Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Por que ler Lobato?

Essa é uma interpelação que me fazem alguns dos que me honram com sua leitura. Qual o motivo para se dedicar à leitura de um escritor que faleceu em 1948, portanto há quase setenta anos, e cuja obra foi produzida, em boa parte, há um século? A resposta é simples, ainda mais que Monteiro Lobato (1882/1948) continua sendo um dos autores nacionais mais estudados e a bibliografia a seu respeito só rivaliza com as de Machado de Assis e Euclides da Cunha.

Vamos por partes. Em primeiro lugar, porque a obra de Lobato semeia cultura geral e transmite conhecimentos em variadas áreas no correr da leitura, sem qualquer pretensão pedagógica. Em “Idéias de Jaca Tatu”, por exemplo, ele desenvolve verdadeiro curso de artes plásticas, ministrando rudimentos de estética; em “Críticas e Outras Notas”, ele ministra noções de interpretação da obra literária; em “A Onda Verde” ele mostra a importância das florestas, do reflorestamento e da preservação de nossas matas. E assim em outros de seus livros.

Em segundo lugar, Lobato nos ensina a conhecer o Brasil, ou seja, a ser brasileiros. Não faz isso de forma professoral mas mostrando os fatos e inspirando o senso crítico do leitor. “O Escândalo do Petróleo” e “Ferro” são livros que todo brasileiro deveria ler, inclusive os entreguistas de plantão. Eles contêm lições fundamentais para quem deseja um país livre e soberano. O mesmo acontece em “Mr. Slang e o Brasil”, onde ele discute os mais variados problemas brasileiros.

Como se isso não bastasse, sua leitura nos ensina a escrever com clareza, precisão e elegância. Grande conhecedor da língua, leitor incansável de dicionários, ele conquistou um estilo muito pessoal, único e inigualável, imitado por muitos mas jamais alcançado.

Além disso, em sua obra está registrada uma imensa experiência de vida exercida com intensidade e nos mais diversos setores. Lobato foi um caso raro de escritor e homem de ação, a exemplo de Jack London, George Orwell, Ernest Hemingway e poucos outros. Não foi daqueles intelectuais que fecham a janela para o mundo. Basta lembrar que foi Promotor Público, fazendeiro-empreendedor, editor, livreiro, jornalista, tradutor, empresário, diplomata, crítico de artes e pintor. Isso tudo numa existência de apenas 66 anos. E tudo se refletindo na sua arte literária.

Embora constitua um lugar-comum, Lobato foi um homem adiante de seu tempo. Foi pedagogo sem conhecer Pedagogia; foi semioticista sem conhecer Semiótica; foi Letrador muito antes que essa palavra entrasse em cena com esse sentido e foi Professor sem jamais ter dado aulas. Mas em tudo que escrevia revelava o propósito de ensinar, semear livros, inundar o país de livros, educar o povo. “Uma criatura sem educação é como um terreno onde só há mato. A educação é que transforma esse terreno em canteiro de cultura das artes e ciências, úteis e belas” – falou ele pela boca da boneca Emília.

Para completar, a obra infanto-juvenil de Lobato constitui um imenso mundo de sonho, fantasia e imaginação que encanta a jovens e adultos. Nela há folclore, mitologia, lendas, humor, aventuras e as intermináveis narrações de Dona Benta Encerrabodes de Oliveira, a proprietária do Sítio do Picapau Amarelo, sentadinha na sua velha cadeira de pernas serradas e cercada por personagens inesquecíveis, como Pedrinho, Narizinho, Emília, Tia Nastácia e o Visconde de Sabugosa, sem falar nos mais estranhos visitantes.

Quem nunca leu Lobato perdeu um precioso momento de vida.

Escrito por Enéas Athanázio, 05/03/2018 às 11h50 | e.atha@terra.com.br

O fotógrafo do Contestado

Claro (Gustavo) Jansson (1877/1954) é considerado o fotógrafo da Guerra do Contestado, movimento revolucionário que agitou o Planalto Catarinense entre 1912 e 1916. A ele é atribuída a mais importante documentação fotográfica sobre aqueles acontecimentos, inclusive algumas das fotos mais conhecidas e que têm sido publicadas em diversos órgãos da imprensa, muitas vezes sem mencionar a autoria. Nascido na cidade de Hedemora, na Suécia, vem para o Brasil aos 14 anos de idade, em companhia dos pais, e vai morar no Paraná e, mais tarde, em Porto União da Victoria, então pertencente ao vizinho Estado. Inicia uma série de viagens, inclusive pela Argentina, e depois reside em Três Barras (SC), na qualidade de funcionário da Companhia Lumber (Sothern Brazil Lumber and Colonization Company). Recebe a patente de primeiro tenente, outorgada pelo presidente da República, e exerce as funções de delegado e juiz de paz. Por fim, transferido para Itararé, no Estado de São Paulo, continua prestando serviços à sucursal da Companhia Lumber, na Fazenda Morungava.

