Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

FILETE QUE ASPIRA A SER RIO

O silêncio reinante a respeito de “Sonetos de Bolso – Antologia Poética”, organizada por Jarbas Júnior e João Carlos Taveira (Thesaurus Editora – Brasília ), me leva a redigir estas notas, ainda que sem a pretensão de julgar o mérito dos poemas nela reunidos.

Trata-se de um belo livro, executado com esmero, em formato pequeno, tipo “pocket-book”, conforme sugere o próprio título. Reúne trabalhos de quinze sonetistas, todos ligados à cidade de Brasília, onde residem ou residiram. São eles: Anderson Braga Horta, Anderson de Araújo Horta, Antonio Miranda, Antonio Temóteo dos Anjos Sobrinho, Fernando Mendes Viana, Henriques do Cerro Azul, José Geraldo Pires de Mello, José Jeronymo Rivera, José Peixoto Júnior, Luiz Carlos de Oliveira Cerqueira, Márcio Catunda, Maria Braga Horta, Nilto Maciel, Romeu Jobim e Viriato Gaspar. Contém ainda excelentes notas explicativas introdutórias e abas de autoria dos organizadores. Segundo Taveira, a presença de uma única mulher se deve ao fato de que as poetas planaltinas não costumam se dedicar ao soneto.

Dois autores me surpreenderam porque desconhecia sua vis poética e, menos ainda, sua arte na composição de sonetos: José Peixoto Júnior e Nilto Maciel. Como escreveu Jarbas Júnior, “Concebido na primeira metade do século XII pelo engenhoso trovador siciliano Giácomo da Lentine, o soneto passa à Itália, onde alcança notoriedade e chega aos cimos da glória com Dante e Petrarca” (p. 9). Daí se expande por toda a Europa onde, “com Luís de Camões esse esplêndido pequeno poema atinge o trono do Monte Parnaso, a elegância simples da perfeição” (loc. cit.). No Brasil o poema metrificado encontrou terreno fértil e tem sido praticado por inúmeros poetas. Nunca desapareceu o gosto dos leitores de poesia pelo soneto e muitos de nossos poetas se tornaram mestres no gênero.

Quanto aos sonetistas acima referidos, José Peixoto Júnior, filho do Cariri Cearense, criado à sombra da Chapada do Araripe, contribui com dez sonetos, todos bem realizados e surpreendentes, como “Castro Alves, Filho de Brasília.” Nilto Maciel, meu velho amigo, foi um escritor prolífico e criativo que nos deixou antes do tempo e faz muita falta. Também contribuiu com dez sonetos, dentre os quais destaco “Oferenda.”

Todos os participantes da antologia são competentes e inspirados sonetistas. Conheço a obra poética de vários deles, alguns de consolidado renome no meio literário. Anderson Braga Horta, Henriques do Cerro Azul, José Peixoto Júnior, Nilto Maciel eu os conheci em pessoa. Já José Jeronymo Rivera, Márcio Catunda e o organizador João Carlos Taveira são ou foram correspondentes. Como diria Monteiro Lobato, são amigos escritos.

Concluindo, penso que “Sonetos de Bolso” foi uma bela iniciativa. É um livro para se carregar na algibeira e para ter sempre à mão, abrindo para uma leitura naqueles momentos em que a alma pede poesia.

Mas o livro não pretende ser uma publicação isolada. Os organizadores cogitam em dar continuidade, incluindo outras poetas. Como escreveu Taveira, “Sonetos de Bolso” é apenas um filete de água que pretende, um dia, transformar-se em córrego, em rio...”

Escrito por Enéas Athanázio, 06/11/2018 às 16h14 | e.atha@terra.com.br

UM COELHO PROLÍFICO

Tenho observado, ao longo do tempo, que a vida literária nacional parece se guiar por ondas ou ciclos. Algum escritor permanece esquecido por anos e até décadas e, de repente, assim sem mais, volta ao cenário e sobre ele surgem matérias de toda ordem. É o que acontece com Coelho Netto (Henrique Maximiano – 1864/1934), sobre quem tenho encontrado notas em variados veículos da imprensa sem qualquer motivo aparente.

Coelho Netto foi um dos escritores mais famosos do país, verdadeira celebridade na segunda metade do Século XIX e nas primeiras décadas do Século XX. Estava em permanente evidência em virtude do sucesso de sua obra literária: romances, contos, crônicas e peças teatrais encenadas nos palcos do Rio de Janeiro e de outras cidades contando sempre com a generosa acolhida do público. Integrava o grupo de Olavo Bilac, Medeiros e Albuquerque, Paula Nei, Aluisio Azevedo, Afrânio Peixoto e outros escritores de grande fama, aclamados onde chegavam. Ocupou vários cargos, foi deputado federal, professor e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). Posicionou-se em favor da abolição da escravatura. Acima de tudo, porém, produziu uma obra espantosa pela quantidade e pela qualidade, celebrada pela melhor crítica e pelo avultado número de leitores. Segundo seus biógrafos, publicou 2ll livros, sem falar no que ficou inédito, incompleto ou desaparecido, e artigos jornalísticos em profusão sobre os mais variados temas. Considerando que na época se escrevia à mão, impressiona o tempo que deve ter consumido escrevendo e escrevendo. No entanto, viveu apenas 70 anos, pouco mais que a média de vida da época. Sua obra obteve traduções em 11 idiomas. Para completar, teve nada menos que 14 filhos. Não fugindo à regra, foi um Coelho dos mais prolíficos, em todos os sentidos, se me perdoam pelo infame trocadilho.

Seguindo a onda que surgiu em favor dele, reli, depois de muitos anos, um de seus mais celebrados romances: “Turbilhão”. Publicado em 1864, mereceu uma edição alusiva ao centenário, em 1964, ano fatídico da história nacional, publicada pelas Edições O Cruzeiro, de Assis Chateaubriand. É um volume encorpado (300 páginas), estampando a figura do Autor em bico-de-pena muito conhecido, com os cabelos à escovinha, o basto bigode e a fisionomia de homem sisudo.

O romance se desenrola em torno de poucos personagens e algumas figuras fugidias que nem chegam a se mostrar por completo. Dona Júlia, o filho solteiro, Paulo, a filha, também solteira, Violante, moça muito linda e sensual, e a empregada Felícia. Em segundo plano surgem o malandro Mamede, sua companheira Ritinha, um tio irascível e algumas vizinhas mal debuxadas e sem nome. Família pobre, morando em casa de aluguel, vivendo da pensão deixada pelo pai, militar de carreira. A vida transcorria sem tropeços e também sem emoções, até que sobrevèm o inesperado: Violante desaparece sem deixar rastro. E então tudo se altera e o equilíbrio familiar entra em crise. Paulo perde o emprego, junta-se a Mamede, cai na boemia e no jogo; Felícia, a empregada, enlouquece; Dona Júlia, depois de muito padecer, acaba falecendo. O núcleo familiar, antes organizado e feliz, é sacudido por um turbilhão. Só Violante, cada vez mais bela, tem uma vida de luxo e riqueza à custa de seus amantes.

Tudo isso, aqui resumido em poucas palavras, acontece devagar, em marcha lenta, sem pressa ou açodamento, como se o Autor dispusesse da eternidade. As cenas se desenham com minúcia ao longo de muitas páginas. Uma simples corrida de bonde pela cidade permite ao personagem observar a arquitetura das construções, as árvores e flores das praças, os nomes das ruas e as cenas urbanas. Semelha um roteiro turístico pelo Rio de Janeiro de antanho.

