gênero que conheço, merecedora da melhor atenção dos amigos do saber.

Escrito por Enéas Athanázio, 16/03/2020 às 11h19 | e.atha@terra.com.br

VIAJANDO COM HEMINGWAY

Ao final da leitura vagarosa e atenta do terceiro volume dos “Contos de Hemingway” (Bertrand Brasil – Rio – 1999), deparei com “Um país estranho”, dos mais longos e pouco conhecidos contos do escritor norte-americano. Segundo a editora, o conto seria a primeira versão de quatro capítulos do futuro romance “As ilhas da corrente”, abandonada pelo escritor pelo fato de ter o referido romance tomado novo rumo. Isso, no entanto, em nada prejudicou a inteireza do conto, que se transformou numa peça independente, de leitura rica e surpreendente, na qual o autor revela mis uma vez toda sua técnica, inclusive no incomparável uso do diálogo.

Trata-se de um conto de movimento, em primeira pessoa, em que o leitor acompanha o personagem-narrador e sua companheira numa longa viagem num Buick conversível de segunda mão. Percebe-se que ele é um homem maduro e vivido, enquanto ela é mais jovem e no esplendor da beleza, ainda que isso não seja formulado de forma expressa. A narrativa evolui entre longos trechos de estrada, observando a natureza circundante, a flora e a fauna, as pessoas avistadas e as cidades que cruzam. Há os pernoites em hotéis e as refeições nos restaurantes, tudo realizado com muita calma e tranquilidade. E muitos diálogos nos quais comentam os pequenos incidentes da prolongada travessia e o relacionamento amoroso que os une.

Num repente, porém, o conto muda do tom descompromissado dos viajantes para o campo memorialista do próprio autor, isto é, de Ernest Hemingway, que coloca suas lembranças na boca do personagem masculino e começa a relatar um fato verídico e conhecido de sua vida. Encontrava-se ele em Lausanne, cobrindo como repórter uma conferência internacional, quando pediu à esposa que fosse encontrá-lo para alguns dias de férias juntos, após o compromisso. Com a intenção de lhe fazer uma surpresa, ela colocou numa valise as pastas com os originais dos escritos dele e também, por engano, aquelas que continham as cópias. Com o material em mãos, ele poderia trabalhar durante aqueles dias de férias. Ela se preparava para tomar o trem expresso na estação de Lyon, deixando a bagagem, incluindo a valise, no compartimento próprio enquanto foi comprar jornais e uma garrafa de água expostos numa mesinha próxima. E ao voltar, a surpresa e a tragédia: a valise com todos os originais havia desaparecido! Desesperada, ela fez tudo que podia: deu queixa à polícia, procurou, indagou, investigou e... nada! A valise sumiu sem deixar vestígios. (Muitos anos depois, no Ritz Hotel, em Paris, o gerente comunicou a Hemingway que havia no depósito um volume à espera dele há muito tempo. Mas não era a valise encantada).

Não havendo outro recurso, ela viajou ao encontro do marido. Chorou e chorou, sem coragem de relatar o ocorrido, mas acabou confessando. Hemingway levou tal choque que esteve à beira da loucura. Todo o paciente e extenuante esforço de anos e anos de trabalho havia se evaporado. Sua esposa diria, mais tarde, que lamentou não existir alguma espécie de cirurgia para fazê-lo esquecer do que acontecera. “Fiquei ali, sem me mexer, - escreveu ele – com os travesseiros por amigos, em estado de desespero. Tudo o que eu tinha escrito até então, e tudo em que eu tinha grande confiança, estava perdido. Eu tinha reescrito aquilo tantas vezes até chegar aonde eu queria, e sabia que não podia escrevê-los de novo...” (p. 412). Em outra passagem, diz o seguinte: “Pus tudo neles (nos escritos perdidos), pus toda a informação que podia incluir. Escrevi-os várias vezes até me sentir inteiro neles e vazio dentro de mim. Por ter trabalhado em jornal desde muito jovem me habituei a esquecer tudo depois de escrever: todos os dias limpa-se da memória o que se escreveu como se limpa um quadro-negro com esponja ou um pano úmido. Eu ainda tinha esse mau hábito, e agora ele se voltava contra mim” (p. 415).

E por fim:

“Esse vácuo, essa sensação de perda, é ruim. Mas não mata. Já o desespero mata, e em pouco tempo.” (Idem). 

Escrito por Enéas Athanázio, 09/03/2020 às 11h10 | e.atha@terra.com.br

AS DISTOPIAS VENCERAM?

