Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

ESPANTO

O poeta Mário Quintana se dizia espantado quando relia o que havia escrito. Tratava-se, é claro, de uma “boutade”, uma vez que tudo que ele escreveu merece ser lido e relido. Eu me espanto com outras coisas, entre elas as declarações de alguns membros do atual governo. Algumas são assustadoras.

Não faz muitos dias, um cidadão indicado para algum cargo declarou através da televisão que índio não gosta de trabalhar. É uma declaração preconceituosa e falsa, evidenciando que ele nunca leu e nada sabe sobre índios. Uma declaração como essa fomenta o preconceito e contribui para alimentar a triste divisão que existe hoje na sociedade brasileira. O Brasil está tomado de preconceitos, muitas vezes carregados de ódio, contra negros, nordestinos, judeus, índios, moradores de rua, idosos, pobres e outros mais. Aquele brasileiro cordial de que falava Sérgio Buarque de Holanda não existe mais.

Darcy Ribeiro escreveu muito a respeito do trabalho indígena, tendo inclusive vivido no meio deles e acompanhado seu cotidiano. “Diários Índios” é um livro que merece ser lido por todo brasileiro. Outro que merece atenção, ainda mais específico, é “Trabalho Índio em Terras de Vera ou Santa Cruz do Brasil”, de autoria de José Martins Catharino. É um trabalho imenso, com 630 páginas, fundamentado numa bibliografia impressionante. Seu autor é um dos pioneiros nos estudos do Direito do Trabalho Rural, na época em que vigorou o respectivo estatuto. Neste livro ele surpreende, com base em rigorosas fontes, os indígenas brasileiros na época do descobrimento e examina o que aconteceu em seguida. Mostra o terrível e trágico equívoco dos europeus quando “atribuíram ao índio o defeito de não ser trabalhador.” É que, para eles, trabalho implicava em sedentarismo, horário, métodos, chefia etc., enquanto os índios sempre trabalharam – e muito! – mas de outra forma. Enquanto os europeus trabalhavam pela propriedade, para o mercado, pelo lucro e pela poupança, os índios não visavam nada disso. Aliás, Darcy Ribeiro observou que os índios não entendiam muito bem quando ele reservava comida para o dia seguinte; tratavam de comer enquanto tinham. A ideia de poupança era-lhes estranha.

O Prof. José Martins Catharino, no livro acima referido, expõe as variadas áreas de trabalho indígena: trabalho necessário à sobrevivência (caçador e coletor), trabalho culinário (alimentação), trabalho útil (construção de moradas e abrigos, confecção de vestuário e vasilhame), trabalho voluptuário (adornos, pintura do corpo, enfeites), trabalho para elaborar bebidas, chás e fumo, trabalho musical (confecção de flautas, apitos, outros instrumentos, aprendizado de cantos), trabalho desportivo (treinamento para aloites) e trabalho locomotor (confecção de jangadas, canoas e remos), além de inúmeros outros afazeres, como a confecção dos próprios instrumentos. Diante disso, conclui o mestre, o trabalho indígena não foi apenas constante mas árduo, ainda mais que não dispunham de tecnologia avançada. Portanto, a invasão branca provocou autêntica “desculturação indígena”, desorganizando a cultura local autêntica e conduzindo à sua destruição. Como enfatizou Luiz Luna, em seu clássico livro “Resistência do Índio à Dominação no Brasil”, a descoberta aconteceu no momento histórico crucial em que o índio evoluía da fase caçadora/coletora para a agricultura. O progresso acontecia de maneira normal tal como aconteceu com todos os demais povos.

Por tudo isso, o conhecimento de rudimentos de indigenismo é indispensável para evitar afirmações infelizes nestes tempos bicudos que vivemos.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/02/2020 às 12h40 | e.atha@terra.com.br

A PALAVRA ABSOLUTA

Diplomata, escritor e linguista, William Agel de Mello se tornou amigo íntimo de Guimarães Rosa. Ao ingressar na carreira diplomática, foi designado para o Serviço de Demarcação de Fronteiras, cujo chefe era ninguém menos que o autor do “Grande Sertão: Veredas.” Do convívio cotidiano brotou uma amizade que duraria até a morte prematura do grande escritor. Uma vez por semana comiam juntos em um dos restaurantes árabes próximos do Itamaraty. E, como se imagina, conversavam e conversavam.

Depois, William vai servir em Barcelona, como cônsul. Nessa época Rosa estava às voltas com a tradução de suas obras para o castelhano e a presença do amigo na Espanha não poderia ser mais oportuna. Escreve-lhe então um punhado de cartas que constituem uma preciosidade e que foram reunidas pelo destinatário num pequeno livro que é uma obra-prima pelo conteúdo e pela forma: “Cartas a William Agel de Mello”, publicado por Ateliê Editorial/Editora Giordano (S. Paulo – 2003).

As cartas têm a marca de Guimarães Rosa tanto pela linguagem como pela criatividade. “O que particulariza a obra de Guimarães Rosa é a linguagem – observa o destinatário das cartas. – Lançava mão do recurso às rimas, assonâncias e aliterações de forma sui generis. Com seu estilo personalíssimo, quebrava o princípio lógico, ia de encontro ao tradicionalismo, abominava o lugar-comum.” De fato, basta fixar o olhar sobre as cartas para enxergar Guimarães Rosa. E isso me faz lembrar do lançamento de “Grande Sertão: Veredas.” Segundo os críticos da época, o livro provocou um abalo sísmico na literatura daqueles dias. Os analistas ortodoxos ficaram desconcertados, perplexos, não sabendo se vaiavam ou aplaudiam. Também se percebe nas missivas a permanente busca da palavra exata para cada frase. Nada de semelhanças ou parecenças, haveria de ser precisa, insubstituível. Ou seja, a palavra absoluta.

Quanto ao conteúdo, as cartas são inigualáveis. Rosa inventa, cria, altera. Iô, Wi, Williãozinho, Williãozão, discipulérrimo, catalão de Goiás, provecto, conciliabulíssimo, discípulo inaceitável, probo e coroável, discipulante, barcelonês, eis alguns dos tratamentos que dispensa ao amigo distante. Mas trata também de assuntos pessoais e cobra ação para que William apresse editores e tradutores. Caso contrário, “renego-te, perespirio-te, desfraso-te, transblasfemo-te...Olha, hem?” E ficou esperando até que o outro “botasse isso a limpo.”

