Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Desprezo pela vida

A França vivia sob o tacão nazista, ocupada pelo exército alemão, durante a II Guerra Mundial. As prisões, torturas e fuzilamentos se tornaram tenebrosa rotina. A vida de um francês nada valia e todos os esforços se faziam necessários para sobreviver. Ocultar-se, omitir-se, evaporar-se eram as melhores fórmulas para continuar vivo. Ou, em contrapartida, aliar-se ao inimigo, ainda que correndo o risco de ser executado pela Resistência. Mesmo assim, essa foi a opção de Lotte, mantendo em sua própria casa um bordel para servir aos oficiais alemães.

Nesse ambiente deletério, misturado às profissionais do sexo – Blanche, Minna, Anny e outras – vivia Frank, filho da proprietária, mocetão bonito e dos seus 19 anos de idade. Alheio ao que se passava a seu redor, o rapaz parecia ausente de tudo aquilo. Bem vestido, envergando um legítimo “pelo de camelo”, trocava pernas pelas ruas recobertas de neve e frequentava os bares do bairro, juntando-se à pior ralé imaginável. Ali conheceu oficiais da ocupação, mulheres e muitos elementos de vida e ocupações duvidosas. Interessado em obter uma arma, tarefa difícil naqueles dias nebulosos, passou a desejar o revólver de um oficial gordo, beberrão e depravado que aparecia no Bar do Timo. Não havendo outro meio, não hesitou a matá-lo a facadas numa noite escura, nas proximidades do muro de um curtume abandonado. Apossou-se da arma ambicionada, mas teve a má sorte de ser visto por um vizinho do mesmo prédio, o motorneiro de bondes Holst, pai de Sissy, de cujo silêncio se tornou refém.

O tempo passa, o motorneiro não abre a boca, a filha dele se apaixona pelo rapaz que arma contra ela a mais indecente das ciladas. Nesse meio, é informado de que certo general, cujo nome nunca se pronunciava, colecionava relógios e pagava fortunas por raridades. Lembra-se, então, do relojoeiro de sua vila natal e resolve assaltá-lo. Reconhecido pela irmã dele, mata-a com o maior sangue-frio. Entregue a encomenda, recebe a metade do butim, importância muito alta, nada comum naqueles tempos de dinheiro curto. Passa a viver como um nababo, exibindo dinheiro e poder. Não contava ele, porém, com o imponderável: o dinheiro fora furtado pelo general e as notas estavam marcadas. Foi a sua perdição.

Quando menos espera, é preso e conduzido a uma escola improvisada em presídio. Não o torturam, preferem vencê-lo no cansaço, submetendo-o a seguidos interrogatórios. Ele resiste. Os dias se sucedem, os interrogatórios continuam e ele vai percebendo que eles tudo sabiam. Para seu espanto, descobre que Anny, uma das pensionistas, era agente da Resistência e emitia mensagens secretas. Como fazia isso constituía um mistério, pois passava os momentos livres lendo revistas. Recebe visitas da mãe e de Sissy. Aconselham-no a colaborar, mas ele resiste, nega e se recusa a responder. Mas o desgaste físico e psicológico é inevitável. Emagrece, vive sujo, barbudo, com os trajes amarrotados. Com dezenove dias de prisão não lembra nem de longe o moço bonito que foi e a vida lá fora parecia algo tão distante como uma miragem. Mas a técnica aplicada acaba mostrando seus resultados e ele se entrega. Confessa tudo, com datas, locais, horários. E depois se cala, sejam quais forem as consequências.  

Espancam-no, deixam-no nu no escritório, dão-lhe joelhadas nas partes genitais, só lhe dão sopa aguada para tomar. Mas ele nada diz, impenetrável no seu mutismo. Até que, numa madrugada fúnebre, o conduzem através do pátio, pisando na neve suja, ao ponto das execuções. Como vira tantos assim fazerem, levanta a gola do sobretudo e ruma cabisbaixo para o trágico desenlace. Entra em longa fila indiana à margem da galeria.

Esse, em breves pinceladas, o entrecho de “A Neve Estava Suja” (Cia. das Letras – S. Paulo – 2014), de Georges Simenon (1903/1989), com justa razão considerado um dos mais instigantes romances ambientados na França ocupada.

