Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Os últimos anos

Entre as muitas biografias parciais de Ernest Hemingway (1899/1961), nenhuma me parece tão tocante e sincera como “Papá Hemingway”, de A. E. Hotchner (Civilização Brasileira – Rio – 1967). Ela reconstitui os últimos quatorze anos de vida do escritor, desde que o autor o conheceu em Cuba, no célebre bar Floridita, e se tornou seu maior e mais íntimo amigo nessa última fase da existência, acompanhando passo a passo a doença que o levaria ao trágico fim. Como ele próprio afirma, depois de muito ponderar, resolveu “contar toda a verdade, sem ocular nada; contar ao leitor como a coisa realmente aconteceu.” Encarregado por uma grande revista americana de entrevistar Hemingway sobre o tema “O futuro da literatura”, Hotchner embarcou para Havana, em cujas proximidades o escritor vivia, na conhecida Finca Vigia, para tentar arrancar dele algumas declarações a respeito de assunto tão vago quanto imprevisível. Sem coragem de bater em sua porta, o repórter enviou ao escritor um bilhete onde dizia que seu fracasso lhe custaria o emprego. Foi então que Hemingway marcou um encontro no bar e ali se conheceram, dando início a uma sólida amizade, realizando juntos numerosas viagens, caçadas, pescarias, temporadas para acompanhar touradas e longas conversas reveladoras do pensamento do escritor e sua inigualável técnica de escrever. Enquanto isso, Hotchner adaptava para a televisão contos de Hemingway com grande sucesso.

Têm início então as mais incansáveis viagens, tanto pelos Estados Unidos como pela Europa. O carro constituía o transporte predileto do escritor, sentado sempre ao lado do motorista, seu trono particular. Dali – dizia ele – podia contemplar a paisagem, as cidades e as vilas, as pessoas e os animais, os pássaros e a vegetação. Observador atento, tudo retinha na memória e sempre que desejava recordar de algo dizia: “Aperto apenas o botão das lembranças e lá surge a coisa. Se não estiver lá é porque não valia a pena ser conservada.” E durante as viagens conversava muito, tanto sobre o que acontecia no momento como a respeito de fatos passados, histórias e leituras. Foi sempre um inigualável companheiro de viagens.

Quando na Espanha, que considerava a segunda pátria, acompanhava com fervor as touradas, assunto em que se tornou autoridade. Conhecia os toureiros, discutia com eles e até protegeu alguns, e comparecia aos bares onde se juntavam os aficionados. Em várias oportunidades acompanhou as caravanas dos toureiros preferidos nas suas maratonas pelas cidades onde se apresentavam, às vezes muito distantes umas das outras. Toureiros célebres foram seus hóspedes na Finca Vigía, em Cuba. Em compensação, tornou-se conhecido dos frequentadores das touradas e mais de uma vez foi aplaudido pela multidão. Sua mulher foi contemplada com a orelha de um touro, grande homenagem de um toureiro a alguma pessoa de destaque. Além de colecionar milhares de fotos sobre touradas, escreveu livros, reportagens e artigos sobre o assunto.

A vida seguia nesse ritmo ágil e vitorioso quando os problemas começaram a se manifestar. Imperceptíveis no início, só notados pelas pessoas mais chegadas, agravaram-se com rapidez. Tornou-se tristonho, preocupado com ninharias, perdeu peso e parecia frágil. Instalaram-se as ideias fixas e a mania de perseguição. Julgava-se vigiado pela polícia e pela receita federal, imaginava que seus telefones estavam grampeados e enxergava um espião em cada desconhecido. Irritadiço ao extremo, voltou-se até mesmo contra a esposa Mary e o amigo Hotchner, autor do livro. Começa, então, a terrível sequência de internações, a princípio simuladas para evitar escândalos, e depois públicas e do domínio da imprensa. Seguiram-se os tratamentos terríveis da época, com isolamento, eletrochoques, calmantes violentos. Até que ele adotou uma postura dúplice: mostrava-se lúcido e são perante os médicos, mas, tão logo libertado, retornavam todos os sintomas. E foi numa dessas ocasiões, em 1961, que burlou a vigilância da mulher e o tiro fatal ecoou no casarão de Ketchum, sua última morada. Tinha 62 anos e o mundo perdia um dos maiores escritores do Século XX.

Escrito por Enéas Athanázio, 29/07/2019 às 09h33 | e.atha@terra.com.br

O HÓSPEDE

O senhor Almeida se dedicava à agricultura. Vivia num sítio perdido no ermo, aprazível e silencioso, onde as preocupações mais urgentes se relacionavam às condições do tempo, em geral favoráveis, propiciando boas colheitas. Gastava seus longos dias sugando grosso palheiro e, pela tarde, se ajeitava à beira do fogão de lenha, matutando ideias nunca reveladas, enquanto a mulher preparava um jantar simples mas delicioso. Com o correr do tempo, porém, outra preocupação começou a toldar sua paz. É que o tranquilo sitiante tinha nada menos que nove filhas, algumas já passadas e outras em pleno viço, todas simpáticas e bonitonas. Como naqueles ínvios pouca gente de fora aparecia, as pobres moças não encontravam pretendentes e todas corriam o risco de ficar para titias. Em conversas com a mulher, Almeida se convenceu de que teria que mudar de lugar e de profissão em benefício da prole casadoira.

Passou a ler com atenção os anúncios dos jornais até que encontrou a solução. Numa estância de águas, não distante dali, estava à venda um amplo e antigo hotel. Almeida tratou de vender o sítio, com o gado, os cavalos, as ovelhas, as roças e tudo o mais, apurando considerável importância. Logo em seguida, sem maiores problemas, adquiriu o estabelecimento. Em pouco tempo, ele e a família estavam instalados no Grande Hotel, tão grande que possuía quartos em profusão, corredores imensos e salas espaçosas, além de ficar bem próximo das fontes minerais.

