Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O Craque Eterno

Aficionado das biografias e memórias (só me recuso a ler políticos e guerreiros), creio que nunca havia lido a vida de um jogador de futebol. Acabo de quebrar esse longo jejum com a leitura de “O Craque Eterno”, de autoria de Bola Teixeira, e que me foi ofertado por ele (Edição da IOESC – Florianópolis – 2001 – 280 págs.) Como informa o subtítulo, trata-se de “uma biografia de Teixeirinha, jogador símbolo do futebol catarinense.” O livro é bem feito, minucioso, ilustrado e fundamentado, retratando de maneira fiel o biografado, cujos traços físicos e psicológicos são apreendidos pelo leitor. De suas páginas o jogador salta vivo, ativo e participante como de fato é, não a figura inerte e apagada de tantas obras do gênero. Teve o autor a felicidade de reconstituir a vida de uma pessoa ainda presente, dotada de invejável memória e bons arquivos. Não tive essa sorte; meus biografados já “haviam passado para o outro lado do mistério” – como dizia mestre Machado – e os elementos informativos deixavam a desejar. Além do mais, o autor testemunhou parte dos fatos, na condição de filho de seu personagem. Isso, porém, em nada diminui seu trabalho; ao contrário, torna-o mais rico e confiável. Creio que nenhuma homenagem maior poderia prestar ao pai.

Embora Teixeirinha tivesse lavado minha alma catarinense nas célebres vitórias contra os vizinhos do norte e do sul e, mais tarde, morando no mesmo prédio, em Blumenau, nossos encontros fossem mais ou menos freqüentes, só agora posso dizer que o conheço. Sua trajetória de vida revela, antes de mais nada, uma pessoa com a cabeça no lugar, amante da vida provinciana e ligado à família, em tudo diferente dos deslumbrados de hoje. No amor à província ele não estava só, formando ao lado de nada menos que Gilberto Freyre, Érico Veríssimo e Luís da Câmara Cascudo, todos aferrados ao seu chão e que mesmo assim granjearam a consagração. Cascudo, aliás, se vangloriava de ser “provinciano incurável.” Sem poses de estrela, Teixeirinha se tornou uma estrela, ainda que conservando a aura de simpatia que lhe deu amigos e admiradores em todo o país. Resistiu sempre ao profissionalismo; seu amor era o esporte: a bola, a quadra, o jogo, a disputa que estavam no seu sangue.

Foi, de fato, um craque na expressão da palavra. É impressionante a quantidade de jogos em que atuou e, mais ainda, o número de gols que marcou. Raras foram as partidas em que não balançou as redes adversárias. Vestindo as camisas da seleção catarinense, do Palmeiras, do Botafogo, do Bangu, do Renaux (para o qual teve uma passagem traumática), do Olímpico e de outros clubes e combinados, foi permanente destaque, assim proclamado pela imprensa e pela torcida, mesmo numa idade em que seus colegas já haviam pendurado as chuteiras. Encerrada a carreira longa vitoriosa, em 1963, continuou praticando com fervor o tênis, o futebol de areia e outras modalidades. Não esqueço de um advogado blumenauense que enfatizava sua garra: “Nós queremos brincar; ele não – quer ganhar!”

Como em toda carreira, Teixeirinha viveu altos e baixos – o célebre “sube y baja” dos gringos. Ovacionado e carregado nos ombros, também foi vaiado e xingado; seu time infligiu derrota de 8x0 e perdeu por 4x0 para o mesmo adversário (pág. 175); realizou excursão à Europa e jogou em lugarejos do Vale do Itajaí, em estádios sem iluminação e quadras sem gramado; enfrentou a indisciplina de jogadores, o despreparo dos cartolas e as malcheirosas armações de bastidores; recebeu homenagens sem conta, tanto de entidades públicas como privadas. Sempre com a tranqüilidade e simpatia que tanto o marcam. Só não realizou o sonho de ser deputado.

Essa, em poucas linhas, a figura que emerge do livro de corpo inteiro: Nildo Teixeira de Melo, o Teixeirinha, habitante dos corações de tantas gerações catarinenses. Livro que mereceria maior atenção e melhor divulgação mas mergulha no silêncio da apagada e vil tristeza em que se transformou a vida cultural no Estado.

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Republico este artigo em homenagem ao grande Teixeirinha, meu amigo desde os tempos de Blumenau, e que nos deixou no dia 9 de junho. Com ele me associo ao sentimento de sua família, seus amigos e admiradores.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/06/2018 às 17h22 | e.atha@terra.com.br

Os escrúpulos de Maigret

Com esse título, a L & PMPocket publicou mais um dos múltiplos romances do escritor belga Georges Simenon (1903/1989) tendo como personagem central o célebre comissário da Polícia Judiciária francesa Jules Maigret. O investigador obteve grande renome por sua maneira hábil de desvendar os crimes, agindo sempre de maneira humana e respeitosa, procurando entender os infelizes que cometem crimes e caem nas malhas da lei. Sua figura impressionante fez dele um dos mais notórios detetives da ficção, ao lado de um Sherlock Holmes, um Hercule Poirot ou um Shell Scott. Para não fugir à regra, neste caso, como em tantos outros ele como que prevê o resultado sem que, no entanto, possa impedi-lo. Seu método de agir consiste em não ter método e, muitas vezes, deixa no leitor a impressão de que mais adivinha que desvenda.

Tudo tem início num dia marasmático na Polícia Judiciária, fato difícil de acontecer, e que ele descreve com absoluta precisão e economia de palavras. “Isto raramente acontece mais de uma vez ou duas por ano no Quai dês Orfèvres, e às vezes dura tão pouco que nem se tem tempo de perceber: de repente, após um período febril, durante o qual os casos se sucedem sem descanso, quando não chegam a três ou quatro simultaneamente, deixando todo o pessoal exausto a ponto de os inspetores, por falta de sono, terem os olhos vermelhos e esgazeados, de repente é a calmaria completa, o vazio, apenas pontuado por alguns telefonemas sem importância.” Assim estava o ambiente, descrito de forma tão precisa e enxuta que humilha qualquer narrador, numa manhã de 10 de janeiro, permitindo ao comissário observar com atenção o tempo reinante em Paris. “O céu, como as consciências e os humanos, - concluiu ele – era de um cinza neutro, quase o mesmo cinza das calçadas. Fazia frio, não o bastante para que fosse pitoresco e se falasse dele nos jornais, um frio apenas desagradável, que se sentia após ter andado por um certo tempo nas ruas.” É então que ele recebe uma estranha visita. Xavier Marton, vendedor de uma loja de brinquedos, especialista em trens elétricos, pede para vê-lo. Homem comum, sem nada de extraordinário, relata a Maigret que suspeita de que sua mulher deseja matá-lo. Mas não tem provas e assim não pode pleitear a instauração de um inquérito. Para completar, garante ao comissário que não é louco, tanto que havia consultado renomado psiquiatra e este atestara sua higidez mental. Tempos depois, Maigret recebe a visita da esposa de Marton, uma mulher bonita, sofisticada e muito elegante, que, por sua vez, suspeita do marido. Também não deseja processá-lo; quer apenas alertar o comissário. Nas conversas com o casal o mundo deles se abre e inúmeros detalhes são revelados. Com as mãos amarradas, Maigret nada pode fazer e só lhe resta encolher os ombros. Não há crime, não existe processo, nada que justifique uma ação policial. No entanto, o caso não lhe sai da cabeça e, por via das dúvidas, mesmo temendo parecer ridículo, põe um de seus homens a vigiar o casal. Ele parece farejar a tragédia no ar.

