Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

TARTARIN DE TARASCON

 Leio nos suplementos literários que surgiu na França um renovado movimento em torno da figura e da obra de Alphonse Daudet (1840/1897), autor da célebre novela “Tartarin de Tarascon”, publicada em 1872, e que logo se tornou conhecida em todo o mundo, ganhando posição de realce entre as grandes obras da extraordinária literatura francesa. Nela aparece, como personagem central, um certo Tartarin, nascido e morador na cidade de Tarascon, leitor incansável de livros de aventuras e cujo sonho maior era praticar a caça ao leão. Naquela região, à falta de caça, exceto um velho coelho tão experiente em escapar das perseguições que ninguém o encontrava, os bravos caçadores usavam suas poderosas armas atirando contra seus próprios bonés, voltando com eles furados, em triunfo, para sua pacata cidade. Tornaram-se caçadores de bonés, esporte que se tornou corriqueiro, encarado com naturalidade pelos moradores.

Dono de fértil imaginação, Tartarin não se conformava com aquilo e alimentava o sonho de realizar grandes caçadas na África, sonho que se misturava à fantasia que o levava a inventar fabulosas histórias de aventuras que relatava nas reuniões do grêmio e nas conversas com os amigos. Não havendo outro, a pacata cidade o elevou à condição de herói e o aclamava em todas as oportunidades. Assim foi até que Tartarin anunciou que partiria para a África em busca da realização de seu sonho de aventura e glória. A cidade vibrou e Tartarin se lançou aos preparativos. Mas o tempo passava e ele não partia. A cidade começou a duvidar dele, surgiram comentários maledicentes e passou a ser ridicularizado como um farsante, um mentiroso.

Enquanto isso, os preparativos para a longa jornada prosseguiam em ritmo lento. Havia uma grande caixa de armas, outra com conservas alimentícias, uma terceira com produtos de farmácia, uma barraca moderníssima e outros apetrechos indispensáveis numa grande e perigosa excursão pelos ínvios africanos.

Mas, apesar de tanta pompa e tantos preparativos, Tartarin não partia. As troças e risotas aconteciam em todas as esquinas. Foi quando o comandante Bravida, do exército local, o visitou, deixando claro que a viagem teria, por força, que começar. Posto em brios, Tartarin abandonou sua porção Sancho Pança, envergou a de Dom Quixote, e até que enfim partiu para a Argélia. Passou muito mal a bordo do navio em virtude do mar agitado. Já se arrependia de ter deixado a casinha confortável, com seu jardinzinho florido, suas conversas na farmácia de Bézuquet, na loja do armeiro Costecalde, no comércio de Bompard e Tastavin e nas intermináveis prosas com o presidente Ladevèze. Mas sua reputação estava em jogo e teria que exibir as peles dos leões que matasse, como havia prometido. Ele, que nunca havia saído de sua cidade, exceto para ir a Beaucaire, cidade vizinha, ligada por uma ponte, sentia calafrios ao pensar na aventura que se iniciava.

Em Argel, por fim, instalado em confortável quarto de hotel, planejava suas ações. Numa noite, em silêncio, com suas armas, duas carabinas, revólver, faca de caça e tudo mais, cobrindo-se com um barrete vermelho e vestido no rigor do traje oriental, partiu para o deserto, ou o que imaginava fosse o deserto, pronto para tocaiar os ferozes leões. Depois de longa espera, avistou um animal que se aproximava com lentidão, silencioso e escuro, movendo as patas sobre a areia fofa. Era, sem dúvida, um grande leão! Quando ele apareceu em meio à vegetação áspera e espinhenta, típica dos desertos, Tartarin dormiu na pontaria e atirou: pan! pan! Dois tiros certeiros derrubaram a fera que ficou sangrando e se contorcendo no chão. Os estampidos, no entanto, acordaram a vizinhança e uma velha raivosa avançou contra ele, gritando e agredindo-o, enquanto o dia raiava e Tartarin percebeu que não se encontrava no deserto mas em um bairro distante do centro da cidade. E, para seu azar, não abatera nenhum leão mas um pacífico e inofensivo burrico de nome Moreno, cujo valor teve que pagar à rabugenta proprietária.

