Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

VIAGEM AO INFERNO

Abril de 1942. A Solução Final do Problema Judaico estava a pleno vapor enquanto a II Guerra Mundial castigava a Europa e tudo apontava para a vitória nazista. Lale Sokolov, natural de pequena cidade eslocava, retorna para casa e toma conhecimento de que os alemães estão prendendo rapazes para trabalharem para eles no esforço de guerra. Como seu irmão tem mulher e filhos a sustentar, decide se apresentar, sendo aceito de imediato e incorporado ao grupo que lá se encontrava. Permitem-lhe que vá até em casa em busca de objetos pessoais e algumas peças de roupas. Rapaz caprichoso e elegante, Lale anda sempre bem vestido, trajando terno completo e gravata. Tem 24 anos.

Tudo preparado, o imenso grupo de homens é conduzido a Praga para o embarque sem saber qual o destino. Espera-os longo trem de cargas com vagões fechados, destinados ao transporte de gado. Sem janelas ou aberturas, as paredes têm apenas alguns vãos estreitos pelos quais se enxerga de relance pouca coisa da paisagem exterior. Não existem bancos e nem instalações sanitárias. E as pessoas vão entrando, entrando, em quantidade cada vez maior enquanto os guardas ordenam que ocupem todos os espaços. Será por pouco tempo, dizem. Os vagões ficam tão lotados que é impossível sentar ou deitar e as pessoas respiram umas sobre os rostos das outras. As necessidades deverão ser feitas em dois baldes.

As portas são fechadas com estrépito e rangidos de metal. A locomotiva apita e a composição se põe em movimento. Viaja o dia inteiro, fazendo breves escalas em algumas pequenas cidades e entra pela noite sem parar. Na manhã seguinte faz uma parada mais longa em uma cidade maior, talvez para abastecer. As escalas são sempre longe do centro e da vista dos habitantes. Nenhuma explicação é dada aos ocupantes dos vagões, nessa altura já exaustos pela permanência em pé, com dores nas pernas inchadas, sonolentos, famintos e sedentos. Mas a viagem torturante prossegue pelo segundo dia inteiro com rápidas paradas. Alguns passageiros desmaiam, outros se desesperam, eclodem brigas. Os mais fortes tentam arrombar as paredes do vagão jogando-se contra elas. É inútil, lembram, pois nem os bois o conseguiram, quanto mais homens fracos e cansados. E a viagem sinistra prossegue por três dias e três noites. Por fim, enchendo os corações de esperança, o trem para e as portas se abrem. Ar renovado invade o ambiente pestilento.

Os guardas, fuzis em punho, ordenam que todos desçam. Tontos, trôpegos, abobados pela fome e pela sede, eles vão desembarcando aos cambaleios e tropeços. Alguns não conseguem andar e caem. Os demais recebem ríspidas ordens para carregá-los. Todos entram num imenso pavilhão e passam diante de uma mesa onde recebem um número, tatuado a frio no braço. Avançam mais um pouco e mandam que se dispam de toda a roupa e em seguida raspam-lhes as cabeças. Cada um recebe uma muda de roupa, grosseiro uniforme de campanha usado por soldados soviéticos mortos em combates. Cruzam então imenso portão no qual está escrito: O trabalha liberta!

Implorando por água e comida, são conduzidos ao alojamento em cujos beliches estreitos são amontoados. Só no dia seguinte receberão um pouco de comida e água. Se estiverem vivos.

Estão no campo de concentração de Auschwitz e seu destino é a câmara de gás onde o Ziklon B proporcionará uma morte rápida e segura.

Mesmo nessa situação tão absurda, Lale consegue sobreviver. Conhece Gita e por ela se apaixona. O romance impossível que os une é relatado no livro “O Tatuador de Auschwitz”, de Heather Morris, mostrando que o amor sobrevive mesmo sabendo que a morte está do outro lado do muro e pode vir a qualquer momento (Editora Planeta – S. Paulo – 2018).

Escrito por Enéas Athanázio, 02/09/2019 às 14h53 | e.atha@terra.com.br

Caro amigo Enéias Athanázio

Muito obrigado pelo envio de seu livro “O perto e o longe – volume 3”. Aprecio livros de viagens e li com gosto. Muito se aprende com os olhos dos outros sobre a geografia e os costumes de quem os relata com precisão jornalística e as tintas de escritor, como faz você. Mesmo em se tratando de paisagens que eu conheço, como Belém, Macapá e o território do Rio Doce. Às vezes vemos a floresta e não atinamos para a árvore, como é voz corrente e acertada. Com este seu livro, vi que temos mais sentimentos em comum, como o amor às ferrovias. É um tema que sempre me seduziu, pelas mesmas razões que moram no seu coração: também vivi a infância admirando os trens de ferro da Rede Mineira de Viação e da Central do Brasil. Quando viajo a outros países, privilegio os deslocamentos de trem aos de carro, ônibus ou avião, especialmente na Europa, onde os povos de lá souberam conservar as ferrovias como meio de transporte eficiente e cômodo, quando não ao luxo de suas carruagens. Sinto-me uma feliz criança ao tomar um assento ao lado de uma ampla janela para apreciar a paisagem que vai sendo recortada, como fez você e dona Jandira ao percorrer a Vitória-Minas. A última vez em que viajei por esta estrada de ferro foi para conhecer o Caraça, célebre educandário onde estudou o meu avô materno em fins do século 19. Lá dormi na pousada em que foi transformada parte das instalações dos padres e dos alunos. Vivi a emoção de encontrar no livro de matrículas a do meu avô Benigno Magnânimo do Couto, que lá chegou em 1896 em lombo de burro com a escolta de um peão da fazenda de meu bisavô, procedente de Rio Pomba, a léguas de distância.

Mas o menino não pode fazer o curso completo porque o oculista do Rio de Janeiro disse ao pai dele que, fraco da visão, o estudante a perderia de vez se continuasse debruçado nos livros escolares. Benigno, sabendo ler, escrever e fazer contas, foi para o comércio e depois para o jornalismo engajado, tendo sido o proprietário de jornal político em Rio Casca, Zona da Mata mineira, e depois coletor federal.

Miopíssimo, não via as diabruras do neto Pedrinho.

Muito aprendi também sobre as impressões que você anota sobre Hemingway, grande figura humana e de escritor. E mais soube sobre os embates do Contestado e, milhares de quilômetros ao norte, a guerra dos cangaceiros. São dois temas que, percebe-se, você cultiva com curiosidade jornalística de atento repórter. O perto e o longe do seu umbigo de escritor.

Agradeço, também, o envio do artigo sobre Lima Barreto em que cita o saudoso Vivaldi de “A frauta de Mársias”. Meu Pai era como você: um divulgador de seus interesses históricos e literários. São escritores que, por generosidade, gostam de compartilhar o que leram, o que aprenderam. Não guardam só para si o ouro que amealharam no conhecimento dos livros e da realidade. Eis aí um sentido mais alto para o ofício de escrever. Não se deve escrever por escrever, para extravasar apenas a nossa emoção, mas sobretudo para ampliar aos semelhantes essas emoções e o conhecimento adquirido em campo. Parabéns, escritor Enéas Athanázio!

Com esta cartinha, que componho no computador porque minha letra cursiva está cada dia mais amarfanhada, receba o afetuoso abraço do
Pedro Rogério Moreira.


Brasília, madrugada de 24 de julho de 2019.


Nota do Colunista: Pedro Rogério Moreira é escritor e jornalista, foi correspondente televisivo na Amazônia e tem vários livros publicados. É filho de Vivaldi Moreira, que foi presidente da Academia Mineira de Letras por longos anos e em cuja gestão recebi um prêmio daquela Academia pelo meu livro "As Antecipações de Lobato." 

Escrito por Enéas Athanázio, 26/08/2019 às 13h39 | e.atha@terra.com.br

POESIA EM VERSO & PROSA

C. Ronald é um poeta em constante atividade. Desde que o conheci, e lá se foram longos anos, está sempre produzindo uma poesia da melhor qualidade, elaborada, esmerada, límpida, merecedora dos aplausos da melhor crítica nacional. Com vários livros publicados, dentre os quais “Os sempre”, “Caro Rimbaud”, “Um lugar para os dias”, “Nessa agonia”, “Bichos procuram buracos nas paredes brancas” e “Seguindo o tempo”, sua obra constitui um conjunto da melhor expressão na poética produzida em nosso Estado. A admiração por Rimbaud sugere uma benéfica influência do poeta andarilho que tanto fascinava as novas gerações.


Também contista, dramaturgo, tradutor e ensaísta, residiu no Rio de Janeiro e muito escreveu para jornais e revistas.


Agora, desde seu recanto na bucólica Biguaçu, ele publica “Então esquece”, contendo suas mais recentes produções (Bernúncia Editora – Florianópolis – 2019).


Sua poesia é rica de ideias, sugestões, impressões e pensamentos que elaborou ao longo do tempo e que registrou nos seus versos.


As inquietações do poeta vão surgindo, revelando a universalidade de seu pensamento. O comportamento de certas nações, o sofrimento das pessoas, a liberdade, a busca incansável da perfeição de suas obras, o mistério do tempo, os medos, a angústia, o bem e o mal, os sonhos, a memória, as artes, a música, a felicidade e, naturalmente, o amor. Tudo aquilo que povoa a complexa alma do poeta e fere sua sensibilidade.


É uma sucessão de mensagens carregadas das mais diversas sensações que escorre até o fim, levando o leitor a voltar, observar e reler para sentir mais uma vez.


Encerrando, transcrevo um dos poemas do livro, publicado à p. 18:


SER LIVRE

Ser livre se
nos adjetivos a voz fica
lapidando o cristal
na pontuação impossível
das minhas cartas
repletas de ansiedade.

Logo

o pulso percorre as milhas
de letras o hóspede sem
silhueta agarra
a parte de trás do poema
dentro daquilo
que a entrega inventa.
_______________________
Zenilda Nunes Lins, por sua vez, prefere a poesia em prosa. Romancista, contista, poeta e historiadora, é professora. Homenageada pela Academia Catarinense de Letras, pertence a diversas entidades culturais.
Em primorosa crônica há pouco publicada, intitulada “O suave entardecer da velhice”, elaborou curiosa analogia entre as fases do dia e da vida humana num texto tocante e iluminado.
“Gosto do inverno – da estação e da vida -, tema inspirador do texto aqui publicado”, afirma ela. E, com efeito, a inspiração não poderia ser das melhores, tantas e tão precisas são as observações feitas no correr do texto.
É uma crônica poética, humana e enternecedora que merece a melhor das atenções (*).
________________________
(*) “Mosaico Literário” – I Coletânea da ANACLA
Florianópolis – 2019 – pp. 103/106.

Escrito por Enéas Athanázio, 19/08/2019 às 21h12 | e.atha@terra.com.br

A NOVELA DO JÚRI

Eduardo Sens acaba de lançar um livro primoroso. Refiro-me a “De quando éramos iguais” (Editora Penalux – S. Paulo – 2019), que o autor rotula de romance mas eu prefiro qualificar como novela, naquele sentido de obra síntese sobre determinado tema. É um texto como não recordo de ter visto nada semelhante, retratando um julgamento pelo Tribunal do Júri através dos olhos do promotor encarregado da acusação. Literatura a respeito desses julgamentos é o que não falta, mas aqui é o próprio representante da sociedade olhando de dentro para fora e analisando tudo que acontece. O inesperado reconhecimento do réu cria um tal ambiente de tensão que vai envolver o leitor de forma inquietante até o final.

O autor escreve com desenvoltura e tem uma linguagem rica de observações, sugestões e ideias, desenvolvendo com freqüência formulações filosóficas que casam com perfeição com o momento. Ao reconhecer o réu, depois de tantos anos, o promotor se vê diante do próprio passado e os acontecimentos daquele tempo distante voltam à memória com intensidade. Os tempos de infância desfilam pela cabeça num memorialismo minucioso e sofrido que o acompanha durante todo o desenrolar do processo, ato por ato, até a inesperada conclusão. Até mesmo um acontecimento doloroso em que se envolveu no colégio e que julgava esquecido volta com toda força. E o promotor vive um drama indescritível. Por um lado o dever funcional de acusar; pelo outro, o desejo de perdoar o amigo de infância. Para completar, a dúvida sobre a culpa do réu parece se infiltrar no seu coração. Esgotado, ele mal pode acreditar que o julgamento terminou.

Promotor experiente, atuando há dezessete anos no Tribunal do Júri e com mais de uma centena de julgamentos em sua carreia, o personagem fica chocado ao ver na sua frente, no banco dos réus, ninguém menos que o Tainho. Menino pobre, morador de uma favela vizinha à sua morada, ele pertencia ao mesmo grupo de crianças que por ali brincavam sem que houvesse diferença entre elas porque se sentiam iguais. E um caso que deveria ser apenas mais um dentre tantos, de repente se transforma em pesadelo.

Procurando se controlar e manter a frieza necessária, ele vai vencendo as etapas do julgamento. A oitiva das testemunhas, o interrogatório do réu, a leitura das peças processuais, a fala do defensor e, por fim, a angustiante votação dos quesitos na sala secreta, tudo desfila diante do leitor de forma lenta e exasperante. Surgem observações as mais curiosas, dignas dos mais experimentados e assíduos profissionais do Júri. Mesmo vivendo um drama íntimo, observa tudo que acontece: as palavras da defesa, a postura dos jurados, as reações da platéia, o comportamento do réu. Traça um retrato tão perfeito que a gente vê o Tribunal em funcionamento.

Não temo em dizer que se trata de um livro pioneiro pela forma com que o tema é abordado e ficará como algo inovador. Agradará, sem dúvida, a quantos se entregarem à sua leitura e sentirem o impacto da experiência vivida pelo promotor de Santa Bárbara. Eduardo Sens merece as melhores felicitações.

Os integrantes do Ministério Público têm contribuído de forma positiva com a boa literatura catarinense: Artêmio Zanon, Villa Real, Eduardo Sens. Que venham outros! 

Escrito por Enéas Athanázio, 13/08/2019 às 15h39 | e.atha@terra.com.br

JOSÉ ATHANÁZIO, MEU PAI

 Para quem tanto tem escrito sobre estranhos, quero crer que não incidirei em pecado relembrando meu próprio pai, essa figura singular, que viveu tão pouco, e, no entanto, ainda permanece na memória de sua gente mesmo depois de tantos anos após sua morte.

José Fontes Athanázio nasceu na então Villa de São João Baptista dos Campos Novos a 7 de junho de 1900. Era filho do casal Francisco Athanázio e Bernardina Fontes Athanázio.
“Seu” Chico, libanês nascido em Beirute e de presumível ascendência grega (como ele próprio costumava afirmar), era o único “turco” da cidade, coisa rara nos Campos Gerais daqueles tempos. Mais tarde chegaria Mustafá Assad. Segundo minha mãe, em cuja residência Francisco Athanázio viveu após o falecimento da esposa e do filho, ele era loiro e de olhos azuis, nascido em 1860, e chegou ao Brasil em 1877, portanto com apenas 17 anos de idade. Residiu em Lages e Curitibanos, fixando-se depois em Campos Novos, onde casou, em 1898.
Comerciante, naturalmente, “Seu” Chico era de poucas letras, engrolando mal o português, mas ninguém o enganava nas contas. Aficionado do bilhar, parece que não se dava bem com tacos e bolas, pois era freqüente e jovial perdedor de latas de conserva e garrafas de bebida.
Sua loja ficava defronte à atual igreja matriz, do outro lado do pasto freqüentado por vacas de leite e velhos matungos de carroça, hoje a Praça Lauro Müller, onde surgiria, mais tarde, o mais famoso jardim público da região, com seus curiosos caramanchões e cercas vivas. O casarão de madeira abria portas e janelas para a rua larga e ali o comerciante vivia, alegre e feliz, proseando com os amigos mais chegados e correndo o metro para o corte dos tecidos. Faleceu em Joaçaba, aos oitenta anos, em 1940.
José era o filho mais velho, seguindo-se as irmãs Maria (Marica), hoje falecida, e que foi casada com João Rupp (o tio), e Anita, esposa do Prof. Sálvio Guilhon Gonzaga, ambos falecidos. Era claro, tinha abundantes cabelos louros e olhos muito azuis, tão azuis que pareciam aguados – no dizer de um amigo. O casal Athanázio perdeu um filho, ainda menino, em horrível acidente.
Alfabetizado em casa, como em geral as crianças de seu tempo, aos oito anos foi levado para o internato, na cidade de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. A viagem era longa e penosa, feita em lombo de burro, com o enxoval em cargueiros, “sesteando” e dormindo no caminho. Durava vários dias e, para maior segurança, formavam-se autênticas caravanas de estudantes, pais e peões, armando barracas para os pernoites em pleno campo. Só retornava para casa nas “férias grandes” e assim foi por longos oito anos. Para ele e os colegas as viagens se transformavam em aventuras inesquecíveis, cujos acontecimentos relatava com saudade.
Estudou mais tarde, por algum tempo, no Colégio Catarinense, em Florianópolis. Relatou-me um de seus contemporâneos dessa fase, muitos anos mais tarde, que ambos retornavam das aulas caminhando pelas areias da praia, com as calças arregaçadas e os sapatos nas mãos.
Vai bem nos estudos e isso enche o coração de “Seu” Chico; o imigrante antevê no filho o futuro doutor na pátria que escolheu e logo na primeira geração.
Em 1916, cheio de planos e sonhos, o jovem camponovense está em Porto Alegre para os “preparatórios.” Os livros de sua biblioteca, parte da qual carrego comigo até hoje, adquiridos nessa época, revelam que muito lia e lia bem. Num deles, em letra miúda e juvenil, está o lema de Cervantes: “Quem lê muito e anda muito, sabe muito e conhece muito.”
No ano de 1917, com dezessete anos, está matriculado na Faculdade de Medicina do Rio Grande do Sul. Nela faz os três primeiros anos do Curso Médico, para transferir-se então para a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. A antiga capital exercia intensa atração como o maior centro cultural, científico e político do país. Faz um curso caprichado, com excelentes notas, convivendo com professores, médicos e intelectuais. Forma-se em 1922, ano do centenário da independência, e a imprensa deu grande destaque à solenidade, à qual compareceu inclusive o Presidente da República.
Mas o camponovense é arrojado, sonha alto. Decide doutorar-se e defender tese, ainda que não visasse o magistério. Permanecendo na “terrinha” por um ano, “não levanta os olhos dos livros.”
Em 12 de novembro de 1923, depois de muito estudo e pesquisa, apresenta à consideração da Faculdade a tese “O cloreto de cálcio em terapêutica.” Submetida ao visto do secretário, Dr. Brito Silva, o moço de Campos Novos, no verdor de seus vinte e três anos, vai defendê-la a 6 de dezembro do mesmo ano.
A Banca Examinadora é das mais exigentes e rigorosas, nela formando algumas figuras de projeção nacional, médicos, cientistas e mestres de renome. É composta pelos Professores Ozório de Almeida, Pedro Pinto, Agenor Porto, Miguel Couto e Aloysio de Castro, Diretor da Faculdade, estes dois últimos até hoje reverenciados como grandes expoentes. Segundo depoimento do Prof. Newton Freire-Maia ao autor, Ozório de Almeida era a maior expressão científica dentre todos (1). Mas José Athanázio vê o seu trabalho aprovado com distinção e louvor. Submeti essa tese a diversos médicos amigos, entre eles o saudoso Prof. Alvir Riesemberg, tendo eles afirmado a indiscutível originalidade do tema escolhido e das suas conclusões para a época em que foi elaborada  (2).
1924 marca o início de suas atividades profissionais na terra natal. O chamado de seu chão faz com que volte à Villa para a convivência com os pais, as irmãs, os amigos. A antiga capital da República, no entanto, ficou gravada na sua lembrança, amando-a tanto que, pouco antes de falecer, aprestava-se para o retorno definitivo. Residiu na Gávea à época dos estudos e isso o levaria a reproduzir em Campos Novos, no topo da coxilha mais elevada, uma das casas de pedra existentes naquele bairro carioca. As paredes, constituídas de blocos retangulares de pedra-ferro, tinham cerca de oitenta centímetros de espessura. Defronte, fazendo vista para a cidade, o varandão corria toda sua extensão.
Nessa casa, ainda hoje existente, ele clinicou até o fim da vida e nela nasceu a Fundação Hospitalar Dr. José Athanázio dos dias atuais. Parte dos móveis do primeiro consultório foram feitos por ele, em madeira-de-lei, com a ajuda do inseparável amigo e vizinho Juventino Lemos. Tanto as poltronas, conhecidas como cadeiras de bispo, como a escrivaninha, andaram comigo por ceca e meca e ainda se encontram, intactas, em meu escritório.
Desde logo se revelou um profissional competente e dedicado. Era daqueles que passavam a noite à cabeceira do doente, só arredando pé após o seu restabelecimento. Não foram poucas as pessoas que ainda conheci e que confessaram lhe dever a cura. Viajando a cavalo e, mais tarde, num Ford, percorreu os caminhos e carreiros dos campos para atender a chamados distantes. Sua fama, em pouco, se firmou na região, tanto que mesmo após tantas décadas sua memória é venerada. Diziam mesmo os mais antigos que sua alma prosseguia fazendo curas, tantas as promessas atendidas.
De pouco falar era, no entanto, espirituoso, desses que em duas palavras definem uma situação. Conta-se que foi visitado por um cliente, caboclo de enormes cabelos, barbas e bigodes.
- Para que tanto pelo, “Seu” João? – inquiriu.
- É luto, sentimento pela morte da mulher – explicou o homem.
- É, - concluiu o médico, - esse é um verdadeiro sentimento cabeludo!
Uma noite, - relatou um conhecido, - foi chamado a atender o ferido de tiroteio num baile do interior. Para lá se dirigiu, guiando o “Fordeco”, levando em sua companhia o meu informante, ainda estudante.
A vítima gemia numa “tarimba”, um projétil encravado nas costas. Verificou logo que se tratava de ferimento superficial: a bala transfixara outra pessoa, chegando sem força, e ficou presa apenas na pele. Numa manobra rápida, o médico a retirou, exibindo-a ao ferido, e ele, feliz da vida, parou os gemidos e se pôs a agradecer.
- Não agradeça – resolveu o médico brincar, ainda que com a fisionomia séria. – A bala passou pelo corpo do H. P. antes de atingir você. . .
O homem, no começo, não entendeu; depois, aos poucos, esbugalhou os olhos e caiu no desespero. É que o H. P. tinha fama de ser morfético.
Ouvi certa vez que ele teria extraído o coração de um suicida para estudos e dissecação. Por mais que investigasse, não encontrei qualquer indício de veracidade, de maneira que o incluo no rol dos numerosos “causos” em que é pródigo o povo. Meu pai só fazia pequenas cirurgias, uma vez que não havia hospital, instalações e pessoal habilitado para a realização de cirurgias maiores, de forma continuada. Minha mãe recorda a angústia que o acometia quando nada podia fazer, exceto encaminhar o doente para fora, sem saber se chegaria com vida.
Desprendido dos bens materiais, José Athanázio não se preocupava com dinheiro, roupas, vida social. Vestia-se com displicência, os sapatos sempre sem cordões. Fumava “Jockey Club”, cigarro da época, mas jogava-o antes de consumida a metade, para acender outro em seguida. Gostava de lidar no imenso pomar dos fundos da casa, fabricar móveis e andar a pé pelas redondezas da cidadezinha, acompanhado de seu cão São Bernardo, de nome Fumanchu. Durante anos manteve na cocheira o cavalo Tufão, um tordilho negro em que costumava visitar clientes e amigos. Foi também exímio nadador.
Irritava-se com os colegas mais novos, que viviam à caça do dinheiro, e por muitas vezes manifestou sua preocupação com a incipiente comercialização da medicina de seus dias. Não desejava que o filho fosse médico.
Herdou algumas terras, hoje situadas no município de Erval Velho. Relatam os seus amigos que ele gostava de subir ao alto de uma elevação e de lá apreciar a massa dos pinheiros verdes, de copadas farfalhantes. Pinheiro, naqueles tempos, nada valia. Havia até fazendeiros que os derrubavam para que suas grimpas espinhentas não “sujassem” os campos.
- Essa árvore – previa ele – valerá fortunas. Em vinte anos, quem tiver pinheiros estará muito rico.
Os caboclos, ao seu redor, sorriam por dentro e “maginavam” que aquilo era mesmo coisa de doutor de cidade grande.
José Athanázio já era um solteirão. Estava com trinta e dois anos quando resolveu casar. A sua decisão causou espanto entre os amigos, mas a escolhida foi Irma Vieira, filha dos fazendeiros Policarpo Alves Vieira e Olívia Alves Vieira, ele nascido em Curitibanos, ela nos campos de Vacaria. “Seu” Lica era o proprietário da Fazenda do Fundo Grande, onde residia. Numa antiga caderneta de capa preta, minha mãe escreveu em letras caprichadas: “Dia 8 de março de 1932. Fiquei noiva, sendo pedida na Fazenda.” Imagino o velho “Fordeco”, roncando e pulando pelos fundos trilhos campeiros, conduzindo o Dr. Athanázio para o pedido de casamento. Acredito que tenha ido só; nenhum de seus amigos, dentre os que conheci, se recordava de tê-lo acompanhado nessa jornada.
O casamento, porém, só se realizaria mais de dois anos depois, em 26 de maio de 1934, um sábado, pelas 21h, como era de praxe e a noiva registrou no caderninho preto. Eles se conheceram nos bailes e festas do Clube Repentino (que disputava com o Democrata) e de cujo carnaval minha mãe chegou a ser rainha. Lembra ela que papai era inteiramente desajeitado para danças.
As irmãs Irma e Iracy (esta depois se casaria com o advogado e mais tarde deputado Waldemar Rupp) eram bonitas e disputadas a tal ponto que se tornaram meio de comparação. Conta-se que Nhô Justo, morador daquelas bandas, quando queria realçar a beleza de alguma coisa, exclamava:
- Linda que nem as filhas do Lica Vieira!
O casamento, no entanto, só duraria menos de três anos. O casal teve um único filho.
Cercado pelos amigos e sempre às voltas com os livros, José Athanázio, além das leituras de assuntos profissionais, foi um apreciador da História e acompanhava com atenção a política nacional e estrangeira. Das freqüentes viagens ao Rio, voltava carregado de livros. Ele e os amigos, nas tardes de calor, rumavam para o Poço da Bica, nas cercanias da cidade. Deitados à sombra das árvores, liam e discutiam. Depois se banhavam na água cristalina e gelada que escorria da pequena bica de madeira. Num de seus últimos contos, Guido Wilnar Sassi recorda uma dessas tertúlias a céu aberto (“O Naufrágio do Black Ship”).
Nas noites silenciosas se reuniam na imensa sala do casarão de pedras. Ouviam rádio, quando não havia muita “estática”, num dos primeiros (provavelmente o primeiro) aparelhos por lá aparecidos. A voz dos locutores distantes estabelecia a ligação daquela vila perdida nos campos com o resto do mundo. A antena se estendia por muitos metros, fixada em postes que formavam fila ao longo do quintal.
A qualquer pretexto José Athanázio se punha a declamar Camões.  O célebre “Soneto 29” era o preferido:
 
“Sete anos de pastor José servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,  
Que a ela só por prêmio pretendia.
 
Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.
 
Vendo o triste pastor que com enganos
Assi lhe era negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;
 
Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: Mais serviria, se não fora,
Para tão longo amor tão curta a vida.” (3)
 
Grande foi o seu círculo de amigos. Othon D’Eça, ainda solteiro e que viria a ser meu professor na Faculdade; Edmundo Acácio Moreira e José do Patrocínio Gallotti, também meus futuros professores; o Desembargador Sálvio Gonzaga; o juiz A. Selistre de Campos, figura ardorosa e controvertida de magistrado, defensor corajoso dos índios do Oeste Catarinense, foram seus amigos. Mas Antônio Bottini, também médico e mais tarde professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Darcy Pedroso, Paulo Blasi, Ozório Farias e Juventino Lemos eram os mais chegados. Este último foi o seu companheiro no fabrico de móveis, nas lidas de horta e pomar a que gostava de se entregar nas horas de folga, nas freqüentes caminhadas pelas cercanias e até em algumas pequenas viagens profissionais. “Tio Tino”, homem simples, tinha-lhe verdadeira adoração, embora fosse vítima constante de suas troças, das quais até gostava. De uma fidelidade inconcebível nos dias de hoje, contou-me o próprio “Tio Tino” que, quando se excedia no linguajar, meu pai se irritava:
- Cala a boca, Juventino! Deixa de burrices!
Mas ele se deleitava com as estórias de fantasmas e assombrações em que Juventino era pródigo e tinha nele um animado companheiro para os bailes do “Repentino”, pois “Tio Tino” era um grande carnavalesco. Dos seus amigos mais íntimos, foi o único com quem convivi e conheci bem de perto. Algumas passagens de sua vida dariam excelentes crônicas. Juventino guardou até o fim da vida uma dolorosa e sincera saudade do amigo que se foi tão jovem. Já bem velhinho, trôpego e cansado, muitas vezes vi seus olhos marejados quando recordávamos coisas vividas por ele e papai. Homem de passo leve e macio, costumava entrar em meu escritório sem se anunciar, sentando-se numa poltrona, e dali me observava em silêncio. Entretido no trabalho, eu levava um susto quando o avistava.
- Parece que estou vendo o José quando moço! – afirmava, acentuando sempre nossa semelhança física.
Othon D’Eça relembrava as longas conversas com meu pai nas noites silenciosas, caminhando em torno do célebre jardim com seus caramanchões, cedrinhos recortados e cercas vivas bem aparadas. Quando cansavam, depois de muito andar, sentavam-se no banco tosco, na verdade uma tora maciça lustrada pelo uso, diante do hotel em que D’Eça se hospedava, quase ao lado da casa de meus avós paternos, com os quais meu pai residia. A conversa se estendia sob um céu pintalgado de estrelas e às vezes o friozinho se anunciava. Enquanto D’Eça era falante, irrequieto, cheio de gestos, meu pai ouvia muito e falava pouco.
A biblioteca que pertenceu a José Athanázio, na parte que me chegou intacta e que guardo até hoje, era toda em francês, na literatura médica, e parte em francês e latim, na literatura geral.
Charles H. May, Gaston Lyon, E. Macé, Fernand Berlioz, J. Castaigne, H. Paillard, Victor Viau, M. Guibé, Alex Renault, M. Nicolle et J. Magrou, Ch. Debierre, G. Pouchet, Allyre Chassevant, Hermann Eichorst, Ph. Störh, F. Lejars, Rémy Perrier, E. Hédon, L. Testut, G. Dieulafoy, Ganot-Maneuvrier, Fabre, E. Apert, André Broca, A. Richaud, M. Arthus, J. Darier, J. Barozzi, C. Oddo, Simon Duplay, J. Courmont, E. Terrien, Guy Laroche, Georges Laurens, J. Comby, Félix Coste  são alguns autores de sua estante médica. Cícero (“Orationes”), Cesar (“De Bello Gallico”), Jules Verne, Gustave Le Bon, Louis Buchner, excelentes e variadas gramáticas e antologias latinas, francesas e portuguesas, além de inúmeros livros e revistas sobre assuntos da atualidade compunham a parte geral. Não poderia faltar a História de Cesare Cantu.
Em política, formou ao lado de Adolfo Konder, integrando o grupo dos “Coligados.” Candidato a deputado, não foi eleito, embora obtivesse mais votos que o concorrente de sua região. O sistema eleitoral da época, ainda na República Velha, continha dessas armadilhas.
Desde 1936 começou a apresentar problemas de saúde. Não alterou, porém, o modo de vida, trabalhando e atendendo normalmente a clientela. Em novembro desse mesmo ano, apesar de seu empenho e dedicação, falece sua mãe, Bernardina, fato que muito o abala e leva a surdas recriminações contra os limitados recursos médicos de então. Salvara tanta gente, jovens e velhos, e, no entanto, era incapaz de evitar o falecimento da mãe, cuja morte veio a agravar o seu próprio estado. As fotografias dessa época mostram-no triste e abatido.
No início do ano seguinte a sua saúde inspira cuidados. Colegas e amigos temem pela sua vida e se desvelam em tratamentos e cuidados. A 24 de março não se sente bem, permanece acamado, mas conversa com a esposa e recebe os amigos pela manhã. Seus colegas, inclusive de cidades vizinhas, e até um colega de turma, vêm prestar-lhe assistência. Consciente do seu estado, e por certo seguro como sempre no diagnóstico, por volta das nove horas afirma a Paulo Blasi, em francês: “C’est mon dernier jour!” Efetivamente, assinalavam os sinos da velha igreja matriz o meio-dia quando ele deixou de existir. Era uma quarta-feira cinzenta e fria.
Sepultado no dia seguinte, no cemitério de sua terra, quase toda a população o acompanhou. Paulo Blasi, o mesmo amigo inseparável, faz um sentido discurso. “Espírito humanitário, - escreveu ele – encontramos sempre em José Athanázio um amigo dedicado, um amigo nas passagens mais alegres, um amigo nos momentos mais melindrosos, como um abnegado nos transes mais amargos e dolorosos. Desempenhando suas funções de médico, não foi só o profissional, foi o abnegado. Muitas vezes não dava ao pobre só a receita, mas também dinheiro para que pudesse mandar aviá-la.”
___________________________
(1)                                                                                 – Sobre Miguel Couto, v. “Enciclopédia Brasileira Globo”, P. Alegre, 1971, Vol. IV.
(2)                                                                                 – A tese foi publicada pela Tipografia Alba, à Rua Maranguape, 17, Lapa/RJ, no mesmo ano de 1923. Tem 45 páginas, divididas em nove capítulos, e a bibliografia arrolada é toda estrangeira, indicando que o assunto era mesmo novo no Brasil.  Há exemplares dela nas bibliotecas de Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, São Paulo e Rio, bem como em bibliotecas universitárias, como a da UFSC.
(3)                                                                                 – “Obras” – Tomo II da edição do Visconde de Jurumenha. Indicações anotadas num exemplar do soneto encontrado nos papéis de José Athanázio.
__________ ______________________________
 
(Transcrito, com acréscimos e correções, do livro “Figuras e Lugares”, Blumenau/SC, Fundação Casa Dr. Blumenau, 1983).
Escrito por Enéas Athanázio, 09/08/2019 às 16h00 | e.atha@terra.com.br

MAR E GUERRA

Em visita ao Rio de Janeiro, para receber os prêmios que me foram conferidos pela União Brasileira de Escritores (UBE/RJ), adquiri numa loja das Livrarias da Travessa um exemplar do terceiro volume dos contos de Ernest Hemingway (1899/1961), integrante de suas Obras Completas (Bertrand Brasil – Rio – 2001). O volume reúne 21 contos de autoria do norte-americano, dentre eles alguns dos menos conhecidos e outros muito longos, talvez fragmentos de romances não concluídos pelo autor. A tradução é de José J. Veiga.

Nesses contos, como em toda a obra do autor, o mar e a guerra são muito presentes. É conhecida a paixão dele pelo mar, pelas pescarias e aventuras marítimas, aos quais se dedicou com intensidade, em especial no período em que viveu na Finca Vigia, em Cuba. Ficou célebre sua lancha Pilar, com a qual muito navegou pelo Gulf Stream e que usou até mesmo para localizar submarinos alemães durante a II Guerra Mundial. Também o fascínio que alimentava pelas guerras é conhecido, uma vez que se tornou herói da I Guerra Mundial, ao ser ferido em missão, na Itália. Depois disso, cobriu outros conflitos e até mesmo participou de operações bélicas, inclusive na Guerra Civil espanhola e na retomada de Paris. Diante disso tudo, é natural que muito dessas experiências transpareça na sua obra em páginas de fundo memorialístico, como acontece em muitos destes contos.

Logo no conto de abertura nos deparamos com o capitão Harry, personagem já conhecido, seu barco e uma perigosa travessia clandestina para contrabandear chineses. É um conto que culmina com muita violência, como se espera do capitão Harry, em que é morto o Sr. Sing, intermediário do negócio, sem que pareça existir motivo. E os chineses transportados, em vez de serem levados a um dos destinos combinados, são largados à própria sorte em Cuba. Conto escrito com maestria, com muito diálogo e que transmite com precisão o ambiente do cais e da gente ribeirinha. O conto seguinte também se envolve com as coisas do mar. E os três que se seguem têm a guerra como pano de fundo. Em um deles é relatada a angústia do combatente na véspera de uma batalha que já sabe perdida e na qual prevê que vai morrer. Esses contos acontecem na época em que o narrador-personagem vivia no Hotel Flórida, em Madri, enquanto a guerra se travava no fim da rua e as bombas explodiam na frente do próprio hotel e às vezes até o atingiam.

Os contos subsequentes também têm a guerra como pano de fundo, um na Espanha e outro em Cuba. São contos “pesados”, conforme a divisão de Monteiro Lobato, tradutor de Hemingway, para distingui-los dos “leves” No primeiro deles, o cinegrafista filma uma batalha ao pé da cordilheira quando observa um soldado francês que está desertando, desiludido com a possibilidade de vitória. É então perseguido e morto de maneira fria e implacável pelos fiscais armados. No segundo conto, numa casa cheia de armas, jovem casal revolucionário tenta fugir. O rapaz é metralhado e a moça conduzida à prisão e à tortura pela polícia do ditador Batista. Nesses contos Hemingway parece dizer que os humanistas apreciam a humanidade cm conjunto, como algo etéreo e distante, mas não suportam os indivíduos isolados, em carne e osso. É um amor platônico pelo ser humano indeterminado – aquele a que chamamos o povo.

No longo conto “Quando o mundo era novo”, o escritor repisa uma de suas antigas obsessões: a velhice deste mundo caduco e que está sempre repetindo os mesmos erros. Nele parece suspirar de doloridas saudades de um mundo jovem, limpo, justo e humano. No fundo, é provável que acreditasse no rejuvenescimento deste mundo velho renovando-se para melhor. E nos demais contos reunidos no volume o leitor vai encontrar todas as paixões do escritor: a África, a Espanha (que considerava a segunda pátria), as touradas, os animais (com predileção pelos grandes – leões, búfalos, elefantes, cães...), as viagens, o movimento, as inquietações, as argutas observações. Sempre e sempre a atividade, as lutas, as vitórias e as derrotas, a vida e a morte, a paisagem, a natureza, o amor, o espetáculo da vida. Nunca a masturbação psicológica de que falava o crítico Wilson Martins. Nick Adams, um de seus mais célebres personagens, também se apresenta. Estes talvez não sejam o melhor Hemingway mas são, sem dúvida, alguns dos grandes momentos da contística universal.

Escrito por Enéas Athanázio, 05/08/2019 às 12h04 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

VIAGEM AO INFERNO

Abril de 1942. A Solução Final do Problema Judaico estava a pleno vapor enquanto a II Guerra Mundial castigava a Europa e tudo apontava para a vitória nazista. Lale Sokolov, natural de pequena cidade eslocava, retorna para casa e toma conhecimento de que os alemães estão prendendo rapazes para trabalharem para eles no esforço de guerra. Como seu irmão tem mulher e filhos a sustentar, decide se apresentar, sendo aceito de imediato e incorporado ao grupo que lá se encontrava. Permitem-lhe que vá até em casa em busca de objetos pessoais e algumas peças de roupas. Rapaz caprichoso e elegante, Lale anda sempre bem vestido, trajando terno completo e gravata. Tem 24 anos.

Tudo preparado, o imenso grupo de homens é conduzido a Praga para o embarque sem saber qual o destino. Espera-os longo trem de cargas com vagões fechados, destinados ao transporte de gado. Sem janelas ou aberturas, as paredes têm apenas alguns vãos estreitos pelos quais se enxerga de relance pouca coisa da paisagem exterior. Não existem bancos e nem instalações sanitárias. E as pessoas vão entrando, entrando, em quantidade cada vez maior enquanto os guardas ordenam que ocupem todos os espaços. Será por pouco tempo, dizem. Os vagões ficam tão lotados que é impossível sentar ou deitar e as pessoas respiram umas sobre os rostos das outras. As necessidades deverão ser feitas em dois baldes.

As portas são fechadas com estrépito e rangidos de metal. A locomotiva apita e a composição se põe em movimento. Viaja o dia inteiro, fazendo breves escalas em algumas pequenas cidades e entra pela noite sem parar. Na manhã seguinte faz uma parada mais longa em uma cidade maior, talvez para abastecer. As escalas são sempre longe do centro e da vista dos habitantes. Nenhuma explicação é dada aos ocupantes dos vagões, nessa altura já exaustos pela permanência em pé, com dores nas pernas inchadas, sonolentos, famintos e sedentos. Mas a viagem torturante prossegue pelo segundo dia inteiro com rápidas paradas. Alguns passageiros desmaiam, outros se desesperam, eclodem brigas. Os mais fortes tentam arrombar as paredes do vagão jogando-se contra elas. É inútil, lembram, pois nem os bois o conseguiram, quanto mais homens fracos e cansados. E a viagem sinistra prossegue por três dias e três noites. Por fim, enchendo os corações de esperança, o trem para e as portas se abrem. Ar renovado invade o ambiente pestilento.

Os guardas, fuzis em punho, ordenam que todos desçam. Tontos, trôpegos, abobados pela fome e pela sede, eles vão desembarcando aos cambaleios e tropeços. Alguns não conseguem andar e caem. Os demais recebem ríspidas ordens para carregá-los. Todos entram num imenso pavilhão e passam diante de uma mesa onde recebem um número, tatuado a frio no braço. Avançam mais um pouco e mandam que se dispam de toda a roupa e em seguida raspam-lhes as cabeças. Cada um recebe uma muda de roupa, grosseiro uniforme de campanha usado por soldados soviéticos mortos em combates. Cruzam então imenso portão no qual está escrito: O trabalha liberta!

Implorando por água e comida, são conduzidos ao alojamento em cujos beliches estreitos são amontoados. Só no dia seguinte receberão um pouco de comida e água. Se estiverem vivos.

Estão no campo de concentração de Auschwitz e seu destino é a câmara de gás onde o Ziklon B proporcionará uma morte rápida e segura.

Mesmo nessa situação tão absurda, Lale consegue sobreviver. Conhece Gita e por ela se apaixona. O romance impossível que os une é relatado no livro “O Tatuador de Auschwitz”, de Heather Morris, mostrando que o amor sobrevive mesmo sabendo que a morte está do outro lado do muro e pode vir a qualquer momento (Editora Planeta – S. Paulo – 2018).

Escrito por Enéas Athanázio, 02/09/2019 às 14h53 | e.atha@terra.com.br

Caro amigo Enéias Athanázio

Muito obrigado pelo envio de seu livro “O perto e o longe – volume 3”. Aprecio livros de viagens e li com gosto. Muito se aprende com os olhos dos outros sobre a geografia e os costumes de quem os relata com precisão jornalística e as tintas de escritor, como faz você. Mesmo em se tratando de paisagens que eu conheço, como Belém, Macapá e o território do Rio Doce. Às vezes vemos a floresta e não atinamos para a árvore, como é voz corrente e acertada. Com este seu livro, vi que temos mais sentimentos em comum, como o amor às ferrovias. É um tema que sempre me seduziu, pelas mesmas razões que moram no seu coração: também vivi a infância admirando os trens de ferro da Rede Mineira de Viação e da Central do Brasil. Quando viajo a outros países, privilegio os deslocamentos de trem aos de carro, ônibus ou avião, especialmente na Europa, onde os povos de lá souberam conservar as ferrovias como meio de transporte eficiente e cômodo, quando não ao luxo de suas carruagens. Sinto-me uma feliz criança ao tomar um assento ao lado de uma ampla janela para apreciar a paisagem que vai sendo recortada, como fez você e dona Jandira ao percorrer a Vitória-Minas. A última vez em que viajei por esta estrada de ferro foi para conhecer o Caraça, célebre educandário onde estudou o meu avô materno em fins do século 19. Lá dormi na pousada em que foi transformada parte das instalações dos padres e dos alunos. Vivi a emoção de encontrar no livro de matrículas a do meu avô Benigno Magnânimo do Couto, que lá chegou em 1896 em lombo de burro com a escolta de um peão da fazenda de meu bisavô, procedente de Rio Pomba, a léguas de distância.

Mas o menino não pode fazer o curso completo porque o oculista do Rio de Janeiro disse ao pai dele que, fraco da visão, o estudante a perderia de vez se continuasse debruçado nos livros escolares. Benigno, sabendo ler, escrever e fazer contas, foi para o comércio e depois para o jornalismo engajado, tendo sido o proprietário de jornal político em Rio Casca, Zona da Mata mineira, e depois coletor federal.

Miopíssimo, não via as diabruras do neto Pedrinho.

Muito aprendi também sobre as impressões que você anota sobre Hemingway, grande figura humana e de escritor. E mais soube sobre os embates do Contestado e, milhares de quilômetros ao norte, a guerra dos cangaceiros. São dois temas que, percebe-se, você cultiva com curiosidade jornalística de atento repórter. O perto e o longe do seu umbigo de escritor.

Agradeço, também, o envio do artigo sobre Lima Barreto em que cita o saudoso Vivaldi de “A frauta de Mársias”. Meu Pai era como você: um divulgador de seus interesses históricos e literários. São escritores que, por generosidade, gostam de compartilhar o que leram, o que aprenderam. Não guardam só para si o ouro que amealharam no conhecimento dos livros e da realidade. Eis aí um sentido mais alto para o ofício de escrever. Não se deve escrever por escrever, para extravasar apenas a nossa emoção, mas sobretudo para ampliar aos semelhantes essas emoções e o conhecimento adquirido em campo. Parabéns, escritor Enéas Athanázio!

Com esta cartinha, que componho no computador porque minha letra cursiva está cada dia mais amarfanhada, receba o afetuoso abraço do
Pedro Rogério Moreira.


Brasília, madrugada de 24 de julho de 2019.


Nota do Colunista: Pedro Rogério Moreira é escritor e jornalista, foi correspondente televisivo na Amazônia e tem vários livros publicados. É filho de Vivaldi Moreira, que foi presidente da Academia Mineira de Letras por longos anos e em cuja gestão recebi um prêmio daquela Academia pelo meu livro "As Antecipações de Lobato." 

Escrito por Enéas Athanázio, 26/08/2019 às 13h39 | e.atha@terra.com.br

POESIA EM VERSO & PROSA

C. Ronald é um poeta em constante atividade. Desde que o conheci, e lá se foram longos anos, está sempre produzindo uma poesia da melhor qualidade, elaborada, esmerada, límpida, merecedora dos aplausos da melhor crítica nacional. Com vários livros publicados, dentre os quais “Os sempre”, “Caro Rimbaud”, “Um lugar para os dias”, “Nessa agonia”, “Bichos procuram buracos nas paredes brancas” e “Seguindo o tempo”, sua obra constitui um conjunto da melhor expressão na poética produzida em nosso Estado. A admiração por Rimbaud sugere uma benéfica influência do poeta andarilho que tanto fascinava as novas gerações.


Também contista, dramaturgo, tradutor e ensaísta, residiu no Rio de Janeiro e muito escreveu para jornais e revistas.


Agora, desde seu recanto na bucólica Biguaçu, ele publica “Então esquece”, contendo suas mais recentes produções (Bernúncia Editora – Florianópolis – 2019).


Sua poesia é rica de ideias, sugestões, impressões e pensamentos que elaborou ao longo do tempo e que registrou nos seus versos.


As inquietações do poeta vão surgindo, revelando a universalidade de seu pensamento. O comportamento de certas nações, o sofrimento das pessoas, a liberdade, a busca incansável da perfeição de suas obras, o mistério do tempo, os medos, a angústia, o bem e o mal, os sonhos, a memória, as artes, a música, a felicidade e, naturalmente, o amor. Tudo aquilo que povoa a complexa alma do poeta e fere sua sensibilidade.


É uma sucessão de mensagens carregadas das mais diversas sensações que escorre até o fim, levando o leitor a voltar, observar e reler para sentir mais uma vez.


Encerrando, transcrevo um dos poemas do livro, publicado à p. 18:


SER LIVRE

Ser livre se
nos adjetivos a voz fica
lapidando o cristal
na pontuação impossível
das minhas cartas
repletas de ansiedade.

Logo

o pulso percorre as milhas
de letras o hóspede sem
silhueta agarra
a parte de trás do poema
dentro daquilo
que a entrega inventa.
_______________________
Zenilda Nunes Lins, por sua vez, prefere a poesia em prosa. Romancista, contista, poeta e historiadora, é professora. Homenageada pela Academia Catarinense de Letras, pertence a diversas entidades culturais.
Em primorosa crônica há pouco publicada, intitulada “O suave entardecer da velhice”, elaborou curiosa analogia entre as fases do dia e da vida humana num texto tocante e iluminado.
“Gosto do inverno – da estação e da vida -, tema inspirador do texto aqui publicado”, afirma ela. E, com efeito, a inspiração não poderia ser das melhores, tantas e tão precisas são as observações feitas no correr do texto.
É uma crônica poética, humana e enternecedora que merece a melhor das atenções (*).
________________________
(*) “Mosaico Literário” – I Coletânea da ANACLA
Florianópolis – 2019 – pp. 103/106.

Escrito por Enéas Athanázio, 19/08/2019 às 21h12 | e.atha@terra.com.br

A NOVELA DO JÚRI

Eduardo Sens acaba de lançar um livro primoroso. Refiro-me a “De quando éramos iguais” (Editora Penalux – S. Paulo – 2019), que o autor rotula de romance mas eu prefiro qualificar como novela, naquele sentido de obra síntese sobre determinado tema. É um texto como não recordo de ter visto nada semelhante, retratando um julgamento pelo Tribunal do Júri através dos olhos do promotor encarregado da acusação. Literatura a respeito desses julgamentos é o que não falta, mas aqui é o próprio representante da sociedade olhando de dentro para fora e analisando tudo que acontece. O inesperado reconhecimento do réu cria um tal ambiente de tensão que vai envolver o leitor de forma inquietante até o final.

O autor escreve com desenvoltura e tem uma linguagem rica de observações, sugestões e ideias, desenvolvendo com freqüência formulações filosóficas que casam com perfeição com o momento. Ao reconhecer o réu, depois de tantos anos, o promotor se vê diante do próprio passado e os acontecimentos daquele tempo distante voltam à memória com intensidade. Os tempos de infância desfilam pela cabeça num memorialismo minucioso e sofrido que o acompanha durante todo o desenrolar do processo, ato por ato, até a inesperada conclusão. Até mesmo um acontecimento doloroso em que se envolveu no colégio e que julgava esquecido volta com toda força. E o promotor vive um drama indescritível. Por um lado o dever funcional de acusar; pelo outro, o desejo de perdoar o amigo de infância. Para completar, a dúvida sobre a culpa do réu parece se infiltrar no seu coração. Esgotado, ele mal pode acreditar que o julgamento terminou.

Promotor experiente, atuando há dezessete anos no Tribunal do Júri e com mais de uma centena de julgamentos em sua carreia, o personagem fica chocado ao ver na sua frente, no banco dos réus, ninguém menos que o Tainho. Menino pobre, morador de uma favela vizinha à sua morada, ele pertencia ao mesmo grupo de crianças que por ali brincavam sem que houvesse diferença entre elas porque se sentiam iguais. E um caso que deveria ser apenas mais um dentre tantos, de repente se transforma em pesadelo.

Procurando se controlar e manter a frieza necessária, ele vai vencendo as etapas do julgamento. A oitiva das testemunhas, o interrogatório do réu, a leitura das peças processuais, a fala do defensor e, por fim, a angustiante votação dos quesitos na sala secreta, tudo desfila diante do leitor de forma lenta e exasperante. Surgem observações as mais curiosas, dignas dos mais experimentados e assíduos profissionais do Júri. Mesmo vivendo um drama íntimo, observa tudo que acontece: as palavras da defesa, a postura dos jurados, as reações da platéia, o comportamento do réu. Traça um retrato tão perfeito que a gente vê o Tribunal em funcionamento.

