Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

O LOBATO DAS GERAIS

Como estou sempre escrevendo sobre o Lobato da Paulicéia, o Monteiro, uso este título para que o leitor veja logo que hoje escrevo sobre outro Lobato, o das Minas Gerais. Manoel Lobato, com quem comecei a trocar cartas há poucos anos e só conheci cara-a-cara no ano passado, vive em Belo Horizonte, depois de ter perambulado pelo Espírito Santo e Rio de Janeiro. Bacharel em Direito, farmacêutico e jornalista profissional, tem escrito para grandes jornais brasileiros e foi editor do “Suplemento Literário do Minas Gerais”, numa das melhores fases dessa acatada publicação. Erudito, embora não goste de demonstrá-lo, é excelente papo e dono de uma verve admirável. Acima de tudo, porém, Manoel Lobato é o escritor consagrado – contista, cronista, articulista – sempre de primeira linha. Para completar, é um exímio carteador, arte que, infelizmente, está em extinção, vencida pelo telefone, o celular e o e-mail. Poucas pessoas sabem escrever cartas hoje em dia.

Suas cartas, datilografadas, tomam toda a folha do papel e começam com um “EA, fraterno” – sua marca registrada. Em vez daquela datação convencional, ele coloca, por exemplo, “são seis horas da tarde, em ponto, hora do ângelus, sexta-feira, com chuva fina, um pouco frio, 23 de janeiro de 2004, Sagrada Família (bairro onde reside), BH/MG.” Alinha depois os assuntos, sempre de uma forma sintética, mas muito clara. “Você me fala num filme baseado em seu conto – escreve. – Deve ser uma experiência boa para o autor. Vi aqui, há séculos, filme baseado num romance de Oswaldo França Jr., que já morreu. Ele estava na sala do cinema, todo risonho e feliz. Morreu num acidente de carro...” Em outra passagem: “Já escreveram que me viram com você na foto do jornal. O Possidonio diz que estou com pose de pai-de-santo, talvez por causa da roupa branca.” Falando sobre a foto que tiramos na Academia Mineira, disse ele: “Estamos os três em pose para a eternidade: o professor Guilherme com seu jeito de jovem, como ele é mesmo, você com seu jeito elegante, como você é mesmo, no corpo e no espírito, e eu, com meu jeito caipira, como sou mesmo, tentando protegê-lo com meu braço direito, como se quisesse prendê-lo mais tempo em terras mineiras. Gostei demais da foto. Vou colocá-la num quadro e pendurá-la em meu escritório.” Depois de alguns queixumes, aliás muito justos, escreve: “Que você seja o depositário de meu segredo e de minhas queixas. Afinal, amigo é para ouvir queixa de amigo. Você será o relicário em que deixarei minhas jóias falsas, bijuteria, nada de valor, embora minhas derradeiras relíquias.”

Concluindo a carta, lá vêm as boas tiradas de humor: “Em sinal de vassalagem, ato-lhe os atacadores de seu borzeguim. Em verdade e em metáfora, lavo seus pés em cerimônia lítero-religiosa, pois sou seu discípulo e acólito. Se você fundar uma religião, serei seu seguidor. Pode acreditar em minha profissão de fé: sou seu professo! Osculo-lhe, genuflexo, o dorso da destra. Sou seu fã.”

Grande Lobato! Bom seria se todas as cartas que recebo tivessem o mesmo sabor literário. Eu as recomendaria como modelos aos novos escritores, caso eles ainda escrevessem cartas.

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Para nosso pesar, Manoel Lobato foi mais uma vítima do Covid-19. Faleceu no dia 24 de julho. Farmacêutico, advogado e jornalista profissional, foi cronista diário do jornal O Tempo, de Belo Horizonte. Autor de vários livros, era muito festejado pela crítica. Homem ativo, movimentado, na juventude ostentava um cabelo hirsuto, sempre desgrenhado, usava óculos de armação escura e pesada e andava com a camisa desabotoada e a gravata frouxa. Dava a impressão de um sujeito zangado, irritadiço, mas na verdade era alegre e risonho. Trocamos cartas por longos anos mas só o encontrei uma única vez como ele menciona em carta. Lamento muito, amigo Lobato! Você fará muita falta. 

Escrito por Enéas Athanázio, 03/08/2020 às 09h52 | e.atha@terra.com.br

UMA HISTÓRIA REAL

É impossível não ficar chocado com a leitura do livro “O garoto que seguiu o pai para Auschwitz”, de autoria do jornalista americano Jeremy Dronfield (Editora Objetiva - Rio – 2019). Depois de se tornar um best-seller internacional, o livro tem merecido a atenção da crítica nacional graças ao que contém de espantoso e revoltante. Dentre a imensa bibliografia existente sobre o tema, o livro se destaca porque reconstrói o cotidiano dos campos de concentração nazistas com base, em grande parte, no diário que um dos prisioneiros, no caso o pai, consegue esconder e manter atualizado durante os anos de sobrevivência na prisão. Além de relatar os acontecimentos com toda a crueza do momento, o diário indicou incontáveis fontes para a reconstituição dos fatos e apontou personagens que se sobressaíram pela inacreditável crueldade.

Gustav Kleinmann era um modesto artesão de Viena. Vivia em paz e de maneira modesta em companhia da esposa e de quatro filhos. Tinha bom relacionamento com os vizinhos e numerosas pessoas da cidade que o cumprimentavam com um sorriso nos lábios. Mas era judeu e isso o predestinava ao sofrimento e à desgraça. Quando Hitler se fixou no poder na Alemanha, a pregação antissemita na Áustria cresceu com grande rapidez, ainda mais depois que ele tornou público o antigo desejo de anexar os dois países que, para ele, constituíam uma só Alemanha. Os judeus passaram a ser discriminados, as pessoas os evitavam e até os vizinhos, antes amigos, agora se mostravam hostis. Uma das filhas é ofendida na rua por um colega de colégio e os filhos eram forçados a quebrar esquinas para não se depararem com os grupos nazistas que faziam pregação. As opiniões se dividem a favor e contra a anexação. Para decidir a questão, o chanceler austríaco designou um plebiscito. Furioso, Hitler exigiu o cancelamento da votação, temeroso de uma derrota. O chanceler resistiu e acabou deposto do cargo, sucedido por um fantoche, uma dessas pessoas abjetas que sempre surgem nesses momentos. O plebiscito é realizado, os resultados manipulados, e os favoráveis à anexação obtêm grande vitória. Hitler decreta a anexação. Era a Anschluss, comemorada por Hitler em pessoa em monumental desfile pelas ruas de Viena. A partir de então os direitos dos judeus foram suprimidos um a um, a tal ponto que a vida se tornou impossível.

