Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O jornal do sábio

O escritor pernambucano Antonio Fernando de Andrade vem publicando há vários anos um periódico sui generis que já se tornou conhecido em todo o país. Em formato de panfleto e muito bem ilustrado, é de uma criatividade incrível no encarar a realidade nacional. Com grande coragem editorial e esbanjando humor, ele põe a nu as mazelas brasileiras em charges que nada perdoam. O sucesso tem sido enorme e a publicação já superou os 1235 números.

Nos exemplares que tenho em mãos, - os mais recentes que recebi, - ele comenta assuntos sempre presentes no noticiário, como o estado precário da saúde pública. Diógenes – escreve ele – sai com sua lanterna não à procura de um homem mas à procura de um remédio nos postos de saúde... Veja os direitos do povo, alerta ele diante de um quadro em branco, para concluir: Você não é deficiente visual! E continua: No Século XXX arqueólogos descobrem ruínas no Brasil: o povo era humilhado, explorado e esquecido. Para compensar, quase foi aprovado no Congresso projeto para beneficiar o povo. Não fosse o quase... Em compensação, o povo está livre da depressão, pois chegou o cartão propina.

A má qualidade da educação não escapa. O professor, afirma ele, é uma espécie em extinção. E o maior sonho de muitos é ter um professor alfabetizado. A indispensável reforma da educação prevê os seguintes itens: exportar analfabetos, atualizar o livro sem páginas, incluir a fofoca no primeiro grau e colocar no lixo as cotas para livros. Será perfeita! E agora que reformamos, legislamos e desviamos, o que mais deseja o povo? Morrer? O analfabeto, informa ele, é uma obra inacabada da educação.

A segurança pública marca presença. Menor matador é preso, diz a manchete do Jornal da Mentira. Qual o seu maior sonho? Ter um porte de arma especial. E que mais? Morar num presídio de segurança máxima. Menor abandonado é quase adotado, menor matador é quase preso. Última hora: mineradora precisa de fiscais! Vivemos sob lamas, impunidade e mortes. Na onda de reformas, o Brasil vai patentear a impunidade.

Enquanto isso, prepara-se a reforma política, informa o Jornal da Mentira. Mas ela só virá em 31 de fevereiro. No circo político, o palhaço oficial é o povo. Não tem voz, nem vez, nem liberdade, nem proteção.

E a fome que grassa no país? Foi descoberto o vírus da fome, afirma ele: o salário mínimo. Os direitos humanos, a ONU e Médicos Sem Fronteiras não conseguiram derrotar a milenar fome. A fome é a morte por falta de pão e as crianças estão sem voz, sem vez e sem pão. Enquanto são vendidas as verbas para combater a fome o Brasil terceiriza a fome dos brasileiros. Porque a fome é o clímax da humilhação.

Nessa onda de privatizações, acabarão por privatizar a Previdência. Em conclusão: o povo é o refugiado do sistema. E os assalariados são os refugiados da escravidão.

Como diziam os romanos: ridendo castigat mores!
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Contatos com o Jornal do Sábio: Rua D. João Moura, 3 0 5
Engenho do Meio – 50730-030 – RECIFE – PE.

Escrito por Enéas Athanázio, 07/03/2019 às 10h17 | e.atha@terra.com.br

BOAS TARDES, COMPANHEIRADA!

Tavico alimentava pretensões eleitorais e gostava da atividade política. Deparava-se, porém, com um sério obstáculo: não conseguia falar em público. Diante dos ouvintes, entrava numa timidez infantil, as pernas fraquejavam e batia-lhe invencível tremedeira. O máximo que conseguia era levantar o chapéu e exclamar em voz tremida:

- Boas tardes, companheirada!

Diante do impasse, justou um porta-voz, advogado sem serviço mas bem falante.

Lançado candidato, Tavico compareceu ao grande comício realizado na praça central da cidade e com intensa presença de público. E lá estava ele, com ar solene, apresentando-se ao eleitorado. Ao lado, muito empolgado, o porta-voz tomou da palavra:

- Senhoras e senhores! Estou aqui, junto de nosso candidato e falando em nome dele. Trata-se de pessoa das mais conhecidas, homem de bem, cidadão prestante. É um homem alquebrado nas lutas em favor do povo, alquebrado no serviço coletivo, alquebrado na devoção ao bem comum, alquebrado, alquebrado. . .

Tavico, ali perto, pegou a se inquietar com aquilo. Trocava as pernas, retorcia os bastos bigodes e começou a suar frio. Até que, não suportando mais, venceu a custo a timidez e bradou:

- Péra aí, dotor, péra aí! Quebrado, não! Quebrado, não!

A gargalhada do povaréu ecoou na praça mas o candidato ficou feliz por ter colocado as coisas no devido lugar.

Eleito, Tavico compareceu à solenidade de posse no salão do Clube Comercial, o mais importante do lugar. Todo enfeitado e florido, o local estava repleto de convidados e iluminado de maneira feérica. A banda local, a euterpe municipal, logo de início atacou o Hino Nacional. Muito animado e disposto, o candidato eleito agarrou a patroa e saiu dançando, só parando quando a banda deu os derradeiros acordes.

Retornando à mesa, enxugando com um lenço rajado o suor que brotava da testa, foi indagado por um gaiato:

- Então, “seu” Tavico, que achou da música?

E ele, muito pronto:

- Munto boa, munto boa, mas munto ligeirinha!

Dias após a posse, Tavico foi convocado para um curso em Florianópolis, destinado a orientar os novos eleitos. Para lá se dirigiu, hospedou-se em grande estilo num bom hotel junto com a comitiva. Passou um dia inteiro dentro de uma sala abafada ouvindo explicações e mais explicações sobe administração, orçamento, normas tributárias e o mais. No final da aula, suado e cansado, saía da sala quando se deparou com o repórter Adolfo Zigelli de microfone em punho. Tentou se desviar mas o repórter escolado o cercou num canto e foi perguntando:

- Então, “seu” Tavico, como foi o curso?

- Bãh, tchê! – respondeu ele. – Tô ca cabeça que é um tacho!

Pano rápido! – como dizia o Milor Fernandes.

