Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

O FURIOSO DA RUE POPINCOURT

Georges Simenon (1903/1989) foi um dos mais prolíficos escritores da moderna literatura francesa. Conseguiu aliar o tom popularesco com a alta qualidade da escrita. Publicou mais de 200 livros e vendeu mais de um bilhão de exemplares, em todo o mundo, em versões para inúmeros idiomas. Dono de uma imaginação sem limites, engendrou numerosas histórias policiais nas quais desponta sempre o comissário da Polícia Judiciária francesa, Jules Maigret, um dos personagens de ficção mais célebres da literatura, formando ao lado de Sherlock Holmes e Hercule Poirot. Humano, compreensivo, Maigret não usa arma e nem a violência, preferindo desvendar os crimes pela dedução e pelo raciocínio. Salvo uns poucos casos, sempre se dá bem e acerta no alvo. Seu método é o de não ter método.

Muitos de seus romances têm sido publicados no Brasil, onde ele conta com apreciável número de leitores. Entre eles avulta Maigret e o Matador (L&PM Pocket P. Alegre 2018), contendo uma das mais intrigantes investigações do comissário, tendo como pano de fundo a cidade de Paris num período chuvoso em que escorria água pelas calçadas e o vento castigava as pessoas. Um rapaz de família rica, de comportamento discreto e sem antecedentes criminais, é assassinado com sete facadas numa noite silenciosa na Rua Popincourt. O crime é presenciado por um casal que se aproximava debaixo de seu guarda-chuva e por um idosa que tudo contempla pela janela do apartamento. Eles guardam na memória uns poucos detalhes do matador mas que seriam a chave do mistério e levariam ao criminoso. A vítima nutria paixão pelas gravações, portava sempre um gravador, e procurava registrar trechos de conversas nos mais variados locais. Considerava-as documentos humanos e pretendia estudar sociologia. Imaginou-se, no início, que tais gravações seriam a causa do crime, mas o matador não levou o gravador, embora isso pudesse ser feito com facilidade. Aí estava o qüiproquó, o nó górdio, da história. Maigret se põe em campo.

Os jornais dão ampla cobertura ao fato. A família do morto é influente. O juiz de instrução tem pressa e quer logo uma solução. O comissário, calmo e pachorrento, pouco parece fazer e não deixa de tomar seus goles de calvados ou uma boa cerveja na Brasserie Dauphine, seu ponto predileto. Nesse meio tempo o criminoso dá sinal de vida. Escreve cartas aos jornais, em letra de forma e cor verde, e entra em contato com o comissário pelo telefone. Acaba se entregando e tudo se esclarece.

Simenon é mestre do diálogo. Usa-o em profusão e de maneira perfeita. Também é preciso no uso da palavra, buscando sempre o le mot just dos clássicos franceses. Segundo a lenda, retirava os nomes dos personagens do catálogo telefônico de Paris, afirmação que não sei se merece muita fé. Sabe-se, no entanto, que quando escrevia trancava-se no escritório levando o guia telefônico e uma garrafa de bebida. Não falava com ninguém, não atendia ao telefone e não recebia visitas. Conta-se que seu editor brasileiro foi visitá-lo e deu com o nariz na porta: O senhor Simenon está escrevendo! lamentou a secretária. Hemingway também adotava método semelhante e entre as seis da manhã e as treze horas ficava recluso, escrevendo. É por isso que se diz que o ofício do escritor é o mais solitário do mundo. Diante da folha em branco ou da tela vazia ninguém pode ajudá-lo e ele tem que revolver suas entranhas para dar vida às palavras. Simenon estudou sociologia criminal e medicina legal, o que transparece dos seus livros quando Maigret faz especulações a respeito do crime e do criminoso. Dizia que para identificar o criminoso é indispensável bem conhecer a vítima. Sua técnica de interrogatório, repetindo e repetindo as mesmas perguntas por interrogadores diferentes sempre revelava bom resultado. Maigret é uma espécie de comissário-filósofo.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/05/2020 às 19h16 | e.atha@terra.com.br

PARIS É UMA FESTA

A chamada geração perdida foi constituída por um grupo de escritores norte-americanos que se expatriou em Paris em busca de melhor clima intelectual que no conservadorismo dos Estados Unidos. Entre os componentes do grupo estavam Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, For Madox Ford e mais alguns aderentes, entre os quais Ezra Pound e James Joyce. Na maioria jovens, lutavam com todas as forças para produzir e conquistar um lugar ao sol. A consagração na capital francesa garantia projeção mundial no campo das letras.

Ernest Hemingway (1899/1961) foi um dos mais ativos e lutadores do grupo. Nessa época vivia em Paris, em companhia da primeira esposa, Hadley Richardson, e do primeiro filho, ainda criança, Bumby. O casal era muito pobre, residia num pequeno apartamento sobre uma serraria, situado em bairro dos mais modestos. Decidido a viver apenas de literatura, Hemingway abandonou o jornalismo que lhe pagava bem pelos despachos, permitindo suprir as necessidades mais prementes. Não conseguia vender seus contos, exceto um ou outro, sempre devolvidos pelas publicações a que enviava. Mas, com o apoio da mulher, persistia no propósito de viver da literatura e o tempo mostraria que estava certo. Com a publicação do primeiro romance, “O sol também se levanta”, granjeou a extraordinária fama que o acompanharia por toda a vida e o levaria inclusive a merecer o Prêmio Nobel de Literatura. Tornou-se um homem rico, o que lhe permitiu viver com intensidade a vida do escritor, viajando, acompanhando as touradas na Espanha, realizando safáris na África, navegando em sua lancha Pilar e visitando lugares e países.

O período vivido em Paris inspirou-lhe um de seus mais deliciosos livros, “Paris é uma festa”, publicado em edição póstuma. Nele, o escritor rememora, de maneira leve e agradável, esse tempo duro mas romântico de sua vida. Relata a extrema dedicação com que se entregava ao trabalho literário. “Depois de escrever um conto sentia-me sempre vazio, e, simultaneamente, triste e feliz, como se tivesse acabado de me entregar ao amor físico. Estava convicto de que o conto que acabara de escrever era muito bom, embora não soubesse o quanto, até lê-lo de ponta a ponta no dia seguinte” – escreveu.
Em páginas de rara beleza, evoca a amizade com Gertrude Stein e como ela se esvaiu de maneira estranha e silenciosa. Stein era uma matrona poderosa, ao mesmo tempo admirada e temida, que tinha relações com todo o meio cultural e recebia em sua morada todos os figurões franceses. Seu apartamento parecia autêntico museu, ostentando obras de arte dos grandes mestres da época e do passado. Tomou-se de intensa simpatia por Hemingway, em quem adivinhava imenso talento, sentindo-se no direito de dizer-lhe com total franqueza o que pensava de seus escritos. Também não escondia suas opiniões sobre outros autores, fossem ou não consagrados, e não admitia discussões a respeito. Fica a impressão, talvez ilusória, de que Hemingway gostava mais do apartamento-museu que de sua habitante. Foi Gertrude Stein quem vulgarizou a expressão geração perdida, ouvida de um mecânico.

