Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

A VIDA E OS LIVROS

Com o surgimento da Internet muitos pregoeiros anunciaram o fim do livro impresso. Ledo engano. Nunca se publicaram tantos livros, no Brasil e no mundo, como nos dias de hoje. E o mais curioso é que inúmeras publicações são de livros volumosos, com numerosas páginas, justamente aqueles que diziam ser os primeiros a desaparecer porque os leitores não disporiam de tempo para enfrentá-los. Ainda bem que esse instrumento da cultura e do saber prossegue na sua faina de educar e esclarecer. Merecem pena os que não leem; não sabem o que perdem.

A importância da leitura na vida das pessoas vem merecendo constantes estudos e pesquisas, não apenas no aspecto cultural e pedagógico, mas também no sentido material. Recente pesquisa da Universidade Yale, noticiada pelos jornais, concluiu que a leitura de livros aumenta a longevidade das pessoas, mostrando que aqueles que são dados à leitura de livros têm redução de 20% no risco de mortalidade. Está aí mais um motivo significativo para incrementar o hábito da leitura, além de outros bem conhecidos.

Durante doze anos muitas pessoas foram observadas e os pesquisadores notaram “uma bela vantagem na sobrevivência daqueles que liam em média 30 minutos por dia, quando comparados a não leitores.” A pesquisa ainda afirma que “livros propiciam uma leitura imersiva, na qual o leitor consegue fazer conexões entre o que está sendo lido e o mundo ao redor, as possíveis aplicações daquilo na vida real.” É fácil distinguir, no contato pessoal, a sensível diferença entre uma pessoa que lê e aquela que não é dada à leitura. A diferença salta aos olhos nos primeiros contatos.

Destaca ainda o estudo que “vocabulário, concentração, pensamento crítico, empatia, comportamentos mais saudáveis e menos estresse” melhoram com a leitura costumeira e “podem levar a uma vida mais longa.” O livro melhora a saúde mental. É interessante notar que a leitura de jornais e revistas não tem o mesmo resultado positivo que a leitura do livro. A leitura informativa é mais pesada e, por isso, menos saudável. A leitura de livros, por outro lado, ensina métodos e cuidados para preservar a boa saúde, fato que também contribui para aumentar a longevidade.

Embora venha aumentando o número de leitores no Brasil, inclusive em face do crescimento da população, o brasileiro em geral lê pouco. Segundo levantamentos, 46% dos brasileiros alfabetizados não leem jornais e revistas e 73% só assistem televisão nos horários de folga. O gosto pela leitura vai decaindo no correr da idade e os mais idosos são os que menos têm o hábito da leitura. Ora, a leitura abre novos horizontes, sendo intuitivo que o Brasil seria um país melhor se os brasileiros lessem mais. Votariam com mais critério, não se deixariam embair por demagogos e salvadores da pátria, perceberiam com mais clareza as maquinações que a grande mídia esconde e não elegeriam tiriricas, romários, malufs, felicianos e quejandos. Mas a leitura é uma atividade a dois e exige atenção do leitor, concentração e um mínimo de imaginação para entender o texto. É mais fácil se entregar ao audiovisual, recebendo tudo feito e acabado, sem necessitar de imaginação ou de esforço.

No entanto, como já dizia Monteiro Lobato, um país se faz com homens e livros. Enquanto a população como um todo não for conscientizada disso, iremos aos trancos e barrancos pela estrada estreita da política rasteira.

Escrito por Enéas Athanázio, 23/07/2018 às 12h06 | e.atha@terra.com.br

A PÓS-DEMOCRACIA

Nestes últimos tempos, juristas e cientistas sociais em geral vêm manifestando crescente preocupação com a deteriorização da democracia no país. Segundo suas análises, a Constituição Federal de 1988 tem sofrido constantes violações, muitas vezes por aqueles a quem caberia defendê-la, colocando em risco o regime democrático conquistado a duras penas e abrindo as portas do poder para aventureiros do tipo salvadores da pátria, cuja posse poderá ter resultados catastróficos. Isso tem acontecido com frequência e é aceito com desinteresse pela sociedade, como se fosse algo natural e sem consequências. A descrença nos políticos em geral parece ter anestesiado o povo a ponto de aliená-lo do destino de sua própria liberdade. O ministro Ayres Brito chegou a afirmar que o Brasil vive uma pausa democrática.

Acentuam os estudiosos que o país está a um passo de se tornar um estado policial. A pretexto de combater a corrupção, - propósito muito justo e correto, - todas as violações constitucionais vem sendo praticadas com exasperante frequência. Os casos mais evidentes, que saltam aos olhos, são as conduções coercitivas ao arrepio da lei, as buscas e apreensões coletivas, as prisões para forçar delações premiadas, as condenações com base em meros indícios, as operações espetaculosas e bombásticas, as declarações públicas baseadas em convicções pessoais sem fundamento em elementos probatórios, a prisão sem o trânsito em julgado da sentença condenatória, a supressão de direitos sociais e por aí a fora. A melancólica conclusão é a de que existe uma democracia formal, um verniz democrático, mas o estado democrático de direito instituído pela Constituição não existe mais. Vigora um estado pós-democrático. Qualquer pessoa, mesmo sob vaga suspeita, está sujeita à execração pública sem remédio ou conserto mesmo quando inocentada. E o pensamento autoritário, tímido no início, tende a crescer de maneira incontrolável.

A crise econômica também tem servido de pretexto para medidas duvidosas do ponto de vista da legalidade e imorais sob um critério ético. Ora, as crises econômicas são cíclicas e inevitáveis no capitalismo em todos os tempos, como demonstra a história. Elas sobrevêm sob qualquer administração, seja de centro, de direito ou de esquerda porque decorrem da junção de fenômenos imprevisíveis num determinado momento. Enquanto batuco estas palavras, economistas de renome mundial prevêem uma recessão global a se desencadear no próximo ano. Esses fenômenos sempre foram usados pelos regimes de força para justificar arbitrariedades, aqui e alhures. Por outro lado, dizem os historiadores, muitos foram os casos em que falsas crises foram fabricadas. É que nesses momentos as grandes corporações tiram proveito econômico porque para elas pouco importam o povo, os governos e os regimes. Como não têm pátria, visam apenas o deus mercado e o lucro.