Ansiosa, toda a família ficou aguardando a chegada dos hóspedes, mas eles tardavam a aparecer. Mal administrado pelos antigos donos, o hotel não gozava de grande conceito. Mas vai que um dia, afinal, apontou na curva da estrada o primeiro e tão esperado hóspede. Tratava-se de um senhor Garcia, já entrado em anos, acometido de mal dos nervos e que procurava um recanto sossegado onde aplacar o mal que tanto o afligia. Foi recebido com toda cortesia e alojado no melhor quarto, com ampla vista para a cidadezinha e as verdejantes matas da região.

Desde o primeiro instante, foi o hóspede tratado com as maiores gentilezas. Bastava manifestar qualquer desejo e seu Almeida estava pronto a satisfazê-lo.

- O senhor Garcia quer um copo d’água! – gritava para dentro. E não tardava a aparecer uma das nove, toda elegante e brejeira, levando o líquido numa bandeja recoberta por uma toalha de crochê.

Tão logo servida a refeição, acorria o senhor Almeida, todo cheio de mesuras, em busca do precioso hóspede.

- Meninas! – bradava ele. – Preparem um lugar para o senhor Garcia!

Durante a refeição os salamaleques se repetiam.

- Sirva-se mais, senhor Garcia! Experimente esta coxa de frango crioulo. Este é um feijão especial, preparado para o senhor.

Constrangido, o hóspede agradecia, embora lamentasse no íntimo a conspiração contra o sossego e a solidão que tanto procurava. Até que um dia, enjoado daquilo tudo, tomou uma séria decisão.

Na calada da noite, quando todos dormiam, arrumou sua tralha, desceu a escadaria e deixou sobre o balcão da portaria o pagamento da hospedagem.

Em completo silêncio, sumiu na noite sem deixar rastro. Delicadeza em excesso enjoa e cansa!

Este é o resumo simplificado de um capítulo do romance “Vida Ociosa”, obra-prima de nossa literatura, publicado em 1920, e que consagrou o escritor mineiro Godofredo Rangel.

Escrito por Enéas Athanázio, 22/07/2019 às 13h20 | e.atha@terra.com.br

GÊNIO E REBELDE

Tristan Tzara foi uma figura célebre e controversa na Paris da belle époque. Frequentava o mesmo café onde se reuniam os membros da chamada “geração perdida”, entre os quais Ernest Hemingway, em cujas obras se encontram referências a ele. Nascido Samuel Rosesnstock (1896/1963), de família judia, veio ao mundo na Romênia e faleceu em Paris. Adotou o pseudônimo com que se tornou célebre, cuja tradução livre é “triste em meu país.” Desde muito cedo se revelou um contestador e vanguardista, colaborando em periódicos de seu país. Viveu na Alemanha, na Espanha e em Paris, onde se fixou em definitivo, tendo adquirido a nacionalidade francesa. Estudou Ciências Humanas e Filosofia em Zurique. Durante a II Guerra Mundial sofreu perseguições antissemitas, obrigando-se a se refugiar no sul da França, tendo participado da Resistência Francesa como elo de ligação com intelectuais simpatizantes.

Com outros escritores, poetas e artistas, criou o Movimento Dadaísta, cujo manifesto foi lançado em 1918 com intensa repercussão. Nele, o grupo investia contra a poesia convencional, os valores estéticos, culturais e morais imperantes, propondo a destruição dos cânones vigentes numa sociedade que considerava em franca decomposição. Suas ideias revolucionárias teriam sido inspiradoras do Surrealismo. Não obstante, é considerado um dos grandes expoentes da literatura francesa do Século XX.

Para ele, a poesia haveria de ser transgressora e rebelde, alheia aos significados lógicos da linguagem, mesmo que não fosse entendida pelo vulgo. Propunha a associação de termos incompatíveis entre si e uma sucessão de ritmos caóticos. Entre seus princípios estavam: a abolição da lógica, de toda hierarquia, da memória, das profecias, do futuro e das dores crispadas, dos grotescos e das incongruências. O entrelaçamento dos contrários e de todas as contradições eram alguns de seus postulados. Autor de uma obra vasta e complexa, aliava a rebeldia agressiva a um socialismo utópico.

Para orientar os interessados, forneceu a receita de um poema dadaísta. Leia um artigo de jornal, - instruiu ele – depois use uma tesoura e o recorte. Em seguida, com muito cuidado, recorte palavra por palavra, ponha tudo num saquinho e sacuda de leve para misturar. Vá tirando e copiando cada uma das palavras e você terá um poema muito parecido com você e repleto de sensibilidade, embora ninguém o entenda e talvez nem mesmo seu autor (digo eu). Com base nessas instruções, vamos construir um

POEMA DADÁ

Com prisões guerra deputado institucional
Tendências erramos disputa casas política
Contato continuidade membros da justiça
Usurpar aproximou destroços gabinete segura
Para xadrez a da chinês judiciário
Assembleia chegam ministério máximo final
Paz debates mira pacheco extra
Zona da poder mais e para crítico
Mesa alerta faltou é do inovação
Importantes xis minha história estrutura
A em que o da ao . . .

O leitor entendeu?
Confesso que também não!
Será mesmo parecido comigo?