William contribuía com muito trabalho para a realização da obra do Mestre ou Maestro, como chamava o escritor. Lia em voz alta os textos enquanto Rosa, caneta na mão, ouvia e tomava notas, buscando o melhor resultado auditivo. (Como Monteiro Lobato também fazia). “Conforme a entonação, o Mestre interrompia a leitura, tomava notas – e depois modificava a frase ou a palavra. Dizia ele que era um “espírito” que o avisava para melhorar o texto. Sua eterna busca da perfeição, “a palavra absoluta.”

Surgem ainda fatos do dia-a-dia, referências a amigos, colegas e parentes, invocação de personagens da obra de William, acontecimentos do cenário mundial, recordações e saudades, muitas saudades do jovem amigo ao mesmo tempo ausente e presente. Trata-se, enfim, de um documento literário e biográfico sem igual do grande recriador dos sertões mineiros e goianos. Constitui ainda uma bela homenagem ao amigo mais jovem tantas e tantas vezes citado das mais carinhosas formas. 

Escrito por Enéas Athanázio, 10/02/2020 às 13h19 | e.atha@terra.com.br

CAMÕES NA RUA

A Thesaurus Editora, de Brasília, publicou um pequeno livro que é uma obra-prima na forma e no conteúdo. Trata-se da antologia “Camões na Rua”, contendo uma seleção da obra do grande poeta português Luís Vaz de Camões (1524/1580) e, pelo que me parece, integrante de uma série que contempla também outros autores. Organizada pelo poeta Anderson Braga Horta e contando com uma introdução do editor Victor Alegria, tem o formato de pocket book e excelente feição gráfica.

O ensaio/prefácio de autoria do organizador é modelar e nele fica evidente o seu domínio sobre a arte poética, seus segredos e a história da literatura portuguesa. Em dez páginas, Braga Horta esbanja conhecimento a respeito da vida e da obra do vate português, considerado o fixador de nossa língua. Assinala que Camões, “grande amoroso e gente de guerra”, teve uma vida aventurosa e sofrida, lutou na África e na Ásia, perdeu uma vista em combate, foi preso por diversas vezes e a mulher amada pereceu em naufrágio. Numa das celas em que ficou recluso teria composto “Os Lusíadas.” Enfatiza que “Camões não inventou a língua portuguesa” mas é pacífico “que lhe deu esplendor e matizes novos e como que a normatizou num corpus coeso e moderno.” A língua e a poesia de Camões, adverte com toda razão, “constituem uma força de coesão” que nos protege das “forças de dispersão” deste mundo populoso e tecnológico.

“Hoje o que nos preocupa – escreve Braga Horta – são os germes de dissolução, que tendem a pulverizar o ordenamento fora do qual o pensar pode tornar-se uma falácia, o belo uma coisa irreal, ininteligível ou piegas, o ético não mais que pruridos igualmente sentimentais, a nos afastarem das materialidades grosseiras que são a menina dos olhos dos deslumbrados com o que qualquer moeda pode adquirir. Temos de recorrer a Camões e os outros clássicos das literaturas lusófragas, ao invés de sepultá-los com pretextos de modernidade...”

Palavras sábias, merecedoras de muita atenção.

Preocupado com a má qualidade da língua falada nos dias atuais, o editor Victor Alegria afirma com razão “que praticamente há duas décadas há um profundo desprezo para melhorar o incentivo à língua bem falada.” Anota que as pessoas em geral e os jovens em particular não dominam mais que duas centenas de palavras, fato que é deveras assustador. Comenta a ausência de diálogo nas reuniões familiares e o isolamento cada vez maior das pessoas. Suas palavras são um atestado eloquente de preocupação com a realidade nacional, um hino de brasilidade partido de um português mais nacionalista e patriota que muitíssimos brasileiros natos. Victor Alegria, que não conheço em pessoa, já se faz credor de minha admiração.

Não preciso dizer que mergulhei na poesia de Camões depois de bom tempo. E nela reencontrei textos que, de tanto ler, acabei decorando. Entre os sonetos deparei com aquele que meu pai estava sempre a declamar: “Sete anos de pastor Jacó servia/ Labão, pai de Raquel, serrana bela; Mas não servia ao pai, servia a ela, / E a ela só por prêmio pretendia...” A desilusão e o conformismo de Jacó diante dos enganos de Labão são comoventes. E quem não se recorda de “Alma minha gentil, que te partiste/ Tão cedo desta vida descontente,/ Repousa lá no Céu eternamente/ E viva eu cá na terra sempre triste...” É de arrepiar! Outro, marcante e inesquecível: “Amor é fogo que arde sem se ver; / É ferida que dói e não se sente:/ É um contentamento descontente;/ É dor que desatina sem doer...”

E “Os Lusíadas”? Sempre que os leio tenho a sensação de marchar, tão perfeita é a cadência das rimas:

“As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia lusitana.
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana...”

Meus parabéns ao organizador e ao editor por trazerem Camões para a rua, colocando-o nas mãos dos leitores. Uma homenagem justa e merecida.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/02/2020 às 11h29 | e.atha@terra.com.br

UM CASAL AFINADO

Casados há muitos anos, Iracema M. Régis e Aristides Theodoro são escritores, poetas e jornalistas. Produzem em profusão e estão em constante agitação cultural. Apóiam-se mutuamente e lançam livros em vários gêneros, escrevem para os jornais e mantêm nutrido intercâmbio com colegas de ofício e leitores de todo o país. O Grande ABC, seu palco de origem, já se tornou pequeno para eles.

A incansável Iracema tem 29 títulos publicados, recebeu vários prêmios e sua obra tem sido analisada por muitos críticos, dentre os quais Marcelo Smeets, Nelly Novaes Coelho, Fernando Jorge, Dimas Macedo, Nelson Hoffmann, Manoel Onofre Jr., João Weber Griebeler e outros. Tive o prazer de prefaciar um de seus livros.