E então, num atropelo, as coisas acontecem numa certa manhã. Quando nem havia levantado da cama, o telefone toca e chega a notícia dura e fria tão temida: o crime aconteceu mais ou menos como ele presumia que haveria de acontecer. Não sabia quem era a vítima, tanto poderia ser um ou outro, mas agora se tratava de um fato consumado e não apenas de uma premonição.

A investigação tem início e Maigret não tarda a desvendar os fatos. Quando o juiz de instrução um certo Caméliau, de quem não gostava, entra no caso, ele já tem pronta a solução. Uma solução das mais engenhosas e que só a imaginação inesgotável de Simenon sabia engendrar. E que aqui não revelo para não estragar o prazer da surpresa do leitor.

Saindo do pesado palco do crime, Maigret se sente vazio e pesado. “Lá fora o frio fizera-se mais penetrante, e os flocos de neve, minúsculos e duros, visíveis apenas no foco das luzes, picavam a pele, onde pareciam querer se incrustar, pousavam nos cílios, nas sobrancelhas, nos lábios.”

Ler Georges Simenon é sempre uma experiência aliciante.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/06/2018 às 10h36 | e.atha@terra.com.br

A busca da imortalidade

Com as exceções de praxe, as pessoas em geral não desejam morrer e, quando isso acontece, mesmo porque é inevitável, não querem ser esquecidas. Como a morte esconde um mistério insondável, as religiões prometem a vida eterna, após o desenlace, pregando a crença na imortalidade da alma. O ser humano é dúplice, composto de corpo e alma, segundo os que têm fé. Enquanto o corpo acaba, vira pó, a alma galga outros mundos, escondidos sob o véu do mistério. Por via das dúvidas, o ser humano busca outras formas através das quais espera alcançar a imortalidade. Por duvidosas que sejam, não são poucos os que acreditam piamente nisso.

Entre tais meios estão a realização de grandes obras que marquem a passagem terrena da pessoa, como a publicação de livros, a produção de obras de arte, as conquistas científicas, e o ingresso nas agremiações e academias. No que concerne aos escritores, persiste a crença de que o autor desaparece mas a obra fica, embora essa permanência quase sempre seja efêmera. Poucas produções literárias perduram por longo tempo, como acontece com as de Platão, Aristóteles, Goethe, Balzac, Cervantes e outros tantos. A maioria das obras morre com o autor, quando não desaparece antes dele. Tenho conhecido muitos autores de obras mortas. Seja como for, no entanto, a ilusão de perenidade mantém o escritor na labuta, entregue ao mais solitário dos ofícios, esperançoso de que suas palavras cheguem ao futuro.

Outros buscam a imortalidade nas academias. Lutam com todas as forças para obter uma vaga, uma vez que a proposta dessas entidades é a de manter viva a memória de seus integrantes, o que nem sempre acontece. Aqui no Brasil o sonho de muitos é entrar na Academia Brasileira de Letras (ABL), pretensão difícil ao extremo. Há quem batalhe por anos e anos por uma vaga. Outros, no entanto, não se interessam. Escritores de grande renome, cujas obras exerceram notável influência, não foram acadêmicos: Érico Veríssimo, Gilberto Freyre, Mário de Andrade, Lima Barreto, Câmara Cascudo, Monteiro Lobato, Sílvio Meira, Joaquim Inojosa. Muitos políticos, por outro lado, usaram a força do cargo para abrir as portas da ABL: Getúlio Vargas, Lauro Muller, Fernando Henrique Cardoso e até ministros da ditadura. Tornaram-se corpos estranhos dentro da Instituição. Diante da dificuldade, muitos se contentam com a imortalidade estadual e até mesmo municipal. Quem não tem cão, caça com gato.

Meu saudoso amigo Nilto Maciel, escritor prolífico e talentoso, costumava dizer que o ingresso nas academias é a imortalidade inventada. Desde cedo – dizia ele – se convenceu de que não tinha alma, sendo, portanto, um mortal comum, e assim só lhe restava escrever e escrever para permanecer na lembrança das pessoas. Sua constante atividade despertou a atenção de alguns acadêmicos e estes decidiram levá-lo para o seu meio. “Pois eis que no meio do caminho desta vida – escreveu ele – me apareceu um desses seres eternos. Chamava-se Almeida Fischer, que queria ser mais imortal do que era, pois pertencia à Academia Brasiliense de Letras. Não se apresentou em corpo e alma, para não se fazer tão objetivo; mandou um seu colega me fazer comunicado quase letal: Eu fora escolhido para constituir a nova casa federal de letras, a Academia de Letras do Brasil. Tomei um susto, mas não morri. Ora, eu não queria vestir fardão. Muito menos farda. . .” Dias depois recebeu a visita do próprio acadêmico e “disse duas ou três frases indecorosas”, alegando que não se sentia acadêmico, considerava-se em fase de crescimento e despreparado para a vida acadêmica e, acima de tudo, não via necessidade da criação de mais uma academia. “Ele parecia não acreditar no que ouvia – disse Nilto. – Talvez eu estivesse brincando. Ou delirando. Você bebeu muito ontem? Certamente me acometia um surto de loucura. Ora, quem não quer ser imortal, quem não se sente excepcionalmente envaidecido e comovido de ser convidado a ingressar no círculo restrito dos olimpianos?” Espantado, incrédulo, olhos esbugalhados, o acadêmico parecia estatelado na cadeira. Onde já se viu alguém recusar semelhante convite? Como esse energúmeno se atreve a tanto?

