Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

CONVERSA COM BRENNAND

Importante revista cultural (*) publicou interessante e rara entrevista com o celebrado artista plástico Francisco Brennand, que não costuma se abrir em conversas públicas com frequência. Graças à habilidade da equipe da revista, ele acabou esclarecendo aspectos de sua obra que são sempre motivos de interrogação.


Brennand

Lembra o artista que, como todo mundo, nutria severo preconceito contra as chamadas artes menores, entre elas a cerâmica. Exercitava-e na pintura a óleo sobre tela, desenho e escultura, mas era no uso do pincel que mais se aplicava e nele projetava uma carreira. Aconteceu, então, a viagem a Paris, nos anos 1940, ocasião em que o pintor Cícero Dias, que vivia na capital francesa, o convidou para visitar uma exposição de obras de Picasso. “Para a minha grande surpresa – confessou ele – era uma exposição de cerâmicas. Essa belíssima exposição me deixou boquiaberto e, mais do que tudo, humilhado porque me demonstrou de imediato que não existia arte maior e arte menor. Esse problema de ser tela, madeira, gesso ou o que for pouco importava.” O deslumbramento aumentou ao constatar que Joan Miró também trabalhava a cerâmica e em quantidade ainda maior que Picasso. Verificou ainda que outros artistas de renome praticavam a cerâmica. E assim, o acaso de uma visita traçou o seu destino e o levou a se dedicar por inteiro à cerâmica, transformando-se num dos maiores artistas plásticos nacionais, praticando também, em menor grau, a pintura, o desenho, a arquitetura e a escultura.

Filhos de empresário que já se dedicava à cerâmica, produzindo telhas, tijolos, porcelanas e azulejos, Brennand e os irmãos herdaram uma olaria nas proximidades do Recife que se encontrava em ruínas. Como os irmãos não se interessavam, teve a ideia de restaurar a velha olaria e transformá-la num grande ateliê. Em homenagem ao pai, retirou das ruínas o que restava do prédio, pedra a pedra, tijolo a tijolo, instalando nele sua monumental oficina artística que abriga um dos patrimônios cerâmicos de importância mundial. O local é visitado todos os dias por turistas do país e do exterior e conhecê-lo é dever de todo brasileiro interessado em nossa cultura.

A cerâmica de Brennand é de formas avantajadas, grandes, exuberantes. Inspira-se, segundo diz, num universo arcaico e em figuras fantásticas. Enquanto na pintura prefere retratar a mulher, as formas femininas, a maciez e as curvas, na cerâmica a mulher pode ser lembrada de forma indireta, num vaso ou outra forma qualquer. Já na cerâmica, valoriza o mundo vegetal, motivos florais e outros aspectos que podem ser aumentados sem se tornar monstruosos. É verdade que muitas de suas obras sugerem várias formas de erotismo, mas isso é acidental. É curioso observar que o artista não gosta de vender suas obras; dizem que a venda o deprime. Ele próprio afirma que está fora do mercado.

Brennand realizou grandes obras no país e no exterior e o acervo de seu ateliê é conhecido em toda parte. Tem obras expostas no centro da cidade de Recife e nas unidades do SESC em Pinheiros, Interlagos e Sorocaba. Aos 87 anos de idade, informa que nos bons tempos chegou a morar no ateliê, mas isso se tornou impossível. Diminuiu o número de viagens e de exposições. Para geral surpresa, afirma que não pertenceu ao Movimento Armorial, fundado por Ariano Suassuna com o objetivo de criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular. Acredita, porém, que Ariano tenha se inspirado em algumas de suas próprias ideias.


(*) “Revista E”, publicação do SESC/SP,
maio de 2015, pp. 10 a 15.

(Republico este artigo em homenagem a
Francisco Brennand, falecido aos 92 anos
no Recife no dia 19 de dezembro. Sua partida
deixa uma grande lacuna no cenário artístico nacional).

 

Escrito por Enéas Athanázio, 06/01/2020 às 11h29 | e.atha@terra.com.br

O MISTÉRIO DA ILHA DO SOLDADO

Rochosa, áspera, quase inabitável, a Ilha do Soldado, na costa britânica, é um local desolado, esbatido pelos ventos marítimos e de difícil acesso. Só com tempo bom e mar calmo pode alguma barco atracar com segurança. Ali, um milionário norte-americano excêntrico construiu uma casa ampla, moderna e luxuosa, no ponto mais elevado, e que pouco se avista do continente. A propriedade, mais tarde, é vendida a um certo Mr. Owen, figura misteriosa e que ninguém encontrou, fosse na ilha ou em terra firme. É partindo desses dados que Agatha Christie (1890/1976), escritora inglesa conhecida como a rainha do crime, engendra a história de seu mais famoso livro: “E não sobrou nenhum” (Globo Livros – Rio de Janeiro – 2018). Como é sabido, ela foi a mais famosa autora de obras policiais em todo o mundo, a mais lida e vendida no gênero e traduzida para inúmeros idiomas. Publicou oitenta livros policiais, várias coletâneas de contos e doze peças teatrais.

Mr. Owen, mesmo sem se mostrar, consegue reunir através de correspondência, dez pessoas que nada têm entre si para alguns dias de descanso no casarão da Ilha do Soldado. Elas vêm de vários pontos do país e são conduzidas por um barqueiro para isso contratado. Instalam-se nos luxuosos quartos e começam a usufruir das mordomias de umas férias que tinham tudo para ser maravilhosas. Mas o inesperado acontece.

Quando todos se encontram na suntuosa sala de estar, uma voz misteriosa surge nítida e clara. Declinando o nome de cada um, vai acusando os visitantes de certos atos que, embora criminosos, escaparam da justiça a permaneceram impunes. O choque é violento porque todos julgavam que o esquecimento havia recaído sobre os fatos e ninguém mais se lembrava deles. Começam, a seguir, as mais misteriosas e inexplicáveis mortes. Varejam a casa e a ilha e constatam que além dos visitantes não havia viva alma no local. O mau tempo e o mar agitado impedem a aproximação de qualquer embarcação. Não obstante, apesar dos extremos cuidados adotados por todos, as mortes continuam. A conclusão inevitável é a de que o criminoso é um deles e todos passam a vigiar uns aos outros com total desconfiança. E o mais curioso é que a cada morte desaparece um dos soldadinhos de porcelana que jaziam sobre uma mesa. Além disso, as mortes coincidem com as palavras de um poema infantil exposto em todos os quartos: “Dez soldadinhos saem para jantar/ a fome os move/ um engasgou, e então sobraram nove...”