Agora ela lança a coletânea de contos que tem como título “A Menina que Gostava de Cemitério” (Futurama Editora – S. Paulo – 2019) reunindo 16 histórias, algumas bem curtas e outras mais extensas. O conto título se destaca pelo inusitado. É uma narrativa primorosa. Florisbela, conhecida por Flô, menina branca, de faces pálidas, indicava portar alguma anomalia mental, uma vez que gostava de enterros, velórios e cemitérios. Além disso, tratava de saber dos detalhes da morte. Como se vê, atitudes mórbidas e que despertavam a atenção dos que a conheciam. Para fugir aos maus tratos da mãe, a moça, numa atitude espantosa, passa a morar no cemitério, ainda que não abandonando o costume de frequentar velórios, enterros e missas de sétimo dia. O encontro com a narradora/autora que fecha o conto contém boa dose de humor negro. O conto põe a nu os imprevistos da mestra vida que, como dizia Érico Veríssimo, é capaz de gerar situações mais esdrúxulas que a mais descabelada das ficções.

Todos os demais contos são interessantes e merecem uma leitura atenta. São criativos e prendem a atenção do leitor.

Já o irrequieto Theodoro tem 21 obras publicadas em prosa e verso. Sua característica é uma linguagem desataviada e sem peias, polêmica e provocadora. Não teme cutucar a onça com vara curta. Alguns de seus livros levam títulos bem expressivos: “Não contribuirei com um só óbulo para a construção do novo mundo”, “O homem que liquidou um trovão a tiros de clavinote”, “Gargalhada na catedral”, “Funga funga no fuá” são bons exemplos. Leitor incansável e dono de excelente memória, tem uma visão panorâmica do cenário literário brasileiro e mundial. Também prefaciei um de seus livros.

Está publicando agora “O pitoresco na vida de grandes homens” (Futurama Editora – S. Paulo – 2019) reunindo vários ensaios muito curiosos e absorventes, São todos produtos de infindáveis leituras, pesquisas, anotações e reflexões. Alguns são inovadores, talvez inéditos, tanto que não me recordo de ter encontrado algo semelhante. Em “O fascínio de alguns escritores e outros artistas pelas cidades” ele mergulha no mundo literário em busca dos protestos amorosos de escritores e artistas pelas cidades e seu reflexo em suas obras. Mulheres na ótica de alguns escritores, nomes de mulheres que deram títulos a livros, homens famosos e seus apelidos, o diabo visto pelos homens, a gíria na língua portuguesa e o trabalho que deu título ao volume, o pitoresco na vida de grandes homens, além de outros são temas abordados com leveza, revelando um autor erudito e atento.

É um livro para ser lido com prazer. Com ele aprendi e recapitulei.

Minhas felicitações ao casal amigo. Faço votos de que continuem sempre afinados. 

Escrito por Enéas Athanázio, 27/01/2020 às 13h30 | e.atha@terra.com.br

LEAL E AS CIÊNCIAS CRIMINAIS

Escrever a respeito de um colega do Ministério Público a quem admiro de longa data e que, ainda por cima, é um amigo, pode se afigurar como algo suspeito. Mas, para quem tanto tem escrito sobre estranhos e nem sempre muito simpáticos, creio que não incidirei em pecado ao batucar algumas mal traçadas em homenagem a João José Leal.

Tijucano, dono de um sotaque típico daquelas paragens, Leal bacharelou-se pela Faculdade de Direito da UFSC em 1966, quando a ditadura estava em seu segundo ano. Manteve intensa atividade na política estudantil, tendo presidido o Diretório Acadêmico XI de Fevereiro. Desde cedo revelou inclinação para as Ciências Criminais e foi nesse campo que se especializou.

Ingressou no Ministério Público, andou pelo oeste do Estado e acabou por se fixar em Brusque. Foi Procurador-Geral de Justiça e se aposentou como Promotor de Justiça. Ao longo dessa caminhada cultivou com intensidade o Direito Penal, o Processo Penal e a Criminologia, além de temas correlatos, escrevendo e lecionando para inúmeras gerações de bacharéis, numerosos deles hoje profissionais na área do Direito.

Buscando constante aperfeiçoamento, fez curso de Especialista em Direito pela Universidade de Nice (França) e Mestrado em Ciências Criminológicas pela Universidade de Bruxelas (Bélgica), além de obter a livre-docência em nível de doutorado pela Universidade Gama Filho (Rio de Janeiro). Durante longos anos lecionou as disciplinas de sua especialidade na FURB, na UNIFEBE e na UNIVALI.

A par de suas atividades no Ministério Público e no magistério, nunca deixou de escrever, produzindo obras de envergadura e que foram aplaudidas pela crítica especializada. Entre seus livros, estão “Curso de Direito Penal”, “Crimes Hediondos”, “Direito Penal Geral” e “Controle Penal das Drogas.” São obras meticulosas, pensadas e fundamentadas, enfrentando inclusive temas que os juristas consideram “vexata quaestio.” Afora isso, escreveu inúmeros artigos para publicações especializadas, elaborou teses apresentadas em congressos discutindo temas complexos e palpitantes do momento vivido pelo país.

Seu pensamento se afinou sempre com as correntes mais humanitárias, assumindo posições críticas ao decrépito sistema penitenciário nacional. Advogou desde cedo pela adoção de um regime de semiliberdade para os condenados a penas curtas – a chamada prisão-albergue – no que foi apoiado pelo famoso jurista Alípio Silveira, considerado o “pai da prisão-albergue.” Nesse tópico pode ser apontado com justiça como um pioneiro. Além disso, tomou posições claras contra as absurdas absolvições dos matadores de mulheres adúlteras a pretexto de lavarem a honra com sangue, prática muito difundida, inclusive em nosso Estado, os chamados homicídios passionais. Tomou partido contra a tortura, mesmo quando inexistia lei penal tipificando o fato e batalhou pela melhoria de nosso sistema penitenciário. Seu pensamento, sempre coerente, foi na linha do humanismo e do respeito à condição humana, formando ao lado das correntes mais avançadas. É membro de importantes entidades dedicadas às Ciências Criminais.

Em Brusque, teve e ainda tem intensa participação comunitária, em especial no campo artístico e cultural.

Encerradas as atividades forenses e didáticas, Leal se tornou escritor. Já publicou dois livros de crônicas, um dos quais tive o prazer de prefaciar, e escreve todas as semanas para os jornais. Integra hoje a Academia Catarinense de Letras.

Depois de tudo que produziu, ele se define, com rara modéstia, como um cronista.

E com estas desataviadas linhas pago uma dívida afetiva ao colega e amigo. 