Para melhor esclarecer as coisas, Nilto prometeu enviar uma carta detalhando seus motivos. Mas a carta chegou tarde demais. “Dias depois eu soube da tragédia: O homem se tinha morrido. Ou tinha deixado de ser vivo. Eu continuei mortal. . .” – concluiu Nilto Maciel.

Escrito por Enéas Athanázio, 04/06/2018 às 11h30 | e.atha@terra.com.br

Hemingway, o repórter (2)

Comentei, em crônica anterior, o primeiro volume deste belo e raro livro de autoria do escritor americano Ernest Hemingway (1899/1961) que se intitula “Ernest Hemingway Repórter”, dividido em dois volumes, “Tempo de Viver” e “Tempo de Morrer”, publicados pela Editora Civilização Brasileira, em tradução de Álvaro Cabral (Rio – 1962). Os dois volumes reúnem uma criteriosa seleção das reportagens e despachos produzidos pelo escritor como correspondente de grandes órgãos da imprensa enviado para cobrir importantes acontecimentos em variados pontos do globo. Enquanto o primeiro volume contém trabalhos ainda anteriores à II Guerra Mundial, embora já se pudesse sentir a sua aproximação, o segundo reúne textos escritos no teatro de guerra, no fragor das batalhas, em tempos sombrios de horror e morte. Corajoso como foi, Hemingway não se contentava em observar à distância, mas procurava ingressar no próprio palco da ação “para ver as coisas por dentro.” Durante a Guerra Civil Espanhola, por exemplo, hospedava-se no célebre Hotel Flórida e num de seus quartos batucava reportagens enquanto bombas explodiam na rua fronteira e algumas delas sacudiam o prédio com a explosão e até o atingiam. Mas nada o detinha e isso lhe proporcionou uma participação privilegiada nos acontecimentos, razão pela qual afirmou a crítica que este livro é a “presença viva de Hemingway.” Foi nessa situação, a dois quarteirões do fronte, que escreveu sua única peça teatral: “A Quinta Coluna.”

“Tempo de Morrer” se abre com reportagens sobre a Guerra Civil Espanhola (1937/1939), conflito que ele acompanhou com grande atenção, percorrendo os locais de combates, mantendo contato com os comandantes, perambulando por toda parte e se mantendo informado sobre tudo que acontecia. Percebeu muito cedo os primeiros lampejos da guerra, presenciou o bombardeio de Madri, fez curiosas observações a respeito da nova espécie de guerra que ali se travava, viveu momentos em que “a morte passou de raspão”, testemunhou a debandada final dos refugiados em desespero e percebeu com antecipação que aquela guerra, no fundo, constituía um treino, uma experiência, um aperitivo para a grande carnificina que viria em 1939. Era o confronto pioneiro entre os dois lados que se enfrentariam logo mais, em futuro próximo. E, como poucos, no próprio cenário das hostilidades, entre mortos e feridos, destruição e violência, barbárie, valentia, heroísmo e lágrimas, viveu cada momento do conflito que ensanguentava a Espanha, país que mais amava.

Seguem-se despachos sobre outras guerras para onde era sempre mandado. Andou pela China durante a guerra desse país contra o Japão e, mesmo em meio ao terror das batalhas, não perdia o humor. Em certo trecho, relata que experimentou vinho de cobra, feito de arroz e com pequenas cobras enrodilhadas no fundo da garrafa. Dizia que curava a queda dos cabelos e levou alguns litros para os amigos. Previu com grande antecedência a derrota chinesa e as barbaridades que se sucederiam. Depois, durante a II Guerra Mundial, embora fosse proibido, comandou um grupo de guerrilheiros franceses que o tratavam como capitão. Por esse motivo teve sérios problemas. Mas entrou em Paris, no momento da libertação, marchando garboso à frente de seus guerrilheiros maltrapilhos, sujos, famintos, cansados e junto às tropas regulares. Participou do desembarque na Normandia, no Dia D, tudo acompanhando de perto. Não se contentava em ser mero expectador; queria a todo custo participar. A reportagem “Como chegamos a Paris” é um relato comovente e único sobre a retomada da cidade. No final, o machão valente tem que confessar: “Nada mais pude dizer então pois senti uma estranha sufocação na garganta e tive de limpar meus óculos porque, diante de nós, pardacenta e sempre bela, estendia-se agora a cidade que eu mais amo em todo o mundo.” Compungido, o valentão tem que confessar que chorou. Mas, como tudo, um dia a guerra terminou e sobrevieram dias de paz e bucolismo.

Sucedem-se, então, os dias serenos vividos em Cuba, nos arredores de San Francisco de Paula. As visitas dos amigos na Finca Vigia, as pescarias na Corrente do Golfo a bordo do Pilar, os daiquiris da cantina Floridita e o trabalho literário de todas as manhãs, batucando em pé na sua máquina de escrever. E as viagens, viagens e viagens. Até que um batalhão de barbudos desce da Sierra Maestra e toma o poder. Era o momento de exercitar a prudência e procurar novos ares.

Escrito por Enéas Athanázio, 29/05/2018 às 14h08 | e.atha@terra.com.br

Hemingway, o repórter

O escritor americano Ernest Hemingway (1899/1961) iniciou a carreira profissional como jornalista e, mesmo procurando abandonar essa atividade para se tornar apenas escritor, acabou praticando o jornalismo até quase o fim da vida. Homem ativo, misto de escritor, viajante e aventureiro, foi sempre destacado por grandes órgãos da imprensa para cobrir os mais variados e importantes acontecimentos ao redor do mundo. E nessas viagens costumava aliar o objetivo da missão aos seus gostos pessoais, resultando daí reportagens vivas e palpitantes, sempre escritas em absorvente linguagem literária. Escreveu incontáveis textos jornalísticos e sobre os mais diversos assuntos.

Parte desse material foi recolhido e organizado por William White num livro muito raro a que deu o nome de “Ernest Hemingway Repórter”, dividido em dois volumes com os títulos de “Tempo de Viver” e “Tempo de Morrer”, ambos incorporados às obras completas do escritor e publicados no Brasil pela Editora Civilização Brasileira (Rio – 1969). Segundo a crítica, os dois volumes contêm o melhor do Hemingway - repórter e constituem a presença viva dele. E, de fato, a leitura o confirma, revelando inclusive que ali se encontra a gênese de algumas de suas obras ficcionais, esboçadas em linhas gerais.

