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Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

A OBRA POÉTICA DE GARCIA LORCA

Durante longo tempo a tradução foi considerada um trabalho intelectual inferior. Os livros antigos nem sequer mencionavam o nome dos tradutores, permanecendo no anonimato os que se dedicavam ao exigente esforço de transpor para o português as obras estrangeiras. Monteiro Lobato operou verdadeira revolução no setor. Não apenas assumiu a condição de tradutor, tendo vertido mais de uma centena de obras, como revelou conhecer a fundo a arte e a técnica do difícil métier e escreveu substanciosos artigos a respeito, hoje recolhidos às suas Obras Completas. Traduziu também a quatro mãos, em parceria com Godofredo Rangel e com a sobrinha e nora Gulnara. Sempre que se dava mal nos seus incontáveis negócios, entregava-se à tradução e com ela se reerguia. Entre o seu imenso legado cultural estão as traduções de mais de uma centena de livros dos mais variados gêneros e autores que colocou ao alcance do leitor brasileiro.

Diversos tradutores de renome e prestígio se declararam discípulos do taubateano na arte da tradução. Hoje ela conquistou o status de gênero importante e intelectuais de nível a ela se dedicam com afinco. Como ensinava Lobato, traduzir não é realizar simples transliteração, mas penetrar na alma do autor e verter sua obra para o português respeitando as características de quem a escreveu. É um trabalho complexo e exigente, ainda mais quando se trata de traduzir poesia, tarefa que muitos consideram impossível mas que vem sendo realizada com frequência e sucesso.

Entre os tradutores brasileiros de destaque está William Agel de Mello, diplomata, escritor e linguista, autor de uma obra vasta e variada. Dentre sua produção, avulta a tradução da obra poética completa de Federico Garcia Lorca (1898/1936), trabalho arrojado e de fôlego, ocupando mais de mil páginas, e que vem sendo publicado pela Editora Martins Fontes e pela Universidade de Brasília (UnB), em sucessivas edições. Uma realização que exigiu intenso e dedicado trabalho por longos anos na difícil transposição da poesia do genial poeta espanhol para a nossa língua mantendo-se fiel ao original. A meticulosa tradução mereceu a acolhida dos leitores e foi saudada pela mais categorizada crítica. “A Obra Poética Completa de Garcia Lorca resultou de um trabalho de tradução muito mais pensado e demorado. O resultado, de alto nível, torna essa tradução indispensável aos que querem um contato mais íntimo com a obra do poeta”, afirmou o Jornal do Brasil (14/10/89) E o renomado crítico Antônio Olinto declarou: “É um dos melhores trabalhos de tradução já realizados no Brasil.” O Prof. Junito de Souza Brandão, por sua vez, escreveu: “Não menos importante é a contribuição de William Agel de Mello no âmbito da tradução. Traduziu – segundo os parâmetros da tradução a mais fiel possível – os grandes poetas do Ocidente, inclusive a obra poética completa de Federico Garcia Lorca”. A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil considerou altamente recomendável o livro “Santiago”, de Garcia Lorca, em tradução de William Agel de Mello.

Além de ficcionista, ensaísta e linguista, autor de inúmeros dicionários que compõem um conjunto único, William Agel de Mello se revela exímio conhecedor da arte e da técnica da tradução, tanto na prática como na teoria. No ensaio introdutório às Obras Completas de Garcia Lorca aborda e examina as teorias e correntes a respeito do tema e discute os detalhes do trabalho que realizou. Grande conhecedor da vida do poeta espanhol, inclusive da consagrada biografia de Ian Gibson, sempre melhorada e ampliada em novas edições, fornece elementos importantes para quem pretenda conhecer melhor e apreciar a obra de Lorca. Destaca que a característica da obra do poeta é a genialidade e que nenhum outro, exceto Cervantes, mereceu até hoje tão copiosa bibliografia. Como se sabe, Federico Garcia Lorca foi assassinado numa noite tétrica, vítima da intriga e da intolerância dos carniceiros que tomavam conta da Espanha nos albores da Guerra Civil. 

Escrito por Enéas Athanázio, 13/04/2020 às 12h08 | e.atha@terra.com.br

MAIS QUE UMA GUERRA

Torres Pereira, radicado em Chapecó, viveu uma experiência rara. Nascido em Lisboa, onde residia, foi convocado, ainda muito jovem, para integrar a força expedicionária enviada à África para combater os rebeldes na guerra de independência de Moçambique. Colônia portuguesa (eufemisticamente denominada de província ultramarina), aquele país foi tomado por uma onda nacionalista que desejava a todo custo se desligar de Portugal. O governo português, tendo à frente o ditador Salazar, se recusava a abrir mão da colônia, alegando que a Constituição do país declarava unos os territórios da metrópole e das colônias, ainda que descontínuos. O povo percebia que se tratava de uma guerra perdida e que sua continuação implicaria em constantes perdas de vidas de jovens soldados enviados para uma missão destinada ao fracasso. Mas havia censura e o ditador insistia em manter o conflito.

Agora, depois de tantos anos, Torres Pereira decidiu rebuscar nos escaninhos da memória e publicar o livro “Mais que uma guerra” (Edição do Autor – Chapecó – 2019), revivendo dias sofridos nas selvas africanas às voltas com toda espécie de perigos. Trata-se de um relato muito vivo e coloquial, repassado de sentimento, que prende o leitor até a última página. Por outro lado, revela um profundo conhecedor da história de Portugal e suas possessões ultramarinas que foram se emancipando aos poucos e de forma inevitável. Como ressalta ele, só em 1960, pelo menos quinze “novas nações” proclamaram sua independência: Somália, Camarões, Togo, Sudão, Congo, Nigéria, Senegal, Madagascar, Daomé, Chade, Gabão e Mauritânia. Com o slogan de “A África será livre e unida” solicitava-se que a ONU incluísse em sua Assembléia Geral a questão do ultramar português e a independência de Angola. A intransigência em manter os domínios esbarrava no sentimento independentista que varria o mundo.