Escrito por Enéas Athanázio, 15/07/2019 às 09h09 | e.atha@terra.com.br

O OGRO E A POMBA

Quando se anunciou o próximo casamento de Diego Rivera e Frida Khalo, o pai da moça teria afirmado que se tratava da união do ogro com a pomba, tão diferentes no aspecto físico eram os dois. Ele, um homem grandalhão, um tanto gordo e feio; ela, uma moça magra e de aparência frágil e doentia. Além disso, o noivo tinha o dobro da idade da noiva e já passara por outros matrimônios, todos mal sucedidos. Mas o casamento aconteceu duas vezes e foi dos mais comentados e controversos dos meios culturais de todo o mundo. A história de amor de Frida e Diego foi a de uma união inseparável em que ambos se irmanavam no sentimento revolucionário, tanto na vida como na arte. Ele foi o maior muralista mexicano e ela, por sua vez, uma pintora que encantou os apreciadores de todo o mundo.

Pessoa doentia, acometida de poliomielite aos seis anos de idade, vítima de terrível acidente que a cumularia de sofrimentos pela vida a fora, Frida se apaixonou pelo pintor quando menina e comparecia ao local onde ele trabalhava para vê-lo e contemplar sua arte. Desde logo comungou com ele do ideal de recuperar o México histórico e tradicional, revivendo os costumes, a arte secular do povo mexicano e a cultura dos indígenas pré-colombianos, libertando-se de influências estrangeiras. Fiel a esse propósito, com o integral apoio dela, Diego realizou imensos murais que impressionaram desde logo pela grandeza, pela inspiração e pela beleza. Seu nome não tardou a transpor as fronteiras e se tornou um artista de fama mundial, convidado várias vezes para executar obras em outros países, inclusive nos Estados Unidos, onde travou uma luta desigual com o todo-poderoso Nelson Rockefeller.

Diego Rivera foi uma figura complexa. A par da seriedade e disciplina com que se lançava ao trabalho, era “um mentiroso, um fanfarrão, um inventor de histórias que se alimentavam do imaginário”, como escreveu seu biógrafo. Inveterado conquistador, apesar da feiúra, manteve vários relacionamentos amorosos complicados e ruidosos. Entregou-se às mais estranhas experiências, provando inclusive o canibalismo, ocasião em que declarou que a carne humana é adocicada. Mas nutria uma fé inquebrantável na renovação da arte popular mexicana e com isso selou sua sobrevivência na história da pintura moderna. Recebeu e suportou com estoicismo críticas que ridicularizavam sua escolha indianista, mas jamais abdicou dela.

Seus imensos murais, vivos e brilhantes, tiravam do ostracismo o México profundo que estava sendo soterrado pelas influências de fora. Retratavam os nativos nas suas atividades cotidianas, as mulheres de pele ocre com as costas largas e fisionomias serenas, os cabelos longos e negros, às vezes numa nudez inocente e despreocupada. A vida fluindo como nos tempos de dantes, Para isso, captando imagens in loco, ele perambulava pelos rincões mexicanos de onde retornava com a mala repleta de esboços e anotações. Realizava o que seu biógrafo denominou de festa indígena, sempre ao lado da mulher. “Frida, bem como Diego, inventou o passado indígena do México (...) Mas Diego é o primeiro a exprimir verdadeiramente o mundo indígena, sua força vital, sua exuberância colorida, seu martírio cotidiano também” – afirmou o biógrafo.

A influência da arte de Diego, ao lado de Frida, não tarda a se fazer sentir. Surge aquele México alegre, colorido, musical e amante da liberdade. Ambos, em conjunto, provocaram a revolução através da pintura. E lutaram sempre por um mundo melhor, com muita paz, a proscrição das armas nucleares e a solidariedade entre os povos.

As biografias paralelas de Frida e Diego estão reconstruídas de forma magistral no livro “Diego e Frida”, de autoria de J. M. G. Le Clézio, escritor francês, detentor do Prêmio Nobel de Literatura, publicado entre nós pela Editora Record (2010), em tradução de Vera Lúcia dos Reis. Obra que mereceu do jornal “Le Monde” as seguintes palavras: “Esta biografia amplia a história, a dos indivíduos e dos povos, até as dimensões da lenda.”

Escrito por Enéas Athanázio, 08/07/2019 às 10h27 | e.atha@terra.com.br

GLOBÊS

A pressão da economia sobre a sociedade, em todos os setores, está chegando às raias do absurdo. Parece ficção surreal, inacreditável e inverossímil, mas já surgiu quem pregasse a “necessidade” de reduzir o vocabulário das pessoas sob a alegação de que “não é econômico ter quinze ou mais palavras para dizer a mesma coisa.” Segundo o escritor francês Erik Orsenna, integrante da Academia Francesa, em entrevista à brasileira Betty Milan, a mundialização está provocando “a desaparição das línguas, isto por causa da tendência a falar a língua das quinhentas palavras, que eu chamo de “globês.” São as quinhentas palavras necessárias à sobrevivência, as palavras do dinheiro, que é o equivalente geral. Não é útil para a economia ter quinze palavras para dizer a mesma coisa... Ora, a maior obra de arte coletiva é uma língua, seja ela qual for, e não há nada pior do que relegá-la ao esquecimento.” Quem diria que a “modernidade” nos levaria a correr tal risco! Ensinados que a cultura da pessoa se mede pela riqueza de seu vocabulário, falando ou escrevendo sem repetições, usando as palavras apropriadas com todas suas nuances, agora pregarão que isso não é econômico e que o correto será falar da forma mais pobre possível, com um mínimo de vocábulos. Nessa marcha, não tardará o dia em que voltaremos a nos comunicar através de grunhidos ou gestos, como seres primitivos! Será o apogeu da “modernidade globalizante.”

