Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

FAHRENHEIT 451

“Fahrenheit 451” é um dos romances mais célebres da moderna literatura universal. Foi publicado em 1953 e seu autor, Ray Bradbury (1920/2012), nasceu nos Estados Unidos e publicou obras de vários gêneros, como romances, contos, peças teatrais e roteiros para filmes, mas obteve renome mundial com este romance. Equiparado às maiores distopias da literatura, como “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley, e “1984”, de George Orwell, é uma história inquietante e até mesmo profética. A narrativa cria um clima asfixiante que oprime o leitor, embora o enredo seja muito simples e poucos os personagens.

Ambientado em local não identificado, fictício, mas que se parece com os Estados Unidos, é um país rigidamente autoritário do qual os livros, quaisquer que fossem, foram banidos e a posse de um só deles constitui crime. É curioso que o autoritarismo não parte do Estado e seus agentes, mas de baixo para cima, do comportamento do próprio povo, fanatizado e alinhado de maneira bovina com as diretrizes gerais. As pessoas são estimuladas a se divertirem o tempo todo porque assim se tornariam felizes. Todas as casas têm imensas telas de televisão no lugar das paredes exibindo novelas e entretenimentos com os quais as pessoas podem interagir. Para fugir da rotina, são estimuladas a ingerir pílulas e mais pílulas. A delação é a norma e acontece até mesmo dentro das famílias, tal como fez Mildred, mulher do bombeiro Montag, por ter ele lido trechos de um poema para ela e algumas amigas que a visitavam. A delação provoca uma perseguição sem precedentes contra o bombeiro que foge apavorado sem saber aonde ir.

Aspecto dos mais curiosos e paradoxais é que os bombeiros, antes dedicados a apagar incêndios, se transformam em queimadores de livros e sua função é incinerá-los sem piedade onde quer que se encontrem. É que a leitura de livros faz pensar e, portanto, o livro é um perigoso inimigo em potencial. As pessoas não devem pensar mas limitar-se a viver o cotidiano vendo novelas, programas de televisão e conversando sobre futilidades. E obedecendo sem pestanejar as regras estabelecidas.

Montag era bombeiro, bem casado com Mildred, tinha uma bela casa com paredes transformadas em telas de televisão. Cumpria sem problemas sua jornada de trabalho e estava feliz da vida. Vai que encontra na rua a vizinha de nome Clarisse, moça de 17 anos, e ela lhe diz coisas estranhas que começam a trabalhar na sua cabeça. Descobre depois, por acaso, que sua mulher vivia à base de drogas. Por fim, entra em contato com o Professor Faber, velho subversivo que, mesmo com muito medo, o estimula à rebeldia. A queima de uma biblioteca com sua dona, uma idosa que se recusa a abandonar seus livros, é a gota d’água. Num ato revolucionário, lê em voz alta para a mulher e suas amigas o trecho de um poema. Ela o denuncia e desaparece enquanto ele inicia uma fuga desesperada. No outro lado do rio, sobre os trilhos abandonados de uma ferrovia, encontra um grupo de intelectuais foragidos que têm na memória grande parte do conhecimento humano e a eles se junta. Com esse recurso, creio que o autor quis indicar que por mais que seja perseguida a cultura sempre encontra uma forma de renascer. Enquanto eles conversam escondidos na mata avistam os clarões de mais uma guerra em que o mundo está envolvido.

O clima do livro é sufocante. Todos pensam e agem da mesma forma como seres fanatizados e intolerantes. Qualquer ideia diferente ou renovadora é punida e todos devem se conformar com a mesma vidinha monótona e aguada. É um alerta contra as ditaduras de todos os tipos e cores cujos adeptos estão sempre de tocaia para implantá-las.

Recorda o escritor Manuel da Costa Pinto, prefaciador da edição brasileira, o seguinte fato: “Em 1933, quando os nazistas queimaram em praça pública livros de escritores e intelectuais como Marx, Kafka, Thomas Mann, Albert Einsten e Freud, o criador da psicanálise fez o seguinte comentário a seu amigo Ernest Jones: Que progresso estamos fazendo. Na Idade Média, teriam queimado a mim; hoje em dia, eles se contentam em queimar meus livros.” Mal previa ele que alguns anos depois teria início a maior queima de pessoas já registrada pela história.

A democracia é a maior conquista do homem civilizado. Sua defesa é um dever de quantos não têm alma de escravos.

Escrito por Enéas Athanázio, 23/06/2020 às 12h07 | e.atha@terra.com.br

A DEMOCRACIA EM PERIGO

Para quem viveu os vinte e um anos da ditadura e as barbaridades que eram praticadas no dia-a-dia, a perspectiva de viver sob outra é algo assustador. Mas o panorama político do momento faz temer pelas nossas instituições e pela Constituição de 1988 cuja conquista custou tanto esforço, sofrimento, perseguições e violência. Um grupo de fascistas, pouco numeroso mas ativo, não cessa de pregar a intervenção militar e o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Não sabem esses inocentes úteis que ditadura só serve para quem tem alma de escravo. Para completar, o presidente agita e fala sem cessar os maiores absurdos, sem esconder sua simpatia por tiranos do tipo Pinochet..

Olhando para o passado histórico, a impressão que fica é de que os brasileiros, ou uma boa parte deles, não entendem a democracia. Estão sempre em busca de um senhor, um pai, um chefe a quem obedecer sem pestanejar e sem pensar. Talvez isso venha do segundo reinado, quando D. Pedro II era endeusado como o Pai do Povo cujas ordens eram sempre sábias e corretas, não podendo jamais ser discutidas e, muito menos, contestadas. Assim, o povo estava eximido de pensar; só lhe cabia obedecer. Talvez isso venha de mais longe ainda, dos tempos coloniais, quando os portugueses e os brasileiros esperavam a ressurreição do rei D. Sebastião, morto na batalha de Alcácer-Kibir, e que viria à frente de seu exército encantado para esmagar os inimigos e diante de quem todos se curvariam em sinal de completa obediência e submissão. É possível que esse sebastianismo explique porque estamos sempre buscando um salvador da pátria que nos livrará de todos os males, a exemplo de Collor, Lula e agora Bolsonaro. E assim vamos tropicando pela estrada da vida sem saber ao certo o que desejamos para o país.

D. Sebastião, morto na batalha de Alcácer-Kibir

A revista “Quatro Cinco Um”, em número recente, publicou extensa análise da democracia no Brasil em diversas abordagens. Fez um resumo dos atentados contra ela ao longo dos últimos 100 anos, alguns consumados e outros não. A leitura deixa na alma o sentimento melancólico de que nunca conseguimos consolidar a democracia de forma tranqüula e como definitivo regime do país. Sempre houve e ainda há os que tramam contra ela. Ao contrário da liberdade, do debate, da transparência, querem o obscurantismo, o ódio e a violência.