Na pele do personagem Arriaga, o autor relata o que foi a experiência por ele vivida, desde a partida no navio “Vera Cruz”, o desembarque em Moçambique e a primeira jornada em direção ao acampamento quando já encontram a estrada bloqueada com troncos e são surpreendidos com uma saraivada de tiros que vêm da mataria fechada. São os guerrilheiros anunciando sua presença. Mas chegam ilesos ao acampamento, depois de uma vigorosa resposta a tiros de metralhadora, e vivem em constante suspense e sujeitos a ferozes ataques. Ali permanecem, realizando as mais perigosas missões, convivendo com os ataques de surpresa, as minas terrestres, os incêndios provocados e as emboscadas. É ferido numa dessas ações e recolhido ao hospital. Logo se recupera e volta às atividades.

Mas a guerra está perdida. Os revoltosos dominam o norte do país, enquanto a companhia de Arriaga é rendida por outra e ele e seus amigos Cosme e Arouca são dispensados. A história segue seu curso e Moçambique é entregue à FRELIMO cujo chefe, Samora Machel, implanta a República Popular de Moçambique. O prometido referendum entre a população local não é realizado. Um violento sentimento anti-português explode no país e tudo que tem relação com Portugal é repudiado. Até estátuas homenageando figuras históricas são apeadas. Legiões de pessoas, em longas caravanas, deixam o país. Lourenço Marques, a capital, passa a se chamar Maputo.

O saldo da guerra é macabro. Foram milhares de jovens que perderam a vida, sofreram ferimentos de todos os tipos e sofreram os horrores de uma luta sem trégua em plena selva. Sem falar nos gastos com material bélico que poderiam ter melhor destino em favor do povo. Tudo graças ao criador do chamado Estado novo cujas diretrizes foram estabelecidas na Constituição salazarista por ele inspirada.

Por fim, como explicar tanto ódio aos portugueses? Vamos dar a palavra ao autor: “O que muito nos admira, é de que maneira, por séculos, Portugal conseguiu passar por bom menino na Guiné, Angola e Moçambique, sabendo-se que a realidade era outra: a começar pelo abandono e exploração das populações locais, que pouco mudou desde a época dos descobrimentos” (p. 29). E mais: “Só que não soubemos tirar proveito duma situação que tinha tudo para dar certo. A de dialogar mais e cuidar melhor das populações sob nossa jurisdição. A de dar um basta ao trabalho escravo nas grandes fazendas e implodir, de uma vez por todas, com a figura sinistra do latifundiário, escravocrata, melhor dizendo. Ao invés disso, que fizemos? Preferimos não prestar a devida atenção a esses e outros problemas que se iam agigantando à medida que os anos passavam A acreditar que, o que, vínhamos fazendo há séculos de errado, era o certo” (pp. 40/41).

A história não perdoou.

É interessante indagar se o exemplo de Moçambique serviu de lição a outros governantes. Parece-me que não.

O livro de Torres Pereira é recheado de memórias do autor, travestido em Arriaga, desde a infância.
É uma leitura que vale a pena.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/04/2020 às 08h56 | e.atha@terra.com.br

LUNA E O BRASIL PROFUNDO

Luiz Luna foi um dos escritores mais interessantes que conheci e de cuja amizade pude privar. Estive com ele várias vezes, no Rio de Janeiro, e trocamos cartas durante longos anos. Pernambucano, foi Promotor Público no interior de seu Estado sem jamais abandonar o jornalismo a que se dedicou desde os 16 anos de idade. Trasnferiu-se para o Rio de Janeiro e trabalhou por muito tempo no jornal “Diário de Notícias”, pertencente à família Dantas, um dos periódicos mais influentes da época no país. A par do jornalismo militante, ele se dedicou com seriedade a vários tipos de pesquisa, visando sempre revelar o Brasil profundo, aquele pouco conhecido pelas pessoas em geral. Em três campos, pelo menos, Luna deu exemplar contribuição: o cangaço, o índio e o negro.

Na área do cangaço publicou o livro “Lampião e seus cabras” (Livros do Mundo Inteiro – Rio – 1972 – 2ª. edição), hoje considerado um clássico do assunto. É um trabalho minucioso e bem fundamentado, revelando aspectos em geral confusos e pouco esclarecidos em outras obras. Nomeia e numera, por exemplo, um por um, os componentes do grupo de Virgulino Ferreira da Silva em cada ação do bandoleiro. Em um levantamento biográfico detalhado, mostra as condições sociais que levavam os rapazes da época a abraçar o cangaço, quase sempre vítimas de graves injustiças, perseguições e humilhações por parte dos “coronéis” que dominavam o sertão. A ausência quase total do Estado não fornecia condições para o estudo e a realização da justiça. Outro ponto importante por ele estudado é uma comparação entre Antônio Silvino e Lampião, os cangaceiros mais famosos do período. Enquanto o primeiro era comedido e justiceiro, o segundo praticava um cangaço sem ética, matando, esfolando e perseguindo inocentes. Depois que Lampião foi derrotado na tentativa de invadir a cidade de Mossoró e teve que fugir com o rabo entre as pernas, vencido, sem munição e sem dinheiro, entregou-se a um rol de iniquidades sem precedentes, vingando-se nos outros de seu próprio fracasso. Comenta também as lendas que cercam a figura do cangaceiro Corisco e sua mulher, Dadá, colocando as coisas nos devidos lugares, e o caso da patente de capitão que foi concedida a Lampião pelo Padre Cícero Romão Batista, de Juazeiro do Norte, por inspiração do Dr. Floro Bartolomeu da Costa, braço direito do sacerdote. Além disso, Lampião recebeu muito armamento, munição em quantidade, dinheiro e roupas para combater a Coluna Prestes que assombrava os sertões. Mas não era ingênuo a ponto de enfrentar um batalhão de soldados profissionais, treinados e calejados no ofício. Jamais combateu a Coluna e usou o armamento para reforçar seu bando como nunca. Luna também relata o período em que Lampião, cercado por todos os lados pelas volantes, se interna no Raso da Catarina, onde a vida humana é quase impossível e sai de lá com o bando esfarrapado, faminto e sedento, praticando pequenos assaltos para se recuperar. Analisa ainda o talento inato de estrategista de Lampião, vencendo lutas desiguais, fugindo sem deixar rastro e despistando as forças legais em inúmeros encontros. Muitos outros aspectos são abordados nesse livro que é um manancial de ensinamentos. A Editora Livros do Mundo Inteiro também publicou obras dos catarinenses Ricardo Hoffmann e C. Ronald.