Como se não bastasse, está ocorrendo um fenômeno que os sociólogos definem como “enquadramento geral” e que só se imaginava possível em regimes fechados. Assim, por exemplo, qualquer funcionário, mesmo subalterno, abdica da própria individualidade e só se expressa na primeira pessoa do plural – “nós.” Com essa palavrinha de três letras ele se integra melhor à entidade a que serve, mesmo anulando a si próprio. Isso se completa nos uniformes iguais, feitos num modelo único nos menores detalhes, e até nos penteados femininos, idênticos inclusive nas ondulações e fitas. Gestos e modos de agir tão estudados que parecem mecânicos. Vozes tão ásperas e sem modulação que semelham a fala metálica dos robôs. Até os sotaques regionais, uma das riquezas da língua, são proibidos – todos devem falar do mesmo jeito. A “economia de palavras” aparece até no modo de se expressar ao telefone: “Quem?” – é a pergunta seca, não havendo sequer a preocupação de completar a frase. Para que gastar mais uma palavra? Pessoas incumbidas de prestar orientação a clientes, como em bancos e outras instituições, repetem as mesmas frases, como palavras de ordem, sempre no mesmo tom. Algumas nem sequer falam, têm a pergunta escrita nas costas: “Posso ajudar?” Para certas associações, não usar as designações da praxe é um semi-delito: companheiro, confrade, consócio, correligionário, camarada etc. E assim, agindo como autômatos, vamos aos poucos nos afastando cada vez mais de nossos semelhantes. Não existe mais espaço para os “papos” descontraídos e amigos; isso não seria econômico.

Escapamos de ditaduras ideológicas e repressivas mas vivemos sob um controle totalitário difuso, que não sabemos de onde parte e ao qual ficamos cada vez mais submissos. Por tudo isso, despeço-me com palavras, enquanto ainda podem ser usadas. É possível que em breve sejam proibidas e ao escritor reste apenas o silêncio. E no convívio diário nos comunicaremos grunhindo e gesticulando. Mesmo assim com muita economia.

___________________________


CENA FUTURISTA
Brasil em tempos de globês


O filho, entrando na sala:
- Oi, pai! Oi, mãe! Belê?
O pai faz positivo com o polegar.
A mãe:
- Hu! Hu!
- Oi, mano! – diz o rapaz. – Jóia?
- Hu! Hu! – responde o outro.
Para a irmã:
- Aí, mina! Lacrando?
- Hu! Hu!.
Silêncio.
- Que está fazendo, pai?
- Trabalhando em cima duma idéia.
- E como tá?
- Complicado. Eu acho.
- Tipo o quê?
- Tipo história. – Pausa - Difícil.
A mãe:
- Faz parte.
Silêncio.
- Vai ficar legal?
- Com certeza.
Silêncio.
Todos se concentram no celular.
O rapaz levanta e vai saindo.
- Chega de papo. Tchau!
- Hu! Hu! – respondem os outros.
A porta se fecha.
Silêncio.

 

Escrito por Enéas Athanázio, 01/07/2019 às 15h18 | e.atha@terra.com.br

TRIBUTO A UM BATALHADOR

Amanhã o advogado Linésio Laus estará completando 90 anos de idade. Nascido na cidade de Tijucas em 25 de junho de 1929, bacharelou-se pela Faculdade de Direito de Santa Catarina, então sediada à rua Esteves Júnior, em Florianópolis, e hoje integrada à UFSC. Casou-se com Wanda D’Ávila dos Santos Laus, cirurgiã-dentista, e o casal teve cinco filhos: Berenice, Carlos Humberto, Beatriz, Victor e Linésio Júnior. Desde 1979 está radicado em Balneário Camboriú.

Formado, Linésio Laus se fixou em Joaçaba, onde permaneceu por vários anos, depois foi para São Paulo e, por fim, se estabeleceu em Balneário Camboriú, cidade que adotou como sua. Exerce a advocacia há mais de sessenta anos, sem interrupção e sem se dedicar jamais a qualquer outra atividade profissional. Não se curvou à tentação dos negócios, do magistério ou da política. Sua única ambição sempre foi a mesma: ser advogado em tempo integral. Entregou-se à profissão com denodo e competência desde a juventude.

É um dos advogados mais antigos da comarca e foi o primeiro presidente da Subseção local da OAB em dois mandatos consecutivos (1981/1982 e 1983/1984).

Em mais de seis décadas de atividade profissional, Linésio Laus tem advogado em todas as áreas, sempre revelando conhecimento e combatividade. É um batalhador incansável.

No correr de tão prolongado lapso de tempo trabalhou nas mais diversas circunstâncias vividas pelo país, inclusive sob o guante de uma ditadura de 21 anos, correndo todos os riscos inerentes ao estado de exceção. Formado na vigência da Constituição Federal de 1946, a mais democrática que tivemos, acompanhou o surgimento dos Atos Institucionais, inclusive do famigerado AI 5, da Constituição secreta de 1967, da Emenda número 1, de 1969 e, por fim, da Constituição Cidadã, de 1988, que colocou um ponto final em duas décadas de obscurantismo.

Nesse período, presenciou a imensa transformação sofrida pelo Direito, inclusive na sua execução, desde a máquina de escrever e o papel carbono, as petições seladas e os habeas-corpus impetrados pelo correio até o computador e a Internet. Advogou na vigência de três Códigos de Processo Civil, a começar pelo de 1939 até o atual, exigindo constante e dedicado estudo e atualização. Nas outras áreas as alterações também foram intensas, inclusive com a vigência de novos e numerosos diplomas legais versando os mais variados assuntos.

Conheci Linésio Laus nos tempos em que residi em Campos Novos. Atuamos juntos no Tribunal do Júri e em causas cíveis, ora como companheiros, ora como adversários. Nunca deixei de reconhecer seu talento e sua cultura jurídica.

Por tudo isso e muito mais, rendo ao prezado colega e amigo o meu sincero tributo, desejando-lhe o melhor, e o felicito pela longa trajetória de vida dedicada ao Direito e à Justiça. Espero que muitas outras manifestações ocorram, assinalando tão significativa data.

