Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Hemingway, o repórter (2)

Comentei, em crônica anterior, o primeiro volume deste belo e raro livro de autoria do escritor americano Ernest Hemingway (1899/1961) que se intitula “Ernest Hemingway Repórter”, dividido em dois volumes, “Tempo de Viver” e “Tempo de Morrer”, publicados pela Editora Civilização Brasileira, em tradução de Álvaro Cabral (Rio – 1962). Os dois volumes reúnem uma criteriosa seleção das reportagens e despachos produzidos pelo escritor como correspondente de grandes órgãos da imprensa enviado para cobrir importantes acontecimentos em variados pontos do globo. Enquanto o primeiro volume contém trabalhos ainda anteriores à II Guerra Mundial, embora já se pudesse sentir a sua aproximação, o segundo reúne textos escritos no teatro de guerra, no fragor das batalhas, em tempos sombrios de horror e morte. Corajoso como foi, Hemingway não se contentava em observar à distância, mas procurava ingressar no próprio palco da ação “para ver as coisas por dentro.” Durante a Guerra Civil Espanhola, por exemplo, hospedava-se no célebre Hotel Flórida e num de seus quartos batucava reportagens enquanto bombas explodiam na rua fronteira e algumas delas sacudiam o prédio com a explosão e até o atingiam. Mas nada o detinha e isso lhe proporcionou uma participação privilegiada nos acontecimentos, razão pela qual afirmou a crítica que este livro é a “presença viva de Hemingway.” Foi nessa situação, a dois quarteirões do fronte, que escreveu sua única peça teatral: “A Quinta Coluna.”

“Tempo de Morrer” se abre com reportagens sobre a Guerra Civil Espanhola (1937/1939), conflito que ele acompanhou com grande atenção, percorrendo os locais de combates, mantendo contato com os comandantes, perambulando por toda parte e se mantendo informado sobre tudo que acontecia. Percebeu muito cedo os primeiros lampejos da guerra, presenciou o bombardeio de Madri, fez curiosas observações a respeito da nova espécie de guerra que ali se travava, viveu momentos em que “a morte passou de raspão”, testemunhou a debandada final dos refugiados em desespero e percebeu com antecipação que aquela guerra, no fundo, constituía um treino, uma experiência, um aperitivo para a grande carnificina que viria em 1939. Era o confronto pioneiro entre os dois lados que se enfrentariam logo mais, em futuro próximo. E, como poucos, no próprio cenário das hostilidades, entre mortos e feridos, destruição e violência, barbárie, valentia, heroísmo e lágrimas, viveu cada momento do conflito que ensanguentava a Espanha, país que mais amava.

Seguem-se despachos sobre outras guerras para onde era sempre mandado. Andou pela China durante a guerra desse país contra o Japão e, mesmo em meio ao terror das batalhas, não perdia o humor. Em certo trecho, relata que experimentou vinho de cobra, feito de arroz e com pequenas cobras enrodilhadas no fundo da garrafa. Dizia que curava a queda dos cabelos e levou alguns litros para os amigos. Previu com grande antecedência a derrota chinesa e as barbaridades que se sucederiam. Depois, durante a II Guerra Mundial, embora fosse proibido, comandou um grupo de guerrilheiros franceses que o tratavam como capitão. Por esse motivo teve sérios problemas. Mas entrou em Paris, no momento da libertação, marchando garboso à frente de seus guerrilheiros maltrapilhos, sujos, famintos, cansados e junto às tropas regulares. Participou do desembarque na Normandia, no Dia D, tudo acompanhando de perto. Não se contentava em ser mero expectador; queria a todo custo participar. A reportagem “Como chegamos a Paris” é um relato comovente e único sobre a retomada da cidade. No final, o machão valente tem que confessar: “Nada mais pude dizer então pois senti uma estranha sufocação na garganta e tive de limpar meus óculos porque, diante de nós, pardacenta e sempre bela, estendia-se agora a cidade que eu mais amo em todo o mundo.” Compungido, o valentão tem que confessar que chorou. Mas, como tudo, um dia a guerra terminou e sobrevieram dias de paz e bucolismo.

Sucedem-se, então, os dias serenos vividos em Cuba, nos arredores de San Francisco de Paula. As visitas dos amigos na Finca Vigia, as pescarias na Corrente do Golfo a bordo do Pilar, os daiquiris da cantina Floridita e o trabalho literário de todas as manhãs, batucando em pé na sua máquina de escrever. E as viagens, viagens e viagens. Até que um batalhão de barbudos desce da Sierra Maestra e toma o poder. Era o momento de exercitar a prudência e procurar novos ares.