Escrito por Enéas Athanázio, 22/01/2020 às 18h10 | e.atha@terra.com.br

LAMPIÃO ANO A ANO

O cangaço foi um fenômeno típico do Brasil, sem similar no mundo ou na história. Forma de banditismo organizado, vicejou por um século, atingindo todos os Estados nordestinos. Teve como aliados os grandes espaços abertos, a ausência de cercas e estradas, a população rarefeita e a omissão do Estado. Donos de extraordinária coragem, astutos e cruéis, os cangaceiros formavam grupos poderosos e bem armados, invadiam vilas, pequenas cidades, fazendas e sítios isolados saqueando as propriedades e levando tudo que tivesse valor. Nessas incursões nada respeitavam e eliminavam quem se atrevesse a dificultar suas ações.

Lampião e Maria Bonita (Reprodução)

Muitos foram os bandos de cangaceiros que se tornaram famosos e entraram para a história. Nenhum, porém, alcançou a notoriedade nacional e até internacional como o grupo comandado por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião (1897/1898-1938). As façanhas do cangaceiro nascido em Serra Talhada, Estado de Pernambuco, correram o país e ocuparam grandes espaços da imprensa, inclusive de outros países, durante os vinte anos que durou sua carreira. Sua vida e suas ações, incluindo renhidos combates com as volantes policiais, fugas espetaculares, invasões arrojadas, atos de grande generosidade e de extrema crueldade, os misteriosos esconderijos onde se refugiava sempre despertaram a curiosidade de estudiosos do cangaço e da movimentada existência do cangaceiro. Em consequência, surgiu a respeito do tema uma imensa bibliografia que não cessa de crescer. Entre os livros mais interessantes que tenho encontrado está “A Misteriosa Vida de Lampião”, de autoria de Cicinato Ferreira Neto (Premius Editora – Fortaleza – 2010) e que acabo de ler com grande interesse.

Neste livro o autor faz uma abordagem diferente. Dedica um capítulo a cada ano de atividade de Lampião, cerca de vinte, registrando mês a mês as tropelias que praticou e outros eventos acontecidos com ele e seu grupo. Para tanto consultou imensa quantidade de obras, comparando, sopesando, jornais e revistas, literatura de cordel, mensagens e relatórios oficiais, sites e depoimentos. Trabalho hercúleo e que revela um pesquisador exigente. O livro também é rico em fotografias.

A narrativa tem início com o nascimento de Virgulino, em Vila Bela, atual Serra Talhada, sua infância na companhia dos pais lavradores e, pouco depois, suas atividades como almocreve. Surgem então as primeiras desavenças da família com os vizinhos, forçando inclusive a mudança dos Ferreira. Ainda jovem, Virgulino ingressa no bando do famoso cangaceiro Sinhô Pereira. Dizia ele que assim agia para vingar a morte do pai, assassinado pela polícia, fato muito controvertido. Quando Sinhô Pereira decide abandonar o cangaço e se exilar em local desconhecido, Lampião é designado como seu sucessor e assume o comando do grupo. Desde o início se revela um chefe competente, carismático, inteligente e grande estrategista, além de dono de uma coragem fora do comum. Seu bando prospera, chegando a contar com 100 integrantes, é temido em todo o Nordeste. Enfrenta as volantes em violentos combates, desafia os governos e, segundo comentários, chegou a enviar uma carta ao governador de Pernambuco propondo a divisão do Estado, ficando ele como dono e senhor do sertão. As invasões e saques são lucrativas e o grupo enriquece. Lampião é vítima de ferimentos, o mesmo acontecendo com sua companheira Maria Bonita. A mobilidade do grupo é fantástica, confundindo as inúmeras volantes policiais que o perseguiam. Suas atividades vão do Rio Grande do Norte à Bahia.

Com o passar do tempo, gera-se um mito em torno do cangaceiro. Para uns é generoso, protetor dos pobres, justiceiro, um Robin Hood das caatingas; para outros é um assassino frio e cruel, capaz das maiores atrocidades, vingativo e ladrão. É considerado invencível e indestrutível, tendo o corpo fechado. Oito vezes sua morte foi anunciada com estardalhaço, mas logo depois ele reaparecia em local inesperado e com toda a força. Os governos estaduais se exasperavam e exigiam que suas forças policiais exterminassem o bando de uma vez por todas. Estas, por sua vez, cometiam toda sorte de arbitrariedades contra aqueles que consideravam coiteiros ou colaboradores de Lampião. O Governo Vargas, depois de 1930, pressionava os interventores estaduais, considerando o cangaço uma vergonha nacional.

Os dados a respeito de Lampião são assustadores. Segundo estimativas, ele matou mais de 1000 pessoas, incendiou mais de 500 propriedades e matou mais de 5000 reses de seus inimigos. Participou de mais de 200 combates com a polícia e violentou mais de 200 mulheres. São informações imprecisas mas devem ter fundamento, considerando-se a violência inaudita com que praticava as invasões e os saques, além do longo período de tempo que durou sua carreira. Existem inúmeros relatos de crimes bárbaros envolvendo o cangaceiro e seu grupo.

Mas tudo tem um fim. No dia 28 de julho de 1938, cercado pela tropa do tenente João Bezerra, no local denominado Grota do Angico, em Sergipe, o grupo de Lampião foi atacado de surpresa e de madrugada. Foram mortos o próprio Lampião, Maria Bonita e mais 9 cangaceiros. Os restantes conseguiram fugir, o que muito me surpreende, uma vez que visitei o lugar em uma de minhas viagens e constatei que só havia uma saída pela qual a volante se aproximou. É um lugar feio, pedregoso, acanhado e com escassa vegetação. Lampião teria sido advertido sobre o perigo que rondava aquele acampamento. A morte de Lampião é apontada como o fim do cangaço. Seu sucessor, Corisco, sobreviveu por mais dois anos e se entregou a inaudita violência para vingar a morte do chefe.

O livro de Cicinato Ferreira Neto é ilustrativo e bem fundamentado. É pena que o uso da crase seja feito de forma equivocada do começo ao fim. Quanto ao título, ele me parece impróprio porque o autor desvendou a vida do cangaceiro mês a mês, não havendo para ele e para nós leitores qualquer mistério.