Escrito por Enéas Athanázio, 25/02/2019 às 09h23 | e.atha@terra.com.br

AGRURAS DO MEIÓTA

Embora retinto e lustroso, ninguém se arriscava a chamá-lo de negro. Com muito boa vontade, estando no seu dinheiro, ele tolerava que o tratassem de moreno, eufemismo em geral usado. Naqueles tempos o conceito de negritude era difuso e a palavra já por si carregava enorme carga de preconceito. Tanto que o Meióta não aceitava preto ou negro e respondia em cima da tampa: “Isso é sua mãe!” Exigia que o chamassem de cidadão e tinha lá suas boas razões, encravadas nos dias já afastados do passado. E no entanto, nunca se livrou do apelido, por mais que protestasse.

Quando o conheci, ele residia num rancho para os lados da “saída” e vivia dias difíceis. Em nossos encontros sempre nos tratamos com cordialidade, mesmo quando ele, bem alto na pinga, andava em zigue-zague pela rua poeirenta. Numa dessas ocasiões, ele afirmou, com a língua travada e a voz pastosa: “Eu já fui coisa nesta vida, menino! Não fosse o maldito vício, hoje eu seria o seu Pereira, enfiado no meu uniforme, e todos me respeitariam.” Não tive razão para duvidar, mesmo porque ele tinha modos de gente educada e eu, ainda garoto, o conhecia de pouco. Mas a partir dali tomei interesse e comecei a indagar a respeito daquele homem solitário e sofrido.

Contava-se na Vila que Meióta, cujo nome caiu no esquecimento, fora, de fato, coisa. Entrando muito cedo no serviço da ferrovia, aos trinta e poucos era chefe-de-trens cargueiros e, pouco depois, de passageiros, quase no topo da carreira que terminava na função de inspetor. E lá ia ele, o seu Pereira, para o norte e para o sul, envergando seu vistoso uniforme azul com botões e punhos dourados, coberto pelo quepe alusivo à condição de chefe supremo a bordo da composição. Em passo firme e decidido, percorria os vagões, gritando o nome da próxima estação, e recolhendo os tíquetes das passagens. Respeitado por todos, tinha fama de honesto, não aceitando propinas e nem permitindo clandestinos. No seu trem ninguém viajava sem passagem e os passageiros tinham que manter o bom comportamento. Nada de gritarias, arruaças, bebedeiras ou agarramentos de casais.

Mas – e aí entra o velho mas! – o vício é a perdição do homem. Provando um gole aqui, outro acolá, nas frias e solitárias travessias do vale tortuoso por onde o trem corria todos os dias, virou um escravo da pinga, transformando-se naquilo que os médicos definem gravemente por dependente. Quando começou a se sentir notado pelos subordinados, maquinistas, foguistas, guarda-freios e jornaleiros, tratou de esconder o vício numa pequena garrafa que levava no bolso, - uma meióta, - de onde lhe veio o tenebroso apelido. E assim, em pouco tempo, perdeu o emprego, perdeu o respeito dos outros, perdeu até o próprio nome, substituído pela alcunha infamante. Foi morar naquela Vila esquecida, biscateando, fugindo das chuvas e friagens num rancho mambembe, feio e esburacado.

Tinha lá alguns amigos, entre eles um tal Natão, desocupado e desordeiro que passava os dias na plataforma da estação, numa roda de vadios, proseando prosas à-toa e dando risadas que ecoavam ao longe. Quando não bebia, Natão era o melhor dos amigos; bêbado, ficava insuportável. Nesse estado, por mal da sorte, acometia-o uma idéia malvada e sem razão: queria a todo custo incendiar o rancho do Meióta e mais de uma vez foi impedido a muque de realizar o propósito incendiário. Pertencente à família dos mandões da Vila, nada lhe acontecia, e por isso o pobre Meióta vivia em permanente e desesperada vigília. Cada vez que avistava o Natão no rumo de seu rancho ou lhe diziam que ele andava por aquelas bandas, desabalava na defesa de seu último reduto. Não foram poucas as vezes em que acordou, alta madrugada, com o Natão rondando sua mísera morada, munido de petrechos inflamáveis. Durante anos essa corrida se repetiu.

Os tempos voaram, afastei-me da Vila e não tive notícia do desfecho de tão estranho furor incendiário. Meióta “passou para o outro lado do mistério”, como dizia mestre Machado de Assis, e Natão está sumido em vida, conforme o dito mineiro. Creio que o rancho não foi consumido pelas chamas, mas os protagonistas da história, com certeza, se consumiram no fogo da pinga.

Escrito por Enéas Athanázio, 18/02/2019 às 09h57 | e.atha@terra.com.br

O CONTESTADO: CONVERGÊNCIAS E DIVERGÊNCIAS

Os historiadores consagraram o nome de Guerra do Contestado para designar o conflito ocorrido no Planalto entre 1912 e 1916. Nas minhas leituras a respeito, cheguei à conclusão de que se trata de uma designação imprópria. Tanto do ponto de vista jurídico como sociológico, o que aconteceu, na verdade, foi uma revolução e não uma guerra. De fato, o que caracteriza uma revolução é o movimento espontâneo, nascido de baixo para cima e com o objetivo de alterar pela força um statu quo que oprime ou prejudica as pessoas. Havia na região profundo mal-estar social decorrente das dificuldades econômicas dos moradores menos favorecidos, entregues ao abandono e submetidos aos desmandos dos latifundiários. Com o término da construção da ferrovia, grande contingente de trabalhadores braçais, os chamados arigós, foram demitidos, engrossando a caudal de desempregados que não tinham para onde ir. Agravou-se ainda mais a situação quando a Companhia Lumber, um dos braços do Sindicato Farquhar, deu início à expulsão dos posseiros que habitavam as terras recebidas do governo federal em troca da construção da estrada de ferro. Tudo isso, além da confusão decorrente da questão de limites entre Santa Catarina e o Paraná e o fanatismo religioso implantado pela longa pregação dos “monges” levou aquele povo à maior sublevação popular de nossa história. O povo da região, pelo que verifiquei, rotulava aqueles acontecimentos como a Revolta dos Jagunços, designação que me parece mais aproximada da realidade.