Outra figura evocada com carinho é Sylvia Beach, proprietária da livraria-biblioteca “Shakespeare and Company”, a quem ficou devendo inúmeros favores que jamais esqueceu. Local de encontros de escritores e artistas, alugava e emprestava livros, e lá costumavam acontecer grandes debates sobre a vida cultural parisiense. Entre seus frequentadores mais ilustres estavam James Joyce e Ezra Pound. Hemingway se tornou “habitué.”

Os moradores, pequenos comerciantes, frequentadores e pescadores das margens do Sena são evocados com evidente saudade. Hemingway nutria imensa simpatia por aquelas pessoas simples a quem chamava gente do Sena. Recordava-se até mesmo de livros de segunda mão adquiridos dos “bouqunists” que os vendiam naquela região da cidade e das refeições feitas em modestos restaurantes populares e baratos. Gostava de trocar pernas ao longo do cais, ouvindo as conversas das pessoas e o marulhar das águas. Reteve na memória detalhes das ruas, da arquitetura e da vida naqueles locais. Às vezes fazia essas caminhadas tomado de grande forme, não sei se real ou imaginária.

A amizade do memorialista com F. Scott Fitzgerald toma extensa parte do livro. Muitos acontecimentos vividos pelos dois são recordados, restando a triste conclusão de que o talentoso autor de “O Grande Gatsby” caminhou para uma morte precoce vítima de insuperável alcoolismo. As discussões de ambos sobre literatura constituem grandes ensinamentos, entre elas a “teoria” de escrita gorda e magra. A primeira é a escrita enxundiosa, rebuscada, envolta em palavrório inútil e desnecessário. A outra é a escrita limpa, precisa, buscando a palavra exata, o “le mot just” dos clássicos franceses.

Os cafés parisienses, as corridas de cavalos e de bicicletas, as lutas e box, as fugas para as estações de esqui e outras viagens, quando tinham algum dinheiro, são recordadas com intensidade de detalhes, indicando quão marcantes foram. E muito mais desses anos benéficos surge nestas páginas maravilhosas. Até que entra em cena uma nova personagem, Pauline Pfiffer, jovem e linda, e o Destino traça novos rumos para a vida do escritor.

Escrito por Enéas Athanázio, 04/05/2020 às 14h01 | e.atha@terra.com.br

A RAINHA DO CRIME

O escritor britânico John Curran, especialista na vida/obra de Agatha Christie (1885/1970) teve acesso e conseguiu examinar os célebres Cadernos da criadora do investigador Hercule Poirot. Contando com a anuência e o incentivo de Mathew Prichard, guardião do acervo e neto da escritora, ele pode manusear um por um dos 73 Cadernos em que a escritora fazia suas anotações. O pesquisador nutria esperança de que neles encontraria a chave do método criador de uma escritora que publicou mais de 80 livros policiais, peças de teatro e textos variados, tornando-se uma das personalidades mais famosas do panorama literário mundial.

Para sua surpresa, os Cadernos continham verdadeira balbúrdia de anotações sobre diversos assuntos, com páginas em branco, muitas utilizadas apenas em parte e outras riscadas de cima a baixo. Anotações sobre a obra eram sempre sumárias e em alguns locais não passavam de três ou quatro palavras. A conclusão inevitável a que chegou foi a de que o método da Rainha do Crime era justamente o de não ter método. Ela própria admitiu, em entrevista, que não tinha qualquer método e só escrevia sobre aquilo que conhecia. Como o pesquisador conhece a obra de Agatha em minúcias, encontrou algumas pistas que o levaram a concluir que se tratavam de esboços para histórias concluídas ou abandonadas. Fez um laborioso trabalho de arqueologia literária.

O ponto mais alto e positivo, no entanto, estava na descoberta de dois contos inéditos de Agatha Christie e que foram por ele publicados pela primeira vez. Trata-se de “A captura de Cérbero” e “O incidente da bola de cachorro.” Surgiram então mil especulações: por que eles não foram publicados, mesmo tendo sido produzidos há tanto tempo? As hipóteses fervilham e o ensaísta se debruça sobre cada uma delas. No caso do primeiro conto, é evidente a semelhança do personagem central com Adolf Hitler, e essa talvez tenha sido a razão pela qual a autora não o publicou. Ela era terminantemente apolítica. No caso do segundo conto, cenas semelhantes teriam sido usadas em outra história, motivo pelo qual a autora não o deu a público. Esse detalhe, no entanto, em nada prejudicou o conto que não perdeu a qualidade. Ambos os contos são excelentes e muito bem escritos. Aliás, a Rainha do Crime escrevia muito bem, de forma precisa, leve e agradável. “A prosa de Agatha – escreve Curran, – única em todos os sentidos, flui com facilidade, os personagens são factíveis e distintos e grande parte dos romances é narrada em forma de diálogos.” Como Hemingway, ela foi mestra do diálogo.

Os estudos de Curran sobre os misteriosos Cadernos e os dois contos foram publicados no Brasil em dois volumes pela Editora Leya – Texto Editores (S. Paulo – 2019), em tradução de Thereza Christina Roque da Motta. Constituem uma leitura das mais curiosas pelo que contêm de detalhes, informações, reproduções, bastidores das histórias e análises. É interessante observar a onipresença de Poirot que, embora criado por uma autora britânica, é de nacionalidade belga e usa frequentes expressões francesas nas suas falas. Também valem suas “filosofias”, como “em tempos de desespero, é preciso aplicar meios desesperados.” Como o inspetor Maigret, de Simenon, às vezes parece que Poirot mais adivinha que desvenda. A personalidade de Poirot é cintilante, magnética, e ele dá a impressão de que está se divertindo durante as investigações e não exercendo seu poderoso raciocínio.

Encerrando estas notas, transcrevo uma indagação que Curran deixou no ar: “Por quê? Porque nenhum outro autor de romances policiais escreveu tão bem, tanto ou por tanto tempo, ninguém conseguiu igualar sua combinação de legibilidade, trama, justiça e produtividade?”

Eis a questão.