Coelho Netto foi exaltado como grande estilista, dono de uma linguagem precisa e opulenta. No seu texto, cada palavra entra no local exato, como pequena peça de um grande mecanismo. Adepto do “le mot juste” das escolas de seu tempo, buscava sempre o vocábulo preciso e que só poderia ser aquele para significar com extrema exatidão o pensamento do Autor. Além disso, dominava um vocabulário tão vasto e rico que foi considerado um verdadeiro dicionário ambulante.

Por outro lado, certos aspectos parecem desconectados aos dias de hoje. Mulato, negro, velho, por exemplo, são termos usados com naturalidade, refletindo no fundo preconceitos dominantes na época. Pessoas com 48 ou 50 anos de idade eram rotuladas de velhas e como tais tratadas.

Impressiona a riqueza vocabular do Autor. Como é natural, muitos vocábulos são hoje pouco usados e outros tantos caídos em total esquecimento. Numa rápida passagem pelo texto do romance podem-se encontrar os seguintes: ilhargas, estrincando, enclavinhados, crebras, retroar, gorgorejo, esgalgado, abacabado, tressuante, panegirista, estremunho, caixotins, cavadamente, besuntado, assoalha, marinonis, inculcam etc. etc. É apenas uma pequena mostra.

A leitura de Coelho Netto é um exercício que exige atenção mas compensa pela riqueza do linguajar e pela beleza literária, cada vez mais raras nestes tempos, e pela penetração psicológica com que analisa os personagens. Além disso, foi muito mais que um escritor, foi toda uma literatura, como afirmou com razão Humberto de Campos.

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Tenho lido com prazer os artigos de autoria do Prof. M. Paulo Nunes, publicados no jornal “Diário do Povo do Piauí”, de Teresina, e no “Jornal da ANE”, de Brasília. Um dos mais respeitados críticos literários da atualidade, ele é dono de invulgar cultura clássica e arguto analista das obras focalizadas. Em interessante série, vem abordando a vida e a obra de Graciliano Ramos, assuntos que revela dominar de maneira íntima e segura. “Uma entrevista do Velho Graça” e “Cartas de amor de Graciliano”, os últimos que li, são textos memoráveis. Meus parabéns ao mestre piauiense!

Escrito por Enéas Athanázio, 29/10/2018 às 12h18 | e.atha@terra.com.br

O Senhor das Letras

Com esse título, o escritor Eric Nepomuceno publicou um perfil do jornalista e escritor Antonio Callado, uma das mais brilhantes figuras da literatura brasileira do século passado. Jornalista intrépido, Callado realizou notáveis coberturas da II Guerra Mundial, muitas delas do próprio fronte de combate, além de ter sido apresentador da BBC, em Londres, durante aquele conflito internacional. Também no Brasil realizou reportagens marcantes, afundando nos sertões inóspitos e desconhecidos para bem retratar a realidade. Andou pelo Xingu, tendo contribuído para a criação do parque, e palmilhou os caminhos percorridos pelo célebre Coronel Fawcett para tentar desvendar o mistério de seu desaparecimento. Tinha especial interesse por tudo que diz respeito aos índios, tendo eles e sua cultura inspirado um de seus melhores livros, o “Quarup.” Foi um dos raros jornalistas ocidentais a entrar no Vietnã do Norte.

Entre outras coisas, diz Nepomuceno, Callado era conhecido pela elegância. “Nelson Rodrigues dizia que ele era ‘o único inglês da vida real.’ Além da elegância, também era conhecido pelo seu humor ágil, fino e certeiro. (...) Caminhava falando consigo mesmo; caminhava escrevendo. Vivendo. Porque Callado foi desses escritores que escreviam o que tinham vivido, ou dos que vivem o que vão escrever algum dia.”

Mais adiante: “Era um homem de fala mansa, suave, firme. Só se alterava quando falava das mazelas do Brasil e dos vazios do mundo daquele fim de século passado. Indignava-se contra a injustiça, a miséria, os abismos sociais que faziam – e em boa medida ainda fazem – do Brasil um país de desiguais.”

Bacharel em Direito, Callado jamais exerceu a advocacia. Nunca quis saber de computador. Começava escrevendo à mão e depois passava para a máquina de escrever, usando os dez dedos, como os grandes datilógrafos de então.

Nos seus desabafos em face da situação do país, dizia-se desanimado de ver o Brasil como país de primeira linha; parecia destinado a ser para todo o sempre um país marginal, de segunda linha. Tendo falecido em 1997, ele foi poupado de ver as barbaridades que depois disso se descobriram.

A crítica literária Lígia Chiappini, por sua vez, afirma que Callado era dotado de “uma vocação empenhada”, ou seja, engajado nas suas ideias em tudo que escrevia.

Entre os diversos romances que escreveu, destaca-se “A Madona de Cedro”, cuja leitura, depois de muito tempo, me levou a estas considerações. Nesse romance, o personagem central é induzido a furtar uma imagem em Congonhas do Campo, a pedido de um intermediário do indivíduo que negociava imagens sacras furtadas. Houve um período em que tais furtos se tornaram frequentes, acreditando que isso inspirou o romancista. Depois de cair nas garras do negociante e seu agente, o personagem pena por longos treze anos o remorso pelo que havia feito. No entanto, quando solicitado a perpetrar novo furto, rebelou-se e se submeteu à mais estranha das penitências, percorrendo as ruas da cidade com uma cruz nas costas.

É instigante a forma como Callado descreve o drama psicológico do personagem, penetrando no mais íntimo de sua alma, até encontrar o meio de purgar o grave pecado cometido. Também se evidencia o conhecimento que o romancista tinha da região, da cidade e do conjunto das obras do Aleijadinho e de mestre Ataíde. É um romance absorvente, merecedor dos aplausos que tem recebido da melhor crítica desde sua publicação.

Escrito por Enéas Athanázio, 22/10/2018 às 11h47 | e.atha@terra.com.br

Heróis e Bandidos

O escritor alemão Karl May (1842/1912) foi um dos autores mais lidos no Brasil, em especial pela juventude. Suas obras, traduzidas, eram publicadas pela Editora Globo, de Porto Alegre, em primorosas coleções encadernadas e ilustradas por desenhistas de renome. Produziu grande quantidade de livros de aventuras ambientadas em diversas regiões do planeta e envolvendo incontáveis personagens que se tornaram célebres, entre os quais se destacavam Winnetou, o poderoso cacique apache, Mão de Ferro, capaz de matar com um simples soco, Mão de Fogo, dono de temida espingarda milagrosa, Tia Droll, estranhíssima figura de bandoleiro que se vestia de mulher, Assef, o “servo” que portava um nome quilométrico e fazia questão dele, além de um esquisito lorde inglês viciado em apostas e um caçador que se expressava em versos rimados. O próprio narrador às vezes se travestia em herói, adotando posturas de grande valentia, habilidade e inteligência sem par. Dizia-se que Karl May escreveu suas obras sem sair da Alemanha, baseado em mapas e livros de viagens, mas é uma meia verdade porque, embora não tenha viajado muito, conheceu vários países onde colheu abundante material para seus escritos. De qualquer forma, impressiona a quantidade e a exatidão dos detalhes que descreve a respeito do relevo, da flora, da fauna, do clima, da rede fluvial, dos caminhos, das línguas e dialetos locais e tudo o mais.

Karl May escrevia de maneira simples e clara e era preciso nas suas descrições. É curioso observar que usava a segunda pessoa do singular, o que torna a leitura um tanto estranha para os brasileiros em geral, em especial nos diálogos. Eles, por sinal, são quase sempre longos e minuciosos, mesmo em momentos cruciais, fato que os deixa às vezes um tanto inverossímeis. Comparados aos textos mais modernos, seus escritos deixam a impressão de necessitar de rigorosa “poda.”