Em seu livro “A resistência do índio à dominação do Brasil” (Editora Fora do Texto – Coimbra – 1993) Luiz Luna revela com detalhes a luta dos índios brasileiros contra os colonizadores, a exemplo do célebre cacique Nheçu. Aborda um aspecto importante, em geral pouco mencionado: no momento histórico da chegada dos portugueses os índios brasileiros estavam deixando a fase coletora/caçadora para ingressar na fase agricultora, ou seja, estavam evoluindo de forma natural como os demais povos. A invasão branca impediu a evolução natural e desorganizou por completo a cultura indígena. Foi uma desculturação.

“O negro na luta contra a escravidão” (Livraria Editora Cátedra – Rio – 1976) examina em detalhe o que foi a luta surda e desigual dos negros contra a escravidão. Alinha cada um dos movimentos rebeldes e todas as barbaridades que se cometeram contra o elemento africano ao longo de trezentos anos. São atos de arrepiar os cabelos e que eram praticados com a maior naturalidade, inclusive por senhores e senhoras ilustres que viviam rezando e batendo contritos nos peitos. Muitas dessas cenas foram evocadas por Monteiro Lobato, neto de um senhor de escravos, em seu conto “Negrinha.” O livro de Luna é um brado pela justiça e uma pesada lição contra os preconceitos.

Escrito por Enéas Athanázio, 30/03/2020 às 11h28 | e.atha@terra.com.br

REPOSITÓRIO SOBRE STELLA

A incansável escritora goiana Alice Spindola publicou no ano passado o livro “Stella Leonardos, a Incomparável” (Editora Kelps – Goiânia – 2019). Contando com a colaboração da própria Stella na idealização da obra, a autora produziu um verdadeiro repositório sobre a escritora carioca que constitui, além disso, uma bela homenagem a quem tanto deu de si ao teatro e à literatura. Baseado em seguras fontes de pesquisa, fartamente fundamentado e contando com fiel acervo documental, o livro fornece uma visão segura da vida e da obra da escritora, enfatizando sua produção para o teatro, ao qual dedicou intenso trabalho, tendo inclusive atuado como atriz. Na apresentação, a autora recorda os encontros, as discussões e as visitas feitas por ambas quando idealizavam esta obra. Relata ainda o entusiasmo de outros intelectuais, inclusive estrangeiros, a exemplo de Jean-Paul Mestas que classificou Stella como “escritora planetária.”

Menina de inteligência aguçada, o amor de Stella pelo teatro despertou muito cedo. Estreou como autora e atriz ainda nos dias do jardim da infância. Essa paixão irá acompanhá-la por toda a longa vida e produzirá peças teatrais infantis e clássicas que encantarão as pessoas e contarão com o aplauso da melhor crítica. Seu teatro foi encenado em grandes palcos, exibido em circos e posto em cena ao ar livre, como informa a autora. Superou os limites do país e foi exibido no exterior, sempre com o mesmo sucesso. E também ganhou a perenidade do livro. Mereceu montagens em palcos famosos, como nos Teatros Municipais do Rio e de São Paulo. Em toda sua obra perpassa sempre a preocupação social.

Grandes nomes da literatura, do teatro e da crítica teatral se manifestaram sobre sua obra. Modesto de Abreu, Mario Hora, Afrânio Peixoto, João Luso, J. G. de Araújo Jorge, Paulo Filho, Abadie Faria Rosa, Lopes Gonçalves, Rafael Barbosa, Raul de Azevedo, Borja de Almeida e Paranhos Antunes foram alguns dos que opinaram sobre ela, alguns mais de uma vez, e todos escrevendo em grandes órgãos da imprensa da época. Ou seja, a obra de Stella obteve intensa repercussão.

A peça “Festa da Vitória” foi um capítulo à parte da obra de Stella. Como escreveu a autora do livro, “ainda não existiu uma peça, com tema pátrio, que tenha obtido tamanha exaltação... Ela inovava, homenageando as nações que haviam participado da guerra. É uma peça internacional.” A peça mereceu uma encenação magnífica e inesquecível, verdadeiro marco da arte teatral brasileira.

Para além da obra literária e teatral, Stella viveu com intensidade a vida de escritora. Pertenceu à Academia Carioca de Letras e foi secretária da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro (UBE/RJ). Foi permanente agitadora cultural e manteve intercâmbio com escritores de todo o país e do exterior. Com sua inconfundível caligrafia, não deixava bilhete sem resposta. Tive o prazer de trocar cartas com ela e a conheci em pessoa em solenidades da UBE/RJ.

O livro de Alice contém muito mais que estas rápidas pinceladas. Reproduz manuscritos de Stella, muitas fotos, documentos, reproduções de capas de suas obras, poemas, trechos de outros escritos e inúmeros e variados elementos para bem conhecer a escritora e sua obra. Em algumas fotos ela aparece tão nítida e fiel tal como a conheci.

A obra de Alice é ressuscitadora e justiceira, merecedora de muitos aplausos.

Escrito por Enéas Athanázio, 24/03/2020 às 15h52 | e.atha@terra.com.br

UMA PUBLICAÇÃO MODELAR

Tenho em mãos o número XXIII da Revista da Academia Brasileira de Filologia. Com sede no Rio de Janeiro, a entidade tem como presidente Amós Coelho da Silva, como vice-presidente Deonísio da Silva e como diretor da publicação Antônio Martins de Araújo. Todos seus integrantes são linguistas de destaque, como tais reconhecidos pela melhor crítica especializada. Os temas veiculados na revista são de elevado rigor técnico e científico.

Este número se abre com um amplo e profundo ensaio de autoria do Prof. Adovaldo Fernandes Sampaio, autor de obras monumentais nas áreas da linguística, da escrita e sua história. Aborda dicionários curiosos publicados em Goiás e depois se debruça sobre a volumosa e rica obra de Willim Agel de Mello, diplomata, escritor e linguista, autor de um conjunto de dicionários sem similar em todo o mundo. Graças ao seu imenso trabalho, diz o ensaísta, William Agel de Mello “tornou agora as línguas românicas ainda mais próximas e tangíveis e os povos que as falam ainda mais irmãos e amigos.”