Nenhum judeu podia viver em paz. Todos reduziram suas atividades e passaram a viver segregados em suas casas. Embora judeu, Gustav não era ortodoxo e se considerava em tudo um cidadão austríaco e patriota. Havia lutado pela pátria, como soldado, na I Guerra Mundial, quando sofreu graves ferimentos e foi condecorado. Mas nada disso adiantou e ele e o filho Fritz, ainda menino, foram presos e enviados para o campo de concentração de Buchenvald num daqueles trens destinados ao transporte de gado e sempre superlotadas. Aí tem início um inferno indescritível.

Depois de uma viagem estafante, em que muitos morreram, foram descarregados no campo. Cabelos raspados e trajando uniformes listrados, são enviados ao trabalho escravo em favor do esforço nazista de guerra. As condições de trabalho são brutais, os espancamentos comuns, as ofensas e os insultos se repetem (“porco judeu” é o mais usado) e até mesmo o assassinato se torna banal. Tempos depois Gustav, o pai, é designado para Auschwitz, o mais absurdo engenho montado para a execução de seres humanos em escala industrial. É nesse momento que o ainda menino Fritz toma uma dessas decisões heróicas de que só os grandes são capazes. Para não se afastar do pai, pede para ser enviado com ele, mesmo sabendo que isso provavelmente lhe custaria a vida. Embarcados para o novo destino, iniciam uma fase ainda mais brutal. Os mais fracos são enviados para as câmaras de gás, cujas chaminés expelem a fumaça que impregna não apenas o campo mas também a região. Submetidos ao trabalho escravo, famintos, sujos e mal agasalhados, realizam trabalhos forçados em pedreiras, nos bosques, nas olarias e outros mais, sempre vigiados pelos oficiais da SS e pelos kapos, levando chicotadas e coronhadas por qualquer motivo e até mesmo sem motivo algum. Muitos oficiais se destacaram pela extrema brutalidade; outros foram premiados pelo número de prisioneiros assassinados. Mas pai e filho resistem como podem, superando dias tenebrosos e decididos mais que nunca a sobreviver.

A II Guerra Mundial prossegue. O sucesso até então favorável aos nazistas começa a mudar e os ares da vitória bafejam os Aliados. O Exército Vermelho se aproxima de Auschwitz, o campo vai sendo desativado, é necessário esconder os vestígios das brutalidades cometidas. Em longas filas, os prisioneiros são forçados a uma longa marcha rumo à Alemanha. Trôpegos, famintos, vacilantes, homens, mulheres, velhos, crianças, doentes, aleijados, todos têm que caminhar e caminhar; Os que vacilam são espancados; os que caem, fuzilados. E a marcha tenebrosa prossegue porque os soviéticos avançam e é imperioso esconder os indícios. Ao verificar o que acontecera naquele campo, o comandante das forças Aliadas determinou: “Filmem e fotografem tudo, tomem o maior número de depoimentos porque dentro de dez anos não faltará algum louco que diga que isso não aconteceu!” Exatamente como veio a acontecer.

Pai e filho continuam vivos enquanto são levados de um campo para outro, todos lotados. Num desses trechos Fritz consegue saltar do trem em movimento e fugir. Mais tarde, terminada a guerra, eles se reencontram em Viena e lutam para retomar o itinerário da vida. Fritz se torna ativo defensor dos direitos humanos e divulgador incansável do que aconteceu nos tenebrosos campos nazistas. Mas pai e filho levam na alma as cicatrizes dos abomináveis sofrimentos de que padeceram. Depois de tudo, só espíritos de força extraordinária conseguem reiniciar uma vida normal. A depressão, a tristeza, a revolta os marcará para sempre. No caso deles, tanto o diário de Gustav como as entrevistas de Fritz contribuíram para reforçar a documentação a respeito de uma das mais monstruosas experiências humanas. Ainda bem!

Escrito por Enéas Athanázio, 27/07/2020 às 11h22 | e.atha@terra.com.br

OLGA SAVARY: TELURISMO E SENSUALIDADE

Olga Savary (Foto Divulgação)

Embora só a conhecesse em pessoa de poucos anos, acompanhei de longe o trabalho de Olga Savary desde muito tempo, lendo publicações de sua autoria e a respeito do que produziu na poesia e na ficção. Minha atitude em relação a ela sempre foi de respeito intelectual, não apenas pela qualidade de sua obra, – de resto notória, – mas também em virtude de outros fatores, em especial de três: a solidariedade, o amor à terra e o arrojo na composição da obra.

Sempre disposta a ajudar colegas de ofício, ainda mais quando se tratava de iniciantes, desde que revelassem talento, nunca se furtou a divulgá-los, publicando seus trabalhos em antologias, enviando livros a resenhistas e críticos, recomendando a escritores amigos. Eu próprio recebi indicações de poetas e escritores que ela julgou merecedores, sempre de forma acertada, revelando aquele “faro” típico das pessoas sensíveis e que não se entregam à contemplação única do próprio umbigo. Mais de uma vez escrevi a respeito de escritores e poetas por ela indicados e minhas palavras, nessas ocasiões, mereceram a confirmação de outros juízos. É claro que nesse afã de ajudar, alguns desgostos e decepções foram inevitáveis, não fosse o ser humano feito do barro que é. Isso, porém, só engrandeceu essa postura solidária, quase extinta nos dias bicudos que vivemos.

Quanto ao corajoso arrojo de suas posições, é fato conhecido e decantado. Todos recordam de seu pioneirismo na publicação da antologia “Carne Viva” (1984), a única que reúne apenas poemas eróticos, por ela organizada. Foi também a primeira mulher em nossa história literária a escrever um livro sobre temas eróticos no país e que recebeu o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras – “Magma” (1982). Para ela, sem liberdade e independência não poderia haver poesia. Como disse num de seus poemas inéditos, poeta é tudo, “é mulher e homem, demônio e anjo, pedra também, e árvore, selva e semente, grama e montanha, lava e água...” Livre, enfim.

Além disso, há na sua obra algo que me toca de forma especial, talvez porque esse sentimento também seja muito forte em mim – o amor à terra. Em toda sua produção, de forma explícita ou não, o chão natal amazônico é uma constante. O verdor da selva, os mananciais imensos de água, o clima abrasador, os mistérios indecifráveis, a alma do povo, o sotaque característico – tudo é subjacente na sua escrita como um visgo impregnado de amor, saudade, inspiração. Por urbano que seja o tema abordado, sinto por debaixo dele o fundo telúrico. Mesmo quando é universal e cosmopolita, nunca deixa de ser a mais brasileira de nossas poetas, como bem observou Gilberto Freyre, sempre arguto nas análises que fazia: “A poesia de Olga Savary é das coisas mais brasileiras que eu já vi. O Brasil respira na sua poesia, no seu texto. Viva o Brasil através de Olga Savary!” Para concluir, tomo a liberdade de lembrar o genial Câmara Cascudo, provinciano incurável e emérito fazedor de frases, numa das melhores que produziu: “Não rezo e nem ofereço a escritor que não tem o pó da terra natal debaixo dos pés da alma!”