O volume inicial reúne reportagens enviadas de variadas partes do mundo, antes ainda da II Guerra Mundial, embora sua aproximação já fosse sentida no ar de forma trágica e inevitável. Em inúmeras passagens ele adverte seu país a não se intrometer nessa guerra europeia com a qual só teria a perder. Nunca foi ouvido e os fatos acabaram forçando o ingresso dos EUA na contenda.

Nesse volume é publicada a reportagem que provocou muita celeuma em que ele considerava Mussolini o maior blefe da Europa e criticava a covarde invasão da Etiópia para exibir poderio diante de um adversário miserável. Por outro lado, explicam-se os frequentes desentendimentos dele com os periódicos para os quais trabalhava. É que aproveitava as ocasiões para pescar truta e atum, esquiar, caçar, assistir a touradas e beber com os amigos enquanto as coisas aconteciam. Não obstante, nada lhe escapava e cumpria a missão de maneira exemplar. Além disso, não tinha medo e se infiltrava nos lugares menos recomendáveis, desde que ali houvesse ação.

Numa passagem ele escreve sobre o que vai na cabeça do pescador enquanto aguarda a beliscada do peixe. “Uma boa parte das coisas em que se pensa – escreveu – não é suscetível de ser impresso... Algumas dessas coisas seriam o bastante para colocar um sujeito no xadrez...” (p. 208). Mais adiante, dá um conselho aos aspirantes a escritor: “Escreva sobre aquilo que você sabe e escreva sinceramente...” (p. 220).

Nos constantes encontros com figurões do cenário internacional, retratando-os e entrevistando-os, faz curiosas observações a respeito do poder. “O poder afeta todos os homens que o detêm – concluiu ele em concordância com outro observador, - de uma certa e definida maneira.” Segundo eles, “é possível apontar os sintomas desse efeito em qualquer homem, mais cedo ou mais tarde...” (p. 267). Alguns desses sintomas: um dos primeiros é a perda da confiança nos companheiros, vendo traições e armadilhas em qualquer gesto; depois vem a suscetibilidade que não lhe permite aceitar a menor crítica e, por fim, a crença de que é indispensável e de que sem ele nada se fará. Em consequência, aos olhos dele, tudo que for feito para se manter no poder será permitido. Esse mal do poder atinge honestos e desonestos, sendo que, segundo ele, estes últimos resistem por mais tempo, “pois a sua desonestidade fê-lo cínico ou humilde, de um certo modo, e isso protege-o” (p. 268). Resta-nos observar no cotidiano e verificar o que ocorre entre nós.

Muito mais mereceria abordagem, mas fica para o próximo artigo.

Escrito por Enéas Athanázio, 21/05/2018 às 10h12 | e.atha@terra.com.br

O idioma panlatino

A grande quantidade de línguas faladas no mundo dificulta o entendimento e a aproximação dos povos. Essa profusão de idiomas se deve, segundo a lenda, à Torre de Babel onde se implantou o caos linguístico como uma espécie de castigo à pretensão humana de atingir o céu. Afirmam os estudiosos que existem 2796 línguas vivas no planeta, classificadas em 12 grupos ou famílias linguísticas principais e 50 grupos secundários. Quanto mais distantes as raízes dos idiomas, mais difícil se torna a comunicação. Em face disso, ao longo da história, têm surgido projetos de implantação de línguas artificiais ou criadas, dentre as quais o esperanto tem sido a mais difundida e duradoura. Todas essas tentativas, no entanto, falharam e a babel idiomática continua.

William Agel de Mello, diplomata, escritor e consumado linguista, propõe uma solução diferente, inovadora e prática. Diante da impossibilidade da adoção de um idioma único em todo o mundo, como os fatos vêm demonstrando, sugere ele, com base em longos e acurados estudos, a fusão das línguas em grupos derivados da mesma raiz ou tronco. Haveria assim uma união de idiomas aparentados, aproveitando-se o que eles possuem em comum. Não seria uma substituição mas, “ao contrário, o retorno à unidade partindo da pluralidade.A ideia básica é a convergência das línguas numa língua única” – explica o ensaísta.

Com esse propósito, as línguas ficariam pertencendo a grupos designados como Pangermânicos, Pan-eslavos, Pancélticos, Panlatinos e outros. Como o nosso português é derivado do latim, integraria o grupo Panlatino, junto com o espanhol, o catalão, o provençal, o franco-provençal, o francês, o ladino, o sardo, o italiano e o romeno. Entrariam aí idiomas mais e menos falados, mas todos dando sua contribuição. Não se trata, portanto, de um idioma artificial como tantos outros, uma vez que nunca deixou de ser falado. Além de aproximar os homens, “entre as finalidades específicas destaca-se a de servir de veículo de comunicação entre os povos que falam línguas afins” – afirma o linguista, acrescentando: “A superlíngua assim formada é concomitantemente filha e irmã das que lhe deram origem. É uma, mas ao mesmo tempo todas. Outra vantagem incontestável das línguas submetidas à fusão é o fator tradução.” Como se sabe, a tradução de textos de uma língua para outra é uma atividade complexa e inçada de problemas.

Em seu livro “O Idioma Panlatino e outros ensaios linguísticos” (Editora Kelps – Goiânia – 2011), William Agel de Mello expõe em minúcia o projeto Panlatino e faz outras incursões no mundo das línguas. É admirável a segurança com que ele se move nesse intrincado universo, demonstrando completo domínio de tantos temas nele envolvidos, desde a história e  a geografia até os segredos e particularidades de inúmeros idiomas. Seu livro é um manancial inesgotável de informações a respeito das línguas em geral e do Panlatino em particular. Faz comparações e análises, estuda as afinidades e diferenças num trabalho único e que tem merecido a atenção de renomadas autoridades sobre o assunto. É um trabalho que deveria ser conhecido por todos nós, uma vez que é a língua que nos difere dos outros seres vivos.

O autor é também renomado africanista, conhecedor da África por dentro e por fora, historiador e ficcionista. Sobre ele Guimarães Rosa depositava esperanças de que realizaria uma grande obra literária, o que, de fato, aconteceu. Sua obra tem sido submetida ao crivo de numerosos intérpretes, tanto que tem ele nos dias atuais uma extensa e significativa fortuna crítica.

Seria o projeto Panlatino uma utopia? É possível, mas como diz o seu autor “qualquer tentativa, por mais humilde que seja, no sentido de facilitar a comunicação entre os povos é um bem à humanidade.”

Como seria o mundo se não existissem os utopistas?

