Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O CONTESTADO: CONVERGÊNCIAS E DIVERGÊNCIAS

Os historiadores consagraram o nome de Guerra do Contestado para designar o conflito ocorrido no Planalto entre 1912 e 1916. Nas minhas leituras a respeito, cheguei à conclusão de que se trata de uma designação imprópria. Tanto do ponto de vista jurídico como sociológico, o que aconteceu, na verdade, foi uma revolução e não uma guerra. De fato, o que caracteriza uma revolução é o movimento espontâneo, nascido de baixo para cima e com o objetivo de alterar pela força um statu quo que oprime ou prejudica as pessoas. Havia na região profundo mal-estar social decorrente das dificuldades econômicas dos moradores menos favorecidos, entregues ao abandono e submetidos aos desmandos dos latifundiários. Com o término da construção da ferrovia, grande contingente de trabalhadores braçais, os chamados arigós, foram demitidos, engrossando a caudal de desempregados que não tinham para onde ir. Agravou-se ainda mais a situação quando a Companhia Lumber, um dos braços do Sindicato Farquhar, deu início à expulsão dos posseiros que habitavam as terras recebidas do governo federal em troca da construção da estrada de ferro. Tudo isso, além da confusão decorrente da questão de limites entre Santa Catarina e o Paraná e o fanatismo religioso implantado pela longa pregação dos “monges” levou aquele povo à maior sublevação popular de nossa história. O povo da região, pelo que verifiquei, rotulava aqueles acontecimentos como a Revolta dos Jagunços, designação que me parece mais aproximada da realidade.

Há muita confusão a respeito do nome da grande madeireira, a segunda maior do país, só suplantada pela de Três Barras. Seu nome correto era Southern Brazil Lumber and Colonization Company. Mais tarde foi “incorporada” ao patrimônio nacional e depois privatizada em uma transação das mais suspeitas, segundo a imprensa da época.

O jornalista Paulo Ramos Derengoski, em livro muito conhecido, afirma que no chamado Combate do Irani, travado em 22 de outubro de 1912, pereceram 13 soldados e 1 alferes, omitindo o número de sertanejos mortos. Em outros autores, li que morreram 22 pessoas, enquanto alguns não conseguem precisar o número exato de vítimas. É uma questão em aberto (*)

Em relação aos personagens, muitas discrepâncias existem. Sobre Chiquinho Alonso, o mesmo autor acima citado afirma que se tratava de antigo tropeiro e havia liderado os “Doze pares de França.” Outros afirmam que ele fora “comandante de briga” de um dos redutos. Ora, corre a versão, ou lenda, de que ele teria liderado a invasão de Calmon quando tinha entre 16 e 17 anos de idade. Com um passado assim longo em outras atividades, não me parece que fosse tão jovem ao comandar a invasão; existe aí algo mal explicado. Por outro lado, sempre tive como certo, a partir de leituras, que o ataque a Calmon ocorreu em 5 de setembro de 1915, mas Derengoski o situa um ano antes, em 1914. É outro ponto a esclarecer.

Escreve ainda o mesmo jornalista que teriam sido usados dois aviões, pela primeira vez em conflito civil, para bombardear a área da luta, lançando panfletos e granadas. Os pilotos foram Ricardo Kirk e Dariolli, ambos italianos, segundo afirma. Em outras fontes, li que Kirk era tenente, portanto oficial das forças armadas nacionais, o que torna difícil entender que fosse italiano. Como se sabe, um dos aviões caiu, matando o referido Ricardo Kirk. Outros autores se referem a um único avião.

Em outra passagem, diz o mesmo autor que o capitão Matos Costa foi morto por Venuto Baiano quando se dirigia à serraria da Companhia Lumber que ardia em chamas. Sempre li que ele, na verdade, foi assassinado nas proximidades de São João dos Pobres, hoje Matos Costa. Os moradores mais antigos indicavam como palco da tragédia o local em que a antiga rodovia cruzava sobre a estrada de ferro. Em virtude desse crime, o Baiano teria sido degolado por Adeodato, o último jagunço, cognominado de Flagelo de Deus,

Por fim, afirma ele que o célebre bilhete de Chiquinho Alonso foi deixado dentro de uma locomotiva e não afixado numa parede, como em geral se afirma.

Como se vê, muitos são os aspectos duvidosos e que precisam de maior esclarecimento.

_____________________
(*) “O desmoronamento do mundo jagunço”, de Paulo Ramos Derengoski, Florianópolis, Fundação Catarinense de Cultura, 1986.

Escrito por Enéas Athanázio, 12/02/2019 às 12h55 | e.atha@terra.com.br

GUERREIRO DO POVO

Ao terminar a leitura dos originais de “Lobato Letrador”, de Zoler Zoler (Betty Sanson), tive que respirar fundo. Leitor de Monteiro Lobato de longa data, devo reconhecer que jamais encontrei tão volumosa massa de informações e análises a respeito dele e sua obra como nestas compactas páginas (mais de 700).

Misto de biografia e ensaio, sem ser uma coisa ou outra, o livro é um enfoque sui generis de Lobato, sua obra e sua ação. Todas as fases de sua existência são evocadas, sempre lastreadas nos próprios textos da obra ou em sólidas fontes de informação, revelando preocupação com as datas e lugares para bem contextualizar os acontecimentos. Mostra o empenho do escritor na busca de uma expressão própria, individual e única, um estilo pessoal e inigualável. Revela a dedicação com que realizou a chamada obra adulta, procurando a linguagem que falasse ao leitor e o prendesse na leitura. E, mais tarde, ao perceber a penetração de sua literatura infantil, optar por ela, lamentando não ter escrito mais para as crianças.

O livro não se contenta em examinar a obra literária e o pensamento de Monteiro Lobato, o que já não seria pouco. Vai além. Comenta toda sua incansável atividade nos mais variados campos de ação. Evoca o Lobato escritor, fazendeiro-empreendedor, Promotor Público e advogado, jornalista, criador da literatura infantil brasileira, editor e fundador da indústria livreira, combatente pelo ferro e pelo petróleo, propagandista, tradutor, incentivador atuante de memoráveis campanhas em favor das florestas, do saneamento, das estradas, da difusão do livro e outras tantas. Enfim, um homem público sem cargos – como afirmou Edgard Cavalheiro.

As antecipações e premonições de Lobato, apontadas no correr do livro, são impressionantes. Sem conhecer Pedagogia, ele se adiantou a seus métodos mais modernos, tais como os pregava a Escola Nova, de Anísio Teixeira; sem conhecer Semiótica, intuiu suas lições, inclusive nos aspectos mais avançados, como o do sabor, ao imaginar o livro comestível, o livro-pão, que seria devorado após a leitura e poderia entrar tanto na casa do sábio como na do analfabeto. Para completar, foi precursor do Letramento, muito tempo antes do surgimento da própria palavra com tal sentido por volta de 1980. A centelha do gênio permitiu que seu olhar invadisse o futuro.