Há muita confusão a respeito do nome da grande madeireira, a segunda maior do país, só suplantada pela de Três Barras. Seu nome correto era Southern Brazil Lumber and Colonization Company. Mais tarde foi “incorporada” ao patrimônio nacional e depois privatizada em uma transação das mais suspeitas, segundo a imprensa da época.

O jornalista Paulo Ramos Derengoski, em livro muito conhecido, afirma que no chamado Combate do Irani, travado em 22 de outubro de 1912, pereceram 13 soldados e 1 alferes, omitindo o número de sertanejos mortos. Em outros autores, li que morreram 22 pessoas, enquanto alguns não conseguem precisar o número exato de vítimas. É uma questão em aberto (*)

Em relação aos personagens, muitas discrepâncias existem. Sobre Chiquinho Alonso, o mesmo autor acima citado afirma que se tratava de antigo tropeiro e havia liderado os “Doze pares de França.” Outros afirmam que ele fora “comandante de briga” de um dos redutos. Ora, corre a versão, ou lenda, de que ele teria liderado a invasão de Calmon quando tinha entre 16 e 17 anos de idade. Com um passado assim longo em outras atividades, não me parece que fosse tão jovem ao comandar a invasão; existe aí algo mal explicado. Por outro lado, sempre tive como certo, a partir de leituras, que o ataque a Calmon ocorreu em 5 de setembro de 1915, mas Derengoski o situa um ano antes, em 1914. É outro ponto a esclarecer.

Escreve ainda o mesmo jornalista que teriam sido usados dois aviões, pela primeira vez em conflito civil, para bombardear a área da luta, lançando panfletos e granadas. Os pilotos foram Ricardo Kirk e Dariolli, ambos italianos, segundo afirma. Em outras fontes, li que Kirk era tenente, portanto oficial das forças armadas nacionais, o que torna difícil entender que fosse italiano. Como se sabe, um dos aviões caiu, matando o referido Ricardo Kirk. Outros autores se referem a um único avião.

Em outra passagem, diz o mesmo autor que o capitão Matos Costa foi morto por Venuto Baiano quando se dirigia à serraria da Companhia Lumber que ardia em chamas. Sempre li que ele, na verdade, foi assassinado nas proximidades de São João dos Pobres, hoje Matos Costa. Os moradores mais antigos indicavam como palco da tragédia o local em que a antiga rodovia cruzava sobre a estrada de ferro. Em virtude desse crime, o Baiano teria sido degolado por Adeodato, o último jagunço, cognominado de Flagelo de Deus,

Por fim, afirma ele que o célebre bilhete de Chiquinho Alonso foi deixado dentro de uma locomotiva e não afixado numa parede, como em geral se afirma.

Como se vê, muitos são os aspectos duvidosos e que precisam de maior esclarecimento.

_____________________
(*) “O desmoronamento do mundo jagunço”, de Paulo Ramos Derengoski, Florianópolis, Fundação Catarinense de Cultura, 1986.

Escrito por Enéas Athanázio, 12/02/2019 às 12h55 | e.atha@terra.com.br

GUERREIRO DO POVO

Ao terminar a leitura dos originais de “Lobato Letrador”, de Zoler Zoler (Betty Sanson), tive que respirar fundo. Leitor de Monteiro Lobato de longa data, devo reconhecer que jamais encontrei tão volumosa massa de informações e análises a respeito dele e sua obra como nestas compactas páginas (mais de 700).

Misto de biografia e ensaio, sem ser uma coisa ou outra, o livro é um enfoque sui generis de Lobato, sua obra e sua ação. Todas as fases de sua existência são evocadas, sempre lastreadas nos próprios textos da obra ou em sólidas fontes de informação, revelando preocupação com as datas e lugares para bem contextualizar os acontecimentos. Mostra o empenho do escritor na busca de uma expressão própria, individual e única, um estilo pessoal e inigualável. Revela a dedicação com que realizou a chamada obra adulta, procurando a linguagem que falasse ao leitor e o prendesse na leitura. E, mais tarde, ao perceber a penetração de sua literatura infantil, optar por ela, lamentando não ter escrito mais para as crianças.

O livro não se contenta em examinar a obra literária e o pensamento de Monteiro Lobato, o que já não seria pouco. Vai além. Comenta toda sua incansável atividade nos mais variados campos de ação. Evoca o Lobato escritor, fazendeiro-empreendedor, Promotor Público e advogado, jornalista, criador da literatura infantil brasileira, editor e fundador da indústria livreira, combatente pelo ferro e pelo petróleo, propagandista, tradutor, incentivador atuante de memoráveis campanhas em favor das florestas, do saneamento, das estradas, da difusão do livro e outras tantas. Enfim, um homem público sem cargos – como afirmou Edgard Cavalheiro.

As antecipações e premonições de Lobato, apontadas no correr do livro, são impressionantes. Sem conhecer Pedagogia, ele se adiantou a seus métodos mais modernos, tais como os pregava a Escola Nova, de Anísio Teixeira; sem conhecer Semiótica, intuiu suas lições, inclusive nos aspectos mais avançados, como o do sabor, ao imaginar o livro comestível, o livro-pão, que seria devorado após a leitura e poderia entrar tanto na casa do sábio como na do analfabeto. Para completar, foi precursor do Letramento, muito tempo antes do surgimento da própria palavra com tal sentido por volta de 1980. A centelha do gênio permitiu que seu olhar invadisse o futuro.

Acima de tudo, porém, a autora mostra que Lobato foi um educador, um professor, um letrador, e que sua preocupação permanente foi a de educar o seu povo. Em certa fase, depois de visitar uma escola, chegou a pensar que sua verdadeira vocação seria a de professor. Em suas iniciativas editoriais, muitas delas arriscadas para a época, avultava sempre o desejo de educar. Inundar o país de livros, interessar as pessoas pela leitura, empurrar o livro goela abaixo, como as mães faziam ao dar óleo de rícino às suas crianças. Porque – dizia ele – o livro faz homens e um país se faz com homens e livros. Para isso, mesmo escandalizando os mais conservadores, anunciava seus livros através dos jornais e usava táticas de “merchandising” então inusitadas, obtendo resultados impressionantes. Tratou de colocar seus livros diante dos olhos do leitor, em toda parte, fosse nas livrarias e nos açougues, nas vendas e nos verdureiros.