Desanimado, retornou ao hotel. Sempre que aludia ao propósito de caçar leões as pessoas riam e afirmavam que eles não existiam mais na Argélia, estavam extintos. Talvez no sul, bem no sul, ainda se pudesse encontrar um ou outro. Tartarin, então, decide viajar ao sul.

Após uma penosa viagem de diligência, Tartarin chega ao sul. No caminho, porém, se apaixona por uma moura da qual vira apenas os olhos e sentira-lhe o perfume. Põe-se a procurá-la e, com o auxílio de um príncipe montenegrino, que depois vem a saber que era falso, acaba por encontrar, ainda que lhe parecesse não ser bem aquela. Vive com ela por algum tempo, esquecido do real objetivo de sua presença no chão africano. Mas afinal, depois de marchas e contramarchas, acaba abatendo um leão, ainda que fosse velho, meio cego, manso e domesticado. As consequências são sérias, mas ele envia a pele do animal para Tarascon, aos cuidados do comandante Bravida, e prossegue na sua excursão. Adquire um camelo, - o Chameau -_animal velho e de corcova desabada, com o qual prossegue nas andanças. Entrega os valores que portava ao falso príncipe e ele o trai e  desaparece, deixando-o só e sem dinheiro. Desiludido e desanimado, retorna a Argel, onde flagra sua moura (também falsa) em altas festas com o comandante do navio que o levara à África. No caminho, tenta se livrar do camelo mas o animal havia se apegado a ele e o segue por onde vai.

Resolve voltar a Tarascon e nota, alarmado, que o camelo o segue, inclusive se lançando à água no momento do embarque. O comandante do navio resolve içar o animal para bordo, imaginando vendê-lo a algum zoológico na França. Chegando a Marselha, Tartarin, sem dinheiro, sem bagagem e sem ilusões, embarca em um trem com destino à sua cidade, em vagão de terceira classe, e ao chegar se depara com o camelo que havia seguido a composição de maneira incansável. E assim ambos chegam a Tarascon, sujos, pobres e cansados.

Mas a surpresa o aguarda. A cidade inteira está na estação para saudá-lo como o grande herói da terra. É aclamado, carregado nos ombros do povo, glorificado e saudado com discursos e foguetório. O camelo, por sua vez, faz o maior sucesso. Era a glória tão duramente conquistada.

Assim que retorna, outra vez com os pés no chão natal, Tartarin dá largas à imaginação e volta a relatar aventuras que jamais aconteceram.

- Imaginem vocês – dizia ele – que certa noite, em pleno Saara . . .

É como termina essa novela que tanto encantava o Grupo de Minarete, liderado por Monteiro Lobato, cujos integrantes a liam sem cessar e até adotavam os nomes de seus personagens como pseudônimos. E que agora vem sendo objeto de grande interesse no meio literário francês.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/04/2018 às 09h16 | e.atha@terra.com.br

Quem conhece a Tanzânia?

 Quase desconhecida no Brasil, a Tanzânia é um importante país da África Oriental, situado na costa do Oceano Índico. Tem uma área territorial de 939.760 Km2 e uma população estimada em 25.635.000 habitantes (1). Seu idioma oficial é o swahili, um dos mais importantes do continente africano, falado por cerca de 50 milhões de pessoas, e em regiões de outros países, como Quênia, Uganda, Ruanda, Burúndi, Zaire, Zâmbia, Moçambique, Comor e Madagáscar. Originário do árabe, o nome significa costa. Foi a língua falada nas costas da África Oriental (2). O inglês também é usado no país.

A Tanzânia foi a antiga Tanganica, colônia e depois protetorado da Inglaterra. Tinha sua capital em Dar-as- Salaam, a maior cidade do país e importante porto marítimo que serve, inclusive, a outros países africanos. Mais tarde foi construída a nova capital, Dodoma, situada no centro do país.