Desde 1922 até 1964 acontecem sucessivos atos de força por parte dos governos. Estado de sítio, leis draconianas, a Revolução de 1930, a Lei de Segurança Nacional e o Tribunal de Segurança Nacional, ambos de triste memória, deportações, suspensão dos direitos individuais, o golpe de 1937 e a instauração do Estado Novo, cassação de mandatos, o Congresso é fechado, nova Constituição é outorgada (a “polaca”), é instituída a censura, massacres de manifestantes, dissolução da Universidade do Distrito Federal, jornais e entidades de trabalhadores são fechados, sindicatos sofrem intervenção, “golpe preventivo” do general Lott (a “novembrada”), os militares impedem a posse de João Goulart, o golpe de 1964 e a instauração das trevas que vão até 1985, quando tem início a luta pela redemocratização. Como se vê, foi um rosário de atentados contra a democracia que deveriam servir de exemplo mas que muitos fazem por ignorar.

Não podemos voltar a esse estado de coisas. A democracia pode ter seus defeitos e certamente os tem, mas o gênio dos pensadores ainda não conseguiu inventar nada melhor. Só em regime democrático o cidadão pode viver com dignidade. A democracia é o império da lei e, como dizia Rui, fora da lei não há salvação. A história tem demonstrado que nos regimes de força o indivíduo nada vale.

Defender a Constituição e o Estado Democrático de Direito deve ser o mais importante dos objetivos nacionais permanentes do país.

Escrito por Enéas Athanázio, 15/06/2020 às 10h12 | e.atha@terra.com.br

HOLOCAUSTO NUNCA MAIS (2)

Depois de se tornar um best-seller mundial, o livro “O garoto que seguiu o pai para Auschwitz”, de autoria do escritor e jornalista britânico Jeremy Bronfield, foi publicado no Brasil pela Editora Objetiva em tradução de Cássio de Arantes Leite (Rio – 2019). A obra é um retrato fiel e dramático, fundado em copiosa documentação e fontes informativas, dos padecimentos do artesão vienense Gustav Kleinmann e seu filho Fritz, ainda garoto, nos campos de concentração nazistas em que foram aprisionados pelo fato de serem judeus durante a II Guerra Mundial. Tão chocantes são as revelações que o próprio autor confessou o quanto gostaria que os relatos fossem pura ficção. Mas a documentação demonstra que tudo foi a mais absoluta verdade.

Fritz e Gustav em 1959 / Fritz em 1937 (Crédito:Divulgação e Peter Kleinmann)

Pequeno e hábil artesão, Gustav Kleinmann vivia em Viena com a esposa Tini e quatro filhos, Kurt, Fritz, Edith e Herta. Vida modesta mas estável, com boa freguesia e desfrutando da amizade dos vizinhos. Mas o ambiente começou a mudar quando Hitler manifestou o desejo de anexar a Áustria à Alemanha, propósito que sempre alimentou e jamais escondeu. Os adeptos da unificação desencadearam intensa propaganda e as opiniões se dividiram. Para resolver a questão, o chanceler austríaco designou um plebiscito. Irado, no seu estilo tonitruante, Hitler exigiu que a votação fosse suspensa mas o chanceler não concordou e foi afastado do cargo. O plebiscito foi realizado com evidente manipulação dos resultados e a Áustria foi anexada. Era a Anschluss e a partir dali as portas do inferno se abriram, como afirmou uma testemunha. Tiveram início as perseguições contra os judeus e as restrições cada vez maiores de suas atividades. Denunciados pelos vizinhos, antes amigos, Gustav e o filho Fritz foram presos e enviados ao campo de concentração de Buchenwald nos costumeiros vagões destinados ao transporte de gado e tão lotados que as pessoas mal podiam respirar. Aí tem início o terrível calvário vivido pelo pai e pelo filho.

Chegados ao destino, mais mortos que vivos, famintos, sedentos e sonolentos, são submetidos à burocracia: filas, registro, chamada. Raspam-lhes as cabeças, substituem suas roupas por grosseiros uniformes e são enviados aos alojamentos onde dormirão em tarimbas secas e apertadas. A alimentação é precária e insuficiente. E então são enviados aos campos de trabalho escravo, vigiados com extrema severidade pelos soldados e pelos kapos (prisioneiros que mudaram de lado) A brutalidade é constante, tanto nos atos como nas palavras. Não basta matar, é preciso humilhar, maltratar, espancar e, quando possível, explorar. As chamadas Unidades da Caveira superavam as maiores brutalidades imagináveis. Muitos oficiais se notabilizaram pela frieza e pela maldade. Sua presença aterrorizava os prisioneiros.

As cenas de brutalidade são chocantes. Enviados às pedreiras, cabia-lhes alimentar o triturador, carregar os vagonetes e transportá-los pela colina acima e abaixo. Tudo com rapidez, sem luvas, as mãos enregeladas e doloridas, e sem agasalhos. Não havia pausas, exceto uma muito breve para a refeição miserável. Muitos desmaiavam, o que constituía motivo para risotas e brincadeiras dos soldados, enchendo-lhes as bocas de água e acordando-os a cacetadas. Outros tinham que limpar as latrinas, um trabalho abjeto, feito com as mãos nuas e sem qualquer proteção. E os soldados e kapos, nos seus uniformes impecáveis, divertiam-se à custa dos miseráveis. Tiravam-lhes os bonés e os jogavam para além da linha proibida onde o prisioneiro não podia entrar. Imaginando que se tratava de simples brincadeira, os inocentes cruzavam a linha e eram fuzilados sem piedade. Tais fuzilamentos mereciam elogios e prêmios. A maldade não tinha limites.

Não obstante, apesar de todos os horrores, Gustav e Fritz conseguiram sobreviver para contar a terrível experiência a que foram submetidos. Sua triste história ficou como mais um documento da estupidez humana. Com incrível esforço, conseguiram retomar o curso da vida.

O preconceito é um sentimento que não consigo entender. Ninguém escolhe para nascer branco, preto, amarelo ou vermelho. Como ninguém escolhe para nascer europeu, asiático, americano ou africano. Da mesma forma que ninguém escolhe nascer católico, budista, muçulmano ou judeu. Tudo é fruto do mero acaso, dependente do local onde os pais estejam no momento do nascimento e das crenças familiares. Odiar alguém por algum desses motivos não tem o menor sentido e afronta a lógica do homem comum. Odiar o negro porque é negro, o judeu porque é judeu, o índio porque é índio é condenar alguém pelo que não tem culpa. Mas o ódio parece cegar muitas pessoas e elas não enxergam as coisas mais elementares.

Escrito por Enéas Athanázio, 08/06/2020 às 10h56 | e.atha@terra.com.br

HOLOCAUSTO NUNCA MAIS

Foto Marcos Oliveira / Agência Senado

O edifício do Congresso Nacional, em Brasília, amanheceu com as palavras “Holocausto nunca mais” em letras fosforescentes. Uma iniciativa muito oportuna no momento em que o antissemitismo cresce em todo o mundo e no Brasil. O Holocausto é uma das maiores feridas da história mundial, nunca cicatrizada, e por isso precisa ser lembrado sempre para que jamais se repita.