Acima de tudo, porém, a autora mostra que Lobato foi um educador, um professor, um letrador, e que sua preocupação permanente foi a de educar o seu povo. Em certa fase, depois de visitar uma escola, chegou a pensar que sua verdadeira vocação seria a de professor. Em suas iniciativas editoriais, muitas delas arriscadas para a época, avultava sempre o desejo de educar. Inundar o país de livros, interessar as pessoas pela leitura, empurrar o livro goela abaixo, como as mães faziam ao dar óleo de rícino às suas crianças. Porque – dizia ele – o livro faz homens e um país se faz com homens e livros. Para isso, mesmo escandalizando os mais conservadores, anunciava seus livros através dos jornais e usava táticas de “merchandising” então inusitadas, obtendo resultados impressionantes. Tratou de colocar seus livros diante dos olhos do leitor, em toda parte, fosse nas livrarias e nos açougues, nas vendas e nos verdureiros.

Como letrador, criou o método pessoal de ensinar brincando, de aprender sem esforço, de transmitir provocando a imaginação e a fantasia e de estudar sem sentir, e assim induzindo a criança à leitura. Graças a isso, sua literatura para crianças ganhou o país e o mundo. Condenava o horror dos livros escolares secos e áridos em que os alunos se viam obrigados a decorar nomes e datas que pouco diziam e pregava uma renovação que deixasse de lado o ultrapassado método da “decoreba” para o qual saber “era ter na ponta da língua.” Em conclusão, Lobato revolucionou o ensino sem entrar em sala de aula, como professor, salvo nas conferências em prol de suas campanhas, e que realizava com grande timidez. Como se não bastasse, inspirou nas crianças o espírito democrático através do ambiente libertário do Sítio do Picapau Amarelo, presidido por uma mulher sábia e iluminada, num exemplo inédito de valorização da mulher.

Para compor esse livro monumental, a autora examinou tudo que existe sobre Lobato em livros, teses, ensaios, revistas, jornais e na Internet. A bibliografia estudada é impressionante e creio que nada escapou. Mesmo trabalhos publicados em periódicos de pouco alcance ou por editoras regionais foram examinados e todos os autores identificados em breves currículos.

A leitura do livro vale como informação e recapitulação. Nele Lobato aparece por inteiro. Trata-se, enfim, de um livro para morar, como ele desejava que fossem os verdadeiros livros. Com ele, a autora traz uma contribuição sem precedentes aos estudos lobatianos.

Em quatro alentados volumes, publicados por Tagore Editora/Tupy Publishing, de Brasília, o livro foi lançado nos primeiros dias de 2019, ano em que a obra de Lobato caiu em domínio público.

Escrito por Enéas Athanázio, 04/02/2019 às 09h39 | e.atha@terra.com.br

PREMONIÇÃO

Afirmou um crítico que certos contos de autoria do escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899/1961) parecem não dizer nada e, no entanto, vão envolvendo o leitor num clima de tensão indescritível. Isso é obtido através de uma linguagem simples e direta, destituída de adjetivação desnecessária e, em geral, usando muitos diálogos, técnica em que ele foi mestre. O resultado não decorre do uso de vocábulos pesados ou carregados de sentido, mas de uma narrativa que se desenrola com a maior naturalidade, como se não estivesse preocupado em relatar coisa alguma.

É o que acontece, entre outros, em “Véspera de Batalha”, publicado no terceiro volume dos contos do autor, editados pela Bertrand Brasil (Rio de Janeiro – 2001). Ambientado em Madri, no correr da Guerra Civil Espanhola (1936/1939), da qual o escritor fazia a cobertura para a imprensa estrangeira, o conto retrata o pesado ambiente reinante, com as ações bélicas acontecendo no final da rua, os tiroteios espocando na esquina e os obuses abrindo buracos no chão. Hospedado em um apartamento do Hotel Flórida, situado na Plaza Callao, no centro da metrópole, Henry e sua equipe estão empenhados em realizar um filme de propaganda para obter recursos a serem investidos na aquisição de ambulâncias. O apartamento vive em completa balbúrdia; todo mundo entra e sai, come e bebe, fuma e joga. Enfumaçado e quente, é frequentado pelas mais estranhas figuras, inclusive algumas desconhecidas. .

Num entardecer de abril, dirigindo-se ao célebre Bar Chicote, ponto de encontro de toda espécie de gente, com a intenção de tomar um trago, Henry se depara com Al Wagner, tenente do grupo de tanques e seu conhecido. Conseguem a muito custo, entre cotoveladas e empurrões no recinto lotado, lugares em uma mesa, tomam vinho e se põem a conversar. O tenente exibia um ar de absoluto cansaço, estava muito sujo e desmazelado, respingado de óleo e com as roupas manchadas. Havia participado naquele dia de uma batalha mal sucedida e, ao que parece, mal conduzida pelo comando, de resultados catastróficos, com muitas baixas do seu lado. Estava abalado, suas mãos tremiam e, talvez por nervosismo, só queria falar, falar, falar. Acaba declarando que terá que entrar em ação pela madrugada. Transparece, quase sem palavras, a premonição aflitiva de que irá morrer no dia seguinte. Isso não é expresso de forma explícita, mas fica latente.

Henry tudo faz para distraí-lo. Propõe um encontro com uma garota mas ele recusa, dizendo que se sentia muito sujo e necessitava de um banho. Rumam então ao apartamento do Hotel Flórida. Lá, como de costume, a balbúrdia se mantinha. Um grupo de aviadores jogava dados no chão, a dinheiro, entre gritos e discussões. Sentados numa cama, um jornalista inglês e uma moça espanhola bebericavam uísque. Sobre a mesa, imenso presunto era devorado aos poucos, em grandes nacos. Surge um aviador, careca e bêbado, carregando garrafas de champanhe. Gaba-se de ter derrubado um Junker alemão, enorme, e saltado de paraquedas, esforçando-se para não pousar no lado inimigo do rio. Não consegue esconder o impacto que lhe causou a tocha de fogo em que se transformou o aparelho que caía. Por diversas vezes, sob a insistência dos demais, tenta relatar o episódio mas não consegue e todos parecem desistir.

Al, enquanto isso, ouve música e depois se recolhe ao banheiro de onde sai mais limpo mas ainda com manchas no rosto. Devagar, em silêncio, começa a se preparar para retornar ao campo de batalha. Enverga a farda esbodegada, cobre-se com o quepe amassado, prende o revólver à perna. Nessa altura o olhar do leitor converge para ele de forma irresistível. Há um misto de preocupação, pena, comiseração, embora ninguém possa prever se a premonição se consumará.

Al Wagner se despede e sai pela noite. Ar cansado e fatalista, recusa a companhia dos que se oferecem para acompanhá-lo. Num rictus quase imperceptível, revela íntima irritação. Ganha a rua e vai solitário ao encontro de seu destino.

Quem não o conhecesse – diz o contista – imaginaria que o tenente estivesse irritado, muito irritado. “Ficamos irritados com muitas coisas, e morrer desnecessariamente é uma delas. Mas quem sabe se irritado não é mesmo o melhor estado em que devemos ficar quando vamos fazer um ataque?”