Vivia o Brasil um período conturbado do qual Claro foi testemunha, tudo registrando nas suas fotos. Durante a Guerra do Contestado esteve em vários campos de luta, travou conhecimento com muitos personagens envolvidos e fotografou locais e pessoas que participaram do conflito. Esteve no front, registrando in loco os fatos no fragor da luta. São muito conhecidas suas fotos sobre a barricada construída pela Lumber, em Calmon; a que fixou para sempre os “vaqueanos” dessa empresa em Três Barras; o desfile das tropas legais em Porto União da Victoria, rumando para a luta; o último dia de vida do Coronel João Gualberto saindo dessa cidade em direção ao Irani, em cujo combate pereceu; a força pública do Paraná aquartelada em Porto União da Victoria e numerosas outras. São fotos conhecidas de quantos se interessam pelo assunto. Registrou inclusive a célebre metralhadora, a “matadeira”, com a qual as forças legais pretendiam “costurar” os revoltosos em Irani e cujo enguiço seria fatal. Fixou também locais e pessoas que participaram de outros movimentos revolucionários do período.

As atividades da Companhia Lumber, em Três Barras, empenhada em devorar a imensidão de árvores que serrou, também foram documentadas por ele. As imensas pilhas de madeira, os poderosos guindastes e guinchos, o transporte das toras em velhos caminhões e carros de tração animal, as locomotivas pertencentes à ferrovia da própria empresa, nada escapou ao olhar arguto do fotógrafo, permitindo uma visão aproximada do que foi a ação da maior serraria da América Latina.

Numerosas fotos foram realizadas no estúdio do fotógrafo, como era de praxe na época, e outras tantas captaram instantâneos inspirados pelo momento. Assim, aparecem o coronel Gualberto, em pose oficial, a famosa curandeira e benzedeira Nhá Emígdia, funcionários americanos, graduados, da Lumber, o próprio Percival Farquhar, poderoso dono e senhor daquilo tudo, Henrique Wolland, o famoso Alemãozinho, suspeito de traição, militares, políticos, revolucionários, figurões, fotos de famílias, do próprio fotógrafo e seus familiares. Não poderiam faltar registros dos velhos trens da São Paulo-Rio Grande, depois rebatizada de Rede Viação Paraná-Santa Catarina (RVPSC). Há ainda excelentes fotos das pontes sobre o rio Iguaçu, em Porto União da Victoria, e sobre o rio Uruguai, em Marcelino Ramos. Aquela era considerada a mais longa dentre as congêneres da época; esta, em sua primeira versão, desabou e foi arrastada pela enchente. São fotos impressionantes.

Tudo isso e muito mais consta do belo livro-álbum “Claro Jansson – O fotógrafo do Contestado”, de autoria de Rosa Maria Tesser, publicado pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC) em 2016. É um memorial comemorativo dos 100 anos do final da Geurra do Contestado. A autora se valeu do livro “Clato Gustavo Jansson, o fotógrafo viajante”, de Vito d’Alessio, de entrevistas pessoais com a filha, Dorothy Jansson Moretti, dos acervos dos Arquivos Públicos de Três Barras, Canoinhas e do Paraná, além dos guardados da própria família do fotógrafo e de outras numerosas fontes que pesquisou com empenho. Nascida em Irani, o epicentro do Contestado, a autora é pedagoga com várias especializações e historiadora. Exerceu funções públicas na área cultural.