Ensina a história que desde muito tempo as pessoas argutas começaram a perceber as falhas da sociedade humana. Depois de séculos e séculos de existência a sociedade não conseguiu sequer solucionar seus problemas básicos, como alimentação e moradia para todos, educação e assistência à saúde, proteção e segurança. Surgiram então os pensadores que imaginaram uma sociedade mais perfeita na qual todas as pessoas teriam os mesmos direitos e garantias. Eram os chamados utopistas, como Platão, Tommaso Campanella, Saint-Simon, Thomas Morus, Bakunin, Kropotkin e outros tantos. Até mesmo no Brasil ocorreram experiências utopistas, como a Colônia Cecília, no Paraná, liderada pelo Dr. Giovanni Rossi, o Falanstério do Saí, em São Francisco do Sul, e o Caldeirão, no Ceará, liderado pelo beato José Lourenço. Essas propostas reformistas jamais foram aceitas e seus autores quase sempre sofreram severas perseguições. O Caldeirão foi destruído a ferro e fogo.

O evolver dos tempos mostrou que a sociedade nunca quis mudanças profundas, preferindo tentar soluções que a experiência revelou infrutíferas. Surgiram aos poucos os pensadores antiútopistas, pregando em sentido oposto, ou seja, as distopias. Os livros “1984”, de George Orwell, e “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, ficaram como exemplos emblemáticos das distopias. Neles há um estado imaginário em que as pessoas vivem em condições de extrema opressão, desespero ou privação. O Estado onipresente esmaga o indivíduo. Ditaduras instaladas em várias partes do globo estiveram bem próximas da concretização desse estado de coisas.

No mundo de hoje as ideias extremistas e autoritárias se ampliam com rapidez, inclusive em países que experimentaram na própria carne as consequências práticas desse pensamento. Os princípios democráticos vão sendo minados, pouco a pouco, eliminando os canais de comunicação entre o povo e o governo. Enquanto no passado isso se fazia pela força das armas, agora vai sendo realizado de forma sutil e com aparente legalidade, centralizando no governo poderes discricionários que permitem a prática de atos cada vez mais agressivos contra as normas democráticas. A triste impressão que fica é de que as distopias venceram e o mundo democrático está em vias de extinção.

O livro “A Nova Ordem”, de Bernardo Kucinski, lançado pela Companhia das Letras (S. Paulo – 2019) é de arrepiar. Nele, um Brasil fictício passa pela formação de uma nova ordem de viés autoritário. O regime luta contra utopistas, aqueles com viés crítico, encarcerando professores e fechando universidades. A nova ordem é obedecer, submeter-se, não pensar, não discutir. Exige-se que as pessoas tenham almas de escravos. É o império do sim senhor, senhor sim.

O consumo de literatura distópica é impressionante, tal como acontece na realidade dos dias atuais, catequizando as mentes das pessoas para o pensamento único. E quem discorda? É subversivo e contrário aos interesses da nova ordem. Tudo pode acontecer com elas.

Para quem viveu e acompanhou no dia-a-dia os vinte e um anos de ditadura, a hipótese é veneno mortal. 

Escrito por Enéas Athanázio, 02/03/2020 às 11h30 | e.atha@terra.com.br

COM CERTEZA!

A linguagem falada na televisão brasileira está cada vez pior e mais pobre. Os erros, as repetições, os lugares-comuns e certos cacoetes são de uma frequência insuportável. Procurando ser coloquiais, alguns apresentadores simplificam as coisas como se falassem na rua e eliminam os RR: mostrá, dizê, fazê, andá... Sem falar nos pra, pro, tá, tô...Outros parecem achar bonito intercalar um aí nas frases: “O incêndio  aí  de grandes proporções  aí  já devorou  aí  vários hectares de matas... “ E existem aqueles que se julgam donos da verdade e não se cansam de repetir: a grande verdade é que... É claro que a grande verdade é a deles. Outros estão sempre certos, tanto que repetem a torto e a direito: Com certeza! Com certeza! E o pior é que isso se espalhou e todo mundo agora se julga com certeza...

Outras expressões que agridem os ouvidos de tão surradas são atualizar, atualizando, atualização etc. Com um mínimo de imaginação poderiam dizer de outra forma. Seria pedir muito? 
Vivenciar é outro verbo que teve a má sorte de virar modismo. Ninguém mais vive, vivencia; ninguém viveu, vivenciou; vida não é mais vida, é vivência. E o curioso é que parecem imaginar que isso é elegante, prova de erudição, dá status.
Observar a evolução dos acontecimentos, a conferir, né, isso daí, conta pra nós, tipo, por conta de, cadê você, diferenciado, tem mais isso e mais aquilo são outras vítimas constantes.
 