Escrito por Enéas Athanázio, 13/01/2020 às 12h18 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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O poeta Mário Quintana se dizia espantado quando relia o que havia escrito. Tratava-se, é claro, de uma “boutade”, uma vez que tudo que ele escreveu merece ser lido e relido. Eu me espanto com outras coisas, entre elas as declarações de alguns membros do atual governo. Algumas são assustadoras.

Não faz muitos dias, um cidadão indicado para algum cargo declarou através da televisão que índio não gosta de trabalhar. É uma declaração preconceituosa e falsa, evidenciando que ele nunca leu e nada sabe sobre índios. Uma declaração como essa fomenta o preconceito e contribui para alimentar a triste divisão que existe hoje na sociedade brasileira. O Brasil está tomado de preconceitos, muitas vezes carregados de ódio, contra negros, nordestinos, judeus, índios, moradores de rua, idosos, pobres e outros mais. Aquele brasileiro cordial de que falava Sérgio Buarque de Holanda não existe mais.

Darcy Ribeiro escreveu muito a respeito do trabalho indígena, tendo inclusive vivido no meio deles e acompanhado seu cotidiano. “Diários Índios” é um livro que merece ser lido por todo brasileiro. Outro que merece atenção, ainda mais específico, é “Trabalho Índio em Terras de Vera ou Santa Cruz do Brasil”, de autoria de José Martins Catharino. É um trabalho imenso, com 630 páginas, fundamentado numa bibliografia impressionante. Seu autor é um dos pioneiros nos estudos do Direito do Trabalho Rural, na época em que vigorou o respectivo estatuto. Neste livro ele surpreende, com base em rigorosas fontes, os indígenas brasileiros na época do descobrimento e examina o que aconteceu em seguida. Mostra o terrível e trágico equívoco dos europeus quando “atribuíram ao índio o defeito de não ser trabalhador.” É que, para eles, trabalho implicava em sedentarismo, horário, métodos, chefia etc., enquanto os índios sempre trabalharam – e muito! – mas de outra forma. Enquanto os europeus trabalhavam pela propriedade, para o mercado, pelo lucro e pela poupança, os índios não visavam nada disso. Aliás, Darcy Ribeiro observou que os índios não entendiam muito bem quando ele reservava comida para o dia seguinte; tratavam de comer enquanto tinham. A ideia de poupança era-lhes estranha.

O Prof. José Martins Catharino, no livro acima referido, expõe as variadas áreas de trabalho indígena: trabalho necessário à sobrevivência (caçador e coletor), trabalho culinário (alimentação), trabalho útil (construção de moradas e abrigos, confecção de vestuário e vasilhame), trabalho voluptuário (adornos, pintura do corpo, enfeites), trabalho para elaborar bebidas, chás e fumo, trabalho musical (confecção de flautas, apitos, outros instrumentos, aprendizado de cantos), trabalho desportivo (treinamento para aloites) e trabalho locomotor (confecção de jangadas, canoas e remos), além de inúmeros outros afazeres, como a confecção dos próprios instrumentos. Diante disso, conclui o mestre, o trabalho indígena não foi apenas constante mas árduo, ainda mais que não dispunham de tecnologia avançada. Portanto, a invasão branca provocou autêntica “desculturação indígena”, desorganizando a cultura local autêntica e conduzindo à sua destruição. Como enfatizou Luiz Luna, em seu clássico livro “Resistência do Índio à Dominação no Brasil”, a descoberta aconteceu no momento histórico crucial em que o índio evoluía da fase caçadora/coletora para a agricultura. O progresso acontecia de maneira normal tal como aconteceu com todos os demais povos.

Por tudo isso, o conhecimento de rudimentos de indigenismo é indispensável para evitar afirmações infelizes nestes tempos bicudos que vivemos.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/02/2020 às 12h40 | e.atha@terra.com.br

A PALAVRA ABSOLUTA

Diplomata, escritor e linguista, William Agel de Mello se tornou amigo íntimo de Guimarães Rosa. Ao ingressar na carreira diplomática, foi designado para o Serviço de Demarcação de Fronteiras, cujo chefe era ninguém menos que o autor do “Grande Sertão: Veredas.” Do convívio cotidiano brotou uma amizade que duraria até a morte prematura do grande escritor. Uma vez por semana comiam juntos em um dos restaurantes árabes próximos do Itamaraty. E, como se imagina, conversavam e conversavam.

Depois, William vai servir em Barcelona, como cônsul. Nessa época Rosa estava às voltas com a tradução de suas obras para o castelhano e a presença do amigo na Espanha não poderia ser mais oportuna. Escreve-lhe então um punhado de cartas que constituem uma preciosidade e que foram reunidas pelo destinatário num pequeno livro que é uma obra-prima pelo conteúdo e pela forma: “Cartas a William Agel de Mello”, publicado por Ateliê Editorial/Editora Giordano (S. Paulo – 2003).

As cartas têm a marca de Guimarães Rosa tanto pela linguagem como pela criatividade. “O que particulariza a obra de Guimarães Rosa é a linguagem – observa o destinatário das cartas. – Lançava mão do recurso às rimas, assonâncias e aliterações de forma sui generis. Com seu estilo personalíssimo, quebrava o princípio lógico, ia de encontro ao tradicionalismo, abominava o lugar-comum.” De fato, basta fixar o olhar sobre as cartas para enxergar Guimarães Rosa. E isso me faz lembrar do lançamento de “Grande Sertão: Veredas.” Segundo os críticos da época, o livro provocou um abalo sísmico na literatura daqueles dias. Os analistas ortodoxos ficaram desconcertados, perplexos, não sabendo se vaiavam ou aplaudiam. Também se percebe nas missivas a permanente busca da palavra exata para cada frase. Nada de semelhanças ou parecenças, haveria de ser precisa, insubstituível. Ou seja, a palavra absoluta.

Quanto ao conteúdo, as cartas são inigualáveis. Rosa inventa, cria, altera. Iô, Wi, Williãozinho, Williãozão, discipulérrimo, catalão de Goiás, provecto, conciliabulíssimo, discípulo inaceitável, probo e coroável, discipulante, barcelonês, eis alguns dos tratamentos que dispensa ao amigo distante. Mas trata também de assuntos pessoais e cobra ação para que William apresse editores e tradutores. Caso contrário, “renego-te, perespirio-te, desfraso-te, transblasfemo-te...Olha, hem?” E ficou esperando até que o outro “botasse isso a limpo.”