Escrito por Enéas Athanázio, 01/02/2019 às 10h40 | e.atha@terra.com.br

O Brasil profundo

Como tantos escritores brasileiros, Bernardo Élis está esquecido e sua obra quase não é lembrada. Por tudo isso, é muito bem-vindo o livro “O causo eu conto”, de autoria de Jaime Sautchuk, que aborda a figura do escritor e sua obra, quase toda ambientada no Brasil Central (Geração Editorial – S. Paulo – 2018). Jornalista, o autor da obra é catarinense de nascimento mas radicado em Goiás há muito tempo.

Nascido na então Vila de Corumbá de Goiás, Élis conheceu de perto a dura realidade da vida naqueles rincões nos começo do século passado. Observou desde criança a exploração a que os coroneis submetiam a população mais desfavorecida e as inevitáveis injustiças praticadas sem que houvesse a quem apelar. Ao mesmo tempo, na vida cotidiana, desde criança, esteve em contato com o modo de vida do povo, seus hábitos e costumes e, acima de tudo, com a linguagem característica que mais tarde registraria na sua obra. Vivendo entre a Vila natal e Vila Boa, atual Cidade de Goiás, capital do Estado naquela época, estudou nos colégios locais e depois se formou em Direito, embora jamais tenha exercido a advocacia. Muito cedo se manifestou nele o pendor para as letras; escrevia e lia com afinco. Enquanto isso, crescia dentro dele a revolta contra as injustiças que presenciava, o que o levaria a abraçar o socialismo por toda a vida, mesmo sofrendo as duras consequências, ainda mais após a instalação da ditadura, em 1964. Tornou-se professor secundário e superior e fez do magistério sua profissão.

Sua obra literária, desde o livro de estreia, “Ermos e Gerais”, publicado em 1944, sempre foi bem acolhida pela crítica e pelo público. Seguiram-se “Primeira Chuva”, “O Tronco”, “Caminhos e Descaminhos”, “Veranico de Janeiro”, “Caminhos dos Gerais” e outros livros, além de trabalhos publicados na imprensa. Tristão de Athayde, Antonio Candido, Mário de Andrade, Monteiro Lobato e Guimarães Rosa, entre outros, fizeram apreciações positivas de sua obra, acentuando que ela retratava com rara fidelidade o Brasil profundo da região central. Foi agraciado com prêmios e condecorações.

Episódio curioso de sua carreira, sempre lembrado em sua biografia, foi a candidatura e eleição para a Academia Brasileira de Letras (ABL). Para a mesma vaga concorria ninguém menos que o ex-presidente Juscelino Kubitschek cuja eventual eleição contrariava os interesses da ditadura que via nele um adversário perigoso e temido. O ex-presidente tivera o mandato de senador cassado e os direitos políticos suspensos; estava no ostracismo. A eleição para a Academia o colocaria outra vez em evidência e isso era inaceitável. O general Golbery, eminência parda do regime, entrou em campo e, por paradoxal que fosse, o governo engoliu a candidatura de Bernardo Élis, socialista confesso e militante, desde que JK fosse derrotado, como de fato aconteceu. Em consequência da situação criada, algumas perguntas ficaram no ar: Élis teria sido usado? Tinha consciência do papel que fazia? Não se constrangeu em servir de instrumento para a ditadura? São indagações que se fazem mas que não têm resposta. O fato é que foi eleito, tomou posse e participou da vida acadêmica, embora mais tarde se confessasse arrependido de ter ingressado na ABL.

Um detalhe do livro desperta a atenção do leitor. À página 102 é estampada uma fotografia das mais conhecidas e publicadas que tem a seguinte legenda: “Guerrilheiros do movimento liderado por Zé Porfírio em Formoso e Trombas de Goiás.” Essa revolta, ocorrida naquele Estado, se opunha à opressão dominante e contou com o apoio de Élis. Existe, no entanto, flagrante equívoco em relação à foto, uma vez que ela retrata pessoas envolvidas na chamada Guerra do Contestado (1912/1916), aqui em Santa Catarina. Prova disso é que no livro “Claro Jansson – O Fotógrafo do Contestado”, de Rosa Maria Tesser, a mesma foto é atribuída a Jansson e aparece à página 18 com a seguinte legenda: “Famosa foto dos vaqueanos da Serraria Lumber, em Três Barras (SC) – 1915.” Já no livro “Guerras e Batalhas”, publicado pela “Folha de S. Paulo”, a mesma foto aparece na capa e na página 6 com esta legenda: “Rebeldes da Guerra do Contestado – Claro Jansson (1877/1954)”. Por fim, no volume “Contestado”, publicado pelo Governo do Estado de Santa Catarina, em 2002, a mesma foto foi reproduzida na capa e na página 7 com esta legenda: “Bando de jagunços e fanáticos em demonstração de poder armado e animado por uma dupla de músicos. Nota-se a mistura étnica do grupo.”

Concluindo, parece-me fora de dúvida o equívoco do livro de Jaime Sautchuk. Por outro lado, sou propenso a acreditar que a foto retrata um grupo de rebeldes e não de vaqueanos da Lumber.

Escrito por Enéas Athanázio, 21/01/2019 às 13h00 | e.atha@terra.com.br

LITERATURA ACREANA

O território do atual Estado do Acre pertencia à Bolívia, como havia sido reconhecido pelo próprio Brasil em uma disputa daquele país com o Peru. Mas os seringueiros brasileiros, na maioria cearenses, haviam invadido em grande quantidade o território na extração do látex, criando uma situação de difícil solução, uma vez que não haveria como expulsá-los de lá. Os brasileiros entendiam que aquele chão lhes pertencia pelo direito de conquista e surgiram movimentos no sentido de sua anexação ao Brasil, entre eles o que foi chefiado pelo gaúcho Plácido de Castro. Em face da situação, o governo brasileiro entrou em ação, representado pelo Barão do Rio Branco, e, depois de longas negociações, o território foi incorporado ao Brasil. A Bolívia recebeu em troca uma indenização em dinheiro e outras vantagens, entre as quais a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, a célebre Ferrovia do Diabo, conforme foi estabelecido no chamado Tratado de Petrópolis. Foi criado então o Território Federal do Acre, sob administração direta do Governo Federal, mais tarde elevado a Estado, em 1962. A capital recebeu o nome de Rio Branco em homenagem ao hábil diplomata, e importante cidade do interior recebeu o nome de Plácido de Castro. O nome Acre deriva da palavra Aquiri, usada pelos índios para designar o rio que banha a capital. Os acreanos ou acrianos, como alguns preferem, sentem-se tão brasileiros como os que mais o sejam e vivem antenados ao que acontece no Brasil, como pude verificar quando lá estive, embora seja um Estado jovem. O português é falado em toda parte, ainda que com sotaque próprio, e ninguém mais se lembra do passado boliviano.