Como letrador, criou o método pessoal de ensinar brincando, de aprender sem esforço, de transmitir provocando a imaginação e a fantasia e de estudar sem sentir, e assim induzindo a criança à leitura. Graças a isso, sua literatura para crianças ganhou o país e o mundo. Condenava o horror dos livros escolares secos e áridos em que os alunos se viam obrigados a decorar nomes e datas que pouco diziam e pregava uma renovação que deixasse de lado o ultrapassado método da “decoreba” para o qual saber “era ter na ponta da língua.” Em conclusão, Lobato revolucionou o ensino sem entrar em sala de aula, como professor, salvo nas conferências em prol de suas campanhas, e que realizava com grande timidez. Como se não bastasse, inspirou nas crianças o espírito democrático através do ambiente libertário do Sítio do Picapau Amarelo, presidido por uma mulher sábia e iluminada, num exemplo inédito de valorização da mulher.

Para compor esse livro monumental, a autora examinou tudo que existe sobre Lobato em livros, teses, ensaios, revistas, jornais e na Internet. A bibliografia estudada é impressionante e creio que nada escapou. Mesmo trabalhos publicados em periódicos de pouco alcance ou por editoras regionais foram examinados e todos os autores identificados em breves currículos.

A leitura do livro vale como informação e recapitulação. Nele Lobato aparece por inteiro. Trata-se, enfim, de um livro para morar, como ele desejava que fossem os verdadeiros livros. Com ele, a autora traz uma contribuição sem precedentes aos estudos lobatianos.

Em quatro alentados volumes, publicados por Tagore Editora/Tupy Publishing, de Brasília, o livro foi lançado nos primeiros dias de 2019, ano em que a obra de Lobato caiu em domínio público.

Escrito por Enéas Athanázio, 04/02/2019 às 09h39 | e.atha@terra.com.br

PREMONIÇÃO

Afirmou um crítico que certos contos de autoria do escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899/1961) parecem não dizer nada e, no entanto, vão envolvendo o leitor num clima de tensão indescritível. Isso é obtido através de uma linguagem simples e direta, destituída de adjetivação desnecessária e, em geral, usando muitos diálogos, técnica em que ele foi mestre. O resultado não decorre do uso de vocábulos pesados ou carregados de sentido, mas de uma narrativa que se desenrola com a maior naturalidade, como se não estivesse preocupado em relatar coisa alguma.

É o que acontece, entre outros, em “Véspera de Batalha”, publicado no terceiro volume dos contos do autor, editados pela Bertrand Brasil (Rio de Janeiro – 2001). Ambientado em Madri, no correr da Guerra Civil Espanhola (1936/1939), da qual o escritor fazia a cobertura para a imprensa estrangeira, o conto retrata o pesado ambiente reinante, com as ações bélicas acontecendo no final da rua, os tiroteios espocando na esquina e os obuses abrindo buracos no chão. Hospedado em um apartamento do Hotel Flórida, situado na Plaza Callao, no centro da metrópole, Henry e sua equipe estão empenhados em realizar um filme de propaganda para obter recursos a serem investidos na aquisição de ambulâncias. O apartamento vive em completa balbúrdia; todo mundo entra e sai, come e bebe, fuma e joga. Enfumaçado e quente, é frequentado pelas mais estranhas figuras, inclusive algumas desconhecidas. .

Num entardecer de abril, dirigindo-se ao célebre Bar Chicote, ponto de encontro de toda espécie de gente, com a intenção de tomar um trago, Henry se depara com Al Wagner, tenente do grupo de tanques e seu conhecido. Conseguem a muito custo, entre cotoveladas e empurrões no recinto lotado, lugares em uma mesa, tomam vinho e se põem a conversar. O tenente exibia um ar de absoluto cansaço, estava muito sujo e desmazelado, respingado de óleo e com as roupas manchadas. Havia participado naquele dia de uma batalha mal sucedida e, ao que parece, mal conduzida pelo comando, de resultados catastróficos, com muitas baixas do seu lado. Estava abalado, suas mãos tremiam e, talvez por nervosismo, só queria falar, falar, falar. Acaba declarando que terá que entrar em ação pela madrugada. Transparece, quase sem palavras, a premonição aflitiva de que irá morrer no dia seguinte. Isso não é expresso de forma explícita, mas fica latente.

Henry tudo faz para distraí-lo. Propõe um encontro com uma garota mas ele recusa, dizendo que se sentia muito sujo e necessitava de um banho. Rumam então ao apartamento do Hotel Flórida. Lá, como de costume, a balbúrdia se mantinha. Um grupo de aviadores jogava dados no chão, a dinheiro, entre gritos e discussões. Sentados numa cama, um jornalista inglês e uma moça espanhola bebericavam uísque. Sobre a mesa, imenso presunto era devorado aos poucos, em grandes nacos. Surge um aviador, careca e bêbado, carregando garrafas de champanhe. Gaba-se de ter derrubado um Junker alemão, enorme, e saltado de paraquedas, esforçando-se para não pousar no lado inimigo do rio. Não consegue esconder o impacto que lhe causou a tocha de fogo em que se transformou o aparelho que caía. Por diversas vezes, sob a insistência dos demais, tenta relatar o episódio mas não consegue e todos parecem desistir.

Al, enquanto isso, ouve música e depois se recolhe ao banheiro de onde sai mais limpo mas ainda com manchas no rosto. Devagar, em silêncio, começa a se preparar para retornar ao campo de batalha. Enverga a farda esbodegada, cobre-se com o quepe amassado, prende o revólver à perna. Nessa altura o olhar do leitor converge para ele de forma irresistível. Há um misto de preocupação, pena, comiseração, embora ninguém possa prever se a premonição se consumará.

Al Wagner se despede e sai pela noite. Ar cansado e fatalista, recusa a companhia dos que se oferecem para acompanhá-lo. Num rictus quase imperceptível, revela íntima irritação. Ganha a rua e vai solitário ao encontro de seu destino.

Quem não o conhecesse – diz o contista – imaginaria que o tenente estivesse irritado, muito irritado. “Ficamos irritados com muitas coisas, e morrer desnecessariamente é uma delas. Mas quem sabe se irritado não é mesmo o melhor estado em que devemos ficar quando vamos fazer um ataque?”