Existe imensa bibliografia sobre o assunto e que não cessa de crescer, o que é muito positivo. O conhecimento é a melhor arma contra os preconceitos. Entre os livros mais recentes sobre o Holocausto está “O garoto que seguiu o pai para Auschwitz”, de autoria do escritor e jornalista Jeremy Bronfield que, depois de se tornar um best-seller mundial, foi publicado no Brasil pela Editora Objetiva (Rio – 2019). O livro reconstitui uma história comovente unindo pai e filho na terrível luta diária pela sobrevivência e que merece mais que um comentário. Aqui, no entanto, desejo me ater apenas aos primórdios do relato, no período que antecedeu à prisão de ambos pelas forças nazistas de ocupação na Áustria. Em outra ocasião voltarei ao livro.

Gustav Kleinmann era um habilidoso artesão que vivia em Viena em companhia da esposa, Tini, e dos filhos, Fritz, Kurt, Edith e Herta. Embora fosse judeu, não era ortodoxo, e se considerava um perfeito austríaco. Havia lutado pela pátria na I Guerra Mundial como soldado, sofreu graves ferimentos e foi condecorado por bravura. Embora levassem vida modesta, nada perturbava a família. Mantinha boas relações com a vizinhança e o viver era tranquilo.

A ascensão de Hitler na Alemanha projeta uma sombra sobre a Áustria. Ele jamais escondeu o desejo de anexar o país onde havia nascido e seus adeptos iniciam uma intensa pregação nesse sentido. As opiniões se dividem e manifestações pró e contra se repetem, algumas com violência. O chanceler austríaco, Schuschingg, designa um plebiscito para decidir a questão. Irado, Hitler esbraveja no seu estilo tonitruante e exige o cancelamento da votação, prevendo uma derrota, mas o chanceler não se curva e acaba afastado do cargo. O plebiscito é realizado com evidente manipulação dos resultados e os favoráveis à anexação vencem com larga margem. Hitler anexa a Áustria à Alemanha, dando início à escalada de ocupações que levariam à II Guerra Mundial. Era o Anschluss e o país estava anexado, sem soberania e sem governo próprio. Um títere, dessas figuras abjetas que sempre surgem nessas ocasiões, assume um governo de fachada. Hitler em pessoa visita a Áustria para comemorar e desfila sob aplausos apoteóticos. O povo saudava seu futuro carrasco, o mesmo que o faria derramar lágrimas de sangue.

Um clima de ódio e intolerância toma conta do país. O fanatismo nazista explode em toda parte e a violência aterroriza as pessoas. Conhecidos de ontem que saudavam os Kleinmann com um sorriso nos lábios agora se revelavam inimigos mortais. Uma das filhas é injuriada e humilhada na rua por um colega de escola. Os filhos homens são ofendidos e forçados a quebrar esquinas para se livrarem dos ataques. Passeatas nazistas acontecem a todo momento com os manifestantes gritando insultos contra os judeus e os católicos. A situação se torna insuportável e o clima irrespirável. Gustav é forçado a encerrar as atividades e sua oficina é fechada. Os filhos não podem mais frequentar a escola. As restrições contra os judeus são cada vez mais severas. Até que a família é denunciada pelos vizinhos, antes amigos, e Gustav e Fritz são presos, conduzidos a uma delegacia e depois para Buchenwald, o temido campo de concentração. Aí tem início o calvário a que pai e filho serão submetidos e que o autor do livro relata em pormenores e com base em fundados elementos de prova. Como ele diz, os fatos são tão terríveis que preferiria que não fossem verdadeiros.

Os acontecimentos da Áustria são um exemplo aos que semeiam o ódio e a intolerância e pregam a ditadura. Em regime democrático o Holocausto não teria acontecido. O mundo vive tempos autoritários e discriminatórios capitaneado por Trump nos Estados Unidos e Macron na França, imitados por outros esbirros de menor porte. Mas é preciso resistir porque só na democracia o ser humano pode viver com dignidade. Ditadura só serve para quem tem alma de escravo.

E agora, Moro? O senhor a quem você tanto serviu o descartou como algo desnecessário e o classificou de mentiroso e chantagista. A mestra vida me ensinou que sempre que Promotores e Magistrados se envolvem com políticos acabam mal.

Como diria Camões, o Brasil vive um período de apagada e vil tristeza. 

Escrito por Enéas Athanázio, 01/06/2020 às 18h17 | e.atha@terra.com.br

Sobre a China

Xangai, a maior cidade chinesa

Com o surgimento da pandemia do coronavírus várias “teorias conspiratórias”, inspiradas no ódio dos dias que vivemos, circularam sobre a China, as mais graves delas insinuando que o país fomentou a disseminação do vírus com o objetivo de vender produtos e medicamentos e até que criou em laboratório a doença. Os Estados Unidos criaram a expressão “vírus chinês”, uma evidente insinuação que hoje corre o mundo. No passar dos dias, porém, ficou evidente o esforço hercúleo feito pela China para conter a doença e defender seu povo. É claro que esse fato não serviu para calar as bocas e apaziguar as consciências, mas a mídia não deixou dúvida.

A China é vítima de todas as acusações, tanto por ser socialista como por ser desconhecida. No Brasil as pessoas em geral pouco ou nada sabem a respeito dela e muitas afirmações falsas circulam como se fossem indiscutíveis verdades. Entre elas, é comum ouvir-se que os trabalhadores chineses recebem salários miseráveis ou salários de fome. Ora, informações de fonte segura e isenta afirmam que o salário médio deles é bastante superior ao dos brasileiros e tem maior poder de compra porque não convivem com a praga chamada inflação. Mas isso adquiriu foro de verdade indiscutível e não há quem possa alterar esse entendimento. Também são muito criticados os hábitos alimentares chineses. Esses costumes variam nas diversas regiões do globo e aquilo que parece estranho para uns é comum para outros. Os jegues do nosso Nordeste estavam sendo exportados para países asiáticos e lá se transformavam em carne moída para consumo humano. Outros povos consomem a carne de cavalos e os franceses fazem sopas com ninhos de andorinhas. Não obstante, os franceses são o povo mais sofisticado do mundo. A escritora brasileira Betty Milan muito escreveu sobre a culinária francesa e lembrou que à tarde muitas pessoas são vistas em Paris com sua “baguette” (pão alongado) debaixo do sovaco.

Rana Mitter, estudioso das coisas chinesas (sinólogo) e professor da Oxford University, escreveu um livro admirável sobre aquele país e que deveria ser lido porque o conhecimento é a melhor arma contra o preconceito e as falsas concepções. Trata-se de “China Moderna”, publicado entre nós pela L&PM Pocket (Porto Alegre – 2011). Ele desvenda um extenso panorama da China, suas história, cultura, economia e modus vivendi de seu povo. Tudo muito bem fundamentado e documentado, de forma isenta e distanciada.

Para bem entender a poderosa China de hoje, o autor se aprofunda na sua longa e complexa história. Revela um país dividido entre os poderes regionais que lutavam entre si e pareciam destituídos de um sentimento nacional. Governado por dinastias autoritárias e discricionárias, enfrentava com dificuldade a fome e a miséria. Durante o governo de Chiang Kaichek, auto-intitulado nacionalista, houve até mesmo a venda e o aluguel de partes do território nacional a potências estrangeiras. E elas exploraram essas concessões da forma mais livre e predatória possível, em tudo semelhando o colonialismo ocidental na América, na África e na Ásia. Tudo indica que foi a Longa Marcha de Mao Tsé Tung que fixou na população o sentimento de nação, mas no governo dele o país se isolou do mundo, daí derivando muitas das fantasias e invencionices que cercam a China. Mas depois veio a abertura para o mundo e a busca do equilíbrio entre o interesse nacional e a integração no panorama mundial. Em pouco mais de oitenta anos a China deixou de ser um país dividido, desorganizado e miserável para se tornar a segunda potência mundial. É claro que esse gigante realizador e decidido assusta as chamadas grandes potências, temerosas de perder sua hegemonia. Como registra a história, da mesma forma que com as pessoas os países crescem, chegam ao apogeu, envelhecem e morrem.