Escrito por Enéas Athanázio, 14/05/2018 às 10h01 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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O Craque Eterno

Aficionado das biografias e memórias (só me recuso a ler políticos e guerreiros), creio que nunca havia lido a vida de um jogador de futebol. Acabo de quebrar esse longo jejum com a leitura de “O Craque Eterno”, de autoria de Bola Teixeira, e que me foi ofertado por ele (Edição da IOESC – Florianópolis – 2001 – 280 págs.) Como informa o subtítulo, trata-se de “uma biografia de Teixeirinha, jogador símbolo do futebol catarinense.” O livro é bem feito, minucioso, ilustrado e fundamentado, retratando de maneira fiel o biografado, cujos traços físicos e psicológicos são apreendidos pelo leitor. De suas páginas o jogador salta vivo, ativo e participante como de fato é, não a figura inerte e apagada de tantas obras do gênero. Teve o autor a felicidade de reconstituir a vida de uma pessoa ainda presente, dotada de invejável memória e bons arquivos. Não tive essa sorte; meus biografados já “haviam passado para o outro lado do mistério” – como dizia mestre Machado – e os elementos informativos deixavam a desejar. Além do mais, o autor testemunhou parte dos fatos, na condição de filho de seu personagem. Isso, porém, em nada diminui seu trabalho; ao contrário, torna-o mais rico e confiável. Creio que nenhuma homenagem maior poderia prestar ao pai.

Embora Teixeirinha tivesse lavado minha alma catarinense nas célebres vitórias contra os vizinhos do norte e do sul e, mais tarde, morando no mesmo prédio, em Blumenau, nossos encontros fossem mais ou menos freqüentes, só agora posso dizer que o conheço. Sua trajetória de vida revela, antes de mais nada, uma pessoa com a cabeça no lugar, amante da vida provinciana e ligado à família, em tudo diferente dos deslumbrados de hoje. No amor à província ele não estava só, formando ao lado de nada menos que Gilberto Freyre, Érico Veríssimo e Luís da Câmara Cascudo, todos aferrados ao seu chão e que mesmo assim granjearam a consagração. Cascudo, aliás, se vangloriava de ser “provinciano incurável.” Sem poses de estrela, Teixeirinha se tornou uma estrela, ainda que conservando a aura de simpatia que lhe deu amigos e admiradores em todo o país. Resistiu sempre ao profissionalismo; seu amor era o esporte: a bola, a quadra, o jogo, a disputa que estavam no seu sangue.

Foi, de fato, um craque na expressão da palavra. É impressionante a quantidade de jogos em que atuou e, mais ainda, o número de gols que marcou. Raras foram as partidas em que não balançou as redes adversárias. Vestindo as camisas da seleção catarinense, do Palmeiras, do Botafogo, do Bangu, do Renaux (para o qual teve uma passagem traumática), do Olímpico e de outros clubes e combinados, foi permanente destaque, assim proclamado pela imprensa e pela torcida, mesmo numa idade em que seus colegas já haviam pendurado as chuteiras. Encerrada a carreira longa vitoriosa, em 1963, continuou praticando com fervor o tênis, o futebol de areia e outras modalidades. Não esqueço de um advogado blumenauense que enfatizava sua garra: “Nós queremos brincar; ele não – quer ganhar!”

Como em toda carreira, Teixeirinha viveu altos e baixos – o célebre “sube y baja” dos gringos. Ovacionado e carregado nos ombros, também foi vaiado e xingado; seu time infligiu derrota de 8x0 e perdeu por 4x0 para o mesmo adversário (pág. 175); realizou excursão à Europa e jogou em lugarejos do Vale do Itajaí, em estádios sem iluminação e quadras sem gramado; enfrentou a indisciplina de jogadores, o despreparo dos cartolas e as malcheirosas armações de bastidores; recebeu homenagens sem conta, tanto de entidades públicas como privadas. Sempre com a tranqüilidade e simpatia que tanto o marcam. Só não realizou o sonho de ser deputado.

Essa, em poucas linhas, a figura que emerge do livro de corpo inteiro: Nildo Teixeira de Melo, o Teixeirinha, habitante dos corações de tantas gerações catarinenses. Livro que mereceria maior atenção e melhor divulgação mas mergulha no silêncio da apagada e vil tristeza em que se transformou a vida cultural no Estado.

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Republico este artigo em homenagem ao grande Teixeirinha, meu amigo desde os tempos de Blumenau, e que nos deixou no dia 9 de junho. Com ele me associo ao sentimento de sua família, seus amigos e admiradores.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/06/2018 às 17h22 | e.atha@terra.com.br

Os escrúpulos de Maigret

Com esse título, a L & PMPocket publicou mais um dos múltiplos romances do escritor belga Georges Simenon (1903/1989) tendo como personagem central o célebre comissário da Polícia Judiciária francesa Jules Maigret. O investigador obteve grande renome por sua maneira hábil de desvendar os crimes, agindo sempre de maneira humana e respeitosa, procurando entender os infelizes que cometem crimes e caem nas malhas da lei. Sua figura impressionante fez dele um dos mais notórios detetives da ficção, ao lado de um Sherlock Holmes, um Hercule Poirot ou um Shell Scott. Para não fugir à regra, neste caso, como em tantos outros ele como que prevê o resultado sem que, no entanto, possa impedi-lo. Seu método de agir consiste em não ter método e, muitas vezes, deixa no leitor a impressão de que mais adivinha que desvenda.

Tudo tem início num dia marasmático na Polícia Judiciária, fato difícil de acontecer, e que ele descreve com absoluta precisão e economia de palavras. “Isto raramente acontece mais de uma vez ou duas por ano no Quai dês Orfèvres, e às vezes dura tão pouco que nem se tem tempo de perceber: de repente, após um período febril, durante o qual os casos se sucedem sem descanso, quando não chegam a três ou quatro simultaneamente, deixando todo o pessoal exausto a ponto de os inspetores, por falta de sono, terem os olhos vermelhos e esgazeados, de repente é a calmaria completa, o vazio, apenas pontuado por alguns telefonemas sem importância.” Assim estava o ambiente, descrito de forma tão precisa e enxuta que humilha qualquer narrador, numa manhã de 10 de janeiro, permitindo ao comissário observar com atenção o tempo reinante em Paris. “O céu, como as consciências e os humanos, - concluiu ele – era de um cinza neutro, quase o mesmo cinza das calçadas. Fazia frio, não o bastante para que fosse pitoresco e se falasse dele nos jornais, um frio apenas desagradável, que se sentia após ter andado por um certo tempo nas ruas.” É então que ele recebe uma estranha visita. Xavier Marton, vendedor de uma loja de brinquedos, especialista em trens elétricos, pede para vê-lo. Homem comum, sem nada de extraordinário, relata a Maigret que suspeita de que sua mulher deseja matá-lo. Mas não tem provas e assim não pode pleitear a instauração de um inquérito. Para completar, garante ao comissário que não é louco, tanto que havia consultado renomado psiquiatra e este atestara sua higidez mental. Tempos depois, Maigret recebe a visita da esposa de Marton, uma mulher bonita, sofisticada e muito elegante, que, por sua vez, suspeita do marido. Também não deseja processá-lo; quer apenas alertar o comissário. Nas conversas com o casal o mundo deles se abre e inúmeros detalhes são revelados. Com as mãos amarradas, Maigret nada pode fazer e só lhe resta encolher os ombros. Não há crime, não existe processo, nada que justifique uma ação policial. No entanto, o caso não lhe sai da cabeça e, por via das dúvidas, mesmo temendo parecer ridículo, põe um de seus homens a vigiar o casal. Ele parece farejar a tragédia no ar.