__________________________
Homenagem à querida amiga Olga Savary,
falecida no dia 15 de maio, vítima de Covid-19.
Ela publicava um livro tendo este artigo
como prefácio.

Escrito por Enéas Athanázio, 20/07/2020 às 19h17 | e.atha@terra.com.br

PARA QUE SERVEM AS BIOGRAFIAS?

Gênero pouco valorizado em outros tempos, a biografia conquistou grande quantidade de leitores e se impôs no meio literário e livreiro. Inúmeras obras do gênero fizeram grande sucesso de vendas e leitores, lideradas pelas americanas, quase sempre volumosas e bem fundamentadas. No Brasil, muitas biografias se destacaram pela qualidade da exposição e pela fidelidade ao biografado.

O autor de biografias, por sua vez, tem que ser dotado de paciência sem limite para se entregar a longas e exaustivas buscas em livros, documentos, jornais velhos e outras fontes, além de realizar entrevistas e consultas para confirmar ou desmentir detalhes às vezes de pouca importância mas que se apresentam cercados de dúvidas. É por isso que se diz que o biógrafo é um benfeitor que ressuscita pessoas esquecidas e as traz de volta ao mundo dos leitores. Como autor de duas biografias, sei de experiência própria o quanto é árduo reconstituir uma vida, ainda mais num país pobre em arquivos organizados.

Manoel Onofre Jr.

Dentre esses benfeitores está Manoel Onofre Jr., escritor que vem se destacando num Estado de vida literária ativa como poucos, o Rio Grande do Norte. Depois de intenso e incansável trabalho, ele dá a público o volume “Antonio de Souza – Polycarpo Feitora” (Oito Editora – Natal – 2020), em que traz ao convívio dos leitores uma figura curiosa das letras e da política. Solteirão convicto, o biografado teve uma vida ativa e movimentada ocupando variados cargos públicos, às vezes dando a impressão de um sobe e desce, até se fazer governador do Estado por dois mandatos sem jamais pedir um voto e sempre deixando claro que detestava política. Depois de aposentado, mudou-se para o Recife, onde havia cursado a célebre Faculdade de Direito e onde faleceu, mas pedindo para ser sepultado em Natal. Homem excêntrico e de poucas falas, foi um governante exigente e incorruptível, não admitindo o menor descuido com a coisa pública. Esses aspectos de sua personalidade mereceram do autor um dos mais deliciosos capítulos do livro.

A par dessas atividades e sob o pseudônimo de Polycarpo Feitosa, o Dr. Souza, como era conhecido, cultivava a literatura e se entregava a um dos gêneros mais difíceis: o romance. Conservador empedernido, recusou-se a aceitar o modernismo e preferiu cultuar os clássicos de antanho e absorver sua influência. Seus romances são muito bem escritos e expõem com perfeição o meio sertanejo em que são ambientados, exibindo uma face documental. É curioso assinalar que eles contêm histórias de amor e paixão, embora nada indique que o solitário por opção tivesse algum dia amado. Além disso, um homem tão severo produz momentos de muito humor, o que sem dúvida constitui uma curiosidade. Entraria aí a velha teoria de que o escritor, no ato solitário de escrever, revela facetas que permanecem ocultas no dia a dia?

Com muito cuidado e revelando intensa cultura literária, o autor põe o biografado em pé, de corpo inteiro, e retratando ao fundo o meio em que ele viveu, agiu e reagiu. Não é apenas o relato de uma vida mas a reconstituição de sua passagem terrena. Os romances são examinados e a fortuna crítica é analisada, mostrando como as obras foram bem avaliadas, inclusive fora do Rio Grande do Norte, em que pese a personalidade do biografado, avesso a entrevistas e autopromoção.

Entre suas obras estão “Flor do Sertão”, romance, “Gizinha”, romance, “Encontros do Caminho”, contos, “Os Moluscos”, romance, “Jornal da Vida”, poemas, “Gente Arrancada”, romance, “Dois Recifes com Sessenta Anos no Meio”, memórias, “Quase romance . . . Quase Memória”, além de plaquetas contendo artigos, ensaios, discursos, conferências e trabalhos de cunho jurídico. Mas foi com o romance que ocupou um espaço importante na literatura de seu Estado, gênero em que foi pioneiro. Muitos críticos de renome nacional aplaudiram suas obras em artigos publicados na grande imprensa: Medeiros e Albuquerque, Agripino Grieco, João Ribeiro, Câmara Cascudo, Umberto Peregrino, Nilo Pereira e muitos outros. Em anexo o autor enriqueceu o livro com bilhetes do biografado, fotografias em que ele aprece sempre de branco, textos publicados na imprensa e uma pequena antologia. Trata-se, pois, de uma obra que faz justiça ao grande prosador que foi Polycarpo Feitora.

Dr. Souza nasceu em 1867 e faleceu em 1955.

Em ensaio publicado na Revista da Academia-Norte-Rio-Grandense de Letras (Número 62/2020) Manoel Onofre examina as relações de Polycarpo Feitora com a referida Academia, à qual curiosamente não pertenceu.

Para encerrar, vamos à indagação que serviu de título: para que servem as biografias? Segundo disse alguém, elas servem para não deixar morrer os nossos mortos.

Escrito por Enéas Athanázio, 13/07/2020 às 17h56 | e.atha@terra.com.br

Cinquenta Anos

Numa dessas manhãs de isolamento fui acordado pelo telefone. Na outra ponta da linha falava Nêodo Filho, que conheci menino, cujo pai, Nêodo Noronha Dias, é meu amigo desde os tempos acadêmicos, em Florianópolis. Para minha surpresa, comunicava ele que o prefácio que fiz para o livro do pai, em 1970, acabava de ser publicado. Nêodo pai guardou aquelas páginas durante 50 anos, ou seja, por meio século, e as publicou no livro “Só Poesias” (Editora Viseu – Paranavaí/PR – 2020), reunindo boa parte de sua obra poética. Curioso por ver como eu escrevia naquela época e saudoso dos velhos tempos, abri o volume e me deparei com o seguinte texto:

PRÓLOGO
O AUTOR E SUA OBRA(*)

Um prólogo, a rigor, deveria ser uma breve introdução à obra.

A experiência, entretanto, demonstra que tanto melhor compreendida e julgada é a obra quando se tem algum conhecimento prévio sobre o autor, sua formação, sua personalidade.

Eis porque deixo a obra à análise dos críticos e à apreciação dos leitores, fixando-me, principalmente, no seu autor.