Nas cenas do cotidiano registradas por Jansson, um detalhe chama a atenção. Refiro-me ao aspecto miserável e andrajoso dos ervateiros, cujas fisionomias estampam visível tristeza, decorrente sem dúvida da desumana exploração a que estavam submetidos. Esse mesmo ar de desalento se vislumbra em outras pessoas do povo cujas efígies foram captadas pelo fotógrafo. Constituem, acredito eu, uma demonstração da miséria reinante no Planalto naquele período histórico, quando imperava a mais calamitosa exploração do homem pelo homem. Circunstância que estava na raiz dos acontecimentos e que impulsionou a sangrenta revolução.

É pena que o livro contenha alguns equívocos, inclusive com o mau uso da crase, o que é lamentável numa obra publicada pela entidade oficial da política cultural do Estado. Isso, porém, não lhe tira o valor histórico e documental.

Escrito por Enéas Athanázio, 26/02/2018 às 17h32 | e.atha@terra.com.br

Mundo Cão

 Paulo Valença é um escritor pernambucano que vem se projetando no meio literário. Além de criativo e engenhoso na divulgação de sua obra, escreve com fluência e é dotado de senso de observação e boa memória, requisitos indispensáveis ao ficcionista. Não se cansa de alimentar o intercâmbio com os colegas de ofício de todos os cantos, o que está ficando cada vez mais raro. Sua obra tem merecido o aplauso de escritores renomados, a exemplo de Leitão de Assis e Luiz Fernandes da Silva, entre outros.

Seu estilo é muito pessoal e característico. Econômico em palavras, às vezes chega a ser telegráfico, embora diga tudo que é necessário nas circunstâncias, nada havendo de mais ou de menos. Em consequência, a leitura de seus textos se torna ágil e amena.

É novelista e contista, tendo dado a público o volume artesanal “Eterna Esperança”, com ilustrações de Fagner Bezerra, publicado em 2017. É uma coletânea de trabalhos ficcionais (duas novelas e vários contos). Limito-me a comentar em breves apreciações a novela que dá título ao volume.

A novela em questão é um mergulho de cabeça no submundo do crime e das drogas, que o autor descreve com precisão e coragem. Envolve policiais, investigadores, traficantes, drogados e toda a fauna humana que gravita nesse meio obscuro onde a esperança vai se tornando cada vez mais remota, ainda que não desapareça. Num desses paradoxos em que é pródiga a existência humana, a filha do policial correto e honesto penetra no mundo dos drogados, lançando sobre os pais a sombra terrível de um futuro trágico. A tristeza e o sofrimento decorrentes da situação penetram a alma do leitor e levam-no a comungar com eles das incertezas e preocupações. Como se isso não bastasse, um de seus auxiliares de confiança é assassinado e sobre ele recai a suspeita de envolvimento no mundo da traficância. Como dizia Érico Veríssimo, a vida cria situações que superam a mais descabelada das ficções e o novelista pernambucano soube criar um desses paradoxos chocantes em que é mestra a vida.  “O Nestor – escreve ele – encontra-se magro, de cabeça branca, o rosto cortado por rugas, mais calado. . . Um velho!” A vida costuma cobrar seu preço aos que cumprem à risca seus deveres.

Quando acontece o assassinato à luz do dia, na via pública, todos fazem por ignorar e a vizinha fecha a janela. Não quer ver, não quer se comprometer, não quer testemunhar. É o retrato de um mundo cão, lamentável e rude, mas verdadeiro.

Impactante e comovente, a novela de Valença é dura mas reflete uma realidade que estamos acostumados a ver com frequência. E não existe melhor literatura que aquela captada da própria vida cotidiana.

Escrito por Enéas Athanázio, 19/02/2018 às 16h10 | e.atha@terra.com.br

Nilto Maciel

Nilto Maciel (1945/2014) foi um dos escritores mais dedicados e produtivos que conheci. Ler e escrever foram sempre, desde muito cedo, suas ocupações predominantes, ao passo que abominava as atividades rotineiras e cotidianas. Também não se dava bem com as entidades de escritores, academias literárias e grupos do gênero. Considerava-se um marginal no mundo literário, produzindo, divulgando, mantendo correspondência, inventando engenhosas maneiras de chegar ao leitor. Quase sempre sozinho. Foi romancista, contista, poeta e crítico literário. Publicou numerosos livros, recebeu muitos prêmios, participou de incontáveis coletâneas e aparecia com frequência em suplementos, revistas e jornais. Como ele próprio disse, “menos vivi do que fiei palavras...” (título de um de seus livros mais conhecidos).