Num clima tenso, cria-se um ambiente lúgubre, cheio de medo e expectativa. Quem seria o próximo? As horas escorrem vagarosas, a tempestade ruge lá fora, o mar encapelado martela as rochas da ilha e novas mortes acontecem até que não sobra nenhum. Cada um deles, por sua vez, morre nas mais estranhas circunstâncias, incluindo-se dois suicídios que não me parecem muito convincentes. Mas ao longo de 400 páginas a autora mantém um suspense que quase provoca falta de ar no leitor. As investigações mais minuciosas nada conseguem esclarecer. Só uma carta subscrita pelo juiz Laurence Wargrave, um dos visitantes mortos, enviada à Scotland Yard pelo mestre da traineira Emma Jane põe fim ao mistério e explica tudo. Mas isso não posso expor porque ninguém teria interesse em ler o livro e isso seria lamentável.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/01/2020 às 09h05 | e.atha@terra.com.br

O “CANUDINHO”

A faixa de terras entre os rios Canoas e Pelotas, formadores do Uruguai, foi conhecida em geral como Entre-Rios. Por ela passa a chamada estrada velha, ligando Campos Novos a Lages, fazendo-se a travessia do Canoas através de uma balsa de cabo tirada a muque pelo balseiro (*).

Ali se situa hoje o município de Celso Ramos, desmembrado de Anita Garibaldi, minha primeira comarca como Promotor de Justiça.

Nessa região surgiu, no final do Século XIX, um movimento messiânico sobre o qual ouvi algumas referências mas que foi pouco estudado, sendo, em consequência, um episódio quase desconhecido de nossa história. Lendo agora o excelente livro “Lideranças do Contestado”, de autoria do historiador e professor da UFSC Paulo Pinheiro Machado (Editora da UNICAMP – Campinas – 2004), deparei com breve relato desse fato que ficou conhecido como “Canudinho”, ou seja, um “Canudos” pequeno, e que julgo merecedor de um comentário.

Paulo Pinheiro Machado (Divulgação)

Segundo o autor, entre agosto e setembro de 1897, um comerciante de nome Francelino Subtil de Oliveira, associado a um homem a quem chamavam “São” Miguel ou “São” Miguelito, que se declarava primo-irmão do “monge” João Maria, “estabeleceram o culto a uma forma rochosa que havia na região, afirmando que a pedra era uma santa que estava encantada.” Para libertar a santa, os devotos tinham que fazer preces e ladainhas sem fim, entoar cantos e confessar-se com Francelino, o “puxador” das orações. Como penitência dos pecados praticados, deveriam permanecer algum tempo com pesada pedra sobre a cabeça. Os devotos da nova fé passaram a se reunir no local, onde não tardou a nascer um vilarejo com cerca de oitenta ranchos e trezentos moradores. E como esse tipo de apelo “religioso” tem grande poder de atração, pessoas pobres, doentes e marginalizadas começaram a afluir ao local, ameaçando a formação de um reduto ou arraial, fato que assustou as autoridades da região (p. 173).

Os “coronéis” Henrique Rupp e Lucidóro Luiz de Mattos, ambos de Campos Novos, solicitaram a intervenção do Estado para debelar o surto messiânico. Soldados do Regimento de Segurança do Estado e homens de confiança daqueles “coronéis” tentaram atacar o povoado, mas, para surpresa deles, foram repelidos a tiros pelos devotos enfurecidos e por estes perseguidos até a entrada da então Vila de Campos Novos, distante cerca de quarenta quilômetros. Foi o vexame dos vexames, e os sertanejos, sagrados heróis pela boca do povo, tiveram sua bravura entoada em prosa e verso, espalhando-se por toda a região. Alarmado, o governador enviou nova expedição armada, contando com auxílio de forças gaúchas, e assim foi debelado o foco revolucionário que ameaçava imitar Canudos, na Bahia, onde as derrotas governistas se repetiam. Destruída a povoação, o episódio logo foi esquecido, ainda que contribuísse para o desgaste político daqueles “coronéis”, cujo prestígio estava em decadência. Segundo o autor, teria havido uma chacina no Entre-Rios (p. 174).

O novo “monge”, que se dizia “São” Miguel, tirou partido da devoção que existia em relação a João Maria, cuja pregação impregnava a região, chamando a atenção do povo e fazendo profecias apocalípticas, como o fim do mundo no virar do Século, as pesadas pragas que viriam e outros males. Com o aumento dos moradores, começaram os inevitáveis abusos, como brigas, saques de roças e fazendas, furto de gado e porcos. Por outro lado, o movimento revelou a existência de uma “população errante, suscetível de seguir até o fim suas lideranças religiosas e as pessoas estavam disponíveis a qualquer tipo de luta” (p. 174).

O “Canudinho”, tema pouco explorado, está à espera dos pesquisadores. E fica aqui no Estado, em região de fácil acesso e investigação.

(*) Hoje existem pontes.  

Escrito por Enéas Athanázio, 24/12/2019 às 12h06 | e.atha@terra.com.br

POR AMOR À MÚSICA

Dmitri Shostakovich

Com origens siberianas, Dmitri Shostakovich (1906/1975) nasceu em São Petersburgo em uma família de antigas tradições revolucionárias e de acentuada tendência musical. Desde seu avô, vários membros da família participaram de algumas das tantas insurreições populares que marcaram a história russa. Por outro lado, o amor e o cultivo da música foram uma constante, e sua mãe, Sonya, mulher de grande coragem, foi extraordinária pianista e liderou a família com habilidade e valentia, mesmo nos momentos em que esteve beirando a miséria. Desde cedo percebeu a genialidade do filho e o estimulou sempre na busca da realização artística. Graças a ela o clã familiar se manteve unido e ativo.