Nêodo Noronha Dias não é mais um estreante na poesia. Santa Catarina, onde ele viveu tantos anos –, ora fustigado pelo vento sul, ora aquecido pelo sol dourado da querida Florianópolis –, já o conhece por meio de suas publicações nos principais jornais e dos programas radiofônicos de nossa capital.

Sua sensibilidade poética e seu incontestável talento literário são reconhecidos por quantos conhecem suas produções.

Extravasando as fronteiras estaduais, viu gravados na cera (**) alguns de seus sonetos, na voz de famoso produtos carioca de conhecido programa de rádio (***).

No Paraná, para onde o levou o itinerário de sua vida, suas poesias também enriqueceram alguns jornais.

Outros gêneros literários preocupam também a sua atividade criadora. É autor de numerosos contos, novelas e crônicas, sempre naquele estilo tão seu, tão pessoal, de enredo curto e desenlace trágico.

Nêodo é, aparentemente pelo menos, um espírito alegre. Sua alegria talvez esconda, como em quase todo poeta, a amargura que transparece em suas poesias.

No entanto, brinca com a vida; faz trocadilhos dos seus revezes; ridiculariza as situações que ela cria. Só não brinca com sua arte, uma arte em que é tão difícil acreditar nos dias que correm. Nesse particular é exigente e sério. Tudo reclama de si mesmo para buscar com seriedade e constância a perfeição da forma e a limpidez do conteúdo.

Sua poesia é o retrato fiel de um estado de espírito, é fixação definitiva de um sentimento real, é demonstração evidente da palpitação interior de um poeta que sofre com os males do mundo, cujas mazelas é obrigado a aceitar na vida cotidiana colocada em plano tão inferior em relação à existência artística.

Rebela-se contra a mesquinha condição humana. É dessa vida vazia que ele faz troça, é do dia a dia que ele zomba.

Duas facetas no temperamento do poeta, porque Nêodo é poeta até sem querer. Até aqui seus poemas apareceram em periódicos, onde são lidos hoje para serem esquecidos amanhã.

Agora surgem neste primeiro livro. (****) marco inicial de sua carreira que já se esboça promissora. O livro ficará . Irá para a estante do intelectual, para as bibliotecas, para o recesso dos lares. É uma vida que se inicia, com sua própria trajetória, independente da vontade de seu autor.

Depende apenas de uma condição: da aprovação unânime dos leitores. Aprovação que não titubeamos em prever porque o poeta realmente a merece,

Nêodo, consagrado pelos leitores, há de chorar. Mas, percebendo a pureza dos sentimentos que transmite a outros corações não lamentará os espinhos que ferem, a cada poema, sua sensibilidade artística.

E o leitor verá com ele que:

“Todos vão notar que é sobre espinhos
e não por fantásticos caminhos
que o homem chegará aos pés de Deus!”


Campos Novos - SC
_________________
(*) O Prólogo foi escrito em 1970 quando foi pensado o livro. Decidimos não o alterar mantendo a originalidade do texto.
(**) Em Discos de Vinil.
(***) Colid Filho – Salão Grená – Programa que era levado ao ar pela Rádio Tupi do RJ nos idos 70/80.
(****) De fato, este deveria ter sido o primeiro livro, no entanto ficou aguardando um momento mais oportuno. Outro livro foi publicado antes deste. O primeiro, “Lira de Quatro Luas”, saiu nos anos 80, por obra do apoio da Fundação Cultural de Paranavaí, e também uma participação na coletânea publicada pelo Diretório Acadêmico Tristão de Athaíde (DATA), nos anos 70, “Seara Nova”, foram precursores. Assim, atualizando o texto de Athanázio, este é o segundo livro do poeta. __________________________
Agora, uma mostra da poesia de NNDias:

A VIDA QUE NÃO FOI

Ouves? É o vento gélido que chora.
O mesmo vento que te viu menino.
O vento eterno a murmurar agora,
seguindo noite a dentro seu destino.

Aquela luz que prateia a mata,
é a mesma luz dos sonhares teus...
E se te foi a vida tão ingrata,
medita um pouco pois existe Deus!

Não te lamentes feito o vento errante
que em noite escura assusta o caminhante
a se arrastar eternamente ao léu.

Sorri, medita, olha o céu sereno.
Olhando ao céu te sentirás pequeno.
Sentir-te-ás pequeno olhando ao céu!

(P. 82)
 

Escrito por Enéas Athanázio, 06/07/2020 às 10h57 | e.atha@terra.com.br

DESDE A BABITONGA

Quarenta anos são quase meio século, período em que muita coisa importante pode acontecer, mudando inclusive o destino de povos e nações. É um lapso de tempo em que muitas vidas surgem e prosperam, enquanto outras fenecem sem chegar à maturidade. Muita gente nasceu, cresceu e se diplomou nesse período, integrando hoje as mais diversas categorias profissionais. Escritores, poetas, artistas e músicos deixaram o universo dos anônimos, produziram e lançaram suas obras, e agora formam entre os reconhecidos e consagrados.

Mas foi há quarenta anos, num recanto à beira da Babitonga, que nasceu o “Grupo Literário A ILHA”, reunindo um punhado de rapazes e moças que amavam a Literatura, com o objetivo de batalhar pelas letras e pela cultura, incentivando escritores, poetas e artistas para que produzissem cada vez mais e melhor, publicando e divulgando suas obras de todas as formas possíveis. Sem qualquer ajuda, oficial ou não, afrontando o desinteresse e até a hostilidade de alguns, puseram-se em campo e jamais deixaram de agir. Promoveram encontros de escritores e poetas, lançamentos de livros, palestras, debates, exposições, iniciativas criativas e variadas. Publicaram nesse período inúmeros livros, individuais e coletivos, além do suplemento A ILHA, que nunca deixou de circular, vencendo todos os obstáculos e dificuldades. As circunstâncias impuseram a mudança de sua sede, primeiro para Joinville e depois para Florianópolis, de sorte que o Grupo acabou se transferindo de uma ilha para outra. Isso, no entanto, não afetou a unidade e a disposição de seus integrantes, cada vez mais irmanados no seu ideal.

Num Estado em que todas as associações de escritores fracassaram, desaparecendo sem deixar vestígios e sem influir no meio cultural, o “Grupo Literário A ILHA” é um exemplo admirável de persistência e continuidade, merecendo o reconhecimento público de quem tem acompanhado sua luta de longos anos. Alegro-me por tê-lo prestigiado e aplaudido desde o início e faço votos de que continue assim, ativo e dinâmico, pelo tempo afora, sempre liderado pelo incansável Luiz Carlos Amorim, a quem felicito pelo grande evento: 40 anos de A ILHA.