Escrito por Enéas Athanázio, 27/11/2017 às 08h56 | e.atha@terra.com.br

O romance do sofrimento

Rena e Danka Kornreich, moças polonesas e irmãs, viviam numa vila chamada Tylicz, na Polônia. Vida simples, tranquila e honesta. de família judia da classe média. O pai, ortodoxo, usava trancinhas nos cabelos e orientava a família a observar os rituais religiosos. Mas eis que nuvens turvas surgem no horizonte, os nazistas invadem o país e tem início a implacável perseguição aos judeus. Por medida de segurança, as irmãs são enviadas à Eslováquia, cruzando a fronteira de maneira clandestina, na calada da noite, correndo risco de vida caso fossem apanhadas. No país vizinho não acreditavam no que acontecia na Polônia, até que os nazistas lá também chegaram. Como as pessoas que abrigavam judeus eram fuziladas de forma sumária, as duas irmãs decidiram se entregar para salvar os parentes em cuja casa viviam. Imaginavam, na santa ingenuidade, que iriam para um campo de trabalho forçado de onde seriam libertadas mais tarde. Ledo e trágico engano.

Rena tinha 22 anos, Danka um pouco menos.

Conduzidas em um trem destinado ao transporte de gado, foram levadas ao campo de extermínio de Auschwitz, onde funcionavam a pleno vapor as câmaras de gás e as chaminés exalavam dia e noite a fumaça negra e fétida dos crematórios. Faziam parte da primeira leva de moças e mulheres destinadas à execução dentro do plano de “solução final do problema judaico”, arquitetado com técnica e precisão matemáticas. Mas, apesar dos horrores, Rena estava tomada da decisão inabalável de sobreviver e salvar a irmã mais jovem, alimentando o sonho quase impossível de retornarem juntas para casa, um dia. Tem início, então, a luta da inteligência contra a brutalidade.

Observando detalhes, analisando as atitudes dos soldados da SS e das Kapos, obtendo pequenos favores, furtando ínfimas porções de alimentos, negociando a ração diária de pão, ela tentava por todos os meios driblar os perigos e sobreviver. Tiradas das tarimbas em que dormiam às quatro da madrugada, formavam imensas filas para a contagem e depois eram forçadas a trabalhar até o anoitecer nos serviços mais rudes, sem qualquer reclamo, sob pena de açoites, chutes e pancadas. Pisando na neve ou suportando o granizo que caía, penavam com o frio intenso e a fome aguda. Sujas pela falta de água, cheias de sarna, piolhos e percevejos, eram proibidas de usar roupas de baixo. Em conseqiência, o roçar das roupas grosseiras (peças de uniformes de soldados russos fuzilados) feriam os seios, os pescoços e as pernas, transformando-os em verdadeiras chagas. Mas Rena não se rendia e tudo suportava. Cada dia vivido constituía uma vitória. Em momentos de desespero, elevava as mãos aos céus e clamava: Ó Deus, como permitis que isto aconteça?

Sufocando os gritos, as lágrimas e a revolta, assistiram a incontáveis cenas de inaudita brutalidade. Viram moças e mulheres fuziladas ao tentarem se suicidar lançando-se contra as cercas eletrificadas; contemplaram vidas serem tiradas a socos, pontapés, chibatadas e pisoteios; acompanharam as “seleções” para as câmaras de gás e os “experimentos científicos” de Mengele; acompanharam enormes colunas de crianças pequenas conduzidas às câmaras de gás e a chegada de novas levas de mulheres e, mais tarde, de homens cujos destinos estavam traçados. Sob a mira dos fuzis, foram forçadas a enterrar os mortos cujos corpos se deterioravam em toda parte. Enquanto isso, na maior tranquilidade, Irma Geese, brutal soldado da SS, tomava banhos de sol e exigia que Rena esfregasse suas costas bronzeadas com protetor solar, afirmando enfática que os nazistas estavam vencendo a guerra, dominariam o mundo e os poloneses seriam enviados a Madagascar como escravos vitalícios. Ela não contava com a chegada dos soviéticos e a corda com a qual seria enforcada aos 22 anos de idade.