Escrito por Enéas Athanázio, 27/04/2020 às 08h49 | e.atha@terra.com.br

A SOLIDÃO NA MULTIDÃO

Não deixa de ser curioso que a moradora da maior cidade do país, convivendo com multidões, publique um livro de poesias enfatizando a solidão. A jornalista e poeta Rosani Abou Adal, editora do jornal cultural “Linguagem Viva”, de São Paulo, publicou o livro “Manchetes em Versos” que se abre abordando justamente a solidão. Seus textos curtos, semelhando manchetes, refletem com precisão o sentimento que vai na alma da poeta: toda aquela gente que se movimenta, povoa as ruas e praças, os prédios e tudo mais não consegue afastar a solidão paradoxal que vive naquele meio tão agitado. “Palavras mudas/presas na garganta” indicariam o desejo impossível de gritar? “Mulher a beber/as próprias palavras/ na mesa de um bar” e Mulher a amar/os fragmentos/de sua imagem” refletem com precisão o sentimento de solidão e transmitem melancolia e tristeza. Mas a poeta prossegue:

“Deitar na cama/com homem invisível/sem sonhos/sem sono” e “Beijo calado/sem gosto” acentuam aquele sentimento. Já “Homem a dialogar/com seu fantasma” retrata a figura ruminando suas ideias sem que ninguém saiba porque o interlocutor é um fantasma. Talvez ele domine o ímpeto de “Falar e gritar/ninguém para codificar/ a linguagem” porque ninguém está disposto a ouvi-lo, mesmo na multidão.
A poesia de Rosani também vai pelo social em palavras agudas e contundentes, “Crianças raquíticas/comem o resto/da comida dos porcos”, registra ela. Não há “Ninguém para/dividir a fome”, “Nenhum amigo/ para dividir/a dor e o pão” enquanto “Lagostas regadas/de espumante francês/nas mesas dos três poderes,/a fome devastando sonhos/nos pratos da periferia”.


Mas há muito mais. Cada mini-poema é para ser lido com calma e meditado. Neles há muito de vida e sentimento. É um livro que merece atenção.


GÊNESE

 

“Gênese de um contador de estórias” (Editora Areia – Joinville – 2019) é uma coletânea de crônicas de Carlos Adauto Vieira, nosso cronista – mor, também conhecido como Charles d’Olénger ou Charlot. Edição primorosa, com capa muito expressiva, reúne cerca de 25 textos escolhidos, começando com um protesto de gratidão do autor para os que o apoiaram e divulgaram na carreira literária. Página carregada de sentimento e revelando gratidão, sentimento cada vez mais raro e quase nunca revelado em público.


Na crônica que dá título ao livro o autor rememora sua iniciação em Joinville, como escritor e advogado, cidade que ama e conhece como poucos, inclusive sua história. Escreve para os jornais, em especial para “A Notícia”, no qual mantém uma coluna. Nos tempos de ditadura é proibido de publicar com o próprio nome e então adota pseudônimos para continuar saindo. Creio, porém, que os leitores o identificavam pelo estilo e pelo tom leve e agradável, permeado de humor. Advoga com entusiasmo e sem cessar, sendo hoje o decano dos profissionais da comarca. Ferrenho adversário da ditadura, não tardou a cair sob os olhos dos “dedos-duros” e sofreu prisões em 1964, 1965 e 1967, quando foi submetido a interrogatórios e a IPMs que, acredito eu, deram em nada porque não existiam provas contra ele. Esses incidentes grotescos, propiciados pelo regime de força, inspiraram crônicas e “causos” que não se cansa de contar. Entre eles, o de um cidadão que apoiava a ditadura e evitava contatos com os adversários. Ao sair da prisão, Adauto o encontrou e lhe disse que, sob a ameaça de armas, foi forçado a delatar os demais oponentes da ditadura. O primeiro nome que lhe ocorreu, afirmou ele, foi justamente o do ferrenho defensor da ditadura. O homem ficou desesperado e dali em diante quebrava esquinas para não se encontrar com o cronista. Mas tudo isso ficou no passado e a cidade reconheceu nele um benfeitor, homenageando-o de várias formas, inclusive dando seu nome a uma ponte – a Passarela Charlot. Por feliz coincidência, ela liga o setor forense com o centro cultural da cidade, os dois campos em que ele tanto tem atuado.


As crônicas de Adauto são sempre uma agradável leitura e revelam um homem antenado nos acontecimentos ao seu redor, captando com precisão os temas cronicáveis e transformando-os em peças literárias.

Escrito por Enéas Athanázio, 20/04/2020 às 13h06 | e.atha@terra.com.br

A OBRA POÉTICA DE GARCIA LORCA

Durante longo tempo a tradução foi considerada um trabalho intelectual inferior. Os livros antigos nem sequer mencionavam o nome dos tradutores, permanecendo no anonimato os que se dedicavam ao exigente esforço de transpor para o português as obras estrangeiras. Monteiro Lobato operou verdadeira revolução no setor. Não apenas assumiu a condição de tradutor, tendo vertido mais de uma centena de obras, como revelou conhecer a fundo a arte e a técnica do difícil métier e escreveu substanciosos artigos a respeito, hoje recolhidos às suas Obras Completas. Traduziu também a quatro mãos, em parceria com Godofredo Rangel e com a sobrinha e nora Gulnara. Sempre que se dava mal nos seus incontáveis negócios, entregava-se à tradução e com ela se reerguia. Entre o seu imenso legado cultural estão as traduções de mais de uma centena de livros dos mais variados gêneros e autores que colocou ao alcance do leitor brasileiro.

Diversos tradutores de renome e prestígio se declararam discípulos do taubateano na arte da tradução. Hoje ela conquistou o status de gênero importante e intelectuais de nível a ela se dedicam com afinco. Como ensinava Lobato, traduzir não é realizar simples transliteração, mas penetrar na alma do autor e verter sua obra para o português respeitando as características de quem a escreveu. É um trabalho complexo e exigente, ainda mais quando se trata de traduzir poesia, tarefa que muitos consideram impossível mas que vem sendo realizada com frequência e sucesso.

Entre os tradutores brasileiros de destaque está William Agel de Mello, diplomata, escritor e linguista, autor de uma obra vasta e variada. Dentre sua produção, avulta a tradução da obra poética completa de Federico Garcia Lorca (1898/1936), trabalho arrojado e de fôlego, ocupando mais de mil páginas, e que vem sendo publicado pela Editora Martins Fontes e pela Universidade de Brasília (UnB), em sucessivas edições. Uma realização que exigiu intenso e dedicado trabalho por longos anos na difícil transposição da poesia do genial poeta espanhol para a nossa língua mantendo-se fiel ao original. A meticulosa tradução mereceu a acolhida dos leitores e foi saudada pela mais categorizada crítica. “A Obra Poética Completa de Garcia Lorca resultou de um trabalho de tradução muito mais pensado e demorado. O resultado, de alto nível, torna essa tradução indispensável aos que querem um contato mais íntimo com a obra do poeta”, afirmou o Jornal do Brasil (14/10/89) E o renomado crítico Antônio Olinto declarou: “É um dos melhores trabalhos de tradução já realizados no Brasil.” O Prof. Junito de Souza Brandão, por sua vez, escreveu: “Não menos importante é a contribuição de William Agel de Mello no âmbito da tradução. Traduziu – segundo os parâmetros da tradução a mais fiel possível – os grandes poetas do Ocidente, inclusive a obra poética completa de Federico Garcia Lorca”. A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil considerou altamente recomendável o livro “Santiago”, de Garcia Lorca, em tradução de William Agel de Mello.