No período pós-revolucionário, nos anos posteriores a 1917, o país viveu tempos aflitivos. Toda a economia se desorganizou em virtude da mudança de regime e as carências se sucederam. Foram dias, meses e anos de privações, racionamento, desabastecimento, frio e medo. O desemprego campeava, enquanto se multiplicavam os boicotes, as sabotagens e toda sorte de resistência à implantação do novo sistema econômico. Havia desemprego e os salários eram miseráveis. Apesar de tudo, porém, os Shostakovih lutavam com bravura pela sobrevivência e nunca deixaram de cultivar a música. O jovem Dmitri, chamado de Mitya pelos familiares, aos treze anos de idade já se revelava exímio pianista e até realizava pequenas composições musicais.

Dotado de constituição frágil, embora de postura elegante, o rapaz estudava e estudava. Frequentou aulas particulares com mestres renomados, fez cursos em escolas famosas e passou por importantes conservatórios. Seu talento era exaltado e suas produções musicais começaram a aparecer e despertar vivo interesse. Grandes maestros e virtuoses por elas se interessaram e a crítica as aclamou. Suas obras passaram a ser apresentadas em São Petersburgo, Moscou a outras cidades europeias, sempre atraindo numeroso público e merecendo o aplauso dos “experts.” Já casado, Dmitri melhorou de condição financeira e passou a desfrutar uma vida de fausto e luxo, desaprovada pela mãe, cujo senso prático não via aquilo com bons olhos. Apesar do sucesso, ele se torna nervoso e irritadiço, não poupando nem mesmo os familiares.

Tudo corria bem, sua obra estava consagrada, a vida prosseguia numa linha ascendente. Mas, como raios que caem do céu sem aviso, dois editoriais do “Pravda”, jornal oficial do governo e do partido, o fulminam. Com mão pesada, a censura o acusa de produzir obra burguesa, afastada dos interesses do povo e, portanto, condenável. Usando das costumeiras frases feitas e expressões de sentido duvidoso, os censores reprovam suas produções, em especial a ópera “Lady MacBeth do Distrito de Mzensk”, sobre a qual recai o ódio virulento da censura. Nela o compositor procura tornar simpática a vilã de um conto célebre, o que parece ter irritado o todo-poderoso Stálin, cuja mão era sentida por detrás dos editoriais. Pareciam entender que a edulcoração de uma criminosa não ficava bem, ainda mais no exterior, no contexto da Guerra Fria.

Em consequência, Dmitri cai no ostracismo. Suas obras são retiradas dos repertórios, perde as mordomias, é forçado a tocar nos cinemas, como outrora, e permanece esquecido por longo tempo. Mais tarde, após a morte de Stálin, reconquista sua posição, recupera o espaço e sua música volta a ser executada, não apenas na Rússia mas em todo o mundo. Desde então é colocado entre os grandes compositores da música universal. Foi autor de 59 composições de elevado sentido musical, segundo relações efetuadas por seus biógrafos, entre eles Victor Seroff, cujo livro foi traduzido por Guilherme de Figueiredo e publicado no Brasil, com excelente prefácio de Mário de Andrade. Nessa relação não estão incluídas as obras que permanecem em manuscrito.

Apesar das dificuldades e dos tropeços, o gênio de Dmitri Shostakovich se realizou na plenitude e sua obra é reverenciada em todo o mundo pelos apreciadores da boa música.

Outro excelente livro sobre o compositor é “O ruído do tempo”, de autoria de Julian Barnes, um dos expoentes da moderna literatura britânica (Editora Rocco – Rio de Janeiro – 2017). Nele o autor revela o sofrimento de Shostakovich, espírito sensível, diante da pressão a que foi submetido antes e depois da reabilitação. Teve que ler discursos que não escreveu, assinar artigos que não eram escritos por ele, fazer declarações que contrariavam seu pensamento e se conformar com uma vigilância permanente. Nomearam-lhe até mesmo um orientador com o objetivo de “reeducá-lo.” Em certa fase, temendo ser preso a qualquer momento, permanecia horas a fio em pé, diante do elevador e com a mala na mão para poupar a esposa de um trauma ao ser retirado da cama na calada da noite, como acontecia com frequência. Estarrecedor.

Escrito por Enéas Athanázio, 16/12/2019 às 13h14 | e.atha@terra.com.br

O BARULHO DO TEIXEIRA

Advogado com longa militância no Rio de Janeiro e folclorista, Francisco de Vasconcellos é autor de uma obra ampla e variada que não cessa de crescer. Tem abordado os mais diversos temas da chamada cultura popular de vários pontos do país, sempre fundamentado nas melhores fontes e em pesquisas próprias. Em seu mais recente livro, - “Temas de Feira e de Cordel” (Arteg Impressões – Juiz de Fora – 2019), - focaliza três curiosos eventos da vida sertaneja e seus personagens, além de realizar interessante incursão no exame da poesia popular.

No primeiro deles analisa um episódio que ficou gravado na memória do povo e que aconteceu na remota Vila do Teixeira, povoado pobre e desconhecido do sertão da Paraíba. A mulher, a terra e a política, ressalta o autor, eram as causas de frequentes lutas de famílias que se tornavam inimigas. No caso em tela, tudo indica que a política colocou em posições opostas os Dantas, conhecidos como a Família Terrível, e os Nóbregas. A serviço dos primeiros estavam os Guabirabas, “mestres nas tocaias, nos insultos e nas insinuações malévolas. Sua crueldade não conhecia limites...” Delphino e Liberato, delegados em sucessão, teriam perseguido os Dantas, adversários políticos, tendo aquele se afastado do cargo para que assumisse o segundo.

Cirino Guabiraba, um dos irmãos facínoras, envia ao delegado Liberato um recado atrevido: estaria na feira da Vila e, de fato, lá compareceu quando ela estava no auge. Saindo um por um, para não despertar suspeitas, os homens do delegado prepararam uma tocaia num local por onde Cirino teria forçosamente que passar. E ali o mataram à traição, não lhe permitindo nem sequer confessar-se, enquanto o cavalo ensanguentado voltava para casa e dava o sinal de que o dono fora preso ou morto. A família se movimenta para o revide e tanto Liberato como Dekphino foram mortos, embora este, a rigor, não participasse dos acontecimentos. Seguiram-se outros desdobramentos e os episódios entraram na história como o Barulho do Teixeira.

