Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

A morte de Stálin

É curioso observar como os assuntos relacionados à extinta URSS e seus personagens continuam a interessar os pesquisadores, aumentando sem cessar a copiosa bibliografia existente. Entre os múltiplos livros que têm sido publicados, é significativo o lançamento de “A Morte de Stálin”, de Fabien Nury e Thierry Robin, editado pela Três Estrelas (S. Paulo – 2015). Em formato de álbum e tamanho grande, o volume em quadrinhos reconstitui os momentos finais e o funeral do líder soviético com base em pesquisas e documentos. Essa forma de apresentação visa alcançar o maior número de pessoas, inclusive aquelas não muito afeitas à leitura, o que parece ter conseguido a julgar pelo sucesso de vendas.

Os desenhos que preenchem as 150 páginas do volume são preciosos, mostrando os ambientes e os locais dos acontecimentos e, mais ainda, retratando os personagens com as características de cada um conforme são vistos em fotografias. Malienkov, Bulganin, Béria, Kaganovitch, Mikoyan, Kruschev e o próprio Stálin em seu costumeiro uniforme são retratados tal como costumávamos vê-los nos jornais da época. O ambiente pesado do Kremlin também transparece na caprichada reconstrução do episódio.

Como se sabe, depois de ouvir um concerto em gravação, Stálin foi acometido de violento derrame cerebral na datcha onde vivia, nos arrabaldes de Moscou. Estava deitado no chão, onde foi encontrado pela camareira. Ela lhe deu um calmante e informou aos que se encontravam no local sobre o fato. Começam, então, as maquinações encabeçadas por Béria, chefe da sinistra NKVD, e Nikita Kruschev, ambos sequiosos por suceder o enfermo na Secretaria-Geral do Partido, o posto mais importante na hierarquia soviética. Decidem, então, realizar uma reunião do comitê para tomar providências enquanto Stálin agoniza sem assistência médica. Passado muito tempo, convocam a equipe de médicos que faz o possível para salvar o doente. Mas era tarde e ele morreu praticamente à míngua. Béria nem sequer se dava o trabalho de esconder a alegria que sentia em face da possibilidade de galgar ao mais alto posto. O fato ocorreu na noite de 28 de fevereiro de 1953.

Acontecem, a seguir, acirradas discussões entre os membros do comitê. Como informar à população? Como evitar a vinda em massa de pessoas a Moscou ao tomarem conhecimento? Como realizar os funerais? Os debates se prolongam e o tempo se escoa. Afinal, depois de muito bate boca fixam as diretrizes e as providências. O Pravda noticia, enfim, que o coração do chefe havia parado de bater. Uma multidão acorre à capital, como se temia, e sua caminhada foi cortada pela força, resultando da repressão muitas vítimas pelas quais Kruschev, o encarregado, foi acusado. Após o apoteótico enterro, no qual não faltaram os discursos eloquentes, as crises e acessos de choro, os lamentos espetaculosos e outras manifestações explícitas de sentimentalismo, começam as conspirações e o jogo de forças dos quais a população nem sequer suspeitava. A imprensa do mundo todo registra o acontecimento em grandes manchetes.

Outro problema se apresenta: como se livrar de Béria, o facinoroso chefe da polícia política? Arma-se, então, nos corredores do Kremlin um verdadeiro golpe e ele é preso quando comparece à reunião, selando-se seu destino. Nikita Kruschev, ligado a Stálin e que havia chorado copiosamente por ocasião de sua morte, é sagrado Secretário-Geral. Figura curiosa, muito calvo e combativo, causou espanto ao tirar o sapato e bater com ele na tribuna de onde discursava numa reunião da ONU. Por surpreendente que fosse, Kruschev denunciaria os crimes de Stálin em público durante o XX Congresso do PC da URSS, fato que afastou simpatizantes de todo o mundo. Segundo os historiadores, nesse momento teve início o fim da URSS. Partidários notórios, entre os quais Jorge Amado e Pablo Neruda, se afastaram do partido.

Os autores reconstituem com precisão o episódio em que o filho de Stálin, general Djugachvili, acusa em altos brados os membros do comitê e os médicos de assassinarem o pai. Como tinha fama de devasso e beberrão, a acusação não foi levada a sério, embora ele fosse internado num estabelecimento próprio para a “reeducação” de recalcitrantes.

O livro focaliza um dos momentos mais graves da política mundial no auge da “guerra fria” e que teria intensa repercussão no futuro. Ali se encerrava um período sinistro da história e tinha início, a passos largos, a desintegração da URSS, colocando os Estados Unidos na posição de onipotência mundial e consolidando o capitalismo em seu apogeu.

Inspirado pelo livro, foi rodado um filme que vem fazendo grande sucesso e ao qual a imprensa tem dedicado inúmeras resenhas.

Escrito por Enéas Athanázio, 06/08/2018 às 10h28 | e.atha@terra.com.br

ARQUEOLOGIA LITERÁRIA

Como admirador de Lima Barreto (1881/1922) e de sua obra, fiquei deveras surpreso ao tomar conhecimento de que haviam sido identificados inúmeros textos de sua autoria, publicados sob pseudônimos, em revistas e jornais do início do século passado. Imaginava-se que tudo que havia escrito estava incorporado às suas Obras Completas, meticuloso trabalho publicado pela Editora Brasiliense, de São Paulo. Mas a notícia se confirmou e os referidos textos (artigos e crônicas) foram agora publicados no volume “Sátiras e Outras Subversões”, organizado por Felipe Botelho Corrêa e editado por Penguin/Cia. das Letras.

O organizador, professor da Universidade King’s College London, identificou nada menos que 164 textos, versando os mais variados temas, espalhados em periódicos do início do século passado, a maioria deles nas célebres revistas “Careta” e “Fon-Fon”, subscritos pelos mais estranhos pseudônimos. Num prolongado e paciente trabalho de arqueologia literária, comparando estilos, personagens, referências, citações. coincidências e outros detalhes, chegou à conclusão de que eram, sem a menor dúvida, saídos da pena do genial morador de Todos os Santos. Esses escritos eram mesmo desconhecidos dos biógrafos do escritor e especialistas em sua obra. Em longa e minuciosa apresentação, o organizador descreve o método usado e a técnica empregada nesse exaustivo e paciente trabalho, ainda mais no Brasil, onde as fontes de informação, acervos literários, arquivos históricos e documentais costumam ser bastante precários. Mas o livro foi editado, revelando aspectos desconhecidos nas preocupações do escritor carioca e assim enriquecendo sua obra.