Além de ficcionista, ensaísta e linguista, autor de inúmeros dicionários que compõem um conjunto único, William Agel de Mello se revela exímio conhecedor da arte e da técnica da tradução, tanto na prática como na teoria. No ensaio introdutório às Obras Completas de Garcia Lorca aborda e examina as teorias e correntes a respeito do tema e discute os detalhes do trabalho que realizou. Grande conhecedor da vida do poeta espanhol, inclusive da consagrada biografia de Ian Gibson, sempre melhorada e ampliada em novas edições, fornece elementos importantes para quem pretenda conhecer melhor e apreciar a obra de Lorca. Destaca que a característica da obra do poeta é a genialidade e que nenhum outro, exceto Cervantes, mereceu até hoje tão copiosa bibliografia. Como se sabe, Federico Garcia Lorca foi assassinado numa noite tétrica, vítima da intriga e da intolerância dos carniceiros que tomavam conta da Espanha nos albores da Guerra Civil. 

Escrito por Enéas Athanázio, 13/04/2020 às 12h08 | e.atha@terra.com.br

MAIS QUE UMA GUERRA

Torres Pereira, radicado em Chapecó, viveu uma experiência rara. Nascido em Lisboa, onde residia, foi convocado, ainda muito jovem, para integrar a força expedicionária enviada à África para combater os rebeldes na guerra de independência de Moçambique. Colônia portuguesa (eufemisticamente denominada de província ultramarina), aquele país foi tomado por uma onda nacionalista que desejava a todo custo se desligar de Portugal. O governo português, tendo à frente o ditador Salazar, se recusava a abrir mão da colônia, alegando que a Constituição do país declarava unos os territórios da metrópole e das colônias, ainda que descontínuos. O povo percebia que se tratava de uma guerra perdida e que sua continuação implicaria em constantes perdas de vidas de jovens soldados enviados para uma missão destinada ao fracasso. Mas havia censura e o ditador insistia em manter o conflito.

Agora, depois de tantos anos, Torres Pereira decidiu rebuscar nos escaninhos da memória e publicar o livro “Mais que uma guerra” (Edição do Autor – Chapecó – 2019), revivendo dias sofridos nas selvas africanas às voltas com toda espécie de perigos. Trata-se de um relato muito vivo e coloquial, repassado de sentimento, que prende o leitor até a última página. Por outro lado, revela um profundo conhecedor da história de Portugal e suas possessões ultramarinas que foram se emancipando aos poucos e de forma inevitável. Como ressalta ele, só em 1960, pelo menos quinze “novas nações” proclamaram sua independência: Somália, Camarões, Togo, Sudão, Congo, Nigéria, Senegal, Madagascar, Daomé, Chade, Gabão e Mauritânia. Com o slogan de “A África será livre e unida” solicitava-se que a ONU incluísse em sua Assembléia Geral a questão do ultramar português e a independência de Angola. A intransigência em manter os domínios esbarrava no sentimento independentista que varria o mundo.

Na pele do personagem Arriaga, o autor relata o que foi a experiência por ele vivida, desde a partida no navio “Vera Cruz”, o desembarque em Moçambique e a primeira jornada em direção ao acampamento quando já encontram a estrada bloqueada com troncos e são surpreendidos com uma saraivada de tiros que vêm da mataria fechada. São os guerrilheiros anunciando sua presença. Mas chegam ilesos ao acampamento, depois de uma vigorosa resposta a tiros de metralhadora, e vivem em constante suspense e sujeitos a ferozes ataques. Ali permanecem, realizando as mais perigosas missões, convivendo com os ataques de surpresa, as minas terrestres, os incêndios provocados e as emboscadas. É ferido numa dessas ações e recolhido ao hospital. Logo se recupera e volta às atividades.

Mas a guerra está perdida. Os revoltosos dominam o norte do país, enquanto a companhia de Arriaga é rendida por outra e ele e seus amigos Cosme e Arouca são dispensados. A história segue seu curso e Moçambique é entregue à FRELIMO cujo chefe, Samora Machel, implanta a República Popular de Moçambique. O prometido referendum entre a população local não é realizado. Um violento sentimento anti-português explode no país e tudo que tem relação com Portugal é repudiado. Até estátuas homenageando figuras históricas são apeadas. Legiões de pessoas, em longas caravanas, deixam o país. Lourenço Marques, a capital, passa a se chamar Maputo.

O saldo da guerra é macabro. Foram milhares de jovens que perderam a vida, sofreram ferimentos de todos os tipos e sofreram os horrores de uma luta sem trégua em plena selva. Sem falar nos gastos com material bélico que poderiam ter melhor destino em favor do povo. Tudo graças ao criador do chamado Estado novo cujas diretrizes foram estabelecidas na Constituição salazarista por ele inspirada.

Por fim, como explicar tanto ódio aos portugueses? Vamos dar a palavra ao autor: “O que muito nos admira, é de que maneira, por séculos, Portugal conseguiu passar por bom menino na Guiné, Angola e Moçambique, sabendo-se que a realidade era outra: a começar pelo abandono e exploração das populações locais, que pouco mudou desde a época dos descobrimentos” (p. 29). E mais: “Só que não soubemos tirar proveito duma situação que tinha tudo para dar certo. A de dialogar mais e cuidar melhor das populações sob nossa jurisdição. A de dar um basta ao trabalho escravo nas grandes fazendas e implodir, de uma vez por todas, com a figura sinistra do latifundiário, escravocrata, melhor dizendo. Ao invés disso, que fizemos? Preferimos não prestar a devida atenção a esses e outros problemas que se iam agigantando à medida que os anos passavam A acreditar que, o que, vínhamos fazendo há séculos de errado, era o certo” (pp. 40/41).

A história não perdoou.

É interessante indagar se o exemplo de Moçambique serviu de lição a outros governantes. Parece-me que não.

