Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

VIVENTES DO SERTÃO (3)

Nas andanças pelo romance “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, deparamos com o ex-jagunço Riobaldo Tatarana, narrador e personagem central, relatando que um dia percebeu que Zé Bebelo estava com medo. É difícil de imaginar. Então o grande chefe José Rebelo Adro Antunes, sobrechamado Zé Bebelo, valente condutor de um grupo temido e respeitado poderia lá sentir medo? Mas, conclui ele, conformado, “chega um dia se tem.” Esse medo, porém, não vinha de homem, por perigoso que fosse, de combates ou tiroteios, de traições e tocaias; era de outra natureza. “Medo dele era da bexiga, do risco de doença e morte: achando que o povo do Sucruiú podiam ter trazido o mau ar, e que mesmo o Sucruiú ainda demeava vizinho justo demais.” O primeiro impulso de Riobaldo foi rir, tão ridículo lhe parecia aquele medo do chefe, mas não podia e nem devia demonstrar. “Tanto ri – confessou ele. – Mas ri por de dentro, e procedi sério feito um pau do campo... Alguém estiver com medo, por exemplo, próximo, o medo dele quer logo passar para o senhor; mas, se o senhor firme aguentar de não temer, de jeito nenhum, a coragem sua redobra e tresdobra, que até espanta. Pois Zé Bebelo, que sempre se supria certo de si, tendo tudo por seguro, agora bambeava. Eu comecei a tremeluzir em mim” (p. 416). O medo é contagioso.

Por via das dúvidas, abalaram dali. Seguro morreu de velho. “Pelo que umas cinco léguas andamos – recordou ele. – De medo, meio, conforme decerto... Merecer logo ao menos uma semana de quieto, é que era justo; pois nenhum não estava mais na sua saúde... “ (Idem). Andaram e andaram. “E por fim viemos esbarrar em lugar de algum cômodo, mas feio, como feio não se vê. – Tudo é gerais, - eu pensei por consolo. Um homem, que com a machadinha na mão e sua cabaça a tiracol tratava de desmelar cortiço num pau do mato, esse indicou tudo necessário e deu a menção de onde é que estávamos. Na Coruja, um retiro taperado” (p. 417).

Mas a doença deles, por sorte, não era maligna. “Refiro ao senhor que, da bexiga-brava, não. Mas de outras enfermidades. Febres” (p. 418). Riobaldo não dormia, comia pouco, sentia perder a natureza de homem e, para completar, aquele lugar lúgubre provocou uma depressão. O jagunço pensou coisas más, pensamentos negativos e graves (suicídio?). Os cuidados de Diadorim e os chás de Raymundo Lé o curaram, a vida voltou a ficar certa e boa.

Pior sorte tiveram o Gregoriano e o Felisberto. O primeiro, picado por uma jararaca, no meio de um capim ralo, morreu. Já o Felisberto, coitado, levou um tiro de garrucha na cabeça e a bala de cobre “estava encravada na vida de seus encaixes e carnes, onde ferramenta de doutor nenhum não alcançava de escarafunchar” (p. 421). Desde então, de tempos em tempos, “de repente, sem razão entendível nenhuma, a cara desse Felisberto se esverdeava, até os dentes, de azinhavres... Ao que os olhos inchavam, tudo ficando em verde, uma mancha só... O nariz entupia, inchado. Ele tossia. E horror de se ver, o metal do esverdeio... Dizia naquelas horas que estava sem visiva, nada não enxergava” (Idem). Depois, aos poucos, ia azulando; aquilo era para sarar.

E ali no Coruja, lugar feio e triste de doer, padeciam seus males. Zé Bebelo não deixava de palavrear, procurando levantar o moral do bando. Alguém sugeriu invadir um lugarejo qualquer só para animar, mas Riobaldo não concordou. Passam os dias, os ânimos se refazem e a luta continua. Carecia de combater o Hermógenes, o mal maior, o inimigo de verdade. Hermógenes Saranhó Rodrigues Felipes, flagelo do sertão.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/07/2018 às 18h05 | e.atha@terra.com.br

VIventes do Sertão (2)

Homenagem ao “Grande Sertão: Veredas”, nos seus 60 anos.