Escrito por Enéas Athanázio, 29/05/2018 às 14h08 | e.atha@terra.com.br

Hemingway, o repórter

O escritor americano Ernest Hemingway (1899/1961) iniciou a carreira profissional como jornalista e, mesmo procurando abandonar essa atividade para se tornar apenas escritor, acabou praticando o jornalismo até quase o fim da vida. Homem ativo, misto de escritor, viajante e aventureiro, foi sempre destacado por grandes órgãos da imprensa para cobrir os mais variados e importantes acontecimentos ao redor do mundo. E nessas viagens costumava aliar o objetivo da missão aos seus gostos pessoais, resultando daí reportagens vivas e palpitantes, sempre escritas em absorvente linguagem literária. Escreveu incontáveis textos jornalísticos e sobre os mais diversos assuntos.

Parte desse material foi recolhido e organizado por William White num livro muito raro a que deu o nome de “Ernest Hemingway Repórter”, dividido em dois volumes com os títulos de “Tempo de Viver” e “Tempo de Morrer”, ambos incorporados às obras completas do escritor e publicados no Brasil pela Editora Civilização Brasileira (Rio – 1969). Segundo a crítica, os dois volumes contêm o melhor do Hemingway - repórter e constituem a presença viva dele. E, de fato, a leitura o confirma, revelando inclusive que ali se encontra a gênese de algumas de suas obras ficcionais, esboçadas em linhas gerais.

O volume inicial reúne reportagens enviadas de variadas partes do mundo, antes ainda da II Guerra Mundial, embora sua aproximação já fosse sentida no ar de forma trágica e inevitável. Em inúmeras passagens ele adverte seu país a não se intrometer nessa guerra europeia com a qual só teria a perder. Nunca foi ouvido e os fatos acabaram forçando o ingresso dos EUA na contenda.

Nesse volume é publicada a reportagem que provocou muita celeuma em que ele considerava Mussolini o maior blefe da Europa e criticava a covarde invasão da Etiópia para exibir poderio diante de um adversário miserável. Por outro lado, explicam-se os frequentes desentendimentos dele com os periódicos para os quais trabalhava. É que aproveitava as ocasiões para pescar truta e atum, esquiar, caçar, assistir a touradas e beber com os amigos enquanto as coisas aconteciam. Não obstante, nada lhe escapava e cumpria a missão de maneira exemplar. Além disso, não tinha medo e se infiltrava nos lugares menos recomendáveis, desde que ali houvesse ação.

Numa passagem ele escreve sobre o que vai na cabeça do pescador enquanto aguarda a beliscada do peixe. “Uma boa parte das coisas em que se pensa – escreveu – não é suscetível de ser impresso... Algumas dessas coisas seriam o bastante para colocar um sujeito no xadrez...” (p. 208). Mais adiante, dá um conselho aos aspirantes a escritor: “Escreva sobre aquilo que você sabe e escreva sinceramente...” (p. 220).

Nos constantes encontros com figurões do cenário internacional, retratando-os e entrevistando-os, faz curiosas observações a respeito do poder. “O poder afeta todos os homens que o detêm – concluiu ele em concordância com outro observador, - de uma certa e definida maneira.” Segundo eles, “é possível apontar os sintomas desse efeito em qualquer homem, mais cedo ou mais tarde...” (p. 267). Alguns desses sintomas: um dos primeiros é a perda da confiança nos companheiros, vendo traições e armadilhas em qualquer gesto; depois vem a suscetibilidade que não lhe permite aceitar a menor crítica e, por fim, a crença de que é indispensável e de que sem ele nada se fará. Em consequência, aos olhos dele, tudo que for feito para se manter no poder será permitido. Esse mal do poder atinge honestos e desonestos, sendo que, segundo ele, estes últimos resistem por mais tempo, “pois a sua desonestidade fê-lo cínico ou humilde, de um certo modo, e isso protege-o” (p. 268). Resta-nos observar no cotidiano e verificar o que ocorre entre nós.

Muito mais mereceria abordagem, mas fica para o próximo artigo.