Os índios, muito presentes em suas histórias, são descritos como seres nobres, de caráter irretocável e de atitudes rigorosamente éticas. Os negros, no entanto, não merecem realce; são apenas “os negros” ou “o negro”, inominados, sem quaisquer detalhes. Por vezes, no entanto, afloram passagens que revelam arraigados preconceitos, como se verifica nas aventuras ambientadas no Oeste americano. Em certa passagem, referindo-se a um espetáculo, escreveu: “Os dois índios não haviam sido consultados se queriam tomar parte nele. Não era de bom tom que se admitisse dois índios entre um grupo constituído unicamente de senhoras e cavalheiros...” Mais adiante: “Um negro, que trabalhava na casa das máquinas do navio, não pode resistir à curiosidade e aproximou-se da jaula. O capitão, que o observava, ordenou-lhe que fosse pegar imediatamente o seu trabalho. Como o negro não obedecesse em seguida, o capitão deu-lhe alguns golpes com um cabo que segurava nas mãos.” Em outra passagem, após ter salvo uma menina do afogamento, pequeno índio é tratado como “gato sarnoso.” Quando alguém afirma que o território americano pertencia aos índios e que eles deveriam ser respeitados, outro retruca: “Hum! É verdade o que estás dizendo. Mas os vermelhos devem desaparecer, devem extinguir-se. Esse é o seu destino!” Ainda, em outro ponto: “Mão de Fogo dividiu estes peles-vermelhas, outrora tão soberbos e agora degenerados, em dois grupos.” Mais adiante, diz um oficial: “Não tem senso os brancos admitirem que os índios lhes façam propostas”, significando que com os indígenas nem sequer poderia haver negociação alguma. Outras tantas passagens poderiam ser lembradas.

Winnetou, chefe dos apaches, é aureolado de todas as virtudes. É que ele se aliou aos brancos. Uma espécie cacique Condá norte-americano. Aliás, impressiona a quantidade de subtribos pertencentes aos apaches e que o escritor levantou uma por uma.

Em todas as oportunidades, em especial nos encontros de compatriotas, a superioridade da raça alemã é sempre ressaltada.

Dois aspectos também chamam a atenção: a extrema violência e o permanente propósito de vingança.

Eliminar, esfaquear, atocaiar, apunhalar, estrangular, enforcar, tirotear, escalpelar são expressões correntes. Cenas de inaudita violência aparecem descritas em minúcia, não faltando as horrendas torturas praticadas contra os inimigos amarrados nos “postes dos martírios.” Cortar orelhas e narizes, manter os inimigos com pés e mãos amarrados e impedidos de articular por apertadas mordaças são cenas corriqueiras. Também acontecia ser estipulado prêmio por inimigo morto; “Estes sujeitos não são guerreiros com os quais se possa lutar honradamente, mas são cães sarnentos que se devem matar a chicotadas” – afirma Mão de Fogo em certa situação. Os inimigos são sempre cães e quanto mais odiosos maiores tormentos deverão padecer.

A vingança, por outro lado, é uma prática impositiva entre os índios. Ofensa grave exige vingança e, quanto mais dolorosa, melhor. É a forma de lavar a alma da afronta recebida.

Dono de inesgotável imaginação, Karl May era capaz de estender suas narrativas por quinhentas páginas, desenrolando tropelias que se enlaçam uma na outra sem perder a sequência e envolvendo incontáveis personagens e lugares.

Relido com os olhos de hoje, não me parece que, do ponto de vista pedagógico, os livros do escritor alemão sejam os mais indicados para a juventude. Por outro lado, se comparados a certos filmes e programas televisivos exibidos nos dias atuais, não contêm nada de incomum.

A verdade, porém, é que suas histórias fascinavam os jovens leitores e também os adultos. As figuras criadas pelo plácido alemão, no conforto do seu gabinete, em plena Alemanha, ganharam o mundo e os corações das pessoas. Com a curiosidade de que foi maniqueísta na construção dos personagens; ou eram bons e puros como os verdadeiros heróis, sem qualquer laivo de maldade, ou eram maus, sem a menor réstia de bondade. Herói é herói, bandido é bandido.

Dizia-se que ele foi o escritor predileto de Hitler, mas não posso afirmar que não se trate de lenda. Também informam seus biógrafos que, no final da vida, foi perturbado por processos que lhe moveram pessoas simplórias alegando ter praticado na vida real fatos descritos em suas obras envolvendo crimes e atos menos abonadores.

Embora pouco lembrado, Karl Friedrich May cativa com suas longas e minuciosas narrativas.

Escrito por Enéas Athanázio, 15/10/2018 às 09h50 | e.atha@terra.com.br

O OLHO DO TSAR

Nascido na Finlândia, então integrante do Império Russo, filho de um agente funerário fiel ao Tsar, Pekkala foi enviado pelo pai a Moscou para integrar o Regimento Finlandês, tropa de elite da estrita confiança do soberano. Em virtude de seu temperamento rebelde e de sua coragem, o rapaz caiu nas graças do Tsar Nicolau II, de quem se tornou amigo íntimo e homem de absoluta confiança. Frequentava o palácio e tratava o imperador de maneira informal, ainda que mantendo sempre a conveniente distância e o devido respeito. Encarregado das mais difíceis missões, incluindo investigações sigilosas, tornou-se o detetive mais famoso de toda a Rússia. Ficou conhecido como o “Olho de Esmeralda do Tsar.” Sua paixão por uma moça de nome Ilya era incentivada pelo próprio soberano. A vida transcorria serena e feliz.

Sobreveio, porém, a Revolução de 1917, e Pekkala não teve outro recurso senão tentar a fuga, no que foi apoiado pelo Tsar. Pretendia ir a Paris, onde a moça estaria à sua espera. Mas os revolucionários o prendem no caminho e, depois de marchas e contramarchas, é levado à presença de Stálin. O líder revolucionário o interroga sobre vários assuntos, em especial sobre o esconderijo do tesouro do Tsar que, segundo se dizia, era algo de fabuloso, como de fato se constataria mais tarde. Pekkala nada informou, mesmo porque nada sabia a respeito, uma vez que o monarca nunca havia chegado a tais detalhes. Impressionado com a postura do investigador, Stálin decide poupar sua vida, imaginando que ele poderia ser útil mais tarde. É enviado para a Sibéria, onde vive numa cabana miserável e tem por missão assinalar as árvores destinadas ao corte. No local em que foi confinado, a fuga era impossível e a sobrevivência dos prisioneiros não superava alguns meses, tão adversas eram as condições. Pekkala, no entanto, já estava lá há nove anos quando recebe um emissário. Tratava-se do comissário Kirov, que vinha em nome de Stálin, para livrá-lo do gulag.

Recebido por Stálin, nessa altura chefe de uma revolução consolidada, volta s ser interrogado e recebe dupla missão: descobrir quem assassinou a família Romanov (o Tesar, a esposa, quatro filhas e o filho Alexei) e o local onde se encontrava o tesouro do imperador. A execução da família imperial não teria sido determinada pelos revolucionários e nem estava nos seus planos. Houve o boato de que fora ordenada por Lênin, mas isso jamais foi comprovado. Em companhia de Kirov e de um irmão, Anton, Pekkala se põe em campo e dá início à complicada investigação.

Depois de longas andanças e buscas infrutíferas, grandes perigos e mortes de possíveis informantes, o trio encontra o fio da meada. Consegue reconstituir o assassinato da família imperial, na Casa Ipatiev, e os seus corpos, lançados nas profundezas de uma mina abandonada, com exceção de Alexei que lá não se encontrava. Mais tarde ele se apresenta, vivo e saudável, mas na verdade não passava de um impostor. O fabuloso tesouro do Tsar se encontrava em coletes ajustados ao corpo de cada uma das vítimas, contendo imensa fortuna em pedras preciosas, equivalentes hoje a mais de 190 milhões de dólares. Foi devolvido aos cofres públicos. E o verdadeiro Alexei, ao contrário da história real, jamais foi encontrado.