O livro de Torres Pereira é recheado de memórias do autor, travestido em Arriaga, desde a infância.
É uma leitura que vale a pena.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/04/2020 às 08h56 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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O FURIOSO DA RUE POPINCOURT

Georges Simenon (1903/1989) foi um dos mais prolíficos escritores da moderna literatura francesa. Conseguiu aliar o tom popularesco com a alta qualidade da escrita. Publicou mais de 200 livros e vendeu mais de um bilhão de exemplares, em todo o mundo, em versões para inúmeros idiomas. Dono de uma imaginação sem limites, engendrou numerosas histórias policiais nas quais desponta sempre o comissário da Polícia Judiciária francesa, Jules Maigret, um dos personagens de ficção mais célebres da literatura, formando ao lado de Sherlock Holmes e Hercule Poirot. Humano, compreensivo, Maigret não usa arma e nem a violência, preferindo desvendar os crimes pela dedução e pelo raciocínio. Salvo uns poucos casos, sempre se dá bem e acerta no alvo. Seu método é o de não ter método.

Muitos de seus romances têm sido publicados no Brasil, onde ele conta com apreciável número de leitores. Entre eles avulta Maigret e o Matador (L&PM Pocket P. Alegre 2018), contendo uma das mais intrigantes investigações do comissário, tendo como pano de fundo a cidade de Paris num período chuvoso em que escorria água pelas calçadas e o vento castigava as pessoas. Um rapaz de família rica, de comportamento discreto e sem antecedentes criminais, é assassinado com sete facadas numa noite silenciosa na Rua Popincourt. O crime é presenciado por um casal que se aproximava debaixo de seu guarda-chuva e por um idosa que tudo contempla pela janela do apartamento. Eles guardam na memória uns poucos detalhes do matador mas que seriam a chave do mistério e levariam ao criminoso. A vítima nutria paixão pelas gravações, portava sempre um gravador, e procurava registrar trechos de conversas nos mais variados locais. Considerava-as documentos humanos e pretendia estudar sociologia. Imaginou-se, no início, que tais gravações seriam a causa do crime, mas o matador não levou o gravador, embora isso pudesse ser feito com facilidade. Aí estava o qüiproquó, o nó górdio, da história. Maigret se põe em campo.

Os jornais dão ampla cobertura ao fato. A família do morto é influente. O juiz de instrução tem pressa e quer logo uma solução. O comissário, calmo e pachorrento, pouco parece fazer e não deixa de tomar seus goles de calvados ou uma boa cerveja na Brasserie Dauphine, seu ponto predileto. Nesse meio tempo o criminoso dá sinal de vida. Escreve cartas aos jornais, em letra de forma e cor verde, e entra em contato com o comissário pelo telefone. Acaba se entregando e tudo se esclarece.

Simenon é mestre do diálogo. Usa-o em profusão e de maneira perfeita. Também é preciso no uso da palavra, buscando sempre o le mot just dos clássicos franceses. Segundo a lenda, retirava os nomes dos personagens do catálogo telefônico de Paris, afirmação que não sei se merece muita fé. Sabe-se, no entanto, que quando escrevia trancava-se no escritório levando o guia telefônico e uma garrafa de bebida. Não falava com ninguém, não atendia ao telefone e não recebia visitas. Conta-se que seu editor brasileiro foi visitá-lo e deu com o nariz na porta: O senhor Simenon está escrevendo! lamentou a secretária. Hemingway também adotava método semelhante e entre as seis da manhã e as treze horas ficava recluso, escrevendo. É por isso que se diz que o ofício do escritor é o mais solitário do mundo. Diante da folha em branco ou da tela vazia ninguém pode ajudá-lo e ele tem que revolver suas entranhas para dar vida às palavras. Simenon estudou sociologia criminal e medicina legal, o que transparece dos seus livros quando Maigret faz especulações a respeito do crime e do criminoso. Dizia que para identificar o criminoso é indispensável bem conhecer a vítima. Sua técnica de interrogatório, repetindo e repetindo as mesmas perguntas por interrogadores diferentes sempre revelava bom resultado. Maigret é uma espécie de comissário-filósofo.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/05/2020 às 19h16 | e.atha@terra.com.br

PARIS É UMA FESTA

A chamada geração perdida foi constituída por um grupo de escritores norte-americanos que se expatriou em Paris em busca de melhor clima intelectual que no conservadorismo dos Estados Unidos. Entre os componentes do grupo estavam Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, For Madox Ford e mais alguns aderentes, entre os quais Ezra Pound e James Joyce. Na maioria jovens, lutavam com todas as forças para produzir e conquistar um lugar ao sol. A consagração na capital francesa garantia projeção mundial no campo das letras.

Ernest Hemingway (1899/1961) foi um dos mais ativos e lutadores do grupo. Nessa época vivia em Paris, em companhia da primeira esposa, Hadley Richardson, e do primeiro filho, ainda criança, Bumby. O casal era muito pobre, residia num pequeno apartamento sobre uma serraria, situado em bairro dos mais modestos. Decidido a viver apenas de literatura, Hemingway abandonou o jornalismo que lhe pagava bem pelos despachos, permitindo suprir as necessidades mais prementes. Não conseguia vender seus contos, exceto um ou outro, sempre devolvidos pelas publicações a que enviava. Mas, com o apoio da mulher, persistia no propósito de viver da literatura e o tempo mostraria que estava certo. Com a publicação do primeiro romance, “O sol também se levanta”, granjeou a extraordinária fama que o acompanharia por toda a vida e o levaria inclusive a merecer o Prêmio Nobel de Literatura. Tornou-se um homem rico, o que lhe permitiu viver com intensidade a vida do escritor, viajando, acompanhando as touradas na Espanha, realizando safáris na África, navegando em sua lancha Pilar e visitando lugares e países.

O período vivido em Paris inspirou-lhe um de seus mais deliciosos livros, “Paris é uma festa”, publicado em edição póstuma. Nele, o escritor rememora, de maneira leve e agradável, esse tempo duro mas romântico de sua vida. Relata a extrema dedicação com que se entregava ao trabalho literário. “Depois de escrever um conto sentia-me sempre vazio, e, simultaneamente, triste e feliz, como se tivesse acabado de me entregar ao amor físico. Estava convicto de que o conto que acabara de escrever era muito bom, embora não soubesse o quanto, até lê-lo de ponta a ponta no dia seguinte” – escreveu.
Em páginas de rara beleza, evoca a amizade com Gertrude Stein e como ela se esvaiu de maneira estranha e silenciosa. Stein era uma matrona poderosa, ao mesmo tempo admirada e temida, que tinha relações com todo o meio cultural e recebia em sua morada todos os figurões franceses. Seu apartamento parecia autêntico museu, ostentando obras de arte dos grandes mestres da época e do passado. Tomou-se de intensa simpatia por Hemingway, em quem adivinhava imenso talento, sentindo-se no direito de dizer-lhe com total franqueza o que pensava de seus escritos. Também não escondia suas opiniões sobre outros autores, fossem ou não consagrados, e não admitia discussões a respeito. Fica a impressão, talvez ilusória, de que Hemingway gostava mais do apartamento-museu que de sua habitante. Foi Gertrude Stein quem vulgarizou a expressão geração perdida, ouvida de um mecânico.