                                 São verdadeiras aulas de deseducação.
Por sorte, parece que trabalhar em cima de, a nível de e gratificante estão caindo em desuso. Uf!
A quantidade de anúncios nos intervalos da programação também é intolerável e cada vez aumenta mais. A gente chega a esquecer do que estava assistindo. É um abuso. Por sorte existe uma teclazinha com a palavra mute que nos liberta dessa chateação.
Com certeza!
E nada indica que vá melhorar.
Com certeza!
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O Rio Guandu, do Rio de Janeiro, depois de anos de ostracismo, voltou ao noticiário pela má qualidade da água usada para consumo humano. Nos tempos da ditadura, durante o governo biônico de Carlos Lacerda, no extinto Estado da Guanabara, surgiu a acusação de que mendigos que infestavam o centro da cidade foram eliminados e tiveram seus corpos lançados no simpático curso dágua. Eram dias de censura mas alguns jornais e emissoras de rádio chegaram a noticiar que, de fato, cadáveres foram encontrados  no rio. Esses fatos nunca foram investigados e permanecem até hoje como mais um dos tantos esqueletos guardados nos armários da ditadura.
Com certeza!
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O presidente Bolsonaro declarou num dias destes que os esquerdistas não podem ser tratados como pessoas normais. Fiquei pensando qual seria o verdadeiro sentido dessa declaração. Estaria ele dando aval para que os esquerdistas sejam humilhados, ofendidos, agredidos ou até mesmo mortos? Foi uma declaração das mais infelizes cujas consequências poderão ser trágicas, além de revelar profunda intolerância.
Com certeza!
Escrito por Enéas Athanázio, 26/02/2020 às 16h53 | e.atha@terra.com.br

ESPANTO

O poeta Mário Quintana se dizia espantado quando relia o que havia escrito. Tratava-se, é claro, de uma “boutade”, uma vez que tudo que ele escreveu merece ser lido e relido. Eu me espanto com outras coisas, entre elas as declarações de alguns membros do atual governo. Algumas são assustadoras.

Não faz muitos dias, um cidadão indicado para algum cargo declarou através da televisão que índio não gosta de trabalhar. É uma declaração preconceituosa e falsa, evidenciando que ele nunca leu e nada sabe sobre índios. Uma declaração como essa fomenta o preconceito e contribui para alimentar a triste divisão que existe hoje na sociedade brasileira. O Brasil está tomado de preconceitos, muitas vezes carregados de ódio, contra negros, nordestinos, judeus, índios, moradores de rua, idosos, pobres e outros mais. Aquele brasileiro cordial de que falava Sérgio Buarque de Holanda não existe mais.

Darcy Ribeiro escreveu muito a respeito do trabalho indígena, tendo inclusive vivido no meio deles e acompanhado seu cotidiano. “Diários Índios” é um livro que merece ser lido por todo brasileiro. Outro que merece atenção, ainda mais específico, é “Trabalho Índio em Terras de Vera ou Santa Cruz do Brasil”, de autoria de José Martins Catharino. É um trabalho imenso, com 630 páginas, fundamentado numa bibliografia impressionante. Seu autor é um dos pioneiros nos estudos do Direito do Trabalho Rural, na época em que vigorou o respectivo estatuto. Neste livro ele surpreende, com base em rigorosas fontes, os indígenas brasileiros na época do descobrimento e examina o que aconteceu em seguida. Mostra o terrível e trágico equívoco dos europeus quando “atribuíram ao índio o defeito de não ser trabalhador.” É que, para eles, trabalho implicava em sedentarismo, horário, métodos, chefia etc., enquanto os índios sempre trabalharam – e muito! – mas de outra forma. Enquanto os europeus trabalhavam pela propriedade, para o mercado, pelo lucro e pela poupança, os índios não visavam nada disso. Aliás, Darcy Ribeiro observou que os índios não entendiam muito bem quando ele reservava comida para o dia seguinte; tratavam de comer enquanto tinham. A ideia de poupança era-lhes estranha.

O Prof. José Martins Catharino, no livro acima referido, expõe as variadas áreas de trabalho indígena: trabalho necessário à sobrevivência (caçador e coletor), trabalho culinário (alimentação), trabalho útil (construção de moradas e abrigos, confecção de vestuário e vasilhame), trabalho voluptuário (adornos, pintura do corpo, enfeites), trabalho para elaborar bebidas, chás e fumo, trabalho musical (confecção de flautas, apitos, outros instrumentos, aprendizado de cantos), trabalho desportivo (treinamento para aloites) e trabalho locomotor (confecção de jangadas, canoas e remos), além de inúmeros outros afazeres, como a confecção dos próprios instrumentos. Diante disso, conclui o mestre, o trabalho indígena não foi apenas constante mas árduo, ainda mais que não dispunham de tecnologia avançada. Portanto, a invasão branca provocou autêntica “desculturação indígena”, desorganizando a cultura local autêntica e conduzindo à sua destruição. Como enfatizou Luiz Luna, em seu clássico livro “Resistência do Índio à Dominação no Brasil”, a descoberta aconteceu no momento histórico crucial em que o índio evoluía da fase caçadora/coletora para a agricultura. O progresso acontecia de maneira normal tal como aconteceu com todos os demais povos.

Por tudo isso, o conhecimento de rudimentos de indigenismo é indispensável para evitar afirmações infelizes nestes tempos bicudos que vivemos.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/02/2020 às 12h40 | e.atha@terra.com.br

A PALAVRA ABSOLUTA

Diplomata, escritor e linguista, William Agel de Mello se tornou amigo íntimo de Guimarães Rosa. Ao ingressar na carreira diplomática, foi designado para o Serviço de Demarcação de Fronteiras, cujo chefe era ninguém menos que o autor do “Grande Sertão: Veredas.” Do convívio cotidiano brotou uma amizade que duraria até a morte prematura do grande escritor. Uma vez por semana comiam juntos em um dos restaurantes árabes próximos do Itamaraty. E, como se imagina, conversavam e conversavam.