Escrito por Enéas Athanázio, 01/02/2019 às 10h40 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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O escritor pernambucano Antonio Fernando de Andrade vem publicando há vários anos um periódico sui generis que já se tornou conhecido em todo o país. Em formato de panfleto e muito bem ilustrado, é de uma criatividade incrível no encarar a realidade nacional. Com grande coragem editorial e esbanjando humor, ele põe a nu as mazelas brasileiras em charges que nada perdoam. O sucesso tem sido enorme e a publicação já superou os 1235 números.

Nos exemplares que tenho em mãos, - os mais recentes que recebi, - ele comenta assuntos sempre presentes no noticiário, como o estado precário da saúde pública. Diógenes – escreve ele – sai com sua lanterna não à procura de um homem mas à procura de um remédio nos postos de saúde... Veja os direitos do povo, alerta ele diante de um quadro em branco, para concluir: Você não é deficiente visual! E continua: No Século XXX arqueólogos descobrem ruínas no Brasil: o povo era humilhado, explorado e esquecido. Para compensar, quase foi aprovado no Congresso projeto para beneficiar o povo. Não fosse o quase... Em compensação, o povo está livre da depressão, pois chegou o cartão propina.

A má qualidade da educação não escapa. O professor, afirma ele, é uma espécie em extinção. E o maior sonho de muitos é ter um professor alfabetizado. A indispensável reforma da educação prevê os seguintes itens: exportar analfabetos, atualizar o livro sem páginas, incluir a fofoca no primeiro grau e colocar no lixo as cotas para livros. Será perfeita! E agora que reformamos, legislamos e desviamos, o que mais deseja o povo? Morrer? O analfabeto, informa ele, é uma obra inacabada da educação.

A segurança pública marca presença. Menor matador é preso, diz a manchete do Jornal da Mentira. Qual o seu maior sonho? Ter um porte de arma especial. E que mais? Morar num presídio de segurança máxima. Menor abandonado é quase adotado, menor matador é quase preso. Última hora: mineradora precisa de fiscais! Vivemos sob lamas, impunidade e mortes. Na onda de reformas, o Brasil vai patentear a impunidade.

Enquanto isso, prepara-se a reforma política, informa o Jornal da Mentira. Mas ela só virá em 31 de fevereiro. No circo político, o palhaço oficial é o povo. Não tem voz, nem vez, nem liberdade, nem proteção.

E a fome que grassa no país? Foi descoberto o vírus da fome, afirma ele: o salário mínimo. Os direitos humanos, a ONU e Médicos Sem Fronteiras não conseguiram derrotar a milenar fome. A fome é a morte por falta de pão e as crianças estão sem voz, sem vez e sem pão. Enquanto são vendidas as verbas para combater a fome o Brasil terceiriza a fome dos brasileiros. Porque a fome é o clímax da humilhação.

Nessa onda de privatizações, acabarão por privatizar a Previdência. Em conclusão: o povo é o refugiado do sistema. E os assalariados são os refugiados da escravidão.

Como diziam os romanos: ridendo castigat mores!
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Escrito por Enéas Athanázio, 07/03/2019 às 10h17 | e.atha@terra.com.br

BOAS TARDES, COMPANHEIRADA!

Tavico alimentava pretensões eleitorais e gostava da atividade política. Deparava-se, porém, com um sério obstáculo: não conseguia falar em público. Diante dos ouvintes, entrava numa timidez infantil, as pernas fraquejavam e batia-lhe invencível tremedeira. O máximo que conseguia era levantar o chapéu e exclamar em voz tremida:

- Boas tardes, companheirada!

Diante do impasse, justou um porta-voz, advogado sem serviço mas bem falante.

Lançado candidato, Tavico compareceu ao grande comício realizado na praça central da cidade e com intensa presença de público. E lá estava ele, com ar solene, apresentando-se ao eleitorado. Ao lado, muito empolgado, o porta-voz tomou da palavra:

- Senhoras e senhores! Estou aqui, junto de nosso candidato e falando em nome dele. Trata-se de pessoa das mais conhecidas, homem de bem, cidadão prestante. É um homem alquebrado nas lutas em favor do povo, alquebrado no serviço coletivo, alquebrado na devoção ao bem comum, alquebrado, alquebrado. . .

Tavico, ali perto, pegou a se inquietar com aquilo. Trocava as pernas, retorcia os bastos bigodes e começou a suar frio. Até que, não suportando mais, venceu a custo a timidez e bradou:

- Péra aí, dotor, péra aí! Quebrado, não! Quebrado, não!

A gargalhada do povaréu ecoou na praça mas o candidato ficou feliz por ter colocado as coisas no devido lugar.

Eleito, Tavico compareceu à solenidade de posse no salão do Clube Comercial, o mais importante do lugar. Todo enfeitado e florido, o local estava repleto de convidados e iluminado de maneira feérica. A banda local, a euterpe municipal, logo de início atacou o Hino Nacional. Muito animado e disposto, o candidato eleito agarrou a patroa e saiu dançando, só parando quando a banda deu os derradeiros acordes.

Retornando à mesa, enxugando com um lenço rajado o suor que brotava da testa, foi indagado por um gaiato:

- Então, “seu” Tavico, que achou da música?

E ele, muito pronto:

- Munto boa, munto boa, mas munto ligeirinha!

Dias após a posse, Tavico foi convocado para um curso em Florianópolis, destinado a orientar os novos eleitos. Para lá se dirigiu, hospedou-se em grande estilo num bom hotel junto com a comitiva. Passou um dia inteiro dentro de uma sala abafada ouvindo explicações e mais explicações sobe administração, orçamento, normas tributárias e o mais. No final da aula, suado e cansado, saía da sala quando se deparou com o repórter Adolfo Zigelli de microfone em punho. Tentou se desviar mas o repórter escolado o cercou num canto e foi perguntando:

- Então, “seu” Tavico, como foi o curso?

- Bãh, tchê! – respondeu ele. – Tô ca cabeça que é um tacho!

Pano rápido! – como dizia o Milor Fernandes.