Deonísio da Silva contribui com dois interessantes artigos, um sobre Cruz e Sousa e outro sobre John dos Passos. Aplaude a atitude do escritor norte-americano ao não se submeter às exigências sectárias do chamado realismo socialista e se manter independente, atitude que também inspirou seus seguidores brasileiros. Dos Passos participou da Guerra Civil Espanhola, como outros de seus compatriotas, operando como motorista de ambulâncias no fronte de combate. Hemingway dá a entender que a presença dele na Espanha foi muito curta e que estava mais interessado na tradução de suas obras para o espanhol que em assuntos bélicos. A guinada do escritor para a direita, depois de ter apoiado os republicanos, gerou a acusação de traidor, aliando-se ao abominável franquismo que toda a intelectualidade combatia e contribuindo para a sua vitória. O tradutor da obra dele para o espanhol foi assassinado e, ao que parece, em circunstâncias nunca bem esclarecidas. O ensaísta fornece alguns dados pouco conhecidos e curiosos sobre Dos Passos.

Já Francisco da Cunha e Silva Filho presta uma homenagem ao mestre Júlio de Matos Ibiapina. Faz um relato sobre a vida, a obra e as atividades desse professor que foi também jornalista, deputado, major do exército e grande viajante. Figura admirável de estudioso, poliglota e cronista aguerrido. É um ensaio ressuscitador e justiceiro.

Outros trabalhos de valor enriquecem a revista. Afrânio da Silva Garcia e Ida Alves abordam diferentes facetas do Modernismo em longos e substanciosos ensaios. Autores de reconhecida competência publicam ensaios abordando variados temas da linguística e da literatura. O volume se fecha com entrevista, resenhas, memória e noticiário. Trata-se, pois, de uma publicação modelar, a única no gênero que conheço, merecedora da melhor atenção dos amigos do saber.

Escrito por Enéas Athanázio, 16/03/2020 às 11h19 | e.atha@terra.com.br

VIAJANDO COM HEMINGWAY

Ao final da leitura vagarosa e atenta do terceiro volume dos “Contos de Hemingway” (Bertrand Brasil – Rio – 1999), deparei com “Um país estranho”, dos mais longos e pouco conhecidos contos do escritor norte-americano. Segundo a editora, o conto seria a primeira versão de quatro capítulos do futuro romance “As ilhas da corrente”, abandonada pelo escritor pelo fato de ter o referido romance tomado novo rumo. Isso, no entanto, em nada prejudicou a inteireza do conto, que se transformou numa peça independente, de leitura rica e surpreendente, na qual o autor revela mis uma vez toda sua técnica, inclusive no incomparável uso do diálogo.

Trata-se de um conto de movimento, em primeira pessoa, em que o leitor acompanha o personagem-narrador e sua companheira numa longa viagem num Buick conversível de segunda mão. Percebe-se que ele é um homem maduro e vivido, enquanto ela é mais jovem e no esplendor da beleza, ainda que isso não seja formulado de forma expressa. A narrativa evolui entre longos trechos de estrada, observando a natureza circundante, a flora e a fauna, as pessoas avistadas e as cidades que cruzam. Há os pernoites em hotéis e as refeições nos restaurantes, tudo realizado com muita calma e tranquilidade. E muitos diálogos nos quais comentam os pequenos incidentes da prolongada travessia e o relacionamento amoroso que os une.

Num repente, porém, o conto muda do tom descompromissado dos viajantes para o campo memorialista do próprio autor, isto é, de Ernest Hemingway, que coloca suas lembranças na boca do personagem masculino e começa a relatar um fato verídico e conhecido de sua vida. Encontrava-se ele em Lausanne, cobrindo como repórter uma conferência internacional, quando pediu à esposa que fosse encontrá-lo para alguns dias de férias juntos, após o compromisso. Com a intenção de lhe fazer uma surpresa, ela colocou numa valise as pastas com os originais dos escritos dele e também, por engano, aquelas que continham as cópias. Com o material em mãos, ele poderia trabalhar durante aqueles dias de férias. Ela se preparava para tomar o trem expresso na estação de Lyon, deixando a bagagem, incluindo a valise, no compartimento próprio enquanto foi comprar jornais e uma garrafa de água expostos numa mesinha próxima. E ao voltar, a surpresa e a tragédia: a valise com todos os originais havia desaparecido! Desesperada, ela fez tudo que podia: deu queixa à polícia, procurou, indagou, investigou e... nada! A valise sumiu sem deixar vestígios. (Muitos anos depois, no Ritz Hotel, em Paris, o gerente comunicou a Hemingway que havia no depósito um volume à espera dele há muito tempo. Mas não era a valise encantada).

Não havendo outro recurso, ela viajou ao encontro do marido. Chorou e chorou, sem coragem de relatar o ocorrido, mas acabou confessando. Hemingway levou tal choque que esteve à beira da loucura. Todo o paciente e extenuante esforço de anos e anos de trabalho havia se evaporado. Sua esposa diria, mais tarde, que lamentou não existir alguma espécie de cirurgia para fazê-lo esquecer do que acontecera. “Fiquei ali, sem me mexer, - escreveu ele – com os travesseiros por amigos, em estado de desespero. Tudo o que eu tinha escrito até então, e tudo em que eu tinha grande confiança, estava perdido. Eu tinha reescrito aquilo tantas vezes até chegar aonde eu queria, e sabia que não podia escrevê-los de novo...” (p. 412). Em outra passagem, diz o seguinte: “Pus tudo neles (nos escritos perdidos), pus toda a informação que podia incluir. Escrevi-os várias vezes até me sentir inteiro neles e vazio dentro de mim. Por ter trabalhado em jornal desde muito jovem me habituei a esquecer tudo depois de escrever: todos os dias limpa-se da memória o que se escreveu como se limpa um quadro-negro com esponja ou um pano úmido. Eu ainda tinha esse mau hábito, e agora ele se voltava contra mim” (p. 415).

E por fim:

“Esse vácuo, essa sensação de perda, é ruim. Mas não mata. Já o desespero mata, e em pouco tempo.” (Idem). 