Rena e Danka são transferidas para Birkenau e Neustadt Glewe, esqueléticas, doentes, desdentadas, famintas, mas ainda vivas, como por milagre. Notam que o campo começa a silenciar; muitos soldados fogem. Segue-se a tentativa frenética de esconder os vestígios antes que os soviéticos cheguem. Aviões aliados bombardeiam o campo. O caos se instala e tem início a Marcha da Morte tentando levar os prisioneiros para a Alemanha. Mas é tarde, muito tarde. Entram no campo os soviéticos e depois os britânicos. Rena e Danka são libertadas e ambas iniciam a inacreditável luta para reiniciar a vida.

Muitos anos depois, em depoimento à jornalista americana Heather Dune Macadam, já residindo nos Estados Unidos, Rena relata sua terrível história. O resultado foi o livro “Irmãs em Auschwitz”, publicado no Brasil pela Editora Universo dos Livros (São Paulo – 2015), um verdadeiro romance do sofrimento.

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O celebrado crítico literário Antônio Torres propunha a criação de um Gabinete de Profilaxia e Extinção de Poetas, anexo à Chefia de Polícia e destinado a catrafilar todo indivíduo que, tendo mais de vinte e cinco anos de idade, tivesse o desaforo de fazer um soneto amoroso. Com agências em todos os Estados, a repartição teria tantos funcionários quantos fossem necessários para deitar a mão aos poetas. Como seria impossível prendê-los todos, uma vez que se reproduzem como coelhos, a eliminação de boa parte serviria de bom exemplo para demover os plumitivos a suspenderem a pena e arquivar o estro. A proposição provocou protestos, em prosa e verso, mas o crítico a sustentou por longos anos, como informou mestre Wilson Martins em sua monumental “História da Inteligência Brasileira.”

Nos dias atuais – penso eu – a competência do tal Gabinete deveria ser estendida aos organizadores e participantes das ditas “antologias” que pululam por aí. Juntam-se algumas pessoas, recolhem uns tantos textos mal acabados, muitas vezes sem pé nem cabeça, e lançam um livro que, de livro mesmo, só tem o formato. Depois, em bombásticos lançamentos, são distribuídos ao público incauto. É dose!

Escrito por Enéas Athanázio, 21/11/2017 às 10h48 | e.atha@terra.com.br

Os bem casados

 O terceiro e último romance do escritor mineiro Godofredo Rangel (1884/1951) é uma crítica ao casamento levada às raias da caricatura. A esposa ambiciosa inicia pela dominação do marido, indivíduo fraco, destituído de personalidade, “anêmico de caráter”, acabando por se tornar uma déspota familiar que explora os pobres filhos, molambentos e tristes, e que reduz a autênticos servos-da-gleba. Esta, a gleba, é a fazenda de onde sobrevêm não apenas a subsistência, a riqueza material e o luxo, mas também a dignidade latifundiária.

“Os Bem Casados”, escrito com a mesma correção, limpeza e propriedade de expressão de “Vida Ociosa”, o romance de estreia, é triste, uma sátira terrível dos que  casam bem. Há momentos, porém, em que é impossível conter a gargalhada diante dos retratos de certas figuras ou do ridículo de algumas cenas.

Da mesma forma como ocorreu com “Falange Gloriosa”, o aparecimento do livro era temido pelo autor. Receava ele, sem dúvida, que alguém se identificasse nos seus personagens. Por essa razão, como na anterior, a obra só veio a público quatro anos após a morte do autor. A timidez rangelina manteve o “número três”, como ele dizia, por longos anos no fundo da gaveta.

Baldados foram os esforços de Monteiro Lobato para que o publicasse em vida. “Li o “Bem Casados” de uma assentada – o que quer você mais? Só as novelas muito empolgantes suportam essa prova. Todos os personagens fisgados na vida; e cada um, um tipo. Dona Alípia, ótima! O Coutinho, o Licínio, todos, até a Flausina, ótimos! Só Dona Ismênia me parece algo imaginado – poderá lá existir tamanha carneirice? Mas fica bem num livro de tanto realismo essa leve fuga à realidade. É sal na melancia. Está você, portanto, doutorado em romance” – escrevia-lhe o taubateano (“A Barca de Gleyre”, I/210).