Original - Balneário Camboriú, maio de 2020.
Escrito por Enéas Athanázio, 29/06/2020 às 12h35 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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Literatura
Por Enéas Athanázio

O LOBATO DAS GERAIS

Como estou sempre escrevendo sobre o Lobato da Paulicéia, o Monteiro, uso este título para que o leitor veja logo que hoje escrevo sobre outro Lobato, o das Minas Gerais. Manoel Lobato, com quem comecei a trocar cartas há poucos anos e só conheci cara-a-cara no ano passado, vive em Belo Horizonte, depois de ter perambulado pelo Espírito Santo e Rio de Janeiro. Bacharel em Direito, farmacêutico e jornalista profissional, tem escrito para grandes jornais brasileiros e foi editor do “Suplemento Literário do Minas Gerais”, numa das melhores fases dessa acatada publicação. Erudito, embora não goste de demonstrá-lo, é excelente papo e dono de uma verve admirável. Acima de tudo, porém, Manoel Lobato é o escritor consagrado – contista, cronista, articulista – sempre de primeira linha. Para completar, é um exímio carteador, arte que, infelizmente, está em extinção, vencida pelo telefone, o celular e o e-mail. Poucas pessoas sabem escrever cartas hoje em dia.

Suas cartas, datilografadas, tomam toda a folha do papel e começam com um “EA, fraterno” – sua marca registrada. Em vez daquela datação convencional, ele coloca, por exemplo, “são seis horas da tarde, em ponto, hora do ângelus, sexta-feira, com chuva fina, um pouco frio, 23 de janeiro de 2004, Sagrada Família (bairro onde reside), BH/MG.” Alinha depois os assuntos, sempre de uma forma sintética, mas muito clara. “Você me fala num filme baseado em seu conto – escreve. – Deve ser uma experiência boa para o autor. Vi aqui, há séculos, filme baseado num romance de Oswaldo França Jr., que já morreu. Ele estava na sala do cinema, todo risonho e feliz. Morreu num acidente de carro...” Em outra passagem: “Já escreveram que me viram com você na foto do jornal. O Possidonio diz que estou com pose de pai-de-santo, talvez por causa da roupa branca.” Falando sobre a foto que tiramos na Academia Mineira, disse ele: “Estamos os três em pose para a eternidade: o professor Guilherme com seu jeito de jovem, como ele é mesmo, você com seu jeito elegante, como você é mesmo, no corpo e no espírito, e eu, com meu jeito caipira, como sou mesmo, tentando protegê-lo com meu braço direito, como se quisesse prendê-lo mais tempo em terras mineiras. Gostei demais da foto. Vou colocá-la num quadro e pendurá-la em meu escritório.” Depois de alguns queixumes, aliás muito justos, escreve: “Que você seja o depositário de meu segredo e de minhas queixas. Afinal, amigo é para ouvir queixa de amigo. Você será o relicário em que deixarei minhas jóias falsas, bijuteria, nada de valor, embora minhas derradeiras relíquias.”

Concluindo a carta, lá vêm as boas tiradas de humor: “Em sinal de vassalagem, ato-lhe os atacadores de seu borzeguim. Em verdade e em metáfora, lavo seus pés em cerimônia lítero-religiosa, pois sou seu discípulo e acólito. Se você fundar uma religião, serei seu seguidor. Pode acreditar em minha profissão de fé: sou seu professo! Osculo-lhe, genuflexo, o dorso da destra. Sou seu fã.”

Grande Lobato! Bom seria se todas as cartas que recebo tivessem o mesmo sabor literário. Eu as recomendaria como modelos aos novos escritores, caso eles ainda escrevessem cartas.

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Para nosso pesar, Manoel Lobato foi mais uma vítima do Covid-19. Faleceu no dia 24 de julho. Farmacêutico, advogado e jornalista profissional, foi cronista diário do jornal O Tempo, de Belo Horizonte. Autor de vários livros, era muito festejado pela crítica. Homem ativo, movimentado, na juventude ostentava um cabelo hirsuto, sempre desgrenhado, usava óculos de armação escura e pesada e andava com a camisa desabotoada e a gravata frouxa. Dava a impressão de um sujeito zangado, irritadiço, mas na verdade era alegre e risonho. Trocamos cartas por longos anos mas só o encontrei uma única vez como ele menciona em carta. Lamento muito, amigo Lobato! Você fará muita falta. 

Escrito por Enéas Athanázio, 03/08/2020 às 09h52 | e.atha@terra.com.br

UMA HISTÓRIA REAL

É impossível não ficar chocado com a leitura do livro “O garoto que seguiu o pai para Auschwitz”, de autoria do jornalista americano Jeremy Dronfield (Editora Objetiva - Rio – 2019). Depois de se tornar um best-seller internacional, o livro tem merecido a atenção da crítica nacional graças ao que contém de espantoso e revoltante. Dentre a imensa bibliografia existente sobre o tema, o livro se destaca porque reconstrói o cotidiano dos campos de concentração nazistas com base, em grande parte, no diário que um dos prisioneiros, no caso o pai, consegue esconder e manter atualizado durante os anos de sobrevivência na prisão. Além de relatar os acontecimentos com toda a crueza do momento, o diário indicou incontáveis fontes para a reconstituição dos fatos e apontou personagens que se sobressaíram pela inacreditável crueldade.

Gustav Kleinmann era um modesto artesão de Viena. Vivia em paz e de maneira modesta em companhia da esposa e de quatro filhos. Tinha bom relacionamento com os vizinhos e numerosas pessoas da cidade que o cumprimentavam com um sorriso nos lábios. Mas era judeu e isso o predestinava ao sofrimento e à desgraça. Quando Hitler se fixou no poder na Alemanha, a pregação antissemita na Áustria cresceu com grande rapidez, ainda mais depois que ele tornou público o antigo desejo de anexar os dois países que, para ele, constituíam uma só Alemanha. Os judeus passaram a ser discriminados, as pessoas os evitavam e até os vizinhos, antes amigos, agora se mostravam hostis. Uma das filhas é ofendida na rua por um colega de colégio e os filhos eram forçados a quebrar esquinas para não se depararem com os grupos nazistas que faziam pregação. As opiniões se dividem a favor e contra a anexação. Para decidir a questão, o chanceler austríaco designou um plebiscito. Furioso, Hitler exigiu o cancelamento da votação, temeroso de uma derrota. O chanceler resistiu e acabou deposto do cargo, sucedido por um fantoche, uma dessas pessoas abjetas que sempre surgem nesses momentos. O plebiscito é realizado, os resultados manipulados, e os favoráveis à anexação obtêm grande vitória. Hitler decreta a anexação. Era a Anschluss, comemorada por Hitler em pessoa em monumental desfile pelas ruas de Viena. A partir de então os direitos dos judeus foram suprimidos um a um, a tal ponto que a vida se tornou impossível.