E então, num atropelo, as coisas acontecem numa certa manhã. Quando nem havia levantado da cama, o telefone toca e chega a notícia dura e fria tão temida: o crime aconteceu mais ou menos como ele presumia que haveria de acontecer. Não sabia quem era a vítima, tanto poderia ser um ou outro, mas agora se tratava de um fato consumado e não apenas de uma premonição.

A investigação tem início e Maigret não tarda a desvendar os fatos. Quando o juiz de instrução um certo Caméliau, de quem não gostava, entra no caso, ele já tem pronta a solução. Uma solução das mais engenhosas e que só a imaginação inesgotável de Simenon sabia engendrar. E que aqui não revelo para não estragar o prazer da surpresa do leitor.

Saindo do pesado palco do crime, Maigret se sente vazio e pesado. “Lá fora o frio fizera-se mais penetrante, e os flocos de neve, minúsculos e duros, visíveis apenas no foco das luzes, picavam a pele, onde pareciam querer se incrustar, pousavam nos cílios, nas sobrancelhas, nos lábios.”

Ler Georges Simenon é sempre uma experiência aliciante.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/06/2018 às 10h36 | e.atha@terra.com.br

A busca da imortalidade

Com as exceções de praxe, as pessoas em geral não desejam morrer e, quando isso acontece, mesmo porque é inevitável, não querem ser esquecidas. Como a morte esconde um mistério insondável, as religiões prometem a vida eterna, após o desenlace, pregando a crença na imortalidade da alma. O ser humano é dúplice, composto de corpo e alma, segundo os que têm fé. Enquanto o corpo acaba, vira pó, a alma galga outros mundos, escondidos sob o véu do mistério. Por via das dúvidas, o ser humano busca outras formas através das quais espera alcançar a imortalidade. Por duvidosas que sejam, não são poucos os que acreditam piamente nisso.

Entre tais meios estão a realização de grandes obras que marquem a passagem terrena da pessoa, como a publicação de livros, a produção de obras de arte, as conquistas científicas, e o ingresso nas agremiações e academias. No que concerne aos escritores, persiste a crença de que o autor desaparece mas a obra fica, embora essa permanência quase sempre seja efêmera. Poucas produções literárias perduram por longo tempo, como acontece com as de Platão, Aristóteles, Goethe, Balzac, Cervantes e outros tantos. A maioria das obras morre com o autor, quando não desaparece antes dele. Tenho conhecido muitos autores de obras mortas. Seja como for, no entanto, a ilusão de perenidade mantém o escritor na labuta, entregue ao mais solitário dos ofícios, esperançoso de que suas palavras cheguem ao futuro.

Outros buscam a imortalidade nas academias. Lutam com todas as forças para obter uma vaga, uma vez que a proposta dessas entidades é a de manter viva a memória de seus integrantes, o que nem sempre acontece. Aqui no Brasil o sonho de muitos é entrar na Academia Brasileira de Letras (ABL), pretensão difícil ao extremo. Há quem batalhe por anos e anos por uma vaga. Outros, no entanto, não se interessam. Escritores de grande renome, cujas obras exerceram notável influência, não foram acadêmicos: Érico Veríssimo, Gilberto Freyre, Mário de Andrade, Lima Barreto, Câmara Cascudo, Monteiro Lobato, Sílvio Meira, Joaquim Inojosa. Muitos políticos, por outro lado, usaram a força do cargo para abrir as portas da ABL: Getúlio Vargas, Lauro Muller, Fernando Henrique Cardoso e até ministros da ditadura. Tornaram-se corpos estranhos dentro da Instituição. Diante da dificuldade, muitos se contentam com a imortalidade estadual e até mesmo municipal. Quem não tem cão, caça com gato.

Meu saudoso amigo Nilto Maciel, escritor prolífico e talentoso, costumava dizer que o ingresso nas academias é a imortalidade inventada. Desde cedo – dizia ele – se convenceu de que não tinha alma, sendo, portanto, um mortal comum, e assim só lhe restava escrever e escrever para permanecer na lembrança das pessoas. Sua constante atividade despertou a atenção de alguns acadêmicos e estes decidiram levá-lo para o seu meio. “Pois eis que no meio do caminho desta vida – escreveu ele – me apareceu um desses seres eternos. Chamava-se Almeida Fischer, que queria ser mais imortal do que era, pois pertencia à Academia Brasiliense de Letras. Não se apresentou em corpo e alma, para não se fazer tão objetivo; mandou um seu colega me fazer comunicado quase letal: Eu fora escolhido para constituir a nova casa federal de letras, a Academia de Letras do Brasil. Tomei um susto, mas não morri. Ora, eu não queria vestir fardão. Muito menos farda. . .” Dias depois recebeu a visita do próprio acadêmico e “disse duas ou três frases indecorosas”, alegando que não se sentia acadêmico, considerava-se em fase de crescimento e despreparado para a vida acadêmica e, acima de tudo, não via necessidade da criação de mais uma academia. “Ele parecia não acreditar no que ouvia – disse Nilto. – Talvez eu estivesse brincando. Ou delirando. Você bebeu muito ontem? Certamente me acometia um surto de loucura. Ora, quem não quer ser imortal, quem não se sente excepcionalmente envaidecido e comovido de ser convidado a ingressar no círculo restrito dos olimpianos?” Espantado, incrédulo, olhos esbugalhados, o acadêmico parecia estatelado na cadeira. Onde já se viu alguém recusar semelhante convite? Como esse energúmeno se atreve a tanto?