Antonio Candido considera este o melhor livro do escritor mineiro, colocando-o mesmo acima de “Vida Ociosa.”

“Com efeito – escreve ele – para o leitor ainda lembrado das aquarelas pitorescas de “Vida Ociosa”, “Os Bem Casados” revelam um romancista novo e vigoroso, em que as qualidades ali manifestadas se encontram no plano mais alto duma visão novelesca surpreendente pela densidade humana, o equilíbrio da fatura e a nítida linha diretora da concepção. Na literatura brasileira Godofredo Rangel não será mais daqui por diante (penso eu) o autor plácido e humorístico de “Vida Ociosa”, mas sobretudo o autor amargo e destemido de “Os Bem Casados” (“Literatura Caligráfica”, p. 5).

Embora escrito antes dos demais (em fase anterior a 1910) é o romance mais perfeito da trilogia rangelina. Ao que tudo indica, foi totalmente reescrito, revisto e melhorado pelo autor, com paciência, antes do lançamento. Era o único livro de Rangel realmente inédito, jamais publicado, mesmo em jornais ou revistas. Nele, ao contrário do que ocorreu com outros escritos, Rangel abandona os personagens à própria sorte, sem enternecimento algum, aspecto também já anotado pelos seus analistas.

“Os Bem Casados” foi lançado em volume por Edições Melhoramentos, na série Ficção Nacional, e se encontra totalmente esgotado.

Desde 1977 – quarenta anos! – travo uma cruzada em favor de Godofredo Rangel. Perdi a conta dos locais e ocasiões em que falei e escrevi a respeito dele. Apesar de meu esforço, reconheço que o resultado tem sido pífio. Mas não perdi a esperança de que surja um editor corajoso que reedite suas Obras Completas, em volumes caprichados e com grande divulgação. Será prova de que a justiça, incluindo a literária, às vezes tarda mas não falha.

Escrito por Enéas Athanázio, 13/11/2017 às 18h35 | e.atha@terra.com.br

Libelo contra Lampião

O cangaço existiu desde o final do século XVIII até meados do século XX e constituiu um dos fenômenos mais curiosos de doença social endêmica até hoje registrado pela História. Foi um banditismo típico de nosso país, sem similar em qualquer outro canto do mundo. Bandoleiros e assaltantes existiram em muitos países, mas nunca com a organização interna, a hierarquia, as técnicas e a longevidade do cangaço brasileiro. Por tudo isso, ele tem sido objeto de permanente estudo por parte de historiadores, sociólogos e cientistas sociais, brasileiros e estrangeiros, muitos dos quais se tornaram especialistas no tema. A bibliografia a respeito é imensa, espraiando-se pelo cinema, pela televisão e pelo jornalismo em todas suas modalidades.

Em ordem cronológica, os autores costumam situar os períodos do cangaço conforme a figura do cangaceiro dominante na época. Assim, o mais antigo deles teria sido o Cabeleira, descrito em romance célebre por Franklin Távora. Chamava-se José ou Joaquim Gomes. No mesmo período, ou logo a seguir, pontificava Lucas da Feira, estuprador e torturador que chegou a interessar ao Imperador. Em seguida apareceu Jesuíno Brilhante, chamado o cangaceiro romântico, espécie de justiceiro que tirava dos ricos para dar aos pobres e se recusava a ser considerado ladrão. Também apareceu Antônio Dó, homem revoltado e violento. Depois deles, destacou-se Antônio Silvino, considerado homem de coragem sobre-humana, mas que acabou ferido e preso, cumprindo longa pena na penitenciária de Recife, hoje transformada em centro de cultura popular. Entrou em cena, então, a figura estranha de Sinhô Pereira, cangaceiro de longa carreira que pressentiu o início do fim e se retirou para uma vida pacata, nos confins de Goiás, depois de designar como seu sucessor ninguém menos que Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião. Imperando por 22 anos, Lampião foi morto na Grota do Angico em 28 de julho de 1938, data considerada como o fecho do cangaço. É verdade que Cristino Gomes da Silva Cleto, o Corisco, tentou resistir como chefe de bando e praticou as maiores atrocidades como vingança, mas acabou morto em 25 de maio de 1940.

