Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

LUNA E O BRASIL PROFUNDO

Luiz Luna foi um dos escritores mais interessantes que conheci e de cuja amizade pude privar. Estive com ele várias vezes, no Rio de Janeiro, e trocamos cartas durante longos anos. Pernambucano, foi Promotor Público no interior de seu Estado sem jamais abandonar o jornalismo a que se dedicou desde os 16 anos de idade. Trasnferiu-se para o Rio de Janeiro e trabalhou por muito tempo no jornal “Diário de Notícias”, pertencente à família Dantas, um dos periódicos mais influentes da época no país. A par do jornalismo militante, ele se dedicou com seriedade a vários tipos de pesquisa, visando sempre revelar o Brasil profundo, aquele pouco conhecido pelas pessoas em geral. Em três campos, pelo menos, Luna deu exemplar contribuição: o cangaço, o índio e o negro.

Na área do cangaço publicou o livro “Lampião e seus cabras” (Livros do Mundo Inteiro – Rio – 1972 – 2ª. edição), hoje considerado um clássico do assunto. É um trabalho minucioso e bem fundamentado, revelando aspectos em geral confusos e pouco esclarecidos em outras obras. Nomeia e numera, por exemplo, um por um, os componentes do grupo de Virgulino Ferreira da Silva em cada ação do bandoleiro. Em um levantamento biográfico detalhado, mostra as condições sociais que levavam os rapazes da época a abraçar o cangaço, quase sempre vítimas de graves injustiças, perseguições e humilhações por parte dos “coronéis” que dominavam o sertão. A ausência quase total do Estado não fornecia condições para o estudo e a realização da justiça. Outro ponto importante por ele estudado é uma comparação entre Antônio Silvino e Lampião, os cangaceiros mais famosos do período. Enquanto o primeiro era comedido e justiceiro, o segundo praticava um cangaço sem ética, matando, esfolando e perseguindo inocentes. Depois que Lampião foi derrotado na tentativa de invadir a cidade de Mossoró e teve que fugir com o rabo entre as pernas, vencido, sem munição e sem dinheiro, entregou-se a um rol de iniquidades sem precedentes, vingando-se nos outros de seu próprio fracasso. Comenta também as lendas que cercam a figura do cangaceiro Corisco e sua mulher, Dadá, colocando as coisas nos devidos lugares, e o caso da patente de capitão que foi concedida a Lampião pelo Padre Cícero Romão Batista, de Juazeiro do Norte, por inspiração do Dr. Floro Bartolomeu da Costa, braço direito do sacerdote. Além disso, Lampião recebeu muito armamento, munição em quantidade, dinheiro e roupas para combater a Coluna Prestes que assombrava os sertões. Mas não era ingênuo a ponto de enfrentar um batalhão de soldados profissionais, treinados e calejados no ofício. Jamais combateu a Coluna e usou o armamento para reforçar seu bando como nunca. Luna também relata o período em que Lampião, cercado por todos os lados pelas volantes, se interna no Raso da Catarina, onde a vida humana é quase impossível e sai de lá com o bando esfarrapado, faminto e sedento, praticando pequenos assaltos para se recuperar. Analisa ainda o talento inato de estrategista de Lampião, vencendo lutas desiguais, fugindo sem deixar rastro e despistando as forças legais em inúmeros encontros. Muitos outros aspectos são abordados nesse livro que é um manancial de ensinamentos. A Editora Livros do Mundo Inteiro também publicou obras dos catarinenses Ricardo Hoffmann e C. Ronald.

Em seu livro “A resistência do índio à dominação do Brasil” (Editora Fora do Texto – Coimbra – 1993) Luiz Luna revela com detalhes a luta dos índios brasileiros contra os colonizadores, a exemplo do célebre cacique Nheçu. Aborda um aspecto importante, em geral pouco mencionado: no momento histórico da chegada dos portugueses os índios brasileiros estavam deixando a fase coletora/caçadora para ingressar na fase agricultora, ou seja, estavam evoluindo de forma natural como os demais povos. A invasão branca impediu a evolução natural e desorganizou por completo a cultura indígena. Foi uma desculturação.

“O negro na luta contra a escravidão” (Livraria Editora Cátedra – Rio – 1976) examina em detalhe o que foi a luta surda e desigual dos negros contra a escravidão. Alinha cada um dos movimentos rebeldes e todas as barbaridades que se cometeram contra o elemento africano ao longo de trezentos anos. São atos de arrepiar os cabelos e que eram praticados com a maior naturalidade, inclusive por senhores e senhoras ilustres que viviam rezando e batendo contritos nos peitos. Muitas dessas cenas foram evocadas por Monteiro Lobato, neto de um senhor de escravos, em seu conto “Negrinha.” O livro de Luna é um brado pela justiça e uma pesada lição contra os preconceitos.

Escrito por Enéas Athanázio, 30/03/2020 às 11h28 | e.atha@terra.com.br

REPOSITÓRIO SOBRE STELLA

A incansável escritora goiana Alice Spindola publicou no ano passado o livro “Stella Leonardos, a Incomparável” (Editora Kelps – Goiânia – 2019). Contando com a colaboração da própria Stella na idealização da obra, a autora produziu um verdadeiro repositório sobre a escritora carioca que constitui, além disso, uma bela homenagem a quem tanto deu de si ao teatro e à literatura. Baseado em seguras fontes de pesquisa, fartamente fundamentado e contando com fiel acervo documental, o livro fornece uma visão segura da vida e da obra da escritora, enfatizando sua produção para o teatro, ao qual dedicou intenso trabalho, tendo inclusive atuado como atriz. Na apresentação, a autora recorda os encontros, as discussões e as visitas feitas por ambas quando idealizavam esta obra. Relata ainda o entusiasmo de outros intelectuais, inclusive estrangeiros, a exemplo de Jean-Paul Mestas que classificou Stella como “escritora planetária.”