Nenhum judeu podia viver em paz. Todos reduziram suas atividades e passaram a viver segregados em suas casas. Embora judeu, Gustav não era ortodoxo e se considerava em tudo um cidadão austríaco e patriota. Havia lutado pela pátria, como soldado, na I Guerra Mundial, quando sofreu graves ferimentos e foi condecorado. Mas nada disso adiantou e ele e o filho Fritz, ainda menino, foram presos e enviados para o campo de concentração de Buchenvald num daqueles trens destinados ao transporte de gado e sempre superlotadas. Aí tem início um inferno indescritível.

Depois de uma viagem estafante, em que muitos morreram, foram descarregados no campo. Cabelos raspados e trajando uniformes listrados, são enviados ao trabalho escravo em favor do esforço nazista de guerra. As condições de trabalho são brutais, os espancamentos comuns, as ofensas e os insultos se repetem (“porco judeu” é o mais usado) e até mesmo o assassinato se torna banal. Tempos depois Gustav, o pai, é designado para Auschwitz, o mais absurdo engenho montado para a execução de seres humanos em escala industrial. É nesse momento que o ainda menino Fritz toma uma dessas decisões heróicas de que só os grandes são capazes. Para não se afastar do pai, pede para ser enviado com ele, mesmo sabendo que isso provavelmente lhe custaria a vida. Embarcados para o novo destino, iniciam uma fase ainda mais brutal. Os mais fracos são enviados para as câmaras de gás, cujas chaminés expelem a fumaça que impregna não apenas o campo mas também a região. Submetidos ao trabalho escravo, famintos, sujos e mal agasalhados, realizam trabalhos forçados em pedreiras, nos bosques, nas olarias e outros mais, sempre vigiados pelos oficiais da SS e pelos kapos, levando chicotadas e coronhadas por qualquer motivo e até mesmo sem motivo algum. Muitos oficiais se destacaram pela extrema brutalidade; outros foram premiados pelo número de prisioneiros assassinados. Mas pai e filho resistem como podem, superando dias tenebrosos e decididos mais que nunca a sobreviver.

A II Guerra Mundial prossegue. O sucesso até então favorável aos nazistas começa a mudar e os ares da vitória bafejam os Aliados. O Exército Vermelho se aproxima de Auschwitz, o campo vai sendo desativado, é necessário esconder os vestígios das brutalidades cometidas. Em longas filas, os prisioneiros são forçados a uma longa marcha rumo à Alemanha. Trôpegos, famintos, vacilantes, homens, mulheres, velhos, crianças, doentes, aleijados, todos têm que caminhar e caminhar; Os que vacilam são espancados; os que caem, fuzilados. E a marcha tenebrosa prossegue porque os soviéticos avançam e é imperioso esconder os indícios. Ao verificar o que acontecera naquele campo, o comandante das forças Aliadas determinou: “Filmem e fotografem tudo, tomem o maior número de depoimentos porque dentro de dez anos não faltará algum louco que diga que isso não aconteceu!” Exatamente como veio a acontecer.

Pai e filho continuam vivos enquanto são levados de um campo para outro, todos lotados. Num desses trechos Fritz consegue saltar do trem em movimento e fugir. Mais tarde, terminada a guerra, eles se reencontram em Viena e lutam para retomar o itinerário da vida. Fritz se torna ativo defensor dos direitos humanos e divulgador incansável do que aconteceu nos tenebrosos campos nazistas. Mas pai e filho levam na alma as cicatrizes dos abomináveis sofrimentos de que padeceram. Depois de tudo, só espíritos de força extraordinária conseguem reiniciar uma vida normal. A depressão, a tristeza, a revolta os marcará para sempre. No caso deles, tanto o diário de Gustav como as entrevistas de Fritz contribuíram para reforçar a documentação a respeito de uma das mais monstruosas experiências humanas. Ainda bem!

Escrito por Enéas Athanázio, 27/07/2020 às 11h22 | e.atha@terra.com.br

OLGA SAVARY: TELURISMO E SENSUALIDADE

Olga Savary (Foto Divulgação)

Embora só a conhecesse em pessoa de poucos anos, acompanhei de longe o trabalho de Olga Savary desde muito tempo, lendo publicações de sua autoria e a respeito do que produziu na poesia e na ficção. Minha atitude em relação a ela sempre foi de respeito intelectual, não apenas pela qualidade de sua obra, – de resto notória, – mas também em virtude de outros fatores, em especial de três: a solidariedade, o amor à terra e o arrojo na composição da obra.

Sempre disposta a ajudar colegas de ofício, ainda mais quando se tratava de iniciantes, desde que revelassem talento, nunca se furtou a divulgá-los, publicando seus trabalhos em antologias, enviando livros a resenhistas e críticos, recomendando a escritores amigos. Eu próprio recebi indicações de poetas e escritores que ela julgou merecedores, sempre de forma acertada, revelando aquele “faro” típico das pessoas sensíveis e que não se entregam à contemplação única do próprio umbigo. Mais de uma vez escrevi a respeito de escritores e poetas por ela indicados e minhas palavras, nessas ocasiões, mereceram a confirmação de outros juízos. É claro que nesse afã de ajudar, alguns desgostos e decepções foram inevitáveis, não fosse o ser humano feito do barro que é. Isso, porém, só engrandeceu essa postura solidária, quase extinta nos dias bicudos que vivemos.

Quanto ao corajoso arrojo de suas posições, é fato conhecido e decantado. Todos recordam de seu pioneirismo na publicação da antologia “Carne Viva” (1984), a única que reúne apenas poemas eróticos, por ela organizada. Foi também a primeira mulher em nossa história literária a escrever um livro sobre temas eróticos no país e que recebeu o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras – “Magma” (1982). Para ela, sem liberdade e independência não poderia haver poesia. Como disse num de seus poemas inéditos, poeta é tudo, “é mulher e homem, demônio e anjo, pedra também, e árvore, selva e semente, grama e montanha, lava e água...” Livre, enfim.

Além disso, há na sua obra algo que me toca de forma especial, talvez porque esse sentimento também seja muito forte em mim – o amor à terra. Em toda sua produção, de forma explícita ou não, o chão natal amazônico é uma constante. O verdor da selva, os mananciais imensos de água, o clima abrasador, os mistérios indecifráveis, a alma do povo, o sotaque característico – tudo é subjacente na sua escrita como um visgo impregnado de amor, saudade, inspiração. Por urbano que seja o tema abordado, sinto por debaixo dele o fundo telúrico. Mesmo quando é universal e cosmopolita, nunca deixa de ser a mais brasileira de nossas poetas, como bem observou Gilberto Freyre, sempre arguto nas análises que fazia: “A poesia de Olga Savary é das coisas mais brasileiras que eu já vi. O Brasil respira na sua poesia, no seu texto. Viva o Brasil através de Olga Savary!” Para concluir, tomo a liberdade de lembrar o genial Câmara Cascudo, provinciano incurável e emérito fazedor de frases, numa das melhores que produziu: “Não rezo e nem ofereço a escritor que não tem o pó da terra natal debaixo dos pés da alma!”