No estado pós-democrático o poder vai estendendo os seus tentáculos sem observar os rígidos limites constitucionais e os direitos individuais vão aos poucos se enfraquecendo, levando até mesmo à ruptura do estado de direito para dar lugar aos golpes. A história contemporânea da América Latina está repleta de exemplos, ensejando o surgimento de ditaduras violentas e sanguinárias.

Dentre múltiplos trabalhos a respeito do tema, merece atenção o livro “Estado Pós-Democrático”, de autoria de Rubens R. R. Casara, publicado pela Editora Civilização Brasileira (Rio – 2018). Magistrado, doutor em Direito e professor, o autor faz um eloquente alerta a respeito do que está acontecendo, a exemplo de uma convocação para a luta em defesa da democracia em perigo.

Na marcha em que vão aas coisas, tudo indica que marchamos direto para o abismo.

Escrito por Enéas Athanázio, 16/07/2018 às 09h52 | e.atha@terra.com.br

A MORTE DE LORCA

As obras de arte, em sua maioria, situam-se entre as medianas. Em proporção ao que é produzido, apenas uma minoria se destaca pela perfeição e pela qualidade estética. O mesmo acontece no terreno das letras. Dentre milhares de obras publicadas, bem poucas atingem os níveis mais elevados e se transformam em verdadeiros monumentos. Acredito que, sem exagerar, entre estas se pode incluir “Federico García Lorca – A biografia”, de autoria de Ian Gibson, que a Editora Globo publicou em nova edição, traduzida por Augusto Klein (S. Paulo – 2014).

Num trabalho meticuloso, fundamentado em rigorosas fontes, como costumam ser os ensaios do gênero biográfico americanos, o autor rastreia os passos do poeta, dramaturgo, compositor, pianista, pintor e cantor desde o nascimento em Fuente Vaqueros até sua trágica morte em Granada, na Espanha. Lorca tinha 38 anos de idade quando foi tragado pela inaudita violência dos golpistas de Franco, no início da Guerra Civil espanhola, num ato que chocou o meio intelectual de todo o mundo. O jovem poeta, dotado de uma personalidade fascinante e já reconhecido como verdadeiro gênio, alimentava muitos sonhos e planejava grandes realizações no campo da poesia, da dramaturgia e da música. Mas o obscurantismo e a intolerância, alimentados pela inveja e pelo ressentimento, não o pouparam, fuzilando-o em surdina, numa noite macabra, sepultando-o em cova rasa sem qualquer identificação. Depois, ante o alarme provocado pelo crime, tentaram esconder o fato, como costuma acontecer em regimes de força.

A breve existência do poeta foi pontilhada de sucessos. Sua figura carismática encantava onde fosse e suas palestras, declamações, exibições ao piano, entoando canções populares espanholas, eram sempre acompanhadas com o maior interesse. Fosse no país natal, em Nova York ou em Cuba, onde fez estágios, o sucesso sempre o acompanhava, como revela o biógrafo, seguindo passo a passo suas turnês artísticas e literárias. Em Nova York, ante um auditório sofisticado e exigente, foi aclamado com entusiasmo em mais de uma ocasião. Em Cuba, onde permaneceu uma temporada, o triunfo se repetiu. Apreciou a cultura afro, a música popular, a paisagem, a poesia e a culinária da Ilha, ainda que ela estivesse sob o tacão do sanguinário ditador Machado. Por onde passou deixou um ror de amigos e admiradores. É curioso que na estadia em Paris não tenha feito contato com a chamada geração perdida, da qual faziam parte Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald e outros, em plena efervescência na época. Também excursionou pela Argentina, onde fez amizade com Pablo Neruda, e pelo Uruguai, obtendo sempre grande sucesso nas apresentações. Em todas essas andanças estava produzindo, planejando, anotando, embora no fundo elas constituíssem uma fuga do ambiente opressor da Espanha. Planejava vir ao Brasil mas não lhe deram tempo.

Lorca muito havia escrito e falado em defesa da liberal-democracia, além de simpatizar com as vanguardas artísticas e literárias que brotavam na Europa. Para os falangistas que, nessa altura, haviam implantado o terror em Granada, essas constituíam posições de subversivos, vermelhos e comunistas. Em consequência, o poeta caiu em desgraça e ficou sob a mira implacável dos repressores. Tomado de intenso pavor, passou a viver na casa de amigos, mas não faltou quem o denunciasse, como costuma acontecer nessas ocasiões. Os dedo-duros estavam a postos. Conduzido à sede do Governo Civil, na tarde de 16 de agosto de 1936, lá permaneceu trancafiado numa sala. Na noite de 18 para 19, algemado a outro prisioneiro, foi levado de madrugada à vila de Viznar, até hoje lembrada como palco de milhares de execuções. E ali, sem o devido processo legal, sem o sagrado direito de defesa, sem o contraditório e sem ao menos ser interrogado, Federico García Lorca foi fuzilado de maneira sumária. Sepultado em cova rasa, na encosta de uma colina, ao lado de outras vítimas anônimas, sobre ele recaiu o silêncio. Ao transpirarem rumores de que o poeta havia sido assassinado, o governador, temeroso das consequências, afirmou que ignorava o destino do mesmo. O PEN Clube Internacional, presidido pelo célebre escritor H. G. Wells, buscou descobrir o paradeiro do poeta, sem resultado. A confirmação do acontecimento gerou um coro de protestos ao redor do mundo e de indignação pela perda injustificável de um reconhecido gênio das letras e das artes.