Os oito capítulos em que se divide o volume procuram agrupar assuntos correlatos em cada um deles. Todos são interessantes, mas, na impossibilidade de comentá-los todos, destaco “Pistolões e costumes administrativos”, “A sã política é filha da moral e da razão”, “O país das vaidadezinhas” e “Para fazer o país feliz é preciso despovoá-lo pela miséria.” No primeiro deles o escritor fustiga os maus hábitos já então exercidos no reino da política e seus atores, mostrando como certas práticas são antigas e recorrentes no país. O pistolão, o tráfico de influência, as propinas, os jeitinhos e outros meios de burlar a lei são registrados com humor, satirizando os episódios e caricaturando os personagens, muitos deles reconhecíveis com facilidade pelos contemporâneos e, hoje em dia, através da história. Pinheiro Machado, o todo-poderoso da Velha República, está sempre presente e nunca é poupado. Era cortejado por muitos e odiado por outros tantos. Como se sabe, foi morto a punhaladas. Miguel Calmon, Coelho Neto, Epitácio Pessoa, Raul Soares, Urbano dos Santos, Auto de Sá e outros, todos figuras proeminentes da época, recebem verdadeiras sovas bem humoradas e são em geral postos no ridículo. Certo senador conhecido como “Rapadura” mereceu muitas referências pelo fato de que, em vez de encontrar seus eleitores nas urnas, ia procurá-los nos cemitérios, anotando nomes que depois exerciam o sufrágio em favor dele nas eleições a bico-de-pena! Raul Soares, mineiro de Araxá e que mal conhecia o mar, foi nomeado Ministro da Marinha. Apesar do absurdo dessa nomeação, o cronista não deixou de observar a elegante casaca com que tomou posse solene. Os partidos políticos pequenos, hoje considerados de aluguel, também foram abordados. Segundo o cronista, não tinham qualquer programa ou ideologia, tendência ou posição definida, porque seu objetivo único, em geral, consistia em agradar ao chefe e obter recompensas imediatistas. Diante de tudo isso, não é de admirar que a Revolução de 1930 tenha granjeado tantos apoiadores, derrubando o sistema vigente.

No segundo capítulo aqui destacado, Lima lembra a célebre máxima de Bossuet, segundo a qual a sã política é filha da moral e da razão, para concluir o quanto ela se encontrava desmoralizada entre nós. E, por fim, ao analisar as vaidadezinhas, ressalta o amor pelas aparências, ainda que falsas e dedicadas apenas à exibição pública. Não importa a dura e triste realidade, o que vale é a aparência. Em outro tópico, que parece escrito para os dias de hoje, ironiza os atos do governo que parecem desejar a morte dos miseráveis para despovoar o país e fazê-lo mais feliz. Arrocho salarial, aumento de impostos, retirada de auxílios aos menos favorecidos não é bem isso?

Sendo assim, é fácil entender porque o morador de Todos os Santos conquistou tantos desafetos. Mas, como afirmou um crítico, lê-se Lima Barreto para aprender a escrever, mas, acima de tudo, para aprender a ser brasileiro.

Escrito por Enéas Athanázio, 30/07/2018 às 10h01 | e.atha@terra.com.br

A VIDA E OS LIVROS

Com o surgimento da Internet muitos pregoeiros anunciaram o fim do livro impresso. Ledo engano. Nunca se publicaram tantos livros, no Brasil e no mundo, como nos dias de hoje. E o mais curioso é que inúmeras publicações são de livros volumosos, com numerosas páginas, justamente aqueles que diziam ser os primeiros a desaparecer porque os leitores não disporiam de tempo para enfrentá-los. Ainda bem que esse instrumento da cultura e do saber prossegue na sua faina de educar e esclarecer. Merecem pena os que não leem; não sabem o que perdem.

A importância da leitura na vida das pessoas vem merecendo constantes estudos e pesquisas, não apenas no aspecto cultural e pedagógico, mas também no sentido material. Recente pesquisa da Universidade Yale, noticiada pelos jornais, concluiu que a leitura de livros aumenta a longevidade das pessoas, mostrando que aqueles que são dados à leitura de livros têm redução de 20% no risco de mortalidade. Está aí mais um motivo significativo para incrementar o hábito da leitura, além de outros bem conhecidos.

Durante doze anos muitas pessoas foram observadas e os pesquisadores notaram “uma bela vantagem na sobrevivência daqueles que liam em média 30 minutos por dia, quando comparados a não leitores.” A pesquisa ainda afirma que “livros propiciam uma leitura imersiva, na qual o leitor consegue fazer conexões entre o que está sendo lido e o mundo ao redor, as possíveis aplicações daquilo na vida real.” É fácil distinguir, no contato pessoal, a sensível diferença entre uma pessoa que lê e aquela que não é dada à leitura. A diferença salta aos olhos nos primeiros contatos.

Destaca ainda o estudo que “vocabulário, concentração, pensamento crítico, empatia, comportamentos mais saudáveis e menos estresse” melhoram com a leitura costumeira e “podem levar a uma vida mais longa.” O livro melhora a saúde mental. É interessante notar que a leitura de jornais e revistas não tem o mesmo resultado positivo que a leitura do livro. A leitura informativa é mais pesada e, por isso, menos saudável. A leitura de livros, por outro lado, ensina métodos e cuidados para preservar a boa saúde, fato que também contribui para aumentar a longevidade.

Embora venha aumentando o número de leitores no Brasil, inclusive em face do crescimento da população, o brasileiro em geral lê pouco. Segundo levantamentos, 46% dos brasileiros alfabetizados não leem jornais e revistas e 73% só assistem televisão nos horários de folga. O gosto pela leitura vai decaindo no correr da idade e os mais idosos são os que menos têm o hábito da leitura. Ora, a leitura abre novos horizontes, sendo intuitivo que o Brasil seria um país melhor se os brasileiros lessem mais. Votariam com mais critério, não se deixariam embair por demagogos e salvadores da pátria, perceberiam com mais clareza as maquinações que a grande mídia esconde e não elegeriam tiriricas, romários, malufs, felicianos e quejandos. Mas a leitura é uma atividade a dois e exige atenção do leitor, concentração e um mínimo de imaginação para entender o texto. É mais fácil se entregar ao audiovisual, recebendo tudo feito e acabado, sem necessitar de imaginação ou de esforço.