Menina de inteligência aguçada, o amor de Stella pelo teatro despertou muito cedo. Estreou como autora e atriz ainda nos dias do jardim da infância. Essa paixão irá acompanhá-la por toda a longa vida e produzirá peças teatrais infantis e clássicas que encantarão as pessoas e contarão com o aplauso da melhor crítica. Seu teatro foi encenado em grandes palcos, exibido em circos e posto em cena ao ar livre, como informa a autora. Superou os limites do país e foi exibido no exterior, sempre com o mesmo sucesso. E também ganhou a perenidade do livro. Mereceu montagens em palcos famosos, como nos Teatros Municipais do Rio e de São Paulo. Em toda sua obra perpassa sempre a preocupação social.

Grandes nomes da literatura, do teatro e da crítica teatral se manifestaram sobre sua obra. Modesto de Abreu, Mario Hora, Afrânio Peixoto, João Luso, J. G. de Araújo Jorge, Paulo Filho, Abadie Faria Rosa, Lopes Gonçalves, Rafael Barbosa, Raul de Azevedo, Borja de Almeida e Paranhos Antunes foram alguns dos que opinaram sobre ela, alguns mais de uma vez, e todos escrevendo em grandes órgãos da imprensa da época. Ou seja, a obra de Stella obteve intensa repercussão.

A peça “Festa da Vitória” foi um capítulo à parte da obra de Stella. Como escreveu a autora do livro, “ainda não existiu uma peça, com tema pátrio, que tenha obtido tamanha exaltação... Ela inovava, homenageando as nações que haviam participado da guerra. É uma peça internacional.” A peça mereceu uma encenação magnífica e inesquecível, verdadeiro marco da arte teatral brasileira.

Para além da obra literária e teatral, Stella viveu com intensidade a vida de escritora. Pertenceu à Academia Carioca de Letras e foi secretária da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro (UBE/RJ). Foi permanente agitadora cultural e manteve intercâmbio com escritores de todo o país e do exterior. Com sua inconfundível caligrafia, não deixava bilhete sem resposta. Tive o prazer de trocar cartas com ela e a conheci em pessoa em solenidades da UBE/RJ.

O livro de Alice contém muito mais que estas rápidas pinceladas. Reproduz manuscritos de Stella, muitas fotos, documentos, reproduções de capas de suas obras, poemas, trechos de outros escritos e inúmeros e variados elementos para bem conhecer a escritora e sua obra. Em algumas fotos ela aparece tão nítida e fiel tal como a conheci.

A obra de Alice é ressuscitadora e justiceira, merecedora de muitos aplausos.

Escrito por Enéas Athanázio, 24/03/2020 às 15h52 | e.atha@terra.com.br

UMA PUBLICAÇÃO MODELAR

Tenho em mãos o número XXIII da Revista da Academia Brasileira de Filologia. Com sede no Rio de Janeiro, a entidade tem como presidente Amós Coelho da Silva, como vice-presidente Deonísio da Silva e como diretor da publicação Antônio Martins de Araújo. Todos seus integrantes são linguistas de destaque, como tais reconhecidos pela melhor crítica especializada. Os temas veiculados na revista são de elevado rigor técnico e científico.

Este número se abre com um amplo e profundo ensaio de autoria do Prof. Adovaldo Fernandes Sampaio, autor de obras monumentais nas áreas da linguística, da escrita e sua história. Aborda dicionários curiosos publicados em Goiás e depois se debruça sobre a volumosa e rica obra de Willim Agel de Mello, diplomata, escritor e linguista, autor de um conjunto de dicionários sem similar em todo o mundo. Graças ao seu imenso trabalho, diz o ensaísta, William Agel de Mello “tornou agora as línguas românicas ainda mais próximas e tangíveis e os povos que as falam ainda mais irmãos e amigos.”

Deonísio da Silva contribui com dois interessantes artigos, um sobre Cruz e Sousa e outro sobre John dos Passos. Aplaude a atitude do escritor norte-americano ao não se submeter às exigências sectárias do chamado realismo socialista e se manter independente, atitude que também inspirou seus seguidores brasileiros. Dos Passos participou da Guerra Civil Espanhola, como outros de seus compatriotas, operando como motorista de ambulâncias no fronte de combate. Hemingway dá a entender que a presença dele na Espanha foi muito curta e que estava mais interessado na tradução de suas obras para o espanhol que em assuntos bélicos. A guinada do escritor para a direita, depois de ter apoiado os republicanos, gerou a acusação de traidor, aliando-se ao abominável franquismo que toda a intelectualidade combatia e contribuindo para a sua vitória. O tradutor da obra dele para o espanhol foi assassinado e, ao que parece, em circunstâncias nunca bem esclarecidas. O ensaísta fornece alguns dados pouco conhecidos e curiosos sobre Dos Passos.

Já Francisco da Cunha e Silva Filho presta uma homenagem ao mestre Júlio de Matos Ibiapina. Faz um relato sobre a vida, a obra e as atividades desse professor que foi também jornalista, deputado, major do exército e grande viajante. Figura admirável de estudioso, poliglota e cronista aguerrido. É um ensaio ressuscitador e justiceiro.