Funciona em Rio Branco a Universidade Federal do Acre (UFAC), ampla e bem aparelhada, e que mantém um campus no interior. O Estado conta com apreciável movimentação cultural, o que nos leva a uma pergunta inevitável: existe uma literatura acreana? A resposta é positiva e existem obras ambientadas no Acre de inegável valor literário.

O Prof. Antônio Martins de Araújo, um dos maiores linguistas brasileiros, em livro muito louvado pela crítica especializada (*), dedicou ensaios críticos a três obras fundamentais da literatura daquele Estado. São elas: “Galvez, Imperador do Acre”, de Márcio Souza, “Seringal”, de Miguel Jeronymo Ferrante, e “Terra Caída”, de José Potyguara. O primeiro é um livro que se tornou muito conhecido, inspirou um seriado televisivo e mereceu os aplausos da melhor crítica. Embora menos conhecidos, os dois outros também são de elevada qualidade literária e retratam a vida nos seringais e o fenômeno natural da terra caída, fato que muito me impressionou nas minhas andanças por lá.

Segundo o crítico, “Galvez, Imperador do Acre” é um folhetim picaresco que retrata a verdadeira história de Dom Luiz Galvez Rodrigues de Aria, aventureiro, conquistador e autor de curiosas sentenças e frases de efeito que profere. A narrativa se desenvolve com muito humor, registrando situações cômicas, frases com duplos sentidos, metáforas irônicas e variados recursos retóricos que o autor usa com mestria, tornando a leitura um exercício cativante. Entre as situações mais absurdas, surge o caso do nativo que havia se alfabetizado e morreu de convulsões cerebrais ao tentar ler a Summa Teologica de Santo Tomás de Aquino. Certo personagem era carrancudo como ditador latino-americano, frase que me traz à lembrança o general Médici. Depois de tantas lutas, conquistas e vitórias, o imperador compungido concluía: o meu império começa a entrar em crise como um dirigível abandonado que murchasse lentamente, O crítico submete o romance a uma análise ampla e completa, tanto no aspecto literário como gramatical.

Os dois outros romances acima referidos passam pelo mesmo crivo e são analisados nos aspectos literário e linguístico. Revelam a dureza da luta pela vida daqueles homens e mulheres que deixaram o inferno das secas para se embrenharem no inferno verde, afrontando todas as dificuldades daquele mundo regido pela ditadura das águas de que falava Dalcídio Jurandyr. Além da faceta literária, constituem documentos vivos e palpitantes de uma realidade muitas vezes desconhecida e por isso minimizada.

__________________________
(*) “A língua portuguesa no tempo e no espaço”,
Antônio Martins de Araújo, Brasília, Edições do
Senado Federal, Volume 242, 2017, p. 436 e seg.

Escrito por Enéas Athanázio, 14/01/2019 às 11h26 | e.atha@terra.com.br

Documento histórico e biográfico

Entre os nossos escritores, Celestino Sachet é o que mais se empenha no estudo de temas catarinenses. É autor de três livros fundamentais sobre a literatura praticada no Estado desde o início até os dias atuais. Neles, destaca os aspectos biográficos dos autores, analisa suas obras, as correntes a que se filiam e os pontos relevantes de sua produção. Em pacientes e exaustivas pesquisas, tirou do ostracismo autores só conhecidos em determinadas regiões e os revelou a um público mais numeroso. Publicou ainda inúmeros trabalhos esparsos sobre os escritores e a literatura catarinenses, além de alentado volume sobre o Contestado. No momento em que escrevo, dedica-se a um ensaio a respeito da história da Academia Catarinense de Letras, seus integrantes de ontem e de hoje, comentando as obras de cada um e reproduzindo trechos mais significativos delas. Como se vê, um trabalho de envergadura como jamais foi aqui realizado.

Desviando-se dos temas predominantes, o Prof. Sachet publicou uma obra que é ao mesmo tempo a história de uma personalidade e um resumo da história política do país e do Estado. Refiro-me ao livro “Ivo Silveira – Passos do Estadista”, publicado pela Editora da Unisul (Palhoça – 2018). A par da biografia de um dos políticos mais importantes de Santa Catarina, rastreando seus passos ao longo de toda a existência, o autor expõe um panorama sintético dos principais acontecimentos políticos que ocorreram no país nesse período. As crises, as marchas e contramarchas, as tentativas golpistas, a implantação da ditadura, o reencontro com a democracia e as eleições, tudo é rememorado em pinceladas fortes e oportunas para refrescar a memória do leitor. A melancólica impressão que fica, ainda mais para quem acompanhou os fatos com atenção, é de um país perdido, sem rumo e sem destino, que vai rodando em círculos e sem encontrar o caminho. Mas essa é uma face lateral do livro; importa salientar a carreira e as realizações do biografado.

Nascido em Palhoça, Ivo Silveira desde cedo se mostrou vocacionado para a atividade política. Bacharel em Direito, exerceu funções públicas de livre nomeação até se eleger prefeito da cidade natal, iniciando sua longa trajetória na vida pública. Em sucessivos mandatos, foi eleito para a Assembleia Legislativa do Estado, cuja presidência ocupou, culminando pela conquista do Governo do Estado, em renhido e disputado pleito em que derrotou Antônio Carlos Konder Reis, já no período ditatorial. Mais tarde foi candidato ao Senado, sendo vencido pelo mesmo adversário, que lhe deu o troco. Derrotas e vitórias são eventos inerentes à atividade política. Segundo ele, o desprestígio dos políticos em favor dos tecnocratas exerceu influência decisiva na sua derrota. No conjunto, porém, sempre foi bafejado pelas urnas.

Numa busca criteriosa, o biógrafo aponta as realizações de seu personagem, tanto no Legislativo como no Executivo. Na longa permanência no Parlamento exerceu com afinco suas funções, procurando sempre fortalecer o Legislativo como o mais democrático dos poderes. Já como Governador, empenhou-se em realizar um arrojado e moderno programa de realizações em todos os setores. Deu especial atenção ao Legislativo, ao Judiciário, à educação, à energia elétrica, às rodovias, à saúde, à construção da nova ponte, à agricultura e à pesca, aos bancos estaduais então existentes, ao turismo e ao saneamento, ao funcionalismo e tudo mais, para pinçar alguns itens de sua minuciosa prestação de contas. Recebeu inúmeras homenagens em reconhecimento à sua ação governamental e deixou o cargo com elevados índices de aprovação.

Segundo a opinião geral, Silveira foi um democrata e um homem tolerante e compreensivo, incapaz de retaliações contra adversários. Sachet transcreve significativos depoimentos nesse sentido. Segundo afirmou alguém, Ivo Silveira foi um homem sem medo de fazer o Bem e sem coragem para fazer o Mal.

O livro é escrito em estilo simples e direto, proporcionando uma leitura agradável, contendo também curioso material iconográfico. É, em suma, mais uma importante contribuição do operoso professor, crítico literário e historiador à preservação de nossa memória.