Escrito por Enéas Athanázio, 09/03/2020 às 11h10 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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A OBRA POÉTICA DE GARCIA LORCA

Durante longo tempo a tradução foi considerada um trabalho intelectual inferior. Os livros antigos nem sequer mencionavam o nome dos tradutores, permanecendo no anonimato os que se dedicavam ao exigente esforço de transpor para o português as obras estrangeiras. Monteiro Lobato operou verdadeira revolução no setor. Não apenas assumiu a condição de tradutor, tendo vertido mais de uma centena de obras, como revelou conhecer a fundo a arte e a técnica do difícil métier e escreveu substanciosos artigos a respeito, hoje recolhidos às suas Obras Completas. Traduziu também a quatro mãos, em parceria com Godofredo Rangel e com a sobrinha e nora Gulnara. Sempre que se dava mal nos seus incontáveis negócios, entregava-se à tradução e com ela se reerguia. Entre o seu imenso legado cultural estão as traduções de mais de uma centena de livros dos mais variados gêneros e autores que colocou ao alcance do leitor brasileiro.

Diversos tradutores de renome e prestígio se declararam discípulos do taubateano na arte da tradução. Hoje ela conquistou o status de gênero importante e intelectuais de nível a ela se dedicam com afinco. Como ensinava Lobato, traduzir não é realizar simples transliteração, mas penetrar na alma do autor e verter sua obra para o português respeitando as características de quem a escreveu. É um trabalho complexo e exigente, ainda mais quando se trata de traduzir poesia, tarefa que muitos consideram impossível mas que vem sendo realizada com frequência e sucesso.

Entre os tradutores brasileiros de destaque está William Agel de Mello, diplomata, escritor e linguista, autor de uma obra vasta e variada. Dentre sua produção, avulta a tradução da obra poética completa de Federico Garcia Lorca (1898/1936), trabalho arrojado e de fôlego, ocupando mais de mil páginas, e que vem sendo publicado pela Editora Martins Fontes e pela Universidade de Brasília (UnB), em sucessivas edições. Uma realização que exigiu intenso e dedicado trabalho por longos anos na difícil transposição da poesia do genial poeta espanhol para a nossa língua mantendo-se fiel ao original. A meticulosa tradução mereceu a acolhida dos leitores e foi saudada pela mais categorizada crítica. “A Obra Poética Completa de Garcia Lorca resultou de um trabalho de tradução muito mais pensado e demorado. O resultado, de alto nível, torna essa tradução indispensável aos que querem um contato mais íntimo com a obra do poeta”, afirmou o Jornal do Brasil (14/10/89) E o renomado crítico Antônio Olinto declarou: “É um dos melhores trabalhos de tradução já realizados no Brasil.” O Prof. Junito de Souza Brandão, por sua vez, escreveu: “Não menos importante é a contribuição de William Agel de Mello no âmbito da tradução. Traduziu – segundo os parâmetros da tradução a mais fiel possível – os grandes poetas do Ocidente, inclusive a obra poética completa de Federico Garcia Lorca”. A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil considerou altamente recomendável o livro “Santiago”, de Garcia Lorca, em tradução de William Agel de Mello.

Além de ficcionista, ensaísta e linguista, autor de inúmeros dicionários que compõem um conjunto único, William Agel de Mello se revela exímio conhecedor da arte e da técnica da tradução, tanto na prática como na teoria. No ensaio introdutório às Obras Completas de Garcia Lorca aborda e examina as teorias e correntes a respeito do tema e discute os detalhes do trabalho que realizou. Grande conhecedor da vida do poeta espanhol, inclusive da consagrada biografia de Ian Gibson, sempre melhorada e ampliada em novas edições, fornece elementos importantes para quem pretenda conhecer melhor e apreciar a obra de Lorca. Destaca que a característica da obra do poeta é a genialidade e que nenhum outro, exceto Cervantes, mereceu até hoje tão copiosa bibliografia. Como se sabe, Federico Garcia Lorca foi assassinado numa noite tétrica, vítima da intriga e da intolerância dos carniceiros que tomavam conta da Espanha nos albores da Guerra Civil. 

Escrito por Enéas Athanázio, 13/04/2020 às 12h08 | e.atha@terra.com.br

MAIS QUE UMA GUERRA

Torres Pereira, radicado em Chapecó, viveu uma experiência rara. Nascido em Lisboa, onde residia, foi convocado, ainda muito jovem, para integrar a força expedicionária enviada à África para combater os rebeldes na guerra de independência de Moçambique. Colônia portuguesa (eufemisticamente denominada de província ultramarina), aquele país foi tomado por uma onda nacionalista que desejava a todo custo se desligar de Portugal. O governo português, tendo à frente o ditador Salazar, se recusava a abrir mão da colônia, alegando que a Constituição do país declarava unos os territórios da metrópole e das colônias, ainda que descontínuos. O povo percebia que se tratava de uma guerra perdida e que sua continuação implicaria em constantes perdas de vidas de jovens soldados enviados para uma missão destinada ao fracasso. Mas havia censura e o ditador insistia em manter o conflito.

Agora, depois de tantos anos, Torres Pereira decidiu rebuscar nos escaninhos da memória e publicar o livro “Mais que uma guerra” (Edição do Autor – Chapecó – 2019), revivendo dias sofridos nas selvas africanas às voltas com toda espécie de perigos. Trata-se de um relato muito vivo e coloquial, repassado de sentimento, que prende o leitor até a última página. Por outro lado, revela um profundo conhecedor da história de Portugal e suas possessões ultramarinas que foram se emancipando aos poucos e de forma inevitável. Como ressalta ele, só em 1960, pelo menos quinze “novas nações” proclamaram sua independência: Somália, Camarões, Togo, Sudão, Congo, Nigéria, Senegal, Madagascar, Daomé, Chade, Gabão e Mauritânia. Com o slogan de “A África será livre e unida” solicitava-se que a ONU incluísse em sua Assembléia Geral a questão do ultramar português e a independência de Angola. A intransigência em manter os domínios esbarrava no sentimento independentista que varria o mundo.