No entanto, como já dizia Monteiro Lobato, um país se faz com homens e livros. Enquanto a população como um todo não for conscientizada disso, iremos aos trancos e barrancos pela estrada estreita da política rasteira.

Escrito por Enéas Athanázio, 23/07/2018 às 12h06 | e.atha@terra.com.br

A PÓS-DEMOCRACIA

Nestes últimos tempos, juristas e cientistas sociais em geral vêm manifestando crescente preocupação com a deteriorização da democracia no país. Segundo suas análises, a Constituição Federal de 1988 tem sofrido constantes violações, muitas vezes por aqueles a quem caberia defendê-la, colocando em risco o regime democrático conquistado a duras penas e abrindo as portas do poder para aventureiros do tipo salvadores da pátria, cuja posse poderá ter resultados catastróficos. Isso tem acontecido com frequência e é aceito com desinteresse pela sociedade, como se fosse algo natural e sem consequências. A descrença nos políticos em geral parece ter anestesiado o povo a ponto de aliená-lo do destino de sua própria liberdade. O ministro Ayres Brito chegou a afirmar que o Brasil vive uma pausa democrática.

Acentuam os estudiosos que o país está a um passo de se tornar um estado policial. A pretexto de combater a corrupção, - propósito muito justo e correto, - todas as violações constitucionais vem sendo praticadas com exasperante frequência. Os casos mais evidentes, que saltam aos olhos, são as conduções coercitivas ao arrepio da lei, as buscas e apreensões coletivas, as prisões para forçar delações premiadas, as condenações com base em meros indícios, as operações espetaculosas e bombásticas, as declarações públicas baseadas em convicções pessoais sem fundamento em elementos probatórios, a prisão sem o trânsito em julgado da sentença condenatória, a supressão de direitos sociais e por aí a fora. A melancólica conclusão é a de que existe uma democracia formal, um verniz democrático, mas o estado democrático de direito instituído pela Constituição não existe mais. Vigora um estado pós-democrático. Qualquer pessoa, mesmo sob vaga suspeita, está sujeita à execração pública sem remédio ou conserto mesmo quando inocentada. E o pensamento autoritário, tímido no início, tende a crescer de maneira incontrolável.

A crise econômica também tem servido de pretexto para medidas duvidosas do ponto de vista da legalidade e imorais sob um critério ético. Ora, as crises econômicas são cíclicas e inevitáveis no capitalismo em todos os tempos, como demonstra a história. Elas sobrevêm sob qualquer administração, seja de centro, de direito ou de esquerda porque decorrem da junção de fenômenos imprevisíveis num determinado momento. Enquanto batuco estas palavras, economistas de renome mundial prevêem uma recessão global a se desencadear no próximo ano. Esses fenômenos sempre foram usados pelos regimes de força para justificar arbitrariedades, aqui e alhures. Por outro lado, dizem os historiadores, muitos foram os casos em que falsas crises foram fabricadas. É que nesses momentos as grandes corporações tiram proveito econômico porque para elas pouco importam o povo, os governos e os regimes. Como não têm pátria, visam apenas o deus mercado e o lucro.

No estado pós-democrático o poder vai estendendo os seus tentáculos sem observar os rígidos limites constitucionais e os direitos individuais vão aos poucos se enfraquecendo, levando até mesmo à ruptura do estado de direito para dar lugar aos golpes. A história contemporânea da América Latina está repleta de exemplos, ensejando o surgimento de ditaduras violentas e sanguinárias.

Dentre múltiplos trabalhos a respeito do tema, merece atenção o livro “Estado Pós-Democrático”, de autoria de Rubens R. R. Casara, publicado pela Editora Civilização Brasileira (Rio – 2018). Magistrado, doutor em Direito e professor, o autor faz um eloquente alerta a respeito do que está acontecendo, a exemplo de uma convocação para a luta em defesa da democracia em perigo.

Na marcha em que vão aas coisas, tudo indica que marchamos direto para o abismo.

Escrito por Enéas Athanázio, 16/07/2018 às 09h52 | e.atha@terra.com.br

A MORTE DE LORCA

As obras de arte, em sua maioria, situam-se entre as medianas. Em proporção ao que é produzido, apenas uma minoria se destaca pela perfeição e pela qualidade estética. O mesmo acontece no terreno das letras. Dentre milhares de obras publicadas, bem poucas atingem os níveis mais elevados e se transformam em verdadeiros monumentos. Acredito que, sem exagerar, entre estas se pode incluir “Federico García Lorca – A biografia”, de autoria de Ian Gibson, que a Editora Globo publicou em nova edição, traduzida por Augusto Klein (S. Paulo – 2014).

Num trabalho meticuloso, fundamentado em rigorosas fontes, como costumam ser os ensaios do gênero biográfico americanos, o autor rastreia os passos do poeta, dramaturgo, compositor, pianista, pintor e cantor desde o nascimento em Fuente Vaqueros até sua trágica morte em Granada, na Espanha. Lorca tinha 38 anos de idade quando foi tragado pela inaudita violência dos golpistas de Franco, no início da Guerra Civil espanhola, num ato que chocou o meio intelectual de todo o mundo. O jovem poeta, dotado de uma personalidade fascinante e já reconhecido como verdadeiro gênio, alimentava muitos sonhos e planejava grandes realizações no campo da poesia, da dramaturgia e da música. Mas o obscurantismo e a intolerância, alimentados pela inveja e pelo ressentimento, não o pouparam, fuzilando-o em surdina, numa noite macabra, sepultando-o em cova rasa sem qualquer identificação. Depois, ante o alarme provocado pelo crime, tentaram esconder o fato, como costuma acontecer em regimes de força.

A breve existência do poeta foi pontilhada de sucessos. Sua figura carismática encantava onde fosse e suas palestras, declamações, exibições ao piano, entoando canções populares espanholas, eram sempre acompanhadas com o maior interesse. Fosse no país natal, em Nova York ou em Cuba, onde fez estágios, o sucesso sempre o acompanhava, como revela o biógrafo, seguindo passo a passo suas turnês artísticas e literárias. Em Nova York, ante um auditório sofisticado e exigente, foi aclamado com entusiasmo em mais de uma ocasião. Em Cuba, onde permaneceu uma temporada, o triunfo se repetiu. Apreciou a cultura afro, a música popular, a paisagem, a poesia e a culinária da Ilha, ainda que ela estivesse sob o tacão do sanguinário ditador Machado. Por onde passou deixou um ror de amigos e admiradores. É curioso que na estadia em Paris não tenha feito contato com a chamada geração perdida, da qual faziam parte Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald e outros, em plena efervescência na época. Também excursionou pela Argentina, onde fez amizade com Pablo Neruda, e pelo Uruguai, obtendo sempre grande sucesso nas apresentações. Em todas essas andanças estava produzindo, planejando, anotando, embora no fundo elas constituíssem uma fuga do ambiente opressor da Espanha. Planejava vir ao Brasil mas não lhe deram tempo.