Com o ingresso de Lampião na vida cangaceira, segundo os autores, teve início a era do cangaço sem ética. Para ele e seu bando não existiam limites. Invadia vilas e cidades indefesas, assaltava propriedades, torturava pessoas, sequestrava, surrava, humilhava. Exigia vultosos pagamentos em dinheiro da população sob pena de depredar suas casas. Sua audácia chegou a tal ponto que enviou uma carta ao governador propondo a divisão do Estado em duas partes, ficando ele como governador do sertão. Zé Baiano, um de seus homens, ferrava as mulheres nas faces com um ferro incandescente com suas iniciais. Em suma, Lampião constituía um flagelo para os moradores, sempre temerosos de sua chegada. Qualquer boato nesse sentido levava a população em massa a se refugiar nas matas. Não obstante, Lampião sempre teve um séquito de admiradores que o consideravam o herói que enfrentava o poder público ausente e corrupto.

Foi então que Pedro de Morais, magistrado aposentado, publicou o livro “Lampião, o mata sete” (2011) no qual, além de realçar toda a maldade de Lampião, afirma que o mesmo era  gay, revelando essa tendência desde a infância. Segundo ele, o cangaceiro formava um trio amoroso com Luís Pedro, integrante do grupo e seu protegido, e a célebre Maria Bonita. Para tanto se baseou em vastíssima pesquisa, consultado os mais respeitados especialistas. Como é de imaginar, a obra caiu como autêntica bomba e provocou intensa polêmica. A filha e a neta de Lampião obtiveram uma liminar proibindo a circulação da obra, mas o Tribunal de Justiça a cassou e a venda foi permitida. Archimedes Marques, outro estudioso do assunto, publicou o livro “Lampião contra o mata sete” em que rebate as afirmações de Pedro de Morais e defende a masculinidade de Lampião. E assim a polêmica se instaurou, prosseguindo até hoje, com debates, entrevistas, cartas e o mais. Tudo indica que não terminará tão cedo.

Mesmo deixando de lado essa questão, o livro de Pedro de Morais é um tremendo libelo contra Lampião. Grande conhecedor da biografia do cangaceiro, o autor põe em dúvida sua proclamada valentia, duvida de sua estratégia, afirma que nada entendia de guerrilha e aponta sua extrema crueldade, incapaz de qualquer sentimento mais nobre. Embora invocasse justificativas sentimentais (escudo ético), na verdade teria abraçado o cangaço por pura ganância, como lucrativo meio de vida, tanto que, ao morrer, carregava vultosa quantidade de dinheiro e ouro. Segundo ele, Lampião não passou de um degenerado. É verdade que sua visão é conservadora, não levando em conta as circunstâncias mesológicas, como se o cangaceiro pura e simplesmente decidisse, de um momento para o outro, tornar-se um indivíduo maligno, capaz das maiores atrocidades. Também não explica como, com tantas falhas, Lampião tenha sobrevivido no cangaço por longos 22 anos e só foi morto graças a uma traição e com o sertão fervilhando de volantes à sua procura.

Seja como for, é uma contribuição importante e merece ser lido. Livro bem escrito e fundamentado.

Escrito por Enéas Athanázio, 06/11/2017 às 10h41 | e.atha@terra.com.br

O anjo de Hamburgo

“A Aracy, minha mulher,
Ara, pertence este livro.”
      Guimarães Rosa

Importante publicação de cunho histórico e cultural publicou interessante ensaio a respeito de Aracy Guimarães Rosa (1908/2011), de autoria de Ayrton Gonçalves Celestino, e que bem merece algumas considerações (*).