Barulho do Teixeira atraiu a atenção dos cantadores de feiras e da literatura de cordel, tendo variadas versões. É tema de livros de Pedro Batista e de Gustavo Barroso, tendo ultrapassado as fronteiras nordestinas para ecoar no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e no Espírito Santo. O cantador Hugolino Nunes da Costa seria o autor da primeira versão rimada e metrificada dos acontecimentos. Outros poetas populares também se dedicaram ao assunto.

Nesse período histórico o cangaço vicejava em todo o Nordeste. Apesar das volantes policiais que os perseguiam, os bandos de cangaceiros aterrorizavam as populações indefesas das pequenas cidades e vilas. O caso de Cirino caiu no gosto do povo, talvez pela valentia com que tentou reagir ou por ter morrido sem padre e confissão.

Com seu ensaio, Francisco de Vasconcellos reaviva um episódio dos mais conhecidos e cantados nas feiras populares.

Nos ensaios seguintes, o autor analisa a figura e a época do Valente Valério que, de bandido virou santo, e, a seguir, a de Inácio da Catingueira (1845/1879), herói cultural de seu povo, escravo, pobre e analfabeto que se tornou um dos maiores cantadores e poetas populares do sertão, falando pela gente miserável e conquistando os corações. Jamais foi esquecido. O ensaio de Vasconcellos é merecida homenagem

Para fechar seu belo livro, o autor tece eruditas considerações sobre a hipérbole na poesia popular.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/12/2019 às 12h35 | e.atha@terra.com.br

JORGE AMADO EM CORPO INTEIRO

Jorge Amado foi dos poucos brasileiros que viveu na plenitude a vida do escritor. Foi profissional das letras e delas tirou o sustento. Nunca quis escrever memórias ou autobiografia. Em sua obra, o livro que mais se aproxima do gênero é “Navegação de Cabotagem”, repertório de recordações de pessoas, lugares e fatos, embora sem a ordem e o método costumeiros. Relatou muito de sua vida em entrevistas mas isso nunca foi organizado e publicado em conjunto. É curioso notar que só teve um biógrafo em vida, Miécio Tati, mas parece que o livro não mereceu boa aceitação e foi pouco comentado.

Agora, porém, surge uma biografia para valer, compensando a ausência de outras. Trata-se de “Jorge Amado – Uma biografia”, de autoria de Josélia Aguiar (Todavia Editora – S. Paulo – 2018 – 635 págs.). Baiana de Salvador, radicada em São Paulo, a autora é jornalista e historiadora. Foi correspondente da “Folha de S. Paulo” em Londres, editora da revista “Entrelinhas” e curadora da Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP). Dedicou nada menos que sete anos à confecção desta obra.

A narrativa tem início nos dias do menino grapiúna correndo solto no meio cacaueiro da Bahia, convivendo com as pessoas e absorvendo a cultura local. Depois, os duros tempos do internato, de onde foge e vai se abrigar na casa do avô, fazendo longa caminhada a pé e sozinho. Acontece a primeira paixão, ardente e arrebatada, mas que acaba em nada. A mudança para o Rio de Janeiro para estudar Direito, entregando-se a intensa militância literária, escrevendo para os jornais, e exercendo grande atividade política. Nesse período faz amplo relacionamento com numerosas pessoas com as quais se cruzará em muitas outras oportunidades.

Com o lançamento do primeiro romance, “País de Carnaval”, tem início a carreira literária. Embora o autor fosse muito jovem e com pouca experiência, o livro desperta a atenção da crítica e agrada aos leitores. A partir daí, não cessa de escrever e publicar. Com o passar dos anos sua obra vai se aprimorando, é muito lida e ele se transforma no escritor mais célebre do país. Viaja muito, conquista prêmios e distinções, seus livros são traduzidos para 49 idiomas. É dos raros brasileiros que enriquece com a literatura.

A militância política não cessa e as perseguições acontecem em vários períodos de nossa confusa vida institucional. Eleito Deputado Federal por São Paulo, tem o mandato cassado em 1948 por decisão da Justiça Eleitoral, em pleno regime democrático e na vigência da Constituição de 1946. Têm início os diversos exílios a que é forçado. Esconde-se em Estância, no interior de Sergipe, onde fica em paz e muito escreve. Mais tarde iria para a Argentina, o Uruguai e Paris, sendo expulso da França por pressão do governo brasileiro, e para Dobris, na antiga Tchecoslováquia. Lá, ele e a esposa Zélia vivem por longo tempo e nasce a filha Paloma. Regressando ao país, vai se afastando da militância política, ingressa na Academia Brasileira de Letras e se muda para Salvador, passando a viver na célebre Casa do Rio Vermelho, à rua Alagoinhas 33. Conhecido em todo o mundo, vive cercado pelos amigos, seus romances são adaptados para o cinema, o teatro e a televisão, e continua viajando. Como diz a biógrafa é ali, na Bahia, que se dá o outono do patriarca.

O pensamento do escritor e suas variações no correr do tempo sobre temas cruciais é abordado pela autora com clareza e segurança, sempre com base em sólidas fontes. Jorge Amado jamais abdicou de suas convicções políticas e formou sempre com as correntes progressistas.

Assim foi, em largas pinceladas, a rica existência de Jorge Amado. A autora esmiúça todas as fases da vida do escritor com impressionante quantidade de detalhes e informações. Para isso se valeu de imensa bibliografia, consultando livros, revistas e jornais velhos, arquivos e documentos, sem falar nas incontáveis entrevistas que realizou e nas constantes releituras da obra do próprio biografado. Rico álbum de fotografias enriquece ainda mais a obra.