Escrito por Enéas Athanázio, 21/05/2018 às 10h12 | e.atha@terra.com.br

O idioma panlatino

A grande quantidade de línguas faladas no mundo dificulta o entendimento e a aproximação dos povos. Essa profusão de idiomas se deve, segundo a lenda, à Torre de Babel onde se implantou o caos linguístico como uma espécie de castigo à pretensão humana de atingir o céu. Afirmam os estudiosos que existem 2796 línguas vivas no planeta, classificadas em 12 grupos ou famílias linguísticas principais e 50 grupos secundários. Quanto mais distantes as raízes dos idiomas, mais difícil se torna a comunicação. Em face disso, ao longo da história, têm surgido projetos de implantação de línguas artificiais ou criadas, dentre as quais o esperanto tem sido a mais difundida e duradoura. Todas essas tentativas, no entanto, falharam e a babel idiomática continua.

William Agel de Mello, diplomata, escritor e consumado linguista, propõe uma solução diferente, inovadora e prática. Diante da impossibilidade da adoção de um idioma único em todo o mundo, como os fatos vêm demonstrando, sugere ele, com base em longos e acurados estudos, a fusão das línguas em grupos derivados da mesma raiz ou tronco. Haveria assim uma união de idiomas aparentados, aproveitando-se o que eles possuem em comum. Não seria uma substituição mas, “ao contrário, o retorno à unidade partindo da pluralidade.A ideia básica é a convergência das línguas numa língua única” – explica o ensaísta.

Com esse propósito, as línguas ficariam pertencendo a grupos designados como Pangermânicos, Pan-eslavos, Pancélticos, Panlatinos e outros. Como o nosso português é derivado do latim, integraria o grupo Panlatino, junto com o espanhol, o catalão, o provençal, o franco-provençal, o francês, o ladino, o sardo, o italiano e o romeno. Entrariam aí idiomas mais e menos falados, mas todos dando sua contribuição. Não se trata, portanto, de um idioma artificial como tantos outros, uma vez que nunca deixou de ser falado. Além de aproximar os homens, “entre as finalidades específicas destaca-se a de servir de veículo de comunicação entre os povos que falam línguas afins” – afirma o linguista, acrescentando: “A superlíngua assim formada é concomitantemente filha e irmã das que lhe deram origem. É uma, mas ao mesmo tempo todas. Outra vantagem incontestável das línguas submetidas à fusão é o fator tradução.” Como se sabe, a tradução de textos de uma língua para outra é uma atividade complexa e inçada de problemas.

Em seu livro “O Idioma Panlatino e outros ensaios linguísticos” (Editora Kelps – Goiânia – 2011), William Agel de Mello expõe em minúcia o projeto Panlatino e faz outras incursões no mundo das línguas. É admirável a segurança com que ele se move nesse intrincado universo, demonstrando completo domínio de tantos temas nele envolvidos, desde a história e  a geografia até os segredos e particularidades de inúmeros idiomas. Seu livro é um manancial inesgotável de informações a respeito das línguas em geral e do Panlatino em particular. Faz comparações e análises, estuda as afinidades e diferenças num trabalho único e que tem merecido a atenção de renomadas autoridades sobre o assunto. É um trabalho que deveria ser conhecido por todos nós, uma vez que é a língua que nos difere dos outros seres vivos.

O autor é também renomado africanista, conhecedor da África por dentro e por fora, historiador e ficcionista. Sobre ele Guimarães Rosa depositava esperanças de que realizaria uma grande obra literária, o que, de fato, aconteceu. Sua obra tem sido submetida ao crivo de numerosos intérpretes, tanto que tem ele nos dias atuais uma extensa e significativa fortuna crítica.

Seria o projeto Panlatino uma utopia? É possível, mas como diz o seu autor “qualquer tentativa, por mais humilde que seja, no sentido de facilitar a comunicação entre os povos é um bem à humanidade.”

Como seria o mundo se não existissem os utopistas?

Escrito por Enéas Athanázio, 14/05/2018 às 10h01 | e.atha@terra.com.br

A obra de Fernando Jorge

Romancista, cronista, ensaísta, dicionarista, crítico literário e polemista consumado, Fernando Jorge tem se notabilizado como exímio biógrafo. Gênero dos mais exigentes, a biografia depende de grande conhecimento em vários campos do saber, em especial da história, da sociologia e da própria psicologia humana para bem colocar o biografado no seu contexto e interpretar com segurança seus atos e ações. Exige ainda, e de maneira muito especial, a capacidade de narrar de tal forma a exibir o personagem vivo, agindo e reagindo, e não se limitando à mera exposição fria e mecânica de suas atividades durante a jornada terrena. Como se percebe, não se trata de tarefa fácil, tanto que inúmeras biografias não alcançam esse patamar e não passam de meros relatos fastidiosos e sem apelo ao leitor.