Prosseguindo na peregrinação pelo romance “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa, vamos encontrar outra personagem que vive uma história das mais curiosas. Quem relata o sucedido é um Jõe Bexiguento, “duro homem jagunço, como ele no cerne era.” Homem de ideia curta, não variava, herdou do pai a sina de viver e jagunciar; para ele as coisas não se misturavam, eram bem divididas, separadas. “De Deus? Do demo? Deus a gente respeita, do demônio se esconjura e aparta...” (p. 237). E assim, com essa filosofia fatalista, ia vivendo em paz consigo mesmo e jagunçando.

Até que um dia, Jõe Bexiguento contou. O caso aconteceu no arraial de São João Leão, no sertão do Jequitinhonha, região mais pobre dos Gerais, lindeira da terra dele. Existia por lá uma mulher de nome Maria Mutema, “pessoa igual às outras, sem nenhuma diversidade” (p. 238). Uma noite, assim no mais, o marido dela entregou os pontos, morreu de madrugada. Ela invocou por socorro, o vizindário compareceu, que o lugarejo era pequeno. O morto não tinha sinais, não dava mostra, estava de boa saúde, tudo indicando ataque do coração, Na tarde do mesmo dia foi enterrado, bem enterrado.

“Maria Mutema – ele contou – era senhora vivida, mulher em preceito sertanejo. Se sentiu, foi em si, se sofreu muito não disse, guardou a dor sem demonstração. Mas isso lá é regra, entre gente que se diga, pelo visto a ninguém chamou atenção” (Idem). Agora, o que chamou atenção foi a repentina religião da mulher. Vestida de preto, ia à igreja todo santo dia e, mais ainda, se confessava a cada três com o vigário Padre Ponte.”Dera em carola e virou um lenho seco.” Estranho, muito estranho!

Meio gordo, descansado, na meia idade, Padre Ponte cumpria as obrigações de vigário. Fazia sermão, atendia de dia e de noite, era caridoso. Vigário de mão cheia. É verdade que havia gerado três filhos com outra Maria, dita a Maria do Padre, “que governava a casa e cozinhava para ele.” Os meninos da Maria do Padre, bem criados e bonitinhos, levavam vida normal. Ninguém maldava, aquilo era mais ou menos comum naqueles ínvios arredios de civilização.

O povaréu, porém, logo pegou a estranhar que Maria Mutema tivesse assim tantos pecados a confessar. Notou que Padre Ponte revelava visível desgosto ao ouvir as confissões da viúva. Alguma coisa acontecia que ele não podia transmitir a ninguém por causa do segredo da confissão. E o coitado do Padre Ponte pegou a minguar. “Foi adoecido ficando, de doença para morrer, se viu logo. De dia em dia, ele emagrecia, amofinava o modo, tinha dores, e enfim encaveirou, duma cor amarela de palha de milho velho, dava pena. Morreu triste...” (p. 239). Desde então Maria Mutema nunca voltou para rezar ou confessar. Enterrara dois homens que cruzaram seu caminho.

Mas vai que um dia... Chegaram no arraial dois missionários com jeitão estrangeiro, fortes, ativos, desses que agitam, movimentam, sacodem, exigem reza forte. Quando um deles pregava no púlpito, assim no mais, Maria Mutema principiou a entrar na igreja. Ninguém entendeu. O padre entreparou e a expulsou aos berros, convidando-a para um encontro de confissão na porta do cemitério. E ela, magra, fina, toda de preto, estacou e gemeu, pedindo perdão em público e confessou que tinha matado o marido, sem motivo, derramando chumbo derretido pelo buraquinho do ouvido, através de um funil, enquanto ele dormia. E matou o Padre Ponte de desgosto, repetindo e repetindo que tinha matado o marido porque estava apaixonada pelo padre e “queria ser concubina amásia” (p. 242). Tudo mentira, provocação, caso pensado.

Mandaram desenterrar os ossos do marido e “se conta que a gente sacolejava a caveira, e a bola de chumbo sacudia lá dentro, até tinia” (Idem). A mulher foi presa provisória na casa da escola esperando justiça.

Ela então se mostrou arrependida. Clamava de joelhos seu remorso, pedia perdão e castigo. Não comia, não sossegava, suplicava “que todos viessem cuspir na sua cara, dar bordoadas, que ela tudo isso merecia” (Idem). O povo foi se apiedando de tanta humilhação e sofrimento. “Alguns até diziam que Maria Mutema estava ficando santa” (p. 243).

 

O sertão é um mundo de mistérios.

 

Escrito por Enéas Athanázio, 25/06/2018 às 17h18 | e.atha@terra.com.br

Viventes do Sertão

Homenagem ao “Grande Sertão: Veredas”, nos seus 60 anos.