Escrito por Enéas Athanázio, 24/06/2019 às 09h57 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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Por Enéas Athanázio

Os últimos anos

Entre as muitas biografias parciais de Ernest Hemingway (1899/1961), nenhuma me parece tão tocante e sincera como “Papá Hemingway”, de A. E. Hotchner (Civilização Brasileira – Rio – 1967). Ela reconstitui os últimos quatorze anos de vida do escritor, desde que o autor o conheceu em Cuba, no célebre bar Floridita, e se tornou seu maior e mais íntimo amigo nessa última fase da existência, acompanhando passo a passo a doença que o levaria ao trágico fim. Como ele próprio afirma, depois de muito ponderar, resolveu “contar toda a verdade, sem ocular nada; contar ao leitor como a coisa realmente aconteceu.” Encarregado por uma grande revista americana de entrevistar Hemingway sobre o tema “O futuro da literatura”, Hotchner embarcou para Havana, em cujas proximidades o escritor vivia, na conhecida Finca Vigia, para tentar arrancar dele algumas declarações a respeito de assunto tão vago quanto imprevisível. Sem coragem de bater em sua porta, o repórter enviou ao escritor um bilhete onde dizia que seu fracasso lhe custaria o emprego. Foi então que Hemingway marcou um encontro no bar e ali se conheceram, dando início a uma sólida amizade, realizando juntos numerosas viagens, caçadas, pescarias, temporadas para acompanhar touradas e longas conversas reveladoras do pensamento do escritor e sua inigualável técnica de escrever. Enquanto isso, Hotchner adaptava para a televisão contos de Hemingway com grande sucesso.

Têm início então as mais incansáveis viagens, tanto pelos Estados Unidos como pela Europa. O carro constituía o transporte predileto do escritor, sentado sempre ao lado do motorista, seu trono particular. Dali – dizia ele – podia contemplar a paisagem, as cidades e as vilas, as pessoas e os animais, os pássaros e a vegetação. Observador atento, tudo retinha na memória e sempre que desejava recordar de algo dizia: “Aperto apenas o botão das lembranças e lá surge a coisa. Se não estiver lá é porque não valia a pena ser conservada.” E durante as viagens conversava muito, tanto sobre o que acontecia no momento como a respeito de fatos passados, histórias e leituras. Foi sempre um inigualável companheiro de viagens.

Quando na Espanha, que considerava a segunda pátria, acompanhava com fervor as touradas, assunto em que se tornou autoridade. Conhecia os toureiros, discutia com eles e até protegeu alguns, e comparecia aos bares onde se juntavam os aficionados. Em várias oportunidades acompanhou as caravanas dos toureiros preferidos nas suas maratonas pelas cidades onde se apresentavam, às vezes muito distantes umas das outras. Toureiros célebres foram seus hóspedes na Finca Vigía, em Cuba. Em compensação, tornou-se conhecido dos frequentadores das touradas e mais de uma vez foi aplaudido pela multidão. Sua mulher foi contemplada com a orelha de um touro, grande homenagem de um toureiro a alguma pessoa de destaque. Além de colecionar milhares de fotos sobre touradas, escreveu livros, reportagens e artigos sobre o assunto.

A vida seguia nesse ritmo ágil e vitorioso quando os problemas começaram a se manifestar. Imperceptíveis no início, só notados pelas pessoas mais chegadas, agravaram-se com rapidez. Tornou-se tristonho, preocupado com ninharias, perdeu peso e parecia frágil. Instalaram-se as ideias fixas e a mania de perseguição. Julgava-se vigiado pela polícia e pela receita federal, imaginava que seus telefones estavam grampeados e enxergava um espião em cada desconhecido. Irritadiço ao extremo, voltou-se até mesmo contra a esposa Mary e o amigo Hotchner, autor do livro. Começa, então, a terrível sequência de internações, a princípio simuladas para evitar escândalos, e depois públicas e do domínio da imprensa. Seguiram-se os tratamentos terríveis da época, com isolamento, eletrochoques, calmantes violentos. Até que ele adotou uma postura dúplice: mostrava-se lúcido e são perante os médicos, mas, tão logo libertado, retornavam todos os sintomas. E foi numa dessas ocasiões, em 1961, que burlou a vigilância da mulher e o tiro fatal ecoou no casarão de Ketchum, sua última morada. Tinha 62 anos e o mundo perdia um dos maiores escritores do Século XX.

Escrito por Enéas Athanázio, 29/07/2019 às 09h33 | e.atha@terra.com.br

O HÓSPEDE

O senhor Almeida se dedicava à agricultura. Vivia num sítio perdido no ermo, aprazível e silencioso, onde as preocupações mais urgentes se relacionavam às condições do tempo, em geral favoráveis, propiciando boas colheitas. Gastava seus longos dias sugando grosso palheiro e, pela tarde, se ajeitava à beira do fogão de lenha, matutando ideias nunca reveladas, enquanto a mulher preparava um jantar simples mas delicioso. Com o correr do tempo, porém, outra preocupação começou a toldar sua paz. É que o tranquilo sitiante tinha nada menos que nove filhas, algumas já passadas e outras em pleno viço, todas simpáticas e bonitonas. Como naqueles ínvios pouca gente de fora aparecia, as pobres moças não encontravam pretendentes e todas corriam o risco de ficar para titias. Em conversas com a mulher, Almeida se convenceu de que teria que mudar de lugar e de profissão em benefício da prole casadoira.

Passou a ler com atenção os anúncios dos jornais até que encontrou a solução. Numa estância de águas, não distante dali, estava à venda um amplo e antigo hotel. Almeida tratou de vender o sítio, com o gado, os cavalos, as ovelhas, as roças e tudo o mais, apurando considerável importância. Logo em seguida, sem maiores problemas, adquiriu o estabelecimento. Em pouco tempo, ele e a família estavam instalados no Grande Hotel, tão grande que possuía quartos em profusão, corredores imensos e salas espaçosas, além de ficar bem próximo das fontes minerais.

