Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Mundo Cão

 Paulo Valença é um escritor pernambucano que vem se projetando no meio literário. Além de criativo e engenhoso na divulgação de sua obra, escreve com fluência e é dotado de senso de observação e boa memória, requisitos indispensáveis ao ficcionista. Não se cansa de alimentar o intercâmbio com os colegas de ofício de todos os cantos, o que está ficando cada vez mais raro. Sua obra tem merecido o aplauso de escritores renomados, a exemplo de Leitão de Assis e Luiz Fernandes da Silva, entre outros.

Seu estilo é muito pessoal e característico. Econômico em palavras, às vezes chega a ser telegráfico, embora diga tudo que é necessário nas circunstâncias, nada havendo de mais ou de menos. Em consequência, a leitura de seus textos se torna ágil e amena.

É novelista e contista, tendo dado a público o volume artesanal “Eterna Esperança”, com ilustrações de Fagner Bezerra, publicado em 2017. É uma coletânea de trabalhos ficcionais (duas novelas e vários contos). Limito-me a comentar em breves apreciações a novela que dá título ao volume.

A novela em questão é um mergulho de cabeça no submundo do crime e das drogas, que o autor descreve com precisão e coragem. Envolve policiais, investigadores, traficantes, drogados e toda a fauna humana que gravita nesse meio obscuro onde a esperança vai se tornando cada vez mais remota, ainda que não desapareça. Num desses paradoxos em que é pródiga a existência humana, a filha do policial correto e honesto penetra no mundo dos drogados, lançando sobre os pais a sombra terrível de um futuro trágico. A tristeza e o sofrimento decorrentes da situação penetram a alma do leitor e levam-no a comungar com eles das incertezas e preocupações. Como se isso não bastasse, um de seus auxiliares de confiança é assassinado e sobre ele recai a suspeita de envolvimento no mundo da traficância. Como dizia Érico Veríssimo, a vida cria situações que superam a mais descabelada das ficções e o novelista pernambucano soube criar um desses paradoxos chocantes em que é mestra a vida.  “O Nestor – escreve ele – encontra-se magro, de cabeça branca, o rosto cortado por rugas, mais calado. . . Um velho!” A vida costuma cobrar seu preço aos que cumprem à risca seus deveres.

Quando acontece o assassinato à luz do dia, na via pública, todos fazem por ignorar e a vizinha fecha a janela. Não quer ver, não quer se comprometer, não quer testemunhar. É o retrato de um mundo cão, lamentável e rude, mas verdadeiro.

Impactante e comovente, a novela de Valença é dura mas reflete uma realidade que estamos acostumados a ver com frequência. E não existe melhor literatura que aquela captada da própria vida cotidiana.

Escrito por Enéas Athanázio, 19/02/2018 às 16h10 | e.atha@terra.com.br

Nilto Maciel

Nilto Maciel (1945/2014) foi um dos escritores mais dedicados e produtivos que conheci. Ler e escrever foram sempre, desde muito cedo, suas ocupações predominantes, ao passo que abominava as atividades rotineiras e cotidianas. Também não se dava bem com as entidades de escritores, academias literárias e grupos do gênero. Considerava-se um marginal no mundo literário, produzindo, divulgando, mantendo correspondência, inventando engenhosas maneiras de chegar ao leitor. Quase sempre sozinho. Foi romancista, contista, poeta e crítico literário. Publicou numerosos livros, recebeu muitos prêmios, participou de incontáveis coletâneas e aparecia com frequência em suplementos, revistas e jornais. Como ele próprio disse, “menos vivi do que fiei palavras...” (título de um de seus livros mais conhecidos).

Bacharel em Direito, foi funcionário da Câmara Federal, do Supremo Tribunal Federal e da Justiça do Distrito Federal. Nunca quis advogar; creio que não teria paciência para enfrentar juízes, cartórios, oficiais de justiça. Seu mundo era o gabinete de trabalho, escrevendo, corrigindo, revisando, cortando, acrescentando. “Não sou escritor por querer – escreveu ele. – Fui feito assim, desse jeito, como há abestados desse mesmo feitio, músicos, pintores, dançarinos, atores. Deus me quis escritor. Eu bem poderia ter sido apenas um advogado, um funcionário público, um açougueiro.”