Na pele do personagem Arriaga, o autor relata o que foi a experiência por ele vivida, desde a partida no navio “Vera Cruz”, o desembarque em Moçambique e a primeira jornada em direção ao acampamento quando já encontram a estrada bloqueada com troncos e são surpreendidos com uma saraivada de tiros que vêm da mataria fechada. São os guerrilheiros anunciando sua presença. Mas chegam ilesos ao acampamento, depois de uma vigorosa resposta a tiros de metralhadora, e vivem em constante suspense e sujeitos a ferozes ataques. Ali permanecem, realizando as mais perigosas missões, convivendo com os ataques de surpresa, as minas terrestres, os incêndios provocados e as emboscadas. É ferido numa dessas ações e recolhido ao hospital. Logo se recupera e volta às atividades.

Mas a guerra está perdida. Os revoltosos dominam o norte do país, enquanto a companhia de Arriaga é rendida por outra e ele e seus amigos Cosme e Arouca são dispensados. A história segue seu curso e Moçambique é entregue à FRELIMO cujo chefe, Samora Machel, implanta a República Popular de Moçambique. O prometido referendum entre a população local não é realizado. Um violento sentimento anti-português explode no país e tudo que tem relação com Portugal é repudiado. Até estátuas homenageando figuras históricas são apeadas. Legiões de pessoas, em longas caravanas, deixam o país. Lourenço Marques, a capital, passa a se chamar Maputo.

O saldo da guerra é macabro. Foram milhares de jovens que perderam a vida, sofreram ferimentos de todos os tipos e sofreram os horrores de uma luta sem trégua em plena selva. Sem falar nos gastos com material bélico que poderiam ter melhor destino em favor do povo. Tudo graças ao criador do chamado Estado novo cujas diretrizes foram estabelecidas na Constituição salazarista por ele inspirada.

Por fim, como explicar tanto ódio aos portugueses? Vamos dar a palavra ao autor: “O que muito nos admira, é de que maneira, por séculos, Portugal conseguiu passar por bom menino na Guiné, Angola e Moçambique, sabendo-se que a realidade era outra: a começar pelo abandono e exploração das populações locais, que pouco mudou desde a época dos descobrimentos” (p. 29). E mais: “Só que não soubemos tirar proveito duma situação que tinha tudo para dar certo. A de dialogar mais e cuidar melhor das populações sob nossa jurisdição. A de dar um basta ao trabalho escravo nas grandes fazendas e implodir, de uma vez por todas, com a figura sinistra do latifundiário, escravocrata, melhor dizendo. Ao invés disso, que fizemos? Preferimos não prestar a devida atenção a esses e outros problemas que se iam agigantando à medida que os anos passavam A acreditar que, o que, vínhamos fazendo há séculos de errado, era o certo” (pp. 40/41).

A história não perdoou.

É interessante indagar se o exemplo de Moçambique serviu de lição a outros governantes. Parece-me que não.

O livro de Torres Pereira é recheado de memórias do autor, travestido em Arriaga, desde a infância.
É uma leitura que vale a pena.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/04/2020 às 08h56 | e.atha@terra.com.br

LUNA E O BRASIL PROFUNDO

Luiz Luna foi um dos escritores mais interessantes que conheci e de cuja amizade pude privar. Estive com ele várias vezes, no Rio de Janeiro, e trocamos cartas durante longos anos. Pernambucano, foi Promotor Público no interior de seu Estado sem jamais abandonar o jornalismo a que se dedicou desde os 16 anos de idade. Trasnferiu-se para o Rio de Janeiro e trabalhou por muito tempo no jornal “Diário de Notícias”, pertencente à família Dantas, um dos periódicos mais influentes da época no país. A par do jornalismo militante, ele se dedicou com seriedade a vários tipos de pesquisa, visando sempre revelar o Brasil profundo, aquele pouco conhecido pelas pessoas em geral. Em três campos, pelo menos, Luna deu exemplar contribuição: o cangaço, o índio e o negro.

Na área do cangaço publicou o livro “Lampião e seus cabras” (Livros do Mundo Inteiro – Rio – 1972 – 2ª. edição), hoje considerado um clássico do assunto. É um trabalho minucioso e bem fundamentado, revelando aspectos em geral confusos e pouco esclarecidos em outras obras. Nomeia e numera, por exemplo, um por um, os componentes do grupo de Virgulino Ferreira da Silva em cada ação do bandoleiro. Em um levantamento biográfico detalhado, mostra as condições sociais que levavam os rapazes da época a abraçar o cangaço, quase sempre vítimas de graves injustiças, perseguições e humilhações por parte dos “coronéis” que dominavam o sertão. A ausência quase total do Estado não fornecia condições para o estudo e a realização da justiça. Outro ponto importante por ele estudado é uma comparação entre Antônio Silvino e Lampião, os cangaceiros mais famosos do período. Enquanto o primeiro era comedido e justiceiro, o segundo praticava um cangaço sem ética, matando, esfolando e perseguindo inocentes. Depois que Lampião foi derrotado na tentativa de invadir a cidade de Mossoró e teve que fugir com o rabo entre as pernas, vencido, sem munição e sem dinheiro, entregou-se a um rol de iniquidades sem precedentes, vingando-se nos outros de seu próprio fracasso. Comenta também as lendas que cercam a figura do cangaceiro Corisco e sua mulher, Dadá, colocando as coisas nos devidos lugares, e o caso da patente de capitão que foi concedida a Lampião pelo Padre Cícero Romão Batista, de Juazeiro do Norte, por inspiração do Dr. Floro Bartolomeu da Costa, braço direito do sacerdote. Além disso, Lampião recebeu muito armamento, munição em quantidade, dinheiro e roupas para combater a Coluna Prestes que assombrava os sertões. Mas não era ingênuo a ponto de enfrentar um batalhão de soldados profissionais, treinados e calejados no ofício. Jamais combateu a Coluna e usou o armamento para reforçar seu bando como nunca. Luna também relata o período em que Lampião, cercado por todos os lados pelas volantes, se interna no Raso da Catarina, onde a vida humana é quase impossível e sai de lá com o bando esfarrapado, faminto e sedento, praticando pequenos assaltos para se recuperar. Analisa ainda o talento inato de estrategista de Lampião, vencendo lutas desiguais, fugindo sem deixar rastro e despistando as forças legais em inúmeros encontros. Muitos outros aspectos são abordados nesse livro que é um manancial de ensinamentos. A Editora Livros do Mundo Inteiro também publicou obras dos catarinenses Ricardo Hoffmann e C. Ronald.