Outra figura evocada com carinho é Sylvia Beach, proprietária da livraria-biblioteca “Shakespeare and Company”, a quem ficou devendo inúmeros favores que jamais esqueceu. Local de encontros de escritores e artistas, alugava e emprestava livros, e lá costumavam acontecer grandes debates sobre a vida cultural parisiense. Entre seus frequentadores mais ilustres estavam James Joyce e Ezra Pound. Hemingway se tornou “habitué.”

Os moradores, pequenos comerciantes, frequentadores e pescadores das margens do Sena são evocados com evidente saudade. Hemingway nutria imensa simpatia por aquelas pessoas simples a quem chamava gente do Sena. Recordava-se até mesmo de livros de segunda mão adquiridos dos “bouqunists” que os vendiam naquela região da cidade e das refeições feitas em modestos restaurantes populares e baratos. Gostava de trocar pernas ao longo do cais, ouvindo as conversas das pessoas e o marulhar das águas. Reteve na memória detalhes das ruas, da arquitetura e da vida naqueles locais. Às vezes fazia essas caminhadas tomado de grande forme, não sei se real ou imaginária.

A amizade do memorialista com F. Scott Fitzgerald toma extensa parte do livro. Muitos acontecimentos vividos pelos dois são recordados, restando a triste conclusão de que o talentoso autor de “O Grande Gatsby” caminhou para uma morte precoce vítima de insuperável alcoolismo. As discussões de ambos sobre literatura constituem grandes ensinamentos, entre elas a “teoria” de escrita gorda e magra. A primeira é a escrita enxundiosa, rebuscada, envolta em palavrório inútil e desnecessário. A outra é a escrita limpa, precisa, buscando a palavra exata, o “le mot just” dos clássicos franceses.

Os cafés parisienses, as corridas de cavalos e de bicicletas, as lutas e box, as fugas para as estações de esqui e outras viagens, quando tinham algum dinheiro, são recordadas com intensidade de detalhes, indicando quão marcantes foram. E muito mais desses anos benéficos surge nestas páginas maravilhosas. Até que entra em cena uma nova personagem, Pauline Pfiffer, jovem e linda, e o Destino traça novos rumos para a vida do escritor.

Escrito por Enéas Athanázio, 04/05/2020 às 14h01 | e.atha@terra.com.br

A RAINHA DO CRIME

O escritor britânico John Curran, especialista na vida/obra de Agatha Christie (1885/1970) teve acesso e conseguiu examinar os célebres Cadernos da criadora do investigador Hercule Poirot. Contando com a anuência e o incentivo de Mathew Prichard, guardião do acervo e neto da escritora, ele pode manusear um por um dos 73 Cadernos em que a escritora fazia suas anotações. O pesquisador nutria esperança de que neles encontraria a chave do método criador de uma escritora que publicou mais de 80 livros policiais, peças de teatro e textos variados, tornando-se uma das personalidades mais famosas do panorama literário mundial.

Para sua surpresa, os Cadernos continham verdadeira balbúrdia de anotações sobre diversos assuntos, com páginas em branco, muitas utilizadas apenas em parte e outras riscadas de cima a baixo. Anotações sobre a obra eram sempre sumárias e em alguns locais não passavam de três ou quatro palavras. A conclusão inevitável a que chegou foi a de que o método da Rainha do Crime era justamente o de não ter método. Ela própria admitiu, em entrevista, que não tinha qualquer método e só escrevia sobre aquilo que conhecia. Como o pesquisador conhece a obra de Agatha em minúcias, encontrou algumas pistas que o levaram a concluir que se tratavam de esboços para histórias concluídas ou abandonadas. Fez um laborioso trabalho de arqueologia literária.

O ponto mais alto e positivo, no entanto, estava na descoberta de dois contos inéditos de Agatha Christie e que foram por ele publicados pela primeira vez. Trata-se de “A captura de Cérbero” e “O incidente da bola de cachorro.” Surgiram então mil especulações: por que eles não foram publicados, mesmo tendo sido produzidos há tanto tempo? As hipóteses fervilham e o ensaísta se debruça sobre cada uma delas. No caso do primeiro conto, é evidente a semelhança do personagem central com Adolf Hitler, e essa talvez tenha sido a razão pela qual a autora não o publicou. Ela era terminantemente apolítica. No caso do segundo conto, cenas semelhantes teriam sido usadas em outra história, motivo pelo qual a autora não o deu a público. Esse detalhe, no entanto, em nada prejudicou o conto que não perdeu a qualidade. Ambos os contos são excelentes e muito bem escritos. Aliás, a Rainha do Crime escrevia muito bem, de forma precisa, leve e agradável. “A prosa de Agatha – escreve Curran, – única em todos os sentidos, flui com facilidade, os personagens são factíveis e distintos e grande parte dos romances é narrada em forma de diálogos.” Como Hemingway, ela foi mestra do diálogo.

Os estudos de Curran sobre os misteriosos Cadernos e os dois contos foram publicados no Brasil em dois volumes pela Editora Leya – Texto Editores (S. Paulo – 2019), em tradução de Thereza Christina Roque da Motta. Constituem uma leitura das mais curiosas pelo que contêm de detalhes, informações, reproduções, bastidores das histórias e análises. É interessante observar a onipresença de Poirot que, embora criado por uma autora britânica, é de nacionalidade belga e usa frequentes expressões francesas nas suas falas. Também valem suas “filosofias”, como “em tempos de desespero, é preciso aplicar meios desesperados.” Como o inspetor Maigret, de Simenon, às vezes parece que Poirot mais adivinha que desvenda. A personalidade de Poirot é cintilante, magnética, e ele dá a impressão de que está se divertindo durante as investigações e não exercendo seu poderoso raciocínio.

Encerrando estas notas, transcrevo uma indagação que Curran deixou no ar: “Por quê? Porque nenhum outro autor de romances policiais escreveu tão bem, tanto ou por tanto tempo, ninguém conseguiu igualar sua combinação de legibilidade, trama, justiça e produtividade?”

Eis a questão.