O prêmio pelo sucesso da operação foi a liberdade. Ainda que relutante, Pekkala deixa de ser o Olho do Tsar Nicolau para se transformar no Olho do Tsar Vermelho. Mas a felicidade nunca é completa: cansada de esperar por ele, Ilya havia se casado, tinha um filho e se tornara professora na capital francesa. Kirov, já major do Exército Vermelho, passou a integrar sua equipe de investigadores.

Essa é, em linhas gerais, a trama do excelente romance “O Olho do Tsar Vermelho”, de autoria do escritor inglês Sam Eastland, lançado no Brasil pela Editora Record (Rio de Janeiro – 2013), em tradução de Marcio de Paula S. Hack.

Além de uma história absorvente, o autor conseguiu reconstituir o ambiente caótico reinante na Rússia pós-revolucionária, a guerra entre Brancos e Vermelhos, a atmosfera de suspeitas e desconfianças, a caça-às-bruxas, o ódio, o terror, o medo. A figura do Tsar, sereno diante das perspectivas negras, impõe admiração pela coragem. E a figura de Stálin é sempre descrita da mesma forma sumária, sem que jamais se chegue a um retrato fiel. Assim o descreve o autor: “O homem que entrou na sala vestia um terno de lã simples, verde amarronzado, com um paletó de corte militar, de modo que seu colarinho duro e curto fechava-se em torno da garganta. Seus cabelos escuros, rajados de branco acima das orelhas e têmporas, fora penteado para trás e um espesso bigode acumulava-se sob o nariz. Quando ele sorriu, seus olhos se fecharam como os de um gato satisfeito.” Parece a reprodução estereotipada de mil outras descrições.

O romance, de fundo histórico, não se afasta muito dos fatos reais, que o autor revela conhecer em minúcia. Mas dentro de balizas rígidas a criatividade do romancista elabora uma trama cativante e que se destaca dentre outras obras do gênero.

Escrito por Enéas Athanázio, 08/10/2018 às 14h32 | e.atha@terra.com.br

Lampião: a verdade e o mito

Poucas figuras da história nacional são tão presentes no imaginário popular como Virgulino Ferreira da Silva, o célebre cangaceiro Lampião. Na literatura, na televisão, no cinema e na imprensa, ele é sempre lembrado por este ou aquele motivo. Incontáveis ensaios apontando sua faceta positiva ou negativa são publicados com frequência, mostrando que o chefe bandoleiro continua instigando a imaginação e a curiosidade dos pesquisadores. E não é por menos, uma vez que ele chegou a ser considerado o rei do cangaço e dominou um território tão extenso que propôs ao governador de Pernambuco dividir o Estado, ficando ele como chefe absoluto de todo o sertão.

Entre os trabalhos mais recentes a respeito de Lampião está o relato “Vem de longe...”, de autoria de Jurandy Temóteo, publicado no livro do mesmo nome (A Província Editora – CE – 2018). Nesse trabalho, o autor tece um conto explorando a teoria ou o mito de que o cangaceiro não morreu na Grota do Angico como afirma a versão oficial. Esse tipo de especulação costuma acontecer com algumas celebridades cujos admiradores se recusam a admitir suas mortes. Aconteceu também com Elvis Presley, como muitas pessoas devem se lembrar.

Tudo tem início quando o celeiro Raimundo, pernambucano, aparece na Fazenda Ponta da Serra, de propriedade de “seu” Britim, pedindo socorro. Vinha de muito longe, caminhando durante a noite para não ser visto, e tinha um feio inchaço protegido por uma atadura improvisada. Recolhido à casa dos cereais e alimentando, ele relata que estava numa missão sigilosa, buscando um tesouro deixado por Lampião, seu patrão e amigo, enterrado ao pé de uma grande árvore para marcar o lugar. Tratava-se de um imenso carregamento de armas e munições suficiente para enfrentar um batalhão. Diante do espanto do ouvinte, ele afirma que Lampião estava vivo e forte. A morte do cangaceiro era uma mentira propalada aos quatro ventos e agora seria revelada porque a verdade precisa ser dita.

“Na verdade, dizia Zé Ferreira, meu avô, com toda firmeza, aquilo foi invenção para vender jornais e revistas, tudo soprado pela polícia. Os “macacos” levaram muito dinheiro, ouro e pedras preciosas de Lampião, mas nem chegaram a trocar tiros, pois meu padrinho tinha sido avisado do que ia acontecer e lá não ficou. Os que morreram em Angico eram de um pequeno bando que em 1938 já estava desmembrado. Não tem fundamento - a não ser de enganar o povo – que Lampião e Maria Bonita estavam ali enfurnados com os outros cangaceiros naquela gruta apertada e com uma só saída.”

Segundo reiterados depoimentos, Lampião nunca permanecia em local onde houvesse uma só saída e nem permanecia por muito tempo no mesmo pouso. Esses detalhes contribuíram para levantar dúvidas.

Mas quem morreu em Angico e como agiram para demonstrar que se tratava do chefe cangaceiro, sua mulher e outros?

“Quem morreu no lugar de Lampião foi o ladrão de cavalo Zé do Sapo, por ter um olho cego (como Lampião) – prossegue o narrador. – E no lugar de Maria Bonita foi um jovem muito parecido com ela. É bom lembrar também que os “macacos” não mostraram os corpos pois as cabeças foram todas decepadas. E, mesmo assim, o povo só podia ver, muito depois do acontecido, de longe, separados por uma corda; e o fedor era muito grande pois as cabeças estavam em adiantado estado de podridão.”

Dizia-se também que após o massacre os policiais foram obrigados a jurar, sob pena de morte, que guardariam perpétuo silêncio sobre os fatos. E assim teria sido forjada a falsa notícia.

E Lampião, que foi feito dele?

Lépido e lampeiro, tratou de andar e andar, segundo recomendava seu conselheiro, o cangaceiro Sinhô Pereira. Permaneceu escondido por cerca de seis meses nas proximidades da cachoeira de Paulo Afonso, região que conhecia muito bem desde que fora empregado do coronel Delmiro Gouveia. Dali, rumou para o Piauí, onde nunca praticara o cangaço, escondendo-se numa fazenda de Santa Luzia e usando o codinome de Policarpo Lima, até 1942. Bem armado e acompanhado pelo guarda-costas Benedito Moura de Araújo, seguiu para Bom Jesus da Lapa, na Bahia, onde permaneceu por tempo indeterminado. Em penosas caminhadas noturnas, cercado do maior sigilo, foi margeando o rio São Francisco e afundou no alto sertão mineiro. Desde então as notícias sobre ele foram raras. Em 1945 teria sido visto em Januária mas não esquentava lugar, sempre trocando de nome. Entregava-se à venda de gado e terras, além do cultivo de roças de subsistência. Continuava valente mas evitando envolvimento em qualquer confusão.. Na imensidão do Estado mineiro, oculto e bem guarnecido, deve ter vivido sua última fase de vida. Como outros ex-cangaceiros, a exemplo de Moreno, encontrou guarida nas montanhas e nas matas das Gerais.

Afirmando que se louvou em fontes fidedignas, o autor lembra as palavras do personagem: “Essa história vem de longe, antes mesmo de você nascer. Durante todos esses anos a mentira vem sendo repetida como se fosse a verdade. . .A verdade precisa ser dita para nunca mais ser enterrada.”

O trabalho de Jurandy Temóteo é um prato cheio para os admiradores dos temas relacionados ao cangaço. Contribui, sem dúvida, para manter viva a memória de Lampião e suas inigualáveis proezas.