Conquistada a independência, depois de longa e penosa luta para se livrar do colonialismo e vencendo as tramas e manobras da Inglaterra, Tanganica se uniu a Zanzibar e constituiu a República Unida da Tanzânia, em 1964. Zanzibar é constituído de um arquipélago situado na costa tanzaniana, composto pelo próprio Zanzibar e pela ilha de Pemba, além de outras ilhotas circundantes. É um território semi-autônomo, que elege seu presidente e seu legislativo. Segundo os africanistas, essa união dos dois países foi a única que prosperou e se consolidou no território africano.

O novo país logo se consagrou como vanguardista, tomando posições claras contra o colonialismo, o neo-colonialismo, o apartheid e todas as formas de preconceito e discriminação. Numa atitude arrojada e pioneira, implantou um regime socialista sui generis, não inspirado em Marx ou Lênin, mas com raízes nos costumes ancestrais das comunidades populares onde tudo pertencia a todos, inclusive a terra, que podia ser cultivada, embora não fosse permitida a propriedade. Era considerada um bem comum. Caso a gleba não fosse usada, revertia à comunidade. Não se discutia a luta de classes, mesmo porque não existiam classes nas organizações tribais do país.

Colocou em prática também uma reforma agrária tão ampla como jamais havia acontecido em qualquer ponto do globo e que atingiu milhões de pessoas. Como a população fosse muito disseminada e percebendo que nessas condições o Estado não poderia lhe dar assistência de maneira eficaz, adotou o sistema chamado “vilagização” (vilagization), consistente em reunir as famílias em vilas, facilitando-lhe assim o acesso à

educação, saúde, assistência social e tudo o mais. Em consequência, numerosas famílias formaram incontáveis vilas espalhadas pelo país. Também foram criadas as fazendas comunitárias. Todo esse processo foi executado através da persuasão e do convencimento, sem violência, salvo em casos extremos de recalcitrantes que colocavam em risco o programa. O convencimento da população se fez através do partido único, cujos integrantes se entregavam a esse trabalho de catequização. Usavam métodos democráticos para a obtenção dos resultados.

País agrícola por excelência, a Tanzânia busca sem cansaço a autossuficiência num regime que procura promover uma justa distribuição da riqueza nacional. Como nem tudo transcorreu conforme o planejado, inclusive em decorrência de crises internacionais e fatores climáticos, como longas secas, foram feitas concessões, a exemplo de um acordo financeiro com o FMI, sem, contudo, desfigurar o sistema. Ao longo de sua história contemporânea, desde a independência até a consolidação de suas linhas básicas de ação, a Tanzânia contou com a clarividência de um líder carismático e de grande prestígio político e envergadura moral: Julius Kambarage Nyerere (1922/1999). Presidente da República e do Partido, governou o país com segurança e clareza de objetivos, projetando-se inclusive como líder africanista e condutor seguro de seus povos. Ficou conhecido como Mwalimu (professor).

Todas estas considerações foram inspiradas pela leitura do excelente ensaio “Ujamaa – O socialismo africano: o modelo da Tanzânia”, de autoria de William Agel de Mello, escritor e diplomata, publicado no terceiro volume de suas Obras Completas (pp. 7 a 166). É um trabalho de fôlego, escrito por quem domina os temas africanistas e conhece a Tanzânia por dentro, abordando os mais variados aspectos daquele país, inclusive em suas relações internacionais, até mesmo com o Brasil. Conhecedor de imensa bibliografia assinada por reconhecidos especialistas, na grande maioria estrangeiros, William Agel de Mello presta um grande serviço ao divulgar um país tão interessante e pouco conhecido. De minha parte, confesso que ele contribuiu de forma decisiva para ampliar meus horizontes geográficos.

William Agel de Mello, além de consumado africanista e linguista, é autor de dicionários e inspirador do idioma Panlatino, uma espécie de fusão das línguas originárias do latim. Também escreveu substanciosos ensaios sobre a independência da Namíbia e a dissolução do apartheid na África do Sul.