Impregnada desde séculos pelo pensamento de Confúcio, a sociedade chinesa entendeu que necessitava ingressar na modernidade. Sun Yatsen teve importante papel como figura devotada a uma China republicana e moderna. Travou-se tremenda luta para desvencilhar o país dos contratos ruinosos assinados com outras potências e um grande esforço para se livrar dos estrangeiros que dominavam pontos estratégicos da economia. O país chegou a sofrer uma guerra por tentar limitar a venda e a exportação do ópio. Foi invadido pelo Japão, numa guerra catastrófica, da qual só se livrou com a derrota do Eixo, na II Guerra Mundial, em 1945. Foram penosos e sofridos os caminhos do povo chinês até chegar ao atual status.

Assim como as grandes potências temem os países emergentes acontece na sociedade humana. As classes privilegiadas temem a ascensão dos mais pobres porque isso constitui uma ameaça às suas benesses. Aparece então o ódio como reação, o chamado ódio de classe, mais visível que nunca no mundo e no Brasil de hoje, embora sempre camuflado pelas formas mais sofisticadas. O ódio ideológico só faz agravar esse quadro. É por isso que a leitura é indispensável, espantando fantasmas que infestam as cabeças de muita gente.

Muitas pessoas alimentam a esperança de que da pandemia emergirá um mundo melhor, mais humano, fraterno e cordial. Mas não é o que se vê nas redes sociais, antes pelo contrário. O que se vê é mais ódio, intolerância, fanatismo e violência verbal nas ofensas e xingamentos. Nada indica que o homo homini lupus de Thomas Hobbes esteja perdendo a atualidade. E tudo muito mal escrito. É de dar medo! 

Escrito por Enéas Athanázio, 25/05/2020 às 10h25 | e.atha@terra.com.br

UM LIVRO TRISTE

O romance “O Velho e o Mar”, de autoria do escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899/1961) é proclamado como autêntica obra-prima e um dos pontos mais altos de sua produção. Segundo seus biógrafos, o livro contribuiu de forma decisiva para a conquista do Prêmio Nobel de Literatura, em 1954. É também um dos livros preferidos por grande parte dos leitores do escritor. É curioso notar que foi escrito numa fase em que Hemingway amargava críticas negativas ao seu livro anterior e os mais pessimistas o julgavam acabado. Mas os altos e baixos foram uma constante na vida do velho guerreiro e ele sempre ressurgia e se elevava cada vez mais alto.

A história que se desenrola no livro é tida como uma fábula e comparada às lutas homéricas dos grandes heróis, embora seja um relato linear e despido de personagens. O velho Santiago domina a cena e nela também se destaca o garoto Manolim, seu antigo companheiro de pescarias, proibido pelos pais de acompanhar o pescador porque ele estava “salao”, ou seja, era um azarado da pior espécie. Sem conseguir pescar nada há mais de oitenta dias, Santiago, sozinho, entra mar adentro no seu barco humilde e sem maiores recursos. Pesca um ou dois peixes pequenos dos quais se alimentará mais tarde e um peixe de proporções gigantescas engole sua isca. O peixe estica a linha e começa a rebocar o barco para o mar alto de maneira constante e persistente sem dar mostras de cansaço. Assim continua por dias e noites, submerso nas águas da Gulf Stream, e o velho pescador, com a linha envolta no corpo, amparada nas costas, resiste como pode. As luzes da cidade de Havana desaparecem e ele se vê só e isolado em meio à vastidão, arrastado pelo maior peixe que havia pescado. Depois de muita luta, o peixe vem à tona, é morto e amarrado ao lado do barco, uma vez que não caberia dentro dele. Foi uma vitória difícil, desigual, sobre-humana, de um homem envelhecido, desnutrido e fraco contra a força bruta. Mas ele vence e começa a voltar para a terra quando os tubarões atacam. O pescador, desesperado, luta com todas as forças mas é inútil. Os monstros devoram toda a carne do peixe, deixando apenas o espinhaço com o qual Santiago, mais morto que vivo, chega em casa.

Nas andanças pelo mar alto, rebocado pelo imenso espadarte, Santiago filosofa, reza, conversa consigo mesmo, inclusive em voz alta. Sente pena do peixe, que imagina muito lindo, mas sabe que terá que matá-lo. É pescador profissional, muito pobre, e o peixe, vendido no mercado, poderá lhe render bom dinheiro. Ele é o retrato da humildade e do conformismo. Mesmo exausto pelo esforço hercúleo que fez ao longo de tanto tempo e tendo seu peixe devorado por vorazes tubarões, não emite um só queixume, uma só palavra de revolta ou inconformismo. Reconhece para si mesmo que é um homem de pouca sorte, um azarado. O garoto, ao contrário, não se conforma com o que aconteceu ao seu amigo Santiago. Chora copiosamente, com as lágrimas escorrendo pelas faces, mesmo na rua e diante de outras pessoas, mas não se importa. Trata de ajudar o velho pescador de todas as formas que pode até que ele descanse na sua cama forrada de jornais velhos da qual tanto se lembrou com saudade durante a penosa jornada marítima. Sonha com leões brincando numa praia africana, tal como os vira na juventude.

No correr daquela luta desesperada, Santiago gostaria que tudo não fosse mais que um sonho, mas não admitia a derrota. Um homem não foi feito para a derrota, ele pode ser destruído mas jamais derrotado. E então redobrava os esforços naquela luta desesperada.

O velho Santiago, saltando das páginas luminosas de Hemingway, alcançou projeção universal e hoje é um dos personagens nucleares da moderna literatura.

Quanto a Ernest Hemingway, tornou-se uma lenda que extrapolou todos os limites da literatura e da arte. Não é apenas o criador de um estilo único na forma de escrever, sempre imitado mas jamais igualado, como continua sendo um dos escritores mais lidos de todo o mundo. É imitado de todas as formas, no porte, no vestuário, no jeito de andar e se vestir, no modo de falar. Existem concursos de sósias, de pesca e torneios com seu nome. É venerado em Cuba, onde viveu por mais de vintes anos na Finca Vigia, nos arredores de San Francisco de Paula, e nos lugares onde residiu, nos Estados Unidos, além de homenageado de todas as maneiras imagináveis.

Não obstante, foi um homem que sempre me pareceu triste. Este romance assim o revela, deixando no leitor, ao virar a última página, um misto de admiração pela beleza e de melancolia pela pouca sorte de Santiago.