Escrito por Enéas Athanázio, 27/04/2020 às 08h49 | e.atha@terra.com.br

A SOLIDÃO NA MULTIDÃO

Não deixa de ser curioso que a moradora da maior cidade do país, convivendo com multidões, publique um livro de poesias enfatizando a solidão. A jornalista e poeta Rosani Abou Adal, editora do jornal cultural “Linguagem Viva”, de São Paulo, publicou o livro “Manchetes em Versos” que se abre abordando justamente a solidão. Seus textos curtos, semelhando manchetes, refletem com precisão o sentimento que vai na alma da poeta: toda aquela gente que se movimenta, povoa as ruas e praças, os prédios e tudo mais não consegue afastar a solidão paradoxal que vive naquele meio tão agitado. “Palavras mudas/presas na garganta” indicariam o desejo impossível de gritar? “Mulher a beber/as próprias palavras/ na mesa de um bar” e Mulher a amar/os fragmentos/de sua imagem” refletem com precisão o sentimento de solidão e transmitem melancolia e tristeza. Mas a poeta prossegue:

“Deitar na cama/com homem invisível/sem sonhos/sem sono” e “Beijo calado/sem gosto” acentuam aquele sentimento. Já “Homem a dialogar/com seu fantasma” retrata a figura ruminando suas ideias sem que ninguém saiba porque o interlocutor é um fantasma. Talvez ele domine o ímpeto de “Falar e gritar/ninguém para codificar/ a linguagem” porque ninguém está disposto a ouvi-lo, mesmo na multidão.
A poesia de Rosani também vai pelo social em palavras agudas e contundentes, “Crianças raquíticas/comem o resto/da comida dos porcos”, registra ela. Não há “Ninguém para/dividir a fome”, “Nenhum amigo/ para dividir/a dor e o pão” enquanto “Lagostas regadas/de espumante francês/nas mesas dos três poderes,/a fome devastando sonhos/nos pratos da periferia”.


Mas há muito mais. Cada mini-poema é para ser lido com calma e meditado. Neles há muito de vida e sentimento. É um livro que merece atenção.


GÊNESE

 

“Gênese de um contador de estórias” (Editora Areia – Joinville – 2019) é uma coletânea de crônicas de Carlos Adauto Vieira, nosso cronista – mor, também conhecido como Charles d’Olénger ou Charlot. Edição primorosa, com capa muito expressiva, reúne cerca de 25 textos escolhidos, começando com um protesto de gratidão do autor para os que o apoiaram e divulgaram na carreira literária. Página carregada de sentimento e revelando gratidão, sentimento cada vez mais raro e quase nunca revelado em público.


Na crônica que dá título ao livro o autor rememora sua iniciação em Joinville, como escritor e advogado, cidade que ama e conhece como poucos, inclusive sua história. Escreve para os jornais, em especial para “A Notícia”, no qual mantém uma coluna. Nos tempos de ditadura é proibido de publicar com o próprio nome e então adota pseudônimos para continuar saindo. Creio, porém, que os leitores o identificavam pelo estilo e pelo tom leve e agradável, permeado de humor. Advoga com entusiasmo e sem cessar, sendo hoje o decano dos profissionais da comarca. Ferrenho adversário da ditadura, não tardou a cair sob os olhos dos “dedos-duros” e sofreu prisões em 1964, 1965 e 1967, quando foi submetido a interrogatórios e a IPMs que, acredito eu, deram em nada porque não existiam provas contra ele. Esses incidentes grotescos, propiciados pelo regime de força, inspiraram crônicas e “causos” que não se cansa de contar. Entre eles, o de um cidadão que apoiava a ditadura e evitava contatos com os adversários. Ao sair da prisão, Adauto o encontrou e lhe disse que, sob a ameaça de armas, foi forçado a delatar os demais oponentes da ditadura. O primeiro nome que lhe ocorreu, afirmou ele, foi justamente o do ferrenho defensor da ditadura. O homem ficou desesperado e dali em diante quebrava esquinas para não se encontrar com o cronista. Mas tudo isso ficou no passado e a cidade reconheceu nele um benfeitor, homenageando-o de várias formas, inclusive dando seu nome a uma ponte – a Passarela Charlot. Por feliz coincidência, ela liga o setor forense com o centro cultural da cidade, os dois campos em que ele tanto tem atuado.


As crônicas de Adauto são sempre uma agradável leitura e revelam um homem antenado nos acontecimentos ao seu redor, captando com precisão os temas cronicáveis e transformando-os em peças literárias.

Escrito por Enéas Athanázio, 20/04/2020 às 13h06 | e.atha@terra.com.br

A OBRA POÉTICA DE GARCIA LORCA

Durante longo tempo a tradução foi considerada um trabalho intelectual inferior. Os livros antigos nem sequer mencionavam o nome dos tradutores, permanecendo no anonimato os que se dedicavam ao exigente esforço de transpor para o português as obras estrangeiras. Monteiro Lobato operou verdadeira revolução no setor. Não apenas assumiu a condição de tradutor, tendo vertido mais de uma centena de obras, como revelou conhecer a fundo a arte e a técnica do difícil métier e escreveu substanciosos artigos a respeito, hoje recolhidos às suas Obras Completas. Traduziu também a quatro mãos, em parceria com Godofredo Rangel e com a sobrinha e nora Gulnara. Sempre que se dava mal nos seus incontáveis negócios, entregava-se à tradução e com ela se reerguia. Entre o seu imenso legado cultural estão as traduções de mais de uma centena de livros dos mais variados gêneros e autores que colocou ao alcance do leitor brasileiro.

Diversos tradutores de renome e prestígio se declararam discípulos do taubateano na arte da tradução. Hoje ela conquistou o status de gênero importante e intelectuais de nível a ela se dedicam com afinco. Como ensinava Lobato, traduzir não é realizar simples transliteração, mas penetrar na alma do autor e verter sua obra para o português respeitando as características de quem a escreveu. É um trabalho complexo e exigente, ainda mais quando se trata de traduzir poesia, tarefa que muitos consideram impossível mas que vem sendo realizada com frequência e sucesso.

Entre os tradutores brasileiros de destaque está William Agel de Mello, diplomata, escritor e linguista, autor de uma obra vasta e variada. Dentre sua produção, avulta a tradução da obra poética completa de Federico Garcia Lorca (1898/1936), trabalho arrojado e de fôlego, ocupando mais de mil páginas, e que vem sendo publicado pela Editora Martins Fontes e pela Universidade de Brasília (UnB), em sucessivas edições. Uma realização que exigiu intenso e dedicado trabalho por longos anos na difícil transposição da poesia do genial poeta espanhol para a nossa língua mantendo-se fiel ao original. A meticulosa tradução mereceu a acolhida dos leitores e foi saudada pela mais categorizada crítica. “A Obra Poética Completa de Garcia Lorca resultou de um trabalho de tradução muito mais pensado e demorado. O resultado, de alto nível, torna essa tradução indispensável aos que querem um contato mais íntimo com a obra do poeta”, afirmou o Jornal do Brasil (14/10/89) E o renomado crítico Antônio Olinto declarou: “É um dos melhores trabalhos de tradução já realizados no Brasil.” O Prof. Junito de Souza Brandão, por sua vez, escreveu: “Não menos importante é a contribuição de William Agel de Mello no âmbito da tradução. Traduziu – segundo os parâmetros da tradução a mais fiel possível – os grandes poetas do Ocidente, inclusive a obra poética completa de Federico Garcia Lorca”. A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil considerou altamente recomendável o livro “Santiago”, de Garcia Lorca, em tradução de William Agel de Mello.