Federico García Lorca tornou-se um tema tabu na Espanha. Menções à sua pessoa, sua vida e sua obra submergiram diante de implacável censura. Só após a morte de Franco tudo voltou a ser pesquisado, estudado e publicado. Envergonhada, a ditadura tentou esconder o que havia feito.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/07/2018 às 10h57 | e.atha@terra.com.br

VIVENTES DO SERTÃO (3)

Nas andanças pelo romance “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, deparamos com o ex-jagunço Riobaldo Tatarana, narrador e personagem central, relatando que um dia percebeu que Zé Bebelo estava com medo. É difícil de imaginar. Então o grande chefe José Rebelo Adro Antunes, sobrechamado Zé Bebelo, valente condutor de um grupo temido e respeitado poderia lá sentir medo? Mas, conclui ele, conformado, “chega um dia se tem.” Esse medo, porém, não vinha de homem, por perigoso que fosse, de combates ou tiroteios, de traições e tocaias; era de outra natureza. “Medo dele era da bexiga, do risco de doença e morte: achando que o povo do Sucruiú podiam ter trazido o mau ar, e que mesmo o Sucruiú ainda demeava vizinho justo demais.” O primeiro impulso de Riobaldo foi rir, tão ridículo lhe parecia aquele medo do chefe, mas não podia e nem devia demonstrar. “Tanto ri – confessou ele. – Mas ri por de dentro, e procedi sério feito um pau do campo... Alguém estiver com medo, por exemplo, próximo, o medo dele quer logo passar para o senhor; mas, se o senhor firme aguentar de não temer, de jeito nenhum, a coragem sua redobra e tresdobra, que até espanta. Pois Zé Bebelo, que sempre se supria certo de si, tendo tudo por seguro, agora bambeava. Eu comecei a tremeluzir em mim” (p. 416). O medo é contagioso.

Por via das dúvidas, abalaram dali. Seguro morreu de velho. “Pelo que umas cinco léguas andamos – recordou ele. – De medo, meio, conforme decerto... Merecer logo ao menos uma semana de quieto, é que era justo; pois nenhum não estava mais na sua saúde... “ (Idem). Andaram e andaram. “E por fim viemos esbarrar em lugar de algum cômodo, mas feio, como feio não se vê. – Tudo é gerais, - eu pensei por consolo. Um homem, que com a machadinha na mão e sua cabaça a tiracol tratava de desmelar cortiço num pau do mato, esse indicou tudo necessário e deu a menção de onde é que estávamos. Na Coruja, um retiro taperado” (p. 417).

Mas a doença deles, por sorte, não era maligna. “Refiro ao senhor que, da bexiga-brava, não. Mas de outras enfermidades. Febres” (p. 418). Riobaldo não dormia, comia pouco, sentia perder a natureza de homem e, para completar, aquele lugar lúgubre provocou uma depressão. O jagunço pensou coisas más, pensamentos negativos e graves (suicídio?). Os cuidados de Diadorim e os chás de Raymundo Lé o curaram, a vida voltou a ficar certa e boa.

Pior sorte tiveram o Gregoriano e o Felisberto. O primeiro, picado por uma jararaca, no meio de um capim ralo, morreu. Já o Felisberto, coitado, levou um tiro de garrucha na cabeça e a bala de cobre “estava encravada na vida de seus encaixes e carnes, onde ferramenta de doutor nenhum não alcançava de escarafunchar” (p. 421). Desde então, de tempos em tempos, “de repente, sem razão entendível nenhuma, a cara desse Felisberto se esverdeava, até os dentes, de azinhavres... Ao que os olhos inchavam, tudo ficando em verde, uma mancha só... O nariz entupia, inchado. Ele tossia. E horror de se ver, o metal do esverdeio... Dizia naquelas horas que estava sem visiva, nada não enxergava” (Idem). Depois, aos poucos, ia azulando; aquilo era para sarar.

E ali no Coruja, lugar feio e triste de doer, padeciam seus males. Zé Bebelo não deixava de palavrear, procurando levantar o moral do bando. Alguém sugeriu invadir um lugarejo qualquer só para animar, mas Riobaldo não concordou. Passam os dias, os ânimos se refazem e a luta continua. Carecia de combater o Hermógenes, o mal maior, o inimigo de verdade. Hermógenes Saranhó Rodrigues Felipes, flagelo do sertão.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/07/2018 às 18h05 | e.atha@terra.com.br

VIventes do Sertão (2)

Homenagem ao “Grande Sertão: Veredas”, nos seus 60 anos.

Prosseguindo na peregrinação pelo romance “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa, vamos encontrar outra personagem que vive uma história das mais curiosas. Quem relata o sucedido é um Jõe Bexiguento, “duro homem jagunço, como ele no cerne era.” Homem de ideia curta, não variava, herdou do pai a sina de viver e jagunciar; para ele as coisas não se misturavam, eram bem divididas, separadas. “De Deus? Do demo? Deus a gente respeita, do demônio se esconjura e aparta...” (p. 237). E assim, com essa filosofia fatalista, ia vivendo em paz consigo mesmo e jagunçando.

Até que um dia, Jõe Bexiguento contou. O caso aconteceu no arraial de São João Leão, no sertão do Jequitinhonha, região mais pobre dos Gerais, lindeira da terra dele. Existia por lá uma mulher de nome Maria Mutema, “pessoa igual às outras, sem nenhuma diversidade” (p. 238). Uma noite, assim no mais, o marido dela entregou os pontos, morreu de madrugada. Ela invocou por socorro, o vizindário compareceu, que o lugarejo era pequeno. O morto não tinha sinais, não dava mostra, estava de boa saúde, tudo indicando ataque do coração, Na tarde do mesmo dia foi enterrado, bem enterrado.

“Maria Mutema – ele contou – era senhora vivida, mulher em preceito sertanejo. Se sentiu, foi em si, se sofreu muito não disse, guardou a dor sem demonstração. Mas isso lá é regra, entre gente que se diga, pelo visto a ninguém chamou atenção” (Idem). Agora, o que chamou atenção foi a repentina religião da mulher. Vestida de preto, ia à igreja todo santo dia e, mais ainda, se confessava a cada três com o vigário Padre Ponte.”Dera em carola e virou um lenho seco.” Estranho, muito estranho!

Meio gordo, descansado, na meia idade, Padre Ponte cumpria as obrigações de vigário. Fazia sermão, atendia de dia e de noite, era caridoso. Vigário de mão cheia. É verdade que havia gerado três filhos com outra Maria, dita a Maria do Padre, “que governava a casa e cozinhava para ele.” Os meninos da Maria do Padre, bem criados e bonitinhos, levavam vida normal. Ninguém maldava, aquilo era mais ou menos comum naqueles ínvios arredios de civilização.