William contribuía com muito trabalho para a realização da obra do Mestre ou Maestro, como chamava o escritor. Lia em voz alta os textos enquanto Rosa, caneta na mão, ouvia e tomava notas, buscando o melhor resultado auditivo. (Como Monteiro Lobato também fazia). “Conforme a entonação, o Mestre interrompia a leitura, tomava notas – e depois modificava a frase ou a palavra. Dizia ele que era um “espírito” que o avisava para melhorar o texto. Sua eterna busca da perfeição, “a palavra absoluta.”

Surgem ainda fatos do dia-a-dia, referências a amigos, colegas e parentes, invocação de personagens da obra de William, acontecimentos do cenário mundial, recordações e saudades, muitas saudades do jovem amigo ao mesmo tempo ausente e presente. Trata-se, enfim, de um documento literário e biográfico sem igual do grande recriador dos sertões mineiros e goianos. Constitui ainda uma bela homenagem ao amigo mais jovem tantas e tantas vezes citado das mais carinhosas formas. 

Escrito por Enéas Athanázio, 10/02/2020 às 13h19 | e.atha@terra.com.br

CAMÕES NA RUA

A Thesaurus Editora, de Brasília, publicou um pequeno livro que é uma obra-prima na forma e no conteúdo. Trata-se da antologia “Camões na Rua”, contendo uma seleção da obra do grande poeta português Luís Vaz de Camões (1524/1580) e, pelo que me parece, integrante de uma série que contempla também outros autores. Organizada pelo poeta Anderson Braga Horta e contando com uma introdução do editor Victor Alegria, tem o formato de pocket book e excelente feição gráfica.

O ensaio/prefácio de autoria do organizador é modelar e nele fica evidente o seu domínio sobre a arte poética, seus segredos e a história da literatura portuguesa. Em dez páginas, Braga Horta esbanja conhecimento a respeito da vida e da obra do vate português, considerado o fixador de nossa língua. Assinala que Camões, “grande amoroso e gente de guerra”, teve uma vida aventurosa e sofrida, lutou na África e na Ásia, perdeu uma vista em combate, foi preso por diversas vezes e a mulher amada pereceu em naufrágio. Numa das celas em que ficou recluso teria composto “Os Lusíadas.” Enfatiza que “Camões não inventou a língua portuguesa” mas é pacífico “que lhe deu esplendor e matizes novos e como que a normatizou num corpus coeso e moderno.” A língua e a poesia de Camões, adverte com toda razão, “constituem uma força de coesão” que nos protege das “forças de dispersão” deste mundo populoso e tecnológico.

“Hoje o que nos preocupa – escreve Braga Horta – são os germes de dissolução, que tendem a pulverizar o ordenamento fora do qual o pensar pode tornar-se uma falácia, o belo uma coisa irreal, ininteligível ou piegas, o ético não mais que pruridos igualmente sentimentais, a nos afastarem das materialidades grosseiras que são a menina dos olhos dos deslumbrados com o que qualquer moeda pode adquirir. Temos de recorrer a Camões e os outros clássicos das literaturas lusófragas, ao invés de sepultá-los com pretextos de modernidade...”

Palavras sábias, merecedoras de muita atenção.

Preocupado com a má qualidade da língua falada nos dias atuais, o editor Victor Alegria afirma com razão “que praticamente há duas décadas há um profundo desprezo para melhorar o incentivo à língua bem falada.” Anota que as pessoas em geral e os jovens em particular não dominam mais que duas centenas de palavras, fato que é deveras assustador. Comenta a ausência de diálogo nas reuniões familiares e o isolamento cada vez maior das pessoas. Suas palavras são um atestado eloquente de preocupação com a realidade nacional, um hino de brasilidade partido de um português mais nacionalista e patriota que muitíssimos brasileiros natos. Victor Alegria, que não conheço em pessoa, já se faz credor de minha admiração.

Não preciso dizer que mergulhei na poesia de Camões depois de bom tempo. E nela reencontrei textos que, de tanto ler, acabei decorando. Entre os sonetos deparei com aquele que meu pai estava sempre a declamar: “Sete anos de pastor Jacó servia/ Labão, pai de Raquel, serrana bela; Mas não servia ao pai, servia a ela, / E a ela só por prêmio pretendia...” A desilusão e o conformismo de Jacó diante dos enganos de Labão são comoventes. E quem não se recorda de “Alma minha gentil, que te partiste/ Tão cedo desta vida descontente,/ Repousa lá no Céu eternamente/ E viva eu cá na terra sempre triste...” É de arrepiar! Outro, marcante e inesquecível: “Amor é fogo que arde sem se ver; / É ferida que dói e não se sente:/ É um contentamento descontente;/ É dor que desatina sem doer...”

E “Os Lusíadas”? Sempre que os leio tenho a sensação de marchar, tão perfeita é a cadência das rimas:

“As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia lusitana.
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana...”

Meus parabéns ao organizador e ao editor por trazerem Camões para a rua, colocando-o nas mãos dos leitores. Uma homenagem justa e merecida.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/02/2020 às 11h29 | e.atha@terra.com.br

UM CASAL AFINADO

Casados há muitos anos, Iracema M. Régis e Aristides Theodoro são escritores, poetas e jornalistas. Produzem em profusão e estão em constante agitação cultural. Apóiam-se mutuamente e lançam livros em vários gêneros, escrevem para os jornais e mantêm nutrido intercâmbio com colegas de ofício e leitores de todo o país. O Grande ABC, seu palco de origem, já se tornou pequeno para eles.

A incansável Iracema tem 29 títulos publicados, recebeu vários prêmios e sua obra tem sido analisada por muitos críticos, dentre os quais Marcelo Smeets, Nelly Novaes Coelho, Fernando Jorge, Dimas Macedo, Nelson Hoffmann, Manoel Onofre Jr., João Weber Griebeler e outros. Tive o prazer de prefaciar um de seus livros.