Lorca muito havia escrito e falado em defesa da liberal-democracia, além de simpatizar com as vanguardas artísticas e literárias que brotavam na Europa. Para os falangistas que, nessa altura, haviam implantado o terror em Granada, essas constituíam posições de subversivos, vermelhos e comunistas. Em consequência, o poeta caiu em desgraça e ficou sob a mira implacável dos repressores. Tomado de intenso pavor, passou a viver na casa de amigos, mas não faltou quem o denunciasse, como costuma acontecer nessas ocasiões. Os dedo-duros estavam a postos. Conduzido à sede do Governo Civil, na tarde de 16 de agosto de 1936, lá permaneceu trancafiado numa sala. Na noite de 18 para 19, algemado a outro prisioneiro, foi levado de madrugada à vila de Viznar, até hoje lembrada como palco de milhares de execuções. E ali, sem o devido processo legal, sem o sagrado direito de defesa, sem o contraditório e sem ao menos ser interrogado, Federico García Lorca foi fuzilado de maneira sumária. Sepultado em cova rasa, na encosta de uma colina, ao lado de outras vítimas anônimas, sobre ele recaiu o silêncio. Ao transpirarem rumores de que o poeta havia sido assassinado, o governador, temeroso das consequências, afirmou que ignorava o destino do mesmo. O PEN Clube Internacional, presidido pelo célebre escritor H. G. Wells, buscou descobrir o paradeiro do poeta, sem resultado. A confirmação do acontecimento gerou um coro de protestos ao redor do mundo e de indignação pela perda injustificável de um reconhecido gênio das letras e das artes.

Federico García Lorca tornou-se um tema tabu na Espanha. Menções à sua pessoa, sua vida e sua obra submergiram diante de implacável censura. Só após a morte de Franco tudo voltou a ser pesquisado, estudado e publicado. Envergonhada, a ditadura tentou esconder o que havia feito.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/07/2018 às 10h57 | e.atha@terra.com.br

VIVENTES DO SERTÃO (3)

Nas andanças pelo romance “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, deparamos com o ex-jagunço Riobaldo Tatarana, narrador e personagem central, relatando que um dia percebeu que Zé Bebelo estava com medo. É difícil de imaginar. Então o grande chefe José Rebelo Adro Antunes, sobrechamado Zé Bebelo, valente condutor de um grupo temido e respeitado poderia lá sentir medo? Mas, conclui ele, conformado, “chega um dia se tem.” Esse medo, porém, não vinha de homem, por perigoso que fosse, de combates ou tiroteios, de traições e tocaias; era de outra natureza. “Medo dele era da bexiga, do risco de doença e morte: achando que o povo do Sucruiú podiam ter trazido o mau ar, e que mesmo o Sucruiú ainda demeava vizinho justo demais.” O primeiro impulso de Riobaldo foi rir, tão ridículo lhe parecia aquele medo do chefe, mas não podia e nem devia demonstrar. “Tanto ri – confessou ele. – Mas ri por de dentro, e procedi sério feito um pau do campo... Alguém estiver com medo, por exemplo, próximo, o medo dele quer logo passar para o senhor; mas, se o senhor firme aguentar de não temer, de jeito nenhum, a coragem sua redobra e tresdobra, que até espanta. Pois Zé Bebelo, que sempre se supria certo de si, tendo tudo por seguro, agora bambeava. Eu comecei a tremeluzir em mim” (p. 416). O medo é contagioso.

Por via das dúvidas, abalaram dali. Seguro morreu de velho. “Pelo que umas cinco léguas andamos – recordou ele. – De medo, meio, conforme decerto... Merecer logo ao menos uma semana de quieto, é que era justo; pois nenhum não estava mais na sua saúde... “ (Idem). Andaram e andaram. “E por fim viemos esbarrar em lugar de algum cômodo, mas feio, como feio não se vê. – Tudo é gerais, - eu pensei por consolo. Um homem, que com a machadinha na mão e sua cabaça a tiracol tratava de desmelar cortiço num pau do mato, esse indicou tudo necessário e deu a menção de onde é que estávamos. Na Coruja, um retiro taperado” (p. 417).

Mas a doença deles, por sorte, não era maligna. “Refiro ao senhor que, da bexiga-brava, não. Mas de outras enfermidades. Febres” (p. 418). Riobaldo não dormia, comia pouco, sentia perder a natureza de homem e, para completar, aquele lugar lúgubre provocou uma depressão. O jagunço pensou coisas más, pensamentos negativos e graves (suicídio?). Os cuidados de Diadorim e os chás de Raymundo Lé o curaram, a vida voltou a ficar certa e boa.

Pior sorte tiveram o Gregoriano e o Felisberto. O primeiro, picado por uma jararaca, no meio de um capim ralo, morreu. Já o Felisberto, coitado, levou um tiro de garrucha na cabeça e a bala de cobre “estava encravada na vida de seus encaixes e carnes, onde ferramenta de doutor nenhum não alcançava de escarafunchar” (p. 421). Desde então, de tempos em tempos, “de repente, sem razão entendível nenhuma, a cara desse Felisberto se esverdeava, até os dentes, de azinhavres... Ao que os olhos inchavam, tudo ficando em verde, uma mancha só... O nariz entupia, inchado. Ele tossia. E horror de se ver, o metal do esverdeio... Dizia naquelas horas que estava sem visiva, nada não enxergava” (Idem). Depois, aos poucos, ia azulando; aquilo era para sarar.