Escrito por Enéas Athanázio, 25/02/2019 às 09h23 | e.atha@terra.com.br

AGRURAS DO MEIÓTA

Embora retinto e lustroso, ninguém se arriscava a chamá-lo de negro. Com muito boa vontade, estando no seu dinheiro, ele tolerava que o tratassem de moreno, eufemismo em geral usado. Naqueles tempos o conceito de negritude era difuso e a palavra já por si carregava enorme carga de preconceito. Tanto que o Meióta não aceitava preto ou negro e respondia em cima da tampa: “Isso é sua mãe!” Exigia que o chamassem de cidadão e tinha lá suas boas razões, encravadas nos dias já afastados do passado. E no entanto, nunca se livrou do apelido, por mais que protestasse.

Quando o conheci, ele residia num rancho para os lados da “saída” e vivia dias difíceis. Em nossos encontros sempre nos tratamos com cordialidade, mesmo quando ele, bem alto na pinga, andava em zigue-zague pela rua poeirenta. Numa dessas ocasiões, ele afirmou, com a língua travada e a voz pastosa: “Eu já fui coisa nesta vida, menino! Não fosse o maldito vício, hoje eu seria o seu Pereira, enfiado no meu uniforme, e todos me respeitariam.” Não tive razão para duvidar, mesmo porque ele tinha modos de gente educada e eu, ainda garoto, o conhecia de pouco. Mas a partir dali tomei interesse e comecei a indagar a respeito daquele homem solitário e sofrido.

Contava-se na Vila que Meióta, cujo nome caiu no esquecimento, fora, de fato, coisa. Entrando muito cedo no serviço da ferrovia, aos trinta e poucos era chefe-de-trens cargueiros e, pouco depois, de passageiros, quase no topo da carreira que terminava na função de inspetor. E lá ia ele, o seu Pereira, para o norte e para o sul, envergando seu vistoso uniforme azul com botões e punhos dourados, coberto pelo quepe alusivo à condição de chefe supremo a bordo da composição. Em passo firme e decidido, percorria os vagões, gritando o nome da próxima estação, e recolhendo os tíquetes das passagens. Respeitado por todos, tinha fama de honesto, não aceitando propinas e nem permitindo clandestinos. No seu trem ninguém viajava sem passagem e os passageiros tinham que manter o bom comportamento. Nada de gritarias, arruaças, bebedeiras ou agarramentos de casais.

Mas – e aí entra o velho mas! – o vício é a perdição do homem. Provando um gole aqui, outro acolá, nas frias e solitárias travessias do vale tortuoso por onde o trem corria todos os dias, virou um escravo da pinga, transformando-se naquilo que os médicos definem gravemente por dependente. Quando começou a se sentir notado pelos subordinados, maquinistas, foguistas, guarda-freios e jornaleiros, tratou de esconder o vício numa pequena garrafa que levava no bolso, - uma meióta, - de onde lhe veio o tenebroso apelido. E assim, em pouco tempo, perdeu o emprego, perdeu o respeito dos outros, perdeu até o próprio nome, substituído pela alcunha infamante. Foi morar naquela Vila esquecida, biscateando, fugindo das chuvas e friagens num rancho mambembe, feio e esburacado.

Tinha lá alguns amigos, entre eles um tal Natão, desocupado e desordeiro que passava os dias na plataforma da estação, numa roda de vadios, proseando prosas à-toa e dando risadas que ecoavam ao longe. Quando não bebia, Natão era o melhor dos amigos; bêbado, ficava insuportável. Nesse estado, por mal da sorte, acometia-o uma idéia malvada e sem razão: queria a todo custo incendiar o rancho do Meióta e mais de uma vez foi impedido a muque de realizar o propósito incendiário. Pertencente à família dos mandões da Vila, nada lhe acontecia, e por isso o pobre Meióta vivia em permanente e desesperada vigília. Cada vez que avistava o Natão no rumo de seu rancho ou lhe diziam que ele andava por aquelas bandas, desabalava na defesa de seu último reduto. Não foram poucas as vezes em que acordou, alta madrugada, com o Natão rondando sua mísera morada, munido de petrechos inflamáveis. Durante anos essa corrida se repetiu.

Os tempos voaram, afastei-me da Vila e não tive notícia do desfecho de tão estranho furor incendiário. Meióta “passou para o outro lado do mistério”, como dizia mestre Machado de Assis, e Natão está sumido em vida, conforme o dito mineiro. Creio que o rancho não foi consumido pelas chamas, mas os protagonistas da história, com certeza, se consumiram no fogo da pinga.

Escrito por Enéas Athanázio, 18/02/2019 às 09h57 | e.atha@terra.com.br

O CONTESTADO: CONVERGÊNCIAS E DIVERGÊNCIAS

Os historiadores consagraram o nome de Guerra do Contestado para designar o conflito ocorrido no Planalto entre 1912 e 1916. Nas minhas leituras a respeito, cheguei à conclusão de que se trata de uma designação imprópria. Tanto do ponto de vista jurídico como sociológico, o que aconteceu, na verdade, foi uma revolução e não uma guerra. De fato, o que caracteriza uma revolução é o movimento espontâneo, nascido de baixo para cima e com o objetivo de alterar pela força um statu quo que oprime ou prejudica as pessoas. Havia na região profundo mal-estar social decorrente das dificuldades econômicas dos moradores menos favorecidos, entregues ao abandono e submetidos aos desmandos dos latifundiários. Com o término da construção da ferrovia, grande contingente de trabalhadores braçais, os chamados arigós, foram demitidos, engrossando a caudal de desempregados que não tinham para onde ir. Agravou-se ainda mais a situação quando a Companhia Lumber, um dos braços do Sindicato Farquhar, deu início à expulsão dos posseiros que habitavam as terras recebidas do governo federal em troca da construção da estrada de ferro. Tudo isso, além da confusão decorrente da questão de limites entre Santa Catarina e o Paraná e o fanatismo religioso implantado pela longa pregação dos “monges” levou aquele povo à maior sublevação popular de nossa história. O povo da região, pelo que verifiquei, rotulava aqueles acontecimentos como a Revolta dos Jagunços, designação que me parece mais aproximada da realidade.

Há muita confusão a respeito do nome da grande madeireira, a segunda maior do país, só suplantada pela de Três Barras. Seu nome correto era Southern Brazil Lumber and Colonization Company. Mais tarde foi “incorporada” ao patrimônio nacional e depois privatizada em uma transação das mais suspeitas, segundo a imprensa da época.