Para melhor esclarecer as coisas, Nilto prometeu enviar uma carta detalhando seus motivos. Mas a carta chegou tarde demais. “Dias depois eu soube da tragédia: O homem se tinha morrido. Ou tinha deixado de ser vivo. Eu continuei mortal. . .” – concluiu Nilto Maciel.

Escrito por Enéas Athanázio, 04/06/2018 às 11h30 | e.atha@terra.com.br

Hemingway, o repórter (2)

Comentei, em crônica anterior, o primeiro volume deste belo e raro livro de autoria do escritor americano Ernest Hemingway (1899/1961) que se intitula “Ernest Hemingway Repórter”, dividido em dois volumes, “Tempo de Viver” e “Tempo de Morrer”, publicados pela Editora Civilização Brasileira, em tradução de Álvaro Cabral (Rio – 1962). Os dois volumes reúnem uma criteriosa seleção das reportagens e despachos produzidos pelo escritor como correspondente de grandes órgãos da imprensa enviado para cobrir importantes acontecimentos em variados pontos do globo. Enquanto o primeiro volume contém trabalhos ainda anteriores à II Guerra Mundial, embora já se pudesse sentir a sua aproximação, o segundo reúne textos escritos no teatro de guerra, no fragor das batalhas, em tempos sombrios de horror e morte. Corajoso como foi, Hemingway não se contentava em observar à distância, mas procurava ingressar no próprio palco da ação “para ver as coisas por dentro.” Durante a Guerra Civil Espanhola, por exemplo, hospedava-se no célebre Hotel Flórida e num de seus quartos batucava reportagens enquanto bombas explodiam na rua fronteira e algumas delas sacudiam o prédio com a explosão e até o atingiam. Mas nada o detinha e isso lhe proporcionou uma participação privilegiada nos acontecimentos, razão pela qual afirmou a crítica que este livro é a “presença viva de Hemingway.” Foi nessa situação, a dois quarteirões do fronte, que escreveu sua única peça teatral: “A Quinta Coluna.”

“Tempo de Morrer” se abre com reportagens sobre a Guerra Civil Espanhola (1937/1939), conflito que ele acompanhou com grande atenção, percorrendo os locais de combates, mantendo contato com os comandantes, perambulando por toda parte e se mantendo informado sobre tudo que acontecia. Percebeu muito cedo os primeiros lampejos da guerra, presenciou o bombardeio de Madri, fez curiosas observações a respeito da nova espécie de guerra que ali se travava, viveu momentos em que “a morte passou de raspão”, testemunhou a debandada final dos refugiados em desespero e percebeu com antecipação que aquela guerra, no fundo, constituía um treino, uma experiência, um aperitivo para a grande carnificina que viria em 1939. Era o confronto pioneiro entre os dois lados que se enfrentariam logo mais, em futuro próximo. E, como poucos, no próprio cenário das hostilidades, entre mortos e feridos, destruição e violência, barbárie, valentia, heroísmo e lágrimas, viveu cada momento do conflito que ensanguentava a Espanha, país que mais amava.

Seguem-se despachos sobre outras guerras para onde era sempre mandado. Andou pela China durante a guerra desse país contra o Japão e, mesmo em meio ao terror das batalhas, não perdia o humor. Em certo trecho, relata que experimentou vinho de cobra, feito de arroz e com pequenas cobras enrodilhadas no fundo da garrafa. Dizia que curava a queda dos cabelos e levou alguns litros para os amigos. Previu com grande antecedência a derrota chinesa e as barbaridades que se sucederiam. Depois, durante a II Guerra Mundial, embora fosse proibido, comandou um grupo de guerrilheiros franceses que o tratavam como capitão. Por esse motivo teve sérios problemas. Mas entrou em Paris, no momento da libertação, marchando garboso à frente de seus guerrilheiros maltrapilhos, sujos, famintos, cansados e junto às tropas regulares. Participou do desembarque na Normandia, no Dia D, tudo acompanhando de perto. Não se contentava em ser mero expectador; queria a todo custo participar. A reportagem “Como chegamos a Paris” é um relato comovente e único sobre a retomada da cidade. No final, o machão valente tem que confessar: “Nada mais pude dizer então pois senti uma estranha sufocação na garganta e tive de limpar meus óculos porque, diante de nós, pardacenta e sempre bela, estendia-se agora a cidade que eu mais amo em todo o mundo.” Compungido, o valentão tem que confessar que chorou. Mas, como tudo, um dia a guerra terminou e sobrevieram dias de paz e bucolismo.

Sucedem-se, então, os dias serenos vividos em Cuba, nos arredores de San Francisco de Paula. As visitas dos amigos na Finca Vigia, as pescarias na Corrente do Golfo a bordo do Pilar, os daiquiris da cantina Floridita e o trabalho literário de todas as manhãs, batucando em pé na sua máquina de escrever. E as viagens, viagens e viagens. Até que um batalhão de barbudos desce da Sierra Maestra e toma o poder. Era o momento de exercitar a prudência e procurar novos ares.

Escrito por Enéas Athanázio, 29/05/2018 às 14h08 | e.atha@terra.com.br

Hemingway, o repórter

O escritor americano Ernest Hemingway (1899/1961) iniciou a carreira profissional como jornalista e, mesmo procurando abandonar essa atividade para se tornar apenas escritor, acabou praticando o jornalismo até quase o fim da vida. Homem ativo, misto de escritor, viajante e aventureiro, foi sempre destacado por grandes órgãos da imprensa para cobrir os mais variados e importantes acontecimentos ao redor do mundo. E nessas viagens costumava aliar o objetivo da missão aos seus gostos pessoais, resultando daí reportagens vivas e palpitantes, sempre escritas em absorvente linguagem literária. Escreveu incontáveis textos jornalísticos e sobre os mais diversos assuntos.

Parte desse material foi recolhido e organizado por William White num livro muito raro a que deu o nome de “Ernest Hemingway Repórter”, dividido em dois volumes com os títulos de “Tempo de Viver” e “Tempo de Morrer”, ambos incorporados às obras completas do escritor e publicados no Brasil pela Editora Civilização Brasileira (Rio – 1969). Segundo a crítica, os dois volumes contêm o melhor do Hemingway - repórter e constituem a presença viva dele. E, de fato, a leitura o confirma, revelando inclusive que ali se encontra a gênese de algumas de suas obras ficcionais, esboçadas em linhas gerais.