O povaréu, porém, logo pegou a estranhar que Maria Mutema tivesse assim tantos pecados a confessar. Notou que Padre Ponte revelava visível desgosto ao ouvir as confissões da viúva. Alguma coisa acontecia que ele não podia transmitir a ninguém por causa do segredo da confissão. E o coitado do Padre Ponte pegou a minguar. “Foi adoecido ficando, de doença para morrer, se viu logo. De dia em dia, ele emagrecia, amofinava o modo, tinha dores, e enfim encaveirou, duma cor amarela de palha de milho velho, dava pena. Morreu triste...” (p. 239). Desde então Maria Mutema nunca voltou para rezar ou confessar. Enterrara dois homens que cruzaram seu caminho.

Mas vai que um dia... Chegaram no arraial dois missionários com jeitão estrangeiro, fortes, ativos, desses que agitam, movimentam, sacodem, exigem reza forte. Quando um deles pregava no púlpito, assim no mais, Maria Mutema principiou a entrar na igreja. Ninguém entendeu. O padre entreparou e a expulsou aos berros, convidando-a para um encontro de confissão na porta do cemitério. E ela, magra, fina, toda de preto, estacou e gemeu, pedindo perdão em público e confessou que tinha matado o marido, sem motivo, derramando chumbo derretido pelo buraquinho do ouvido, através de um funil, enquanto ele dormia. E matou o Padre Ponte de desgosto, repetindo e repetindo que tinha matado o marido porque estava apaixonada pelo padre e “queria ser concubina amásia” (p. 242). Tudo mentira, provocação, caso pensado.

Mandaram desenterrar os ossos do marido e “se conta que a gente sacolejava a caveira, e a bola de chumbo sacudia lá dentro, até tinia” (Idem). A mulher foi presa provisória na casa da escola esperando justiça.

Ela então se mostrou arrependida. Clamava de joelhos seu remorso, pedia perdão e castigo. Não comia, não sossegava, suplicava “que todos viessem cuspir na sua cara, dar bordoadas, que ela tudo isso merecia” (Idem). O povo foi se apiedando de tanta humilhação e sofrimento. “Alguns até diziam que Maria Mutema estava ficando santa” (p. 243).

 

O sertão é um mundo de mistérios.

 

Escrito por Enéas Athanázio, 25/06/2018 às 17h18 | e.atha@terra.com.br

Viventes do Sertão

Homenagem ao “Grande Sertão: Veredas”, nos seus 60 anos.

Tenho para mim que o romance “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa, é uma obra inesgotável e a cada releitura exibe nuances até então não percebidas. Impressiona a enorme quantidade de figuras e personagens que habitam aquelas páginas. Algumas se mostram de maneira fugaz e outras com mais constância, muitas desaparecendo sem deixar maiores marcas e algumas assumindo posição de destaque. Muitas têm nomes estranhíssimos, frutos da portentosa imaginação do escritor, ao passo que outras nem sequer são nominadas.

Entre estas últimas está o Moço de fora (assim, com maiúscula), figura misteriosa que surge no Andrequicé. Esse gabola parou de passagem naquele lugar e garganteou que para ali chegar era capaz de gastar apenas vinte minutos. Isso porque costeava o Rio do Chico pelas cabeceiras, explicava. Ora, o normal, a cavalo, era consumir dia e meio para fazer o trajeto. “Despontar o Rio pelas nascentes, – excogita Riobaldo, personagem central e narrador, - será a mesma coisa que um se redobrar nos internos deste nosso Estado nosso, custante viagem de uns três meses...” (p. 25). Pois bem, esse moço, se há (Riobaldo não o viu, se louva na “porfalação da gente naqueles dias de época”), estava mangando, fazendo fantasiação, doideira. Ou, então, a coisa era mais grave e ele era o próprio demo, o capiroto, o que-diga, o capeta, o satanazim, o cujo, o diabo em pessoa. Já um tal Aristides, que vive num buritizal à direita, de nome Vereda da Vaca-Mansa-de-Santa-Rita, todo mundo crê que ele não pode passar em três lugares “designados, porque então a gente escuta um chorinho, atrás, e uma vozinha que avisando – “Eu já vou! Eu já vou!” – que é o capiroto, o que-diga...” Não obstante, Aristides está se engordando de rico. São mistérios do sertão, onde o diabo gosta de se mostrar. O diabo? Ora, ora, o diabo não há! – sentencia Riobaldo (p. 624).

Mesmo não havendo, o satanás está sempre nas cogitações de Riobaldo. Ainda nesse capítulo, ele relata o caso de Jisé Simpilício a “quem qualquer daqui jura ele tem um capeta em casa, miúdo satanazim, preso obrigado a ajudar em toda ganância que executa: razão que o Simpilício se empresa em vias de completar de rico. Apre, por isso dizem também que a besta pra ele rupêia, nega de banda, não deixando, quando ele quer amontar...” (p. 24). Colaborar nas malandragens dos negócios, nos briques e nas tramóias, até que ele se pare de rico, tudo bem, de pleno acordo. Agora montar, isso não!

E vem o caso do rapaz seminarista “muito condizente, conferindo no livro de rezas e revestido de paramenta, com uma vara de maria-preta na mão – proseou que ia adjutorar o padre, para extraírem o Cujo, do corpo de uma velha, na Cachoeira dos Bois, ele ia com o vigário do Campo Redondo...” (p. 25). A pobre da velha estava espritada, carecia de reza forte, exorcismo. Riobaldo não relata o resultado da empreitada mas, em compensação, traz para o limpo, pela primeira vez, o “compadre meu Quelemém de Góis, que é quem muito me consola.” Ele “descreve que o que revela efeito são os baixos espíritos descarnados, de terceira, fuzuando nas piores trevas e com ânsias de se travarem com os viventes – dão encosto” (p. 25). No entanto, conclui ele: “Não acreditei patavim” (Idem).

Riobaldo, jagunço aposentado, agora fazendeiro rico, fica incomodado com o rei das trevas e seus tantos nomes, suspira: “Se eu pudesse esquecer tantos nomes!” E depois, compungido, cogita: “E, mesmo, quem de si de ser jagunço se entrete, já é por alguma competência entrante do demônio. Será não? Será?” (p. 26).

Ele não existe mas perturba a paz do fazendeiro Riobaldo. Isso porque “o diabo vige dentro do homem!”

“Viver é muito perigoso” – filosofa ele.