O jornalista Paulo Ramos Derengoski, em livro muito conhecido, afirma que no chamado Combate do Irani, travado em 22 de outubro de 1912, pereceram 13 soldados e 1 alferes, omitindo o número de sertanejos mortos. Em outros autores, li que morreram 22 pessoas, enquanto alguns não conseguem precisar o número exato de vítimas. É uma questão em aberto (*)

Em relação aos personagens, muitas discrepâncias existem. Sobre Chiquinho Alonso, o mesmo autor acima citado afirma que se tratava de antigo tropeiro e havia liderado os “Doze pares de França.” Outros afirmam que ele fora “comandante de briga” de um dos redutos. Ora, corre a versão, ou lenda, de que ele teria liderado a invasão de Calmon quando tinha entre 16 e 17 anos de idade. Com um passado assim longo em outras atividades, não me parece que fosse tão jovem ao comandar a invasão; existe aí algo mal explicado. Por outro lado, sempre tive como certo, a partir de leituras, que o ataque a Calmon ocorreu em 5 de setembro de 1915, mas Derengoski o situa um ano antes, em 1914. É outro ponto a esclarecer.

Escreve ainda o mesmo jornalista que teriam sido usados dois aviões, pela primeira vez em conflito civil, para bombardear a área da luta, lançando panfletos e granadas. Os pilotos foram Ricardo Kirk e Dariolli, ambos italianos, segundo afirma. Em outras fontes, li que Kirk era tenente, portanto oficial das forças armadas nacionais, o que torna difícil entender que fosse italiano. Como se sabe, um dos aviões caiu, matando o referido Ricardo Kirk. Outros autores se referem a um único avião.

Em outra passagem, diz o mesmo autor que o capitão Matos Costa foi morto por Venuto Baiano quando se dirigia à serraria da Companhia Lumber que ardia em chamas. Sempre li que ele, na verdade, foi assassinado nas proximidades de São João dos Pobres, hoje Matos Costa. Os moradores mais antigos indicavam como palco da tragédia o local em que a antiga rodovia cruzava sobre a estrada de ferro. Em virtude desse crime, o Baiano teria sido degolado por Adeodato, o último jagunço, cognominado de Flagelo de Deus,

Por fim, afirma ele que o célebre bilhete de Chiquinho Alonso foi deixado dentro de uma locomotiva e não afixado numa parede, como em geral se afirma.

Como se vê, muitos são os aspectos duvidosos e que precisam de maior esclarecimento.

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(*) “O desmoronamento do mundo jagunço”, de Paulo Ramos Derengoski, Florianópolis, Fundação Catarinense de Cultura, 1986.

Escrito por Enéas Athanázio, 12/02/2019 às 12h55 | e.atha@terra.com.br

GUERREIRO DO POVO

Ao terminar a leitura dos originais de “Lobato Letrador”, de Zoler Zoler (Betty Sanson), tive que respirar fundo. Leitor de Monteiro Lobato de longa data, devo reconhecer que jamais encontrei tão volumosa massa de informações e análises a respeito dele e sua obra como nestas compactas páginas (mais de 700).

Misto de biografia e ensaio, sem ser uma coisa ou outra, o livro é um enfoque sui generis de Lobato, sua obra e sua ação. Todas as fases de sua existência são evocadas, sempre lastreadas nos próprios textos da obra ou em sólidas fontes de informação, revelando preocupação com as datas e lugares para bem contextualizar os acontecimentos. Mostra o empenho do escritor na busca de uma expressão própria, individual e única, um estilo pessoal e inigualável. Revela a dedicação com que realizou a chamada obra adulta, procurando a linguagem que falasse ao leitor e o prendesse na leitura. E, mais tarde, ao perceber a penetração de sua literatura infantil, optar por ela, lamentando não ter escrito mais para as crianças.

O livro não se contenta em examinar a obra literária e o pensamento de Monteiro Lobato, o que já não seria pouco. Vai além. Comenta toda sua incansável atividade nos mais variados campos de ação. Evoca o Lobato escritor, fazendeiro-empreendedor, Promotor Público e advogado, jornalista, criador da literatura infantil brasileira, editor e fundador da indústria livreira, combatente pelo ferro e pelo petróleo, propagandista, tradutor, incentivador atuante de memoráveis campanhas em favor das florestas, do saneamento, das estradas, da difusão do livro e outras tantas. Enfim, um homem público sem cargos – como afirmou Edgard Cavalheiro.

As antecipações e premonições de Lobato, apontadas no correr do livro, são impressionantes. Sem conhecer Pedagogia, ele se adiantou a seus métodos mais modernos, tais como os pregava a Escola Nova, de Anísio Teixeira; sem conhecer Semiótica, intuiu suas lições, inclusive nos aspectos mais avançados, como o do sabor, ao imaginar o livro comestível, o livro-pão, que seria devorado após a leitura e poderia entrar tanto na casa do sábio como na do analfabeto. Para completar, foi precursor do Letramento, muito tempo antes do surgimento da própria palavra com tal sentido por volta de 1980. A centelha do gênio permitiu que seu olhar invadisse o futuro.

Acima de tudo, porém, a autora mostra que Lobato foi um educador, um professor, um letrador, e que sua preocupação permanente foi a de educar o seu povo. Em certa fase, depois de visitar uma escola, chegou a pensar que sua verdadeira vocação seria a de professor. Em suas iniciativas editoriais, muitas delas arriscadas para a época, avultava sempre o desejo de educar. Inundar o país de livros, interessar as pessoas pela leitura, empurrar o livro goela abaixo, como as mães faziam ao dar óleo de rícino às suas crianças. Porque – dizia ele – o livro faz homens e um país se faz com homens e livros. Para isso, mesmo escandalizando os mais conservadores, anunciava seus livros através dos jornais e usava táticas de “merchandising” então inusitadas, obtendo resultados impressionantes. Tratou de colocar seus livros diante dos olhos do leitor, em toda parte, fosse nas livrarias e nos açougues, nas vendas e nos verdureiros.