O volume inicial reúne reportagens enviadas de variadas partes do mundo, antes ainda da II Guerra Mundial, embora sua aproximação já fosse sentida no ar de forma trágica e inevitável. Em inúmeras passagens ele adverte seu país a não se intrometer nessa guerra europeia com a qual só teria a perder. Nunca foi ouvido e os fatos acabaram forçando o ingresso dos EUA na contenda.

Nesse volume é publicada a reportagem que provocou muita celeuma em que ele considerava Mussolini o maior blefe da Europa e criticava a covarde invasão da Etiópia para exibir poderio diante de um adversário miserável. Por outro lado, explicam-se os frequentes desentendimentos dele com os periódicos para os quais trabalhava. É que aproveitava as ocasiões para pescar truta e atum, esquiar, caçar, assistir a touradas e beber com os amigos enquanto as coisas aconteciam. Não obstante, nada lhe escapava e cumpria a missão de maneira exemplar. Além disso, não tinha medo e se infiltrava nos lugares menos recomendáveis, desde que ali houvesse ação.

Numa passagem ele escreve sobre o que vai na cabeça do pescador enquanto aguarda a beliscada do peixe. “Uma boa parte das coisas em que se pensa – escreveu – não é suscetível de ser impresso... Algumas dessas coisas seriam o bastante para colocar um sujeito no xadrez...” (p. 208). Mais adiante, dá um conselho aos aspirantes a escritor: “Escreva sobre aquilo que você sabe e escreva sinceramente...” (p. 220).

Nos constantes encontros com figurões do cenário internacional, retratando-os e entrevistando-os, faz curiosas observações a respeito do poder. “O poder afeta todos os homens que o detêm – concluiu ele em concordância com outro observador, - de uma certa e definida maneira.” Segundo eles, “é possível apontar os sintomas desse efeito em qualquer homem, mais cedo ou mais tarde...” (p. 267). Alguns desses sintomas: um dos primeiros é a perda da confiança nos companheiros, vendo traições e armadilhas em qualquer gesto; depois vem a suscetibilidade que não lhe permite aceitar a menor crítica e, por fim, a crença de que é indispensável e de que sem ele nada se fará. Em consequência, aos olhos dele, tudo que for feito para se manter no poder será permitido. Esse mal do poder atinge honestos e desonestos, sendo que, segundo ele, estes últimos resistem por mais tempo, “pois a sua desonestidade fê-lo cínico ou humilde, de um certo modo, e isso protege-o” (p. 268). Resta-nos observar no cotidiano e verificar o que ocorre entre nós.

Muito mais mereceria abordagem, mas fica para o próximo artigo.

Escrito por Enéas Athanázio, 21/05/2018 às 10h12 | e.atha@terra.com.br

O idioma panlatino

A grande quantidade de línguas faladas no mundo dificulta o entendimento e a aproximação dos povos. Essa profusão de idiomas se deve, segundo a lenda, à Torre de Babel onde se implantou o caos linguístico como uma espécie de castigo à pretensão humana de atingir o céu. Afirmam os estudiosos que existem 2796 línguas vivas no planeta, classificadas em 12 grupos ou famílias linguísticas principais e 50 grupos secundários. Quanto mais distantes as raízes dos idiomas, mais difícil se torna a comunicação. Em face disso, ao longo da história, têm surgido projetos de implantação de línguas artificiais ou criadas, dentre as quais o esperanto tem sido a mais difundida e duradoura. Todas essas tentativas, no entanto, falharam e a babel idiomática continua.

William Agel de Mello, diplomata, escritor e consumado linguista, propõe uma solução diferente, inovadora e prática. Diante da impossibilidade da adoção de um idioma único em todo o mundo, como os fatos vêm demonstrando, sugere ele, com base em longos e acurados estudos, a fusão das línguas em grupos derivados da mesma raiz ou tronco. Haveria assim uma união de idiomas aparentados, aproveitando-se o que eles possuem em comum. Não seria uma substituição mas, “ao contrário, o retorno à unidade partindo da pluralidade.A ideia básica é a convergência das línguas numa língua única” – explica o ensaísta.

Com esse propósito, as línguas ficariam pertencendo a grupos designados como Pangermânicos, Pan-eslavos, Pancélticos, Panlatinos e outros. Como o nosso português é derivado do latim, integraria o grupo Panlatino, junto com o espanhol, o catalão, o provençal, o franco-provençal, o francês, o ladino, o sardo, o italiano e o romeno. Entrariam aí idiomas mais e menos falados, mas todos dando sua contribuição. Não se trata, portanto, de um idioma artificial como tantos outros, uma vez que nunca deixou de ser falado. Além de aproximar os homens, “entre as finalidades específicas destaca-se a de servir de veículo de comunicação entre os povos que falam línguas afins” – afirma o linguista, acrescentando: “A superlíngua assim formada é concomitantemente filha e irmã das que lhe deram origem. É uma, mas ao mesmo tempo todas. Outra vantagem incontestável das línguas submetidas à fusão é o fator tradução.” Como se sabe, a tradução de textos de uma língua para outra é uma atividade complexa e inçada de problemas.

Em seu livro “O Idioma Panlatino e outros ensaios linguísticos” (Editora Kelps – Goiânia – 2011), William Agel de Mello expõe em minúcia o projeto Panlatino e faz outras incursões no mundo das línguas. É admirável a segurança com que ele se move nesse intrincado universo, demonstrando completo domínio de tantos temas nele envolvidos, desde a história e  a geografia até os segredos e particularidades de inúmeros idiomas. Seu livro é um manancial inesgotável de informações a respeito das línguas em geral e do Panlatino em particular. Faz comparações e análises, estuda as afinidades e diferenças num trabalho único e que tem merecido a atenção de renomadas autoridades sobre o assunto. É um trabalho que deveria ser conhecido por todos nós, uma vez que é a língua que nos difere dos outros seres vivos.

O autor é também renomado africanista, conhecedor da África por dentro e por fora, historiador e ficcionista. Sobre ele Guimarães Rosa depositava esperanças de que realizaria uma grande obra literária, o que, de fato, aconteceu. Sua obra tem sido submetida ao crivo de numerosos intérpretes, tanto que tem ele nos dias atuais uma extensa e significativa fortuna crítica.

Seria o projeto Panlatino uma utopia? É possível, mas como diz o seu autor “qualquer tentativa, por mais humilde que seja, no sentido de facilitar a comunicação entre os povos é um bem à humanidade.”

Como seria o mundo se não existissem os utopistas?

Escrito por Enéas Athanázio, 14/05/2018 às 10h01 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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