Tenho para mim que o romance “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa, é uma obra inesgotável e a cada releitura exibe nuances até então não percebidas. Impressiona a enorme quantidade de figuras e personagens que habitam aquelas páginas. Algumas se mostram de maneira fugaz e outras com mais constância, muitas desaparecendo sem deixar maiores marcas e algumas assumindo posição de destaque. Muitas têm nomes estranhíssimos, frutos da portentosa imaginação do escritor, ao passo que outras nem sequer são nominadas.

Entre estas últimas está o Moço de fora (assim, com maiúscula), figura misteriosa que surge no Andrequicé. Esse gabola parou de passagem naquele lugar e garganteou que para ali chegar era capaz de gastar apenas vinte minutos. Isso porque costeava o Rio do Chico pelas cabeceiras, explicava. Ora, o normal, a cavalo, era consumir dia e meio para fazer o trajeto. “Despontar o Rio pelas nascentes, – excogita Riobaldo, personagem central e narrador, - será a mesma coisa que um se redobrar nos internos deste nosso Estado nosso, custante viagem de uns três meses...” (p. 25). Pois bem, esse moço, se há (Riobaldo não o viu, se louva na “porfalação da gente naqueles dias de época”), estava mangando, fazendo fantasiação, doideira. Ou, então, a coisa era mais grave e ele era o próprio demo, o capiroto, o que-diga, o capeta, o satanazim, o cujo, o diabo em pessoa. Já um tal Aristides, que vive num buritizal à direita, de nome Vereda da Vaca-Mansa-de-Santa-Rita, todo mundo crê que ele não pode passar em três lugares “designados, porque então a gente escuta um chorinho, atrás, e uma vozinha que avisando – “Eu já vou! Eu já vou!” – que é o capiroto, o que-diga...” Não obstante, Aristides está se engordando de rico. São mistérios do sertão, onde o diabo gosta de se mostrar. O diabo? Ora, ora, o diabo não há! – sentencia Riobaldo (p. 624).

Mesmo não havendo, o satanás está sempre nas cogitações de Riobaldo. Ainda nesse capítulo, ele relata o caso de Jisé Simpilício a “quem qualquer daqui jura ele tem um capeta em casa, miúdo satanazim, preso obrigado a ajudar em toda ganância que executa: razão que o Simpilício se empresa em vias de completar de rico. Apre, por isso dizem também que a besta pra ele rupêia, nega de banda, não deixando, quando ele quer amontar...” (p. 24). Colaborar nas malandragens dos negócios, nos briques e nas tramóias, até que ele se pare de rico, tudo bem, de pleno acordo. Agora montar, isso não!

E vem o caso do rapaz seminarista “muito condizente, conferindo no livro de rezas e revestido de paramenta, com uma vara de maria-preta na mão – proseou que ia adjutorar o padre, para extraírem o Cujo, do corpo de uma velha, na Cachoeira dos Bois, ele ia com o vigário do Campo Redondo...” (p. 25). A pobre da velha estava espritada, carecia de reza forte, exorcismo. Riobaldo não relata o resultado da empreitada mas, em compensação, traz para o limpo, pela primeira vez, o “compadre meu Quelemém de Góis, que é quem muito me consola.” Ele “descreve que o que revela efeito são os baixos espíritos descarnados, de terceira, fuzuando nas piores trevas e com ânsias de se travarem com os viventes – dão encosto” (p. 25). No entanto, conclui ele: “Não acreditei patavim” (Idem).

Riobaldo, jagunço aposentado, agora fazendeiro rico, fica incomodado com o rei das trevas e seus tantos nomes, suspira: “Se eu pudesse esquecer tantos nomes!” E depois, compungido, cogita: “E, mesmo, quem de si de ser jagunço se entrete, já é por alguma competência entrante do demônio. Será não? Será?” (p. 26).

Ele não existe mas perturba a paz do fazendeiro Riobaldo. Isso porque “o diabo vige dentro do homem!”

“Viver é muito perigoso” – filosofa ele.