_________________________

(1) - Atlas Geográfico Mundial, Folha de S. Paulo/The New York Times, 1993, pp.74 e 149;

(2) - William Agel de Mello, op. cit., p. 503.

Escrito por Enéas Athanázio, 26/03/2018 às 08h43 | e.atha@terra.com.br

Repórter do Cotidiano

Disse alguém que o cronista é uma espécie de repórter do cotidiano. Isso porque ele tem que estar sempre atento, com as antenas ligadas, para captar o que acontece ao seu redor, muitas vezes fatos mínimos, para transformá-los em belas páginas literárias. Grandes cronistas têm se valido de acontecimentos que outras pessoas nem sequer percebem para produzirem maravilhosas crônicas. Lembro-me, por exemplo, de que Rubem Braga fez do voo de pequena borboleta amarela uma de suas melhores páginas, sempre selecionada entre as mais perfeitas produções do gênero entre nós. Fernando Sabino, notável cronista, denominava sua coluna de aventura do cotidiano, mostrando que fatos inexpressivos na aparência poderiam ser travestidos em excelentes crônicas.

Gênero leve e breve, integrante do chamado jornalismo cultural, o local mais adequado para a crônica é a página do jornal ou da revista. Reunida em livro ela perde muito de seu viço e de seu frescor, exceto quando se trata de uma coletânea de excepcional qualidade literária, como tem acontecido com obras que contenham trabalhos de cronistas de grande talento para o gênero. Aliás, a literatura brasileira tem contado com excelentes cronistas, desde os mais antigos, como Machado de Assis e Humberto de Campos, até os mais modernos, como o referido Rubem Braga, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Henrique Pongetti, Carlos Drummond de Andrade e mais alguns, que se tornaram conhecidos do grande público e conquistaram lugar de destaque na história literária.

Muitos outros cronistas também se destacaram no gênero, ainda que não conquistassem tal renome porque escreveram fora do chamado eixo Rio-São Paulo. Foi o caso, por exemplo, do catarinense Jair Francisco Hamms, primoroso cronista, autor de excelentes páginas, permeadas de criatividade e humor. Seu livro “O vendedor de maravilhas” é uma leitura que encanta sempre. Outro caso bem típico foi o de Luís da Câmara Cascudo, que se dizia um provinciano incurável e que sempre se recusou a deixar Natal, sua cidade. Embora considerado o maior folclorista brasileiro e com reputação internacional, sua obra de cronista não encontrou a mesma ressonância porque publicada em jornal local, mesmo que em nada perdesse para os textos de seus colegas de ofício dos grandes centros.

Por tudo isso, muito bem fez o escritor Franklin Jorge ao selecionar a reunir em belo livro as “Actas Diurnas”, crônicas de Cascudo publicadas originalmente no jornal “A República.” É um conjunto de textos escolhidos com critério, mostrando o talento e a versatilidade do mestre potiguar para o apreciado gênero. Ali estão bem visíveis a sua segurança no manejo das palavras, o senso arguto de observação, o humor suave e bem dosado, o domínio do gênero, enfim. Nada lhe escapa, desde os detalhes da cidade, os perfis de figuras anônimas ou de destaque, acontecimentos maiores ou menores, a paisagem, o mar, as feiras e tudo mais. Ressalta, no correr do texto, a admirável cultura do autor, revelando minúcias, corrigindo equívocos, acrescentando informações. Seus olhos se voltaram também para figuras interessantes que povoavam a cidade como, de resto, todas as outras, sem que sejam notadas pelo comum dos mortais. Assim, a morte de uma mulher conhecida como hamburguesa, a prisão de um certo Lourival Açucena, as atividades do Zé da Banda, as excentricidades de Urbano Hermilo, Chico Gordo e outros são imortalizados em deliciosas crônicas. Sem falar em fatos do dia-a-dia da cidade, daqueles que nem são mais notados porque se repetem: os sinos da matriz e os significados de seus toques, o galo da torre da igreja, a chaminé da fábrica e sua fumaça, tudo vira crônica nas mãos mágicas do escritor que vivia no casarão da Avenida Junqueira Aires, hoje Avenida Câmara Cascudo, e que só recebia visitas à tarde porque virava a noite com o nariz enterrado nos seus livros. O livro devolve ao leitor o Câmara Cascudo com toda sua verve e sua cultura. A leitura foi um agradável reencontro com ele e por isso vão meus aplausos a Franklin Jorge pela justiceira iniciativa.