Entre as biografias que realizou, destacam-se as de Martinho Lutero, Getúlio Vargas, Paulo Setúbal, Olavo Bilac. Aleijadinho e Santos Dumont, sem contar inúmeras obras de outros gêneros, sempre fundamentadas e minuciosas. Está publicando agora a quinta edição de “As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont” (Harper Collins Brasil – S. Paulo – 2018), monumental ensaio biográfico que se impõe como definitivo do genial inventor mineiro. Alentado volume, com mais de quinhentas páginas, contém a exposição revista e ampliada da vida e das realizações de Dumont, sempre lastreada em criteriosas fontes de informação e cotejadas com a documentação existente. Como de costume, o autor não se contenta com pouco e vai a fundo em cada detalhe, buscando sempre a mais pura verdade. O livro é rico também em material iconográfico, exibindo raras e curiosas fotografias.

A obra vem sendo aclamada pela melhor crítica. Segundo a “Folha de S. Paulo”, o autor “associa seu laborioso trabalho de pesquisa a um texto bem cuidado e atraente. E é bom e oportuno que seja assim, que se enfoque com a merecida grandeza a importância desse mineiro ilustre que foi Santos Dumont. Todos os esforços nesse sentido são válidos e justos para referendar a excepcional contribuição do nosso inventor genial para o desenvolvimento tecnológico da aeronáutica.” O editor Luiz Fernando Emediato, por sua vez, afirmou que o livro é “uma longa, paciente e rigorosa pesquisa, expressa em texto claro, fluente e agradável.” E Brito Broca, referindo-se a outra obra de Fernando Jorge, declarou: “Livros dessa espécie, feitos com talento, amor e honestidade, constituem obra imorredoura.”

Com efeito, a leitura aprisiona o leitor que vai, página por página, desvendando a vida do menino que gostava de balões, dos pássaros e das máquinas, e que, mais tarde, com imensa coragem, singrou por ares nunca dantes navegados, até alcançar a glória nos céus de Paris e conquistar a consagração mundial. Focaliza os amores de Dumont e o seu propósito de permanecer solteiro “porque desejava ser livre para arriscar a vida como entendesse, sem causar dano a ninguém.” Aspectos delicados de sua vida são abordados de maneira discreta, inclusive a depressão que o levou ao trágico suicídio. É, enfim, um retrato de corpo inteiro, minucioso e veraz do notável inventor.

Fernando Jorge lançou outros livros de grande sucesso, entre os quais o célebre “Cale a boca, jornalista!”, levantamento bem documentado das agressões aos homens da imprensa em nosso país; “Vida e obra do plagiário Paulo Francis”, esmiuçando a obra do polêmico jornalista; “A Academia do fardão e da confusão”, abordando as grandezas e misérias daquele sodalício ao longo de sua história; “Se não fosse o Brasil, jamais Barak Obama teria nascido”, sustentando curiosa e inédita tese. Seu livro “Hitler, retrato de uma tirania”, fruto de dez anos de pesquisa, vai ser traduzido em vários países, inclusive na Alemanha. Mesmo com tão intensa produção, Fernando Jorge milita de maneira incansável na imprensa escrita.

Em reconhecimento à sua obra, recebeu o Prêmio Jabuti, o Prêmio Clio, a Medalha Koeler e o diploma e o medalhão comemorativo do centenário de nascimento de Santos Dumont, conferidos pelo Ministério da Aeronáutica. Polêmicas célebres, por ele travadas com bravura e conhecimento, integram os anais jornalísticos do país. É hoje um dos mais conhecidos e lidos escritores nacionais.