Escrito por Enéas Athanázio, 18/06/2018 às 14h22 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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A VIDA E OS LIVROS

Com o surgimento da Internet muitos pregoeiros anunciaram o fim do livro impresso. Ledo engano. Nunca se publicaram tantos livros, no Brasil e no mundo, como nos dias de hoje. E o mais curioso é que inúmeras publicações são de livros volumosos, com numerosas páginas, justamente aqueles que diziam ser os primeiros a desaparecer porque os leitores não disporiam de tempo para enfrentá-los. Ainda bem que esse instrumento da cultura e do saber prossegue na sua faina de educar e esclarecer. Merecem pena os que não leem; não sabem o que perdem.

A importância da leitura na vida das pessoas vem merecendo constantes estudos e pesquisas, não apenas no aspecto cultural e pedagógico, mas também no sentido material. Recente pesquisa da Universidade Yale, noticiada pelos jornais, concluiu que a leitura de livros aumenta a longevidade das pessoas, mostrando que aqueles que são dados à leitura de livros têm redução de 20% no risco de mortalidade. Está aí mais um motivo significativo para incrementar o hábito da leitura, além de outros bem conhecidos.

Durante doze anos muitas pessoas foram observadas e os pesquisadores notaram “uma bela vantagem na sobrevivência daqueles que liam em média 30 minutos por dia, quando comparados a não leitores.” A pesquisa ainda afirma que “livros propiciam uma leitura imersiva, na qual o leitor consegue fazer conexões entre o que está sendo lido e o mundo ao redor, as possíveis aplicações daquilo na vida real.” É fácil distinguir, no contato pessoal, a sensível diferença entre uma pessoa que lê e aquela que não é dada à leitura. A diferença salta aos olhos nos primeiros contatos.

Destaca ainda o estudo que “vocabulário, concentração, pensamento crítico, empatia, comportamentos mais saudáveis e menos estresse” melhoram com a leitura costumeira e “podem levar a uma vida mais longa.” O livro melhora a saúde mental. É interessante notar que a leitura de jornais e revistas não tem o mesmo resultado positivo que a leitura do livro. A leitura informativa é mais pesada e, por isso, menos saudável. A leitura de livros, por outro lado, ensina métodos e cuidados para preservar a boa saúde, fato que também contribui para aumentar a longevidade.

Embora venha aumentando o número de leitores no Brasil, inclusive em face do crescimento da população, o brasileiro em geral lê pouco. Segundo levantamentos, 46% dos brasileiros alfabetizados não leem jornais e revistas e 73% só assistem televisão nos horários de folga. O gosto pela leitura vai decaindo no correr da idade e os mais idosos são os que menos têm o hábito da leitura. Ora, a leitura abre novos horizontes, sendo intuitivo que o Brasil seria um país melhor se os brasileiros lessem mais. Votariam com mais critério, não se deixariam embair por demagogos e salvadores da pátria, perceberiam com mais clareza as maquinações que a grande mídia esconde e não elegeriam tiriricas, romários, malufs, felicianos e quejandos. Mas a leitura é uma atividade a dois e exige atenção do leitor, concentração e um mínimo de imaginação para entender o texto. É mais fácil se entregar ao audiovisual, recebendo tudo feito e acabado, sem necessitar de imaginação ou de esforço.

No entanto, como já dizia Monteiro Lobato, um país se faz com homens e livros. Enquanto a população como um todo não for conscientizada disso, iremos aos trancos e barrancos pela estrada estreita da política rasteira.

Escrito por Enéas Athanázio, 23/07/2018 às 12h06 | e.atha@terra.com.br

A PÓS-DEMOCRACIA

Nestes últimos tempos, juristas e cientistas sociais em geral vêm manifestando crescente preocupação com a deteriorização da democracia no país. Segundo suas análises, a Constituição Federal de 1988 tem sofrido constantes violações, muitas vezes por aqueles a quem caberia defendê-la, colocando em risco o regime democrático conquistado a duras penas e abrindo as portas do poder para aventureiros do tipo salvadores da pátria, cuja posse poderá ter resultados catastróficos. Isso tem acontecido com frequência e é aceito com desinteresse pela sociedade, como se fosse algo natural e sem consequências. A descrença nos políticos em geral parece ter anestesiado o povo a ponto de aliená-lo do destino de sua própria liberdade. O ministro Ayres Brito chegou a afirmar que o Brasil vive uma pausa democrática.

Acentuam os estudiosos que o país está a um passo de se tornar um estado policial. A pretexto de combater a corrupção, - propósito muito justo e correto, - todas as violações constitucionais vem sendo praticadas com exasperante frequência. Os casos mais evidentes, que saltam aos olhos, são as conduções coercitivas ao arrepio da lei, as buscas e apreensões coletivas, as prisões para forçar delações premiadas, as condenações com base em meros indícios, as operações espetaculosas e bombásticas, as declarações públicas baseadas em convicções pessoais sem fundamento em elementos probatórios, a prisão sem o trânsito em julgado da sentença condenatória, a supressão de direitos sociais e por aí a fora. A melancólica conclusão é a de que existe uma democracia formal, um verniz democrático, mas o estado democrático de direito instituído pela Constituição não existe mais. Vigora um estado pós-democrático. Qualquer pessoa, mesmo sob vaga suspeita, está sujeita à execração pública sem remédio ou conserto mesmo quando inocentada. E o pensamento autoritário, tímido no início, tende a crescer de maneira incontrolável.

A crise econômica também tem servido de pretexto para medidas duvidosas do ponto de vista da legalidade e imorais sob um critério ético. Ora, as crises econômicas são cíclicas e inevitáveis no capitalismo em todos os tempos, como demonstra a história. Elas sobrevêm sob qualquer administração, seja de centro, de direito ou de esquerda porque decorrem da junção de fenômenos imprevisíveis num determinado momento. Enquanto batuco estas palavras, economistas de renome mundial prevêem uma recessão global a se desencadear no próximo ano. Esses fenômenos sempre foram usados pelos regimes de força para justificar arbitrariedades, aqui e alhures. Por outro lado, dizem os historiadores, muitos foram os casos em que falsas crises foram fabricadas. É que nesses momentos as grandes corporações tiram proveito econômico porque para elas pouco importam o povo, os governos e os regimes. Como não têm pátria, visam apenas o deus mercado e o lucro.