Ansiosa, toda a família ficou aguardando a chegada dos hóspedes, mas eles tardavam a aparecer. Mal administrado pelos antigos donos, o hotel não gozava de grande conceito. Mas vai que um dia, afinal, apontou na curva da estrada o primeiro e tão esperado hóspede. Tratava-se de um senhor Garcia, já entrado em anos, acometido de mal dos nervos e que procurava um recanto sossegado onde aplacar o mal que tanto o afligia. Foi recebido com toda cortesia e alojado no melhor quarto, com ampla vista para a cidadezinha e as verdejantes matas da região.

Desde o primeiro instante, foi o hóspede tratado com as maiores gentilezas. Bastava manifestar qualquer desejo e seu Almeida estava pronto a satisfazê-lo.

- O senhor Garcia quer um copo d’água! – gritava para dentro. E não tardava a aparecer uma das nove, toda elegante e brejeira, levando o líquido numa bandeja recoberta por uma toalha de crochê.

Tão logo servida a refeição, acorria o senhor Almeida, todo cheio de mesuras, em busca do precioso hóspede.

- Meninas! – bradava ele. – Preparem um lugar para o senhor Garcia!

Durante a refeição os salamaleques se repetiam.

- Sirva-se mais, senhor Garcia! Experimente esta coxa de frango crioulo. Este é um feijão especial, preparado para o senhor.

Constrangido, o hóspede agradecia, embora lamentasse no íntimo a conspiração contra o sossego e a solidão que tanto procurava. Até que um dia, enjoado daquilo tudo, tomou uma séria decisão.

Na calada da noite, quando todos dormiam, arrumou sua tralha, desceu a escadaria e deixou sobre o balcão da portaria o pagamento da hospedagem.

Em completo silêncio, sumiu na noite sem deixar rastro. Delicadeza em excesso enjoa e cansa!

Este é o resumo simplificado de um capítulo do romance “Vida Ociosa”, obra-prima de nossa literatura, publicado em 1920, e que consagrou o escritor mineiro Godofredo Rangel.

Escrito por Enéas Athanázio, 22/07/2019 às 13h20 | e.atha@terra.com.br

GÊNIO E REBELDE

Tristan Tzara foi uma figura célebre e controversa na Paris da belle époque. Frequentava o mesmo café onde se reuniam os membros da chamada “geração perdida”, entre os quais Ernest Hemingway, em cujas obras se encontram referências a ele. Nascido Samuel Rosesnstock (1896/1963), de família judia, veio ao mundo na Romênia e faleceu em Paris. Adotou o pseudônimo com que se tornou célebre, cuja tradução livre é “triste em meu país.” Desde muito cedo se revelou um contestador e vanguardista, colaborando em periódicos de seu país. Viveu na Alemanha, na Espanha e em Paris, onde se fixou em definitivo, tendo adquirido a nacionalidade francesa. Estudou Ciências Humanas e Filosofia em Zurique. Durante a II Guerra Mundial sofreu perseguições antissemitas, obrigando-se a se refugiar no sul da França, tendo participado da Resistência Francesa como elo de ligação com intelectuais simpatizantes.

Com outros escritores, poetas e artistas, criou o Movimento Dadaísta, cujo manifesto foi lançado em 1918 com intensa repercussão. Nele, o grupo investia contra a poesia convencional, os valores estéticos, culturais e morais imperantes, propondo a destruição dos cânones vigentes numa sociedade que considerava em franca decomposição. Suas ideias revolucionárias teriam sido inspiradoras do Surrealismo. Não obstante, é considerado um dos grandes expoentes da literatura francesa do Século XX.

Para ele, a poesia haveria de ser transgressora e rebelde, alheia aos significados lógicos da linguagem, mesmo que não fosse entendida pelo vulgo. Propunha a associação de termos incompatíveis entre si e uma sucessão de ritmos caóticos. Entre seus princípios estavam: a abolição da lógica, de toda hierarquia, da memória, das profecias, do futuro e das dores crispadas, dos grotescos e das incongruências. O entrelaçamento dos contrários e de todas as contradições eram alguns de seus postulados. Autor de uma obra vasta e complexa, aliava a rebeldia agressiva a um socialismo utópico.

Para orientar os interessados, forneceu a receita de um poema dadaísta. Leia um artigo de jornal, - instruiu ele – depois use uma tesoura e o recorte. Em seguida, com muito cuidado, recorte palavra por palavra, ponha tudo num saquinho e sacuda de leve para misturar. Vá tirando e copiando cada uma das palavras e você terá um poema muito parecido com você e repleto de sensibilidade, embora ninguém o entenda e talvez nem mesmo seu autor (digo eu). Com base nessas instruções, vamos construir um

POEMA DADÁ

Com prisões guerra deputado institucional
Tendências erramos disputa casas política
Contato continuidade membros da justiça
Usurpar aproximou destroços gabinete segura
Para xadrez a da chinês judiciário
Assembleia chegam ministério máximo final
Paz debates mira pacheco extra
Zona da poder mais e para crítico
Mesa alerta faltou é do inovação
Importantes xis minha história estrutura
A em que o da ao . . .

O leitor entendeu?
Confesso que também não!
Será mesmo parecido comigo?