Outros trabalhos de valor enriquecem a revista. Afrânio da Silva Garcia e Ida Alves abordam diferentes facetas do Modernismo em longos e substanciosos ensaios. Autores de reconhecida competência publicam ensaios abordando variados temas da linguística e da literatura. O volume se fecha com entrevista, resenhas, memória e noticiário. Trata-se, pois, de uma publicação modelar, a única no gênero que conheço, merecedora da melhor atenção dos amigos do saber.

Escrito por Enéas Athanázio, 16/03/2020 às 11h19 | e.atha@terra.com.br

VIAJANDO COM HEMINGWAY

Ao final da leitura vagarosa e atenta do terceiro volume dos “Contos de Hemingway” (Bertrand Brasil – Rio – 1999), deparei com “Um país estranho”, dos mais longos e pouco conhecidos contos do escritor norte-americano. Segundo a editora, o conto seria a primeira versão de quatro capítulos do futuro romance “As ilhas da corrente”, abandonada pelo escritor pelo fato de ter o referido romance tomado novo rumo. Isso, no entanto, em nada prejudicou a inteireza do conto, que se transformou numa peça independente, de leitura rica e surpreendente, na qual o autor revela mis uma vez toda sua técnica, inclusive no incomparável uso do diálogo.

Trata-se de um conto de movimento, em primeira pessoa, em que o leitor acompanha o personagem-narrador e sua companheira numa longa viagem num Buick conversível de segunda mão. Percebe-se que ele é um homem maduro e vivido, enquanto ela é mais jovem e no esplendor da beleza, ainda que isso não seja formulado de forma expressa. A narrativa evolui entre longos trechos de estrada, observando a natureza circundante, a flora e a fauna, as pessoas avistadas e as cidades que cruzam. Há os pernoites em hotéis e as refeições nos restaurantes, tudo realizado com muita calma e tranquilidade. E muitos diálogos nos quais comentam os pequenos incidentes da prolongada travessia e o relacionamento amoroso que os une.

Num repente, porém, o conto muda do tom descompromissado dos viajantes para o campo memorialista do próprio autor, isto é, de Ernest Hemingway, que coloca suas lembranças na boca do personagem masculino e começa a relatar um fato verídico e conhecido de sua vida. Encontrava-se ele em Lausanne, cobrindo como repórter uma conferência internacional, quando pediu à esposa que fosse encontrá-lo para alguns dias de férias juntos, após o compromisso. Com a intenção de lhe fazer uma surpresa, ela colocou numa valise as pastas com os originais dos escritos dele e também, por engano, aquelas que continham as cópias. Com o material em mãos, ele poderia trabalhar durante aqueles dias de férias. Ela se preparava para tomar o trem expresso na estação de Lyon, deixando a bagagem, incluindo a valise, no compartimento próprio enquanto foi comprar jornais e uma garrafa de água expostos numa mesinha próxima. E ao voltar, a surpresa e a tragédia: a valise com todos os originais havia desaparecido! Desesperada, ela fez tudo que podia: deu queixa à polícia, procurou, indagou, investigou e... nada! A valise sumiu sem deixar vestígios. (Muitos anos depois, no Ritz Hotel, em Paris, o gerente comunicou a Hemingway que havia no depósito um volume à espera dele há muito tempo. Mas não era a valise encantada).

Não havendo outro recurso, ela viajou ao encontro do marido. Chorou e chorou, sem coragem de relatar o ocorrido, mas acabou confessando. Hemingway levou tal choque que esteve à beira da loucura. Todo o paciente e extenuante esforço de anos e anos de trabalho havia se evaporado. Sua esposa diria, mais tarde, que lamentou não existir alguma espécie de cirurgia para fazê-lo esquecer do que acontecera. “Fiquei ali, sem me mexer, - escreveu ele – com os travesseiros por amigos, em estado de desespero. Tudo o que eu tinha escrito até então, e tudo em que eu tinha grande confiança, estava perdido. Eu tinha reescrito aquilo tantas vezes até chegar aonde eu queria, e sabia que não podia escrevê-los de novo...” (p. 412). Em outra passagem, diz o seguinte: “Pus tudo neles (nos escritos perdidos), pus toda a informação que podia incluir. Escrevi-os várias vezes até me sentir inteiro neles e vazio dentro de mim. Por ter trabalhado em jornal desde muito jovem me habituei a esquecer tudo depois de escrever: todos os dias limpa-se da memória o que se escreveu como se limpa um quadro-negro com esponja ou um pano úmido. Eu ainda tinha esse mau hábito, e agora ele se voltava contra mim” (p. 415).

E por fim:

“Esse vácuo, essa sensação de perda, é ruim. Mas não mata. Já o desespero mata, e em pouco tempo.” (Idem). 

Escrito por Enéas Athanázio, 09/03/2020 às 11h10 | e.atha@terra.com.br

AS DISTOPIAS VENCERAM?

Ensina a história que desde muito tempo as pessoas argutas começaram a perceber as falhas da sociedade humana. Depois de séculos e séculos de existência a sociedade não conseguiu sequer solucionar seus problemas básicos, como alimentação e moradia para todos, educação e assistência à saúde, proteção e segurança. Surgiram então os pensadores que imaginaram uma sociedade mais perfeita na qual todas as pessoas teriam os mesmos direitos e garantias. Eram os chamados utopistas, como Platão, Tommaso Campanella, Saint-Simon, Thomas Morus, Bakunin, Kropotkin e outros tantos. Até mesmo no Brasil ocorreram experiências utopistas, como a Colônia Cecília, no Paraná, liderada pelo Dr. Giovanni Rossi, o Falanstério do Saí, em São Francisco do Sul, e o Caldeirão, no Ceará, liderado pelo beato José Lourenço. Essas propostas reformistas jamais foram aceitas e seus autores quase sempre sofreram severas perseguições. O Caldeirão foi destruído a ferro e fogo.