Escrito por Enéas Athanázio, 07/01/2019 às 10h27 | e.atha@terra.com.br



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade

Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br

Página 3
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O CONTESTADO: CONVERGÊNCIAS E DIVERGÊNCIAS

Os historiadores consagraram o nome de Guerra do Contestado para designar o conflito ocorrido no Planalto entre 1912 e 1916. Nas minhas leituras a respeito, cheguei à conclusão de que se trata de uma designação imprópria. Tanto do ponto de vista jurídico como sociológico, o que aconteceu, na verdade, foi uma revolução e não uma guerra. De fato, o que caracteriza uma revolução é o movimento espontâneo, nascido de baixo para cima e com o objetivo de alterar pela força um statu quo que oprime ou prejudica as pessoas. Havia na região profundo mal-estar social decorrente das dificuldades econômicas dos moradores menos favorecidos, entregues ao abandono e submetidos aos desmandos dos latifundiários. Com o término da construção da ferrovia, grande contingente de trabalhadores braçais, os chamados arigós, foram demitidos, engrossando a caudal de desempregados que não tinham para onde ir. Agravou-se ainda mais a situação quando a Companhia Lumber, um dos braços do Sindicato Farquhar, deu início à expulsão dos posseiros que habitavam as terras recebidas do governo federal em troca da construção da estrada de ferro. Tudo isso, além da confusão decorrente da questão de limites entre Santa Catarina e o Paraná e o fanatismo religioso implantado pela longa pregação dos “monges” levou aquele povo à maior sublevação popular de nossa história. O povo da região, pelo que verifiquei, rotulava aqueles acontecimentos como a Revolta dos Jagunços, designação que me parece mais aproximada da realidade.

Há muita confusão a respeito do nome da grande madeireira, a segunda maior do país, só suplantada pela de Três Barras. Seu nome correto era Southern Brazil Lumber and Colonization Company. Mais tarde foi “incorporada” ao patrimônio nacional e depois privatizada em uma transação das mais suspeitas, segundo a imprensa da época.

O jornalista Paulo Ramos Derengoski, em livro muito conhecido, afirma que no chamado Combate do Irani, travado em 22 de outubro de 1912, pereceram 13 soldados e 1 alferes, omitindo o número de sertanejos mortos. Em outros autores, li que morreram 22 pessoas, enquanto alguns não conseguem precisar o número exato de vítimas. É uma questão em aberto (*)

Em relação aos personagens, muitas discrepâncias existem. Sobre Chiquinho Alonso, o mesmo autor acima citado afirma que se tratava de antigo tropeiro e havia liderado os “Doze pares de França.” Outros afirmam que ele fora “comandante de briga” de um dos redutos. Ora, corre a versão, ou lenda, de que ele teria liderado a invasão de Calmon quando tinha entre 16 e 17 anos de idade. Com um passado assim longo em outras atividades, não me parece que fosse tão jovem ao comandar a invasão; existe aí algo mal explicado. Por outro lado, sempre tive como certo, a partir de leituras, que o ataque a Calmon ocorreu em 5 de setembro de 1915, mas Derengoski o situa um ano antes, em 1914. É outro ponto a esclarecer.

Escreve ainda o mesmo jornalista que teriam sido usados dois aviões, pela primeira vez em conflito civil, para bombardear a área da luta, lançando panfletos e granadas. Os pilotos foram Ricardo Kirk e Dariolli, ambos italianos, segundo afirma. Em outras fontes, li que Kirk era tenente, portanto oficial das forças armadas nacionais, o que torna difícil entender que fosse italiano. Como se sabe, um dos aviões caiu, matando o referido Ricardo Kirk. Outros autores se referem a um único avião.

Em outra passagem, diz o mesmo autor que o capitão Matos Costa foi morto por Venuto Baiano quando se dirigia à serraria da Companhia Lumber que ardia em chamas. Sempre li que ele, na verdade, foi assassinado nas proximidades de São João dos Pobres, hoje Matos Costa. Os moradores mais antigos indicavam como palco da tragédia o local em que a antiga rodovia cruzava sobre a estrada de ferro. Em virtude desse crime, o Baiano teria sido degolado por Adeodato, o último jagunço, cognominado de Flagelo de Deus,

Por fim, afirma ele que o célebre bilhete de Chiquinho Alonso foi deixado dentro de uma locomotiva e não afixado numa parede, como em geral se afirma.

Como se vê, muitos são os aspectos duvidosos e que precisam de maior esclarecimento.

_____________________
(*) “O desmoronamento do mundo jagunço”, de Paulo Ramos Derengoski, Florianópolis, Fundação Catarinense de Cultura, 1986.

Escrito por Enéas Athanázio, 12/02/2019 às 12h55 | e.atha@terra.com.br

GUERREIRO DO POVO

Ao terminar a leitura dos originais de “Lobato Letrador”, de Zoler Zoler (Betty Sanson), tive que respirar fundo. Leitor de Monteiro Lobato de longa data, devo reconhecer que jamais encontrei tão volumosa massa de informações e análises a respeito dele e sua obra como nestas compactas páginas (mais de 700).

Misto de biografia e ensaio, sem ser uma coisa ou outra, o livro é um enfoque sui generis de Lobato, sua obra e sua ação. Todas as fases de sua existência são evocadas, sempre lastreadas nos próprios textos da obra ou em sólidas fontes de informação, revelando preocupação com as datas e lugares para bem contextualizar os acontecimentos. Mostra o empenho do escritor na busca de uma expressão própria, individual e única, um estilo pessoal e inigualável. Revela a dedicação com que realizou a chamada obra adulta, procurando a linguagem que falasse ao leitor e o prendesse na leitura. E, mais tarde, ao perceber a penetração de sua literatura infantil, optar por ela, lamentando não ter escrito mais para as crianças.

O livro não se contenta em examinar a obra literária e o pensamento de Monteiro Lobato, o que já não seria pouco. Vai além. Comenta toda sua incansável atividade nos mais variados campos de ação. Evoca o Lobato escritor, fazendeiro-empreendedor, Promotor Público e advogado, jornalista, criador da literatura infantil brasileira, editor e fundador da indústria livreira, combatente pelo ferro e pelo petróleo, propagandista, tradutor, incentivador atuante de memoráveis campanhas em favor das florestas, do saneamento, das estradas, da difusão do livro e outras tantas. Enfim, um homem público sem cargos – como afirmou Edgard Cavalheiro.

As antecipações e premonições de Lobato, apontadas no correr do livro, são impressionantes. Sem conhecer Pedagogia, ele se adiantou a seus métodos mais modernos, tais como os pregava a Escola Nova, de Anísio Teixeira; sem conhecer Semiótica, intuiu suas lições, inclusive nos aspectos mais avançados, como o do sabor, ao imaginar o livro comestível, o livro-pão, que seria devorado após a leitura e poderia entrar tanto na casa do sábio como na do analfabeto. Para completar, foi precursor do Letramento, muito tempo antes do surgimento da própria palavra com tal sentido por volta de 1980. A centelha do gênio permitiu que seu olhar invadisse o futuro.