No estado pós-democrático o poder vai estendendo os seus tentáculos sem observar os rígidos limites constitucionais e os direitos individuais vão aos poucos se enfraquecendo, levando até mesmo à ruptura do estado de direito para dar lugar aos golpes. A história contemporânea da América Latina está repleta de exemplos, ensejando o surgimento de ditaduras violentas e sanguinárias.

Dentre múltiplos trabalhos a respeito do tema, merece atenção o livro “Estado Pós-Democrático”, de autoria de Rubens R. R. Casara, publicado pela Editora Civilização Brasileira (Rio – 2018). Magistrado, doutor em Direito e professor, o autor faz um eloquente alerta a respeito do que está acontecendo, a exemplo de uma convocação para a luta em defesa da democracia em perigo.

Na marcha em que vão aas coisas, tudo indica que marchamos direto para o abismo.

Escrito por Enéas Athanázio, 16/07/2018 às 09h52 | e.atha@terra.com.br

A MORTE DE LORCA

As obras de arte, em sua maioria, situam-se entre as medianas. Em proporção ao que é produzido, apenas uma minoria se destaca pela perfeição e pela qualidade estética. O mesmo acontece no terreno das letras. Dentre milhares de obras publicadas, bem poucas atingem os níveis mais elevados e se transformam em verdadeiros monumentos. Acredito que, sem exagerar, entre estas se pode incluir “Federico García Lorca – A biografia”, de autoria de Ian Gibson, que a Editora Globo publicou em nova edição, traduzida por Augusto Klein (S. Paulo – 2014).

Num trabalho meticuloso, fundamentado em rigorosas fontes, como costumam ser os ensaios do gênero biográfico americanos, o autor rastreia os passos do poeta, dramaturgo, compositor, pianista, pintor e cantor desde o nascimento em Fuente Vaqueros até sua trágica morte em Granada, na Espanha. Lorca tinha 38 anos de idade quando foi tragado pela inaudita violência dos golpistas de Franco, no início da Guerra Civil espanhola, num ato que chocou o meio intelectual de todo o mundo. O jovem poeta, dotado de uma personalidade fascinante e já reconhecido como verdadeiro gênio, alimentava muitos sonhos e planejava grandes realizações no campo da poesia, da dramaturgia e da música. Mas o obscurantismo e a intolerância, alimentados pela inveja e pelo ressentimento, não o pouparam, fuzilando-o em surdina, numa noite macabra, sepultando-o em cova rasa sem qualquer identificação. Depois, ante o alarme provocado pelo crime, tentaram esconder o fato, como costuma acontecer em regimes de força.

A breve existência do poeta foi pontilhada de sucessos. Sua figura carismática encantava onde fosse e suas palestras, declamações, exibições ao piano, entoando canções populares espanholas, eram sempre acompanhadas com o maior interesse. Fosse no país natal, em Nova York ou em Cuba, onde fez estágios, o sucesso sempre o acompanhava, como revela o biógrafo, seguindo passo a passo suas turnês artísticas e literárias. Em Nova York, ante um auditório sofisticado e exigente, foi aclamado com entusiasmo em mais de uma ocasião. Em Cuba, onde permaneceu uma temporada, o triunfo se repetiu. Apreciou a cultura afro, a música popular, a paisagem, a poesia e a culinária da Ilha, ainda que ela estivesse sob o tacão do sanguinário ditador Machado. Por onde passou deixou um ror de amigos e admiradores. É curioso que na estadia em Paris não tenha feito contato com a chamada geração perdida, da qual faziam parte Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald e outros, em plena efervescência na época. Também excursionou pela Argentina, onde fez amizade com Pablo Neruda, e pelo Uruguai, obtendo sempre grande sucesso nas apresentações. Em todas essas andanças estava produzindo, planejando, anotando, embora no fundo elas constituíssem uma fuga do ambiente opressor da Espanha. Planejava vir ao Brasil mas não lhe deram tempo.

Lorca muito havia escrito e falado em defesa da liberal-democracia, além de simpatizar com as vanguardas artísticas e literárias que brotavam na Europa. Para os falangistas que, nessa altura, haviam implantado o terror em Granada, essas constituíam posições de subversivos, vermelhos e comunistas. Em consequência, o poeta caiu em desgraça e ficou sob a mira implacável dos repressores. Tomado de intenso pavor, passou a viver na casa de amigos, mas não faltou quem o denunciasse, como costuma acontecer nessas ocasiões. Os dedo-duros estavam a postos. Conduzido à sede do Governo Civil, na tarde de 16 de agosto de 1936, lá permaneceu trancafiado numa sala. Na noite de 18 para 19, algemado a outro prisioneiro, foi levado de madrugada à vila de Viznar, até hoje lembrada como palco de milhares de execuções. E ali, sem o devido processo legal, sem o sagrado direito de defesa, sem o contraditório e sem ao menos ser interrogado, Federico García Lorca foi fuzilado de maneira sumária. Sepultado em cova rasa, na encosta de uma colina, ao lado de outras vítimas anônimas, sobre ele recaiu o silêncio. Ao transpirarem rumores de que o poeta havia sido assassinado, o governador, temeroso das consequências, afirmou que ignorava o destino do mesmo. O PEN Clube Internacional, presidido pelo célebre escritor H. G. Wells, buscou descobrir o paradeiro do poeta, sem resultado. A confirmação do acontecimento gerou um coro de protestos ao redor do mundo e de indignação pela perda injustificável de um reconhecido gênio das letras e das artes.