O evolver dos tempos mostrou que a sociedade nunca quis mudanças profundas, preferindo tentar soluções que a experiência revelou infrutíferas. Surgiram aos poucos os pensadores antiútopistas, pregando em sentido oposto, ou seja, as distopias. Os livros “1984”, de George Orwell, e “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, ficaram como exemplos emblemáticos das distopias. Neles há um estado imaginário em que as pessoas vivem em condições de extrema opressão, desespero ou privação. O Estado onipresente esmaga o indivíduo. Ditaduras instaladas em várias partes do globo estiveram bem próximas da concretização desse estado de coisas.

No mundo de hoje as ideias extremistas e autoritárias se ampliam com rapidez, inclusive em países que experimentaram na própria carne as consequências práticas desse pensamento. Os princípios democráticos vão sendo minados, pouco a pouco, eliminando os canais de comunicação entre o povo e o governo. Enquanto no passado isso se fazia pela força das armas, agora vai sendo realizado de forma sutil e com aparente legalidade, centralizando no governo poderes discricionários que permitem a prática de atos cada vez mais agressivos contra as normas democráticas. A triste impressão que fica é de que as distopias venceram e o mundo democrático está em vias de extinção.

O livro “A Nova Ordem”, de Bernardo Kucinski, lançado pela Companhia das Letras (S. Paulo – 2019) é de arrepiar. Nele, um Brasil fictício passa pela formação de uma nova ordem de viés autoritário. O regime luta contra utopistas, aqueles com viés crítico, encarcerando professores e fechando universidades. A nova ordem é obedecer, submeter-se, não pensar, não discutir. Exige-se que as pessoas tenham almas de escravos. É o império do sim senhor, senhor sim.

O consumo de literatura distópica é impressionante, tal como acontece na realidade dos dias atuais, catequizando as mentes das pessoas para o pensamento único. E quem discorda? É subversivo e contrário aos interesses da nova ordem. Tudo pode acontecer com elas.

Para quem viveu e acompanhou no dia-a-dia os vinte e um anos de ditadura, a hipótese é veneno mortal. 

Escrito por Enéas Athanázio, 02/03/2020 às 11h30 | e.atha@terra.com.br

COM CERTEZA!

A linguagem falada na televisão brasileira está cada vez pior e mais pobre. Os erros, as repetições, os lugares-comuns e certos cacoetes são de uma frequência insuportável. Procurando ser coloquiais, alguns apresentadores simplificam as coisas como se falassem na rua e eliminam os RR: mostrá, dizê, fazê, andá... Sem falar nos pra, pro, tá, tô...Outros parecem achar bonito intercalar um aí nas frases: “O incêndio  aí  de grandes proporções  aí  já devorou  aí  vários hectares de matas... “ E existem aqueles que se julgam donos da verdade e não se cansam de repetir: a grande verdade é que... É claro que a grande verdade é a deles. Outros estão sempre certos, tanto que repetem a torto e a direito: Com certeza! Com certeza! E o pior é que isso se espalhou e todo mundo agora se julga com certeza...

Outras expressões que agridem os ouvidos de tão surradas são atualizar, atualizando, atualização etc. Com um mínimo de imaginação poderiam dizer de outra forma. Seria pedir muito? 
Vivenciar é outro verbo que teve a má sorte de virar modismo. Ninguém mais vive, vivencia; ninguém viveu, vivenciou; vida não é mais vida, é vivência. E o curioso é que parecem imaginar que isso é elegante, prova de erudição, dá status.
Observar a evolução dos acontecimentos, a conferir, né, isso daí, conta pra nós, tipo, por conta de, cadê você, diferenciado, tem mais isso e mais aquilo são outras vítimas constantes.
 
                                 São verdadeiras aulas de deseducação.
Por sorte, parece que trabalhar em cima de, a nível de e gratificante estão caindo em desuso. Uf!
A quantidade de anúncios nos intervalos da programação também é intolerável e cada vez aumenta mais. A gente chega a esquecer do que estava assistindo. É um abuso. Por sorte existe uma teclazinha com a palavra mute que nos liberta dessa chateação.
Com certeza!
E nada indica que vá melhorar.
Com certeza!
________________________
O Rio Guandu, do Rio de Janeiro, depois de anos de ostracismo, voltou ao noticiário pela má qualidade da água usada para consumo humano. Nos tempos da ditadura, durante o governo biônico de Carlos Lacerda, no extinto Estado da Guanabara, surgiu a acusação de que mendigos que infestavam o centro da cidade foram eliminados e tiveram seus corpos lançados no simpático curso dágua. Eram dias de censura mas alguns jornais e emissoras de rádio chegaram a noticiar que, de fato, cadáveres foram encontrados  no rio. Esses fatos nunca foram investigados e permanecem até hoje como mais um dos tantos esqueletos guardados nos armários da ditadura.
Com certeza!
_________________________
O presidente Bolsonaro declarou num dias destes que os esquerdistas não podem ser tratados como pessoas normais. Fiquei pensando qual seria o verdadeiro sentido dessa declaração. Estaria ele dando aval para que os esquerdistas sejam humilhados, ofendidos, agredidos ou até mesmo mortos? Foi uma declaração das mais infelizes cujas consequências poderão ser trágicas, além de revelar profunda intolerância.
Com certeza!
Escrito por Enéas Athanázio, 26/02/2020 às 16h53 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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Literatura
Por Enéas Athanázio