Bacharel em Direito, foi funcionário da Câmara Federal, do Supremo Tribunal Federal e da Justiça do Distrito Federal. Nunca quis advogar; creio que não teria paciência para enfrentar juízes, cartórios, oficiais de justiça. Seu mundo era o gabinete de trabalho, escrevendo, corrigindo, revisando, cortando, acrescentando. “Não sou escritor por querer – escreveu ele. – Fui feito assim, desse jeito, como há abestados desse mesmo feitio, músicos, pintores, dançarinos, atores. Deus me quis escritor. Eu bem poderia ter sido apenas um advogado, um funcionário público, um açougueiro.”

Como revelou em muitos episódios, também não tolerava a conversa fiada, o jogar conversa fora, e nessas situações se fechava ou falava de maneira um tanto ríspida ou irônica. “Conversar sobre tempo de menino, de bola e de bila, eu já fiz muito. Quero falar de literatura. Outro assunto não me interessa.” Repetia isso abertamente a todos e o tempo todo, como depôs um amigo, o que lhe valeu antipatias e até inimizades. Recebia livros em quantidade mas, quando os considerava ruins, não os resenhava, alegando “falta de tempo, morte de parente próximo, incêndio em casa, paralisia nas mãos, cegueira momentânea, doença grave” – segundo um biógrafo. Assim evitava futuros ressentimentos.

Vivendo período de apertura financeira, chegou a abrir um bar e restaurante, tal como Monteiro Lobato fizera em Nova York. O resultado foi o mesmo para ambos: experiências mal sucedidas, deixando dívidas e dissabores. Como, aliás, era de se esperar. Não tolerava ser explorado e farejava de longe os que se aproximavam com segundas intenções. Solitário e marginal, também se recusava a participar de farras desbragadas. Dizia, então, que “encontrou Jesus, embora fosse ateu.” E assim se esquivava desses desregramentos.

Em 1976, com alguns amigos, lançou a revista “O Saco”, experiência das mais criativas e que alcançou grande repercussão. O periódico era apresentado envolvido em um saco de papel, o que contribuía para despertar a curiosidade. Creio que fui dos primeiros colaboradores da revista na região sul do país, com a publicação de meu conto “Formiga Correição”, bem apresentado e ilustrado. Mais tarde, em 1991, criou “Literatura: revista do escritor brasileiro”, com o ambicioso propósito de se tornar nacional, o que, acredito, alcançou, publicando autores e angariando leitores de todos os recantos do país. Integrei o Conselho Editorial desde o número inicial, ao lado de Emanuel Medeiros Vieira (catarinense), Dimas Macedo (cearense) e Uílcon Pereira (paulista). A revista tece 35 números publicados. O número 20 foi dedicado a mim, numa homenagem inesquecível, realizada no auditório da Associação Nacional de Escritores (ANE), em Brasília. Fui matéria de capa e foi publicada ampla entrevista minha ao escritor João Carlos Taveira. Em seguida, Nilto Maciel criou a Editora Códice. Embora se declarasse “doente de vlhice”, tão logo retornou a Fortaleza, depois de longos anos em Brasília, inventou o blog “Literatura sem fronteiras”, esmerado e bonito, que também foi bem recebido e publicou trabalhos meus.

Tive a satisfação de receber a visita de Nilto Maciel em minha casa, onde passamos juntos uma tarde inteira às voltas com um só e único assunto: a literatura. Nessa ocasião, em meu escritório, ele foi fotografado com um chapéu de vaqueiro, foto depois estampada em vários livros seus.

Em merecida homenagem ao talentoso e profícuo escritor, Raymundo Netto deu a público o livro “Nilto Maciel” (Edições Demócrito Rocha – Fortaleza – 2017), comovente e verídico retrato desse incansável batalhador de nossas letras. Desse livro me vali em várias passagens deste comentário. O autor merece o aplauso incontido de quantos conheceram o seu biografado.

Nilto Maciel faz muita falta. Oxalá cada Estado contasse com um só igual a ele!

Escrito por Enéas Athanázio, 14/02/2018 às 11h00 | e.atha@terra.com.br

Uma ficção sofisticada

Foi agradável surpresa receber o primeiro volume das Obras Completas de William Agel de Mello, escritor goiano, com amável dedicatória do autor. O livro contém os trabalhos de ficção por ele produzidos: dois romances e duas coletâneas de contos.