Escrito por Enéas Athanázio, 01/10/2018 às 11h02 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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O silêncio reinante a respeito de “Sonetos de Bolso – Antologia Poética”, organizada por Jarbas Júnior e João Carlos Taveira (Thesaurus Editora – Brasília ), me leva a redigir estas notas, ainda que sem a pretensão de julgar o mérito dos poemas nela reunidos.

Trata-se de um belo livro, executado com esmero, em formato pequeno, tipo “pocket-book”, conforme sugere o próprio título. Reúne trabalhos de quinze sonetistas, todos ligados à cidade de Brasília, onde residem ou residiram. São eles: Anderson Braga Horta, Anderson de Araújo Horta, Antonio Miranda, Antonio Temóteo dos Anjos Sobrinho, Fernando Mendes Viana, Henriques do Cerro Azul, José Geraldo Pires de Mello, José Jeronymo Rivera, José Peixoto Júnior, Luiz Carlos de Oliveira Cerqueira, Márcio Catunda, Maria Braga Horta, Nilto Maciel, Romeu Jobim e Viriato Gaspar. Contém ainda excelentes notas explicativas introdutórias e abas de autoria dos organizadores. Segundo Taveira, a presença de uma única mulher se deve ao fato de que as poetas planaltinas não costumam se dedicar ao soneto.

Dois autores me surpreenderam porque desconhecia sua vis poética e, menos ainda, sua arte na composição de sonetos: José Peixoto Júnior e Nilto Maciel. Como escreveu Jarbas Júnior, “Concebido na primeira metade do século XII pelo engenhoso trovador siciliano Giácomo da Lentine, o soneto passa à Itália, onde alcança notoriedade e chega aos cimos da glória com Dante e Petrarca” (p. 9). Daí se expande por toda a Europa onde, “com Luís de Camões esse esplêndido pequeno poema atinge o trono do Monte Parnaso, a elegância simples da perfeição” (loc. cit.). No Brasil o poema metrificado encontrou terreno fértil e tem sido praticado por inúmeros poetas. Nunca desapareceu o gosto dos leitores de poesia pelo soneto e muitos de nossos poetas se tornaram mestres no gênero.

Quanto aos sonetistas acima referidos, José Peixoto Júnior, filho do Cariri Cearense, criado à sombra da Chapada do Araripe, contribui com dez sonetos, todos bem realizados e surpreendentes, como “Castro Alves, Filho de Brasília.” Nilto Maciel, meu velho amigo, foi um escritor prolífico e criativo que nos deixou antes do tempo e faz muita falta. Também contribuiu com dez sonetos, dentre os quais destaco “Oferenda.”

Todos os participantes da antologia são competentes e inspirados sonetistas. Conheço a obra poética de vários deles, alguns de consolidado renome no meio literário. Anderson Braga Horta, Henriques do Cerro Azul, José Peixoto Júnior, Nilto Maciel eu os conheci em pessoa. Já José Jeronymo Rivera, Márcio Catunda e o organizador João Carlos Taveira são ou foram correspondentes. Como diria Monteiro Lobato, são amigos escritos.

Concluindo, penso que “Sonetos de Bolso” foi uma bela iniciativa. É um livro para se carregar na algibeira e para ter sempre à mão, abrindo para uma leitura naqueles momentos em que a alma pede poesia.

Mas o livro não pretende ser uma publicação isolada. Os organizadores cogitam em dar continuidade, incluindo outras poetas. Como escreveu Taveira, “Sonetos de Bolso” é apenas um filete de água que pretende, um dia, transformar-se em córrego, em rio...”

Escrito por Enéas Athanázio, 06/11/2018 às 16h14 | e.atha@terra.com.br

UM COELHO PROLÍFICO

Tenho observado, ao longo do tempo, que a vida literária nacional parece se guiar por ondas ou ciclos. Algum escritor permanece esquecido por anos e até décadas e, de repente, assim sem mais, volta ao cenário e sobre ele surgem matérias de toda ordem. É o que acontece com Coelho Netto (Henrique Maximiano – 1864/1934), sobre quem tenho encontrado notas em variados veículos da imprensa sem qualquer motivo aparente.

Coelho Netto foi um dos escritores mais famosos do país, verdadeira celebridade na segunda metade do Século XIX e nas primeiras décadas do Século XX. Estava em permanente evidência em virtude do sucesso de sua obra literária: romances, contos, crônicas e peças teatrais encenadas nos palcos do Rio de Janeiro e de outras cidades contando sempre com a generosa acolhida do público. Integrava o grupo de Olavo Bilac, Medeiros e Albuquerque, Paula Nei, Aluisio Azevedo, Afrânio Peixoto e outros escritores de grande fama, aclamados onde chegavam. Ocupou vários cargos, foi deputado federal, professor e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). Posicionou-se em favor da abolição da escravatura. Acima de tudo, porém, produziu uma obra espantosa pela quantidade e pela qualidade, celebrada pela melhor crítica e pelo avultado número de leitores. Segundo seus biógrafos, publicou 2ll livros, sem falar no que ficou inédito, incompleto ou desaparecido, e artigos jornalísticos em profusão sobre os mais variados temas. Considerando que na época se escrevia à mão, impressiona o tempo que deve ter consumido escrevendo e escrevendo. No entanto, viveu apenas 70 anos, pouco mais que a média de vida da época. Sua obra obteve traduções em 11 idiomas. Para completar, teve nada menos que 14 filhos. Não fugindo à regra, foi um Coelho dos mais prolíficos, em todos os sentidos, se me perdoam pelo infame trocadilho.

Seguindo a onda que surgiu em favor dele, reli, depois de muitos anos, um de seus mais celebrados romances: “Turbilhão”. Publicado em 1864, mereceu uma edição alusiva ao centenário, em 1964, ano fatídico da história nacional, publicada pelas Edições O Cruzeiro, de Assis Chateaubriand. É um volume encorpado (300 páginas), estampando a figura do Autor em bico-de-pena muito conhecido, com os cabelos à escovinha, o basto bigode e a fisionomia de homem sisudo.

O romance se desenrola em torno de poucos personagens e algumas figuras fugidias que nem chegam a se mostrar por completo. Dona Júlia, o filho solteiro, Paulo, a filha, também solteira, Violante, moça muito linda e sensual, e a empregada Felícia. Em segundo plano surgem o malandro Mamede, sua companheira Ritinha, um tio irascível e algumas vizinhas mal debuxadas e sem nome. Família pobre, morando em casa de aluguel, vivendo da pensão deixada pelo pai, militar de carreira. A vida transcorria sem tropeços e também sem emoções, até que sobrevèm o inesperado: Violante desaparece sem deixar rastro. E então tudo se altera e o equilíbrio familiar entra em crise. Paulo perde o emprego, junta-se a Mamede, cai na boemia e no jogo; Felícia, a empregada, enlouquece; Dona Júlia, depois de muito padecer, acaba falecendo. O núcleo familiar, antes organizado e feliz, é sacudido por um turbilhão. Só Violante, cada vez mais bela, tem uma vida de luxo e riqueza à custa de seus amantes.

Tudo isso, aqui resumido em poucas palavras, acontece devagar, em marcha lenta, sem pressa ou açodamento, como se o Autor dispusesse da eternidade. As cenas se desenham com minúcia ao longo de muitas páginas. Uma simples corrida de bonde pela cidade permite ao personagem observar a arquitetura das construções, as árvores e flores das praças, os nomes das ruas e as cenas urbanas. Semelha um roteiro turístico pelo Rio de Janeiro de antanho.

Coelho Netto foi exaltado como grande estilista, dono de uma linguagem precisa e opulenta. No seu texto, cada palavra entra no local exato, como pequena peça de um grande mecanismo. Adepto do “le mot juste” das escolas de seu tempo, buscava sempre o vocábulo preciso e que só poderia ser aquele para significar com extrema exatidão o pensamento do Autor. Além disso, dominava um vocabulário tão vasto e rico que foi considerado um verdadeiro dicionário ambulante.