Depois, William vai servir em Barcelona, como cônsul. Nessa época Rosa estava às voltas com a tradução de suas obras para o castelhano e a presença do amigo na Espanha não poderia ser mais oportuna. Escreve-lhe então um punhado de cartas que constituem uma preciosidade e que foram reunidas pelo destinatário num pequeno livro que é uma obra-prima pelo conteúdo e pela forma: “Cartas a William Agel de Mello”, publicado por Ateliê Editorial/Editora Giordano (S. Paulo – 2003).

As cartas têm a marca de Guimarães Rosa tanto pela linguagem como pela criatividade. “O que particulariza a obra de Guimarães Rosa é a linguagem – observa o destinatário das cartas. – Lançava mão do recurso às rimas, assonâncias e aliterações de forma sui generis. Com seu estilo personalíssimo, quebrava o princípio lógico, ia de encontro ao tradicionalismo, abominava o lugar-comum.” De fato, basta fixar o olhar sobre as cartas para enxergar Guimarães Rosa. E isso me faz lembrar do lançamento de “Grande Sertão: Veredas.” Segundo os críticos da época, o livro provocou um abalo sísmico na literatura daqueles dias. Os analistas ortodoxos ficaram desconcertados, perplexos, não sabendo se vaiavam ou aplaudiam. Também se percebe nas missivas a permanente busca da palavra exata para cada frase. Nada de semelhanças ou parecenças, haveria de ser precisa, insubstituível. Ou seja, a palavra absoluta.

Quanto ao conteúdo, as cartas são inigualáveis. Rosa inventa, cria, altera. Iô, Wi, Williãozinho, Williãozão, discipulérrimo, catalão de Goiás, provecto, conciliabulíssimo, discípulo inaceitável, probo e coroável, discipulante, barcelonês, eis alguns dos tratamentos que dispensa ao amigo distante. Mas trata também de assuntos pessoais e cobra ação para que William apresse editores e tradutores. Caso contrário, “renego-te, perespirio-te, desfraso-te, transblasfemo-te...Olha, hem?” E ficou esperando até que o outro “botasse isso a limpo.”

William contribuía com muito trabalho para a realização da obra do Mestre ou Maestro, como chamava o escritor. Lia em voz alta os textos enquanto Rosa, caneta na mão, ouvia e tomava notas, buscando o melhor resultado auditivo. (Como Monteiro Lobato também fazia). “Conforme a entonação, o Mestre interrompia a leitura, tomava notas – e depois modificava a frase ou a palavra. Dizia ele que era um “espírito” que o avisava para melhorar o texto. Sua eterna busca da perfeição, “a palavra absoluta.”

Surgem ainda fatos do dia-a-dia, referências a amigos, colegas e parentes, invocação de personagens da obra de William, acontecimentos do cenário mundial, recordações e saudades, muitas saudades do jovem amigo ao mesmo tempo ausente e presente. Trata-se, enfim, de um documento literário e biográfico sem igual do grande recriador dos sertões mineiros e goianos. Constitui ainda uma bela homenagem ao amigo mais jovem tantas e tantas vezes citado das mais carinhosas formas. 

Escrito por Enéas Athanázio, 10/02/2020 às 13h19 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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Literatura
Por Enéas Athanázio

UMA PUBLICAÇÃO MODELAR

Tenho em mãos o número XXIII da Revista da Academia Brasileira de Filologia. Com sede no Rio de Janeiro, a entidade tem como presidente Amós Coelho da Silva, como vice-presidente Deonísio da Silva e como diretor da publicação Antônio Martins de Araújo. Todos seus integrantes são linguistas de destaque, como tais reconhecidos pela melhor crítica especializada. Os temas veiculados na revista são de elevado rigor técnico e científico.

Este número se abre com um amplo e profundo ensaio de autoria do Prof. Adovaldo Fernandes Sampaio, autor de obras monumentais nas áreas da linguística, da escrita e sua história. Aborda dicionários curiosos publicados em Goiás e depois se debruça sobre a volumosa e rica obra de Willim Agel de Mello, diplomata, escritor e linguista, autor de um conjunto de dicionários sem similar em todo o mundo. Graças ao seu imenso trabalho, diz o ensaísta, William Agel de Mello “tornou agora as línguas românicas ainda mais próximas e tangíveis e os povos que as falam ainda mais irmãos e amigos.”