Federico García Lorca tornou-se um tema tabu na Espanha. Menções à sua pessoa, sua vida e sua obra submergiram diante de implacável censura. Só após a morte de Franco tudo voltou a ser pesquisado, estudado e publicado. Envergonhada, a ditadura tentou esconder o que havia feito.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/07/2018 às 10h57 | e.atha@terra.com.br

VIVENTES DO SERTÃO (3)

Nas andanças pelo romance “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, deparamos com o ex-jagunço Riobaldo Tatarana, narrador e personagem central, relatando que um dia percebeu que Zé Bebelo estava com medo. É difícil de imaginar. Então o grande chefe José Rebelo Adro Antunes, sobrechamado Zé Bebelo, valente condutor de um grupo temido e respeitado poderia lá sentir medo? Mas, conclui ele, conformado, “chega um dia se tem.” Esse medo, porém, não vinha de homem, por perigoso que fosse, de combates ou tiroteios, de traições e tocaias; era de outra natureza. “Medo dele era da bexiga, do risco de doença e morte: achando que o povo do Sucruiú podiam ter trazido o mau ar, e que mesmo o Sucruiú ainda demeava vizinho justo demais.” O primeiro impulso de Riobaldo foi rir, tão ridículo lhe parecia aquele medo do chefe, mas não podia e nem devia demonstrar. “Tanto ri – confessou ele. – Mas ri por de dentro, e procedi sério feito um pau do campo... Alguém estiver com medo, por exemplo, próximo, o medo dele quer logo passar para o senhor; mas, se o senhor firme aguentar de não temer, de jeito nenhum, a coragem sua redobra e tresdobra, que até espanta. Pois Zé Bebelo, que sempre se supria certo de si, tendo tudo por seguro, agora bambeava. Eu comecei a tremeluzir em mim” (p. 416). O medo é contagioso.

Por via das dúvidas, abalaram dali. Seguro morreu de velho. “Pelo que umas cinco léguas andamos – recordou ele. – De medo, meio, conforme decerto... Merecer logo ao menos uma semana de quieto, é que era justo; pois nenhum não estava mais na sua saúde... “ (Idem). Andaram e andaram. “E por fim viemos esbarrar em lugar de algum cômodo, mas feio, como feio não se vê. – Tudo é gerais, - eu pensei por consolo. Um homem, que com a machadinha na mão e sua cabaça a tiracol tratava de desmelar cortiço num pau do mato, esse indicou tudo necessário e deu a menção de onde é que estávamos. Na Coruja, um retiro taperado” (p. 417).

Mas a doença deles, por sorte, não era maligna. “Refiro ao senhor que, da bexiga-brava, não. Mas de outras enfermidades. Febres” (p. 418). Riobaldo não dormia, comia pouco, sentia perder a natureza de homem e, para completar, aquele lugar lúgubre provocou uma depressão. O jagunço pensou coisas más, pensamentos negativos e graves (suicídio?). Os cuidados de Diadorim e os chás de Raymundo Lé o curaram, a vida voltou a ficar certa e boa.

Pior sorte tiveram o Gregoriano e o Felisberto. O primeiro, picado por uma jararaca, no meio de um capim ralo, morreu. Já o Felisberto, coitado, levou um tiro de garrucha na cabeça e a bala de cobre “estava encravada na vida de seus encaixes e carnes, onde ferramenta de doutor nenhum não alcançava de escarafunchar” (p. 421). Desde então, de tempos em tempos, “de repente, sem razão entendível nenhuma, a cara desse Felisberto se esverdeava, até os dentes, de azinhavres... Ao que os olhos inchavam, tudo ficando em verde, uma mancha só... O nariz entupia, inchado. Ele tossia. E horror de se ver, o metal do esverdeio... Dizia naquelas horas que estava sem visiva, nada não enxergava” (Idem). Depois, aos poucos, ia azulando; aquilo era para sarar.

E ali no Coruja, lugar feio e triste de doer, padeciam seus males. Zé Bebelo não deixava de palavrear, procurando levantar o moral do bando. Alguém sugeriu invadir um lugarejo qualquer só para animar, mas Riobaldo não concordou. Passam os dias, os ânimos se refazem e a luta continua. Carecia de combater o Hermógenes, o mal maior, o inimigo de verdade. Hermógenes Saranhó Rodrigues Felipes, flagelo do sertão.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/07/2018 às 18h05 | e.atha@terra.com.br

VIventes do Sertão (2)

Homenagem ao “Grande Sertão: Veredas”, nos seus 60 anos.

Prosseguindo na peregrinação pelo romance “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa, vamos encontrar outra personagem que vive uma história das mais curiosas. Quem relata o sucedido é um Jõe Bexiguento, “duro homem jagunço, como ele no cerne era.” Homem de ideia curta, não variava, herdou do pai a sina de viver e jagunciar; para ele as coisas não se misturavam, eram bem divididas, separadas. “De Deus? Do demo? Deus a gente respeita, do demônio se esconjura e aparta...” (p. 237). E assim, com essa filosofia fatalista, ia vivendo em paz consigo mesmo e jagunçando.

Até que um dia, Jõe Bexiguento contou. O caso aconteceu no arraial de São João Leão, no sertão do Jequitinhonha, região mais pobre dos Gerais, lindeira da terra dele. Existia por lá uma mulher de nome Maria Mutema, “pessoa igual às outras, sem nenhuma diversidade” (p. 238). Uma noite, assim no mais, o marido dela entregou os pontos, morreu de madrugada. Ela invocou por socorro, o vizindário compareceu, que o lugarejo era pequeno. O morto não tinha sinais, não dava mostra, estava de boa saúde, tudo indicando ataque do coração, Na tarde do mesmo dia foi enterrado, bem enterrado.

“Maria Mutema – ele contou – era senhora vivida, mulher em preceito sertanejo. Se sentiu, foi em si, se sofreu muito não disse, guardou a dor sem demonstração. Mas isso lá é regra, entre gente que se diga, pelo visto a ninguém chamou atenção” (Idem). Agora, o que chamou atenção foi a repentina religião da mulher. Vestida de preto, ia à igreja todo santo dia e, mais ainda, se confessava a cada três com o vigário Padre Ponte.”Dera em carola e virou um lenho seco.” Estranho, muito estranho!

Meio gordo, descansado, na meia idade, Padre Ponte cumpria as obrigações de vigário. Fazia sermão, atendia de dia e de noite, era caridoso. Vigário de mão cheia. É verdade que havia gerado três filhos com outra Maria, dita a Maria do Padre, “que governava a casa e cozinhava para ele.” Os meninos da Maria do Padre, bem criados e bonitinhos, levavam vida normal. Ninguém maldava, aquilo era mais ou menos comum naqueles ínvios arredios de civilização.