 

Reprodução (The Old Man and The Sea, Alexander Petrov)
Escrito por Enéas Athanázio, 18/05/2020 às 17h06 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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Por Enéas Athanázio

FAHRENHEIT 451

“Fahrenheit 451” é um dos romances mais célebres da moderna literatura universal. Foi publicado em 1953 e seu autor, Ray Bradbury (1920/2012), nasceu nos Estados Unidos e publicou obras de vários gêneros, como romances, contos, peças teatrais e roteiros para filmes, mas obteve renome mundial com este romance. Equiparado às maiores distopias da literatura, como “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley, e “1984”, de George Orwell, é uma história inquietante e até mesmo profética. A narrativa cria um clima asfixiante que oprime o leitor, embora o enredo seja muito simples e poucos os personagens.

Ambientado em local não identificado, fictício, mas que se parece com os Estados Unidos, é um país rigidamente autoritário do qual os livros, quaisquer que fossem, foram banidos e a posse de um só deles constitui crime. É curioso que o autoritarismo não parte do Estado e seus agentes, mas de baixo para cima, do comportamento do próprio povo, fanatizado e alinhado de maneira bovina com as diretrizes gerais. As pessoas são estimuladas a se divertirem o tempo todo porque assim se tornariam felizes. Todas as casas têm imensas telas de televisão no lugar das paredes exibindo novelas e entretenimentos com os quais as pessoas podem interagir. Para fugir da rotina, são estimuladas a ingerir pílulas e mais pílulas. A delação é a norma e acontece até mesmo dentro das famílias, tal como fez Mildred, mulher do bombeiro Montag, por ter ele lido trechos de um poema para ela e algumas amigas que a visitavam. A delação provoca uma perseguição sem precedentes contra o bombeiro que foge apavorado sem saber aonde ir.

Aspecto dos mais curiosos e paradoxais é que os bombeiros, antes dedicados a apagar incêndios, se transformam em queimadores de livros e sua função é incinerá-los sem piedade onde quer que se encontrem. É que a leitura de livros faz pensar e, portanto, o livro é um perigoso inimigo em potencial. As pessoas não devem pensar mas limitar-se a viver o cotidiano vendo novelas, programas de televisão e conversando sobre futilidades. E obedecendo sem pestanejar as regras estabelecidas.

Montag era bombeiro, bem casado com Mildred, tinha uma bela casa com paredes transformadas em telas de televisão. Cumpria sem problemas sua jornada de trabalho e estava feliz da vida. Vai que encontra na rua a vizinha de nome Clarisse, moça de 17 anos, e ela lhe diz coisas estranhas que começam a trabalhar na sua cabeça. Descobre depois, por acaso, que sua mulher vivia à base de drogas. Por fim, entra em contato com o Professor Faber, velho subversivo que, mesmo com muito medo, o estimula à rebeldia. A queima de uma biblioteca com sua dona, uma idosa que se recusa a abandonar seus livros, é a gota d’água. Num ato revolucionário, lê em voz alta para a mulher e suas amigas o trecho de um poema. Ela o denuncia e desaparece enquanto ele inicia uma fuga desesperada. No outro lado do rio, sobre os trilhos abandonados de uma ferrovia, encontra um grupo de intelectuais foragidos que têm na memória grande parte do conhecimento humano e a eles se junta. Com esse recurso, creio que o autor quis indicar que por mais que seja perseguida a cultura sempre encontra uma forma de renascer. Enquanto eles conversam escondidos na mata avistam os clarões de mais uma guerra em que o mundo está envolvido.

O clima do livro é sufocante. Todos pensam e agem da mesma forma como seres fanatizados e intolerantes. Qualquer ideia diferente ou renovadora é punida e todos devem se conformar com a mesma vidinha monótona e aguada. É um alerta contra as ditaduras de todos os tipos e cores cujos adeptos estão sempre de tocaia para implantá-las.

Recorda o escritor Manuel da Costa Pinto, prefaciador da edição brasileira, o seguinte fato: “Em 1933, quando os nazistas queimaram em praça pública livros de escritores e intelectuais como Marx, Kafka, Thomas Mann, Albert Einsten e Freud, o criador da psicanálise fez o seguinte comentário a seu amigo Ernest Jones: Que progresso estamos fazendo. Na Idade Média, teriam queimado a mim; hoje em dia, eles se contentam em queimar meus livros.” Mal previa ele que alguns anos depois teria início a maior queima de pessoas já registrada pela história.

A democracia é a maior conquista do homem civilizado. Sua defesa é um dever de quantos não têm alma de escravos.

Escrito por Enéas Athanázio, 23/06/2020 às 12h07 | e.atha@terra.com.br

A DEMOCRACIA EM PERIGO

Para quem viveu os vinte e um anos da ditadura e as barbaridades que eram praticadas no dia-a-dia, a perspectiva de viver sob outra é algo assustador. Mas o panorama político do momento faz temer pelas nossas instituições e pela Constituição de 1988 cuja conquista custou tanto esforço, sofrimento, perseguições e violência. Um grupo de fascistas, pouco numeroso mas ativo, não cessa de pregar a intervenção militar e o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Não sabem esses inocentes úteis que ditadura só serve para quem tem alma de escravo. Para completar, o presidente agita e fala sem cessar os maiores absurdos, sem esconder sua simpatia por tiranos do tipo Pinochet..

Olhando para o passado histórico, a impressão que fica é de que os brasileiros, ou uma boa parte deles, não entendem a democracia. Estão sempre em busca de um senhor, um pai, um chefe a quem obedecer sem pestanejar e sem pensar. Talvez isso venha do segundo reinado, quando D. Pedro II era endeusado como o Pai do Povo cujas ordens eram sempre sábias e corretas, não podendo jamais ser discutidas e, muito menos, contestadas. Assim, o povo estava eximido de pensar; só lhe cabia obedecer. Talvez isso venha de mais longe ainda, dos tempos coloniais, quando os portugueses e os brasileiros esperavam a ressurreição do rei D. Sebastião, morto na batalha de Alcácer-Kibir, e que viria à frente de seu exército encantado para esmagar os inimigos e diante de quem todos se curvariam em sinal de completa obediência e submissão. É possível que esse sebastianismo explique porque estamos sempre buscando um salvador da pátria que nos livrará de todos os males, a exemplo de Collor, Lula e agora Bolsonaro. E assim vamos tropicando pela estrada da vida sem saber ao certo o que desejamos para o país.

D. Sebastião, morto na batalha de Alcácer-Kibir

A revista “Quatro Cinco Um”, em número recente, publicou extensa análise da democracia no Brasil em diversas abordagens. Fez um resumo dos atentados contra ela ao longo dos últimos 100 anos, alguns consumados e outros não. A leitura deixa na alma o sentimento melancólico de que nunca conseguimos consolidar a democracia de forma tranqüula e como definitivo regime do país. Sempre houve e ainda há os que tramam contra ela. Ao contrário da liberdade, do debate, da transparência, querem o obscurantismo, o ódio e a violência.