Tive o prazer de conhecer Câmara Cascudo. Passei toda uma tarde na casa dele, em 1983, três anos antes de seu falecimento, quando muito conversamos. Recebi dele, na ocasião, o livro “Anúbis e outros ensaios”, que guardo até hoje com muito carinho. Trocamos muitas cartas, ele escreveu sobre meus contos e costumava me qualificar como o mais meridional de seus correspondentes. É uma figura que faz falta e que deixou saudades.

Escrito por Enéas Athanázio, 19/03/2018 às 09h19 | e.atha@terra.com.br

Apego à terra

Como tantos catarinenses, Carlos da Costa Pereira (1890/1967) anda muito esquecido, a ele não se ouvindo referências. Foi, no entanto, uma figura admirável e de destaque nos meios culturais e literários de nosso Estado. Nascido em São Francisco do Sul, onde passou quase toda a vida, foi um autodidata que à custa de muito empenho e esforço amealhou vasto conhecimento em vários campos da cultura. Foi jornalista, contista, cronista, ensaísta, historiador e tradutor, tendo fundado e dirigido jornais, além de ter escrito com assiduidade para muitos outros, tanto da cidade natal, como de Joinville e Florianópolis. Ocupou diversos cargos públicos, inclusive o de Diretor da Biblioteca Pública Estadual, função que na época mantinha o status de secretário estadual, e que foi ocupada por outras figuras de relevo. Foi também suplente de senador.

Caracterizava-o, porém, imenso amor à terra natal, forte apego às suas geografias e agarramento com o chão, como dizia Guimarães Rosa, o que o levava a retornar a ela tão logo se desincumbia das missões. Era na antiga cidade ilhoa que se sentia bem, no contato com a família e os amigos, palmilhando as velhas ruas estreitas e curvas que tão bem conhecia.

Foi sócio-correspondente e depois titular da Academia Catarinense de Letras, ocupando a Cadeira número 4, e diretor da revista do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina (IHGSC). Entre seus trabalhos, destacam-se “Um capítulo da expansão bandeirante”, “O nascimento de frei Fernando Trejo & Sanabria em São Francisco”, “Toponímia antiga da costa do Brasil”, “Um ponto controvertido da história”, “A Revolução Federalista de 1893 em Santa Catarina”, “Riscos e traços”, “Traços da vida da poetisa Júlia da Costa” e “História de São Francisco do Sul”, sem contar seus incontáveis textos jornalísticos. No campo da tradução, citam-se: “Viagem à Província de Santa Catarina”, de Auguste de Saint Hilaire (tradução, notas e prefácio), “A Província de Santa Catarina e a colonização do Brasil”, de Léonce Aubé (tradução e notas) e “Viagem à Comarca de Curitiba”, de Auguste de Saint Hilaire, todos vertidos do francês, idioma que revelava dominar. O ensaio sobre frei Fernando Trejo foi realizado a pedido do então governador Nereu Ramos.