Como revelou em muitos episódios, também não tolerava a conversa fiada, o jogar conversa fora, e nessas situações se fechava ou falava de maneira um tanto ríspida ou irônica. “Conversar sobre tempo de menino, de bola e de bila, eu já fiz muito. Quero falar de literatura. Outro assunto não me interessa.” Repetia isso abertamente a todos e o tempo todo, como depôs um amigo, o que lhe valeu antipatias e até inimizades. Recebia livros em quantidade mas, quando os considerava ruins, não os resenhava, alegando “falta de tempo, morte de parente próximo, incêndio em casa, paralisia nas mãos, cegueira momentânea, doença grave” – segundo um biógrafo. Assim evitava futuros ressentimentos.

Vivendo período de apertura financeira, chegou a abrir um bar e restaurante, tal como Monteiro Lobato fizera em Nova York. O resultado foi o mesmo para ambos: experiências mal sucedidas, deixando dívidas e dissabores. Como, aliás, era de se esperar. Não tolerava ser explorado e farejava de longe os que se aproximavam com segundas intenções. Solitário e marginal, também se recusava a participar de farras desbragadas. Dizia, então, que “encontrou Jesus, embora fosse ateu.” E assim se esquivava desses desregramentos.

Em 1976, com alguns amigos, lançou a revista “O Saco”, experiência das mais criativas e que alcançou grande repercussão. O periódico era apresentado envolvido em um saco de papel, o que contribuía para despertar a curiosidade. Creio que fui dos primeiros colaboradores da revista na região sul do país, com a publicação de meu conto “Formiga Correição”, bem apresentado e ilustrado. Mais tarde, em 1991, criou “Literatura: revista do escritor brasileiro”, com o ambicioso propósito de se tornar nacional, o que, acredito, alcançou, publicando autores e angariando leitores de todos os recantos do país. Integrei o Conselho Editorial desde o número inicial, ao lado de Emanuel Medeiros Vieira (catarinense), Dimas Macedo (cearense) e Uílcon Pereira (paulista). A revista tece 35 números publicados. O número 20 foi dedicado a mim, numa homenagem inesquecível, realizada no auditório da Associação Nacional de Escritores (ANE), em Brasília. Fui matéria de capa e foi publicada ampla entrevista minha ao escritor João Carlos Taveira. Em seguida, Nilto Maciel criou a Editora Códice. Embora se declarasse “doente de vlhice”, tão logo retornou a Fortaleza, depois de longos anos em Brasília, inventou o blog “Literatura sem fronteiras”, esmerado e bonito, que também foi bem recebido e publicou trabalhos meus.

Tive a satisfação de receber a visita de Nilto Maciel em minha casa, onde passamos juntos uma tarde inteira às voltas com um só e único assunto: a literatura. Nessa ocasião, em meu escritório, ele foi fotografado com um chapéu de vaqueiro, foto depois estampada em vários livros seus.

Em merecida homenagem ao talentoso e profícuo escritor, Raymundo Netto deu a público o livro “Nilto Maciel” (Edições Demócrito Rocha – Fortaleza – 2017), comovente e verídico retrato desse incansável batalhador de nossas letras. Desse livro me vali em várias passagens deste comentário. O autor merece o aplauso incontido de quantos conheceram o seu biografado.

Nilto Maciel faz muita falta. Oxalá cada Estado contasse com um só igual a ele!

Escrito por Enéas Athanázio, 14/02/2018 às 11h00 | e.atha@terra.com.br

Uma ficção sofisticada

Foi agradável surpresa receber o primeiro volume das Obras Completas de William Agel de Mello, escritor goiano, com amável dedicatória do autor. O livro contém os trabalhos de ficção por ele produzidos: dois romances e duas coletâneas de contos.

Destaca-se aos meus olhos o primeiro romance denominado “Epopeia dos Sertões”, que li estudando com a melhor das atenções. É uma obra que se pode considerar regionalista, uma vez que seria impossível transplantá-la para outro cenário sob pena de desfigurá-la por completo. Como diria o crítico Lauro Junkes, na sua conhecida divisão, é um regionalismo mais de fundo que de forma, uma vez que a linguagem empregada é castiça, escorreita e rica, não havendo abuso no emprego de expressões locais. É uma linguagem sofisticada. Em muitos trechos ela se aproxima da melhor prosa poética.