Como letrador, criou o método pessoal de ensinar brincando, de aprender sem esforço, de transmitir provocando a imaginação e a fantasia e de estudar sem sentir, e assim induzindo a criança à leitura. Graças a isso, sua literatura para crianças ganhou o país e o mundo. Condenava o horror dos livros escolares secos e áridos em que os alunos se viam obrigados a decorar nomes e datas que pouco diziam e pregava uma renovação que deixasse de lado o ultrapassado método da “decoreba” para o qual saber “era ter na ponta da língua.” Em conclusão, Lobato revolucionou o ensino sem entrar em sala de aula, como professor, salvo nas conferências em prol de suas campanhas, e que realizava com grande timidez. Como se não bastasse, inspirou nas crianças o espírito democrático através do ambiente libertário do Sítio do Picapau Amarelo, presidido por uma mulher sábia e iluminada, num exemplo inédito de valorização da mulher.

Para compor esse livro monumental, a autora examinou tudo que existe sobre Lobato em livros, teses, ensaios, revistas, jornais e na Internet. A bibliografia estudada é impressionante e creio que nada escapou. Mesmo trabalhos publicados em periódicos de pouco alcance ou por editoras regionais foram examinados e todos os autores identificados em breves currículos.

A leitura do livro vale como informação e recapitulação. Nele Lobato aparece por inteiro. Trata-se, enfim, de um livro para morar, como ele desejava que fossem os verdadeiros livros. Com ele, a autora traz uma contribuição sem precedentes aos estudos lobatianos.

Em quatro alentados volumes, publicados por Tagore Editora/Tupy Publishing, de Brasília, o livro foi lançado nos primeiros dias de 2019, ano em que a obra de Lobato caiu em domínio público.

Escrito por Enéas Athanázio, 04/02/2019 às 09h39 | e.atha@terra.com.br

PREMONIÇÃO

Afirmou um crítico que certos contos de autoria do escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899/1961) parecem não dizer nada e, no entanto, vão envolvendo o leitor num clima de tensão indescritível. Isso é obtido através de uma linguagem simples e direta, destituída de adjetivação desnecessária e, em geral, usando muitos diálogos, técnica em que ele foi mestre. O resultado não decorre do uso de vocábulos pesados ou carregados de sentido, mas de uma narrativa que se desenrola com a maior naturalidade, como se não estivesse preocupado em relatar coisa alguma.

É o que acontece, entre outros, em “Véspera de Batalha”, publicado no terceiro volume dos contos do autor, editados pela Bertrand Brasil (Rio de Janeiro – 2001). Ambientado em Madri, no correr da Guerra Civil Espanhola (1936/1939), da qual o escritor fazia a cobertura para a imprensa estrangeira, o conto retrata o pesado ambiente reinante, com as ações bélicas acontecendo no final da rua, os tiroteios espocando na esquina e os obuses abrindo buracos no chão. Hospedado em um apartamento do Hotel Flórida, situado na Plaza Callao, no centro da metrópole, Henry e sua equipe estão empenhados em realizar um filme de propaganda para obter recursos a serem investidos na aquisição de ambulâncias. O apartamento vive em completa balbúrdia; todo mundo entra e sai, come e bebe, fuma e joga. Enfumaçado e quente, é frequentado pelas mais estranhas figuras, inclusive algumas desconhecidas. .

Num entardecer de abril, dirigindo-se ao célebre Bar Chicote, ponto de encontro de toda espécie de gente, com a intenção de tomar um trago, Henry se depara com Al Wagner, tenente do grupo de tanques e seu conhecido. Conseguem a muito custo, entre cotoveladas e empurrões no recinto lotado, lugares em uma mesa, tomam vinho e se põem a conversar. O tenente exibia um ar de absoluto cansaço, estava muito sujo e desmazelado, respingado de óleo e com as roupas manchadas. Havia participado naquele dia de uma batalha mal sucedida e, ao que parece, mal conduzida pelo comando, de resultados catastróficos, com muitas baixas do seu lado. Estava abalado, suas mãos tremiam e, talvez por nervosismo, só queria falar, falar, falar. Acaba declarando que terá que entrar em ação pela madrugada. Transparece, quase sem palavras, a premonição aflitiva de que irá morrer no dia seguinte. Isso não é expresso de forma explícita, mas fica latente.

Henry tudo faz para distraí-lo. Propõe um encontro com uma garota mas ele recusa, dizendo que se sentia muito sujo e necessitava de um banho. Rumam então ao apartamento do Hotel Flórida. Lá, como de costume, a balbúrdia se mantinha. Um grupo de aviadores jogava dados no chão, a dinheiro, entre gritos e discussões. Sentados numa cama, um jornalista inglês e uma moça espanhola bebericavam uísque. Sobre a mesa, imenso presunto era devorado aos poucos, em grandes nacos. Surge um aviador, careca e bêbado, carregando garrafas de champanhe. Gaba-se de ter derrubado um Junker alemão, enorme, e saltado de paraquedas, esforçando-se para não pousar no lado inimigo do rio. Não consegue esconder o impacto que lhe causou a tocha de fogo em que se transformou o aparelho que caía. Por diversas vezes, sob a insistência dos demais, tenta relatar o episódio mas não consegue e todos parecem desistir.

Al, enquanto isso, ouve música e depois se recolhe ao banheiro de onde sai mais limpo mas ainda com manchas no rosto. Devagar, em silêncio, começa a se preparar para retornar ao campo de batalha. Enverga a farda esbodegada, cobre-se com o quepe amassado, prende o revólver à perna. Nessa altura o olhar do leitor converge para ele de forma irresistível. Há um misto de preocupação, pena, comiseração, embora ninguém possa prever se a premonição se consumará.

Al Wagner se despede e sai pela noite. Ar cansado e fatalista, recusa a companhia dos que se oferecem para acompanhá-lo. Num rictus quase imperceptível, revela íntima irritação. Ganha a rua e vai solitário ao encontro de seu destino.

Quem não o conhecesse – diz o contista – imaginaria que o tenente estivesse irritado, muito irritado. “Ficamos irritados com muitas coisas, e morrer desnecessariamente é uma delas. Mas quem sabe se irritado não é mesmo o melhor estado em que devemos ficar quando vamos fazer um ataque?”

Escrito por Enéas Athanázio, 01/02/2019 às 10h40 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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