Escrito por Enéas Athanázio, 15/07/2019 às 09h09 | e.atha@terra.com.br

O OGRO E A POMBA

Quando se anunciou o próximo casamento de Diego Rivera e Frida Khalo, o pai da moça teria afirmado que se tratava da união do ogro com a pomba, tão diferentes no aspecto físico eram os dois. Ele, um homem grandalhão, um tanto gordo e feio; ela, uma moça magra e de aparência frágil e doentia. Além disso, o noivo tinha o dobro da idade da noiva e já passara por outros matrimônios, todos mal sucedidos. Mas o casamento aconteceu duas vezes e foi dos mais comentados e controversos dos meios culturais de todo o mundo. A história de amor de Frida e Diego foi a de uma união inseparável em que ambos se irmanavam no sentimento revolucionário, tanto na vida como na arte. Ele foi o maior muralista mexicano e ela, por sua vez, uma pintora que encantou os apreciadores de todo o mundo.

Pessoa doentia, acometida de poliomielite aos seis anos de idade, vítima de terrível acidente que a cumularia de sofrimentos pela vida a fora, Frida se apaixonou pelo pintor quando menina e comparecia ao local onde ele trabalhava para vê-lo e contemplar sua arte. Desde logo comungou com ele do ideal de recuperar o México histórico e tradicional, revivendo os costumes, a arte secular do povo mexicano e a cultura dos indígenas pré-colombianos, libertando-se de influências estrangeiras. Fiel a esse propósito, com o integral apoio dela, Diego realizou imensos murais que impressionaram desde logo pela grandeza, pela inspiração e pela beleza. Seu nome não tardou a transpor as fronteiras e se tornou um artista de fama mundial, convidado várias vezes para executar obras em outros países, inclusive nos Estados Unidos, onde travou uma luta desigual com o todo-poderoso Nelson Rockefeller.

Diego Rivera foi uma figura complexa. A par da seriedade e disciplina com que se lançava ao trabalho, era “um mentiroso, um fanfarrão, um inventor de histórias que se alimentavam do imaginário”, como escreveu seu biógrafo. Inveterado conquistador, apesar da feiúra, manteve vários relacionamentos amorosos complicados e ruidosos. Entregou-se às mais estranhas experiências, provando inclusive o canibalismo, ocasião em que declarou que a carne humana é adocicada. Mas nutria uma fé inquebrantável na renovação da arte popular mexicana e com isso selou sua sobrevivência na história da pintura moderna. Recebeu e suportou com estoicismo críticas que ridicularizavam sua escolha indianista, mas jamais abdicou dela.

Seus imensos murais, vivos e brilhantes, tiravam do ostracismo o México profundo que estava sendo soterrado pelas influências de fora. Retratavam os nativos nas suas atividades cotidianas, as mulheres de pele ocre com as costas largas e fisionomias serenas, os cabelos longos e negros, às vezes numa nudez inocente e despreocupada. A vida fluindo como nos tempos de dantes, Para isso, captando imagens in loco, ele perambulava pelos rincões mexicanos de onde retornava com a mala repleta de esboços e anotações. Realizava o que seu biógrafo denominou de festa indígena, sempre ao lado da mulher. “Frida, bem como Diego, inventou o passado indígena do México (...) Mas Diego é o primeiro a exprimir verdadeiramente o mundo indígena, sua força vital, sua exuberância colorida, seu martírio cotidiano também” – afirmou o biógrafo.

A influência da arte de Diego, ao lado de Frida, não tarda a se fazer sentir. Surge aquele México alegre, colorido, musical e amante da liberdade. Ambos, em conjunto, provocaram a revolução através da pintura. E lutaram sempre por um mundo melhor, com muita paz, a proscrição das armas nucleares e a solidariedade entre os povos.

As biografias paralelas de Frida e Diego estão reconstruídas de forma magistral no livro “Diego e Frida”, de autoria de J. M. G. Le Clézio, escritor francês, detentor do Prêmio Nobel de Literatura, publicado entre nós pela Editora Record (2010), em tradução de Vera Lúcia dos Reis. Obra que mereceu do jornal “Le Monde” as seguintes palavras: “Esta biografia amplia a história, a dos indivíduos e dos povos, até as dimensões da lenda.”

Escrito por Enéas Athanázio, 08/07/2019 às 10h27 | e.atha@terra.com.br

GLOBÊS

A pressão da economia sobre a sociedade, em todos os setores, está chegando às raias do absurdo. Parece ficção surreal, inacreditável e inverossímil, mas já surgiu quem pregasse a “necessidade” de reduzir o vocabulário das pessoas sob a alegação de que “não é econômico ter quinze ou mais palavras para dizer a mesma coisa.” Segundo o escritor francês Erik Orsenna, integrante da Academia Francesa, em entrevista à brasileira Betty Milan, a mundialização está provocando “a desaparição das línguas, isto por causa da tendência a falar a língua das quinhentas palavras, que eu chamo de “globês.” São as quinhentas palavras necessárias à sobrevivência, as palavras do dinheiro, que é o equivalente geral. Não é útil para a economia ter quinze palavras para dizer a mesma coisa... Ora, a maior obra de arte coletiva é uma língua, seja ela qual for, e não há nada pior do que relegá-la ao esquecimento.” Quem diria que a “modernidade” nos levaria a correr tal risco! Ensinados que a cultura da pessoa se mede pela riqueza de seu vocabulário, falando ou escrevendo sem repetições, usando as palavras apropriadas com todas suas nuances, agora pregarão que isso não é econômico e que o correto será falar da forma mais pobre possível, com um mínimo de vocábulos. Nessa marcha, não tardará o dia em que voltaremos a nos comunicar através de grunhidos ou gestos, como seres primitivos! Será o apogeu da “modernidade globalizante.”