Destaca-se aos meus olhos o primeiro romance denominado “Epopeia dos Sertões”, que li estudando com a melhor das atenções. É uma obra que se pode considerar regionalista, uma vez que seria impossível transplantá-la para outro cenário sob pena de desfigurá-la por completo. Como diria o crítico Lauro Junkes, na sua conhecida divisão, é um regionalismo mais de fundo que de forma, uma vez que a linguagem empregada é castiça, escorreita e rica, não havendo abuso no emprego de expressões locais. É uma linguagem sofisticada. Em muitos trechos ela se aproxima da melhor prosa poética.

O texto revela um escritor que conhece a fundo os sertões. A paisagem, a geografia, os usos e costumes, a vegetação, os animais, a psicologia do povo que os habita,  as crenças, missas e rezas,  as doenças e os curandeiros, os crimes, vinganças e tocaias. Observador arguto e dono de excelente memória, nada escapa ao seu crivo. Registra em muitos passos os ditos, cantos e versos correntes no meio do povo. Descreve com precisão tudo que acontece, desde os personagens, coerentes e bem identificados, as reuniões e festas, os casamentos com todo seu ritual e, não poderiam faltar, as disputas políticas que acabam descambando para a guerra declarada.  

 O romance, porém, não fica nisso, embora já fosse suficiente para fazê-lo grande. É que o autor, homem de espantosa erudição, entrelaça sua trama com a mitologia grega, latina, germânica e até egípcia. Cada episódio importante pode ser comparado, num aprofundamento da leitura, a episódios míticos, o mesmo acontecendo com numerosos personagens que se afinam com seres da vasta e complexa mitologia. Também há referências sutis e alusões significativas a obras da literatura clássica universal. É uma leitura a ser feita em dois níveis, o literal e o de fundo. As numerosas notas explicativas feitas por Junito de Souza Brandão, expert no tema, indicam os momentos em que se verifica esse curioso entrelaçamento. Creio que é o mais categorizado intérprete da obra do autor. Com muita propriedade, Antônio Olinto se referiu aos mitos de William. “O que o narrador busca, e faz,– diz ele – é ligar o mito à realidade.” Todos esses elementos, conclui o mesmo autor, “tornam este cântico rural chamado “Epopeia dos Sertões” de uma força capaz de marcar a ficção brasileira desta segunda metade do Século XX.” E do novo século também, acrescentaria eu.

O romance tem merecido o incontido aplauso de leitores tão exigentes quanto se possa imaginar. “William Agel de Mello – afirmou Guimarães Rosa – é finíssima e formidavelmente dotado para levantar a incríveis zênites a nossa literatura – o que acho, acho, acho.” Jorge Amado, por sua vez, asseverou: “William Agel de Mello é, hoje, um dos melhores contistas brasileiros. “Epopeia dos Sertões” é um livro de grande força, que prende o leitor da primeira à última linha.” Já o referido Antônio Olinto não titubeia em afirmar que “é um dos melhores romances da literatura brasileira.” Medeiros e Albuquerque e Antônio Houaiss também se manifestaram de maneira enfática em favor do romance.

A obra do escritor de Goiás é oceânica. Além de se dedicar à ficção, é tradutor de numerosas obras, ensaísta, articulista e dicionarista. É reconhecido como destacado africanista. Elaborou cerca de vinte dicionários e sua dominação linguística é desde muito proclamada. Acima de tudo, porém, é um escritor dos mais responsáveis e exigentes. Considera seus livros como obras inacabadas, submetendo-os sempre a meticulosas revisões, sopesando com extremado critério cada palavra e cada detalhe. Talvez por isso tenha interrogado a si próprio: “Cabe indagar: não é terrível a sina do escritor?”

Para um despretensioso resenhista e divulgador de livros, comentar a obra de William Agel de Mello é uma temeridade. Mas, ao mesmo tempo em que me arrisco a fazê-lo, lamento não tê-lo conhecido antes e me debruçado sobre sua obra. Foi uma grande perda que agora tentarei compensar lendo seu livro de ponta a ponta.