Escrito por Enéas Athanázio, 08/05/2018 às 10h57 | e.atha@terra.com.br

A dolorosa luta pela Independência

Diplomata, historiador e escritor, William Agel de Mello é reconhecido africanista e muito tem escrito sobre a África. Entre seus ensaios, avultam os que abordam a África do Sul, a Tanzânia e a Namíbia.  A respeito desta última, escreveu “O processo de independência da Namíbia”, ensaio substancioso, fundamentado e esclarecedor, ora incorporado ao terceiro volume de suas Obras Completas (Editora Kelps – Goiânia – 2016) e que bem merece um comentário;

Situada na África Meridional ou Austral, à margem do Oceano Atlântico, a Namíbia é uma república com a área superficial de 824.285 Km2 e uma população estimada em 1.781.000 habitantes. Tem a capital na cidade de Windhoek e as línguas faladas são o  africâner, o alemão, o inglês e idiomas tribais. É um dos países mais áridos do planeta e o deserto de Namib, na faixa costeira, funcionou, ao longo da história, como uma espécie de escudo natural contra invasões. Foi o último país africano a obter a independência, libertando-se de longo e penoso colonialismo. Antigamente denominado Sudoeste Africano, foi uma colônia da Alemanha desde 1884 até o término da II Guerra Mundial, quando passou a ser administrada pela extinta Liga das Nações, em consonância com o entendimento da época em relação a territórios pouco desenvolvidos. Em seguida o país foi invadido e ocupado pela África do Sul (RAS), que o recebeu como mandato da Liga das Nações, em nome da Grã-Bretanha. Iniciou-se, então, um longo período de exploração das riquezas do país e violência inaudita contra a população nativa. Extinta a Liga das Nações, a África do Sul se recusou o desocupar o território, transformando-o numa espécie de colônia de fato. Rico em urânio e metais, o território da Namíbia foi submetido a verdadeira pilhagem. Os alemães e depois os bôeres lançaram mão de estratagemas engenhosos para evitar o surgimento de uma consciência nacional. Mantiveram as comunidades étnicas física e intelectualmente separadas, como de resto tem acontecido em regimes autoritários.

O nascimento de uma consciência nacionalista, patriótica ou que outro nome tenha parece inevitável, por mais rígida que seja a repressão, e isso também se verificou na Namíbia. Os espíritos mais atilados começaram a perceber a exploração de que o povo era vítima, a sucção das riquezas nacionais em benefício do colonizador e a servidão disfarçada a que a população foi submetida. Surgem lideranças populares que iniciam a pregação em favor da independência do país. A resistência nacional em oposição ao colonizador toma forma através de chefes tradicionais, da igreja, dos intelectuais e dos trabalhadores dos principais centros do país. O movimento cresce e se transforma em aspiração nacional. A independência de outros países africanos impulsiona a ideia de liberdade.

Para conter o movimento nacionalista, a África do Sul implanta o apartheid no território, tal como o existente naquele país, instituindo os chamados buntustões ou homelands e assim seccionando o país com critérios étnicos. Iniciava-se na inacreditável série de manobras e artimanhas de que lançaria mão para prolongar o domínio sobre a Namíbia, de onde não desejava arredar pé. Manobras e artimanhas capazes de causar inveja aos mais reles politiqueiros, praticadas por longos anos às claras e aos olhos de uma sociedade internacional hipócrita e tolerante.

Com absoluto domínio do assunto e lastreado em impressionante bibliografia, o ensaísta vai desenrolando, passo a passo, o penoso processo rumo à independência. Mostra a revolta de um povo cansado do julgo estrangeiro, superando a violência, os massacres, as invasões, anexações de territórios, a boataria e toda sorte de artimanhas com o objetivo de retardar o inevitável. Conta com o apoio de muitos países, inclusive do Brasil, embora os Estados Unidos, alinhados à África do Sul, procurem criar embaraços. Assim, aos trancos e barrancos, com a supervisão da ONU, a Namíbia realiza sua primeira eleição geral, instala a Assembleia Constituinte e, enfim respira como nação livre e dona de seu próprio destino. A independência se consumou em 21 de março de 1990, portanto é acontecimento de hoje, de nossos dias, da história contemporânea.

A SWAPO, aguerrido partido de oposição ao colonialismo, liderado pelo carismático Sam Nujoma, e que lutava contra ele há muitos anos, obtém uma vitória incontestável nas urnas, tanto para o Executivo como para o Legislativo. Conquistou 41cadeiras num total de 72, derrotando com larga margem o principal adversário, na verdade um preposto da África do Sul. Apesar da opressão e da exploração que sofreu, o Governo independente não se entregou a vinditas ou caça às bruxas. Procurou agir de forma conciliatória, buscando a paz, para realizar as promessas tão aguardadas pela população: reforma agrária, equilíbrio, assistência e justiça social. E assim, depois de sustentar uma luta árdua, conquistou a duras penas o direito de agir com inteira liberdade, como país independente e soberano.