E ali no Coruja, lugar feio e triste de doer, padeciam seus males. Zé Bebelo não deixava de palavrear, procurando levantar o moral do bando. Alguém sugeriu invadir um lugarejo qualquer só para animar, mas Riobaldo não concordou. Passam os dias, os ânimos se refazem e a luta continua. Carecia de combater o Hermógenes, o mal maior, o inimigo de verdade. Hermógenes Saranhó Rodrigues Felipes, flagelo do sertão.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/07/2018 às 18h05 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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A morte de Stálin

É curioso observar como os assuntos relacionados à extinta URSS e seus personagens continuam a interessar os pesquisadores, aumentando sem cessar a copiosa bibliografia existente. Entre os múltiplos livros que têm sido publicados, é significativo o lançamento de “A Morte de Stálin”, de Fabien Nury e Thierry Robin, editado pela Três Estrelas (S. Paulo – 2015). Em formato de álbum e tamanho grande, o volume em quadrinhos reconstitui os momentos finais e o funeral do líder soviético com base em pesquisas e documentos. Essa forma de apresentação visa alcançar o maior número de pessoas, inclusive aquelas não muito afeitas à leitura, o que parece ter conseguido a julgar pelo sucesso de vendas.

Os desenhos que preenchem as 150 páginas do volume são preciosos, mostrando os ambientes e os locais dos acontecimentos e, mais ainda, retratando os personagens com as características de cada um conforme são vistos em fotografias. Malienkov, Bulganin, Béria, Kaganovitch, Mikoyan, Kruschev e o próprio Stálin em seu costumeiro uniforme são retratados tal como costumávamos vê-los nos jornais da época. O ambiente pesado do Kremlin também transparece na caprichada reconstrução do episódio.

Como se sabe, depois de ouvir um concerto em gravação, Stálin foi acometido de violento derrame cerebral na datcha onde vivia, nos arrabaldes de Moscou. Estava deitado no chão, onde foi encontrado pela camareira. Ela lhe deu um calmante e informou aos que se encontravam no local sobre o fato. Começam, então, as maquinações encabeçadas por Béria, chefe da sinistra NKVD, e Nikita Kruschev, ambos sequiosos por suceder o enfermo na Secretaria-Geral do Partido, o posto mais importante na hierarquia soviética. Decidem, então, realizar uma reunião do comitê para tomar providências enquanto Stálin agoniza sem assistência médica. Passado muito tempo, convocam a equipe de médicos que faz o possível para salvar o doente. Mas era tarde e ele morreu praticamente à míngua. Béria nem sequer se dava o trabalho de esconder a alegria que sentia em face da possibilidade de galgar ao mais alto posto. O fato ocorreu na noite de 28 de fevereiro de 1953.

Acontecem, a seguir, acirradas discussões entre os membros do comitê. Como informar à população? Como evitar a vinda em massa de pessoas a Moscou ao tomarem conhecimento? Como realizar os funerais? Os debates se prolongam e o tempo se escoa. Afinal, depois de muito bate boca fixam as diretrizes e as providências. O Pravda noticia, enfim, que o coração do chefe havia parado de bater. Uma multidão acorre à capital, como se temia, e sua caminhada foi cortada pela força, resultando da repressão muitas vítimas pelas quais Kruschev, o encarregado, foi acusado. Após o apoteótico enterro, no qual não faltaram os discursos eloquentes, as crises e acessos de choro, os lamentos espetaculosos e outras manifestações explícitas de sentimentalismo, começam as conspirações e o jogo de forças dos quais a população nem sequer suspeitava. A imprensa do mundo todo registra o acontecimento em grandes manchetes.

Outro problema se apresenta: como se livrar de Béria, o facinoroso chefe da polícia política? Arma-se, então, nos corredores do Kremlin um verdadeiro golpe e ele é preso quando comparece à reunião, selando-se seu destino. Nikita Kruschev, ligado a Stálin e que havia chorado copiosamente por ocasião de sua morte, é sagrado Secretário-Geral. Figura curiosa, muito calvo e combativo, causou espanto ao tirar o sapato e bater com ele na tribuna de onde discursava numa reunião da ONU. Por surpreendente que fosse, Kruschev denunciaria os crimes de Stálin em público durante o XX Congresso do PC da URSS, fato que afastou simpatizantes de todo o mundo. Segundo os historiadores, nesse momento teve início o fim da URSS. Partidários notórios, entre os quais Jorge Amado e Pablo Neruda, se afastaram do partido.

Os autores reconstituem com precisão o episódio em que o filho de Stálin, general Djugachvili, acusa em altos brados os membros do comitê e os médicos de assassinarem o pai. Como tinha fama de devasso e beberrão, a acusação não foi levada a sério, embora ele fosse internado num estabelecimento próprio para a “reeducação” de recalcitrantes.

O livro focaliza um dos momentos mais graves da política mundial no auge da “guerra fria” e que teria intensa repercussão no futuro. Ali se encerrava um período sinistro da história e tinha início, a passos largos, a desintegração da URSS, colocando os Estados Unidos na posição de onipotência mundial e consolidando o capitalismo em seu apogeu.

Inspirado pelo livro, foi rodado um filme que vem fazendo grande sucesso e ao qual a imprensa tem dedicado inúmeras resenhas.

Escrito por Enéas Athanázio, 06/08/2018 às 10h28 | e.atha@terra.com.br

ARQUEOLOGIA LITERÁRIA

Como admirador de Lima Barreto (1881/1922) e de sua obra, fiquei deveras surpreso ao tomar conhecimento de que haviam sido identificados inúmeros textos de sua autoria, publicados sob pseudônimos, em revistas e jornais do início do século passado. Imaginava-se que tudo que havia escrito estava incorporado às suas Obras Completas, meticuloso trabalho publicado pela Editora Brasiliense, de São Paulo. Mas a notícia se confirmou e os referidos textos (artigos e crônicas) foram agora publicados no volume “Sátiras e Outras Subversões”, organizado por Felipe Botelho Corrêa e editado por Penguin/Cia. das Letras.

O organizador, professor da Universidade King’s College London, identificou nada menos que 164 textos, versando os mais variados temas, espalhados em periódicos do início do século passado, a maioria deles nas célebres revistas “Careta” e “Fon-Fon”, subscritos pelos mais estranhos pseudônimos. Num prolongado e paciente trabalho de arqueologia literária, comparando estilos, personagens, referências, citações. coincidências e outros detalhes, chegou à conclusão de que eram, sem a menor dúvida, saídos da pena do genial morador de Todos os Santos. Esses escritos eram mesmo desconhecidos dos biógrafos do escritor e especialistas em sua obra. Em longa e minuciosa apresentação, o organizador descreve o método usado e a técnica empregada nesse exaustivo e paciente trabalho, ainda mais no Brasil, onde as fontes de informação, acervos literários, arquivos históricos e documentais costumam ser bastante precários. Mas o livro foi editado, revelando aspectos desconhecidos nas preocupações do escritor carioca e assim enriquecendo sua obra.