Agora ela lança a coletânea de contos que tem como título “A Menina que Gostava de Cemitério” (Futurama Editora – S. Paulo – 2019) reunindo 16 histórias, algumas bem curtas e outras mais extensas. O conto título se destaca pelo inusitado. É uma narrativa primorosa. Florisbela, conhecida por Flô, menina branca, de faces pálidas, indicava portar alguma anomalia mental, uma vez que gostava de enterros, velórios e cemitérios. Além disso, tratava de saber dos detalhes da morte. Como se vê, atitudes mórbidas e que despertavam a atenção dos que a conheciam. Para fugir aos maus tratos da mãe, a moça, numa atitude espantosa, passa a morar no cemitério, ainda que não abandonando o costume de frequentar velórios, enterros e missas de sétimo dia. O encontro com a narradora/autora que fecha o conto contém boa dose de humor negro. O conto põe a nu os imprevistos da mestra vida que, como dizia Érico Veríssimo, é capaz de gerar situações mais esdrúxulas que a mais descabelada das ficções.

Todos os demais contos são interessantes e merecem uma leitura atenta. São criativos e prendem a atenção do leitor.

Já o irrequieto Theodoro tem 21 obras publicadas em prosa e verso. Sua característica é uma linguagem desataviada e sem peias, polêmica e provocadora. Não teme cutucar a onça com vara curta. Alguns de seus livros levam títulos bem expressivos: “Não contribuirei com um só óbulo para a construção do novo mundo”, “O homem que liquidou um trovão a tiros de clavinote”, “Gargalhada na catedral”, “Funga funga no fuá” são bons exemplos. Leitor incansável e dono de excelente memória, tem uma visão panorâmica do cenário literário brasileiro e mundial. Também prefaciei um de seus livros.

Está publicando agora “O pitoresco na vida de grandes homens” (Futurama Editora – S. Paulo – 2019) reunindo vários ensaios muito curiosos e absorventes, São todos produtos de infindáveis leituras, pesquisas, anotações e reflexões. Alguns são inovadores, talvez inéditos, tanto que não me recordo de ter encontrado algo semelhante. Em “O fascínio de alguns escritores e outros artistas pelas cidades” ele mergulha no mundo literário em busca dos protestos amorosos de escritores e artistas pelas cidades e seu reflexo em suas obras. Mulheres na ótica de alguns escritores, nomes de mulheres que deram títulos a livros, homens famosos e seus apelidos, o diabo visto pelos homens, a gíria na língua portuguesa e o trabalho que deu título ao volume, o pitoresco na vida de grandes homens, além de outros são temas abordados com leveza, revelando um autor erudito e atento.

É um livro para ser lido com prazer. Com ele aprendi e recapitulei.

Minhas felicitações ao casal amigo. Faço votos de que continuem sempre afinados. 

Escrito por Enéas Athanázio, 27/01/2020 às 13h30 | e.atha@terra.com.br

LEAL E AS CIÊNCIAS CRIMINAIS

Escrever a respeito de um colega do Ministério Público a quem admiro de longa data e que, ainda por cima, é um amigo, pode se afigurar como algo suspeito. Mas, para quem tanto tem escrito sobre estranhos e nem sempre muito simpáticos, creio que não incidirei em pecado ao batucar algumas mal traçadas em homenagem a João José Leal.

Tijucano, dono de um sotaque típico daquelas paragens, Leal bacharelou-se pela Faculdade de Direito da UFSC em 1966, quando a ditadura estava em seu segundo ano. Manteve intensa atividade na política estudantil, tendo presidido o Diretório Acadêmico XI de Fevereiro. Desde cedo revelou inclinação para as Ciências Criminais e foi nesse campo que se especializou.

Ingressou no Ministério Público, andou pelo oeste do Estado e acabou por se fixar em Brusque. Foi Procurador-Geral de Justiça e se aposentou como Promotor de Justiça. Ao longo dessa caminhada cultivou com intensidade o Direito Penal, o Processo Penal e a Criminologia, além de temas correlatos, escrevendo e lecionando para inúmeras gerações de bacharéis, numerosos deles hoje profissionais na área do Direito.

Buscando constante aperfeiçoamento, fez curso de Especialista em Direito pela Universidade de Nice (França) e Mestrado em Ciências Criminológicas pela Universidade de Bruxelas (Bélgica), além de obter a livre-docência em nível de doutorado pela Universidade Gama Filho (Rio de Janeiro). Durante longos anos lecionou as disciplinas de sua especialidade na FURB, na UNIFEBE e na UNIVALI.

A par de suas atividades no Ministério Público e no magistério, nunca deixou de escrever, produzindo obras de envergadura e que foram aplaudidas pela crítica especializada. Entre seus livros, estão “Curso de Direito Penal”, “Crimes Hediondos”, “Direito Penal Geral” e “Controle Penal das Drogas.” São obras meticulosas, pensadas e fundamentadas, enfrentando inclusive temas que os juristas consideram “vexata quaestio.” Afora isso, escreveu inúmeros artigos para publicações especializadas, elaborou teses apresentadas em congressos discutindo temas complexos e palpitantes do momento vivido pelo país.

Seu pensamento se afinou sempre com as correntes mais humanitárias, assumindo posições críticas ao decrépito sistema penitenciário nacional. Advogou desde cedo pela adoção de um regime de semiliberdade para os condenados a penas curtas – a chamada prisão-albergue – no que foi apoiado pelo famoso jurista Alípio Silveira, considerado o “pai da prisão-albergue.” Nesse tópico pode ser apontado com justiça como um pioneiro. Além disso, tomou posições claras contra as absurdas absolvições dos matadores de mulheres adúlteras a pretexto de lavarem a honra com sangue, prática muito difundida, inclusive em nosso Estado, os chamados homicídios passionais. Tomou partido contra a tortura, mesmo quando inexistia lei penal tipificando o fato e batalhou pela melhoria de nosso sistema penitenciário. Seu pensamento, sempre coerente, foi na linha do humanismo e do respeito à condição humana, formando ao lado das correntes mais avançadas. É membro de importantes entidades dedicadas às Ciências Criminais.

Em Brusque, teve e ainda tem intensa participação comunitária, em especial no campo artístico e cultural.

Encerradas as atividades forenses e didáticas, Leal se tornou escritor. Já publicou dois livros de crônicas, um dos quais tive o prazer de prefaciar, e escreve todas as semanas para os jornais. Integra hoje a Academia Catarinense de Letras.

Depois de tudo que produziu, ele se define, com rara modéstia, como um cronista.

E com estas desataviadas linhas pago uma dívida afetiva ao colega e amigo. 