Além de ficcionista, ensaísta e linguista, autor de inúmeros dicionários que compõem um conjunto único, William Agel de Mello se revela exímio conhecedor da arte e da técnica da tradução, tanto na prática como na teoria. No ensaio introdutório às Obras Completas de Garcia Lorca aborda e examina as teorias e correntes a respeito do tema e discute os detalhes do trabalho que realizou. Grande conhecedor da vida do poeta espanhol, inclusive da consagrada biografia de Ian Gibson, sempre melhorada e ampliada em novas edições, fornece elementos importantes para quem pretenda conhecer melhor e apreciar a obra de Lorca. Destaca que a característica da obra do poeta é a genialidade e que nenhum outro, exceto Cervantes, mereceu até hoje tão copiosa bibliografia. Como se sabe, Federico Garcia Lorca foi assassinado numa noite tétrica, vítima da intriga e da intolerância dos carniceiros que tomavam conta da Espanha nos albores da Guerra Civil. 

Escrito por Enéas Athanázio, 13/04/2020 às 12h08 | e.atha@terra.com.br

MAIS QUE UMA GUERRA

Torres Pereira, radicado em Chapecó, viveu uma experiência rara. Nascido em Lisboa, onde residia, foi convocado, ainda muito jovem, para integrar a força expedicionária enviada à África para combater os rebeldes na guerra de independência de Moçambique. Colônia portuguesa (eufemisticamente denominada de província ultramarina), aquele país foi tomado por uma onda nacionalista que desejava a todo custo se desligar de Portugal. O governo português, tendo à frente o ditador Salazar, se recusava a abrir mão da colônia, alegando que a Constituição do país declarava unos os territórios da metrópole e das colônias, ainda que descontínuos. O povo percebia que se tratava de uma guerra perdida e que sua continuação implicaria em constantes perdas de vidas de jovens soldados enviados para uma missão destinada ao fracasso. Mas havia censura e o ditador insistia em manter o conflito.

Agora, depois de tantos anos, Torres Pereira decidiu rebuscar nos escaninhos da memória e publicar o livro “Mais que uma guerra” (Edição do Autor – Chapecó – 2019), revivendo dias sofridos nas selvas africanas às voltas com toda espécie de perigos. Trata-se de um relato muito vivo e coloquial, repassado de sentimento, que prende o leitor até a última página. Por outro lado, revela um profundo conhecedor da história de Portugal e suas possessões ultramarinas que foram se emancipando aos poucos e de forma inevitável. Como ressalta ele, só em 1960, pelo menos quinze “novas nações” proclamaram sua independência: Somália, Camarões, Togo, Sudão, Congo, Nigéria, Senegal, Madagascar, Daomé, Chade, Gabão e Mauritânia. Com o slogan de “A África será livre e unida” solicitava-se que a ONU incluísse em sua Assembléia Geral a questão do ultramar português e a independência de Angola. A intransigência em manter os domínios esbarrava no sentimento independentista que varria o mundo.

Na pele do personagem Arriaga, o autor relata o que foi a experiência por ele vivida, desde a partida no navio “Vera Cruz”, o desembarque em Moçambique e a primeira jornada em direção ao acampamento quando já encontram a estrada bloqueada com troncos e são surpreendidos com uma saraivada de tiros que vêm da mataria fechada. São os guerrilheiros anunciando sua presença. Mas chegam ilesos ao acampamento, depois de uma vigorosa resposta a tiros de metralhadora, e vivem em constante suspense e sujeitos a ferozes ataques. Ali permanecem, realizando as mais perigosas missões, convivendo com os ataques de surpresa, as minas terrestres, os incêndios provocados e as emboscadas. É ferido numa dessas ações e recolhido ao hospital. Logo se recupera e volta às atividades.

Mas a guerra está perdida. Os revoltosos dominam o norte do país, enquanto a companhia de Arriaga é rendida por outra e ele e seus amigos Cosme e Arouca são dispensados. A história segue seu curso e Moçambique é entregue à FRELIMO cujo chefe, Samora Machel, implanta a República Popular de Moçambique. O prometido referendum entre a população local não é realizado. Um violento sentimento anti-português explode no país e tudo que tem relação com Portugal é repudiado. Até estátuas homenageando figuras históricas são apeadas. Legiões de pessoas, em longas caravanas, deixam o país. Lourenço Marques, a capital, passa a se chamar Maputo.

O saldo da guerra é macabro. Foram milhares de jovens que perderam a vida, sofreram ferimentos de todos os tipos e sofreram os horrores de uma luta sem trégua em plena selva. Sem falar nos gastos com material bélico que poderiam ter melhor destino em favor do povo. Tudo graças ao criador do chamado Estado novo cujas diretrizes foram estabelecidas na Constituição salazarista por ele inspirada.

Por fim, como explicar tanto ódio aos portugueses? Vamos dar a palavra ao autor: “O que muito nos admira, é de que maneira, por séculos, Portugal conseguiu passar por bom menino na Guiné, Angola e Moçambique, sabendo-se que a realidade era outra: a começar pelo abandono e exploração das populações locais, que pouco mudou desde a época dos descobrimentos” (p. 29). E mais: “Só que não soubemos tirar proveito duma situação que tinha tudo para dar certo. A de dialogar mais e cuidar melhor das populações sob nossa jurisdição. A de dar um basta ao trabalho escravo nas grandes fazendas e implodir, de uma vez por todas, com a figura sinistra do latifundiário, escravocrata, melhor dizendo. Ao invés disso, que fizemos? Preferimos não prestar a devida atenção a esses e outros problemas que se iam agigantando à medida que os anos passavam A acreditar que, o que, vínhamos fazendo há séculos de errado, era o certo” (pp. 40/41).

A história não perdoou.

É interessante indagar se o exemplo de Moçambique serviu de lição a outros governantes. Parece-me que não.

O livro de Torres Pereira é recheado de memórias do autor, travestido em Arriaga, desde a infância.
É uma leitura que vale a pena.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/04/2020 às 08h56 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.