LUNA E O BRASIL PROFUNDO

Luiz Luna foi um dos escritores mais interessantes que conheci e de cuja amizade pude privar. Estive com ele várias vezes, no Rio de Janeiro, e trocamos cartas durante longos anos. Pernambucano, foi Promotor Público no interior de seu Estado sem jamais abandonar o jornalismo a que se dedicou desde os 16 anos de idade. Trasnferiu-se para o Rio de Janeiro e trabalhou por muito tempo no jornal “Diário de Notícias”, pertencente à família Dantas, um dos periódicos mais influentes da época no país. A par do jornalismo militante, ele se dedicou com seriedade a vários tipos de pesquisa, visando sempre revelar o Brasil profundo, aquele pouco conhecido pelas pessoas em geral. Em três campos, pelo menos, Luna deu exemplar contribuição: o cangaço, o índio e o negro.

Na área do cangaço publicou o livro “Lampião e seus cabras” (Livros do Mundo Inteiro – Rio – 1972 – 2ª. edição), hoje considerado um clássico do assunto. É um trabalho minucioso e bem fundamentado, revelando aspectos em geral confusos e pouco esclarecidos em outras obras. Nomeia e numera, por exemplo, um por um, os componentes do grupo de Virgulino Ferreira da Silva em cada ação do bandoleiro. Em um levantamento biográfico detalhado, mostra as condições sociais que levavam os rapazes da época a abraçar o cangaço, quase sempre vítimas de graves injustiças, perseguições e humilhações por parte dos “coronéis” que dominavam o sertão. A ausência quase total do Estado não fornecia condições para o estudo e a realização da justiça. Outro ponto importante por ele estudado é uma comparação entre Antônio Silvino e Lampião, os cangaceiros mais famosos do período. Enquanto o primeiro era comedido e justiceiro, o segundo praticava um cangaço sem ética, matando, esfolando e perseguindo inocentes. Depois que Lampião foi derrotado na tentativa de invadir a cidade de Mossoró e teve que fugir com o rabo entre as pernas, vencido, sem munição e sem dinheiro, entregou-se a um rol de iniquidades sem precedentes, vingando-se nos outros de seu próprio fracasso. Comenta também as lendas que cercam a figura do cangaceiro Corisco e sua mulher, Dadá, colocando as coisas nos devidos lugares, e o caso da patente de capitão que foi concedida a Lampião pelo Padre Cícero Romão Batista, de Juazeiro do Norte, por inspiração do Dr. Floro Bartolomeu da Costa, braço direito do sacerdote. Além disso, Lampião recebeu muito armamento, munição em quantidade, dinheiro e roupas para combater a Coluna Prestes que assombrava os sertões. Mas não era ingênuo a ponto de enfrentar um batalhão de soldados profissionais, treinados e calejados no ofício. Jamais combateu a Coluna e usou o armamento para reforçar seu bando como nunca. Luna também relata o período em que Lampião, cercado por todos os lados pelas volantes, se interna no Raso da Catarina, onde a vida humana é quase impossível e sai de lá com o bando esfarrapado, faminto e sedento, praticando pequenos assaltos para se recuperar. Analisa ainda o talento inato de estrategista de Lampião, vencendo lutas desiguais, fugindo sem deixar rastro e despistando as forças legais em inúmeros encontros. Muitos outros aspectos são abordados nesse livro que é um manancial de ensinamentos. A Editora Livros do Mundo Inteiro também publicou obras dos catarinenses Ricardo Hoffmann e C. Ronald.

Em seu livro “A resistência do índio à dominação do Brasil” (Editora Fora do Texto – Coimbra – 1993) Luiz Luna revela com detalhes a luta dos índios brasileiros contra os colonizadores, a exemplo do célebre cacique Nheçu. Aborda um aspecto importante, em geral pouco mencionado: no momento histórico da chegada dos portugueses os índios brasileiros estavam deixando a fase coletora/caçadora para ingressar na fase agricultora, ou seja, estavam evoluindo de forma natural como os demais povos. A invasão branca impediu a evolução natural e desorganizou por completo a cultura indígena. Foi uma desculturação.

“O negro na luta contra a escravidão” (Livraria Editora Cátedra – Rio – 1976) examina em detalhe o que foi a luta surda e desigual dos negros contra a escravidão. Alinha cada um dos movimentos rebeldes e todas as barbaridades que se cometeram contra o elemento africano ao longo de trezentos anos. São atos de arrepiar os cabelos e que eram praticados com a maior naturalidade, inclusive por senhores e senhoras ilustres que viviam rezando e batendo contritos nos peitos. Muitas dessas cenas foram evocadas por Monteiro Lobato, neto de um senhor de escravos, em seu conto “Negrinha.” O livro de Luna é um brado pela justiça e uma pesada lição contra os preconceitos.

Escrito por Enéas Athanázio, 30/03/2020 às 11h28 | e.atha@terra.com.br

REPOSITÓRIO SOBRE STELLA

A incansável escritora goiana Alice Spindola publicou no ano passado o livro “Stella Leonardos, a Incomparável” (Editora Kelps – Goiânia – 2019). Contando com a colaboração da própria Stella na idealização da obra, a autora produziu um verdadeiro repositório sobre a escritora carioca que constitui, além disso, uma bela homenagem a quem tanto deu de si ao teatro e à literatura. Baseado em seguras fontes de pesquisa, fartamente fundamentado e contando com fiel acervo documental, o livro fornece uma visão segura da vida e da obra da escritora, enfatizando sua produção para o teatro, ao qual dedicou intenso trabalho, tendo inclusive atuado como atriz. Na apresentação, a autora recorda os encontros, as discussões e as visitas feitas por ambas quando idealizavam esta obra. Relata ainda o entusiasmo de outros intelectuais, inclusive estrangeiros, a exemplo de Jean-Paul Mestas que classificou Stella como “escritora planetária.”