Os admiradores do escritor baiano podem ter agora um retrato em corpo inteiro de Jorge Amado e a resposta para todas suas indagações.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/12/2019 às 10h11 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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Por Enéas Athanázio

CONVERSA COM BRENNAND

Importante revista cultural (*) publicou interessante e rara entrevista com o celebrado artista plástico Francisco Brennand, que não costuma se abrir em conversas públicas com frequência. Graças à habilidade da equipe da revista, ele acabou esclarecendo aspectos de sua obra que são sempre motivos de interrogação.


Brennand

Lembra o artista que, como todo mundo, nutria severo preconceito contra as chamadas artes menores, entre elas a cerâmica. Exercitava-e na pintura a óleo sobre tela, desenho e escultura, mas era no uso do pincel que mais se aplicava e nele projetava uma carreira. Aconteceu, então, a viagem a Paris, nos anos 1940, ocasião em que o pintor Cícero Dias, que vivia na capital francesa, o convidou para visitar uma exposição de obras de Picasso. “Para a minha grande surpresa – confessou ele – era uma exposição de cerâmicas. Essa belíssima exposição me deixou boquiaberto e, mais do que tudo, humilhado porque me demonstrou de imediato que não existia arte maior e arte menor. Esse problema de ser tela, madeira, gesso ou o que for pouco importava.” O deslumbramento aumentou ao constatar que Joan Miró também trabalhava a cerâmica e em quantidade ainda maior que Picasso. Verificou ainda que outros artistas de renome praticavam a cerâmica. E assim, o acaso de uma visita traçou o seu destino e o levou a se dedicar por inteiro à cerâmica, transformando-se num dos maiores artistas plásticos nacionais, praticando também, em menor grau, a pintura, o desenho, a arquitetura e a escultura.

Filhos de empresário que já se dedicava à cerâmica, produzindo telhas, tijolos, porcelanas e azulejos, Brennand e os irmãos herdaram uma olaria nas proximidades do Recife que se encontrava em ruínas. Como os irmãos não se interessavam, teve a ideia de restaurar a velha olaria e transformá-la num grande ateliê. Em homenagem ao pai, retirou das ruínas o que restava do prédio, pedra a pedra, tijolo a tijolo, instalando nele sua monumental oficina artística que abriga um dos patrimônios cerâmicos de importância mundial. O local é visitado todos os dias por turistas do país e do exterior e conhecê-lo é dever de todo brasileiro interessado em nossa cultura.

A cerâmica de Brennand é de formas avantajadas, grandes, exuberantes. Inspira-se, segundo diz, num universo arcaico e em figuras fantásticas. Enquanto na pintura prefere retratar a mulher, as formas femininas, a maciez e as curvas, na cerâmica a mulher pode ser lembrada de forma indireta, num vaso ou outra forma qualquer. Já na cerâmica, valoriza o mundo vegetal, motivos florais e outros aspectos que podem ser aumentados sem se tornar monstruosos. É verdade que muitas de suas obras sugerem várias formas de erotismo, mas isso é acidental. É curioso observar que o artista não gosta de vender suas obras; dizem que a venda o deprime. Ele próprio afirma que está fora do mercado.

Brennand realizou grandes obras no país e no exterior e o acervo de seu ateliê é conhecido em toda parte. Tem obras expostas no centro da cidade de Recife e nas unidades do SESC em Pinheiros, Interlagos e Sorocaba. Aos 87 anos de idade, informa que nos bons tempos chegou a morar no ateliê, mas isso se tornou impossível. Diminuiu o número de viagens e de exposições. Para geral surpresa, afirma que não pertenceu ao Movimento Armorial, fundado por Ariano Suassuna com o objetivo de criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular. Acredita, porém, que Ariano tenha se inspirado em algumas de suas próprias ideias.


(*) “Revista E”, publicação do SESC/SP,
maio de 2015, pp. 10 a 15.

(Republico este artigo em homenagem a
Francisco Brennand, falecido aos 92 anos
no Recife no dia 19 de dezembro. Sua partida
deixa uma grande lacuna no cenário artístico nacional).

 

Escrito por Enéas Athanázio, 06/01/2020 às 11h29 | e.atha@terra.com.br

O MISTÉRIO DA ILHA DO SOLDADO

Rochosa, áspera, quase inabitável, a Ilha do Soldado, na costa britânica, é um local desolado, esbatido pelos ventos marítimos e de difícil acesso. Só com tempo bom e mar calmo pode alguma barco atracar com segurança. Ali, um milionário norte-americano excêntrico construiu uma casa ampla, moderna e luxuosa, no ponto mais elevado, e que pouco se avista do continente. A propriedade, mais tarde, é vendida a um certo Mr. Owen, figura misteriosa e que ninguém encontrou, fosse na ilha ou em terra firme. É partindo desses dados que Agatha Christie (1890/1976), escritora inglesa conhecida como a rainha do crime, engendra a história de seu mais famoso livro: “E não sobrou nenhum” (Globo Livros – Rio de Janeiro – 2018). Como é sabido, ela foi a mais famosa autora de obras policiais em todo o mundo, a mais lida e vendida no gênero e traduzida para inúmeros idiomas. Publicou oitenta livros policiais, várias coletâneas de contos e doze peças teatrais.

Mr. Owen, mesmo sem se mostrar, consegue reunir através de correspondência, dez pessoas que nada têm entre si para alguns dias de descanso no casarão da Ilha do Soldado. Elas vêm de vários pontos do país e são conduzidas por um barqueiro para isso contratado. Instalam-se nos luxuosos quartos e começam a usufruir das mordomias de umas férias que tinham tudo para ser maravilhosas. Mas o inesperado acontece.

Quando todos se encontram na suntuosa sala de estar, uma voz misteriosa surge nítida e clara. Declinando o nome de cada um, vai acusando os visitantes de certos atos que, embora criminosos, escaparam da justiça a permaneceram impunes. O choque é violento porque todos julgavam que o esquecimento havia recaído sobre os fatos e ninguém mais se lembrava deles. Começam, a seguir, as mais misteriosas e inexplicáveis mortes. Varejam a casa e a ilha e constatam que além dos visitantes não havia viva alma no local. O mau tempo e o mar agitado impedem a aproximação de qualquer embarcação. Não obstante, apesar dos extremos cuidados adotados por todos, as mortes continuam. A conclusão inevitável é a de que o criminoso é um deles e todos passam a vigiar uns aos outros com total desconfiança. E o mais curioso é que a cada morte desaparece um dos soldadinhos de porcelana que jaziam sobre uma mesa. Além disso, as mortes coincidem com as palavras de um poema infantil exposto em todos os quartos: “Dez soldadinhos saem para jantar/ a fome os move/ um engasgou, e então sobraram nove...”