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Homenagem à querida amiga Olga Savary,
falecida no dia 15 de maio, vítima de Covid-19.
Ela publicava um livro tendo este artigo
como prefácio.

Escrito por Enéas Athanázio, 20/07/2020 às 19h17 | e.atha@terra.com.br

PARA QUE SERVEM AS BIOGRAFIAS?

Gênero pouco valorizado em outros tempos, a biografia conquistou grande quantidade de leitores e se impôs no meio literário e livreiro. Inúmeras obras do gênero fizeram grande sucesso de vendas e leitores, lideradas pelas americanas, quase sempre volumosas e bem fundamentadas. No Brasil, muitas biografias se destacaram pela qualidade da exposição e pela fidelidade ao biografado.

O autor de biografias, por sua vez, tem que ser dotado de paciência sem limite para se entregar a longas e exaustivas buscas em livros, documentos, jornais velhos e outras fontes, além de realizar entrevistas e consultas para confirmar ou desmentir detalhes às vezes de pouca importância mas que se apresentam cercados de dúvidas. É por isso que se diz que o biógrafo é um benfeitor que ressuscita pessoas esquecidas e as traz de volta ao mundo dos leitores. Como autor de duas biografias, sei de experiência própria o quanto é árduo reconstituir uma vida, ainda mais num país pobre em arquivos organizados.

Manoel Onofre Jr.

Dentre esses benfeitores está Manoel Onofre Jr., escritor que vem se destacando num Estado de vida literária ativa como poucos, o Rio Grande do Norte. Depois de intenso e incansável trabalho, ele dá a público o volume “Antonio de Souza – Polycarpo Feitora” (Oito Editora – Natal – 2020), em que traz ao convívio dos leitores uma figura curiosa das letras e da política. Solteirão convicto, o biografado teve uma vida ativa e movimentada ocupando variados cargos públicos, às vezes dando a impressão de um sobe e desce, até se fazer governador do Estado por dois mandatos sem jamais pedir um voto e sempre deixando claro que detestava política. Depois de aposentado, mudou-se para o Recife, onde havia cursado a célebre Faculdade de Direito e onde faleceu, mas pedindo para ser sepultado em Natal. Homem excêntrico e de poucas falas, foi um governante exigente e incorruptível, não admitindo o menor descuido com a coisa pública. Esses aspectos de sua personalidade mereceram do autor um dos mais deliciosos capítulos do livro.

A par dessas atividades e sob o pseudônimo de Polycarpo Feitosa, o Dr. Souza, como era conhecido, cultivava a literatura e se entregava a um dos gêneros mais difíceis: o romance. Conservador empedernido, recusou-se a aceitar o modernismo e preferiu cultuar os clássicos de antanho e absorver sua influência. Seus romances são muito bem escritos e expõem com perfeição o meio sertanejo em que são ambientados, exibindo uma face documental. É curioso assinalar que eles contêm histórias de amor e paixão, embora nada indique que o solitário por opção tivesse algum dia amado. Além disso, um homem tão severo produz momentos de muito humor, o que sem dúvida constitui uma curiosidade. Entraria aí a velha teoria de que o escritor, no ato solitário de escrever, revela facetas que permanecem ocultas no dia a dia?

Com muito cuidado e revelando intensa cultura literária, o autor põe o biografado em pé, de corpo inteiro, e retratando ao fundo o meio em que ele viveu, agiu e reagiu. Não é apenas o relato de uma vida mas a reconstituição de sua passagem terrena. Os romances são examinados e a fortuna crítica é analisada, mostrando como as obras foram bem avaliadas, inclusive fora do Rio Grande do Norte, em que pese a personalidade do biografado, avesso a entrevistas e autopromoção.

Entre suas obras estão “Flor do Sertão”, romance, “Gizinha”, romance, “Encontros do Caminho”, contos, “Os Moluscos”, romance, “Jornal da Vida”, poemas, “Gente Arrancada”, romance, “Dois Recifes com Sessenta Anos no Meio”, memórias, “Quase romance . . . Quase Memória”, além de plaquetas contendo artigos, ensaios, discursos, conferências e trabalhos de cunho jurídico. Mas foi com o romance que ocupou um espaço importante na literatura de seu Estado, gênero em que foi pioneiro. Muitos críticos de renome nacional aplaudiram suas obras em artigos publicados na grande imprensa: Medeiros e Albuquerque, Agripino Grieco, João Ribeiro, Câmara Cascudo, Umberto Peregrino, Nilo Pereira e muitos outros. Em anexo o autor enriqueceu o livro com bilhetes do biografado, fotografias em que ele aprece sempre de branco, textos publicados na imprensa e uma pequena antologia. Trata-se, pois, de uma obra que faz justiça ao grande prosador que foi Polycarpo Feitora.

Dr. Souza nasceu em 1867 e faleceu em 1955.

Em ensaio publicado na Revista da Academia-Norte-Rio-Grandense de Letras (Número 62/2020) Manoel Onofre examina as relações de Polycarpo Feitora com a referida Academia, à qual curiosamente não pertenceu.

Para encerrar, vamos à indagação que serviu de título: para que servem as biografias? Segundo disse alguém, elas servem para não deixar morrer os nossos mortos.

Escrito por Enéas Athanázio, 13/07/2020 às 17h56 | e.atha@terra.com.br

Cinquenta Anos

Numa dessas manhãs de isolamento fui acordado pelo telefone. Na outra ponta da linha falava Nêodo Filho, que conheci menino, cujo pai, Nêodo Noronha Dias, é meu amigo desde os tempos acadêmicos, em Florianópolis. Para minha surpresa, comunicava ele que o prefácio que fiz para o livro do pai, em 1970, acabava de ser publicado. Nêodo pai guardou aquelas páginas durante 50 anos, ou seja, por meio século, e as publicou no livro “Só Poesias” (Editora Viseu – Paranavaí/PR – 2020), reunindo boa parte de sua obra poética. Curioso por ver como eu escrevia naquela época e saudoso dos velhos tempos, abri o volume e me deparei com o seguinte texto:

PRÓLOGO
O AUTOR E SUA OBRA(*)

Um prólogo, a rigor, deveria ser uma breve introdução à obra.

A experiência, entretanto, demonstra que tanto melhor compreendida e julgada é a obra quando se tem algum conhecimento prévio sobre o autor, sua formação, sua personalidade.

Eis porque deixo a obra à análise dos críticos e à apreciação dos leitores, fixando-me, principalmente, no seu autor.