O texto revela um escritor que conhece a fundo os sertões. A paisagem, a geografia, os usos e costumes, a vegetação, os animais, a psicologia do povo que os habita,  as crenças, missas e rezas,  as doenças e os curandeiros, os crimes, vinganças e tocaias. Observador arguto e dono de excelente memória, nada escapa ao seu crivo. Registra em muitos passos os ditos, cantos e versos correntes no meio do povo. Descreve com precisão tudo que acontece, desde os personagens, coerentes e bem identificados, as reuniões e festas, os casamentos com todo seu ritual e, não poderiam faltar, as disputas políticas que acabam descambando para a guerra declarada.  

 O romance, porém, não fica nisso, embora já fosse suficiente para fazê-lo grande. É que o autor, homem de espantosa erudição, entrelaça sua trama com a mitologia grega, latina, germânica e até egípcia. Cada episódio importante pode ser comparado, num aprofundamento da leitura, a episódios míticos, o mesmo acontecendo com numerosos personagens que se afinam com seres da vasta e complexa mitologia. Também há referências sutis e alusões significativas a obras da literatura clássica universal. É uma leitura a ser feita em dois níveis, o literal e o de fundo. As numerosas notas explicativas feitas por Junito de Souza Brandão, expert no tema, indicam os momentos em que se verifica esse curioso entrelaçamento. Creio que é o mais categorizado intérprete da obra do autor. Com muita propriedade, Antônio Olinto se referiu aos mitos de William. “O que o narrador busca, e faz,– diz ele – é ligar o mito à realidade.” Todos esses elementos, conclui o mesmo autor, “tornam este cântico rural chamado “Epopeia dos Sertões” de uma força capaz de marcar a ficção brasileira desta segunda metade do Século XX.” E do novo século também, acrescentaria eu.

O romance tem merecido o incontido aplauso de leitores tão exigentes quanto se possa imaginar. “William Agel de Mello – afirmou Guimarães Rosa – é finíssima e formidavelmente dotado para levantar a incríveis zênites a nossa literatura – o que acho, acho, acho.” Jorge Amado, por sua vez, asseverou: “William Agel de Mello é, hoje, um dos melhores contistas brasileiros. “Epopeia dos Sertões” é um livro de grande força, que prende o leitor da primeira à última linha.” Já o referido Antônio Olinto não titubeia em afirmar que “é um dos melhores romances da literatura brasileira.” Medeiros e Albuquerque e Antônio Houaiss também se manifestaram de maneira enfática em favor do romance.

A obra do escritor de Goiás é oceânica. Além de se dedicar à ficção, é tradutor de numerosas obras, ensaísta, articulista e dicionarista. É reconhecido como destacado africanista. Elaborou cerca de vinte dicionários e sua dominação linguística é desde muito proclamada. Acima de tudo, porém, é um escritor dos mais responsáveis e exigentes. Considera seus livros como obras inacabadas, submetendo-os sempre a meticulosas revisões, sopesando com extremado critério cada palavra e cada detalhe. Talvez por isso tenha interrogado a si próprio: “Cabe indagar: não é terrível a sina do escritor?”

Para um despretensioso resenhista e divulgador de livros, comentar a obra de William Agel de Mello é uma temeridade. Mas, ao mesmo tempo em que me arrisco a fazê-lo, lamento não tê-lo conhecido antes e me debruçado sobre sua obra. Foi uma grande perda que agora tentarei compensar lendo seu livro de ponta a ponta.

 

Escrito por Enéas Athanázio, 05/02/2018 às 14h04 | e.atha@terra.com.br

O segredo das biografias

Tenho para mim que o biógrafo é um justiceiro porque ele se esconde por detrás da figura do biografado, cuja personalidade tenta absorver em detrimento da sua própria. Como escreveu alguém, é um esforço para não deixar morrer os nossos mortos. Câmara Cascudo escreveu certa vez que a tarefa do biógrafo é ressuscitadora porque torna o biografado uma “entidade viva e comunicante nos caminhos de nosso Entendimento.” Gênero difícil, exigindo intensa pesquisa, visão histórica e informação, o grande segredo da biografia é mostrar o biografado vivo, em ação, agindo e reagindo, pulsando, vivendo, enfim. E isso não é fácil, tanto que muitas biografias não o conseguem, não passando de relatos frios das ações de outrem.