Num clima tenso, cria-se um ambiente lúgubre, cheio de medo e expectativa. Quem seria o próximo? As horas escorrem vagarosas, a tempestade ruge lá fora, o mar encapelado martela as rochas da ilha e novas mortes acontecem até que não sobra nenhum. Cada um deles, por sua vez, morre nas mais estranhas circunstâncias, incluindo-se dois suicídios que não me parecem muito convincentes. Mas ao longo de 400 páginas a autora mantém um suspense que quase provoca falta de ar no leitor. As investigações mais minuciosas nada conseguem esclarecer. Só uma carta subscrita pelo juiz Laurence Wargrave, um dos visitantes mortos, enviada à Scotland Yard pelo mestre da traineira Emma Jane põe fim ao mistério e explica tudo. Mas isso não posso expor porque ninguém teria interesse em ler o livro e isso seria lamentável.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/01/2020 às 09h05 | e.atha@terra.com.br

O “CANUDINHO”

A faixa de terras entre os rios Canoas e Pelotas, formadores do Uruguai, foi conhecida em geral como Entre-Rios. Por ela passa a chamada estrada velha, ligando Campos Novos a Lages, fazendo-se a travessia do Canoas através de uma balsa de cabo tirada a muque pelo balseiro (*).

Ali se situa hoje o município de Celso Ramos, desmembrado de Anita Garibaldi, minha primeira comarca como Promotor de Justiça.

Nessa região surgiu, no final do Século XIX, um movimento messiânico sobre o qual ouvi algumas referências mas que foi pouco estudado, sendo, em consequência, um episódio quase desconhecido de nossa história. Lendo agora o excelente livro “Lideranças do Contestado”, de autoria do historiador e professor da UFSC Paulo Pinheiro Machado (Editora da UNICAMP – Campinas – 2004), deparei com breve relato desse fato que ficou conhecido como “Canudinho”, ou seja, um “Canudos” pequeno, e que julgo merecedor de um comentário.

Paulo Pinheiro Machado (Divulgação)

Segundo o autor, entre agosto e setembro de 1897, um comerciante de nome Francelino Subtil de Oliveira, associado a um homem a quem chamavam “São” Miguel ou “São” Miguelito, que se declarava primo-irmão do “monge” João Maria, “estabeleceram o culto a uma forma rochosa que havia na região, afirmando que a pedra era uma santa que estava encantada.” Para libertar a santa, os devotos tinham que fazer preces e ladainhas sem fim, entoar cantos e confessar-se com Francelino, o “puxador” das orações. Como penitência dos pecados praticados, deveriam permanecer algum tempo com pesada pedra sobre a cabeça. Os devotos da nova fé passaram a se reunir no local, onde não tardou a nascer um vilarejo com cerca de oitenta ranchos e trezentos moradores. E como esse tipo de apelo “religioso” tem grande poder de atração, pessoas pobres, doentes e marginalizadas começaram a afluir ao local, ameaçando a formação de um reduto ou arraial, fato que assustou as autoridades da região (p. 173).

Os “coronéis” Henrique Rupp e Lucidóro Luiz de Mattos, ambos de Campos Novos, solicitaram a intervenção do Estado para debelar o surto messiânico. Soldados do Regimento de Segurança do Estado e homens de confiança daqueles “coronéis” tentaram atacar o povoado, mas, para surpresa deles, foram repelidos a tiros pelos devotos enfurecidos e por estes perseguidos até a entrada da então Vila de Campos Novos, distante cerca de quarenta quilômetros. Foi o vexame dos vexames, e os sertanejos, sagrados heróis pela boca do povo, tiveram sua bravura entoada em prosa e verso, espalhando-se por toda a região. Alarmado, o governador enviou nova expedição armada, contando com auxílio de forças gaúchas, e assim foi debelado o foco revolucionário que ameaçava imitar Canudos, na Bahia, onde as derrotas governistas se repetiam. Destruída a povoação, o episódio logo foi esquecido, ainda que contribuísse para o desgaste político daqueles “coronéis”, cujo prestígio estava em decadência. Segundo o autor, teria havido uma chacina no Entre-Rios (p. 174).

O novo “monge”, que se dizia “São” Miguel, tirou partido da devoção que existia em relação a João Maria, cuja pregação impregnava a região, chamando a atenção do povo e fazendo profecias apocalípticas, como o fim do mundo no virar do Século, as pesadas pragas que viriam e outros males. Com o aumento dos moradores, começaram os inevitáveis abusos, como brigas, saques de roças e fazendas, furto de gado e porcos. Por outro lado, o movimento revelou a existência de uma “população errante, suscetível de seguir até o fim suas lideranças religiosas e as pessoas estavam disponíveis a qualquer tipo de luta” (p. 174).

O “Canudinho”, tema pouco explorado, está à espera dos pesquisadores. E fica aqui no Estado, em região de fácil acesso e investigação.

(*) Hoje existem pontes.  

Escrito por Enéas Athanázio, 24/12/2019 às 12h06 | e.atha@terra.com.br

POR AMOR À MÚSICA

Dmitri Shostakovich

Com origens siberianas, Dmitri Shostakovich (1906/1975) nasceu em São Petersburgo em uma família de antigas tradições revolucionárias e de acentuada tendência musical. Desde seu avô, vários membros da família participaram de algumas das tantas insurreições populares que marcaram a história russa. Por outro lado, o amor e o cultivo da música foram uma constante, e sua mãe, Sonya, mulher de grande coragem, foi extraordinária pianista e liderou a família com habilidade e valentia, mesmo nos momentos em que esteve beirando a miséria. Desde cedo percebeu a genialidade do filho e o estimulou sempre na busca da realização artística. Graças a ela o clã familiar se manteve unido e ativo.