“Minhas Memórias”, pequeno volume em que reuniu suas reminiscências, publicado por FCC Edições/Editora da UFSC (Florianópolis – 1996), revela um homem estudioso, integrado no seu meio, bem humorado e feliz. Dotado de memória invulgar, minucioso e atento nos relatos de sua vida, traça um panorama preciso da São Francisco de dantes, desde os tempos anteriores à estrada de ferro e do auge da exportação da erva-mate até épocas mais modernas. São evocados lugares, estabelecimentos, pessoas e fatos envoltos nas neblinas do passado. Não faltam as referências aos livros e autores que lia, as descobertas que o encantavam e as lições que retirava de suas constantes leituras. Lia de um tudo, sempre com intensa curiosidade. Lia estudando. Lia cientistas, historiadores, ficcionistas, poetas, exploradores, aventureiros, pensadores, gramáticos, dicionaristas. É curioso notar que muitos desses autores, talvez a maioria, estão hoje esquecidos ou fora de moda. Salvam-se um Cervantes, um Eça de Queirós, um Jack London, um Machado de Assis e mais alguns, assim como certos cientistas e filósofos cujas obras deixaram marcas indeléveis na trajetória da ciência ou do pensamento. Luís Buchner, Pascal, Maeterlinck, Darwin são alguns exemplos. Interessou-se pela botânica, pela astronomia, pela entomologia, pelas religiões. Deixando o catolicismo caseiro, fez-e protestante, tentou o espiritismo e acabou livre pensador, isento de qualquer credo específico. Embora vivendo numa pacata cidade do interior, seu espírito vagava nas distâncias e estava atento ao que ocorria neste velho mundão sem fronteiras.

A inclinação para as letras se manifestou muito cedo e não tardou a dar início aos primeiros exercícios literários. Com esforço e dedicação dominou a arte da escrita, compondo textos corretos, coerentes e eruditos em todos os gêneros a que se entregou. Enfrentou com bravura acaloradas polêmicas das quais se saiu bem.

Mesmo lendo, escrevendo e estudando não foi um intelectual de gabinete, com as janelas fechadas para o mundo. Participava da vida em família, das festas e troças com os amigos e dos eventos de sua cidade. O capítulo dedicado aos amigos é dos mais interessantes do livro. Eles todos calaram fundo nas suas lembranças e são evocados com ternura e saudade. Não faltaram, como é de ver, alguns inimigos, mesmo porque – como diz o povo – homem que é homem terá por força alguns desafetos.

“Minhas Memórias” teve estabelecimento do texto, introdução e notas de Tânia Regina Oliveira Ramos e cronologia, bibliografia de/sobre o autor por Iaponan Soares. A introdução é um modelo de presunção e eruditismo de biblioteca, em estilo espanta-leitor. Seria dispensável. Não faria a menor falta.

_________________________

Registro aqui o meu aplauso ao escritor Silvério da Costa que, no seu Fronte Cultural, publicado no Jornal Sul Brasil, de Chapecó, vem há longos anos divulgando os autores catarinenses e de outros recantos do país. Incansável e dedicado, ele estabelece uma ponte com escritores de todo o país, o que é sobremodo admirável porque aqui, com raras exceções, impera o silêncio. Por tudo isso, Silvério é hoje um dos nossos escritores mais conhecidos no país, como tenho observado nas minhas andanças. Meus parabéns ao amigo Silvério, com votos de que os céus lhe deem muita saúde e disposição para prosseguir na sua faina em benefício das letras e da cultura.

Escrito por Enéas Athanázio, 12/03/2018 às 10h01 | e.atha@terra.com.br

Por que ler Lobato?

Essa é uma interpelação que me fazem alguns dos que me honram com sua leitura. Qual o motivo para se dedicar à leitura de um escritor que faleceu em 1948, portanto há quase setenta anos, e cuja obra foi produzida, em boa parte, há um século? A resposta é simples, ainda mais que Monteiro Lobato (1882/1948) continua sendo um dos autores nacionais mais estudados e a bibliografia a seu respeito só rivaliza com as de Machado de Assis e Euclides da Cunha.

Vamos por partes. Em primeiro lugar, porque a obra de Lobato semeia cultura geral e transmite conhecimentos em variadas áreas no correr da leitura, sem qualquer pretensão pedagógica. Em “Idéias de Jaca Tatu”, por exemplo, ele desenvolve verdadeiro curso de artes plásticas, ministrando rudimentos de estética; em “Críticas e Outras Notas”, ele ministra noções de interpretação da obra literária; em “A Onda Verde” ele mostra a importância das florestas, do reflorestamento e da preservação de nossas matas. E assim em outros de seus livros.