Deonísio da Silva contribui com dois interessantes artigos, um sobre Cruz e Sousa e outro sobre John dos Passos. Aplaude a atitude do escritor norte-americano ao não se submeter às exigências sectárias do chamado realismo socialista e se manter independente, atitude que também inspirou seus seguidores brasileiros. Dos Passos participou da Guerra Civil Espanhola, como outros de seus compatriotas, operando como motorista de ambulâncias no fronte de combate. Hemingway dá a entender que a presença dele na Espanha foi muito curta e que estava mais interessado na tradução de suas obras para o espanhol que em assuntos bélicos. A guinada do escritor para a direita, depois de ter apoiado os republicanos, gerou a acusação de traidor, aliando-se ao abominável franquismo que toda a intelectualidade combatia e contribuindo para a sua vitória. O tradutor da obra dele para o espanhol foi assassinado e, ao que parece, em circunstâncias nunca bem esclarecidas. O ensaísta fornece alguns dados pouco conhecidos e curiosos sobre Dos Passos.

Já Francisco da Cunha e Silva Filho presta uma homenagem ao mestre Júlio de Matos Ibiapina. Faz um relato sobre a vida, a obra e as atividades desse professor que foi também jornalista, deputado, major do exército e grande viajante. Figura admirável de estudioso, poliglota e cronista aguerrido. É um ensaio ressuscitador e justiceiro.

Outros trabalhos de valor enriquecem a revista. Afrânio da Silva Garcia e Ida Alves abordam diferentes facetas do Modernismo em longos e substanciosos ensaios. Autores de reconhecida competência publicam ensaios abordando variados temas da linguística e da literatura. O volume se fecha com entrevista, resenhas, memória e noticiário. Trata-se, pois, de uma publicação modelar, a única no gênero que conheço, merecedora da melhor atenção dos amigos do saber.

Escrito por Enéas Athanázio, 16/03/2020 às 11h19 | e.atha@terra.com.br

VIAJANDO COM HEMINGWAY

Ao final da leitura vagarosa e atenta do terceiro volume dos “Contos de Hemingway” (Bertrand Brasil – Rio – 1999), deparei com “Um país estranho”, dos mais longos e pouco conhecidos contos do escritor norte-americano. Segundo a editora, o conto seria a primeira versão de quatro capítulos do futuro romance “As ilhas da corrente”, abandonada pelo escritor pelo fato de ter o referido romance tomado novo rumo. Isso, no entanto, em nada prejudicou a inteireza do conto, que se transformou numa peça independente, de leitura rica e surpreendente, na qual o autor revela mis uma vez toda sua técnica, inclusive no incomparável uso do diálogo.

Trata-se de um conto de movimento, em primeira pessoa, em que o leitor acompanha o personagem-narrador e sua companheira numa longa viagem num Buick conversível de segunda mão. Percebe-se que ele é um homem maduro e vivido, enquanto ela é mais jovem e no esplendor da beleza, ainda que isso não seja formulado de forma expressa. A narrativa evolui entre longos trechos de estrada, observando a natureza circundante, a flora e a fauna, as pessoas avistadas e as cidades que cruzam. Há os pernoites em hotéis e as refeições nos restaurantes, tudo realizado com muita calma e tranquilidade. E muitos diálogos nos quais comentam os pequenos incidentes da prolongada travessia e o relacionamento amoroso que os une.

Num repente, porém, o conto muda do tom descompromissado dos viajantes para o campo memorialista do próprio autor, isto é, de Ernest Hemingway, que coloca suas lembranças na boca do personagem masculino e começa a relatar um fato verídico e conhecido de sua vida. Encontrava-se ele em Lausanne, cobrindo como repórter uma conferência internacional, quando pediu à esposa que fosse encontrá-lo para alguns dias de férias juntos, após o compromisso. Com a intenção de lhe fazer uma surpresa, ela colocou numa valise as pastas com os originais dos escritos dele e também, por engano, aquelas que continham as cópias. Com o material em mãos, ele poderia trabalhar durante aqueles dias de férias. Ela se preparava para tomar o trem expresso na estação de Lyon, deixando a bagagem, incluindo a valise, no compartimento próprio enquanto foi comprar jornais e uma garrafa de água expostos numa mesinha próxima. E ao voltar, a surpresa e a tragédia: a valise com todos os originais havia desaparecido! Desesperada, ela fez tudo que podia: deu queixa à polícia, procurou, indagou, investigou e... nada! A valise sumiu sem deixar vestígios. (Muitos anos depois, no Ritz Hotel, em Paris, o gerente comunicou a Hemingway que havia no depósito um volume à espera dele há muito tempo. Mas não era a valise encantada).