Por outro lado, certos aspectos parecem desconectados aos dias de hoje. Mulato, negro, velho, por exemplo, são termos usados com naturalidade, refletindo no fundo preconceitos dominantes na época. Pessoas com 48 ou 50 anos de idade eram rotuladas de velhas e como tais tratadas.

Impressiona a riqueza vocabular do Autor. Como é natural, muitos vocábulos são hoje pouco usados e outros tantos caídos em total esquecimento. Numa rápida passagem pelo texto do romance podem-se encontrar os seguintes: ilhargas, estrincando, enclavinhados, crebras, retroar, gorgorejo, esgalgado, abacabado, tressuante, panegirista, estremunho, caixotins, cavadamente, besuntado, assoalha, marinonis, inculcam etc. etc. É apenas uma pequena mostra.

A leitura de Coelho Netto é um exercício que exige atenção mas compensa pela riqueza do linguajar e pela beleza literária, cada vez mais raras nestes tempos, e pela penetração psicológica com que analisa os personagens. Além disso, foi muito mais que um escritor, foi toda uma literatura, como afirmou com razão Humberto de Campos.

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Tenho lido com prazer os artigos de autoria do Prof. M. Paulo Nunes, publicados no jornal “Diário do Povo do Piauí”, de Teresina, e no “Jornal da ANE”, de Brasília. Um dos mais respeitados críticos literários da atualidade, ele é dono de invulgar cultura clássica e arguto analista das obras focalizadas. Em interessante série, vem abordando a vida e a obra de Graciliano Ramos, assuntos que revela dominar de maneira íntima e segura. “Uma entrevista do Velho Graça” e “Cartas de amor de Graciliano”, os últimos que li, são textos memoráveis. Meus parabéns ao mestre piauiense!

Escrito por Enéas Athanázio, 29/10/2018 às 12h18 | e.atha@terra.com.br

O Senhor das Letras

Com esse título, o escritor Eric Nepomuceno publicou um perfil do jornalista e escritor Antonio Callado, uma das mais brilhantes figuras da literatura brasileira do século passado. Jornalista intrépido, Callado realizou notáveis coberturas da II Guerra Mundial, muitas delas do próprio fronte de combate, além de ter sido apresentador da BBC, em Londres, durante aquele conflito internacional. Também no Brasil realizou reportagens marcantes, afundando nos sertões inóspitos e desconhecidos para bem retratar a realidade. Andou pelo Xingu, tendo contribuído para a criação do parque, e palmilhou os caminhos percorridos pelo célebre Coronel Fawcett para tentar desvendar o mistério de seu desaparecimento. Tinha especial interesse por tudo que diz respeito aos índios, tendo eles e sua cultura inspirado um de seus melhores livros, o “Quarup.” Foi um dos raros jornalistas ocidentais a entrar no Vietnã do Norte.

Entre outras coisas, diz Nepomuceno, Callado era conhecido pela elegância. “Nelson Rodrigues dizia que ele era ‘o único inglês da vida real.’ Além da elegância, também era conhecido pelo seu humor ágil, fino e certeiro. (...) Caminhava falando consigo mesmo; caminhava escrevendo. Vivendo. Porque Callado foi desses escritores que escreviam o que tinham vivido, ou dos que vivem o que vão escrever algum dia.”

Mais adiante: “Era um homem de fala mansa, suave, firme. Só se alterava quando falava das mazelas do Brasil e dos vazios do mundo daquele fim de século passado. Indignava-se contra a injustiça, a miséria, os abismos sociais que faziam – e em boa medida ainda fazem – do Brasil um país de desiguais.”

Bacharel em Direito, Callado jamais exerceu a advocacia. Nunca quis saber de computador. Começava escrevendo à mão e depois passava para a máquina de escrever, usando os dez dedos, como os grandes datilógrafos de então.

Nos seus desabafos em face da situação do país, dizia-se desanimado de ver o Brasil como país de primeira linha; parecia destinado a ser para todo o sempre um país marginal, de segunda linha. Tendo falecido em 1997, ele foi poupado de ver as barbaridades que depois disso se descobriram.

A crítica literária Lígia Chiappini, por sua vez, afirma que Callado era dotado de “uma vocação empenhada”, ou seja, engajado nas suas ideias em tudo que escrevia.

Entre os diversos romances que escreveu, destaca-se “A Madona de Cedro”, cuja leitura, depois de muito tempo, me levou a estas considerações. Nesse romance, o personagem central é induzido a furtar uma imagem em Congonhas do Campo, a pedido de um intermediário do indivíduo que negociava imagens sacras furtadas. Houve um período em que tais furtos se tornaram frequentes, acreditando que isso inspirou o romancista. Depois de cair nas garras do negociante e seu agente, o personagem pena por longos treze anos o remorso pelo que havia feito. No entanto, quando solicitado a perpetrar novo furto, rebelou-se e se submeteu à mais estranha das penitências, percorrendo as ruas da cidade com uma cruz nas costas.

É instigante a forma como Callado descreve o drama psicológico do personagem, penetrando no mais íntimo de sua alma, até encontrar o meio de purgar o grave pecado cometido. Também se evidencia o conhecimento que o romancista tinha da região, da cidade e do conjunto das obras do Aleijadinho e de mestre Ataíde. É um romance absorvente, merecedor dos aplausos que tem recebido da melhor crítica desde sua publicação.

Escrito por Enéas Athanázio, 22/10/2018 às 11h47 | e.atha@terra.com.br

Heróis e Bandidos

O escritor alemão Karl May (1842/1912) foi um dos autores mais lidos no Brasil, em especial pela juventude. Suas obras, traduzidas, eram publicadas pela Editora Globo, de Porto Alegre, em primorosas coleções encadernadas e ilustradas por desenhistas de renome. Produziu grande quantidade de livros de aventuras ambientadas em diversas regiões do planeta e envolvendo incontáveis personagens que se tornaram célebres, entre os quais se destacavam Winnetou, o poderoso cacique apache, Mão de Ferro, capaz de matar com um simples soco, Mão de Fogo, dono de temida espingarda milagrosa, Tia Droll, estranhíssima figura de bandoleiro que se vestia de mulher, Assef, o “servo” que portava um nome quilométrico e fazia questão dele, além de um esquisito lorde inglês viciado em apostas e um caçador que se expressava em versos rimados. O próprio narrador às vezes se travestia em herói, adotando posturas de grande valentia, habilidade e inteligência sem par. Dizia-se que Karl May escreveu suas obras sem sair da Alemanha, baseado em mapas e livros de viagens, mas é uma meia verdade porque, embora não tenha viajado muito, conheceu vários países onde colheu abundante material para seus escritos. De qualquer forma, impressiona a quantidade e a exatidão dos detalhes que descreve a respeito do relevo, da flora, da fauna, do clima, da rede fluvial, dos caminhos, das línguas e dialetos locais e tudo o mais.

Karl May escrevia de maneira simples e clara e era preciso nas suas descrições. É curioso observar que usava a segunda pessoa do singular, o que torna a leitura um tanto estranha para os brasileiros em geral, em especial nos diálogos. Eles, por sinal, são quase sempre longos e minuciosos, mesmo em momentos cruciais, fato que os deixa às vezes um tanto inverossímeis. Comparados aos textos mais modernos, seus escritos deixam a impressão de necessitar de rigorosa “poda.”