Como se não bastasse, está ocorrendo um fenômeno que os sociólogos definem como “enquadramento geral” e que só se imaginava possível em regimes fechados. Assim, por exemplo, qualquer funcionário, mesmo subalterno, abdica da própria individualidade e só se expressa na primeira pessoa do plural – “nós.” Com essa palavrinha de três letras ele se integra melhor à entidade a que serve, mesmo anulando a si próprio. Isso se completa nos uniformes iguais, feitos num modelo único nos menores detalhes, e até nos penteados femininos, idênticos inclusive nas ondulações e fitas. Gestos e modos de agir tão estudados que parecem mecânicos. Vozes tão ásperas e sem modulação que semelham a fala metálica dos robôs. Até os sotaques regionais, uma das riquezas da língua, são proibidos – todos devem falar do mesmo jeito. A “economia de palavras” aparece até no modo de se expressar ao telefone: “Quem?” – é a pergunta seca, não havendo sequer a preocupação de completar a frase. Para que gastar mais uma palavra? Pessoas incumbidas de prestar orientação a clientes, como em bancos e outras instituições, repetem as mesmas frases, como palavras de ordem, sempre no mesmo tom. Algumas nem sequer falam, têm a pergunta escrita nas costas: “Posso ajudar?” Para certas associações, não usar as designações da praxe é um semi-delito: companheiro, confrade, consócio, correligionário, camarada etc. E assim, agindo como autômatos, vamos aos poucos nos afastando cada vez mais de nossos semelhantes. Não existe mais espaço para os “papos” descontraídos e amigos; isso não seria econômico.

Escapamos de ditaduras ideológicas e repressivas mas vivemos sob um controle totalitário difuso, que não sabemos de onde parte e ao qual ficamos cada vez mais submissos. Por tudo isso, despeço-me com palavras, enquanto ainda podem ser usadas. É possível que em breve sejam proibidas e ao escritor reste apenas o silêncio. E no convívio diário nos comunicaremos grunhindo e gesticulando. Mesmo assim com muita economia.

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CENA FUTURISTA
Brasil em tempos de globês


O filho, entrando na sala:
- Oi, pai! Oi, mãe! Belê?
O pai faz positivo com o polegar.
A mãe:
- Hu! Hu!
- Oi, mano! – diz o rapaz. – Jóia?
- Hu! Hu! – responde o outro.
Para a irmã:
- Aí, mina! Lacrando?
- Hu! Hu!.
Silêncio.
- Que está fazendo, pai?
- Trabalhando em cima duma idéia.
- E como tá?
- Complicado. Eu acho.
- Tipo o quê?
- Tipo história. – Pausa - Difícil.
A mãe:
- Faz parte.
Silêncio.
- Vai ficar legal?
- Com certeza.
Silêncio.
Todos se concentram no celular.
O rapaz levanta e vai saindo.
- Chega de papo. Tchau!
- Hu! Hu! – respondem os outros.
A porta se fecha.
Silêncio.

 

Escrito por Enéas Athanázio, 01/07/2019 às 15h18 | e.atha@terra.com.br

TRIBUTO A UM BATALHADOR

Amanhã o advogado Linésio Laus estará completando 90 anos de idade. Nascido na cidade de Tijucas em 25 de junho de 1929, bacharelou-se pela Faculdade de Direito de Santa Catarina, então sediada à rua Esteves Júnior, em Florianópolis, e hoje integrada à UFSC. Casou-se com Wanda D’Ávila dos Santos Laus, cirurgiã-dentista, e o casal teve cinco filhos: Berenice, Carlos Humberto, Beatriz, Victor e Linésio Júnior. Desde 1979 está radicado em Balneário Camboriú.

Formado, Linésio Laus se fixou em Joaçaba, onde permaneceu por vários anos, depois foi para São Paulo e, por fim, se estabeleceu em Balneário Camboriú, cidade que adotou como sua. Exerce a advocacia há mais de sessenta anos, sem interrupção e sem se dedicar jamais a qualquer outra atividade profissional. Não se curvou à tentação dos negócios, do magistério ou da política. Sua única ambição sempre foi a mesma: ser advogado em tempo integral. Entregou-se à profissão com denodo e competência desde a juventude.

É um dos advogados mais antigos da comarca e foi o primeiro presidente da Subseção local da OAB em dois mandatos consecutivos (1981/1982 e 1983/1984).

Em mais de seis décadas de atividade profissional, Linésio Laus tem advogado em todas as áreas, sempre revelando conhecimento e combatividade. É um batalhador incansável.

No correr de tão prolongado lapso de tempo trabalhou nas mais diversas circunstâncias vividas pelo país, inclusive sob o guante de uma ditadura de 21 anos, correndo todos os riscos inerentes ao estado de exceção. Formado na vigência da Constituição Federal de 1946, a mais democrática que tivemos, acompanhou o surgimento dos Atos Institucionais, inclusive do famigerado AI 5, da Constituição secreta de 1967, da Emenda número 1, de 1969 e, por fim, da Constituição Cidadã, de 1988, que colocou um ponto final em duas décadas de obscurantismo.

Nesse período, presenciou a imensa transformação sofrida pelo Direito, inclusive na sua execução, desde a máquina de escrever e o papel carbono, as petições seladas e os habeas-corpus impetrados pelo correio até o computador e a Internet. Advogou na vigência de três Códigos de Processo Civil, a começar pelo de 1939 até o atual, exigindo constante e dedicado estudo e atualização. Nas outras áreas as alterações também foram intensas, inclusive com a vigência de novos e numerosos diplomas legais versando os mais variados assuntos.

Conheci Linésio Laus nos tempos em que residi em Campos Novos. Atuamos juntos no Tribunal do Júri e em causas cíveis, ora como companheiros, ora como adversários. Nunca deixei de reconhecer seu talento e sua cultura jurídica.

Por tudo isso e muito mais, rendo ao prezado colega e amigo o meu sincero tributo, desejando-lhe o melhor, e o felicito pela longa trajetória de vida dedicada ao Direito e à Justiça. Espero que muitas outras manifestações ocorram, assinalando tão significativa data.

Escrito por Enéas Athanázio, 24/06/2019 às 09h57 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.