Em segundo lugar, Lobato nos ensina a conhecer o Brasil, ou seja, a ser brasileiros. Não faz isso de forma professoral mas mostrando os fatos e inspirando o senso crítico do leitor. “O Escândalo do Petróleo” e “Ferro” são livros que todo brasileiro deveria ler, inclusive os entreguistas de plantão. Eles contêm lições fundamentais para quem deseja um país livre e soberano. O mesmo acontece em “Mr. Slang e o Brasil”, onde ele discute os mais variados problemas brasileiros.

Como se isso não bastasse, sua leitura nos ensina a escrever com clareza, precisão e elegância. Grande conhecedor da língua, leitor incansável de dicionários, ele conquistou um estilo muito pessoal, único e inigualável, imitado por muitos mas jamais alcançado.

Além disso, em sua obra está registrada uma imensa experiência de vida exercida com intensidade e nos mais diversos setores. Lobato foi um caso raro de escritor e homem de ação, a exemplo de Jack London, George Orwell, Ernest Hemingway e poucos outros. Não foi daqueles intelectuais que fecham a janela para o mundo. Basta lembrar que foi Promotor Público, fazendeiro-empreendedor, editor, livreiro, jornalista, tradutor, empresário, diplomata, crítico de artes e pintor. Isso tudo numa existência de apenas 66 anos. E tudo se refletindo na sua arte literária.

Embora constitua um lugar-comum, Lobato foi um homem adiante de seu tempo. Foi pedagogo sem conhecer Pedagogia; foi semioticista sem conhecer Semiótica; foi Letrador muito antes que essa palavra entrasse em cena com esse sentido e foi Professor sem jamais ter dado aulas. Mas em tudo que escrevia revelava o propósito de ensinar, semear livros, inundar o país de livros, educar o povo. “Uma criatura sem educação é como um terreno onde só há mato. A educação é que transforma esse terreno em canteiro de cultura das artes e ciências, úteis e belas” – falou ele pela boca da boneca Emília.

Para completar, a obra infanto-juvenil de Lobato constitui um imenso mundo de sonho, fantasia e imaginação que encanta a jovens e adultos. Nela há folclore, mitologia, lendas, humor, aventuras e as intermináveis narrações de Dona Benta Encerrabodes de Oliveira, a proprietária do Sítio do Picapau Amarelo, sentadinha na sua velha cadeira de pernas serradas e cercada por personagens inesquecíveis, como Pedrinho, Narizinho, Emília, Tia Nastácia e o Visconde de Sabugosa, sem falar nos mais estranhos visitantes.

Quem nunca leu Lobato perdeu um precioso momento de vida.

Escrito por Enéas Athanázio, 05/03/2018 às 11h50 | e.atha@terra.com.br

O fotógrafo do Contestado

Claro (Gustavo) Jansson (1877/1954) é considerado o fotógrafo da Guerra do Contestado, movimento revolucionário que agitou o Planalto Catarinense entre 1912 e 1916. A ele é atribuída a mais importante documentação fotográfica sobre aqueles acontecimentos, inclusive algumas das fotos mais conhecidas e que têm sido publicadas em diversos órgãos da imprensa, muitas vezes sem mencionar a autoria. Nascido na cidade de Hedemora, na Suécia, vem para o Brasil aos 14 anos de idade, em companhia dos pais, e vai morar no Paraná e, mais tarde, em Porto União da Victoria, então pertencente ao vizinho Estado. Inicia uma série de viagens, inclusive pela Argentina, e depois reside em Três Barras (SC), na qualidade de funcionário da Companhia Lumber (Sothern Brazil Lumber and Colonization Company). Recebe a patente de primeiro tenente, outorgada pelo presidente da República, e exerce as funções de delegado e juiz de paz. Por fim, transferido para Itararé, no Estado de São Paulo, continua prestando serviços à sucursal da Companhia Lumber, na Fazenda Morungava.