Desde 1922 até 1964 acontecem sucessivos atos de força por parte dos governos. Estado de sítio, leis draconianas, a Revolução de 1930, a Lei de Segurança Nacional e o Tribunal de Segurança Nacional, ambos de triste memória, deportações, suspensão dos direitos individuais, o golpe de 1937 e a instauração do Estado Novo, cassação de mandatos, o Congresso é fechado, nova Constituição é outorgada (a “polaca”), é instituída a censura, massacres de manifestantes, dissolução da Universidade do Distrito Federal, jornais e entidades de trabalhadores são fechados, sindicatos sofrem intervenção, “golpe preventivo” do general Lott (a “novembrada”), os militares impedem a posse de João Goulart, o golpe de 1964 e a instauração das trevas que vão até 1985, quando tem início a luta pela redemocratização. Como se vê, foi um rosário de atentados contra a democracia que deveriam servir de exemplo mas que muitos fazem por ignorar.

Não podemos voltar a esse estado de coisas. A democracia pode ter seus defeitos e certamente os tem, mas o gênio dos pensadores ainda não conseguiu inventar nada melhor. Só em regime democrático o cidadão pode viver com dignidade. A democracia é o império da lei e, como dizia Rui, fora da lei não há salvação. A história tem demonstrado que nos regimes de força o indivíduo nada vale.

Defender a Constituição e o Estado Democrático de Direito deve ser o mais importante dos objetivos nacionais permanentes do país.

Escrito por Enéas Athanázio, 15/06/2020 às 10h12 | e.atha@terra.com.br

HOLOCAUSTO NUNCA MAIS (2)

Depois de se tornar um best-seller mundial, o livro “O garoto que seguiu o pai para Auschwitz”, de autoria do escritor e jornalista britânico Jeremy Bronfield, foi publicado no Brasil pela Editora Objetiva em tradução de Cássio de Arantes Leite (Rio – 2019). A obra é um retrato fiel e dramático, fundado em copiosa documentação e fontes informativas, dos padecimentos do artesão vienense Gustav Kleinmann e seu filho Fritz, ainda garoto, nos campos de concentração nazistas em que foram aprisionados pelo fato de serem judeus durante a II Guerra Mundial. Tão chocantes são as revelações que o próprio autor confessou o quanto gostaria que os relatos fossem pura ficção. Mas a documentação demonstra que tudo foi a mais absoluta verdade.

Fritz e Gustav em 1959 / Fritz em 1937 (Crédito:Divulgação e Peter Kleinmann)

Pequeno e hábil artesão, Gustav Kleinmann vivia em Viena com a esposa Tini e quatro filhos, Kurt, Fritz, Edith e Herta. Vida modesta mas estável, com boa freguesia e desfrutando da amizade dos vizinhos. Mas o ambiente começou a mudar quando Hitler manifestou o desejo de anexar a Áustria à Alemanha, propósito que sempre alimentou e jamais escondeu. Os adeptos da unificação desencadearam intensa propaganda e as opiniões se dividiram. Para resolver a questão, o chanceler austríaco designou um plebiscito. Irado, no seu estilo tonitruante, Hitler exigiu que a votação fosse suspensa mas o chanceler não concordou e foi afastado do cargo. O plebiscito foi realizado com evidente manipulação dos resultados e a Áustria foi anexada. Era a Anschluss e a partir dali as portas do inferno se abriram, como afirmou uma testemunha. Tiveram início as perseguições contra os judeus e as restrições cada vez maiores de suas atividades. Denunciados pelos vizinhos, antes amigos, Gustav e o filho Fritz foram presos e enviados ao campo de concentração de Buchenwald nos costumeiros vagões destinados ao transporte de gado e tão lotados que as pessoas mal podiam respirar. Aí tem início o terrível calvário vivido pelo pai e pelo filho.

Chegados ao destino, mais mortos que vivos, famintos, sedentos e sonolentos, são submetidos à burocracia: filas, registro, chamada. Raspam-lhes as cabeças, substituem suas roupas por grosseiros uniformes e são enviados aos alojamentos onde dormirão em tarimbas secas e apertadas. A alimentação é precária e insuficiente. E então são enviados aos campos de trabalho escravo, vigiados com extrema severidade pelos soldados e pelos kapos (prisioneiros que mudaram de lado) A brutalidade é constante, tanto nos atos como nas palavras. Não basta matar, é preciso humilhar, maltratar, espancar e, quando possível, explorar. As chamadas Unidades da Caveira superavam as maiores brutalidades imagináveis. Muitos oficiais se notabilizaram pela frieza e pela maldade. Sua presença aterrorizava os prisioneiros.

As cenas de brutalidade são chocantes. Enviados às pedreiras, cabia-lhes alimentar o triturador, carregar os vagonetes e transportá-los pela colina acima e abaixo. Tudo com rapidez, sem luvas, as mãos enregeladas e doloridas, e sem agasalhos. Não havia pausas, exceto uma muito breve para a refeição miserável. Muitos desmaiavam, o que constituía motivo para risotas e brincadeiras dos soldados, enchendo-lhes as bocas de água e acordando-os a cacetadas. Outros tinham que limpar as latrinas, um trabalho abjeto, feito com as mãos nuas e sem qualquer proteção. E os soldados e kapos, nos seus uniformes impecáveis, divertiam-se à custa dos miseráveis. Tiravam-lhes os bonés e os jogavam para além da linha proibida onde o prisioneiro não podia entrar. Imaginando que se tratava de simples brincadeira, os inocentes cruzavam a linha e eram fuzilados sem piedade. Tais fuzilamentos mereciam elogios e prêmios. A maldade não tinha limites.

Não obstante, apesar de todos os horrores, Gustav e Fritz conseguiram sobreviver para contar a terrível experiência a que foram submetidos. Sua triste história ficou como mais um documento da estupidez humana. Com incrível esforço, conseguiram retomar o curso da vida.

O preconceito é um sentimento que não consigo entender. Ninguém escolhe para nascer branco, preto, amarelo ou vermelho. Como ninguém escolhe para nascer europeu, asiático, americano ou africano. Da mesma forma que ninguém escolhe nascer católico, budista, muçulmano ou judeu. Tudo é fruto do mero acaso, dependente do local onde os pais estejam no momento do nascimento e das crenças familiares. Odiar alguém por algum desses motivos não tem o menor sentido e afronta a lógica do homem comum. Odiar o negro porque é negro, o judeu porque é judeu, o índio porque é índio é condenar alguém pelo que não tem culpa. Mas o ódio parece cegar muitas pessoas e elas não enxergam as coisas mais elementares.

Escrito por Enéas Athanázio, 08/06/2020 às 10h56 | e.atha@terra.com.br

HOLOCAUSTO NUNCA MAIS

Foto Marcos Oliveira / Agência Senado

O edifício do Congresso Nacional, em Brasília, amanheceu com as palavras “Holocausto nunca mais” em letras fosforescentes. Uma iniciativa muito oportuna no momento em que o antissemitismo cresce em todo o mundo e no Brasil. O Holocausto é uma das maiores feridas da história mundial, nunca cicatrizada, e por isso precisa ser lembrado sempre para que jamais se repita.