No período pós-revolucionário, nos anos posteriores a 1917, o país viveu tempos aflitivos. Toda a economia se desorganizou em virtude da mudança de regime e as carências se sucederam. Foram dias, meses e anos de privações, racionamento, desabastecimento, frio e medo. O desemprego campeava, enquanto se multiplicavam os boicotes, as sabotagens e toda sorte de resistência à implantação do novo sistema econômico. Havia desemprego e os salários eram miseráveis. Apesar de tudo, porém, os Shostakovih lutavam com bravura pela sobrevivência e nunca deixaram de cultivar a música. O jovem Dmitri, chamado de Mitya pelos familiares, aos treze anos de idade já se revelava exímio pianista e até realizava pequenas composições musicais.

Dotado de constituição frágil, embora de postura elegante, o rapaz estudava e estudava. Frequentou aulas particulares com mestres renomados, fez cursos em escolas famosas e passou por importantes conservatórios. Seu talento era exaltado e suas produções musicais começaram a aparecer e despertar vivo interesse. Grandes maestros e virtuoses por elas se interessaram e a crítica as aclamou. Suas obras passaram a ser apresentadas em São Petersburgo, Moscou a outras cidades europeias, sempre atraindo numeroso público e merecendo o aplauso dos “experts.” Já casado, Dmitri melhorou de condição financeira e passou a desfrutar uma vida de fausto e luxo, desaprovada pela mãe, cujo senso prático não via aquilo com bons olhos. Apesar do sucesso, ele se torna nervoso e irritadiço, não poupando nem mesmo os familiares.

Tudo corria bem, sua obra estava consagrada, a vida prosseguia numa linha ascendente. Mas, como raios que caem do céu sem aviso, dois editoriais do “Pravda”, jornal oficial do governo e do partido, o fulminam. Com mão pesada, a censura o acusa de produzir obra burguesa, afastada dos interesses do povo e, portanto, condenável. Usando das costumeiras frases feitas e expressões de sentido duvidoso, os censores reprovam suas produções, em especial a ópera “Lady MacBeth do Distrito de Mzensk”, sobre a qual recai o ódio virulento da censura. Nela o compositor procura tornar simpática a vilã de um conto célebre, o que parece ter irritado o todo-poderoso Stálin, cuja mão era sentida por detrás dos editoriais. Pareciam entender que a edulcoração de uma criminosa não ficava bem, ainda mais no exterior, no contexto da Guerra Fria.

Em consequência, Dmitri cai no ostracismo. Suas obras são retiradas dos repertórios, perde as mordomias, é forçado a tocar nos cinemas, como outrora, e permanece esquecido por longo tempo. Mais tarde, após a morte de Stálin, reconquista sua posição, recupera o espaço e sua música volta a ser executada, não apenas na Rússia mas em todo o mundo. Desde então é colocado entre os grandes compositores da música universal. Foi autor de 59 composições de elevado sentido musical, segundo relações efetuadas por seus biógrafos, entre eles Victor Seroff, cujo livro foi traduzido por Guilherme de Figueiredo e publicado no Brasil, com excelente prefácio de Mário de Andrade. Nessa relação não estão incluídas as obras que permanecem em manuscrito.

Apesar das dificuldades e dos tropeços, o gênio de Dmitri Shostakovich se realizou na plenitude e sua obra é reverenciada em todo o mundo pelos apreciadores da boa música.

Outro excelente livro sobre o compositor é “O ruído do tempo”, de autoria de Julian Barnes, um dos expoentes da moderna literatura britânica (Editora Rocco – Rio de Janeiro – 2017). Nele o autor revela o sofrimento de Shostakovich, espírito sensível, diante da pressão a que foi submetido antes e depois da reabilitação. Teve que ler discursos que não escreveu, assinar artigos que não eram escritos por ele, fazer declarações que contrariavam seu pensamento e se conformar com uma vigilância permanente. Nomearam-lhe até mesmo um orientador com o objetivo de “reeducá-lo.” Em certa fase, temendo ser preso a qualquer momento, permanecia horas a fio em pé, diante do elevador e com a mala na mão para poupar a esposa de um trauma ao ser retirado da cama na calada da noite, como acontecia com frequência. Estarrecedor.

Escrito por Enéas Athanázio, 16/12/2019 às 13h14 | e.atha@terra.com.br

O BARULHO DO TEIXEIRA

Advogado com longa militância no Rio de Janeiro e folclorista, Francisco de Vasconcellos é autor de uma obra ampla e variada que não cessa de crescer. Tem abordado os mais diversos temas da chamada cultura popular de vários pontos do país, sempre fundamentado nas melhores fontes e em pesquisas próprias. Em seu mais recente livro, - “Temas de Feira e de Cordel” (Arteg Impressões – Juiz de Fora – 2019), - focaliza três curiosos eventos da vida sertaneja e seus personagens, além de realizar interessante incursão no exame da poesia popular.

No primeiro deles analisa um episódio que ficou gravado na memória do povo e que aconteceu na remota Vila do Teixeira, povoado pobre e desconhecido do sertão da Paraíba. A mulher, a terra e a política, ressalta o autor, eram as causas de frequentes lutas de famílias que se tornavam inimigas. No caso em tela, tudo indica que a política colocou em posições opostas os Dantas, conhecidos como a Família Terrível, e os Nóbregas. A serviço dos primeiros estavam os Guabirabas, “mestres nas tocaias, nos insultos e nas insinuações malévolas. Sua crueldade não conhecia limites...” Delphino e Liberato, delegados em sucessão, teriam perseguido os Dantas, adversários políticos, tendo aquele se afastado do cargo para que assumisse o segundo.

Cirino Guabiraba, um dos irmãos facínoras, envia ao delegado Liberato um recado atrevido: estaria na feira da Vila e, de fato, lá compareceu quando ela estava no auge. Saindo um por um, para não despertar suspeitas, os homens do delegado prepararam uma tocaia num local por onde Cirino teria forçosamente que passar. E ali o mataram à traição, não lhe permitindo nem sequer confessar-se, enquanto o cavalo ensanguentado voltava para casa e dava o sinal de que o dono fora preso ou morto. A família se movimenta para o revide e tanto Liberato como Dekphino foram mortos, embora este, a rigor, não participasse dos acontecimentos. Seguiram-se outros desdobramentos e os episódios entraram na história como o Barulho do Teixeira.