Fabio de Sousa Coutinho se revela portador desses requisitos em seu livro “Lucia – Uma biografia de Lucia Miguel Pereira”, publicado por Outubro Edições (Brasília – 2017). Bem fundamentado, rico em elementos informativos, minucioso, escrito com sinceridade afetiva, o livro reconstitui passo a passo a existência e as realizações de uma das figuras femininas mais importantes da literatura nacional. Ficcionista, biógrafa, crítica literária e tradutora, a biografada chegou a ser considerada a Madame de Srael do século XX.  Em qualquer dos gêneros a que se dedicou, sua produção foi sempre bem acolhida pela crítica e pelos leitores.

Trabalhadora incansável, Lucia Miguel Pereira foi uma presença forte e constante no panorama cultural brasileiro de seu tempo. Entre suas maiores realizações, avulta a consagradora obra “Machado de Assis – Estudo crítico e biográfico”,  enaltecida como autêntica obra-prima e hoje com diversas edições, secundada pela não menos valiosa “A vida de Gonçalves Dias”, recuperando a trajetória do inditoso poeta dos Timbiras, falecido em trágico naufrágio quando já se avistava a terra natal. Ambas se constituem em marcos do gênero biográfico entre nós e conquistaram posição definitiva na estante nacional dedicada à arte biográfica.

Além disso, Lucia Miguel Pereira produziu romances, literatura infantil, ensaios, crítica literária em abundância, e organizou o “Livro do centenário de Eça de Queirós”, o que lhe custou um ano de incansável trabalho. Coordenou os serviços da biblioteca do MAM, do Rio de Janeiro, e ainda encontrou tempo para traduzir Proust, tarefa que realizou com extrema dedicação e exigência perfeccionista. Publicou ainda “Prosa de Ficção – História da literatura brasileira”, livro pelo qual tenho antiga e intensa predileção.

No terreno pessoal, Lucia foi uma mulher corajosa e de atitude. Numa época em que isso constituía um verdadeiro tabu, passou a viver com Octavio Tarquínio de Sousa, ministro do TCU e historiador, desquitado da primeira esposa e com quem se casou no Uruguai, como era de hábito nos tempos pré-divórcio. Com ele formou um casal unido e feliz, convivendo “até que a morte não os separe” – como diz o Autor. É que ambos pareceram juntos em acidente aéreo, quando retornavam de São Paulo, e seus corpos foram identificados com as mãos dadas e dedos entrelaçados. “Felizes os que chegam de mãos dadas, como se fosse o instante da partida”, escrevera o poeta Lêdo Ivo, como quem profetizava o triste desenlace. Foi a tragédia final de Lucia, já marcada por outras ao longo da existência.

Por ocasião do retorno de Santos Dumont ao Brasil, entre as homenagens planejadas, um grupo de intelectuais deveria sobrevoar o transatlântico “Ancona”, em que viajava o herói. Lucia foi convidada a integrar a comitiva, mas sua mãe vetou a presença dela, alegando que não ficaria bem uma moça viajar em meio a tantos varões. Foi a sorte da jovem, ou o destino. Como registrou a história, o avião despencou na Baía da Guanabara, matando todos seus ocupantes. Em face da tragédia, Santos Dumont pediu que todas as solenidades em sua honra fossem canceladas. Coincidência ou alerta do destino?

O livro contém valioso material iconográfico e relaciona a ampla bibliografia relacionada que foi objeto de detida consulta pelo Autor. Conta ainda com excelente prefácio de autoria do poeta Anderson Braga Horta. Está de parabéns Fábio de Sousa Coutinho por nos ter devolvido Lucia Miguel Pereira, rediviva e ativa.

Escrito por Enéas Athanázio, 29/01/2018 às 16h05 | e.atha@terra.com.br

Lutador solitário

 Em ligeira viagem pelo Estado, chegamos à cidade de Irani, às margens da BR 153 – a Transbrasiliana. Nas cercanias ocorreu o combate que daria início real à Guerra do Contestado que se estenderia até 1916. Ali pereceram, no dia 22 de outubro de 1912, o coronel João Gualberto, comandantes das forças legais, e o monge José Maria, líder dos revoltosos. Fatos que calaram fundo na alma do povo e transformaram a cidade no local onde foi aceso o estopim da mais sangrenta conflagração civil de nossa história. O cemitério e o monumento do Contestado são atrações turísticas muito visitadas.