Existe imensa bibliografia sobre o assunto e que não cessa de crescer, o que é muito positivo. O conhecimento é a melhor arma contra os preconceitos. Entre os livros mais recentes sobre o Holocausto está “O garoto que seguiu o pai para Auschwitz”, de autoria do escritor e jornalista Jeremy Bronfield que, depois de se tornar um best-seller mundial, foi publicado no Brasil pela Editora Objetiva (Rio – 2019). O livro reconstitui uma história comovente unindo pai e filho na terrível luta diária pela sobrevivência e que merece mais que um comentário. Aqui, no entanto, desejo me ater apenas aos primórdios do relato, no período que antecedeu à prisão de ambos pelas forças nazistas de ocupação na Áustria. Em outra ocasião voltarei ao livro.

Gustav Kleinmann era um habilidoso artesão que vivia em Viena em companhia da esposa, Tini, e dos filhos, Fritz, Kurt, Edith e Herta. Embora fosse judeu, não era ortodoxo, e se considerava um perfeito austríaco. Havia lutado pela pátria na I Guerra Mundial como soldado, sofreu graves ferimentos e foi condecorado por bravura. Embora levassem vida modesta, nada perturbava a família. Mantinha boas relações com a vizinhança e o viver era tranquilo.

A ascensão de Hitler na Alemanha projeta uma sombra sobre a Áustria. Ele jamais escondeu o desejo de anexar o país onde havia nascido e seus adeptos iniciam uma intensa pregação nesse sentido. As opiniões se dividem e manifestações pró e contra se repetem, algumas com violência. O chanceler austríaco, Schuschingg, designa um plebiscito para decidir a questão. Irado, Hitler esbraveja no seu estilo tonitruante e exige o cancelamento da votação, prevendo uma derrota, mas o chanceler não se curva e acaba afastado do cargo. O plebiscito é realizado com evidente manipulação dos resultados e os favoráveis à anexação vencem com larga margem. Hitler anexa a Áustria à Alemanha, dando início à escalada de ocupações que levariam à II Guerra Mundial. Era o Anschluss e o país estava anexado, sem soberania e sem governo próprio. Um títere, dessas figuras abjetas que sempre surgem nessas ocasiões, assume um governo de fachada. Hitler em pessoa visita a Áustria para comemorar e desfila sob aplausos apoteóticos. O povo saudava seu futuro carrasco, o mesmo que o faria derramar lágrimas de sangue.

Um clima de ódio e intolerância toma conta do país. O fanatismo nazista explode em toda parte e a violência aterroriza as pessoas. Conhecidos de ontem que saudavam os Kleinmann com um sorriso nos lábios agora se revelavam inimigos mortais. Uma das filhas é injuriada e humilhada na rua por um colega de escola. Os filhos homens são ofendidos e forçados a quebrar esquinas para se livrarem dos ataques. Passeatas nazistas acontecem a todo momento com os manifestantes gritando insultos contra os judeus e os católicos. A situação se torna insuportável e o clima irrespirável. Gustav é forçado a encerrar as atividades e sua oficina é fechada. Os filhos não podem mais frequentar a escola. As restrições contra os judeus são cada vez mais severas. Até que a família é denunciada pelos vizinhos, antes amigos, e Gustav e Fritz são presos, conduzidos a uma delegacia e depois para Buchenwald, o temido campo de concentração. Aí tem início o calvário a que pai e filho serão submetidos e que o autor do livro relata em pormenores e com base em fundados elementos de prova. Como ele diz, os fatos são tão terríveis que preferiria que não fossem verdadeiros.

Os acontecimentos da Áustria são um exemplo aos que semeiam o ódio e a intolerância e pregam a ditadura. Em regime democrático o Holocausto não teria acontecido. O mundo vive tempos autoritários e discriminatórios capitaneado por Trump nos Estados Unidos e Macron na França, imitados por outros esbirros de menor porte. Mas é preciso resistir porque só na democracia o ser humano pode viver com dignidade. Ditadura só serve para quem tem alma de escravo.

E agora, Moro? O senhor a quem você tanto serviu o descartou como algo desnecessário e o classificou de mentiroso e chantagista. A mestra vida me ensinou que sempre que Promotores e Magistrados se envolvem com políticos acabam mal.

Como diria Camões, o Brasil vive um período de apagada e vil tristeza. 

Escrito por Enéas Athanázio, 01/06/2020 às 18h17 | e.atha@terra.com.br

Sobre a China

Xangai, a maior cidade chinesa

Com o surgimento da pandemia do coronavírus várias “teorias conspiratórias”, inspiradas no ódio dos dias que vivemos, circularam sobre a China, as mais graves delas insinuando que o país fomentou a disseminação do vírus com o objetivo de vender produtos e medicamentos e até que criou em laboratório a doença. Os Estados Unidos criaram a expressão “vírus chinês”, uma evidente insinuação que hoje corre o mundo. No passar dos dias, porém, ficou evidente o esforço hercúleo feito pela China para conter a doença e defender seu povo. É claro que esse fato não serviu para calar as bocas e apaziguar as consciências, mas a mídia não deixou dúvida.

A China é vítima de todas as acusações, tanto por ser socialista como por ser desconhecida. No Brasil as pessoas em geral pouco ou nada sabem a respeito dela e muitas afirmações falsas circulam como se fossem indiscutíveis verdades. Entre elas, é comum ouvir-se que os trabalhadores chineses recebem salários miseráveis ou salários de fome. Ora, informações de fonte segura e isenta afirmam que o salário médio deles é bastante superior ao dos brasileiros e tem maior poder de compra porque não convivem com a praga chamada inflação. Mas isso adquiriu foro de verdade indiscutível e não há quem possa alterar esse entendimento. Também são muito criticados os hábitos alimentares chineses. Esses costumes variam nas diversas regiões do globo e aquilo que parece estranho para uns é comum para outros. Os jegues do nosso Nordeste estavam sendo exportados para países asiáticos e lá se transformavam em carne moída para consumo humano. Outros povos consomem a carne de cavalos e os franceses fazem sopas com ninhos de andorinhas. Não obstante, os franceses são o povo mais sofisticado do mundo. A escritora brasileira Betty Milan muito escreveu sobre a culinária francesa e lembrou que à tarde muitas pessoas são vistas em Paris com sua “baguette” (pão alongado) debaixo do sovaco.

Rana Mitter, estudioso das coisas chinesas (sinólogo) e professor da Oxford University, escreveu um livro admirável sobre aquele país e que deveria ser lido porque o conhecimento é a melhor arma contra o preconceito e as falsas concepções. Trata-se de “China Moderna”, publicado entre nós pela L&PM Pocket (Porto Alegre – 2011). Ele desvenda um extenso panorama da China, suas história, cultura, economia e modus vivendi de seu povo. Tudo muito bem fundamentado e documentado, de forma isenta e distanciada.

Para bem entender a poderosa China de hoje, o autor se aprofunda na sua longa e complexa história. Revela um país dividido entre os poderes regionais que lutavam entre si e pareciam destituídos de um sentimento nacional. Governado por dinastias autoritárias e discricionárias, enfrentava com dificuldade a fome e a miséria. Durante o governo de Chiang Kaichek, auto-intitulado nacionalista, houve até mesmo a venda e o aluguel de partes do território nacional a potências estrangeiras. E elas exploraram essas concessões da forma mais livre e predatória possível, em tudo semelhando o colonialismo ocidental na América, na África e na Ásia. Tudo indica que foi a Longa Marcha de Mao Tsé Tung que fixou na população o sentimento de nação, mas no governo dele o país se isolou do mundo, daí derivando muitas das fantasias e invencionices que cercam a China. Mas depois veio a abertura para o mundo e a busca do equilíbrio entre o interesse nacional e a integração no panorama mundial. Em pouco mais de oitenta anos a China deixou de ser um país dividido, desorganizado e miserável para se tornar a segunda potência mundial. É claro que esse gigante realizador e decidido assusta as chamadas grandes potências, temerosas de perder sua hegemonia. Como registra a história, da mesma forma que com as pessoas os países crescem, chegam ao apogeu, envelhecem e morrem.