Escrito por Enéas Athanázio, 18/06/2018 às 14h22 | e.atha@terra.com.br

O Craque Eterno

Aficionado das biografias e memórias (só me recuso a ler políticos e guerreiros), creio que nunca havia lido a vida de um jogador de futebol. Acabo de quebrar esse longo jejum com a leitura de “O Craque Eterno”, de autoria de Bola Teixeira, e que me foi ofertado por ele (Edição da IOESC – Florianópolis – 2001 – 280 págs.) Como informa o subtítulo, trata-se de “uma biografia de Teixeirinha, jogador símbolo do futebol catarinense.” O livro é bem feito, minucioso, ilustrado e fundamentado, retratando de maneira fiel o biografado, cujos traços físicos e psicológicos são apreendidos pelo leitor. De suas páginas o jogador salta vivo, ativo e participante como de fato é, não a figura inerte e apagada de tantas obras do gênero. Teve o autor a felicidade de reconstituir a vida de uma pessoa ainda presente, dotada de invejável memória e bons arquivos. Não tive essa sorte; meus biografados já “haviam passado para o outro lado do mistério” – como dizia mestre Machado – e os elementos informativos deixavam a desejar. Além do mais, o autor testemunhou parte dos fatos, na condição de filho de seu personagem. Isso, porém, em nada diminui seu trabalho; ao contrário, torna-o mais rico e confiável. Creio que nenhuma homenagem maior poderia prestar ao pai.

Embora Teixeirinha tivesse lavado minha alma catarinense nas célebres vitórias contra os vizinhos do norte e do sul e, mais tarde, morando no mesmo prédio, em Blumenau, nossos encontros fossem mais ou menos freqüentes, só agora posso dizer que o conheço. Sua trajetória de vida revela, antes de mais nada, uma pessoa com a cabeça no lugar, amante da vida provinciana e ligado à família, em tudo diferente dos deslumbrados de hoje. No amor à província ele não estava só, formando ao lado de nada menos que Gilberto Freyre, Érico Veríssimo e Luís da Câmara Cascudo, todos aferrados ao seu chão e que mesmo assim granjearam a consagração. Cascudo, aliás, se vangloriava de ser “provinciano incurável.” Sem poses de estrela, Teixeirinha se tornou uma estrela, ainda que conservando a aura de simpatia que lhe deu amigos e admiradores em todo o país. Resistiu sempre ao profissionalismo; seu amor era o esporte: a bola, a quadra, o jogo, a disputa que estavam no seu sangue.

Foi, de fato, um craque na expressão da palavra. É impressionante a quantidade de jogos em que atuou e, mais ainda, o número de gols que marcou. Raras foram as partidas em que não balançou as redes adversárias. Vestindo as camisas da seleção catarinense, do Palmeiras, do Botafogo, do Bangu, do Renaux (para o qual teve uma passagem traumática), do Olímpico e de outros clubes e combinados, foi permanente destaque, assim proclamado pela imprensa e pela torcida, mesmo numa idade em que seus colegas já haviam pendurado as chuteiras. Encerrada a carreira longa vitoriosa, em 1963, continuou praticando com fervor o tênis, o futebol de areia e outras modalidades. Não esqueço de um advogado blumenauense que enfatizava sua garra: “Nós queremos brincar; ele não – quer ganhar!”

Como em toda carreira, Teixeirinha viveu altos e baixos – o célebre “sube y baja” dos gringos. Ovacionado e carregado nos ombros, também foi vaiado e xingado; seu time infligiu derrota de 8x0 e perdeu por 4x0 para o mesmo adversário (pág. 175); realizou excursão à Europa e jogou em lugarejos do Vale do Itajaí, em estádios sem iluminação e quadras sem gramado; enfrentou a indisciplina de jogadores, o despreparo dos cartolas e as malcheirosas armações de bastidores; recebeu homenagens sem conta, tanto de entidades públicas como privadas. Sempre com a tranqüilidade e simpatia que tanto o marcam. Só não realizou o sonho de ser deputado.

Essa, em poucas linhas, a figura que emerge do livro de corpo inteiro: Nildo Teixeira de Melo, o Teixeirinha, habitante dos corações de tantas gerações catarinenses. Livro que mereceria maior atenção e melhor divulgação mas mergulha no silêncio da apagada e vil tristeza em que se transformou a vida cultural no Estado.