Os oito capítulos em que se divide o volume procuram agrupar assuntos correlatos em cada um deles. Todos são interessantes, mas, na impossibilidade de comentá-los todos, destaco “Pistolões e costumes administrativos”, “A sã política é filha da moral e da razão”, “O país das vaidadezinhas” e “Para fazer o país feliz é preciso despovoá-lo pela miséria.” No primeiro deles o escritor fustiga os maus hábitos já então exercidos no reino da política e seus atores, mostrando como certas práticas são antigas e recorrentes no país. O pistolão, o tráfico de influência, as propinas, os jeitinhos e outros meios de burlar a lei são registrados com humor, satirizando os episódios e caricaturando os personagens, muitos deles reconhecíveis com facilidade pelos contemporâneos e, hoje em dia, através da história. Pinheiro Machado, o todo-poderoso da Velha República, está sempre presente e nunca é poupado. Era cortejado por muitos e odiado por outros tantos. Como se sabe, foi morto a punhaladas. Miguel Calmon, Coelho Neto, Epitácio Pessoa, Raul Soares, Urbano dos Santos, Auto de Sá e outros, todos figuras proeminentes da época, recebem verdadeiras sovas bem humoradas e são em geral postos no ridículo. Certo senador conhecido como “Rapadura” mereceu muitas referências pelo fato de que, em vez de encontrar seus eleitores nas urnas, ia procurá-los nos cemitérios, anotando nomes que depois exerciam o sufrágio em favor dele nas eleições a bico-de-pena! Raul Soares, mineiro de Araxá e que mal conhecia o mar, foi nomeado Ministro da Marinha. Apesar do absurdo dessa nomeação, o cronista não deixou de observar a elegante casaca com que tomou posse solene. Os partidos políticos pequenos, hoje considerados de aluguel, também foram abordados. Segundo o cronista, não tinham qualquer programa ou ideologia, tendência ou posição definida, porque seu objetivo único, em geral, consistia em agradar ao chefe e obter recompensas imediatistas. Diante de tudo isso, não é de admirar que a Revolução de 1930 tenha granjeado tantos apoiadores, derrubando o sistema vigente.

No segundo capítulo aqui destacado, Lima lembra a célebre máxima de Bossuet, segundo a qual a sã política é filha da moral e da razão, para concluir o quanto ela se encontrava desmoralizada entre nós. E, por fim, ao analisar as vaidadezinhas, ressalta o amor pelas aparências, ainda que falsas e dedicadas apenas à exibição pública. Não importa a dura e triste realidade, o que vale é a aparência. Em outro tópico, que parece escrito para os dias de hoje, ironiza os atos do governo que parecem desejar a morte dos miseráveis para despovoar o país e fazê-lo mais feliz. Arrocho salarial, aumento de impostos, retirada de auxílios aos menos favorecidos não é bem isso?

Sendo assim, é fácil entender porque o morador de Todos os Santos conquistou tantos desafetos. Mas, como afirmou um crítico, lê-se Lima Barreto para aprender a escrever, mas, acima de tudo, para aprender a ser brasileiro.

Escrito por Enéas Athanázio, 30/07/2018 às 10h01 | e.atha@terra.com.br

A VIDA E OS LIVROS

Com o surgimento da Internet muitos pregoeiros anunciaram o fim do livro impresso. Ledo engano. Nunca se publicaram tantos livros, no Brasil e no mundo, como nos dias de hoje. E o mais curioso é que inúmeras publicações são de livros volumosos, com numerosas páginas, justamente aqueles que diziam ser os primeiros a desaparecer porque os leitores não disporiam de tempo para enfrentá-los. Ainda bem que esse instrumento da cultura e do saber prossegue na sua faina de educar e esclarecer. Merecem pena os que não leem; não sabem o que perdem.

A importância da leitura na vida das pessoas vem merecendo constantes estudos e pesquisas, não apenas no aspecto cultural e pedagógico, mas também no sentido material. Recente pesquisa da Universidade Yale, noticiada pelos jornais, concluiu que a leitura de livros aumenta a longevidade das pessoas, mostrando que aqueles que são dados à leitura de livros têm redução de 20% no risco de mortalidade. Está aí mais um motivo significativo para incrementar o hábito da leitura, além de outros bem conhecidos.

Durante doze anos muitas pessoas foram observadas e os pesquisadores notaram “uma bela vantagem na sobrevivência daqueles que liam em média 30 minutos por dia, quando comparados a não leitores.” A pesquisa ainda afirma que “livros propiciam uma leitura imersiva, na qual o leitor consegue fazer conexões entre o que está sendo lido e o mundo ao redor, as possíveis aplicações daquilo na vida real.” É fácil distinguir, no contato pessoal, a sensível diferença entre uma pessoa que lê e aquela que não é dada à leitura. A diferença salta aos olhos nos primeiros contatos.

Destaca ainda o estudo que “vocabulário, concentração, pensamento crítico, empatia, comportamentos mais saudáveis e menos estresse” melhoram com a leitura costumeira e “podem levar a uma vida mais longa.” O livro melhora a saúde mental. É interessante notar que a leitura de jornais e revistas não tem o mesmo resultado positivo que a leitura do livro. A leitura informativa é mais pesada e, por isso, menos saudável. A leitura de livros, por outro lado, ensina métodos e cuidados para preservar a boa saúde, fato que também contribui para aumentar a longevidade.

Embora venha aumentando o número de leitores no Brasil, inclusive em face do crescimento da população, o brasileiro em geral lê pouco. Segundo levantamentos, 46% dos brasileiros alfabetizados não leem jornais e revistas e 73% só assistem televisão nos horários de folga. O gosto pela leitura vai decaindo no correr da idade e os mais idosos são os que menos têm o hábito da leitura. Ora, a leitura abre novos horizontes, sendo intuitivo que o Brasil seria um país melhor se os brasileiros lessem mais. Votariam com mais critério, não se deixariam embair por demagogos e salvadores da pátria, perceberiam com mais clareza as maquinações que a grande mídia esconde e não elegeriam tiriricas, romários, malufs, felicianos e quejandos. Mas a leitura é uma atividade a dois e exige atenção do leitor, concentração e um mínimo de imaginação para entender o texto. É mais fácil se entregar ao audiovisual, recebendo tudo feito e acabado, sem necessitar de imaginação ou de esforço.