Não havendo outro recurso, ela viajou ao encontro do marido. Chorou e chorou, sem coragem de relatar o ocorrido, mas acabou confessando. Hemingway levou tal choque que esteve à beira da loucura. Todo o paciente e extenuante esforço de anos e anos de trabalho havia se evaporado. Sua esposa diria, mais tarde, que lamentou não existir alguma espécie de cirurgia para fazê-lo esquecer do que acontecera. “Fiquei ali, sem me mexer, - escreveu ele – com os travesseiros por amigos, em estado de desespero. Tudo o que eu tinha escrito até então, e tudo em que eu tinha grande confiança, estava perdido. Eu tinha reescrito aquilo tantas vezes até chegar aonde eu queria, e sabia que não podia escrevê-los de novo...” (p. 412). Em outra passagem, diz o seguinte: “Pus tudo neles (nos escritos perdidos), pus toda a informação que podia incluir. Escrevi-os várias vezes até me sentir inteiro neles e vazio dentro de mim. Por ter trabalhado em jornal desde muito jovem me habituei a esquecer tudo depois de escrever: todos os dias limpa-se da memória o que se escreveu como se limpa um quadro-negro com esponja ou um pano úmido. Eu ainda tinha esse mau hábito, e agora ele se voltava contra mim” (p. 415).

E por fim:

“Esse vácuo, essa sensação de perda, é ruim. Mas não mata. Já o desespero mata, e em pouco tempo.” (Idem). 

Escrito por Enéas Athanázio, 09/03/2020 às 11h10 | e.atha@terra.com.br

AS DISTOPIAS VENCERAM?

Ensina a história que desde muito tempo as pessoas argutas começaram a perceber as falhas da sociedade humana. Depois de séculos e séculos de existência a sociedade não conseguiu sequer solucionar seus problemas básicos, como alimentação e moradia para todos, educação e assistência à saúde, proteção e segurança. Surgiram então os pensadores que imaginaram uma sociedade mais perfeita na qual todas as pessoas teriam os mesmos direitos e garantias. Eram os chamados utopistas, como Platão, Tommaso Campanella, Saint-Simon, Thomas Morus, Bakunin, Kropotkin e outros tantos. Até mesmo no Brasil ocorreram experiências utopistas, como a Colônia Cecília, no Paraná, liderada pelo Dr. Giovanni Rossi, o Falanstério do Saí, em São Francisco do Sul, e o Caldeirão, no Ceará, liderado pelo beato José Lourenço. Essas propostas reformistas jamais foram aceitas e seus autores quase sempre sofreram severas perseguições. O Caldeirão foi destruído a ferro e fogo.

O evolver dos tempos mostrou que a sociedade nunca quis mudanças profundas, preferindo tentar soluções que a experiência revelou infrutíferas. Surgiram aos poucos os pensadores antiútopistas, pregando em sentido oposto, ou seja, as distopias. Os livros “1984”, de George Orwell, e “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, ficaram como exemplos emblemáticos das distopias. Neles há um estado imaginário em que as pessoas vivem em condições de extrema opressão, desespero ou privação. O Estado onipresente esmaga o indivíduo. Ditaduras instaladas em várias partes do globo estiveram bem próximas da concretização desse estado de coisas.

No mundo de hoje as ideias extremistas e autoritárias se ampliam com rapidez, inclusive em países que experimentaram na própria carne as consequências práticas desse pensamento. Os princípios democráticos vão sendo minados, pouco a pouco, eliminando os canais de comunicação entre o povo e o governo. Enquanto no passado isso se fazia pela força das armas, agora vai sendo realizado de forma sutil e com aparente legalidade, centralizando no governo poderes discricionários que permitem a prática de atos cada vez mais agressivos contra as normas democráticas. A triste impressão que fica é de que as distopias venceram e o mundo democrático está em vias de extinção.

O livro “A Nova Ordem”, de Bernardo Kucinski, lançado pela Companhia das Letras (S. Paulo – 2019) é de arrepiar. Nele, um Brasil fictício passa pela formação de uma nova ordem de viés autoritário. O regime luta contra utopistas, aqueles com viés crítico, encarcerando professores e fechando universidades. A nova ordem é obedecer, submeter-se, não pensar, não discutir. Exige-se que as pessoas tenham almas de escravos. É o império do sim senhor, senhor sim.

O consumo de literatura distópica é impressionante, tal como acontece na realidade dos dias atuais, catequizando as mentes das pessoas para o pensamento único. E quem discorda? É subversivo e contrário aos interesses da nova ordem. Tudo pode acontecer com elas.

Para quem viveu e acompanhou no dia-a-dia os vinte e um anos de ditadura, a hipótese é veneno mortal. 

Escrito por Enéas Athanázio, 02/03/2020 às 11h30 | e.atha@terra.com.br

COM CERTEZA!

A linguagem falada na televisão brasileira está cada vez pior e mais pobre. Os erros, as repetições, os lugares-comuns e certos cacoetes são de uma frequência insuportável. Procurando ser coloquiais, alguns apresentadores simplificam as coisas como se falassem na rua e eliminam os RR: mostrá, dizê, fazê, andá... Sem falar nos pra, pro, tá, tô...Outros parecem achar bonito intercalar um aí nas frases: “O incêndio  aí  de grandes proporções  aí  já devorou  aí  vários hectares de matas... “ E existem aqueles que se julgam donos da verdade e não se cansam de repetir: a grande verdade é que... É claro que a grande verdade é a deles. Outros estão sempre certos, tanto que repetem a torto e a direito: Com certeza! Com certeza! E o pior é que isso se espalhou e todo mundo agora se julga com certeza...