Percorrendo o centro urbano, limpo e bem cuidado, conversando com um e outro, logo veio à tona o nome do Prof. Vicente Telles, segundo a vox populi a maior autoridade nos assuntos do Contestado. Já o conhecia de nome há muitos anos, tinha notícia de suas atividades e havia lido trabalhos de sua autoria. Reside numa fazenda, herdada dos antepassados, cerca de dois quilômetros além da cidade, e para lá nos dirigimos. Tem uma casa ampla e bonita, construída num pátio elevado e limpo, de onde de avista o imenso vale verdejante que se estende a perder de vista, com os campos manchados de capões e onde farfalham muitos pinheiros e árvores nativas. Ali não se toca em nada, diria o dono, mais tarde.  Como fosse um sábado, tivemos a sorte de encontrá-lo em casa e ele não tardou a aparecer. Homem alto, com os cabelos pelos ombros, simpático e falante, logo entrosamos uma conversa algo desencontrada, como é comum nos primeiros encontros. Ele nos deixou à vontade e logo pudemos avaliar a amplitude de seus conhecimentos sobre o Contestado, seus feitos, causas e conseqüências. Modesto, ele se considera um rábula da história, embora eu prefira dizer que é doutor pela boca do povo, como se considerava o poeta Ascenso Ferreira. Naquele dia, como em todos os sábados, ele faria um programa na rádio local, “A Voz do Contestado”, para o qual me convidou e lá fomos nós, realizando uma entrevista improvisada na qual pude falar um pouco de minha obra.

Vicente Telles é um lutador solitário. Criou e dirige a “Fundação do Contestado”, cuja sede está instalada numa espécie de museu que construiu por sua conta nas proximidades da casa. Bate-se pela implantação do Parque Temático cuja “maquette” nos exibiu, expondo em detalhes o projeto. Esbarra, como sempre acontece, nas teias da burocracia e nos enredos da política, retardando a consecução de uma obra que introduziria a região no mapa turístico e cultural do Estado de forma destacada. Luta também pela preservação da memória da Guerra, desfigurada em tantos pontos, e, acima de tudo, pela afirmação da identidade catarinense e pelos valores espirituais que nortearam a ação dos revoltosos. Apóia e participa do grupo Folclore Itinerante do Contestado, apresentando peças, montagens e performances de grande porte, algumas em praça pública. Musicista e poeta, é autor de vários trabalhos sobre o assunto, alguns dos quais nos ofertou. Sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, foi membro do Conselho Estadual de Cultura.

Como tantos que lutam pela cultura em nosso país, ele trabalha só, enfrentando todas as dificuldades. Mas tem a vontade férrea dos idealistas e nada o fará desistir. Está convencido de que, mais dia menos dia, suas realizações integração Irani e a região entre os mais visitados itinerários de nosso Estado.   

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Outra vez na estrada, pouco adiante de Irani, fazemos uma parada para rever o Monumento do Contestado, erigido em concreto escuro, à margem da BR 1 5 3. São duas imensas mãos que seguram uma cruz em sinal de paz e fé. Está em local estratégico, no pico elevado de um coxilhão, e pode ser visto a grande distância. Tem sido vítima dos vândalos e uma de suas peças foi arrancada e lançada ao chão. Pensei em escrever ao prefeito, mas – que diabo! – eu não sou a palmatória do mundo. Outrem que o faça!

Visitamos, em seguida, o Cemitério do Contestado, na outra margem da rodovia. Tem o portão aberto e contém túmulos muito antigos que guardam os restos mortais de caboclos anônimos que pereceram no primeiro grande embate, aquele que deflagrou a Guerra do Contestado, em 22 de outubro de 1912. Existem também túmulos mais recentes. Está conservado e a grama é baixa, sinal de que é bastante visitado. Como afirmou Vicente Telles, foi a única lembrança que restou daqueles miseráveis que perderam a vida na luta por um pedaço de terras onde plantar para comer. Ao lado, em casarão de madeira imitando rancho caboclo, está o Museu Histórico do Contestado. Como tantos outros pelo país a fora, está fechado.

Dando largas à imaginação, visualizei a luta naquele remoto e trágico dia. À esquerda, descendo pelo coxilhão, avançam os “jagunços” (os “pelados”), maltrapilhos, armados de picapaus, garruchas, lanças e facões feitos de madeira de cerne. À direita, costeando a lagoa, marcham os soldados bem armados (os “peludos”), arrastando a metralhadora – a “matadeira” – que deveria “costurar” os insurgentes. E ali se dá o entrevero, morrendo o coronel João Gualberto, comandante das forças legais, e o monge José Maria, líder dos revoltosos. Gritos, tiros, relinchos, latidos enchem de sons os descampados e ecoam pelas coxilhas, espantando os bichos e os pássaros, viventes pacíficos daqueles ínvios. Mas o engasgo da metralhadora seria fatal para os fardados, impedindo que o coronel desfilasse “com a caboclada xucra amarrada em cordas” pela Rua XV de Novembro, em Curitiba, como vinha proclamando o comandante. Ali, à beira de uma plácida lagoa campeira, ele derramou seu sangue, regando o chão seco dos campos.