Menina de inteligência aguçada, o amor de Stella pelo teatro despertou muito cedo. Estreou como autora e atriz ainda nos dias do jardim da infância. Essa paixão irá acompanhá-la por toda a longa vida e produzirá peças teatrais infantis e clássicas que encantarão as pessoas e contarão com o aplauso da melhor crítica. Seu teatro foi encenado em grandes palcos, exibido em circos e posto em cena ao ar livre, como informa a autora. Superou os limites do país e foi exibido no exterior, sempre com o mesmo sucesso. E também ganhou a perenidade do livro. Mereceu montagens em palcos famosos, como nos Teatros Municipais do Rio e de São Paulo. Em toda sua obra perpassa sempre a preocupação social.

Grandes nomes da literatura, do teatro e da crítica teatral se manifestaram sobre sua obra. Modesto de Abreu, Mario Hora, Afrânio Peixoto, João Luso, J. G. de Araújo Jorge, Paulo Filho, Abadie Faria Rosa, Lopes Gonçalves, Rafael Barbosa, Raul de Azevedo, Borja de Almeida e Paranhos Antunes foram alguns dos que opinaram sobre ela, alguns mais de uma vez, e todos escrevendo em grandes órgãos da imprensa da época. Ou seja, a obra de Stella obteve intensa repercussão.

A peça “Festa da Vitória” foi um capítulo à parte da obra de Stella. Como escreveu a autora do livro, “ainda não existiu uma peça, com tema pátrio, que tenha obtido tamanha exaltação... Ela inovava, homenageando as nações que haviam participado da guerra. É uma peça internacional.” A peça mereceu uma encenação magnífica e inesquecível, verdadeiro marco da arte teatral brasileira.

Para além da obra literária e teatral, Stella viveu com intensidade a vida de escritora. Pertenceu à Academia Carioca de Letras e foi secretária da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro (UBE/RJ). Foi permanente agitadora cultural e manteve intercâmbio com escritores de todo o país e do exterior. Com sua inconfundível caligrafia, não deixava bilhete sem resposta. Tive o prazer de trocar cartas com ela e a conheci em pessoa em solenidades da UBE/RJ.

O livro de Alice contém muito mais que estas rápidas pinceladas. Reproduz manuscritos de Stella, muitas fotos, documentos, reproduções de capas de suas obras, poemas, trechos de outros escritos e inúmeros e variados elementos para bem conhecer a escritora e sua obra. Em algumas fotos ela aparece tão nítida e fiel tal como a conheci.

A obra de Alice é ressuscitadora e justiceira, merecedora de muitos aplausos.

Escrito por Enéas Athanázio, 24/03/2020 às 15h52 | e.atha@terra.com.br

UMA PUBLICAÇÃO MODELAR

Tenho em mãos o número XXIII da Revista da Academia Brasileira de Filologia. Com sede no Rio de Janeiro, a entidade tem como presidente Amós Coelho da Silva, como vice-presidente Deonísio da Silva e como diretor da publicação Antônio Martins de Araújo. Todos seus integrantes são linguistas de destaque, como tais reconhecidos pela melhor crítica especializada. Os temas veiculados na revista são de elevado rigor técnico e científico.

Este número se abre com um amplo e profundo ensaio de autoria do Prof. Adovaldo Fernandes Sampaio, autor de obras monumentais nas áreas da linguística, da escrita e sua história. Aborda dicionários curiosos publicados em Goiás e depois se debruça sobre a volumosa e rica obra de Willim Agel de Mello, diplomata, escritor e linguista, autor de um conjunto de dicionários sem similar em todo o mundo. Graças ao seu imenso trabalho, diz o ensaísta, William Agel de Mello “tornou agora as línguas românicas ainda mais próximas e tangíveis e os povos que as falam ainda mais irmãos e amigos.”

Deonísio da Silva contribui com dois interessantes artigos, um sobre Cruz e Sousa e outro sobre John dos Passos. Aplaude a atitude do escritor norte-americano ao não se submeter às exigências sectárias do chamado realismo socialista e se manter independente, atitude que também inspirou seus seguidores brasileiros. Dos Passos participou da Guerra Civil Espanhola, como outros de seus compatriotas, operando como motorista de ambulâncias no fronte de combate. Hemingway dá a entender que a presença dele na Espanha foi muito curta e que estava mais interessado na tradução de suas obras para o espanhol que em assuntos bélicos. A guinada do escritor para a direita, depois de ter apoiado os republicanos, gerou a acusação de traidor, aliando-se ao abominável franquismo que toda a intelectualidade combatia e contribuindo para a sua vitória. O tradutor da obra dele para o espanhol foi assassinado e, ao que parece, em circunstâncias nunca bem esclarecidas. O ensaísta fornece alguns dados pouco conhecidos e curiosos sobre Dos Passos.

Já Francisco da Cunha e Silva Filho presta uma homenagem ao mestre Júlio de Matos Ibiapina. Faz um relato sobre a vida, a obra e as atividades desse professor que foi também jornalista, deputado, major do exército e grande viajante. Figura admirável de estudioso, poliglota e cronista aguerrido. É um ensaio ressuscitador e justiceiro.