Barulho do Teixeira atraiu a atenção dos cantadores de feiras e da literatura de cordel, tendo variadas versões. É tema de livros de Pedro Batista e de Gustavo Barroso, tendo ultrapassado as fronteiras nordestinas para ecoar no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e no Espírito Santo. O cantador Hugolino Nunes da Costa seria o autor da primeira versão rimada e metrificada dos acontecimentos. Outros poetas populares também se dedicaram ao assunto.

Nesse período histórico o cangaço vicejava em todo o Nordeste. Apesar das volantes policiais que os perseguiam, os bandos de cangaceiros aterrorizavam as populações indefesas das pequenas cidades e vilas. O caso de Cirino caiu no gosto do povo, talvez pela valentia com que tentou reagir ou por ter morrido sem padre e confissão.

Com seu ensaio, Francisco de Vasconcellos reaviva um episódio dos mais conhecidos e cantados nas feiras populares.

Nos ensaios seguintes, o autor analisa a figura e a época do Valente Valério que, de bandido virou santo, e, a seguir, a de Inácio da Catingueira (1845/1879), herói cultural de seu povo, escravo, pobre e analfabeto que se tornou um dos maiores cantadores e poetas populares do sertão, falando pela gente miserável e conquistando os corações. Jamais foi esquecido. O ensaio de Vasconcellos é merecida homenagem

Para fechar seu belo livro, o autor tece eruditas considerações sobre a hipérbole na poesia popular.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/12/2019 às 12h35 | e.atha@terra.com.br

JORGE AMADO EM CORPO INTEIRO

Jorge Amado foi dos poucos brasileiros que viveu na plenitude a vida do escritor. Foi profissional das letras e delas tirou o sustento. Nunca quis escrever memórias ou autobiografia. Em sua obra, o livro que mais se aproxima do gênero é “Navegação de Cabotagem”, repertório de recordações de pessoas, lugares e fatos, embora sem a ordem e o método costumeiros. Relatou muito de sua vida em entrevistas mas isso nunca foi organizado e publicado em conjunto. É curioso notar que só teve um biógrafo em vida, Miécio Tati, mas parece que o livro não mereceu boa aceitação e foi pouco comentado.

Agora, porém, surge uma biografia para valer, compensando a ausência de outras. Trata-se de “Jorge Amado – Uma biografia”, de autoria de Josélia Aguiar (Todavia Editora – S. Paulo – 2018 – 635 págs.). Baiana de Salvador, radicada em São Paulo, a autora é jornalista e historiadora. Foi correspondente da “Folha de S. Paulo” em Londres, editora da revista “Entrelinhas” e curadora da Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP). Dedicou nada menos que sete anos à confecção desta obra.

A narrativa tem início nos dias do menino grapiúna correndo solto no meio cacaueiro da Bahia, convivendo com as pessoas e absorvendo a cultura local. Depois, os duros tempos do internato, de onde foge e vai se abrigar na casa do avô, fazendo longa caminhada a pé e sozinho. Acontece a primeira paixão, ardente e arrebatada, mas que acaba em nada. A mudança para o Rio de Janeiro para estudar Direito, entregando-se a intensa militância literária, escrevendo para os jornais, e exercendo grande atividade política. Nesse período faz amplo relacionamento com numerosas pessoas com as quais se cruzará em muitas outras oportunidades.

Com o lançamento do primeiro romance, “País de Carnaval”, tem início a carreira literária. Embora o autor fosse muito jovem e com pouca experiência, o livro desperta a atenção da crítica e agrada aos leitores. A partir daí, não cessa de escrever e publicar. Com o passar dos anos sua obra vai se aprimorando, é muito lida e ele se transforma no escritor mais célebre do país. Viaja muito, conquista prêmios e distinções, seus livros são traduzidos para 49 idiomas. É dos raros brasileiros que enriquece com a literatura.

A militância política não cessa e as perseguições acontecem em vários períodos de nossa confusa vida institucional. Eleito Deputado Federal por São Paulo, tem o mandato cassado em 1948 por decisão da Justiça Eleitoral, em pleno regime democrático e na vigência da Constituição de 1946. Têm início os diversos exílios a que é forçado. Esconde-se em Estância, no interior de Sergipe, onde fica em paz e muito escreve. Mais tarde iria para a Argentina, o Uruguai e Paris, sendo expulso da França por pressão do governo brasileiro, e para Dobris, na antiga Tchecoslováquia. Lá, ele e a esposa Zélia vivem por longo tempo e nasce a filha Paloma. Regressando ao país, vai se afastando da militância política, ingressa na Academia Brasileira de Letras e se muda para Salvador, passando a viver na célebre Casa do Rio Vermelho, à rua Alagoinhas 33. Conhecido em todo o mundo, vive cercado pelos amigos, seus romances são adaptados para o cinema, o teatro e a televisão, e continua viajando. Como diz a biógrafa é ali, na Bahia, que se dá o outono do patriarca.

O pensamento do escritor e suas variações no correr do tempo sobre temas cruciais é abordado pela autora com clareza e segurança, sempre com base em sólidas fontes. Jorge Amado jamais abdicou de suas convicções políticas e formou sempre com as correntes progressistas.

Assim foi, em largas pinceladas, a rica existência de Jorge Amado. A autora esmiúça todas as fases da vida do escritor com impressionante quantidade de detalhes e informações. Para isso se valeu de imensa bibliografia, consultando livros, revistas e jornais velhos, arquivos e documentos, sem falar nas incontáveis entrevistas que realizou e nas constantes releituras da obra do próprio biografado. Rico álbum de fotografias enriquece ainda mais a obra.

Os admiradores do escritor baiano podem ter agora um retrato em corpo inteiro de Jorge Amado e a resposta para todas suas indagações.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/12/2019 às 10h11 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.