O povaréu, porém, logo pegou a estranhar que Maria Mutema tivesse assim tantos pecados a confessar. Notou que Padre Ponte revelava visível desgosto ao ouvir as confissões da viúva. Alguma coisa acontecia que ele não podia transmitir a ninguém por causa do segredo da confissão. E o coitado do Padre Ponte pegou a minguar. “Foi adoecido ficando, de doença para morrer, se viu logo. De dia em dia, ele emagrecia, amofinava o modo, tinha dores, e enfim encaveirou, duma cor amarela de palha de milho velho, dava pena. Morreu triste...” (p. 239). Desde então Maria Mutema nunca voltou para rezar ou confessar. Enterrara dois homens que cruzaram seu caminho.

Mas vai que um dia... Chegaram no arraial dois missionários com jeitão estrangeiro, fortes, ativos, desses que agitam, movimentam, sacodem, exigem reza forte. Quando um deles pregava no púlpito, assim no mais, Maria Mutema principiou a entrar na igreja. Ninguém entendeu. O padre entreparou e a expulsou aos berros, convidando-a para um encontro de confissão na porta do cemitério. E ela, magra, fina, toda de preto, estacou e gemeu, pedindo perdão em público e confessou que tinha matado o marido, sem motivo, derramando chumbo derretido pelo buraquinho do ouvido, através de um funil, enquanto ele dormia. E matou o Padre Ponte de desgosto, repetindo e repetindo que tinha matado o marido porque estava apaixonada pelo padre e “queria ser concubina amásia” (p. 242). Tudo mentira, provocação, caso pensado.

Mandaram desenterrar os ossos do marido e “se conta que a gente sacolejava a caveira, e a bola de chumbo sacudia lá dentro, até tinia” (Idem). A mulher foi presa provisória na casa da escola esperando justiça.

Ela então se mostrou arrependida. Clamava de joelhos seu remorso, pedia perdão e castigo. Não comia, não sossegava, suplicava “que todos viessem cuspir na sua cara, dar bordoadas, que ela tudo isso merecia” (Idem). O povo foi se apiedando de tanta humilhação e sofrimento. “Alguns até diziam que Maria Mutema estava ficando santa” (p. 243).

 

O sertão é um mundo de mistérios.

 

Escrito por Enéas Athanázio, 25/06/2018 às 17h18 | e.atha@terra.com.br

Viventes do Sertão

Homenagem ao “Grande Sertão: Veredas”, nos seus 60 anos.

Tenho para mim que o romance “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa, é uma obra inesgotável e a cada releitura exibe nuances até então não percebidas. Impressiona a enorme quantidade de figuras e personagens que habitam aquelas páginas. Algumas se mostram de maneira fugaz e outras com mais constância, muitas desaparecendo sem deixar maiores marcas e algumas assumindo posição de destaque. Muitas têm nomes estranhíssimos, frutos da portentosa imaginação do escritor, ao passo que outras nem sequer são nominadas.

Entre estas últimas está o Moço de fora (assim, com maiúscula), figura misteriosa que surge no Andrequicé. Esse gabola parou de passagem naquele lugar e garganteou que para ali chegar era capaz de gastar apenas vinte minutos. Isso porque costeava o Rio do Chico pelas cabeceiras, explicava. Ora, o normal, a cavalo, era consumir dia e meio para fazer o trajeto. “Despontar o Rio pelas nascentes, – excogita Riobaldo, personagem central e narrador, - será a mesma coisa que um se redobrar nos internos deste nosso Estado nosso, custante viagem de uns três meses...” (p. 25). Pois bem, esse moço, se há (Riobaldo não o viu, se louva na “porfalação da gente naqueles dias de época”), estava mangando, fazendo fantasiação, doideira. Ou, então, a coisa era mais grave e ele era o próprio demo, o capiroto, o que-diga, o capeta, o satanazim, o cujo, o diabo em pessoa. Já um tal Aristides, que vive num buritizal à direita, de nome Vereda da Vaca-Mansa-de-Santa-Rita, todo mundo crê que ele não pode passar em três lugares “designados, porque então a gente escuta um chorinho, atrás, e uma vozinha que avisando – “Eu já vou! Eu já vou!” – que é o capiroto, o que-diga...” Não obstante, Aristides está se engordando de rico. São mistérios do sertão, onde o diabo gosta de se mostrar. O diabo? Ora, ora, o diabo não há! – sentencia Riobaldo (p. 624).

Mesmo não havendo, o satanás está sempre nas cogitações de Riobaldo. Ainda nesse capítulo, ele relata o caso de Jisé Simpilício a “quem qualquer daqui jura ele tem um capeta em casa, miúdo satanazim, preso obrigado a ajudar em toda ganância que executa: razão que o Simpilício se empresa em vias de completar de rico. Apre, por isso dizem também que a besta pra ele rupêia, nega de banda, não deixando, quando ele quer amontar...” (p. 24). Colaborar nas malandragens dos negócios, nos briques e nas tramóias, até que ele se pare de rico, tudo bem, de pleno acordo. Agora montar, isso não!

E vem o caso do rapaz seminarista “muito condizente, conferindo no livro de rezas e revestido de paramenta, com uma vara de maria-preta na mão – proseou que ia adjutorar o padre, para extraírem o Cujo, do corpo de uma velha, na Cachoeira dos Bois, ele ia com o vigário do Campo Redondo...” (p. 25). A pobre da velha estava espritada, carecia de reza forte, exorcismo. Riobaldo não relata o resultado da empreitada mas, em compensação, traz para o limpo, pela primeira vez, o “compadre meu Quelemém de Góis, que é quem muito me consola.” Ele “descreve que o que revela efeito são os baixos espíritos descarnados, de terceira, fuzuando nas piores trevas e com ânsias de se travarem com os viventes – dão encosto” (p. 25). No entanto, conclui ele: “Não acreditei patavim” (Idem).

Riobaldo, jagunço aposentado, agora fazendeiro rico, fica incomodado com o rei das trevas e seus tantos nomes, suspira: “Se eu pudesse esquecer tantos nomes!” E depois, compungido, cogita: “E, mesmo, quem de si de ser jagunço se entrete, já é por alguma competência entrante do demônio. Será não? Será?” (p. 26).

Ele não existe mas perturba a paz do fazendeiro Riobaldo. Isso porque “o diabo vige dentro do homem!”

“Viver é muito perigoso” – filosofa ele.

Escrito por Enéas Athanázio, 18/06/2018 às 14h22 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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