No entanto, como já dizia Monteiro Lobato, um país se faz com homens e livros. Enquanto a população como um todo não for conscientizada disso, iremos aos trancos e barrancos pela estrada estreita da política rasteira.

Escrito por Enéas Athanázio, 23/07/2018 às 12h06 | e.atha@terra.com.br

A PÓS-DEMOCRACIA

Nestes últimos tempos, juristas e cientistas sociais em geral vêm manifestando crescente preocupação com a deteriorização da democracia no país. Segundo suas análises, a Constituição Federal de 1988 tem sofrido constantes violações, muitas vezes por aqueles a quem caberia defendê-la, colocando em risco o regime democrático conquistado a duras penas e abrindo as portas do poder para aventureiros do tipo salvadores da pátria, cuja posse poderá ter resultados catastróficos. Isso tem acontecido com frequência e é aceito com desinteresse pela sociedade, como se fosse algo natural e sem consequências. A descrença nos políticos em geral parece ter anestesiado o povo a ponto de aliená-lo do destino de sua própria liberdade. O ministro Ayres Brito chegou a afirmar que o Brasil vive uma pausa democrática.

Acentuam os estudiosos que o país está a um passo de se tornar um estado policial. A pretexto de combater a corrupção, - propósito muito justo e correto, - todas as violações constitucionais vem sendo praticadas com exasperante frequência. Os casos mais evidentes, que saltam aos olhos, são as conduções coercitivas ao arrepio da lei, as buscas e apreensões coletivas, as prisões para forçar delações premiadas, as condenações com base em meros indícios, as operações espetaculosas e bombásticas, as declarações públicas baseadas em convicções pessoais sem fundamento em elementos probatórios, a prisão sem o trânsito em julgado da sentença condenatória, a supressão de direitos sociais e por aí a fora. A melancólica conclusão é a de que existe uma democracia formal, um verniz democrático, mas o estado democrático de direito instituído pela Constituição não existe mais. Vigora um estado pós-democrático. Qualquer pessoa, mesmo sob vaga suspeita, está sujeita à execração pública sem remédio ou conserto mesmo quando inocentada. E o pensamento autoritário, tímido no início, tende a crescer de maneira incontrolável.

A crise econômica também tem servido de pretexto para medidas duvidosas do ponto de vista da legalidade e imorais sob um critério ético. Ora, as crises econômicas são cíclicas e inevitáveis no capitalismo em todos os tempos, como demonstra a história. Elas sobrevêm sob qualquer administração, seja de centro, de direito ou de esquerda porque decorrem da junção de fenômenos imprevisíveis num determinado momento. Enquanto batuco estas palavras, economistas de renome mundial prevêem uma recessão global a se desencadear no próximo ano. Esses fenômenos sempre foram usados pelos regimes de força para justificar arbitrariedades, aqui e alhures. Por outro lado, dizem os historiadores, muitos foram os casos em que falsas crises foram fabricadas. É que nesses momentos as grandes corporações tiram proveito econômico porque para elas pouco importam o povo, os governos e os regimes. Como não têm pátria, visam apenas o deus mercado e o lucro.

No estado pós-democrático o poder vai estendendo os seus tentáculos sem observar os rígidos limites constitucionais e os direitos individuais vão aos poucos se enfraquecendo, levando até mesmo à ruptura do estado de direito para dar lugar aos golpes. A história contemporânea da América Latina está repleta de exemplos, ensejando o surgimento de ditaduras violentas e sanguinárias.

Dentre múltiplos trabalhos a respeito do tema, merece atenção o livro “Estado Pós-Democrático”, de autoria de Rubens R. R. Casara, publicado pela Editora Civilização Brasileira (Rio – 2018). Magistrado, doutor em Direito e professor, o autor faz um eloquente alerta a respeito do que está acontecendo, a exemplo de uma convocação para a luta em defesa da democracia em perigo.

Na marcha em que vão aas coisas, tudo indica que marchamos direto para o abismo.

Escrito por Enéas Athanázio, 16/07/2018 às 09h52 | e.atha@terra.com.br

A MORTE DE LORCA

As obras de arte, em sua maioria, situam-se entre as medianas. Em proporção ao que é produzido, apenas uma minoria se destaca pela perfeição e pela qualidade estética. O mesmo acontece no terreno das letras. Dentre milhares de obras publicadas, bem poucas atingem os níveis mais elevados e se transformam em verdadeiros monumentos. Acredito que, sem exagerar, entre estas se pode incluir “Federico García Lorca – A biografia”, de autoria de Ian Gibson, que a Editora Globo publicou em nova edição, traduzida por Augusto Klein (S. Paulo – 2014).

Num trabalho meticuloso, fundamentado em rigorosas fontes, como costumam ser os ensaios do gênero biográfico americanos, o autor rastreia os passos do poeta, dramaturgo, compositor, pianista, pintor e cantor desde o nascimento em Fuente Vaqueros até sua trágica morte em Granada, na Espanha. Lorca tinha 38 anos de idade quando foi tragado pela inaudita violência dos golpistas de Franco, no início da Guerra Civil espanhola, num ato que chocou o meio intelectual de todo o mundo. O jovem poeta, dotado de uma personalidade fascinante e já reconhecido como verdadeiro gênio, alimentava muitos sonhos e planejava grandes realizações no campo da poesia, da dramaturgia e da música. Mas o obscurantismo e a intolerância, alimentados pela inveja e pelo ressentimento, não o pouparam, fuzilando-o em surdina, numa noite macabra, sepultando-o em cova rasa sem qualquer identificação. Depois, ante o alarme provocado pelo crime, tentaram esconder o fato, como costuma acontecer em regimes de força.

A breve existência do poeta foi pontilhada de sucessos. Sua figura carismática encantava onde fosse e suas palestras, declamações, exibições ao piano, entoando canções populares espanholas, eram sempre acompanhadas com o maior interesse. Fosse no país natal, em Nova York ou em Cuba, onde fez estágios, o sucesso sempre o acompanhava, como revela o biógrafo, seguindo passo a passo suas turnês artísticas e literárias. Em Nova York, ante um auditório sofisticado e exigente, foi aclamado com entusiasmo em mais de uma ocasião. Em Cuba, onde permaneceu uma temporada, o triunfo se repetiu. Apreciou a cultura afro, a música popular, a paisagem, a poesia e a culinária da Ilha, ainda que ela estivesse sob o tacão do sanguinário ditador Machado. Por onde passou deixou um ror de amigos e admiradores. É curioso que na estadia em Paris não tenha feito contato com a chamada geração perdida, da qual faziam parte Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald e outros, em plena efervescência na época. Também excursionou pela Argentina, onde fez amizade com Pablo Neruda, e pelo Uruguai, obtendo sempre grande sucesso nas apresentações. Em todas essas andanças estava produzindo, planejando, anotando, embora no fundo elas constituíssem uma fuga do ambiente opressor da Espanha. Planejava vir ao Brasil mas não lhe deram tempo.