Em seu livro “A resistência do índio à dominação do Brasil” (Editora Fora do Texto – Coimbra – 1993) Luiz Luna revela com detalhes a luta dos índios brasileiros contra os colonizadores, a exemplo do célebre cacique Nheçu. Aborda um aspecto importante, em geral pouco mencionado: no momento histórico da chegada dos portugueses os índios brasileiros estavam deixando a fase coletora/caçadora para ingressar na fase agricultora, ou seja, estavam evoluindo de forma natural como os demais povos. A invasão branca impediu a evolução natural e desorganizou por completo a cultura indígena. Foi uma desculturação.

“O negro na luta contra a escravidão” (Livraria Editora Cátedra – Rio – 1976) examina em detalhe o que foi a luta surda e desigual dos negros contra a escravidão. Alinha cada um dos movimentos rebeldes e todas as barbaridades que se cometeram contra o elemento africano ao longo de trezentos anos. São atos de arrepiar os cabelos e que eram praticados com a maior naturalidade, inclusive por senhores e senhoras ilustres que viviam rezando e batendo contritos nos peitos. Muitas dessas cenas foram evocadas por Monteiro Lobato, neto de um senhor de escravos, em seu conto “Negrinha.” O livro de Luna é um brado pela justiça e uma pesada lição contra os preconceitos.

Escrito por Enéas Athanázio, 30/03/2020 às 11h28 | e.atha@terra.com.br

REPOSITÓRIO SOBRE STELLA

A incansável escritora goiana Alice Spindola publicou no ano passado o livro “Stella Leonardos, a Incomparável” (Editora Kelps – Goiânia – 2019). Contando com a colaboração da própria Stella na idealização da obra, a autora produziu um verdadeiro repositório sobre a escritora carioca que constitui, além disso, uma bela homenagem a quem tanto deu de si ao teatro e à literatura. Baseado em seguras fontes de pesquisa, fartamente fundamentado e contando com fiel acervo documental, o livro fornece uma visão segura da vida e da obra da escritora, enfatizando sua produção para o teatro, ao qual dedicou intenso trabalho, tendo inclusive atuado como atriz. Na apresentação, a autora recorda os encontros, as discussões e as visitas feitas por ambas quando idealizavam esta obra. Relata ainda o entusiasmo de outros intelectuais, inclusive estrangeiros, a exemplo de Jean-Paul Mestas que classificou Stella como “escritora planetária.”

Menina de inteligência aguçada, o amor de Stella pelo teatro despertou muito cedo. Estreou como autora e atriz ainda nos dias do jardim da infância. Essa paixão irá acompanhá-la por toda a longa vida e produzirá peças teatrais infantis e clássicas que encantarão as pessoas e contarão com o aplauso da melhor crítica. Seu teatro foi encenado em grandes palcos, exibido em circos e posto em cena ao ar livre, como informa a autora. Superou os limites do país e foi exibido no exterior, sempre com o mesmo sucesso. E também ganhou a perenidade do livro. Mereceu montagens em palcos famosos, como nos Teatros Municipais do Rio e de São Paulo. Em toda sua obra perpassa sempre a preocupação social.

Grandes nomes da literatura, do teatro e da crítica teatral se manifestaram sobre sua obra. Modesto de Abreu, Mario Hora, Afrânio Peixoto, João Luso, J. G. de Araújo Jorge, Paulo Filho, Abadie Faria Rosa, Lopes Gonçalves, Rafael Barbosa, Raul de Azevedo, Borja de Almeida e Paranhos Antunes foram alguns dos que opinaram sobre ela, alguns mais de uma vez, e todos escrevendo em grandes órgãos da imprensa da época. Ou seja, a obra de Stella obteve intensa repercussão.

A peça “Festa da Vitória” foi um capítulo à parte da obra de Stella. Como escreveu a autora do livro, “ainda não existiu uma peça, com tema pátrio, que tenha obtido tamanha exaltação... Ela inovava, homenageando as nações que haviam participado da guerra. É uma peça internacional.” A peça mereceu uma encenação magnífica e inesquecível, verdadeiro marco da arte teatral brasileira.

Para além da obra literária e teatral, Stella viveu com intensidade a vida de escritora. Pertenceu à Academia Carioca de Letras e foi secretária da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro (UBE/RJ). Foi permanente agitadora cultural e manteve intercâmbio com escritores de todo o país e do exterior. Com sua inconfundível caligrafia, não deixava bilhete sem resposta. Tive o prazer de trocar cartas com ela e a conheci em pessoa em solenidades da UBE/RJ.

O livro de Alice contém muito mais que estas rápidas pinceladas. Reproduz manuscritos de Stella, muitas fotos, documentos, reproduções de capas de suas obras, poemas, trechos de outros escritos e inúmeros e variados elementos para bem conhecer a escritora e sua obra. Em algumas fotos ela aparece tão nítida e fiel tal como a conheci.

A obra de Alice é ressuscitadora e justiceira, merecedora de muitos aplausos.

Escrito por Enéas Athanázio, 24/03/2020 às 15h52 | e.atha@terra.com.br

UMA PUBLICAÇÃO MODELAR

Tenho em mãos o número XXIII da Revista da Academia Brasileira de Filologia. Com sede no Rio de Janeiro, a entidade tem como presidente Amós Coelho da Silva, como vice-presidente Deonísio da Silva e como diretor da publicação Antônio Martins de Araújo. Todos seus integrantes são linguistas de destaque, como tais reconhecidos pela melhor crítica especializada. Os temas veiculados na revista são de elevado rigor técnico e científico.

Este número se abre com um amplo e profundo ensaio de autoria do Prof. Adovaldo Fernandes Sampaio, autor de obras monumentais nas áreas da linguística, da escrita e sua história. Aborda dicionários curiosos publicados em Goiás e depois se debruça sobre a volumosa e rica obra de Willim Agel de Mello, diplomata, escritor e linguista, autor de um conjunto de dicionários sem similar em todo o mundo. Graças ao seu imenso trabalho, diz o ensaísta, William Agel de Mello “tornou agora as línguas românicas ainda mais próximas e tangíveis e os povos que as falam ainda mais irmãos e amigos.”