Outras expressões que agridem os ouvidos de tão surradas são atualizar, atualizando, atualização etc. Com um mínimo de imaginação poderiam dizer de outra forma. Seria pedir muito? 
Vivenciar é outro verbo que teve a má sorte de virar modismo. Ninguém mais vive, vivencia; ninguém viveu, vivenciou; vida não é mais vida, é vivência. E o curioso é que parecem imaginar que isso é elegante, prova de erudição, dá status.
Observar a evolução dos acontecimentos, a conferir, né, isso daí, conta pra nós, tipo, por conta de, cadê você, diferenciado, tem mais isso e mais aquilo são outras vítimas constantes.
 
                                 São verdadeiras aulas de deseducação.
Por sorte, parece que trabalhar em cima de, a nível de e gratificante estão caindo em desuso. Uf!
A quantidade de anúncios nos intervalos da programação também é intolerável e cada vez aumenta mais. A gente chega a esquecer do que estava assistindo. É um abuso. Por sorte existe uma teclazinha com a palavra mute que nos liberta dessa chateação.
Com certeza!
E nada indica que vá melhorar.
Com certeza!
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O Rio Guandu, do Rio de Janeiro, depois de anos de ostracismo, voltou ao noticiário pela má qualidade da água usada para consumo humano. Nos tempos da ditadura, durante o governo biônico de Carlos Lacerda, no extinto Estado da Guanabara, surgiu a acusação de que mendigos que infestavam o centro da cidade foram eliminados e tiveram seus corpos lançados no simpático curso dágua. Eram dias de censura mas alguns jornais e emissoras de rádio chegaram a noticiar que, de fato, cadáveres foram encontrados  no rio. Esses fatos nunca foram investigados e permanecem até hoje como mais um dos tantos esqueletos guardados nos armários da ditadura.
Com certeza!
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O presidente Bolsonaro declarou num dias destes que os esquerdistas não podem ser tratados como pessoas normais. Fiquei pensando qual seria o verdadeiro sentido dessa declaração. Estaria ele dando aval para que os esquerdistas sejam humilhados, ofendidos, agredidos ou até mesmo mortos? Foi uma declaração das mais infelizes cujas consequências poderão ser trágicas, além de revelar profunda intolerância.
Com certeza!
Escrito por Enéas Athanázio, 26/02/2020 às 16h53 | e.atha@terra.com.br

ESPANTO

O poeta Mário Quintana se dizia espantado quando relia o que havia escrito. Tratava-se, é claro, de uma “boutade”, uma vez que tudo que ele escreveu merece ser lido e relido. Eu me espanto com outras coisas, entre elas as declarações de alguns membros do atual governo. Algumas são assustadoras.

Não faz muitos dias, um cidadão indicado para algum cargo declarou através da televisão que índio não gosta de trabalhar. É uma declaração preconceituosa e falsa, evidenciando que ele nunca leu e nada sabe sobre índios. Uma declaração como essa fomenta o preconceito e contribui para alimentar a triste divisão que existe hoje na sociedade brasileira. O Brasil está tomado de preconceitos, muitas vezes carregados de ódio, contra negros, nordestinos, judeus, índios, moradores de rua, idosos, pobres e outros mais. Aquele brasileiro cordial de que falava Sérgio Buarque de Holanda não existe mais.

Darcy Ribeiro escreveu muito a respeito do trabalho indígena, tendo inclusive vivido no meio deles e acompanhado seu cotidiano. “Diários Índios” é um livro que merece ser lido por todo brasileiro. Outro que merece atenção, ainda mais específico, é “Trabalho Índio em Terras de Vera ou Santa Cruz do Brasil”, de autoria de José Martins Catharino. É um trabalho imenso, com 630 páginas, fundamentado numa bibliografia impressionante. Seu autor é um dos pioneiros nos estudos do Direito do Trabalho Rural, na época em que vigorou o respectivo estatuto. Neste livro ele surpreende, com base em rigorosas fontes, os indígenas brasileiros na época do descobrimento e examina o que aconteceu em seguida. Mostra o terrível e trágico equívoco dos europeus quando “atribuíram ao índio o defeito de não ser trabalhador.” É que, para eles, trabalho implicava em sedentarismo, horário, métodos, chefia etc., enquanto os índios sempre trabalharam – e muito! – mas de outra forma. Enquanto os europeus trabalhavam pela propriedade, para o mercado, pelo lucro e pela poupança, os índios não visavam nada disso. Aliás, Darcy Ribeiro observou que os índios não entendiam muito bem quando ele reservava comida para o dia seguinte; tratavam de comer enquanto tinham. A ideia de poupança era-lhes estranha.