Acima de tudo, porém, a autora mostra que Lobato foi um educador, um professor, um letrador, e que sua preocupação permanente foi a de educar o seu povo. Em certa fase, depois de visitar uma escola, chegou a pensar que sua verdadeira vocação seria a de professor. Em suas iniciativas editoriais, muitas delas arriscadas para a época, avultava sempre o desejo de educar. Inundar o país de livros, interessar as pessoas pela leitura, empurrar o livro goela abaixo, como as mães faziam ao dar óleo de rícino às suas crianças. Porque – dizia ele – o livro faz homens e um país se faz com homens e livros. Para isso, mesmo escandalizando os mais conservadores, anunciava seus livros através dos jornais e usava táticas de “merchandising” então inusitadas, obtendo resultados impressionantes. Tratou de colocar seus livros diante dos olhos do leitor, em toda parte, fosse nas livrarias e nos açougues, nas vendas e nos verdureiros.

Como letrador, criou o método pessoal de ensinar brincando, de aprender sem esforço, de transmitir provocando a imaginação e a fantasia e de estudar sem sentir, e assim induzindo a criança à leitura. Graças a isso, sua literatura para crianças ganhou o país e o mundo. Condenava o horror dos livros escolares secos e áridos em que os alunos se viam obrigados a decorar nomes e datas que pouco diziam e pregava uma renovação que deixasse de lado o ultrapassado método da “decoreba” para o qual saber “era ter na ponta da língua.” Em conclusão, Lobato revolucionou o ensino sem entrar em sala de aula, como professor, salvo nas conferências em prol de suas campanhas, e que realizava com grande timidez. Como se não bastasse, inspirou nas crianças o espírito democrático através do ambiente libertário do Sítio do Picapau Amarelo, presidido por uma mulher sábia e iluminada, num exemplo inédito de valorização da mulher.

Para compor esse livro monumental, a autora examinou tudo que existe sobre Lobato em livros, teses, ensaios, revistas, jornais e na Internet. A bibliografia estudada é impressionante e creio que nada escapou. Mesmo trabalhos publicados em periódicos de pouco alcance ou por editoras regionais foram examinados e todos os autores identificados em breves currículos.

A leitura do livro vale como informação e recapitulação. Nele Lobato aparece por inteiro. Trata-se, enfim, de um livro para morar, como ele desejava que fossem os verdadeiros livros. Com ele, a autora traz uma contribuição sem precedentes aos estudos lobatianos.

Em quatro alentados volumes, publicados por Tagore Editora/Tupy Publishing, de Brasília, o livro foi lançado nos primeiros dias de 2019, ano em que a obra de Lobato caiu em domínio público.

Escrito por Enéas Athanázio, 04/02/2019 às 09h39 | e.atha@terra.com.br

PREMONIÇÃO

Afirmou um crítico que certos contos de autoria do escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899/1961) parecem não dizer nada e, no entanto, vão envolvendo o leitor num clima de tensão indescritível. Isso é obtido através de uma linguagem simples e direta, destituída de adjetivação desnecessária e, em geral, usando muitos diálogos, técnica em que ele foi mestre. O resultado não decorre do uso de vocábulos pesados ou carregados de sentido, mas de uma narrativa que se desenrola com a maior naturalidade, como se não estivesse preocupado em relatar coisa alguma.

É o que acontece, entre outros, em “Véspera de Batalha”, publicado no terceiro volume dos contos do autor, editados pela Bertrand Brasil (Rio de Janeiro – 2001). Ambientado em Madri, no correr da Guerra Civil Espanhola (1936/1939), da qual o escritor fazia a cobertura para a imprensa estrangeira, o conto retrata o pesado ambiente reinante, com as ações bélicas acontecendo no final da rua, os tiroteios espocando na esquina e os obuses abrindo buracos no chão. Hospedado em um apartamento do Hotel Flórida, situado na Plaza Callao, no centro da metrópole, Henry e sua equipe estão empenhados em realizar um filme de propaganda para obter recursos a serem investidos na aquisição de ambulâncias. O apartamento vive em completa balbúrdia; todo mundo entra e sai, come e bebe, fuma e joga. Enfumaçado e quente, é frequentado pelas mais estranhas figuras, inclusive algumas desconhecidas. .

Num entardecer de abril, dirigindo-se ao célebre Bar Chicote, ponto de encontro de toda espécie de gente, com a intenção de tomar um trago, Henry se depara com Al Wagner, tenente do grupo de tanques e seu conhecido. Conseguem a muito custo, entre cotoveladas e empurrões no recinto lotado, lugares em uma mesa, tomam vinho e se põem a conversar. O tenente exibia um ar de absoluto cansaço, estava muito sujo e desmazelado, respingado de óleo e com as roupas manchadas. Havia participado naquele dia de uma batalha mal sucedida e, ao que parece, mal conduzida pelo comando, de resultados catastróficos, com muitas baixas do seu lado. Estava abalado, suas mãos tremiam e, talvez por nervosismo, só queria falar, falar, falar. Acaba declarando que terá que entrar em ação pela madrugada. Transparece, quase sem palavras, a premonição aflitiva de que irá morrer no dia seguinte. Isso não é expresso de forma explícita, mas fica latente.

Henry tudo faz para distraí-lo. Propõe um encontro com uma garota mas ele recusa, dizendo que se sentia muito sujo e necessitava de um banho. Rumam então ao apartamento do Hotel Flórida. Lá, como de costume, a balbúrdia se mantinha. Um grupo de aviadores jogava dados no chão, a dinheiro, entre gritos e discussões. Sentados numa cama, um jornalista inglês e uma moça espanhola bebericavam uísque. Sobre a mesa, imenso presunto era devorado aos poucos, em grandes nacos. Surge um aviador, careca e bêbado, carregando garrafas de champanhe. Gaba-se de ter derrubado um Junker alemão, enorme, e saltado de paraquedas, esforçando-se para não pousar no lado inimigo do rio. Não consegue esconder o impacto que lhe causou a tocha de fogo em que se transformou o aparelho que caía. Por diversas vezes, sob a insistência dos demais, tenta relatar o episódio mas não consegue e todos parecem desistir.

Al, enquanto isso, ouve música e depois se recolhe ao banheiro de onde sai mais limpo mas ainda com manchas no rosto. Devagar, em silêncio, começa a se preparar para retornar ao campo de batalha. Enverga a farda esbodegada, cobre-se com o quepe amassado, prende o revólver à perna. Nessa altura o olhar do leitor converge para ele de forma irresistível. Há um misto de preocupação, pena, comiseração, embora ninguém possa prever se a premonição se consumará.

Al Wagner se despede e sai pela noite. Ar cansado e fatalista, recusa a companhia dos que se oferecem para acompanhá-lo. Num rictus quase imperceptível, revela íntima irritação. Ganha a rua e vai solitário ao encontro de seu destino.

Quem não o conhecesse – diz o contista – imaginaria que o tenente estivesse irritado, muito irritado. “Ficamos irritados com muitas coisas, e morrer desnecessariamente é uma delas. Mas quem sabe se irritado não é mesmo o melhor estado em que devemos ficar quando vamos fazer um ataque?”