Outros trabalhos de valor enriquecem a revista. Afrânio da Silva Garcia e Ida Alves abordam diferentes facetas do Modernismo em longos e substanciosos ensaios. Autores de reconhecida competência publicam ensaios abordando variados temas da linguística e da literatura. O volume se fecha com entrevista, resenhas, memória e noticiário. Trata-se, pois, de uma publicação modelar, a única no gênero que conheço, merecedora da melhor atenção dos amigos do saber.

Escrito por Enéas Athanázio, 16/03/2020 às 11h19 | e.atha@terra.com.br

VIAJANDO COM HEMINGWAY

Ao final da leitura vagarosa e atenta do terceiro volume dos “Contos de Hemingway” (Bertrand Brasil – Rio – 1999), deparei com “Um país estranho”, dos mais longos e pouco conhecidos contos do escritor norte-americano. Segundo a editora, o conto seria a primeira versão de quatro capítulos do futuro romance “As ilhas da corrente”, abandonada pelo escritor pelo fato de ter o referido romance tomado novo rumo. Isso, no entanto, em nada prejudicou a inteireza do conto, que se transformou numa peça independente, de leitura rica e surpreendente, na qual o autor revela mis uma vez toda sua técnica, inclusive no incomparável uso do diálogo.

Trata-se de um conto de movimento, em primeira pessoa, em que o leitor acompanha o personagem-narrador e sua companheira numa longa viagem num Buick conversível de segunda mão. Percebe-se que ele é um homem maduro e vivido, enquanto ela é mais jovem e no esplendor da beleza, ainda que isso não seja formulado de forma expressa. A narrativa evolui entre longos trechos de estrada, observando a natureza circundante, a flora e a fauna, as pessoas avistadas e as cidades que cruzam. Há os pernoites em hotéis e as refeições nos restaurantes, tudo realizado com muita calma e tranquilidade. E muitos diálogos nos quais comentam os pequenos incidentes da prolongada travessia e o relacionamento amoroso que os une.

Num repente, porém, o conto muda do tom descompromissado dos viajantes para o campo memorialista do próprio autor, isto é, de Ernest Hemingway, que coloca suas lembranças na boca do personagem masculino e começa a relatar um fato verídico e conhecido de sua vida. Encontrava-se ele em Lausanne, cobrindo como repórter uma conferência internacional, quando pediu à esposa que fosse encontrá-lo para alguns dias de férias juntos, após o compromisso. Com a intenção de lhe fazer uma surpresa, ela colocou numa valise as pastas com os originais dos escritos dele e também, por engano, aquelas que continham as cópias. Com o material em mãos, ele poderia trabalhar durante aqueles dias de férias. Ela se preparava para tomar o trem expresso na estação de Lyon, deixando a bagagem, incluindo a valise, no compartimento próprio enquanto foi comprar jornais e uma garrafa de água expostos numa mesinha próxima. E ao voltar, a surpresa e a tragédia: a valise com todos os originais havia desaparecido! Desesperada, ela fez tudo que podia: deu queixa à polícia, procurou, indagou, investigou e... nada! A valise sumiu sem deixar vestígios. (Muitos anos depois, no Ritz Hotel, em Paris, o gerente comunicou a Hemingway que havia no depósito um volume à espera dele há muito tempo. Mas não era a valise encantada).

Não havendo outro recurso, ela viajou ao encontro do marido. Chorou e chorou, sem coragem de relatar o ocorrido, mas acabou confessando. Hemingway levou tal choque que esteve à beira da loucura. Todo o paciente e extenuante esforço de anos e anos de trabalho havia se evaporado. Sua esposa diria, mais tarde, que lamentou não existir alguma espécie de cirurgia para fazê-lo esquecer do que acontecera. “Fiquei ali, sem me mexer, - escreveu ele – com os travesseiros por amigos, em estado de desespero. Tudo o que eu tinha escrito até então, e tudo em que eu tinha grande confiança, estava perdido. Eu tinha reescrito aquilo tantas vezes até chegar aonde eu queria, e sabia que não podia escrevê-los de novo...” (p. 412). Em outra passagem, diz o seguinte: “Pus tudo neles (nos escritos perdidos), pus toda a informação que podia incluir. Escrevi-os várias vezes até me sentir inteiro neles e vazio dentro de mim. Por ter trabalhado em jornal desde muito jovem me habituei a esquecer tudo depois de escrever: todos os dias limpa-se da memória o que se escreveu como se limpa um quadro-negro com esponja ou um pano úmido. Eu ainda tinha esse mau hábito, e agora ele se voltava contra mim” (p. 415).

E por fim:

“Esse vácuo, essa sensação de perda, é ruim. Mas não mata. Já o desespero mata, e em pouco tempo.” (Idem). 

Escrito por Enéas Athanázio, 09/03/2020 às 11h10 | e.atha@terra.com.br

AS DISTOPIAS VENCERAM?

Ensina a história que desde muito tempo as pessoas argutas começaram a perceber as falhas da sociedade humana. Depois de séculos e séculos de existência a sociedade não conseguiu sequer solucionar seus problemas básicos, como alimentação e moradia para todos, educação e assistência à saúde, proteção e segurança. Surgiram então os pensadores que imaginaram uma sociedade mais perfeita na qual todas as pessoas teriam os mesmos direitos e garantias. Eram os chamados utopistas, como Platão, Tommaso Campanella, Saint-Simon, Thomas Morus, Bakunin, Kropotkin e outros tantos. Até mesmo no Brasil ocorreram experiências utopistas, como a Colônia Cecília, no Paraná, liderada pelo Dr. Giovanni Rossi, o Falanstério do Saí, em São Francisco do Sul, e o Caldeirão, no Ceará, liderado pelo beato José Lourenço. Essas propostas reformistas jamais foram aceitas e seus autores quase sempre sofreram severas perseguições. O Caldeirão foi destruído a ferro e fogo.