Nascida em Rio Negro (PR), foi registrada como Ema e, mais tarde, mediante sentença judicial, passou e ser Aracy Mebios (que deveria ser Moebius). Ainda criança, mudou-se para São Paulo em companhia da mãe. Em 1929 casou-se com o cidadão alemão Johannes Edward Ludwuig Tess, com quem teve o filho Eduardo Tess. O casamento não durou muito e Aracy, com o filho e a mãe, mudou-se para a Alemanha, onde a vida não foi fácil. Graças ao seu conhecimento de idiomas, conseguiu um emprego no Consulado Brasileiro em Hamburgo, onde lhe cabia tratar dos documentos das pessoas que desejavam emigrar para o Brasil. Aí teve início uma fase gloriosa de sua vida.

Médico, escritor e diplomata de carreira, o mineiro João Guimarães Rosa foi designado titular do mesmo Consulado e lá conheceu Aracy, mulher muito bonita e elegante. Apaixonaram-se e passaram a viver juntos, casando-se anos depois no México, por procuração, uma vez que no Brasil ainda não havia divórcio. Guimarães Rosa também havia saído de um casamento mal sucedido. Passam, então, a trabalhar juntos.

Intensificava-se na Alemanha a perseguição contra os judeus, com a chamada Solução Final em plena execução, enquanto no Brasil o governo Vargas impedia a entrada de semitas. Desesperados, eles buscavam todas as formas para deixar aquele país. E então, correndo o risco de ser descoberta e cair nas mãos da Gestapo, o que lhe custaria a própria vida, Aracy começou a tomar medidas para facilitar a entrada de judeus no Brasil. Omitia nos documentos qualquer menção à condição de judeus dos emigrantes e assim salvou a vida de muitas pessoas de todas as idades. Era um sério risco que ela assumiu com imensa coragem, ciente de que praticava atos de verdadeiro heroísmo e movida por profundo sentimento humanitário. Sabendo das ações da esposa, Guimarães Rosa temia por ela mas jamais interferiu.  “O pavor que você tinha que a Gestapo me pegasse...” – lembrou ela em uma carta.

Retornando ao Brasil, Guimarães Rosa se consagra como um dos maiores expoentes de nossa literatura.  Eleito para a Academia Brasileira de Letras, vai adiando a posse como que tomado de estranha premonição. Falece três dias após a solenidade, aos 59 anos de idade, deixando uma obra imorredoura em que avulta o “Grande sertão: veredas”, romance monumental que até hoje desafia os críticos. Dizia-se, na época de seu lançamento, que ele provocou um abalo sísmico em nosso mundo literário.

Aracy, sempre corajosa e decidida, desafia a ditadura e abriga perseguidos políticos em sua própria casa. Como em tempos de guerra, na Alemanha, afronta todos os riscos.

O reconhecimento pelo seu esforço em favor dos judeus não tarda a aparecer, não apenas aqui mas também no exterior. “Foi a única mulher latino-americana de origem não judia considerada personalidade de relevo internacional pela Comunidade de Israel”, informa o autor. Tornou-se conhecida como o Anjo de Hamburgo, foi homenageada no Museu do Holocausto, em Jerusalém, no Jardim dos Justos, e também no de Washington. Em 1985, com a presença dela, foi inaugurado o Bosque Aracy, em Jerusalém, ocasião em que proferiu bela oração. Em Rio Negro, sua cidade natal, é inaugurada em 2012 a Biblioteca Cidadã Aracy Guimarães Rosa  em festiva e justa homenagem à filha da terra, contando com a presença de seus descendentes e numeroso público.

Aracy viveu até os 102 anos, cercada sempre pelo afeto e pelo reconhecimento por sua corajosa defesa das vítimas do ódio e da desvairada intolerância. Seu nome ficou inscrito de maneira perene nos anais da história mundial.

O ensaio de Ayrton Gonçalves Celestino é rico em material iconográfico e constitui uma bela homenagem a quem a mereceu, além de ser um alerta para que tais monstruosidades nunca mais se repitam.

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(*) Boletim do Instituto Histórico e Geográfico
           do Paraná, Vol. LXX, 2017, p. 23.