Vivia o Brasil um período conturbado do qual Claro foi testemunha, tudo registrando nas suas fotos. Durante a Guerra do Contestado esteve em vários campos de luta, travou conhecimento com muitos personagens envolvidos e fotografou locais e pessoas que participaram do conflito. Esteve no front, registrando in loco os fatos no fragor da luta. São muito conhecidas suas fotos sobre a barricada construída pela Lumber, em Calmon; a que fixou para sempre os “vaqueanos” dessa empresa em Três Barras; o desfile das tropas legais em Porto União da Victoria, rumando para a luta; o último dia de vida do Coronel João Gualberto saindo dessa cidade em direção ao Irani, em cujo combate pereceu; a força pública do Paraná aquartelada em Porto União da Victoria e numerosas outras. São fotos conhecidas de quantos se interessam pelo assunto. Registrou inclusive a célebre metralhadora, a “matadeira”, com a qual as forças legais pretendiam “costurar” os revoltosos em Irani e cujo enguiço seria fatal. Fixou também locais e pessoas que participaram de outros movimentos revolucionários do período.

As atividades da Companhia Lumber, em Três Barras, empenhada em devorar a imensidão de árvores que serrou, também foram documentadas por ele. As imensas pilhas de madeira, os poderosos guindastes e guinchos, o transporte das toras em velhos caminhões e carros de tração animal, as locomotivas pertencentes à ferrovia da própria empresa, nada escapou ao olhar arguto do fotógrafo, permitindo uma visão aproximada do que foi a ação da maior serraria da América Latina.

Numerosas fotos foram realizadas no estúdio do fotógrafo, como era de praxe na época, e outras tantas captaram instantâneos inspirados pelo momento. Assim, aparecem o coronel Gualberto, em pose oficial, a famosa curandeira e benzedeira Nhá Emígdia, funcionários americanos, graduados, da Lumber, o próprio Percival Farquhar, poderoso dono e senhor daquilo tudo, Henrique Wolland, o famoso Alemãozinho, suspeito de traição, militares, políticos, revolucionários, figurões, fotos de famílias, do próprio fotógrafo e seus familiares. Não poderiam faltar registros dos velhos trens da São Paulo-Rio Grande, depois rebatizada de Rede Viação Paraná-Santa Catarina (RVPSC). Há ainda excelentes fotos das pontes sobre o rio Iguaçu, em Porto União da Victoria, e sobre o rio Uruguai, em Marcelino Ramos. Aquela era considerada a mais longa dentre as congêneres da época; esta, em sua primeira versão, desabou e foi arrastada pela enchente. São fotos impressionantes.

Tudo isso e muito mais consta do belo livro-álbum “Claro Jansson – O fotógrafo do Contestado”, de autoria de Rosa Maria Tesser, publicado pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC) em 2016. É um memorial comemorativo dos 100 anos do final da Geurra do Contestado. A autora se valeu do livro “Clato Gustavo Jansson, o fotógrafo viajante”, de Vito d’Alessio, de entrevistas pessoais com a filha, Dorothy Jansson Moretti, dos acervos dos Arquivos Públicos de Três Barras, Canoinhas e do Paraná, além dos guardados da própria família do fotógrafo e de outras numerosas fontes que pesquisou com empenho. Nascida em Irani, o epicentro do Contestado, a autora é pedagoga com várias especializações e historiadora. Exerceu funções públicas na área cultural.

Nas cenas do cotidiano registradas por Jansson, um detalhe chama a atenção. Refiro-me ao aspecto miserável e andrajoso dos ervateiros, cujas fisionomias estampam visível tristeza, decorrente sem dúvida da desumana exploração a que estavam submetidos. Esse mesmo ar de desalento se vislumbra em outras pessoas do povo cujas efígies foram captadas pelo fotógrafo. Constituem, acredito eu, uma demonstração da miséria reinante no Planalto naquele período histórico, quando imperava a mais calamitosa exploração do homem pelo homem. Circunstância que estava na raiz dos acontecimentos e que impulsionou a sangrenta revolução.

É pena que o livro contenha alguns equívocos, inclusive com o mau uso da crase, o que é lamentável numa obra publicada pela entidade oficial da política cultural do Estado. Isso, porém, não lhe tira o valor histórico e documental.

Escrito por Enéas Athanázio, 26/02/2018 às 17h32 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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