Impregnada desde séculos pelo pensamento de Confúcio, a sociedade chinesa entendeu que necessitava ingressar na modernidade. Sun Yatsen teve importante papel como figura devotada a uma China republicana e moderna. Travou-se tremenda luta para desvencilhar o país dos contratos ruinosos assinados com outras potências e um grande esforço para se livrar dos estrangeiros que dominavam pontos estratégicos da economia. O país chegou a sofrer uma guerra por tentar limitar a venda e a exportação do ópio. Foi invadido pelo Japão, numa guerra catastrófica, da qual só se livrou com a derrota do Eixo, na II Guerra Mundial, em 1945. Foram penosos e sofridos os caminhos do povo chinês até chegar ao atual status.

Assim como as grandes potências temem os países emergentes acontece na sociedade humana. As classes privilegiadas temem a ascensão dos mais pobres porque isso constitui uma ameaça às suas benesses. Aparece então o ódio como reação, o chamado ódio de classe, mais visível que nunca no mundo e no Brasil de hoje, embora sempre camuflado pelas formas mais sofisticadas. O ódio ideológico só faz agravar esse quadro. É por isso que a leitura é indispensável, espantando fantasmas que infestam as cabeças de muita gente.

Muitas pessoas alimentam a esperança de que da pandemia emergirá um mundo melhor, mais humano, fraterno e cordial. Mas não é o que se vê nas redes sociais, antes pelo contrário. O que se vê é mais ódio, intolerância, fanatismo e violência verbal nas ofensas e xingamentos. Nada indica que o homo homini lupus de Thomas Hobbes esteja perdendo a atualidade. E tudo muito mal escrito. É de dar medo! 

Escrito por Enéas Athanázio, 25/05/2020 às 10h25 | e.atha@terra.com.br

UM LIVRO TRISTE

O romance “O Velho e o Mar”, de autoria do escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899/1961) é proclamado como autêntica obra-prima e um dos pontos mais altos de sua produção. Segundo seus biógrafos, o livro contribuiu de forma decisiva para a conquista do Prêmio Nobel de Literatura, em 1954. É também um dos livros preferidos por grande parte dos leitores do escritor. É curioso notar que foi escrito numa fase em que Hemingway amargava críticas negativas ao seu livro anterior e os mais pessimistas o julgavam acabado. Mas os altos e baixos foram uma constante na vida do velho guerreiro e ele sempre ressurgia e se elevava cada vez mais alto.

A história que se desenrola no livro é tida como uma fábula e comparada às lutas homéricas dos grandes heróis, embora seja um relato linear e despido de personagens. O velho Santiago domina a cena e nela também se destaca o garoto Manolim, seu antigo companheiro de pescarias, proibido pelos pais de acompanhar o pescador porque ele estava “salao”, ou seja, era um azarado da pior espécie. Sem conseguir pescar nada há mais de oitenta dias, Santiago, sozinho, entra mar adentro no seu barco humilde e sem maiores recursos. Pesca um ou dois peixes pequenos dos quais se alimentará mais tarde e um peixe de proporções gigantescas engole sua isca. O peixe estica a linha e começa a rebocar o barco para o mar alto de maneira constante e persistente sem dar mostras de cansaço. Assim continua por dias e noites, submerso nas águas da Gulf Stream, e o velho pescador, com a linha envolta no corpo, amparada nas costas, resiste como pode. As luzes da cidade de Havana desaparecem e ele se vê só e isolado em meio à vastidão, arrastado pelo maior peixe que havia pescado. Depois de muita luta, o peixe vem à tona, é morto e amarrado ao lado do barco, uma vez que não caberia dentro dele. Foi uma vitória difícil, desigual, sobre-humana, de um homem envelhecido, desnutrido e fraco contra a força bruta. Mas ele vence e começa a voltar para a terra quando os tubarões atacam. O pescador, desesperado, luta com todas as forças mas é inútil. Os monstros devoram toda a carne do peixe, deixando apenas o espinhaço com o qual Santiago, mais morto que vivo, chega em casa.

Nas andanças pelo mar alto, rebocado pelo imenso espadarte, Santiago filosofa, reza, conversa consigo mesmo, inclusive em voz alta. Sente pena do peixe, que imagina muito lindo, mas sabe que terá que matá-lo. É pescador profissional, muito pobre, e o peixe, vendido no mercado, poderá lhe render bom dinheiro. Ele é o retrato da humildade e do conformismo. Mesmo exausto pelo esforço hercúleo que fez ao longo de tanto tempo e tendo seu peixe devorado por vorazes tubarões, não emite um só queixume, uma só palavra de revolta ou inconformismo. Reconhece para si mesmo que é um homem de pouca sorte, um azarado. O garoto, ao contrário, não se conforma com o que aconteceu ao seu amigo Santiago. Chora copiosamente, com as lágrimas escorrendo pelas faces, mesmo na rua e diante de outras pessoas, mas não se importa. Trata de ajudar o velho pescador de todas as formas que pode até que ele descanse na sua cama forrada de jornais velhos da qual tanto se lembrou com saudade durante a penosa jornada marítima. Sonha com leões brincando numa praia africana, tal como os vira na juventude.

No correr daquela luta desesperada, Santiago gostaria que tudo não fosse mais que um sonho, mas não admitia a derrota. Um homem não foi feito para a derrota, ele pode ser destruído mas jamais derrotado. E então redobrava os esforços naquela luta desesperada.

O velho Santiago, saltando das páginas luminosas de Hemingway, alcançou projeção universal e hoje é um dos personagens nucleares da moderna literatura.

Quanto a Ernest Hemingway, tornou-se uma lenda que extrapolou todos os limites da literatura e da arte. Não é apenas o criador de um estilo único na forma de escrever, sempre imitado mas jamais igualado, como continua sendo um dos escritores mais lidos de todo o mundo. É imitado de todas as formas, no porte, no vestuário, no jeito de andar e se vestir, no modo de falar. Existem concursos de sósias, de pesca e torneios com seu nome. É venerado em Cuba, onde viveu por mais de vintes anos na Finca Vigia, nos arredores de San Francisco de Paula, e nos lugares onde residiu, nos Estados Unidos, além de homenageado de todas as maneiras imagináveis.

Não obstante, foi um homem que sempre me pareceu triste. Este romance assim o revela, deixando no leitor, ao virar a última página, um misto de admiração pela beleza e de melancolia pela pouca sorte de Santiago.

 

Reprodução (The Old Man and The Sea, Alexander Petrov)
Escrito por Enéas Athanázio, 18/05/2020 às 17h06 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.