Escrito por Enéas Athanázio, 01/02/2019 às 10h40 | e.atha@terra.com.br

O Brasil profundo

Como tantos escritores brasileiros, Bernardo Élis está esquecido e sua obra quase não é lembrada. Por tudo isso, é muito bem-vindo o livro “O causo eu conto”, de autoria de Jaime Sautchuk, que aborda a figura do escritor e sua obra, quase toda ambientada no Brasil Central (Geração Editorial – S. Paulo – 2018). Jornalista, o autor da obra é catarinense de nascimento mas radicado em Goiás há muito tempo.

Nascido na então Vila de Corumbá de Goiás, Élis conheceu de perto a dura realidade da vida naqueles rincões nos começo do século passado. Observou desde criança a exploração a que os coroneis submetiam a população mais desfavorecida e as inevitáveis injustiças praticadas sem que houvesse a quem apelar. Ao mesmo tempo, na vida cotidiana, desde criança, esteve em contato com o modo de vida do povo, seus hábitos e costumes e, acima de tudo, com a linguagem característica que mais tarde registraria na sua obra. Vivendo entre a Vila natal e Vila Boa, atual Cidade de Goiás, capital do Estado naquela época, estudou nos colégios locais e depois se formou em Direito, embora jamais tenha exercido a advocacia. Muito cedo se manifestou nele o pendor para as letras; escrevia e lia com afinco. Enquanto isso, crescia dentro dele a revolta contra as injustiças que presenciava, o que o levaria a abraçar o socialismo por toda a vida, mesmo sofrendo as duras consequências, ainda mais após a instalação da ditadura, em 1964. Tornou-se professor secundário e superior e fez do magistério sua profissão.

Sua obra literária, desde o livro de estreia, “Ermos e Gerais”, publicado em 1944, sempre foi bem acolhida pela crítica e pelo público. Seguiram-se “Primeira Chuva”, “O Tronco”, “Caminhos e Descaminhos”, “Veranico de Janeiro”, “Caminhos dos Gerais” e outros livros, além de trabalhos publicados na imprensa. Tristão de Athayde, Antonio Candido, Mário de Andrade, Monteiro Lobato e Guimarães Rosa, entre outros, fizeram apreciações positivas de sua obra, acentuando que ela retratava com rara fidelidade o Brasil profundo da região central. Foi agraciado com prêmios e condecorações.

Episódio curioso de sua carreira, sempre lembrado em sua biografia, foi a candidatura e eleição para a Academia Brasileira de Letras (ABL). Para a mesma vaga concorria ninguém menos que o ex-presidente Juscelino Kubitschek cuja eventual eleição contrariava os interesses da ditadura que via nele um adversário perigoso e temido. O ex-presidente tivera o mandato de senador cassado e os direitos políticos suspensos; estava no ostracismo. A eleição para a Academia o colocaria outra vez em evidência e isso era inaceitável. O general Golbery, eminência parda do regime, entrou em campo e, por paradoxal que fosse, o governo engoliu a candidatura de Bernardo Élis, socialista confesso e militante, desde que JK fosse derrotado, como de fato aconteceu. Em consequência da situação criada, algumas perguntas ficaram no ar: Élis teria sido usado? Tinha consciência do papel que fazia? Não se constrangeu em servir de instrumento para a ditadura? São indagações que se fazem mas que não têm resposta. O fato é que foi eleito, tomou posse e participou da vida acadêmica, embora mais tarde se confessasse arrependido de ter ingressado na ABL.

Um detalhe do livro desperta a atenção do leitor. À página 102 é estampada uma fotografia das mais conhecidas e publicadas que tem a seguinte legenda: “Guerrilheiros do movimento liderado por Zé Porfírio em Formoso e Trombas de Goiás.” Essa revolta, ocorrida naquele Estado, se opunha à opressão dominante e contou com o apoio de Élis. Existe, no entanto, flagrante equívoco em relação à foto, uma vez que ela retrata pessoas envolvidas na chamada Guerra do Contestado (1912/1916), aqui em Santa Catarina. Prova disso é que no livro “Claro Jansson – O Fotógrafo do Contestado”, de Rosa Maria Tesser, a mesma foto é atribuída a Jansson e aparece à página 18 com a seguinte legenda: “Famosa foto dos vaqueanos da Serraria Lumber, em Três Barras (SC) – 1915.” Já no livro “Guerras e Batalhas”, publicado pela “Folha de S. Paulo”, a mesma foto aparece na capa e na página 6 com esta legenda: “Rebeldes da Guerra do Contestado – Claro Jansson (1877/1954)”. Por fim, no volume “Contestado”, publicado pelo Governo do Estado de Santa Catarina, em 2002, a mesma foto foi reproduzida na capa e na página 7 com esta legenda: “Bando de jagunços e fanáticos em demonstração de poder armado e animado por uma dupla de músicos. Nota-se a mistura étnica do grupo.”

Concluindo, parece-me fora de dúvida o equívoco do livro de Jaime Sautchuk. Por outro lado, sou propenso a acreditar que a foto retrata um grupo de rebeldes e não de vaqueanos da Lumber.

Escrito por Enéas Athanázio, 21/01/2019 às 13h00 | e.atha@terra.com.br

LITERATURA ACREANA

O território do atual Estado do Acre pertencia à Bolívia, como havia sido reconhecido pelo próprio Brasil em uma disputa daquele país com o Peru. Mas os seringueiros brasileiros, na maioria cearenses, haviam invadido em grande quantidade o território na extração do látex, criando uma situação de difícil solução, uma vez que não haveria como expulsá-los de lá. Os brasileiros entendiam que aquele chão lhes pertencia pelo direito de conquista e surgiram movimentos no sentido de sua anexação ao Brasil, entre eles o que foi chefiado pelo gaúcho Plácido de Castro. Em face da situação, o governo brasileiro entrou em ação, representado pelo Barão do Rio Branco, e, depois de longas negociações, o território foi incorporado ao Brasil. A Bolívia recebeu em troca uma indenização em dinheiro e outras vantagens, entre as quais a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, a célebre Ferrovia do Diabo, conforme foi estabelecido no chamado Tratado de Petrópolis. Foi criado então o Território Federal do Acre, sob administração direta do Governo Federal, mais tarde elevado a Estado, em 1962. A capital recebeu o nome de Rio Branco em homenagem ao hábil diplomata, e importante cidade do interior recebeu o nome de Plácido de Castro. O nome Acre deriva da palavra Aquiri, usada pelos índios para designar o rio que banha a capital. Os acreanos ou acrianos, como alguns preferem, sentem-se tão brasileiros como os que mais o sejam e vivem antenados ao que acontece no Brasil, como pude verificar quando lá estive, embora seja um Estado jovem. O português é falado em toda parte, ainda que com sotaque próprio, e ninguém mais se lembra do passado boliviano.