 

Escrito por Enéas Athanázio, 05/02/2018 às 14h04 | e.atha@terra.com.br

O segredo das biografias

Tenho para mim que o biógrafo é um justiceiro porque ele se esconde por detrás da figura do biografado, cuja personalidade tenta absorver em detrimento da sua própria. Como escreveu alguém, é um esforço para não deixar morrer os nossos mortos. Câmara Cascudo escreveu certa vez que a tarefa do biógrafo é ressuscitadora porque torna o biografado uma “entidade viva e comunicante nos caminhos de nosso Entendimento.” Gênero difícil, exigindo intensa pesquisa, visão histórica e informação, o grande segredo da biografia é mostrar o biografado vivo, em ação, agindo e reagindo, pulsando, vivendo, enfim. E isso não é fácil, tanto que muitas biografias não o conseguem, não passando de relatos frios das ações de outrem.

Fabio de Sousa Coutinho se revela portador desses requisitos em seu livro “Lucia – Uma biografia de Lucia Miguel Pereira”, publicado por Outubro Edições (Brasília – 2017). Bem fundamentado, rico em elementos informativos, minucioso, escrito com sinceridade afetiva, o livro reconstitui passo a passo a existência e as realizações de uma das figuras femininas mais importantes da literatura nacional. Ficcionista, biógrafa, crítica literária e tradutora, a biografada chegou a ser considerada a Madame de Srael do século XX.  Em qualquer dos gêneros a que se dedicou, sua produção foi sempre bem acolhida pela crítica e pelos leitores.

Trabalhadora incansável, Lucia Miguel Pereira foi uma presença forte e constante no panorama cultural brasileiro de seu tempo. Entre suas maiores realizações, avulta a consagradora obra “Machado de Assis – Estudo crítico e biográfico”,  enaltecida como autêntica obra-prima e hoje com diversas edições, secundada pela não menos valiosa “A vida de Gonçalves Dias”, recuperando a trajetória do inditoso poeta dos Timbiras, falecido em trágico naufrágio quando já se avistava a terra natal. Ambas se constituem em marcos do gênero biográfico entre nós e conquistaram posição definitiva na estante nacional dedicada à arte biográfica.

Além disso, Lucia Miguel Pereira produziu romances, literatura infantil, ensaios, crítica literária em abundância, e organizou o “Livro do centenário de Eça de Queirós”, o que lhe custou um ano de incansável trabalho. Coordenou os serviços da biblioteca do MAM, do Rio de Janeiro, e ainda encontrou tempo para traduzir Proust, tarefa que realizou com extrema dedicação e exigência perfeccionista. Publicou ainda “Prosa de Ficção – História da literatura brasileira”, livro pelo qual tenho antiga e intensa predileção.

No terreno pessoal, Lucia foi uma mulher corajosa e de atitude. Numa época em que isso constituía um verdadeiro tabu, passou a viver com Octavio Tarquínio de Sousa, ministro do TCU e historiador, desquitado da primeira esposa e com quem se casou no Uruguai, como era de hábito nos tempos pré-divórcio. Com ele formou um casal unido e feliz, convivendo “até que a morte não os separe” – como diz o Autor. É que ambos pareceram juntos em acidente aéreo, quando retornavam de São Paulo, e seus corpos foram identificados com as mãos dadas e dedos entrelaçados. “Felizes os que chegam de mãos dadas, como se fosse o instante da partida”, escrevera o poeta Lêdo Ivo, como quem profetizava o triste desenlace. Foi a tragédia final de Lucia, já marcada por outras ao longo da existência.

Por ocasião do retorno de Santos Dumont ao Brasil, entre as homenagens planejadas, um grupo de intelectuais deveria sobrevoar o transatlântico “Ancona”, em que viajava o herói. Lucia foi convidada a integrar a comitiva, mas sua mãe vetou a presença dela, alegando que não ficaria bem uma moça viajar em meio a tantos varões. Foi a sorte da jovem, ou o destino. Como registrou a história, o avião despencou na Baía da Guanabara, matando todos seus ocupantes. Em face da tragédia, Santos Dumont pediu que todas as solenidades em sua honra fossem canceladas. Coincidência ou alerta do destino?

O livro contém valioso material iconográfico e relaciona a ampla bibliografia relacionada que foi objeto de detida consulta pelo Autor. Conta ainda com excelente prefácio de autoria do poeta Anderson Braga Horta. Está de parabéns Fábio de Sousa Coutinho por nos ter devolvido Lucia Miguel Pereira, rediviva e ativa.

Escrito por Enéas Athanázio, 29/01/2018 às 16h05 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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