O evolver dos tempos mostrou que a sociedade nunca quis mudanças profundas, preferindo tentar soluções que a experiência revelou infrutíferas. Surgiram aos poucos os pensadores antiútopistas, pregando em sentido oposto, ou seja, as distopias. Os livros “1984”, de George Orwell, e “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, ficaram como exemplos emblemáticos das distopias. Neles há um estado imaginário em que as pessoas vivem em condições de extrema opressão, desespero ou privação. O Estado onipresente esmaga o indivíduo. Ditaduras instaladas em várias partes do globo estiveram bem próximas da concretização desse estado de coisas.

No mundo de hoje as ideias extremistas e autoritárias se ampliam com rapidez, inclusive em países que experimentaram na própria carne as consequências práticas desse pensamento. Os princípios democráticos vão sendo minados, pouco a pouco, eliminando os canais de comunicação entre o povo e o governo. Enquanto no passado isso se fazia pela força das armas, agora vai sendo realizado de forma sutil e com aparente legalidade, centralizando no governo poderes discricionários que permitem a prática de atos cada vez mais agressivos contra as normas democráticas. A triste impressão que fica é de que as distopias venceram e o mundo democrático está em vias de extinção.

O livro “A Nova Ordem”, de Bernardo Kucinski, lançado pela Companhia das Letras (S. Paulo – 2019) é de arrepiar. Nele, um Brasil fictício passa pela formação de uma nova ordem de viés autoritário. O regime luta contra utopistas, aqueles com viés crítico, encarcerando professores e fechando universidades. A nova ordem é obedecer, submeter-se, não pensar, não discutir. Exige-se que as pessoas tenham almas de escravos. É o império do sim senhor, senhor sim.

O consumo de literatura distópica é impressionante, tal como acontece na realidade dos dias atuais, catequizando as mentes das pessoas para o pensamento único. E quem discorda? É subversivo e contrário aos interesses da nova ordem. Tudo pode acontecer com elas.

Para quem viveu e acompanhou no dia-a-dia os vinte e um anos de ditadura, a hipótese é veneno mortal. 

Escrito por Enéas Athanázio, 02/03/2020 às 11h30 | e.atha@terra.com.br

COM CERTEZA!

A linguagem falada na televisão brasileira está cada vez pior e mais pobre. Os erros, as repetições, os lugares-comuns e certos cacoetes são de uma frequência insuportável. Procurando ser coloquiais, alguns apresentadores simplificam as coisas como se falassem na rua e eliminam os RR: mostrá, dizê, fazê, andá... Sem falar nos pra, pro, tá, tô...Outros parecem achar bonito intercalar um aí nas frases: “O incêndio  aí  de grandes proporções  aí  já devorou  aí  vários hectares de matas... “ E existem aqueles que se julgam donos da verdade e não se cansam de repetir: a grande verdade é que... É claro que a grande verdade é a deles. Outros estão sempre certos, tanto que repetem a torto e a direito: Com certeza! Com certeza! E o pior é que isso se espalhou e todo mundo agora se julga com certeza...

Outras expressões que agridem os ouvidos de tão surradas são atualizar, atualizando, atualização etc. Com um mínimo de imaginação poderiam dizer de outra forma. Seria pedir muito? 
Vivenciar é outro verbo que teve a má sorte de virar modismo. Ninguém mais vive, vivencia; ninguém viveu, vivenciou; vida não é mais vida, é vivência. E o curioso é que parecem imaginar que isso é elegante, prova de erudição, dá status.
Observar a evolução dos acontecimentos, a conferir, né, isso daí, conta pra nós, tipo, por conta de, cadê você, diferenciado, tem mais isso e mais aquilo são outras vítimas constantes.
 
                                 São verdadeiras aulas de deseducação.
Por sorte, parece que trabalhar em cima de, a nível de e gratificante estão caindo em desuso. Uf!
A quantidade de anúncios nos intervalos da programação também é intolerável e cada vez aumenta mais. A gente chega a esquecer do que estava assistindo. É um abuso. Por sorte existe uma teclazinha com a palavra mute que nos liberta dessa chateação.
Com certeza!
E nada indica que vá melhorar.
Com certeza!
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O Rio Guandu, do Rio de Janeiro, depois de anos de ostracismo, voltou ao noticiário pela má qualidade da água usada para consumo humano. Nos tempos da ditadura, durante o governo biônico de Carlos Lacerda, no extinto Estado da Guanabara, surgiu a acusação de que mendigos que infestavam o centro da cidade foram eliminados e tiveram seus corpos lançados no simpático curso dágua. Eram dias de censura mas alguns jornais e emissoras de rádio chegaram a noticiar que, de fato, cadáveres foram encontrados  no rio. Esses fatos nunca foram investigados e permanecem até hoje como mais um dos tantos esqueletos guardados nos armários da ditadura.
Com certeza!
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O presidente Bolsonaro declarou num dias destes que os esquerdistas não podem ser tratados como pessoas normais. Fiquei pensando qual seria o verdadeiro sentido dessa declaração. Estaria ele dando aval para que os esquerdistas sejam humilhados, ofendidos, agredidos ou até mesmo mortos? Foi uma declaração das mais infelizes cujas consequências poderão ser trágicas, além de revelar profunda intolerância.
Com certeza!
Escrito por Enéas Athanázio, 26/02/2020 às 16h53 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.