Nêodo Noronha Dias não é mais um estreante na poesia. Santa Catarina, onde ele viveu tantos anos –, ora fustigado pelo vento sul, ora aquecido pelo sol dourado da querida Florianópolis –, já o conhece por meio de suas publicações nos principais jornais e dos programas radiofônicos de nossa capital.

Sua sensibilidade poética e seu incontestável talento literário são reconhecidos por quantos conhecem suas produções.

Extravasando as fronteiras estaduais, viu gravados na cera (**) alguns de seus sonetos, na voz de famoso produtos carioca de conhecido programa de rádio (***).

No Paraná, para onde o levou o itinerário de sua vida, suas poesias também enriqueceram alguns jornais.

Outros gêneros literários preocupam também a sua atividade criadora. É autor de numerosos contos, novelas e crônicas, sempre naquele estilo tão seu, tão pessoal, de enredo curto e desenlace trágico.

Nêodo é, aparentemente pelo menos, um espírito alegre. Sua alegria talvez esconda, como em quase todo poeta, a amargura que transparece em suas poesias.

No entanto, brinca com a vida; faz trocadilhos dos seus revezes; ridiculariza as situações que ela cria. Só não brinca com sua arte, uma arte em que é tão difícil acreditar nos dias que correm. Nesse particular é exigente e sério. Tudo reclama de si mesmo para buscar com seriedade e constância a perfeição da forma e a limpidez do conteúdo.

Sua poesia é o retrato fiel de um estado de espírito, é fixação definitiva de um sentimento real, é demonstração evidente da palpitação interior de um poeta que sofre com os males do mundo, cujas mazelas é obrigado a aceitar na vida cotidiana colocada em plano tão inferior em relação à existência artística.

Rebela-se contra a mesquinha condição humana. É dessa vida vazia que ele faz troça, é do dia a dia que ele zomba.

Duas facetas no temperamento do poeta, porque Nêodo é poeta até sem querer. Até aqui seus poemas apareceram em periódicos, onde são lidos hoje para serem esquecidos amanhã.

Agora surgem neste primeiro livro. (****) marco inicial de sua carreira que já se esboça promissora. O livro ficará . Irá para a estante do intelectual, para as bibliotecas, para o recesso dos lares. É uma vida que se inicia, com sua própria trajetória, independente da vontade de seu autor.

Depende apenas de uma condição: da aprovação unânime dos leitores. Aprovação que não titubeamos em prever porque o poeta realmente a merece,

Nêodo, consagrado pelos leitores, há de chorar. Mas, percebendo a pureza dos sentimentos que transmite a outros corações não lamentará os espinhos que ferem, a cada poema, sua sensibilidade artística.

E o leitor verá com ele que:

“Todos vão notar que é sobre espinhos
e não por fantásticos caminhos
que o homem chegará aos pés de Deus!”


Campos Novos - SC
_________________
(*) O Prólogo foi escrito em 1970 quando foi pensado o livro. Decidimos não o alterar mantendo a originalidade do texto.
(**) Em Discos de Vinil.
(***) Colid Filho – Salão Grená – Programa que era levado ao ar pela Rádio Tupi do RJ nos idos 70/80.
(****) De fato, este deveria ter sido o primeiro livro, no entanto ficou aguardando um momento mais oportuno. Outro livro foi publicado antes deste. O primeiro, “Lira de Quatro Luas”, saiu nos anos 80, por obra do apoio da Fundação Cultural de Paranavaí, e também uma participação na coletânea publicada pelo Diretório Acadêmico Tristão de Athaíde (DATA), nos anos 70, “Seara Nova”, foram precursores. Assim, atualizando o texto de Athanázio, este é o segundo livro do poeta. __________________________
Agora, uma mostra da poesia de NNDias:

A VIDA QUE NÃO FOI

Ouves? É o vento gélido que chora.
O mesmo vento que te viu menino.
O vento eterno a murmurar agora,
seguindo noite a dentro seu destino.

Aquela luz que prateia a mata,
é a mesma luz dos sonhares teus...
E se te foi a vida tão ingrata,
medita um pouco pois existe Deus!

Não te lamentes feito o vento errante
que em noite escura assusta o caminhante
a se arrastar eternamente ao léu.

Sorri, medita, olha o céu sereno.
Olhando ao céu te sentirás pequeno.
Sentir-te-ás pequeno olhando ao céu!

(P. 82)
 

Escrito por Enéas Athanázio, 06/07/2020 às 10h57 | e.atha@terra.com.br

DESDE A BABITONGA

Quarenta anos são quase meio século, período em que muita coisa importante pode acontecer, mudando inclusive o destino de povos e nações. É um lapso de tempo em que muitas vidas surgem e prosperam, enquanto outras fenecem sem chegar à maturidade. Muita gente nasceu, cresceu e se diplomou nesse período, integrando hoje as mais diversas categorias profissionais. Escritores, poetas, artistas e músicos deixaram o universo dos anônimos, produziram e lançaram suas obras, e agora formam entre os reconhecidos e consagrados.

Mas foi há quarenta anos, num recanto à beira da Babitonga, que nasceu o “Grupo Literário A ILHA”, reunindo um punhado de rapazes e moças que amavam a Literatura, com o objetivo de batalhar pelas letras e pela cultura, incentivando escritores, poetas e artistas para que produzissem cada vez mais e melhor, publicando e divulgando suas obras de todas as formas possíveis. Sem qualquer ajuda, oficial ou não, afrontando o desinteresse e até a hostilidade de alguns, puseram-se em campo e jamais deixaram de agir. Promoveram encontros de escritores e poetas, lançamentos de livros, palestras, debates, exposições, iniciativas criativas e variadas. Publicaram nesse período inúmeros livros, individuais e coletivos, além do suplemento A ILHA, que nunca deixou de circular, vencendo todos os obstáculos e dificuldades. As circunstâncias impuseram a mudança de sua sede, primeiro para Joinville e depois para Florianópolis, de sorte que o Grupo acabou se transferindo de uma ilha para outra. Isso, no entanto, não afetou a unidade e a disposição de seus integrantes, cada vez mais irmanados no seu ideal.

Num Estado em que todas as associações de escritores fracassaram, desaparecendo sem deixar vestígios e sem influir no meio cultural, o “Grupo Literário A ILHA” é um exemplo admirável de persistência e continuidade, merecendo o reconhecimento público de quem tem acompanhado sua luta de longos anos. Alegro-me por tê-lo prestigiado e aplaudido desde o início e faço votos de que continue assim, ativo e dinâmico, pelo tempo afora, sempre liderado pelo incansável Luiz Carlos Amorim, a quem felicito pelo grande evento: 40 anos de A ILHA.

Original - Balneário Camboriú, maio de 2020.
Escrito por Enéas Athanázio, 29/06/2020 às 12h35 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.