Lorca muito havia escrito e falado em defesa da liberal-democracia, além de simpatizar com as vanguardas artísticas e literárias que brotavam na Europa. Para os falangistas que, nessa altura, haviam implantado o terror em Granada, essas constituíam posições de subversivos, vermelhos e comunistas. Em consequência, o poeta caiu em desgraça e ficou sob a mira implacável dos repressores. Tomado de intenso pavor, passou a viver na casa de amigos, mas não faltou quem o denunciasse, como costuma acontecer nessas ocasiões. Os dedo-duros estavam a postos. Conduzido à sede do Governo Civil, na tarde de 16 de agosto de 1936, lá permaneceu trancafiado numa sala. Na noite de 18 para 19, algemado a outro prisioneiro, foi levado de madrugada à vila de Viznar, até hoje lembrada como palco de milhares de execuções. E ali, sem o devido processo legal, sem o sagrado direito de defesa, sem o contraditório e sem ao menos ser interrogado, Federico García Lorca foi fuzilado de maneira sumária. Sepultado em cova rasa, na encosta de uma colina, ao lado de outras vítimas anônimas, sobre ele recaiu o silêncio. Ao transpirarem rumores de que o poeta havia sido assassinado, o governador, temeroso das consequências, afirmou que ignorava o destino do mesmo. O PEN Clube Internacional, presidido pelo célebre escritor H. G. Wells, buscou descobrir o paradeiro do poeta, sem resultado. A confirmação do acontecimento gerou um coro de protestos ao redor do mundo e de indignação pela perda injustificável de um reconhecido gênio das letras e das artes.

Federico García Lorca tornou-se um tema tabu na Espanha. Menções à sua pessoa, sua vida e sua obra submergiram diante de implacável censura. Só após a morte de Franco tudo voltou a ser pesquisado, estudado e publicado. Envergonhada, a ditadura tentou esconder o que havia feito.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/07/2018 às 10h57 | e.atha@terra.com.br

VIVENTES DO SERTÃO (3)

Nas andanças pelo romance “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, deparamos com o ex-jagunço Riobaldo Tatarana, narrador e personagem central, relatando que um dia percebeu que Zé Bebelo estava com medo. É difícil de imaginar. Então o grande chefe José Rebelo Adro Antunes, sobrechamado Zé Bebelo, valente condutor de um grupo temido e respeitado poderia lá sentir medo? Mas, conclui ele, conformado, “chega um dia se tem.” Esse medo, porém, não vinha de homem, por perigoso que fosse, de combates ou tiroteios, de traições e tocaias; era de outra natureza. “Medo dele era da bexiga, do risco de doença e morte: achando que o povo do Sucruiú podiam ter trazido o mau ar, e que mesmo o Sucruiú ainda demeava vizinho justo demais.” O primeiro impulso de Riobaldo foi rir, tão ridículo lhe parecia aquele medo do chefe, mas não podia e nem devia demonstrar. “Tanto ri – confessou ele. – Mas ri por de dentro, e procedi sério feito um pau do campo... Alguém estiver com medo, por exemplo, próximo, o medo dele quer logo passar para o senhor; mas, se o senhor firme aguentar de não temer, de jeito nenhum, a coragem sua redobra e tresdobra, que até espanta. Pois Zé Bebelo, que sempre se supria certo de si, tendo tudo por seguro, agora bambeava. Eu comecei a tremeluzir em mim” (p. 416). O medo é contagioso.

Por via das dúvidas, abalaram dali. Seguro morreu de velho. “Pelo que umas cinco léguas andamos – recordou ele. – De medo, meio, conforme decerto... Merecer logo ao menos uma semana de quieto, é que era justo; pois nenhum não estava mais na sua saúde... “ (Idem). Andaram e andaram. “E por fim viemos esbarrar em lugar de algum cômodo, mas feio, como feio não se vê. – Tudo é gerais, - eu pensei por consolo. Um homem, que com a machadinha na mão e sua cabaça a tiracol tratava de desmelar cortiço num pau do mato, esse indicou tudo necessário e deu a menção de onde é que estávamos. Na Coruja, um retiro taperado” (p. 417).

Mas a doença deles, por sorte, não era maligna. “Refiro ao senhor que, da bexiga-brava, não. Mas de outras enfermidades. Febres” (p. 418). Riobaldo não dormia, comia pouco, sentia perder a natureza de homem e, para completar, aquele lugar lúgubre provocou uma depressão. O jagunço pensou coisas más, pensamentos negativos e graves (suicídio?). Os cuidados de Diadorim e os chás de Raymundo Lé o curaram, a vida voltou a ficar certa e boa.

Pior sorte tiveram o Gregoriano e o Felisberto. O primeiro, picado por uma jararaca, no meio de um capim ralo, morreu. Já o Felisberto, coitado, levou um tiro de garrucha na cabeça e a bala de cobre “estava encravada na vida de seus encaixes e carnes, onde ferramenta de doutor nenhum não alcançava de escarafunchar” (p. 421). Desde então, de tempos em tempos, “de repente, sem razão entendível nenhuma, a cara desse Felisberto se esverdeava, até os dentes, de azinhavres... Ao que os olhos inchavam, tudo ficando em verde, uma mancha só... O nariz entupia, inchado. Ele tossia. E horror de se ver, o metal do esverdeio... Dizia naquelas horas que estava sem visiva, nada não enxergava” (Idem). Depois, aos poucos, ia azulando; aquilo era para sarar.

E ali no Coruja, lugar feio e triste de doer, padeciam seus males. Zé Bebelo não deixava de palavrear, procurando levantar o moral do bando. Alguém sugeriu invadir um lugarejo qualquer só para animar, mas Riobaldo não concordou. Passam os dias, os ânimos se refazem e a luta continua. Carecia de combater o Hermógenes, o mal maior, o inimigo de verdade. Hermógenes Saranhó Rodrigues Felipes, flagelo do sertão.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/07/2018 às 18h05 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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