A Guerra durou quatro anos, custou a vida de milhares de pessoas e marcou para sempre a sofrida população da região.

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Republico este artigo em homenagem ao Prof. Vicente Telles, falecido no dia 28 de dezembro de 2017, aos 86 anos de idade. Lamentei muito. Perde o nosso Estado um profundo conhecedor da história do Contestado e um divulgador incansável daqueles eventos. Musicista, poeta e historiador.

Escrito por Enéas Athanázio, 22/01/2018 às 15h12 | e.atha@terra.com.br

Rum e Lama

Romances de amor nunca saem de moda. Existe considerável quantidade de leitores fiel ao gênero. Romances como “Amor de Salvação” e “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco, fascinam até hoje numerosas pessoas, em que pese sejam muito antigos. Outros tantos exemplos poderiam ser lembrados. Aliás, a palavra romance, num dos seus sentidos lineares, significa história amorosa.

A produção de um romance exige de seu autor muito fôlego e paciência para escrever textos longos, recheados de incidentes e envolvendo muitos personagens. A escritora catarinense Adair Dittrich revela possuir tais qualidades em sua primeira obra romanesca: “Rum na Lama Vermelha”, publicada pela Editora da UNIUV (2017).

Ambientada numa pequena e remota cidade do interior, destituída dos chamados melhoramentos urbanos, com suas ruas poeirentas nos tempos de seca e com lama vermelha nas chuvaradas, a história decorre num meio rude e pobre onde todos se conhecem e a vida de cada um é vigiada por olhos curiosos. Ali acontece a aproximação de uma médica jovem e bonita com um farmacêutico boêmio inveterado, amante dos bares e do cuba-libre. Ela é uma pessoa sensível, dedicada à profissão e preocupada com a precária condição sanitária dos moradores da cidade e dos arredores. Ele é descuidado, acostumado a dormir até tarde e a gastar suas noites bebericando. Dois temperamentos díspares, indicando um relacionamento problemático. Não obstante, se apaixonam e têm momentos de mútua e total entrega.

Os empecilhos à realização desse amor não são poucos. Enfrentam a oposição do outro médico da cidade e, mais ainda, da esposa dele, uma mulher dada à maledicência descontrolada, ou seja, uma “faladeira”. A maledicência não parte apenas dela, mas também de outras pessoas. As insinuações, os risinhos maldosos, os gestos tendenciosos, sem esquecer a maledicência pesada, aquela que parece urdida para provocar tragédias e desgraças. Mas os apaixonados tudo enfrentam e até planejam recomeçar a vida em outra cidade.

O amor, no entanto, nunca se realiza por inteiro e o rapaz acaba perdendo a amada. Cenas de ciúme, sempre provocadas por ele, discussões, desentendimentos, desconfiança. São circunstâncias que se interpõem no caminho e acabam por separar o rapaz e a moça, apesar de várias tentativas frustradas de reatar o relacionamento. O rompimento é doloroso, traumático, uma punhalada no coração. O casal se ama mas não consegue conviver.

Após longa separação, sobrevém o inesperado, a nota trágica que envolve o rapaz e surpreende o leitor. Para completar, há momentos surreais vividos pelo personagem Joel, o rio e suas águas barrentas. Nada falta, enfim, na trama romanesca.

O romance contém muito de memorialismo, refletindo fatos da vida de sua autora, assim como de suas experiências como médica. O relato é feito em segunda pessoa, o que é bastante raro, mas a autora demonstra dominar com segurança as normas da língua. Também chama a atenção o uso da forma indireta ou inversa das frases, colocando o verbo sempre no final. São detalhes de um estilo próprio e pessoal, pois, como dizia Monteiro Lobato, o estilo é como o nariz, cada um tem o seu.

O romance de Adair é bem estruturado, cada episódio está no lugar e no tempo próprio, os personagens são coerentes e bem definidos, e a leitura prende o leitor curioso até a derradeira página.

Escrito por Enéas Athanázio, 15/01/2018 às 09h25 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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