______________________________

Republico este artigo em homenagem ao grande Teixeirinha, meu amigo desde os tempos de Blumenau, e que nos deixou no dia 9 de junho. Com ele me associo ao sentimento de sua família, seus amigos e admiradores.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/06/2018 às 17h22 | e.atha@terra.com.br

Os escrúpulos de Maigret

Com esse título, a L & PMPocket publicou mais um dos múltiplos romances do escritor belga Georges Simenon (1903/1989) tendo como personagem central o célebre comissário da Polícia Judiciária francesa Jules Maigret. O investigador obteve grande renome por sua maneira hábil de desvendar os crimes, agindo sempre de maneira humana e respeitosa, procurando entender os infelizes que cometem crimes e caem nas malhas da lei. Sua figura impressionante fez dele um dos mais notórios detetives da ficção, ao lado de um Sherlock Holmes, um Hercule Poirot ou um Shell Scott. Para não fugir à regra, neste caso, como em tantos outros ele como que prevê o resultado sem que, no entanto, possa impedi-lo. Seu método de agir consiste em não ter método e, muitas vezes, deixa no leitor a impressão de que mais adivinha que desvenda.

Tudo tem início num dia marasmático na Polícia Judiciária, fato difícil de acontecer, e que ele descreve com absoluta precisão e economia de palavras. “Isto raramente acontece mais de uma vez ou duas por ano no Quai dês Orfèvres, e às vezes dura tão pouco que nem se tem tempo de perceber: de repente, após um período febril, durante o qual os casos se sucedem sem descanso, quando não chegam a três ou quatro simultaneamente, deixando todo o pessoal exausto a ponto de os inspetores, por falta de sono, terem os olhos vermelhos e esgazeados, de repente é a calmaria completa, o vazio, apenas pontuado por alguns telefonemas sem importância.” Assim estava o ambiente, descrito de forma tão precisa e enxuta que humilha qualquer narrador, numa manhã de 10 de janeiro, permitindo ao comissário observar com atenção o tempo reinante em Paris. “O céu, como as consciências e os humanos, - concluiu ele – era de um cinza neutro, quase o mesmo cinza das calçadas. Fazia frio, não o bastante para que fosse pitoresco e se falasse dele nos jornais, um frio apenas desagradável, que se sentia após ter andado por um certo tempo nas ruas.” É então que ele recebe uma estranha visita. Xavier Marton, vendedor de uma loja de brinquedos, especialista em trens elétricos, pede para vê-lo. Homem comum, sem nada de extraordinário, relata a Maigret que suspeita de que sua mulher deseja matá-lo. Mas não tem provas e assim não pode pleitear a instauração de um inquérito. Para completar, garante ao comissário que não é louco, tanto que havia consultado renomado psiquiatra e este atestara sua higidez mental. Tempos depois, Maigret recebe a visita da esposa de Marton, uma mulher bonita, sofisticada e muito elegante, que, por sua vez, suspeita do marido. Também não deseja processá-lo; quer apenas alertar o comissário. Nas conversas com o casal o mundo deles se abre e inúmeros detalhes são revelados. Com as mãos amarradas, Maigret nada pode fazer e só lhe resta encolher os ombros. Não há crime, não existe processo, nada que justifique uma ação policial. No entanto, o caso não lhe sai da cabeça e, por via das dúvidas, mesmo temendo parecer ridículo, põe um de seus homens a vigiar o casal. Ele parece farejar a tragédia no ar.

E então, num atropelo, as coisas acontecem numa certa manhã. Quando nem havia levantado da cama, o telefone toca e chega a notícia dura e fria tão temida: o crime aconteceu mais ou menos como ele presumia que haveria de acontecer. Não sabia quem era a vítima, tanto poderia ser um ou outro, mas agora se tratava de um fato consumado e não apenas de uma premonição.

A investigação tem início e Maigret não tarda a desvendar os fatos. Quando o juiz de instrução um certo Caméliau, de quem não gostava, entra no caso, ele já tem pronta a solução. Uma solução das mais engenhosas e que só a imaginação inesgotável de Simenon sabia engendrar. E que aqui não revelo para não estragar o prazer da surpresa do leitor.

Saindo do pesado palco do crime, Maigret se sente vazio e pesado. “Lá fora o frio fizera-se mais penetrante, e os flocos de neve, minúsculos e duros, visíveis apenas no foco das luzes, picavam a pele, onde pareciam querer se incrustar, pousavam nos cílios, nas sobrancelhas, nos lábios.”

Ler Georges Simenon é sempre uma experiência aliciante.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/06/2018 às 10h36 | e.atha@terra.com.br

A busca da imortalidade

Com as exceções de praxe, as pessoas em geral não desejam morrer e, quando isso acontece, mesmo porque é inevitável, não querem ser esquecidas. Como a morte esconde um mistério insondável, as religiões prometem a vida eterna, após o desenlace, pregando a crença na imortalidade da alma. O ser humano é dúplice, composto de corpo e alma, segundo os que têm fé. Enquanto o corpo acaba, vira pó, a alma galga outros mundos, escondidos sob o véu do mistério. Por via das dúvidas, o ser humano busca outras formas através das quais espera alcançar a imortalidade. Por duvidosas que sejam, não são poucos os que acreditam piamente nisso.