Os índios, muito presentes em suas histórias, são descritos como seres nobres, de caráter irretocável e de atitudes rigorosamente éticas. Os negros, no entanto, não merecem realce; são apenas “os negros” ou “o negro”, inominados, sem quaisquer detalhes. Por vezes, no entanto, afloram passagens que revelam arraigados preconceitos, como se verifica nas aventuras ambientadas no Oeste americano. Em certa passagem, referindo-se a um espetáculo, escreveu: “Os dois índios não haviam sido consultados se queriam tomar parte nele. Não era de bom tom que se admitisse dois índios entre um grupo constituído unicamente de senhoras e cavalheiros...” Mais adiante: “Um negro, que trabalhava na casa das máquinas do navio, não pode resistir à curiosidade e aproximou-se da jaula. O capitão, que o observava, ordenou-lhe que fosse pegar imediatamente o seu trabalho. Como o negro não obedecesse em seguida, o capitão deu-lhe alguns golpes com um cabo que segurava nas mãos.” Em outra passagem, após ter salvo uma menina do afogamento, pequeno índio é tratado como “gato sarnoso.” Quando alguém afirma que o território americano pertencia aos índios e que eles deveriam ser respeitados, outro retruca: “Hum! É verdade o que estás dizendo. Mas os vermelhos devem desaparecer, devem extinguir-se. Esse é o seu destino!” Ainda, em outro ponto: “Mão de Fogo dividiu estes peles-vermelhas, outrora tão soberbos e agora degenerados, em dois grupos.” Mais adiante, diz um oficial: “Não tem senso os brancos admitirem que os índios lhes façam propostas”, significando que com os indígenas nem sequer poderia haver negociação alguma. Outras tantas passagens poderiam ser lembradas.

Winnetou, chefe dos apaches, é aureolado de todas as virtudes. É que ele se aliou aos brancos. Uma espécie cacique Condá norte-americano. Aliás, impressiona a quantidade de subtribos pertencentes aos apaches e que o escritor levantou uma por uma.

Em todas as oportunidades, em especial nos encontros de compatriotas, a superioridade da raça alemã é sempre ressaltada.

Dois aspectos também chamam a atenção: a extrema violência e o permanente propósito de vingança.

Eliminar, esfaquear, atocaiar, apunhalar, estrangular, enforcar, tirotear, escalpelar são expressões correntes. Cenas de inaudita violência aparecem descritas em minúcia, não faltando as horrendas torturas praticadas contra os inimigos amarrados nos “postes dos martírios.” Cortar orelhas e narizes, manter os inimigos com pés e mãos amarrados e impedidos de articular por apertadas mordaças são cenas corriqueiras. Também acontecia ser estipulado prêmio por inimigo morto; “Estes sujeitos não são guerreiros com os quais se possa lutar honradamente, mas são cães sarnentos que se devem matar a chicotadas” – afirma Mão de Fogo em certa situação. Os inimigos são sempre cães e quanto mais odiosos maiores tormentos deverão padecer.

A vingança, por outro lado, é uma prática impositiva entre os índios. Ofensa grave exige vingança e, quanto mais dolorosa, melhor. É a forma de lavar a alma da afronta recebida.

Dono de inesgotável imaginação, Karl May era capaz de estender suas narrativas por quinhentas páginas, desenrolando tropelias que se enlaçam uma na outra sem perder a sequência e envolvendo incontáveis personagens e lugares.

Relido com os olhos de hoje, não me parece que, do ponto de vista pedagógico, os livros do escritor alemão sejam os mais indicados para a juventude. Por outro lado, se comparados a certos filmes e programas televisivos exibidos nos dias atuais, não contêm nada de incomum.

A verdade, porém, é que suas histórias fascinavam os jovens leitores e também os adultos. As figuras criadas pelo plácido alemão, no conforto do seu gabinete, em plena Alemanha, ganharam o mundo e os corações das pessoas. Com a curiosidade de que foi maniqueísta na construção dos personagens; ou eram bons e puros como os verdadeiros heróis, sem qualquer laivo de maldade, ou eram maus, sem a menor réstia de bondade. Herói é herói, bandido é bandido.

Dizia-se que ele foi o escritor predileto de Hitler, mas não posso afirmar que não se trate de lenda. Também informam seus biógrafos que, no final da vida, foi perturbado por processos que lhe moveram pessoas simplórias alegando ter praticado na vida real fatos descritos em suas obras envolvendo crimes e atos menos abonadores.

Embora pouco lembrado, Karl Friedrich May cativa com suas longas e minuciosas narrativas.

Escrito por Enéas Athanázio, 15/10/2018 às 09h50 | e.atha@terra.com.br

O OLHO DO TSAR

Nascido na Finlândia, então integrante do Império Russo, filho de um agente funerário fiel ao Tsar, Pekkala foi enviado pelo pai a Moscou para integrar o Regimento Finlandês, tropa de elite da estrita confiança do soberano. Em virtude de seu temperamento rebelde e de sua coragem, o rapaz caiu nas graças do Tsar Nicolau II, de quem se tornou amigo íntimo e homem de absoluta confiança. Frequentava o palácio e tratava o imperador de maneira informal, ainda que mantendo sempre a conveniente distância e o devido respeito. Encarregado das mais difíceis missões, incluindo investigações sigilosas, tornou-se o detetive mais famoso de toda a Rússia. Ficou conhecido como o “Olho de Esmeralda do Tsar.” Sua paixão por uma moça de nome Ilya era incentivada pelo próprio soberano. A vida transcorria serena e feliz.

Sobreveio, porém, a Revolução de 1917, e Pekkala não teve outro recurso senão tentar a fuga, no que foi apoiado pelo Tsar. Pretendia ir a Paris, onde a moça estaria à sua espera. Mas os revolucionários o prendem no caminho e, depois de marchas e contramarchas, é levado à presença de Stálin. O líder revolucionário o interroga sobre vários assuntos, em especial sobre o esconderijo do tesouro do Tsar que, segundo se dizia, era algo de fabuloso, como de fato se constataria mais tarde. Pekkala nada informou, mesmo porque nada sabia a respeito, uma vez que o monarca nunca havia chegado a tais detalhes. Impressionado com a postura do investigador, Stálin decide poupar sua vida, imaginando que ele poderia ser útil mais tarde. É enviado para a Sibéria, onde vive numa cabana miserável e tem por missão assinalar as árvores destinadas ao corte. No local em que foi confinado, a fuga era impossível e a sobrevivência dos prisioneiros não superava alguns meses, tão adversas eram as condições. Pekkala, no entanto, já estava lá há nove anos quando recebe um emissário. Tratava-se do comissário Kirov, que vinha em nome de Stálin, para livrá-lo do gulag.

Recebido por Stálin, nessa altura chefe de uma revolução consolidada, volta s ser interrogado e recebe dupla missão: descobrir quem assassinou a família Romanov (o Tesar, a esposa, quatro filhas e o filho Alexei) e o local onde se encontrava o tesouro do imperador. A execução da família imperial não teria sido determinada pelos revolucionários e nem estava nos seus planos. Houve o boato de que fora ordenada por Lênin, mas isso jamais foi comprovado. Em companhia de Kirov e de um irmão, Anton, Pekkala se põe em campo e dá início à complicada investigação.

Depois de longas andanças e buscas infrutíferas, grandes perigos e mortes de possíveis informantes, o trio encontra o fio da meada. Consegue reconstituir o assassinato da família imperial, na Casa Ipatiev, e os seus corpos, lançados nas profundezas de uma mina abandonada, com exceção de Alexei que lá não se encontrava. Mais tarde ele se apresenta, vivo e saudável, mas na verdade não passava de um impostor. O fabuloso tesouro do Tsar se encontrava em coletes ajustados ao corpo de cada uma das vítimas, contendo imensa fortuna em pedras preciosas, equivalentes hoje a mais de 190 milhões de dólares. Foi devolvido aos cofres públicos. E o verdadeiro Alexei, ao contrário da história real, jamais foi encontrado.