Funciona em Rio Branco a Universidade Federal do Acre (UFAC), ampla e bem aparelhada, e que mantém um campus no interior. O Estado conta com apreciável movimentação cultural, o que nos leva a uma pergunta inevitável: existe uma literatura acreana? A resposta é positiva e existem obras ambientadas no Acre de inegável valor literário.

O Prof. Antônio Martins de Araújo, um dos maiores linguistas brasileiros, em livro muito louvado pela crítica especializada (*), dedicou ensaios críticos a três obras fundamentais da literatura daquele Estado. São elas: “Galvez, Imperador do Acre”, de Márcio Souza, “Seringal”, de Miguel Jeronymo Ferrante, e “Terra Caída”, de José Potyguara. O primeiro é um livro que se tornou muito conhecido, inspirou um seriado televisivo e mereceu os aplausos da melhor crítica. Embora menos conhecidos, os dois outros também são de elevada qualidade literária e retratam a vida nos seringais e o fenômeno natural da terra caída, fato que muito me impressionou nas minhas andanças por lá.

Segundo o crítico, “Galvez, Imperador do Acre” é um folhetim picaresco que retrata a verdadeira história de Dom Luiz Galvez Rodrigues de Aria, aventureiro, conquistador e autor de curiosas sentenças e frases de efeito que profere. A narrativa se desenvolve com muito humor, registrando situações cômicas, frases com duplos sentidos, metáforas irônicas e variados recursos retóricos que o autor usa com mestria, tornando a leitura um exercício cativante. Entre as situações mais absurdas, surge o caso do nativo que havia se alfabetizado e morreu de convulsões cerebrais ao tentar ler a Summa Teologica de Santo Tomás de Aquino. Certo personagem era carrancudo como ditador latino-americano, frase que me traz à lembrança o general Médici. Depois de tantas lutas, conquistas e vitórias, o imperador compungido concluía: o meu império começa a entrar em crise como um dirigível abandonado que murchasse lentamente, O crítico submete o romance a uma análise ampla e completa, tanto no aspecto literário como gramatical.

Os dois outros romances acima referidos passam pelo mesmo crivo e são analisados nos aspectos literário e linguístico. Revelam a dureza da luta pela vida daqueles homens e mulheres que deixaram o inferno das secas para se embrenharem no inferno verde, afrontando todas as dificuldades daquele mundo regido pela ditadura das águas de que falava Dalcídio Jurandyr. Além da faceta literária, constituem documentos vivos e palpitantes de uma realidade muitas vezes desconhecida e por isso minimizada.

__________________________
(*) “A língua portuguesa no tempo e no espaço”,
Antônio Martins de Araújo, Brasília, Edições do
Senado Federal, Volume 242, 2017, p. 436 e seg.

Escrito por Enéas Athanázio, 14/01/2019 às 11h26 | e.atha@terra.com.br

Documento histórico e biográfico

Entre os nossos escritores, Celestino Sachet é o que mais se empenha no estudo de temas catarinenses. É autor de três livros fundamentais sobre a literatura praticada no Estado desde o início até os dias atuais. Neles, destaca os aspectos biográficos dos autores, analisa suas obras, as correntes a que se filiam e os pontos relevantes de sua produção. Em pacientes e exaustivas pesquisas, tirou do ostracismo autores só conhecidos em determinadas regiões e os revelou a um público mais numeroso. Publicou ainda inúmeros trabalhos esparsos sobre os escritores e a literatura catarinenses, além de alentado volume sobre o Contestado. No momento em que escrevo, dedica-se a um ensaio a respeito da história da Academia Catarinense de Letras, seus integrantes de ontem e de hoje, comentando as obras de cada um e reproduzindo trechos mais significativos delas. Como se vê, um trabalho de envergadura como jamais foi aqui realizado.

Desviando-se dos temas predominantes, o Prof. Sachet publicou uma obra que é ao mesmo tempo a história de uma personalidade e um resumo da história política do país e do Estado. Refiro-me ao livro “Ivo Silveira – Passos do Estadista”, publicado pela Editora da Unisul (Palhoça – 2018). A par da biografia de um dos políticos mais importantes de Santa Catarina, rastreando seus passos ao longo de toda a existência, o autor expõe um panorama sintético dos principais acontecimentos políticos que ocorreram no país nesse período. As crises, as marchas e contramarchas, as tentativas golpistas, a implantação da ditadura, o reencontro com a democracia e as eleições, tudo é rememorado em pinceladas fortes e oportunas para refrescar a memória do leitor. A melancólica impressão que fica, ainda mais para quem acompanhou os fatos com atenção, é de um país perdido, sem rumo e sem destino, que vai rodando em círculos e sem encontrar o caminho. Mas essa é uma face lateral do livro; importa salientar a carreira e as realizações do biografado.

Nascido em Palhoça, Ivo Silveira desde cedo se mostrou vocacionado para a atividade política. Bacharel em Direito, exerceu funções públicas de livre nomeação até se eleger prefeito da cidade natal, iniciando sua longa trajetória na vida pública. Em sucessivos mandatos, foi eleito para a Assembleia Legislativa do Estado, cuja presidência ocupou, culminando pela conquista do Governo do Estado, em renhido e disputado pleito em que derrotou Antônio Carlos Konder Reis, já no período ditatorial. Mais tarde foi candidato ao Senado, sendo vencido pelo mesmo adversário, que lhe deu o troco. Derrotas e vitórias são eventos inerentes à atividade política. Segundo ele, o desprestígio dos políticos em favor dos tecnocratas exerceu influência decisiva na sua derrota. No conjunto, porém, sempre foi bafejado pelas urnas.

Numa busca criteriosa, o biógrafo aponta as realizações de seu personagem, tanto no Legislativo como no Executivo. Na longa permanência no Parlamento exerceu com afinco suas funções, procurando sempre fortalecer o Legislativo como o mais democrático dos poderes. Já como Governador, empenhou-se em realizar um arrojado e moderno programa de realizações em todos os setores. Deu especial atenção ao Legislativo, ao Judiciário, à educação, à energia elétrica, às rodovias, à saúde, à construção da nova ponte, à agricultura e à pesca, aos bancos estaduais então existentes, ao turismo e ao saneamento, ao funcionalismo e tudo mais, para pinçar alguns itens de sua minuciosa prestação de contas. Recebeu inúmeras homenagens em reconhecimento à sua ação governamental e deixou o cargo com elevados índices de aprovação.

Segundo a opinião geral, Silveira foi um democrata e um homem tolerante e compreensivo, incapaz de retaliações contra adversários. Sachet transcreve significativos depoimentos nesse sentido. Segundo afirmou alguém, Ivo Silveira foi um homem sem medo de fazer o Bem e sem coragem para fazer o Mal.

O livro é escrito em estilo simples e direto, proporcionando uma leitura agradável, contendo também curioso material iconográfico. É, em suma, mais uma importante contribuição do operoso professor, crítico literário e historiador à preservação de nossa memória.

Escrito por Enéas Athanázio, 07/01/2019 às 10h27 | e.atha@terra.com.br



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade