Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

NA CAPITAL DA ERVA-MATE

Convidado pela Academia de Letras do Brasil, seção de Canoinhas, estive naquela cidade no dia 31 de maio. Participei como palestrante da sessão solene comemorativa do quinto aniversário da Instituição. A solenidade transcorreu com brilhantismo, foi muito bem organizada e contou com a presença de público considerável que não arredou pé do recinto até o final. Houve a apresentação dos acadêmicos com referências aos patronos de suas cadeiras, declamações e intervenção do coral da cidade. Na fala, recordei com brevidade minha passagem pela cidade, onde fui Promotor Público e professor, e fiz um resumo do panorama atual do regionalismo literário em nosso Estado, corrente literária com a qual Canoinhas contribui com dois expoentes: Fernando Tokarski e Mário Tessari.

Presidida pela Professora Rosane Godói, a Academia é formada por um grupo idealista e decidido. No seu primeiro quinqüênio já exibe um rico rol de realizações em favor da cultura em geral e das letras em particular. Entre seus membros estão Adair Dittrich, Pedro Penteado e Andreas Costenaro, todos com livros publicados e bem recebidos, além do referido Fernando Tokarski, historiador, dicionarista e contista regional de primeira linha. É também dedicado estudioso da erva-mate em todos seus aspectos, com ênfase na história e na fase áurea que impulsionou o desenvolvimento da cidade, fomentando a riqueza e o luxo e dando-lhe o merecido nome de Capital da Erva-mate. Graças à superior qualidade da “Ilex paraguariensis” lá produzida, é exportada para todos os recantos do país e também para o exterior. Comentei nesta coluna as obras de Dittrich, Penteado, Tokarski e Tessari.

A cidade planaltina de Santa Cruz de Canoinhas, a Ouro Verde de tantas histórias e lutas cresceu e melhorou. Está bem cuidada, suas praças vicejam, é dotada de excelente comércio e dispõe de importantes estabelecimentos de ensino em todos os graus. A Biblioteca Pública e o Museu Histórico são bem administrados e organizados. Durante a Guerra do Contestado (1912/1916), Canoinhas exerceu papel fundamental e lutou por todas as formas para permanecer em nosso Estado, tanto que seu lema é “Catharinensis semper!”.

O retorno a Canoinhas, ainda que breve, foi dos mais agradáveis. Revi velhos amigos e conheci pessoas, convivendo com eles momentos inesquecíveis. Minha esposa e eu fomos festejados, abraçados e presenteados com o carinho típico da gente serrana


Recebi a visita da Professora paulistana Camila Russo de Almeida Spagnoli, da USP, que prepara uma tese de doutorado sobre o escritor mineiro Godofredo Rangel (1884/1951), de quem continuo sendo o único biógrafo. Para melhor aprimorar seu trabalho, ela decidiu conhecer também o biógrafo de seu personagem e se deslocou até aqui com tal finalidade. Conversamos muito sobre o autor de “Vida Ociosa” e sua obra, ela gravou longa entrevista e cotejamos nossas informações. Para enriquecer suas pesquisas, ela foi a Blumenau para consultar o dossiê a meu respeito na Fundação Cultural e depois a Campos Novos, minha cidade natal, em busca de mais elementos. Chegando de retorno a São Paulo, informou que agora se entrega à escrita da tese que, pelo que se conclui, será algo monumental, ressuscitando Rangel do ostracismo e praticando um ato de autêntica justiça literária.  

Escrito por Enéas Athanázio, 05/06/2019 às 11h50 | e.atha@terra.com.br

ALHOS E BUGALHOS

Sílvio Romero (1851/1914) foi uma das figuras mais impressionantes do meio cultural brasileiro. Além de jurista, filósofo e folclorista, foi crítico literário e historiador da literatura. Segundo João Ribeiro, foi o autor da melhor história de nossa literatura até então publicada. Numa de suas inúmeras conferências, fez observações que continuam válidas até hoje pela acuidade com que analisou a realidade nacional. Apontava ele, em certa passagem, a nossa tendência de procurar bodes expiatórios para nossos problemas quando, muitas vezes, a solução está em nós mesmos. Procuramos – escreveu ele – “um responsável pelos nossos desacertos, uma espécie de bode expiatório em que descarregamos nossas cóleras e maldições, quando o mal é imanente à nossa própria índole, ao nosso caráter, que urge reformar por adequados e enérgicos meios.” E enumera exemplos: o mal estava na escravatura, depois no império, mais tarde no voto a bico de pena, na velha Constituição Federal, no modelo educacional e por aí além. No entanto, tudo isso foi mudado, reformado, esquecido e, não obstante... nossos problemas continuam os mesmos, em especial aquele que mais nos indigna – a corrupção. “À vista de todos esses passos errados – indagava ele, - onde se acha a raiz do mal? Em nós mesmos, em nossa própria índole, que urge modificar, quanto possível, encaminhando-nos por outras estradas mais largas e mais seguras.” Em vários trechos alude ele aos políticos profissionais, antes como hoje objeto de constantes críticas. E, no entanto, o político não é um extraterrestre, mas, como todos, um produto da mesma sociedade em que vivemos. Diante disso, a pergunta a ser feita é: por que nossa sociedade vem criando tantos corruptos? Como se dizia nos tempos de dantes, aí é que está o busilis. No momento em que escrevo o tema dominante é a reforma da Previdência. Nela estaria a panacéia milagrosa para todos nossos males e no dia imediato o país será outro. Haverá quem acredite?

Essas e outras observações foram sugeridas pelo livro “Sílvio Romero e a Europa dos Pobres”, de Francisco de Vasconcellos, cuja leitura é das mais interessantes.


Dois assuntos voltaram a ocupar espaços na mídia nestes últimos tempos. O primeiro diz respeito à entrevista concedida por Jacqueline Kennedy em 1964, poucos meses após o homicídio de seu marido, o presidente John F. Kennedy, em Dallas, no Texas. Numa passagem de sua longa fala ela confessa que o marido, em 1962, já tramava contra o presidente João Goulart em secretas conversas com o embaixador americano no Brasil. Segundo trechos transcritos em jornais, o Departamento de Estado americano “propõe o rápido reconhecimento e apoio a qualquer regime que os brasileiros instalem, substituindo Goulart. E os EUA reconheceram o novo governo no dia 2 de abril, enquanto João Goulart ainda estava no Brasil.” Concluindo: o bom moço, herói de guerra, campeão dos direitos civis, enquanto se fantasiava de democrata insuflava golpes e apoiava ditaduras em outro país. Triste realidade.

O segundo assunto trata da Comissão da Verdade, a quem cabe fazer a narrativa oficial das violações dos direitos humanos entre 1946 e 1988 no Brasil. Seu objetivo não é uma caça às bruxas mas colocar em pratos limpos todas as barbaridades cometidas, inclusive antes de 1964, no regime da Constituição de 1946, período em que perseguições políticas levaram muitos brasileiros à prisão e ao exílio, embora houvesse no país uma democracia formal. O pintor Cândido Portinari, por exemplo, teve que se exilar na Argentina. Muita coisa interessante vai ganhar registro oficial.


O jornal “Folha de S. Paulo” publicou um caderno especial denominado “O custo da corrupção.” Ali estão listados os grandes escândalos que vêm emporcalhando a vida pública do país. Como de costume, porém, os corruptos são execrados mas os corruptores são omitidos, como se não existissem. Como se fosse possível uma corrupção de mão única.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/06/2019 às 14h42 | e.atha@terra.com.br

INCIDENTE NATALINO

Naquela manhã, quando saía de casa, Neco estava feliz. Sentia-se leve e tranquilo como poucas vezes acontecera. Chegando à área que se abria para a praça, contemplou do alto a cidade parada e silenciosa naquele começo de dia de Natal. Estendeu o olhar pela campanha que cercava a cidade e se admirou com o verde vivo que reverberava à luz do sol e que em geral não observava, envolvido nas ocupações e negócios. Permaneceu por alguns momentos entregue àquela muda contemplação e depois desceu devagar os dois lances de escada que o separavam do solo. Na rua, envergando roupas novas e bem talhadas, caminhou em passos lentos até a avenida principal, cumprimentando sorridente os conhecidos com quem cruzava. Entrou, afinal, na floricultura que ainda abria as portas e adquiriu um ramalhete de flores para a mulher. Ela, com certeza, gostaria da gentileza, atitude frequente no passado e que aos poucos se tornou rara. Sem dúvida, ela merecia!

Retornando para casa, meio sem jeito, com as flores na mão, ruminava bons pensamentos. A empresa estava bem, o ano fora positivo para os negócios, o filho, ainda garoto, se revelou um bom aluno e a mulher continuava bonita e sensual. Aconteceram algumas confusões, entre elas o boato de que havia falado mal do padre vigário e ele tentara processá-lo, além de desancar os linguarudos num sermão raivoso de domingo. Os comentários foram maldosos, provocaram grande tensão, mas tudo acabou em nada. Também aconteceu o atropelamento da carroça com o velhinho que a conduzia, quando dirigia um calhambeque que estava a seus cuidados. Depois de muita discussão, o caso se resolveu a contento, ainda que desembolsando boa quantia. Ah! – lembrou de repente – houve a discussão (ele dizia discutição) com certo Arcidioso, tido e havido como perigoso, mas ele o enfrentou de revólver em punho e o outro fugiu com o rabo entre as pernas. Problemas menores ainda aconteceram, como é natural no correr da vivência. Agora, passado o tempo, todos se tornaram motivo de piadas e brincadeiras.

Em casa, Neco almoçou com a esposa e, depois de um bom descanso, começaram a beber. Aproveitando a ausência do filho que se encontrava em viagem, passando os festejos com os avós, avançaram nos brindes e empinaram consideráveis doses de champanhe. Depois se recolheram ao banheiro, encheram a enorme banheira de água espumante e se entregaram às carícias e ao amor. Ele enchia as taças e estimulava a mulher a beber. Ela já dava mostras de embriaguez, não tinha o hábito de beber, mas continuava ingerindo a bebida, estendida na banheira, lânguida e sonolenta, o corpo nu relaxado dentro da água tépida. Para estimulá-la, ele a puxou para baixo pelo dedo do pé, fazendo com que escorregasse, submergindo. Ela levantou a cabeça, tossindo a água que engoliu e rindo molemente. Outras doses foram tomadas e Neco repetia a perigosa brincadeira, puxando a mulher para baixo e fazendo-a submergir. E assim as mesmas manobras se repetiram até que, tomado por um repentino sentimento maligno, ele a manteve por mais tempo em baixo da água espumante. Só então, alarmado, percebeu que a mulher não voltava e nem se movia. Desesperado, puxou-a para fora e compreendeu num instante que fora longe demais. Ela não respirava; estava morta.

Tentou de todos os modos reanimá-la. Massagens no peito e nas costas, respiração boca-a-boca, tapinhas no rosto. Tudo inútil. O corpo bronzeado e sensual não tinha sinais vitais e permaneceu inerte sobre o tapete onde ele o colocou.

Tomado de desespero, saiu gritando por socorro pela rua a fora. Mas era tarde demais.

A notícia explodiu como uma bomba na pacatez da cidadezinha e ganhou todos os recantos. Pessoas cercaram a casa, curiosas e incrédulas. Os mais estranhos comentários dominaram as conversas por longo tempo e os incidentes do passado de Neco voltaram detalhados, esmiuçados e exagerados, inclusive alguns que se encontravam esquecidos. Mesmo sem julgamento, ele foi condenado, e aquele Natal permaneceu indelével na memória local.

Preso e condenado, Neco tudo recebeu com indiferença, como se não lhe dissesse respeito. Parecia desligado da realidade e cumpriu a pena sem reclamações. Expiava conformado a própria culpa. Deixando a prisão, mostrava-se triste e envelhecido. Em silêncio, liquidou os negócios e desapareceu.

Soube-se mais tarde que fixara residência numa fazendola das proximidades de outra cidade. E, para surpresa geral, casou-se com uma japonesa, cedendo talvez à curiosidade de verificar pessoalmente se as orientais são mesmo diferentes. Tratava-se de uma dúvida que o acicatava de longos anos.

Escrito por Enéas Athanázio, 27/05/2019 às 15h34 | e.atha@terra.com.br

CONTO EM XILOGRAVURA

Edições da Confraria, selo editorial da Confraria dos Bibliófilos do Brasil (CBB), com sede em Brasília, publicou um volume que é uma preciosidade. Trata-se do conto “Brutalidade”, de autoria do folclorista e pesquisador Leonardo Mota (1891/1948), única incursão conhecida na área da ficção, resgatada de um jornal que não pode ser identificado e publicada em 1920. Bastante longo, bem escrito e encadeado, o conto constitui-se numa grande surpresa, uma vez que revela o talento de um autor interessado em outras áreas para a short story. A história, chocante, se insere entre as obras da corrente naturalista e agrada pela maneira segura com que é conduzida, além do fato de ser uma raridade.

Mais curioso ainda é que o conto, além de publicado de maneira normal, é reproduzido em 50 xilogravuras de autoria do gravurista José Lourenço (Gonzaga), um dos mais conhecidos expoentes dessa arte tão difícil quanto trabalhosa. Como se sabe, a xilogravura é entalhada em uma prancha de um tipo especial de madeira (umburana ou louro), formando um molde sobre o qual é espalhada a tinta para permitir a impressão em papel. Lourenço é profissional da arte, de renome internacional, tendo realizado exposições em várias partes do mundo e suas obras estão expostas em importantes museus. Tem publicado álbuns, incontáveis capas de cordéis e realizado inúmeras outras obras.

Cada cena do conto é retratada em uma xilogravura conforme a visão do artista, de sorte que o leitor pode acompanhar o desenrolar da história cotejando com as ilustrações. A geografia dos locais, a paisagem, as características dos personagens, as suas fisionomias e reações faciais e tudo mais pode ser observado pelo leitor.

Segundo o editor, esse tipo de publicação é rotulado de Romance Gráfico Sem Palavras (Wordless Graphic Novels) e tem longa tradição em vários países. O processo foi criado pelo belga Frans Mosereel e tem sido praticado tanto na Europa como nos Estados Unidos. Não se confunde com as histórias em quadrinhos porque as ilustrações não têm legendas. (Nos Estados Unidos, novel é o nosso romance).

O livro contém interessante crônica de Mimosa Mota Fernandes sobre o pai Leonardo Mota, também conhecido como Leota, um ensaio de Jorge Brito sobre o contista e outro de Gilmar de Carvalho a respeito do gravurista. O conto, sob o aspecto literário, é analisado pelo crítico Sânzio de Azevedo em substancioso e preciso ensaio introdutório.

Como de costume, o livro é em si mesmo uma obra de arte gráfica. Em tamanho grande, com capa dura e sobrecapa, seus exemplares, numerados, se destinam a cada um dos associados da Confraria na ordem de suas inscrições. É obra para colecionadores, apaixonados por livros e leitores exigentes. Exemplares extras podem ser obtidos pelos interessados

_________________________
Confraria dos Bibliófilos do Brasil (CBB):
Caixa Postal 8 6 3 1 – CEP 70302-970 – DF.

 

Escrito por Enéas Athanázio, 20/05/2019 às 11h07 | e.atha@terra.com.br

O Exterminador

Desde guri Vico ouvia que o pinheiro prejudica o campo. As grimpas pontudas que se juntam no chão, afiadas e duras, espetam o gado e não permitem que ele paste. E quanto maior a quantidade de grimpas espalhadas, maior o espaço perdido na pastagem. Quando o pai saía para camperear, Vico ia montadinho na frente do arreio e, mais tarde, já mais taludo, na garupa. Nessas andanças pelo campo o pai cortava a facão os pinheirinhos novos que estavam começando a crescer. Pelo menos esses não vão incomodar! – dizia o fazendeiro. E assim Vico se tornou inimigo dos pinheiros.

Com o tempo chegou a primeira serraria. Pequena indústria, usando uma serra Tissot lerda e barulhenta, principiou a devorar os pinheiros de São Simão e das redondezas. Ainda distante das poderosas serras-fitas e com as toras arrastadas do mato por junta de bois, provocou a valorização das árvores e elas ganharam um preço que ninguém poderia imaginar. O pai de Vico encontrou uma aliada e em pouco tempo sua fazenda estava livre dos incômodos pinheiros e suas aguçadas grimpas. Novas serrarias surgiram, o preço dos pinheiros subia sem parar e muitos vizinhos que conservaram os seus enriqueceram do dia para a noite. O pai de Vico ganhava bom dinheiro com a venda de suas árvores e se arrependia em silêncio das que havia abatido. Mas era tarde.

Vico, no entanto, viu ali uma grande oportunidade. Decidiu instalar uma serraria para exterminar os pinheiros e, ao mesmo tempo, obter bons lucros. Estudou o assunto, aconselhou-se com técnicos, adquiriu maquinário moderno, guinchos e caminhões. Visitou a instalação da Companhia Lumber, em Três Barras, então considerada a maior e a mais moderna serraria da América Latina, conhecida como “o colosso”, e tratou de montar a sua. Foi comprando os pinhais da região, cujas árvores eram devoradas com celeridade pelos poderosos dentes das serras-fitas e transformadas em caibros, vigas, pranchões, tábuas, dormentes, sarrafos, ripas e tudo mais, transportados em imensos caminhões de reboque até a ferrovia e dali embarcados em vagões para os mais variados destinos. Os pinhais principiaram a minguar. Vico enriquecia.

Não tardou muito e os pinheiros desapareceram. Nos campos e matos nenhum deles farfalhava ao vento que soprava nas coxilhas e canhadas. Acabado o “material”, não houve outro recurso: a serraria foi desmontada e transplantada para região diferente, agora no Oeste. E lá reiniciou sem cansaço sua faina devoradora. Dia a noite as serras giravam, cresciam os montões de serragem e os aleijados nos acidentes de trabalho. Manetas, pernetas, cotós, cegos, deformados ficariam como testemunhos vivos do monstro nômade e implacável.

Como tudo no mundo, as florestas de araucárias acabam quando não replantadas. E assim, a poderosa serraria de Vico mudou outra vez, agora para o Extremo-Oeste e, depois de algum tempo, para o Paraná, o Mato Grosso e a Amazônia, quando concluíram que árvores de outras espécies também se prestavam ao corte.

E a faina devoradora avançou sem parar, abrindo clareiras monumentais. (Vi muitas em Rondônia, no Tocantins, no Acre, em Roraima).

Orgulhoso, Vico deu entrevistas contando as vanglórias de sua obra e sustentando que as árvores não fizeram falta alguma à natureza. Conquistou seguidores, adeptos, discípulos. E todos eles, ricos, gordos, felizes, prosseguem impávidos, saboreando genuíno prazer a cada árvore que cai.
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Inspirada em entrevista televisiva.
 

Escrito por Enéas Athanázio, 13/05/2019 às 20h04 | e.atha@terra.com.br

QUEM MATOU O BUGREIRO?

A ação dos chamados bugreiros em nosso Estado tem provocado inúmeros trabalhos, a grande maioria na área histórica. O assunto é um prato cheio que poderia inspirar a ficção e a poesia, mas muito pouco tem sido aproveitado. Fenômenos locais ou regionais de repercussão, a exemplo do cangaço, dos jagunços, dos santos populares e outros têm dado margem a romances, novelas, contos, crônicas, poemas, filmes e programas televisivos, enquanto o genocídio dos bugres é pouco lembrado. Não me arrisco a pensar que isso se deva à falta de imaginação ou a um secreto pudor ou vergonha de expor o problema aos olhos do grande público. Nascido e criado dentro do território do Contestado, percebi que a população da região nutria tais sentimentos em relação ao movimento, considerando-o coisa de fanáticos e ignorantes. Essa atitude, como se percebe, ocasionou a perda de incontáveis fontes de informação sobre o Contestado. Haveria em relação aos bugreiros algo semelhante?

Paulo Sá Brito, escritor radicado em Florianópolis e veterano no gênero romanesco, enveredou por outro caminho e romanceou a saga dos bugreiros em “Desde menino me choro”, publicado por Quorum Comunicação (Florianópolis – 2019). Conhecedor do tema, leitor atento das obras de outros autores que escreveram a respeito, deu asas à imaginação e criou um romance vivo e absorvente sem, contudo, violar as balizas históricas. Criou um autêntico romance indigenista sem pretensões panfletárias. O título, excelente, é inspirado em verso de Fernando Pessoa.

Tudo tem início quando uma tribo de índios xokleng é atacada pelo bando de Martinho Bugreiro numa escura madrugada. O pequeno Cuitá dormia agarrado à mãe, ao lado dela, a cabeça encaixada nos generosos seios maternos. Gritaria e tiros acordam as pessoas que dormem e o pânico toma conta da aldeia. Sem resistir porque suas armas foram destruídas, os guerreiros procuram fugir levando as mulheres e crianças, enquanto outros procuram se esconder. Mas o ataque é implacável e os índios vão tombando, atingidos pelas balas ou por certeiros golpes de facões, inclusive a mãe do menino. Cuitá se refugia numa das cabanas mas é encontrado e agarrado pelo próprio Martinho em pessoa. Findo o ataque, chorando em desespero, gritando e esperneando, é levado para a cidade e vendido a um casal de imigrantes alemães. É bem tratado pelo casal, “civilizado” e educado, embora sofrendo pela ausência da mãe e das pessoas de sua tribo. Não havendo alternativa, esforça-se para vencer no meio dos brancos. Estuda, aprende e, superando os preconceitos e as dificuldades, se torna professor em Curitiba. Cuitá se transformou em Gunther.

Assim que entendeu o que acontecera, o menino se fixou na ideia da vingança. Houvesse o que houvesse, ele haveria de matar Martinho Bugreiro. Os anos passam e ele se mantém firme nesse propósito. Não haveriam de faltar oportunidades.

Como pano de fundo, o romance descreve os massacres praticados pelo célebre bugreiro, seu esquadrão da morte e outros que se dedicavam à mesma atividade. Sua incrível habilidade em descobrir pistas na mata virgem para localizar as aldeias, os despistes para não ser pressentido, os ataques repentinos enquanto os índios dormiam, o pânico provocado e a mortandade cruel de homens, mulheres e crianças a tiro e a facão, cortando na carne mole onde o fio penetrava como em bananeira, conforme afirmou um dos assassinos. Com extrema frieza, cortava as orelhas das vítimas cujos pares constituíam os documentos para a prestação de contas aos mandantes. Segundo diziam, era escrupuloso nesses acertos e sempre sério. Nunca teria sido visto rindo. Já os “filhotes de bugres”, a exemplo de Cuitá, eram levados para vender como serviçais a famílias da sociedade e quanto mais longe, melhor.

Muitas outras informações curiosas e algumas até surpreendentes vão surgindo no correr do romance. Entre estas últimas, a revelação de que Martinho chegou a agir em Lages e Curitibanos, fatos em geral desconhecidos. Os hábitos dos indígenas, a singularidade da língua xokleng, o consumo de cupins, carrapatos e até piolhos como alimentos, enquanto recusavam a ingestão de peixes, o desconhecimento da existência de outros seres humanos fora de sua etnia e o nomadismo ancestral vão formando um precioso painel a respeito desses gentios. Outros bugreiros, anteriores e contemporâneos de Martinho também são relacionados com seus nomes e regiões de atuação.

A entrada em cena do indianista Eduardo Lima e Silva Hoerhann, depois alcunhado de Katanghara, também enriquece a narrativa. Às margens do rio Plate, curso d’água que entrou na história, ele estabeleceu o primeiro contato dos brancos com os índios da tribo xokleng. Precisou de tempo para conquistar a confiança deles e chegou a ser quase escravizado. Ganhou a admiração dos gentios e estes lhe deram o nome de uma madeira elástica a resistente como homenagem e prova de admiração. Eduardo teria ameaçado Martinho de morte caso prosseguisse em suas matanças. Mais tarde, acabrunhado e triste, Eduardo se afastou de tudo, manifestando arrependimento do que havia feito em face do que acontecia com os índios. Faleceu no ostracismo e está sepultado em Ibirama.

O romance de Paulo Sá Brito é um manual de indigenismo sem propósito didatista. Alia o prazer da boa ficção ao ensinamento e à informação. Indica novo rumo ao romance de fundo histórico em nossa literatura,

Quanto a Cuitá, manteve ao longo da vida o propósito de matar Martinho para vingar a sua tribo. Até que ele de fato faleceu aos cinquenta e poucos anos, envelhecido e decadente. Mas quem o matou não foi Cuitá, apesar do seu ardente desejo, mas o paratifo que grassava na região.

Escrito por Enéas Athanázio, 06/05/2019 às 13h18 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

NA CAPITAL DA ERVA-MATE

Convidado pela Academia de Letras do Brasil, seção de Canoinhas, estive naquela cidade no dia 31 de maio. Participei como palestrante da sessão solene comemorativa do quinto aniversário da Instituição. A solenidade transcorreu com brilhantismo, foi muito bem organizada e contou com a presença de público considerável que não arredou pé do recinto até o final. Houve a apresentação dos acadêmicos com referências aos patronos de suas cadeiras, declamações e intervenção do coral da cidade. Na fala, recordei com brevidade minha passagem pela cidade, onde fui Promotor Público e professor, e fiz um resumo do panorama atual do regionalismo literário em nosso Estado, corrente literária com a qual Canoinhas contribui com dois expoentes: Fernando Tokarski e Mário Tessari.

Presidida pela Professora Rosane Godói, a Academia é formada por um grupo idealista e decidido. No seu primeiro quinqüênio já exibe um rico rol de realizações em favor da cultura em geral e das letras em particular. Entre seus membros estão Adair Dittrich, Pedro Penteado e Andreas Costenaro, todos com livros publicados e bem recebidos, além do referido Fernando Tokarski, historiador, dicionarista e contista regional de primeira linha. É também dedicado estudioso da erva-mate em todos seus aspectos, com ênfase na história e na fase áurea que impulsionou o desenvolvimento da cidade, fomentando a riqueza e o luxo e dando-lhe o merecido nome de Capital da Erva-mate. Graças à superior qualidade da “Ilex paraguariensis” lá produzida, é exportada para todos os recantos do país e também para o exterior. Comentei nesta coluna as obras de Dittrich, Penteado, Tokarski e Tessari.

A cidade planaltina de Santa Cruz de Canoinhas, a Ouro Verde de tantas histórias e lutas cresceu e melhorou. Está bem cuidada, suas praças vicejam, é dotada de excelente comércio e dispõe de importantes estabelecimentos de ensino em todos os graus. A Biblioteca Pública e o Museu Histórico são bem administrados e organizados. Durante a Guerra do Contestado (1912/1916), Canoinhas exerceu papel fundamental e lutou por todas as formas para permanecer em nosso Estado, tanto que seu lema é “Catharinensis semper!”.

O retorno a Canoinhas, ainda que breve, foi dos mais agradáveis. Revi velhos amigos e conheci pessoas, convivendo com eles momentos inesquecíveis. Minha esposa e eu fomos festejados, abraçados e presenteados com o carinho típico da gente serrana


Recebi a visita da Professora paulistana Camila Russo de Almeida Spagnoli, da USP, que prepara uma tese de doutorado sobre o escritor mineiro Godofredo Rangel (1884/1951), de quem continuo sendo o único biógrafo. Para melhor aprimorar seu trabalho, ela decidiu conhecer também o biógrafo de seu personagem e se deslocou até aqui com tal finalidade. Conversamos muito sobre o autor de “Vida Ociosa” e sua obra, ela gravou longa entrevista e cotejamos nossas informações. Para enriquecer suas pesquisas, ela foi a Blumenau para consultar o dossiê a meu respeito na Fundação Cultural e depois a Campos Novos, minha cidade natal, em busca de mais elementos. Chegando de retorno a São Paulo, informou que agora se entrega à escrita da tese que, pelo que se conclui, será algo monumental, ressuscitando Rangel do ostracismo e praticando um ato de autêntica justiça literária.  

Escrito por Enéas Athanázio, 05/06/2019 às 11h50 | e.atha@terra.com.br

ALHOS E BUGALHOS

Sílvio Romero (1851/1914) foi uma das figuras mais impressionantes do meio cultural brasileiro. Além de jurista, filósofo e folclorista, foi crítico literário e historiador da literatura. Segundo João Ribeiro, foi o autor da melhor história de nossa literatura até então publicada. Numa de suas inúmeras conferências, fez observações que continuam válidas até hoje pela acuidade com que analisou a realidade nacional. Apontava ele, em certa passagem, a nossa tendência de procurar bodes expiatórios para nossos problemas quando, muitas vezes, a solução está em nós mesmos. Procuramos – escreveu ele – “um responsável pelos nossos desacertos, uma espécie de bode expiatório em que descarregamos nossas cóleras e maldições, quando o mal é imanente à nossa própria índole, ao nosso caráter, que urge reformar por adequados e enérgicos meios.” E enumera exemplos: o mal estava na escravatura, depois no império, mais tarde no voto a bico de pena, na velha Constituição Federal, no modelo educacional e por aí além. No entanto, tudo isso foi mudado, reformado, esquecido e, não obstante... nossos problemas continuam os mesmos, em especial aquele que mais nos indigna – a corrupção. “À vista de todos esses passos errados – indagava ele, - onde se acha a raiz do mal? Em nós mesmos, em nossa própria índole, que urge modificar, quanto possível, encaminhando-nos por outras estradas mais largas e mais seguras.” Em vários trechos alude ele aos políticos profissionais, antes como hoje objeto de constantes críticas. E, no entanto, o político não é um extraterrestre, mas, como todos, um produto da mesma sociedade em que vivemos. Diante disso, a pergunta a ser feita é: por que nossa sociedade vem criando tantos corruptos? Como se dizia nos tempos de dantes, aí é que está o busilis. No momento em que escrevo o tema dominante é a reforma da Previdência. Nela estaria a panacéia milagrosa para todos nossos males e no dia imediato o país será outro. Haverá quem acredite?

Essas e outras observações foram sugeridas pelo livro “Sílvio Romero e a Europa dos Pobres”, de Francisco de Vasconcellos, cuja leitura é das mais interessantes.


Dois assuntos voltaram a ocupar espaços na mídia nestes últimos tempos. O primeiro diz respeito à entrevista concedida por Jacqueline Kennedy em 1964, poucos meses após o homicídio de seu marido, o presidente John F. Kennedy, em Dallas, no Texas. Numa passagem de sua longa fala ela confessa que o marido, em 1962, já tramava contra o presidente João Goulart em secretas conversas com o embaixador americano no Brasil. Segundo trechos transcritos em jornais, o Departamento de Estado americano “propõe o rápido reconhecimento e apoio a qualquer regime que os brasileiros instalem, substituindo Goulart. E os EUA reconheceram o novo governo no dia 2 de abril, enquanto João Goulart ainda estava no Brasil.” Concluindo: o bom moço, herói de guerra, campeão dos direitos civis, enquanto se fantasiava de democrata insuflava golpes e apoiava ditaduras em outro país. Triste realidade.

O segundo assunto trata da Comissão da Verdade, a quem cabe fazer a narrativa oficial das violações dos direitos humanos entre 1946 e 1988 no Brasil. Seu objetivo não é uma caça às bruxas mas colocar em pratos limpos todas as barbaridades cometidas, inclusive antes de 1964, no regime da Constituição de 1946, período em que perseguições políticas levaram muitos brasileiros à prisão e ao exílio, embora houvesse no país uma democracia formal. O pintor Cândido Portinari, por exemplo, teve que se exilar na Argentina. Muita coisa interessante vai ganhar registro oficial.


O jornal “Folha de S. Paulo” publicou um caderno especial denominado “O custo da corrupção.” Ali estão listados os grandes escândalos que vêm emporcalhando a vida pública do país. Como de costume, porém, os corruptos são execrados mas os corruptores são omitidos, como se não existissem. Como se fosse possível uma corrupção de mão única.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/06/2019 às 14h42 | e.atha@terra.com.br

INCIDENTE NATALINO

Naquela manhã, quando saía de casa, Neco estava feliz. Sentia-se leve e tranquilo como poucas vezes acontecera. Chegando à área que se abria para a praça, contemplou do alto a cidade parada e silenciosa naquele começo de dia de Natal. Estendeu o olhar pela campanha que cercava a cidade e se admirou com o verde vivo que reverberava à luz do sol e que em geral não observava, envolvido nas ocupações e negócios. Permaneceu por alguns momentos entregue àquela muda contemplação e depois desceu devagar os dois lances de escada que o separavam do solo. Na rua, envergando roupas novas e bem talhadas, caminhou em passos lentos até a avenida principal, cumprimentando sorridente os conhecidos com quem cruzava. Entrou, afinal, na floricultura que ainda abria as portas e adquiriu um ramalhete de flores para a mulher. Ela, com certeza, gostaria da gentileza, atitude frequente no passado e que aos poucos se tornou rara. Sem dúvida, ela merecia!

Retornando para casa, meio sem jeito, com as flores na mão, ruminava bons pensamentos. A empresa estava bem, o ano fora positivo para os negócios, o filho, ainda garoto, se revelou um bom aluno e a mulher continuava bonita e sensual. Aconteceram algumas confusões, entre elas o boato de que havia falado mal do padre vigário e ele tentara processá-lo, além de desancar os linguarudos num sermão raivoso de domingo. Os comentários foram maldosos, provocaram grande tensão, mas tudo acabou em nada. Também aconteceu o atropelamento da carroça com o velhinho que a conduzia, quando dirigia um calhambeque que estava a seus cuidados. Depois de muita discussão, o caso se resolveu a contento, ainda que desembolsando boa quantia. Ah! – lembrou de repente – houve a discussão (ele dizia discutição) com certo Arcidioso, tido e havido como perigoso, mas ele o enfrentou de revólver em punho e o outro fugiu com o rabo entre as pernas. Problemas menores ainda aconteceram, como é natural no correr da vivência. Agora, passado o tempo, todos se tornaram motivo de piadas e brincadeiras.

Em casa, Neco almoçou com a esposa e, depois de um bom descanso, começaram a beber. Aproveitando a ausência do filho que se encontrava em viagem, passando os festejos com os avós, avançaram nos brindes e empinaram consideráveis doses de champanhe. Depois se recolheram ao banheiro, encheram a enorme banheira de água espumante e se entregaram às carícias e ao amor. Ele enchia as taças e estimulava a mulher a beber. Ela já dava mostras de embriaguez, não tinha o hábito de beber, mas continuava ingerindo a bebida, estendida na banheira, lânguida e sonolenta, o corpo nu relaxado dentro da água tépida. Para estimulá-la, ele a puxou para baixo pelo dedo do pé, fazendo com que escorregasse, submergindo. Ela levantou a cabeça, tossindo a água que engoliu e rindo molemente. Outras doses foram tomadas e Neco repetia a perigosa brincadeira, puxando a mulher para baixo e fazendo-a submergir. E assim as mesmas manobras se repetiram até que, tomado por um repentino sentimento maligno, ele a manteve por mais tempo em baixo da água espumante. Só então, alarmado, percebeu que a mulher não voltava e nem se movia. Desesperado, puxou-a para fora e compreendeu num instante que fora longe demais. Ela não respirava; estava morta.

Tentou de todos os modos reanimá-la. Massagens no peito e nas costas, respiração boca-a-boca, tapinhas no rosto. Tudo inútil. O corpo bronzeado e sensual não tinha sinais vitais e permaneceu inerte sobre o tapete onde ele o colocou.

Tomado de desespero, saiu gritando por socorro pela rua a fora. Mas era tarde demais.

A notícia explodiu como uma bomba na pacatez da cidadezinha e ganhou todos os recantos. Pessoas cercaram a casa, curiosas e incrédulas. Os mais estranhos comentários dominaram as conversas por longo tempo e os incidentes do passado de Neco voltaram detalhados, esmiuçados e exagerados, inclusive alguns que se encontravam esquecidos. Mesmo sem julgamento, ele foi condenado, e aquele Natal permaneceu indelével na memória local.

Preso e condenado, Neco tudo recebeu com indiferença, como se não lhe dissesse respeito. Parecia desligado da realidade e cumpriu a pena sem reclamações. Expiava conformado a própria culpa. Deixando a prisão, mostrava-se triste e envelhecido. Em silêncio, liquidou os negócios e desapareceu.

Soube-se mais tarde que fixara residência numa fazendola das proximidades de outra cidade. E, para surpresa geral, casou-se com uma japonesa, cedendo talvez à curiosidade de verificar pessoalmente se as orientais são mesmo diferentes. Tratava-se de uma dúvida que o acicatava de longos anos.

Escrito por Enéas Athanázio, 27/05/2019 às 15h34 | e.atha@terra.com.br

CONTO EM XILOGRAVURA

Edições da Confraria, selo editorial da Confraria dos Bibliófilos do Brasil (CBB), com sede em Brasília, publicou um volume que é uma preciosidade. Trata-se do conto “Brutalidade”, de autoria do folclorista e pesquisador Leonardo Mota (1891/1948), única incursão conhecida na área da ficção, resgatada de um jornal que não pode ser identificado e publicada em 1920. Bastante longo, bem escrito e encadeado, o conto constitui-se numa grande surpresa, uma vez que revela o talento de um autor interessado em outras áreas para a short story. A história, chocante, se insere entre as obras da corrente naturalista e agrada pela maneira segura com que é conduzida, além do fato de ser uma raridade.

Mais curioso ainda é que o conto, além de publicado de maneira normal, é reproduzido em 50 xilogravuras de autoria do gravurista José Lourenço (Gonzaga), um dos mais conhecidos expoentes dessa arte tão difícil quanto trabalhosa. Como se sabe, a xilogravura é entalhada em uma prancha de um tipo especial de madeira (umburana ou louro), formando um molde sobre o qual é espalhada a tinta para permitir a impressão em papel. Lourenço é profissional da arte, de renome internacional, tendo realizado exposições em várias partes do mundo e suas obras estão expostas em importantes museus. Tem publicado álbuns, incontáveis capas de cordéis e realizado inúmeras outras obras.

Cada cena do conto é retratada em uma xilogravura conforme a visão do artista, de sorte que o leitor pode acompanhar o desenrolar da história cotejando com as ilustrações. A geografia dos locais, a paisagem, as características dos personagens, as suas fisionomias e reações faciais e tudo mais pode ser observado pelo leitor.

Segundo o editor, esse tipo de publicação é rotulado de Romance Gráfico Sem Palavras (Wordless Graphic Novels) e tem longa tradição em vários países. O processo foi criado pelo belga Frans Mosereel e tem sido praticado tanto na Europa como nos Estados Unidos. Não se confunde com as histórias em quadrinhos porque as ilustrações não têm legendas. (Nos Estados Unidos, novel é o nosso romance).

O livro contém interessante crônica de Mimosa Mota Fernandes sobre o pai Leonardo Mota, também conhecido como Leota, um ensaio de Jorge Brito sobre o contista e outro de Gilmar de Carvalho a respeito do gravurista. O conto, sob o aspecto literário, é analisado pelo crítico Sânzio de Azevedo em substancioso e preciso ensaio introdutório.

Como de costume, o livro é em si mesmo uma obra de arte gráfica. Em tamanho grande, com capa dura e sobrecapa, seus exemplares, numerados, se destinam a cada um dos associados da Confraria na ordem de suas inscrições. É obra para colecionadores, apaixonados por livros e leitores exigentes. Exemplares extras podem ser obtidos pelos interessados

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Confraria dos Bibliófilos do Brasil (CBB):
Caixa Postal 8 6 3 1 – CEP 70302-970 – DF.

 

Escrito por Enéas Athanázio, 20/05/2019 às 11h07 | e.atha@terra.com.br

O Exterminador

Desde guri Vico ouvia que o pinheiro prejudica o campo. As grimpas pontudas que se juntam no chão, afiadas e duras, espetam o gado e não permitem que ele paste. E quanto maior a quantidade de grimpas espalhadas, maior o espaço perdido na pastagem. Quando o pai saía para camperear, Vico ia montadinho na frente do arreio e, mais tarde, já mais taludo, na garupa. Nessas andanças pelo campo o pai cortava a facão os pinheirinhos novos que estavam começando a crescer. Pelo menos esses não vão incomodar! – dizia o fazendeiro. E assim Vico se tornou inimigo dos pinheiros.

Com o tempo chegou a primeira serraria. Pequena indústria, usando uma serra Tissot lerda e barulhenta, principiou a devorar os pinheiros de São Simão e das redondezas. Ainda distante das poderosas serras-fitas e com as toras arrastadas do mato por junta de bois, provocou a valorização das árvores e elas ganharam um preço que ninguém poderia imaginar. O pai de Vico encontrou uma aliada e em pouco tempo sua fazenda estava livre dos incômodos pinheiros e suas aguçadas grimpas. Novas serrarias surgiram, o preço dos pinheiros subia sem parar e muitos vizinhos que conservaram os seus enriqueceram do dia para a noite. O pai de Vico ganhava bom dinheiro com a venda de suas árvores e se arrependia em silêncio das que havia abatido. Mas era tarde.

Vico, no entanto, viu ali uma grande oportunidade. Decidiu instalar uma serraria para exterminar os pinheiros e, ao mesmo tempo, obter bons lucros. Estudou o assunto, aconselhou-se com técnicos, adquiriu maquinário moderno, guinchos e caminhões. Visitou a instalação da Companhia Lumber, em Três Barras, então considerada a maior e a mais moderna serraria da América Latina, conhecida como “o colosso”, e tratou de montar a sua. Foi comprando os pinhais da região, cujas árvores eram devoradas com celeridade pelos poderosos dentes das serras-fitas e transformadas em caibros, vigas, pranchões, tábuas, dormentes, sarrafos, ripas e tudo mais, transportados em imensos caminhões de reboque até a ferrovia e dali embarcados em vagões para os mais variados destinos. Os pinhais principiaram a minguar. Vico enriquecia.

Não tardou muito e os pinheiros desapareceram. Nos campos e matos nenhum deles farfalhava ao vento que soprava nas coxilhas e canhadas. Acabado o “material”, não houve outro recurso: a serraria foi desmontada e transplantada para região diferente, agora no Oeste. E lá reiniciou sem cansaço sua faina devoradora. Dia a noite as serras giravam, cresciam os montões de serragem e os aleijados nos acidentes de trabalho. Manetas, pernetas, cotós, cegos, deformados ficariam como testemunhos vivos do monstro nômade e implacável.

Como tudo no mundo, as florestas de araucárias acabam quando não replantadas. E assim, a poderosa serraria de Vico mudou outra vez, agora para o Extremo-Oeste e, depois de algum tempo, para o Paraná, o Mato Grosso e a Amazônia, quando concluíram que árvores de outras espécies também se prestavam ao corte.

E a faina devoradora avançou sem parar, abrindo clareiras monumentais. (Vi muitas em Rondônia, no Tocantins, no Acre, em Roraima).

Orgulhoso, Vico deu entrevistas contando as vanglórias de sua obra e sustentando que as árvores não fizeram falta alguma à natureza. Conquistou seguidores, adeptos, discípulos. E todos eles, ricos, gordos, felizes, prosseguem impávidos, saboreando genuíno prazer a cada árvore que cai.
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Inspirada em entrevista televisiva.
 

Escrito por Enéas Athanázio, 13/05/2019 às 20h04 | e.atha@terra.com.br

QUEM MATOU O BUGREIRO?

A ação dos chamados bugreiros em nosso Estado tem provocado inúmeros trabalhos, a grande maioria na área histórica. O assunto é um prato cheio que poderia inspirar a ficção e a poesia, mas muito pouco tem sido aproveitado. Fenômenos locais ou regionais de repercussão, a exemplo do cangaço, dos jagunços, dos santos populares e outros têm dado margem a romances, novelas, contos, crônicas, poemas, filmes e programas televisivos, enquanto o genocídio dos bugres é pouco lembrado. Não me arrisco a pensar que isso se deva à falta de imaginação ou a um secreto pudor ou vergonha de expor o problema aos olhos do grande público. Nascido e criado dentro do território do Contestado, percebi que a população da região nutria tais sentimentos em relação ao movimento, considerando-o coisa de fanáticos e ignorantes. Essa atitude, como se percebe, ocasionou a perda de incontáveis fontes de informação sobre o Contestado. Haveria em relação aos bugreiros algo semelhante?

Paulo Sá Brito, escritor radicado em Florianópolis e veterano no gênero romanesco, enveredou por outro caminho e romanceou a saga dos bugreiros em “Desde menino me choro”, publicado por Quorum Comunicação (Florianópolis – 2019). Conhecedor do tema, leitor atento das obras de outros autores que escreveram a respeito, deu asas à imaginação e criou um romance vivo e absorvente sem, contudo, violar as balizas históricas. Criou um autêntico romance indigenista sem pretensões panfletárias. O título, excelente, é inspirado em verso de Fernando Pessoa.

Tudo tem início quando uma tribo de índios xokleng é atacada pelo bando de Martinho Bugreiro numa escura madrugada. O pequeno Cuitá dormia agarrado à mãe, ao lado dela, a cabeça encaixada nos generosos seios maternos. Gritaria e tiros acordam as pessoas que dormem e o pânico toma conta da aldeia. Sem resistir porque suas armas foram destruídas, os guerreiros procuram fugir levando as mulheres e crianças, enquanto outros procuram se esconder. Mas o ataque é implacável e os índios vão tombando, atingidos pelas balas ou por certeiros golpes de facões, inclusive a mãe do menino. Cuitá se refugia numa das cabanas mas é encontrado e agarrado pelo próprio Martinho em pessoa. Findo o ataque, chorando em desespero, gritando e esperneando, é levado para a cidade e vendido a um casal de imigrantes alemães. É bem tratado pelo casal, “civilizado” e educado, embora sofrendo pela ausência da mãe e das pessoas de sua tribo. Não havendo alternativa, esforça-se para vencer no meio dos brancos. Estuda, aprende e, superando os preconceitos e as dificuldades, se torna professor em Curitiba. Cuitá se transformou em Gunther.

Assim que entendeu o que acontecera, o menino se fixou na ideia da vingança. Houvesse o que houvesse, ele haveria de matar Martinho Bugreiro. Os anos passam e ele se mantém firme nesse propósito. Não haveriam de faltar oportunidades.

Como pano de fundo, o romance descreve os massacres praticados pelo célebre bugreiro, seu esquadrão da morte e outros que se dedicavam à mesma atividade. Sua incrível habilidade em descobrir pistas na mata virgem para localizar as aldeias, os despistes para não ser pressentido, os ataques repentinos enquanto os índios dormiam, o pânico provocado e a mortandade cruel de homens, mulheres e crianças a tiro e a facão, cortando na carne mole onde o fio penetrava como em bananeira, conforme afirmou um dos assassinos. Com extrema frieza, cortava as orelhas das vítimas cujos pares constituíam os documentos para a prestação de contas aos mandantes. Segundo diziam, era escrupuloso nesses acertos e sempre sério. Nunca teria sido visto rindo. Já os “filhotes de bugres”, a exemplo de Cuitá, eram levados para vender como serviçais a famílias da sociedade e quanto mais longe, melhor.

Muitas outras informações curiosas e algumas até surpreendentes vão surgindo no correr do romance. Entre estas últimas, a revelação de que Martinho chegou a agir em Lages e Curitibanos, fatos em geral desconhecidos. Os hábitos dos indígenas, a singularidade da língua xokleng, o consumo de cupins, carrapatos e até piolhos como alimentos, enquanto recusavam a ingestão de peixes, o desconhecimento da existência de outros seres humanos fora de sua etnia e o nomadismo ancestral vão formando um precioso painel a respeito desses gentios. Outros bugreiros, anteriores e contemporâneos de Martinho também são relacionados com seus nomes e regiões de atuação.

A entrada em cena do indianista Eduardo Lima e Silva Hoerhann, depois alcunhado de Katanghara, também enriquece a narrativa. Às margens do rio Plate, curso d’água que entrou na história, ele estabeleceu o primeiro contato dos brancos com os índios da tribo xokleng. Precisou de tempo para conquistar a confiança deles e chegou a ser quase escravizado. Ganhou a admiração dos gentios e estes lhe deram o nome de uma madeira elástica a resistente como homenagem e prova de admiração. Eduardo teria ameaçado Martinho de morte caso prosseguisse em suas matanças. Mais tarde, acabrunhado e triste, Eduardo se afastou de tudo, manifestando arrependimento do que havia feito em face do que acontecia com os índios. Faleceu no ostracismo e está sepultado em Ibirama.

O romance de Paulo Sá Brito é um manual de indigenismo sem propósito didatista. Alia o prazer da boa ficção ao ensinamento e à informação. Indica novo rumo ao romance de fundo histórico em nossa literatura,

Quanto a Cuitá, manteve ao longo da vida o propósito de matar Martinho para vingar a sua tribo. Até que ele de fato faleceu aos cinquenta e poucos anos, envelhecido e decadente. Mas quem o matou não foi Cuitá, apesar do seu ardente desejo, mas o paratifo que grassava na região.

Escrito por Enéas Athanázio, 06/05/2019 às 13h18 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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