O prêmio pelo sucesso da operação foi a liberdade. Ainda que relutante, Pekkala deixa de ser o Olho do Tsar Nicolau para se transformar no Olho do Tsar Vermelho. Mas a felicidade nunca é completa: cansada de esperar por ele, Ilya havia se casado, tinha um filho e se tornara professora na capital francesa. Kirov, já major do Exército Vermelho, passou a integrar sua equipe de investigadores.

Essa é, em linhas gerais, a trama do excelente romance “O Olho do Tsar Vermelho”, de autoria do escritor inglês Sam Eastland, lançado no Brasil pela Editora Record (Rio de Janeiro – 2013), em tradução de Marcio de Paula S. Hack.

Além de uma história absorvente, o autor conseguiu reconstituir o ambiente caótico reinante na Rússia pós-revolucionária, a guerra entre Brancos e Vermelhos, a atmosfera de suspeitas e desconfianças, a caça-às-bruxas, o ódio, o terror, o medo. A figura do Tsar, sereno diante das perspectivas negras, impõe admiração pela coragem. E a figura de Stálin é sempre descrita da mesma forma sumária, sem que jamais se chegue a um retrato fiel. Assim o descreve o autor: “O homem que entrou na sala vestia um terno de lã simples, verde amarronzado, com um paletó de corte militar, de modo que seu colarinho duro e curto fechava-se em torno da garganta. Seus cabelos escuros, rajados de branco acima das orelhas e têmporas, fora penteado para trás e um espesso bigode acumulava-se sob o nariz. Quando ele sorriu, seus olhos se fecharam como os de um gato satisfeito.” Parece a reprodução estereotipada de mil outras descrições.

O romance, de fundo histórico, não se afasta muito dos fatos reais, que o autor revela conhecer em minúcia. Mas dentro de balizas rígidas a criatividade do romancista elabora uma trama cativante e que se destaca dentre outras obras do gênero.

Escrito por Enéas Athanázio, 08/10/2018 às 14h32 | e.atha@terra.com.br

Lampião: a verdade e o mito

Poucas figuras da história nacional são tão presentes no imaginário popular como Virgulino Ferreira da Silva, o célebre cangaceiro Lampião. Na literatura, na televisão, no cinema e na imprensa, ele é sempre lembrado por este ou aquele motivo. Incontáveis ensaios apontando sua faceta positiva ou negativa são publicados com frequência, mostrando que o chefe bandoleiro continua instigando a imaginação e a curiosidade dos pesquisadores. E não é por menos, uma vez que ele chegou a ser considerado o rei do cangaço e dominou um território tão extenso que propôs ao governador de Pernambuco dividir o Estado, ficando ele como chefe absoluto de todo o sertão.

Entre os trabalhos mais recentes a respeito de Lampião está o relato “Vem de longe...”, de autoria de Jurandy Temóteo, publicado no livro do mesmo nome (A Província Editora – CE – 2018). Nesse trabalho, o autor tece um conto explorando a teoria ou o mito de que o cangaceiro não morreu na Grota do Angico como afirma a versão oficial. Esse tipo de especulação costuma acontecer com algumas celebridades cujos admiradores se recusam a admitir suas mortes. Aconteceu também com Elvis Presley, como muitas pessoas devem se lembrar.

Tudo tem início quando o celeiro Raimundo, pernambucano, aparece na Fazenda Ponta da Serra, de propriedade de “seu” Britim, pedindo socorro. Vinha de muito longe, caminhando durante a noite para não ser visto, e tinha um feio inchaço protegido por uma atadura improvisada. Recolhido à casa dos cereais e alimentando, ele relata que estava numa missão sigilosa, buscando um tesouro deixado por Lampião, seu patrão e amigo, enterrado ao pé de uma grande árvore para marcar o lugar. Tratava-se de um imenso carregamento de armas e munições suficiente para enfrentar um batalhão. Diante do espanto do ouvinte, ele afirma que Lampião estava vivo e forte. A morte do cangaceiro era uma mentira propalada aos quatro ventos e agora seria revelada porque a verdade precisa ser dita.

“Na verdade, dizia Zé Ferreira, meu avô, com toda firmeza, aquilo foi invenção para vender jornais e revistas, tudo soprado pela polícia. Os “macacos” levaram muito dinheiro, ouro e pedras preciosas de Lampião, mas nem chegaram a trocar tiros, pois meu padrinho tinha sido avisado do que ia acontecer e lá não ficou. Os que morreram em Angico eram de um pequeno bando que em 1938 já estava desmembrado. Não tem fundamento - a não ser de enganar o povo – que Lampião e Maria Bonita estavam ali enfurnados com os outros cangaceiros naquela gruta apertada e com uma só saída.”

Segundo reiterados depoimentos, Lampião nunca permanecia em local onde houvesse uma só saída e nem permanecia por muito tempo no mesmo pouso. Esses detalhes contribuíram para levantar dúvidas.

Mas quem morreu em Angico e como agiram para demonstrar que se tratava do chefe cangaceiro, sua mulher e outros?

“Quem morreu no lugar de Lampião foi o ladrão de cavalo Zé do Sapo, por ter um olho cego (como Lampião) – prossegue o narrador. – E no lugar de Maria Bonita foi um jovem muito parecido com ela. É bom lembrar também que os “macacos” não mostraram os corpos pois as cabeças foram todas decepadas. E, mesmo assim, o povo só podia ver, muito depois do acontecido, de longe, separados por uma corda; e o fedor era muito grande pois as cabeças estavam em adiantado estado de podridão.”

Dizia-se também que após o massacre os policiais foram obrigados a jurar, sob pena de morte, que guardariam perpétuo silêncio sobre os fatos. E assim teria sido forjada a falsa notícia.

E Lampião, que foi feito dele?

Lépido e lampeiro, tratou de andar e andar, segundo recomendava seu conselheiro, o cangaceiro Sinhô Pereira. Permaneceu escondido por cerca de seis meses nas proximidades da cachoeira de Paulo Afonso, região que conhecia muito bem desde que fora empregado do coronel Delmiro Gouveia. Dali, rumou para o Piauí, onde nunca praticara o cangaço, escondendo-se numa fazenda de Santa Luzia e usando o codinome de Policarpo Lima, até 1942. Bem armado e acompanhado pelo guarda-costas Benedito Moura de Araújo, seguiu para Bom Jesus da Lapa, na Bahia, onde permaneceu por tempo indeterminado. Em penosas caminhadas noturnas, cercado do maior sigilo, foi margeando o rio São Francisco e afundou no alto sertão mineiro. Desde então as notícias sobre ele foram raras. Em 1945 teria sido visto em Januária mas não esquentava lugar, sempre trocando de nome. Entregava-se à venda de gado e terras, além do cultivo de roças de subsistência. Continuava valente mas evitando envolvimento em qualquer confusão.. Na imensidão do Estado mineiro, oculto e bem guarnecido, deve ter vivido sua última fase de vida. Como outros ex-cangaceiros, a exemplo de Moreno, encontrou guarida nas montanhas e nas matas das Gerais.

Afirmando que se louvou em fontes fidedignas, o autor lembra as palavras do personagem: “Essa história vem de longe, antes mesmo de você nascer. Durante todos esses anos a mentira vem sendo repetida como se fosse a verdade. . .A verdade precisa ser dita para nunca mais ser enterrada.”

O trabalho de Jurandy Temóteo é um prato cheio para os admiradores dos temas relacionados ao cangaço. Contribui, sem dúvida, para manter viva a memória de Lampião e suas inigualáveis proezas.

Escrito por Enéas Athanázio, 01/10/2018 às 11h02 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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