Escrito por Enéas Athanázio, 22/01/2020 às 18h10 | e.atha@terra.com.br

LAMPIÃO ANO A ANO

O cangaço foi um fenômeno típico do Brasil, sem similar no mundo ou na história. Forma de banditismo organizado, vicejou por um século, atingindo todos os Estados nordestinos. Teve como aliados os grandes espaços abertos, a ausência de cercas e estradas, a população rarefeita e a omissão do Estado. Donos de extraordinária coragem, astutos e cruéis, os cangaceiros formavam grupos poderosos e bem armados, invadiam vilas, pequenas cidades, fazendas e sítios isolados saqueando as propriedades e levando tudo que tivesse valor. Nessas incursões nada respeitavam e eliminavam quem se atrevesse a dificultar suas ações.

Lampião e Maria Bonita (Reprodução)

Muitos foram os bandos de cangaceiros que se tornaram famosos e entraram para a história. Nenhum, porém, alcançou a notoriedade nacional e até internacional como o grupo comandado por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião (1897/1898-1938). As façanhas do cangaceiro nascido em Serra Talhada, Estado de Pernambuco, correram o país e ocuparam grandes espaços da imprensa, inclusive de outros países, durante os vinte anos que durou sua carreira. Sua vida e suas ações, incluindo renhidos combates com as volantes policiais, fugas espetaculares, invasões arrojadas, atos de grande generosidade e de extrema crueldade, os misteriosos esconderijos onde se refugiava sempre despertaram a curiosidade de estudiosos do cangaço e da movimentada existência do cangaceiro. Em consequência, surgiu a respeito do tema uma imensa bibliografia que não cessa de crescer. Entre os livros mais interessantes que tenho encontrado está “A Misteriosa Vida de Lampião”, de autoria de Cicinato Ferreira Neto (Premius Editora – Fortaleza – 2010) e que acabo de ler com grande interesse.

Neste livro o autor faz uma abordagem diferente. Dedica um capítulo a cada ano de atividade de Lampião, cerca de vinte, registrando mês a mês as tropelias que praticou e outros eventos acontecidos com ele e seu grupo. Para tanto consultou imensa quantidade de obras, comparando, sopesando, jornais e revistas, literatura de cordel, mensagens e relatórios oficiais, sites e depoimentos. Trabalho hercúleo e que revela um pesquisador exigente. O livro também é rico em fotografias.

A narrativa tem início com o nascimento de Virgulino, em Vila Bela, atual Serra Talhada, sua infância na companhia dos pais lavradores e, pouco depois, suas atividades como almocreve. Surgem então as primeiras desavenças da família com os vizinhos, forçando inclusive a mudança dos Ferreira. Ainda jovem, Virgulino ingressa no bando do famoso cangaceiro Sinhô Pereira. Dizia ele que assim agia para vingar a morte do pai, assassinado pela polícia, fato muito controvertido. Quando Sinhô Pereira decide abandonar o cangaço e se exilar em local desconhecido, Lampião é designado como seu sucessor e assume o comando do grupo. Desde o início se revela um chefe competente, carismático, inteligente e grande estrategista, além de dono de uma coragem fora do comum. Seu bando prospera, chegando a contar com 100 integrantes, é temido em todo o Nordeste. Enfrenta as volantes em violentos combates, desafia os governos e, segundo comentários, chegou a enviar uma carta ao governador de Pernambuco propondo a divisão do Estado, ficando ele como dono e senhor do sertão. As invasões e saques são lucrativas e o grupo enriquece. Lampião é vítima de ferimentos, o mesmo acontecendo com sua companheira Maria Bonita. A mobilidade do grupo é fantástica, confundindo as inúmeras volantes policiais que o perseguiam. Suas atividades vão do Rio Grande do Norte à Bahia.

Com o passar do tempo, gera-se um mito em torno do cangaceiro. Para uns é generoso, protetor dos pobres, justiceiro, um Robin Hood das caatingas; para outros é um assassino frio e cruel, capaz das maiores atrocidades, vingativo e ladrão. É considerado invencível e indestrutível, tendo o corpo fechado. Oito vezes sua morte foi anunciada com estardalhaço, mas logo depois ele reaparecia em local inesperado e com toda a força. Os governos estaduais se exasperavam e exigiam que suas forças policiais exterminassem o bando de uma vez por todas. Estas, por sua vez, cometiam toda sorte de arbitrariedades contra aqueles que consideravam coiteiros ou colaboradores de Lampião. O Governo Vargas, depois de 1930, pressionava os interventores estaduais, considerando o cangaço uma vergonha nacional.

Os dados a respeito de Lampião são assustadores. Segundo estimativas, ele matou mais de 1000 pessoas, incendiou mais de 500 propriedades e matou mais de 5000 reses de seus inimigos. Participou de mais de 200 combates com a polícia e violentou mais de 200 mulheres. São informações imprecisas mas devem ter fundamento, considerando-se a violência inaudita com que praticava as invasões e os saques, além do longo período de tempo que durou sua carreira. Existem inúmeros relatos de crimes bárbaros envolvendo o cangaceiro e seu grupo.

Mas tudo tem um fim. No dia 28 de julho de 1938, cercado pela tropa do tenente João Bezerra, no local denominado Grota do Angico, em Sergipe, o grupo de Lampião foi atacado de surpresa e de madrugada. Foram mortos o próprio Lampião, Maria Bonita e mais 9 cangaceiros. Os restantes conseguiram fugir, o que muito me surpreende, uma vez que visitei o lugar em uma de minhas viagens e constatei que só havia uma saída pela qual a volante se aproximou. É um lugar feio, pedregoso, acanhado e com escassa vegetação. Lampião teria sido advertido sobre o perigo que rondava aquele acampamento. A morte de Lampião é apontada como o fim do cangaço. Seu sucessor, Corisco, sobreviveu por mais dois anos e se entregou a inaudita violência para vingar a morte do chefe.

O livro de Cicinato Ferreira Neto é ilustrativo e bem fundamentado. É pena que o uso da crase seja feito de forma equivocada do começo ao fim. Quanto ao título, ele me parece impróprio porque o autor desvendou a vida do cangaceiro mês a mês, não havendo para ele e para nós leitores qualquer mistério.

Escrito por Enéas Athanázio, 13/01/2020 às 12h18 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.