Entre tais meios estão a realização de grandes obras que marquem a passagem terrena da pessoa, como a publicação de livros, a produção de obras de arte, as conquistas científicas, e o ingresso nas agremiações e academias. No que concerne aos escritores, persiste a crença de que o autor desaparece mas a obra fica, embora essa permanência quase sempre seja efêmera. Poucas produções literárias perduram por longo tempo, como acontece com as de Platão, Aristóteles, Goethe, Balzac, Cervantes e outros tantos. A maioria das obras morre com o autor, quando não desaparece antes dele. Tenho conhecido muitos autores de obras mortas. Seja como for, no entanto, a ilusão de perenidade mantém o escritor na labuta, entregue ao mais solitário dos ofícios, esperançoso de que suas palavras cheguem ao futuro.

Outros buscam a imortalidade nas academias. Lutam com todas as forças para obter uma vaga, uma vez que a proposta dessas entidades é a de manter viva a memória de seus integrantes, o que nem sempre acontece. Aqui no Brasil o sonho de muitos é entrar na Academia Brasileira de Letras (ABL), pretensão difícil ao extremo. Há quem batalhe por anos e anos por uma vaga. Outros, no entanto, não se interessam. Escritores de grande renome, cujas obras exerceram notável influência, não foram acadêmicos: Érico Veríssimo, Gilberto Freyre, Mário de Andrade, Lima Barreto, Câmara Cascudo, Monteiro Lobato, Sílvio Meira, Joaquim Inojosa. Muitos políticos, por outro lado, usaram a força do cargo para abrir as portas da ABL: Getúlio Vargas, Lauro Muller, Fernando Henrique Cardoso e até ministros da ditadura. Tornaram-se corpos estranhos dentro da Instituição. Diante da dificuldade, muitos se contentam com a imortalidade estadual e até mesmo municipal. Quem não tem cão, caça com gato.

Meu saudoso amigo Nilto Maciel, escritor prolífico e talentoso, costumava dizer que o ingresso nas academias é a imortalidade inventada. Desde cedo – dizia ele – se convenceu de que não tinha alma, sendo, portanto, um mortal comum, e assim só lhe restava escrever e escrever para permanecer na lembrança das pessoas. Sua constante atividade despertou a atenção de alguns acadêmicos e estes decidiram levá-lo para o seu meio. “Pois eis que no meio do caminho desta vida – escreveu ele – me apareceu um desses seres eternos. Chamava-se Almeida Fischer, que queria ser mais imortal do que era, pois pertencia à Academia Brasiliense de Letras. Não se apresentou em corpo e alma, para não se fazer tão objetivo; mandou um seu colega me fazer comunicado quase letal: Eu fora escolhido para constituir a nova casa federal de letras, a Academia de Letras do Brasil. Tomei um susto, mas não morri. Ora, eu não queria vestir fardão. Muito menos farda. . .” Dias depois recebeu a visita do próprio acadêmico e “disse duas ou três frases indecorosas”, alegando que não se sentia acadêmico, considerava-se em fase de crescimento e despreparado para a vida acadêmica e, acima de tudo, não via necessidade da criação de mais uma academia. “Ele parecia não acreditar no que ouvia – disse Nilto. – Talvez eu estivesse brincando. Ou delirando. Você bebeu muito ontem? Certamente me acometia um surto de loucura. Ora, quem não quer ser imortal, quem não se sente excepcionalmente envaidecido e comovido de ser convidado a ingressar no círculo restrito dos olimpianos?” Espantado, incrédulo, olhos esbugalhados, o acadêmico parecia estatelado na cadeira. Onde já se viu alguém recusar semelhante convite? Como esse energúmeno se atreve a tanto?

Para melhor esclarecer as coisas, Nilto prometeu enviar uma carta detalhando seus motivos. Mas a carta chegou tarde demais. “Dias depois eu soube da tragédia: O homem se tinha morrido. Ou tinha deixado de ser vivo. Eu continuei mortal. . .” – concluiu Nilto Maciel.

Escrito por Enéas Athanázio, 04/06/2018 às 11h30 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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