O Prof. José Martins Catharino, no livro acima referido, expõe as variadas áreas de trabalho indígena: trabalho necessário à sobrevivência (caçador e coletor), trabalho culinário (alimentação), trabalho útil (construção de moradas e abrigos, confecção de vestuário e vasilhame), trabalho voluptuário (adornos, pintura do corpo, enfeites), trabalho para elaborar bebidas, chás e fumo, trabalho musical (confecção de flautas, apitos, outros instrumentos, aprendizado de cantos), trabalho desportivo (treinamento para aloites) e trabalho locomotor (confecção de jangadas, canoas e remos), além de inúmeros outros afazeres, como a confecção dos próprios instrumentos. Diante disso, conclui o mestre, o trabalho indígena não foi apenas constante mas árduo, ainda mais que não dispunham de tecnologia avançada. Portanto, a invasão branca provocou autêntica “desculturação indígena”, desorganizando a cultura local autêntica e conduzindo à sua destruição. Como enfatizou Luiz Luna, em seu clássico livro “Resistência do Índio à Dominação no Brasil”, a descoberta aconteceu no momento histórico crucial em que o índio evoluía da fase caçadora/coletora para a agricultura. O progresso acontecia de maneira normal tal como aconteceu com todos os demais povos.

Por tudo isso, o conhecimento de rudimentos de indigenismo é indispensável para evitar afirmações infelizes nestes tempos bicudos que vivemos.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/02/2020 às 12h40 | e.atha@terra.com.br

A PALAVRA ABSOLUTA

Diplomata, escritor e linguista, William Agel de Mello se tornou amigo íntimo de Guimarães Rosa. Ao ingressar na carreira diplomática, foi designado para o Serviço de Demarcação de Fronteiras, cujo chefe era ninguém menos que o autor do “Grande Sertão: Veredas.” Do convívio cotidiano brotou uma amizade que duraria até a morte prematura do grande escritor. Uma vez por semana comiam juntos em um dos restaurantes árabes próximos do Itamaraty. E, como se imagina, conversavam e conversavam.

Depois, William vai servir em Barcelona, como cônsul. Nessa época Rosa estava às voltas com a tradução de suas obras para o castelhano e a presença do amigo na Espanha não poderia ser mais oportuna. Escreve-lhe então um punhado de cartas que constituem uma preciosidade e que foram reunidas pelo destinatário num pequeno livro que é uma obra-prima pelo conteúdo e pela forma: “Cartas a William Agel de Mello”, publicado por Ateliê Editorial/Editora Giordano (S. Paulo – 2003).

As cartas têm a marca de Guimarães Rosa tanto pela linguagem como pela criatividade. “O que particulariza a obra de Guimarães Rosa é a linguagem – observa o destinatário das cartas. – Lançava mão do recurso às rimas, assonâncias e aliterações de forma sui generis. Com seu estilo personalíssimo, quebrava o princípio lógico, ia de encontro ao tradicionalismo, abominava o lugar-comum.” De fato, basta fixar o olhar sobre as cartas para enxergar Guimarães Rosa. E isso me faz lembrar do lançamento de “Grande Sertão: Veredas.” Segundo os críticos da época, o livro provocou um abalo sísmico na literatura daqueles dias. Os analistas ortodoxos ficaram desconcertados, perplexos, não sabendo se vaiavam ou aplaudiam. Também se percebe nas missivas a permanente busca da palavra exata para cada frase. Nada de semelhanças ou parecenças, haveria de ser precisa, insubstituível. Ou seja, a palavra absoluta.

Quanto ao conteúdo, as cartas são inigualáveis. Rosa inventa, cria, altera. Iô, Wi, Williãozinho, Williãozão, discipulérrimo, catalão de Goiás, provecto, conciliabulíssimo, discípulo inaceitável, probo e coroável, discipulante, barcelonês, eis alguns dos tratamentos que dispensa ao amigo distante. Mas trata também de assuntos pessoais e cobra ação para que William apresse editores e tradutores. Caso contrário, “renego-te, perespirio-te, desfraso-te, transblasfemo-te...Olha, hem?” E ficou esperando até que o outro “botasse isso a limpo.”

William contribuía com muito trabalho para a realização da obra do Mestre ou Maestro, como chamava o escritor. Lia em voz alta os textos enquanto Rosa, caneta na mão, ouvia e tomava notas, buscando o melhor resultado auditivo. (Como Monteiro Lobato também fazia). “Conforme a entonação, o Mestre interrompia a leitura, tomava notas – e depois modificava a frase ou a palavra. Dizia ele que era um “espírito” que o avisava para melhorar o texto. Sua eterna busca da perfeição, “a palavra absoluta.”

Surgem ainda fatos do dia-a-dia, referências a amigos, colegas e parentes, invocação de personagens da obra de William, acontecimentos do cenário mundial, recordações e saudades, muitas saudades do jovem amigo ao mesmo tempo ausente e presente. Trata-se, enfim, de um documento literário e biográfico sem igual do grande recriador dos sertões mineiros e goianos. Constitui ainda uma bela homenagem ao amigo mais jovem tantas e tantas vezes citado das mais carinhosas formas. 

Escrito por Enéas Athanázio, 10/02/2020 às 13h19 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.