Deonísio da Silva contribui com dois interessantes artigos, um sobre Cruz e Sousa e outro sobre John dos Passos. Aplaude a atitude do escritor norte-americano ao não se submeter às exigências sectárias do chamado realismo socialista e se manter independente, atitude que também inspirou seus seguidores brasileiros. Dos Passos participou da Guerra Civil Espanhola, como outros de seus compatriotas, operando como motorista de ambulâncias no fronte de combate. Hemingway dá a entender que a presença dele na Espanha foi muito curta e que estava mais interessado na tradução de suas obras para o espanhol que em assuntos bélicos. A guinada do escritor para a direita, depois de ter apoiado os republicanos, gerou a acusação de traidor, aliando-se ao abominável franquismo que toda a intelectualidade combatia e contribuindo para a sua vitória. O tradutor da obra dele para o espanhol foi assassinado e, ao que parece, em circunstâncias nunca bem esclarecidas. O ensaísta fornece alguns dados pouco conhecidos e curiosos sobre Dos Passos.

Já Francisco da Cunha e Silva Filho presta uma homenagem ao mestre Júlio de Matos Ibiapina. Faz um relato sobre a vida, a obra e as atividades desse professor que foi também jornalista, deputado, major do exército e grande viajante. Figura admirável de estudioso, poliglota e cronista aguerrido. É um ensaio ressuscitador e justiceiro.

Outros trabalhos de valor enriquecem a revista. Afrânio da Silva Garcia e Ida Alves abordam diferentes facetas do Modernismo em longos e substanciosos ensaios. Autores de reconhecida competência publicam ensaios abordando variados temas da linguística e da literatura. O volume se fecha com entrevista, resenhas, memória e noticiário. Trata-se, pois, de uma publicação modelar, a única no gênero que conheço, merecedora da melhor atenção dos amigos do saber.

Escrito por Enéas Athanázio, 16/03/2020 às 11h19 | e.atha@terra.com.br

VIAJANDO COM HEMINGWAY

Ao final da leitura vagarosa e atenta do terceiro volume dos “Contos de Hemingway” (Bertrand Brasil – Rio – 1999), deparei com “Um país estranho”, dos mais longos e pouco conhecidos contos do escritor norte-americano. Segundo a editora, o conto seria a primeira versão de quatro capítulos do futuro romance “As ilhas da corrente”, abandonada pelo escritor pelo fato de ter o referido romance tomado novo rumo. Isso, no entanto, em nada prejudicou a inteireza do conto, que se transformou numa peça independente, de leitura rica e surpreendente, na qual o autor revela mis uma vez toda sua técnica, inclusive no incomparável uso do diálogo.

Trata-se de um conto de movimento, em primeira pessoa, em que o leitor acompanha o personagem-narrador e sua companheira numa longa viagem num Buick conversível de segunda mão. Percebe-se que ele é um homem maduro e vivido, enquanto ela é mais jovem e no esplendor da beleza, ainda que isso não seja formulado de forma expressa. A narrativa evolui entre longos trechos de estrada, observando a natureza circundante, a flora e a fauna, as pessoas avistadas e as cidades que cruzam. Há os pernoites em hotéis e as refeições nos restaurantes, tudo realizado com muita calma e tranquilidade. E muitos diálogos nos quais comentam os pequenos incidentes da prolongada travessia e o relacionamento amoroso que os une.

Num repente, porém, o conto muda do tom descompromissado dos viajantes para o campo memorialista do próprio autor, isto é, de Ernest Hemingway, que coloca suas lembranças na boca do personagem masculino e começa a relatar um fato verídico e conhecido de sua vida. Encontrava-se ele em Lausanne, cobrindo como repórter uma conferência internacional, quando pediu à esposa que fosse encontrá-lo para alguns dias de férias juntos, após o compromisso. Com a intenção de lhe fazer uma surpresa, ela colocou numa valise as pastas com os originais dos escritos dele e também, por engano, aquelas que continham as cópias. Com o material em mãos, ele poderia trabalhar durante aqueles dias de férias. Ela se preparava para tomar o trem expresso na estação de Lyon, deixando a bagagem, incluindo a valise, no compartimento próprio enquanto foi comprar jornais e uma garrafa de água expostos numa mesinha próxima. E ao voltar, a surpresa e a tragédia: a valise com todos os originais havia desaparecido! Desesperada, ela fez tudo que podia: deu queixa à polícia, procurou, indagou, investigou e... nada! A valise sumiu sem deixar vestígios. (Muitos anos depois, no Ritz Hotel, em Paris, o gerente comunicou a Hemingway que havia no depósito um volume à espera dele há muito tempo. Mas não era a valise encantada).

Não havendo outro recurso, ela viajou ao encontro do marido. Chorou e chorou, sem coragem de relatar o ocorrido, mas acabou confessando. Hemingway levou tal choque que esteve à beira da loucura. Todo o paciente e extenuante esforço de anos e anos de trabalho havia se evaporado. Sua esposa diria, mais tarde, que lamentou não existir alguma espécie de cirurgia para fazê-lo esquecer do que acontecera. “Fiquei ali, sem me mexer, - escreveu ele – com os travesseiros por amigos, em estado de desespero. Tudo o que eu tinha escrito até então, e tudo em que eu tinha grande confiança, estava perdido. Eu tinha reescrito aquilo tantas vezes até chegar aonde eu queria, e sabia que não podia escrevê-los de novo...” (p. 412). Em outra passagem, diz o seguinte: “Pus tudo neles (nos escritos perdidos), pus toda a informação que podia incluir. Escrevi-os várias vezes até me sentir inteiro neles e vazio dentro de mim. Por ter trabalhado em jornal desde muito jovem me habituei a esquecer tudo depois de escrever: todos os dias limpa-se da memória o que se escreveu como se limpa um quadro-negro com esponja ou um pano úmido. Eu ainda tinha esse mau hábito, e agora ele se voltava contra mim” (p. 415).

E por fim:

“Esse vácuo, essa sensação de perda, é ruim. Mas não mata. Já o desespero mata, e em pouco tempo.” (Idem). 

Escrito por Enéas Athanázio, 09/03/2020 às 11h10 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.