Escrito por Enéas Athanázio, 30/10/2017 às 16h25 | e.atha@terra.com.br

Ideia Fora do Lugar (2)

Gilberto Amado, expoente do memorialismo nacional, foi diplomata de carreira e viveu inúmeros anos no exterior, quase sempre em países de pequenas dimensões. Com fundamento nessa experiência vital, concluiu que os nativos de países grandes e pequenos são muito diferentes na sua psicologia e na formação da personalidade. Aqueles são criados na largueza, na amplidão, nos vastos espaços, e por isso cultivam o sentimento inato de liberdade e independência, podendo se locomover a grandes distâncias sem encontrar barreiras, alfândegas, fronteiras, revistas e policiamento. Como nós, brasileiros, que podemos palmilhar por dias seguidos ou por horas de voo sem sair do território nacional, sem qualquer obstáculo, e ouvindo a mesma e doce língua portuguesa, uma das mais belas dentre todas.

Por essas e outras, espanta-me o movimento que pretende criar novo país nos Estados do sul. Ele me parece uma ideia fora do lugar porque é a primeira vez na vida que vejo uma luta para deixar de ser grande para se tornar pequeno. Em vez de progredir, regredir; em vez de crescer, minguar. Posso dizer que conheço o Brasil de ponta a ponta, inclusive a região sul, e por isso não vejo como o novo país poderia vingar. Seria inviável e colocaria a população da região numa situação catastrófica. Como tantos países pequenos, seria mais um a tropicar pela estrada da vida, sem perspectiva e sem futuro.

Com efeito, como iria de sustentar? De onde viriam os combustíveis, o gás, a energia elétrica, os medicamentos, os veículos, os alimentos e tudo mais que procede de outras regiões?  E se isso não bastasse, com que recursos criaria um Judiciário federal, um Congresso Nacional, um Executivo com todos seus ministérios, secretarias, departamentos, empresas estatais, polícia federal e rodoviária e toda a parafernália administrativa?  E as Forças Armadas, como seriam mantidas? Como adquirir navios, aviões, veículos e tudo mais? Adotaríamos canoas e barcos a remo? Com que roupa manteríamos o SUS? Ou seria extinto e voltaríamos às meizinhas, garrafadas e benzeduras? Como pagaríamos aos aposentados e pensionistas do INSS? Deixaríamos morrer à míngua? As universidades federais seriam fechadas? É evidente que seria impossível custear tudo com recursos apenas do sul, a menos que não existisse nada disso e se revertesse ao passado remoto, com o presidente legislando por decreto e a justiça se realizando no braço ou no tiro.

Talvez se adotasse uma monarquia, tendo no comando os Orleães e Bragança, já que “Dom” Bertrand é visitante assíduo de nosso Estado. E com ela viria todo o séquito de nobres, barões, condes, viscondes e tudo mais, dos quais seríamos “fiéis vassalos”..

No campo das relações internacionais, seria necessário estabelecer embaixadas em Brasília e em numerosos outros países, salvo que se pretendesse adotar um isolamento suicida. Para ir a São Paulo, à Bahia ou ao Rio de Janeiro seria necessário passaporte e visto do governo brasileiro. E qual seria a capital nacional? E a língua oficial: o alemão estropiado ou o italiano macarrônico? E o vestuário: a pilcha ou as bermudas com suspensório e chapeuzinho com pena? Ora, ora, convenhamos que seria um país digno de pena, um arremedo de país.

Como costuma acontecer em pequenos países sul-americanos, não tardariam a surgir clãs dominadores que tomariam o poder por bem ou por mal e nele se perpetuariam. Aí estão os exemplos históricos da Nicarágua, da República Dominicana, da Guatemala, do Haiti, do Paraguai e outros mais, onde ditadores sanguinários se apossaram do país por décadas.

Para sorte da população sulista, essa campanha está fadada ao fracasso. É cláusula pétrea da Constituição Federal a integridade do território nacional, tema que nem pode ser discutido em termos jurídicos, e a simples tentativa de secessão já constitui crime previsto em lei. Aí está o ponto final desse desvairismo.

Nosso povo é dotado de inato bom senso e não se deixa envolver com facilidade. Prova disso foi o retumbante fracasso do “plebiscito” há pouco realizado sobre o assunto.

Escrito por Enéas Athanázio, 23/10/2017 às 10h36 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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