A história da Namíbia, se conhecida pelos nossos homens públicos, na hipótese de que lessem alguma coisa, seria um notável exemplo para nós, brasileiros. Conquistamos a independência sem sangue e com pouco esforço, ao contrário dela, cujo povo sofreu, foi espoliado, perseguido e humilhado, mas nunca deixou de defender o patrimônio nacional. Enquanto aqui a soberania nacional é alienada às claras em favor de interesses subalternos da politicalha. 

Escrito por Enéas Athanázio, 30/04/2018 às 11h57 | e.atha@terra.com.br

Nossa embaixadora

Mineira de Belo Horizonte, Teresinka Pereira está radicada há longos anos nos Estados Unidos. Escritora, poeta e conferencista de larga experiência, ela é uma presença forte na imprensa cultural de muitos países, inclusive do Brasil. Mantém uma extensa rede de intercâmbio com escritores, poetas, artistas, professores, intelectuais e figuras de destaque de todos os cantos do mundo, empenhada sempre em divulgar os brasileiros, enviando suas obras, comentando-as e divulgando-as num trabalho incansável e permanente. Também viaja com frequência para proferir palestras, lançar livros e manter contatos diretos com a intelectualidade. Graças ao seu empenho, muitos escritores e artistas brasileiros ficaram conhecidos em outros países e estabeleceram relações profissionais e de amizade com colegas de ofício de distantes regiões do planeta. É por isso que se reconhece em Teresinka a embaixadora das letras e artes nacionais.

Há muitos anos ela preside a International Writters and Artists Association (IWA), entidade internacional que congrega escritores e artistas de todo o mundo. Fundada em 1978, com sua sede em Toledo, Ohio, tem como língua oficial o inglês, embora também opere em francês, espanhol, italiano e português. Em virtude de seus objetivos universais, ela mantém diretores em diversos países, como Estados Unidos, Rússia, República Checa, Cuba, Turquia, Tunísia, Algéria, Coréia, Japão e Brasil.

Além das atividades no campo cultural, a IWA luta pela defesa dos direitos e liberdades consagrados pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, pelo respeito a todas as culturas e tradições étnicas, à completa liberdade de expressão, e propugna por um mundo mais justo. Combate o racismo, o sexismo, o tribalismo, o preconceito contra os idosos e todas as outras formas de preconceito. Empenha-se em cultivar os valores que conduzem à felicidade do ser humano. Trata-se, portanto, de uma entidade com profundas raízes democráticas.

É ardorosa defensora do meio ambiente, pregando que a “Terra não é mais do que uma grande nação e a raça humana é o conjunto dos cidadãos de todo o mundo.” Lembra o pensamento do associado espanhol Luis Cuevas Lopez: “Só depois de cortar as últimas árvores, depois de envenenar o último rio, depois de pescar o último peixe, aprenderemos que o dinheiro não é comestível.” Com tão justa e correta advertência, busca conscientizar as pessoas para que preservem o mundo em que vivemos.

Como entidade com ramificações mundiais, a IWA faz indicações para o Prêmio Nobel de Literatura e para o Prêmio Nobel da Paz, além de indicações para premiações de outras categorias. Anuncia e apóia concursos de literatura e artes que concedem prêmios a escritores e artistas patrocinados por diversas organizações. Prestigia e homenageia escritores e artistas anônimos, tirando-os do ostracismo.

A IWA conta atualmente com 1760 associados, distribuídos em 156 países, contando entre seus membros com figuras de grande destaque, como detentores do Prêmio Nobel da Paz e de Literatura, chefes de estado, acadêmicos, professores, escritores, poetas, artistas e intelectuais de variadas áreas, inclusive muitos brasileiros. A entidade ainda confere prêmios de diversas categorias.

Tive o prazer de receber em minha residência a visita de Teresinka Pereira em uma de suas vindas ao Brasil, levando-a a conhecer recantos de nossa cidade e de Blumenau. Na ocasião ela concedeu entrevistas à televisão e a uma de nossas emissoras de rádio sobre as atividades e os objetivos da IWA. Espero recebê-la em sua nova vinda ao país, ocasião em que pretendo levá-la à redação do nosso “Página 3.” Participei com contos de minha autoria em duas coletâneas por ela patrocinadas, uma em inglês e outra em português, e que foram amplamente distribuídas.

Escrito por Enéas Athanázio, 23/04/2018 às 15h50 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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