Não temo em dizer que se trata de um livro pioneiro pela forma com que o tema é abordado e ficará como algo inovador. Agradará, sem dúvida, a quantos se entregarem à sua leitura e sentirem o impacto da experiência vivida pelo promotor de Santa Bárbara. Eduardo Sens merece as melhores felicitações.

Os integrantes do Ministério Público têm contribuído de forma positiva com a boa literatura catarinense: Artêmio Zanon, Villa Real, Eduardo Sens. Que venham outros! 

Escrito por Enéas Athanázio, 13/08/2019 às 15h39 | e.atha@terra.com.br

JOSÉ ATHANÁZIO, MEU PAI

 Para quem tanto tem escrito sobre estranhos, quero crer que não incidirei em pecado relembrando meu próprio pai, essa figura singular, que viveu tão pouco, e, no entanto, ainda permanece na memória de sua gente mesmo depois de tantos anos após sua morte.

José Fontes Athanázio nasceu na então Villa de São João Baptista dos Campos Novos a 7 de junho de 1900. Era filho do casal Francisco Athanázio e Bernardina Fontes Athanázio.
“Seu” Chico, libanês nascido em Beirute e de presumível ascendência grega (como ele próprio costumava afirmar), era o único “turco” da cidade, coisa rara nos Campos Gerais daqueles tempos. Mais tarde chegaria Mustafá Assad. Segundo minha mãe, em cuja residência Francisco Athanázio viveu após o falecimento da esposa e do filho, ele era loiro e de olhos azuis, nascido em 1860, e chegou ao Brasil em 1877, portanto com apenas 17 anos de idade. Residiu em Lages e Curitibanos, fixando-se depois em Campos Novos, onde casou, em 1898.
Comerciante, naturalmente, “Seu” Chico era de poucas letras, engrolando mal o português, mas ninguém o enganava nas contas. Aficionado do bilhar, parece que não se dava bem com tacos e bolas, pois era freqüente e jovial perdedor de latas de conserva e garrafas de bebida.
Sua loja ficava defronte à atual igreja matriz, do outro lado do pasto freqüentado por vacas de leite e velhos matungos de carroça, hoje a Praça Lauro Müller, onde surgiria, mais tarde, o mais famoso jardim público da região, com seus curiosos caramanchões e cercas vivas. O casarão de madeira abria portas e janelas para a rua larga e ali o comerciante vivia, alegre e feliz, proseando com os amigos mais chegados e correndo o metro para o corte dos tecidos. Faleceu em Joaçaba, aos oitenta anos, em 1940.
José era o filho mais velho, seguindo-se as irmãs Maria (Marica), hoje falecida, e que foi casada com João Rupp (o tio), e Anita, esposa do Prof. Sálvio Guilhon Gonzaga, ambos falecidos. Era claro, tinha abundantes cabelos louros e olhos muito azuis, tão azuis que pareciam aguados – no dizer de um amigo. O casal Athanázio perdeu um filho, ainda menino, em horrível acidente.
Alfabetizado em casa, como em geral as crianças de seu tempo, aos oito anos foi levado para o internato, na cidade de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. A viagem era longa e penosa, feita em lombo de burro, com o enxoval em cargueiros, “sesteando” e dormindo no caminho. Durava vários dias e, para maior segurança, formavam-se autênticas caravanas de estudantes, pais e peões, armando barracas para os pernoites em pleno campo. Só retornava para casa nas “férias grandes” e assim foi por longos oito anos. Para ele e os colegas as viagens se transformavam em aventuras inesquecíveis, cujos acontecimentos relatava com saudade.
Estudou mais tarde, por algum tempo, no Colégio Catarinense, em Florianópolis. Relatou-me um de seus contemporâneos dessa fase, muitos anos mais tarde, que ambos retornavam das aulas caminhando pelas areias da praia, com as calças arregaçadas e os sapatos nas mãos.
Vai bem nos estudos e isso enche o coração de “Seu” Chico; o imigrante antevê no filho o futuro doutor na pátria que escolheu e logo na primeira geração.
Em 1916, cheio de planos e sonhos, o jovem camponovense está em Porto Alegre para os “preparatórios.” Os livros de sua biblioteca, parte da qual carrego comigo até hoje, adquiridos nessa época, revelam que muito lia e lia bem. Num deles, em letra miúda e juvenil, está o lema de Cervantes: “Quem lê muito e anda muito, sabe muito e conhece muito.”
No ano de 1917, com dezessete anos, está matriculado na Faculdade de Medicina do Rio Grande do Sul. Nela faz os três primeiros anos do Curso Médico, para transferir-se então para a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. A antiga capital exercia intensa atração como o maior centro cultural, científico e político do país. Faz um curso caprichado, com excelentes notas, convivendo com professores, médicos e intelectuais. Forma-se em 1922, ano do centenário da independência, e a imprensa deu grande destaque à solenidade, à qual compareceu inclusive o Presidente da República.
Mas o camponovense é arrojado, sonha alto. Decide doutorar-se e defender tese, ainda que não visasse o magistério. Permanecendo na “terrinha” por um ano, “não levanta os olhos dos livros.”
Em 12 de novembro de 1923, depois de muito estudo e pesquisa, apresenta à consideração da Faculdade a tese “O cloreto de cálcio em terapêutica.” Submetida ao visto do secretário, Dr. Brito Silva, o moço de Campos Novos, no verdor de seus vinte e três anos, vai defendê-la a 6 de dezembro do mesmo ano.
A Banca Examinadora é das mais exigentes e rigorosas, nela formando algumas figuras de projeção nacional, médicos, cientistas e mestres de renome. É composta pelos Professores Ozório de Almeida, Pedro Pinto, Agenor Porto, Miguel Couto e Aloysio de Castro, Diretor da Faculdade, estes dois últimos até hoje reverenciados como grandes expoentes. Segundo depoimento do Prof. Newton Freire-Maia ao autor, Ozório de Almeida era a maior expressão científica dentre todos (1). Mas José Athanázio vê o seu trabalho aprovado com distinção e louvor. Submeti essa tese a diversos médicos amigos, entre eles o saudoso Prof. Alvir Riesemberg, tendo eles afirmado a indiscutível originalidade do tema escolhido e das suas conclusões para a época em que foi elaborada  (2).
1924 marca o início de suas atividades profissionais na terra natal. O chamado de seu chão faz com que volte à Villa para a convivência com os pais, as irmãs, os amigos. A antiga capital da República, no entanto, ficou gravada na sua lembrança, amando-a tanto que, pouco antes de falecer, aprestava-se para o retorno definitivo. Residiu na Gávea à época dos estudos e isso o levaria a reproduzir em Campos Novos, no topo da coxilha mais elevada, uma das casas de pedra existentes naquele bairro carioca. As paredes, constituídas de blocos retangulares de pedra-ferro, tinham cerca de oitenta centímetros de espessura. Defronte, fazendo vista para a cidade, o varandão corria toda sua extensão.
Nessa casa, ainda hoje existente, ele clinicou até o fim da vida e nela nasceu a Fundação Hospitalar Dr. José Athanázio dos dias atuais. Parte dos móveis do primeiro consultório foram feitos por ele, em madeira-de-lei, com a ajuda do inseparável amigo e vizinho Juventino Lemos. Tanto as poltronas, conhecidas como cadeiras de bispo, como a escrivaninha, andaram comigo por ceca e meca e ainda se encontram, intactas, em meu escritório.
Desde logo se revelou um profissional competente e dedicado. Era daqueles que passavam a noite à cabeceira do doente, só arredando pé após o seu restabelecimento. Não foram poucas as pessoas que ainda conheci e que confessaram lhe dever a cura. Viajando a cavalo e, mais tarde, num Ford, percorreu os caminhos e carreiros dos campos para atender a chamados distantes. Sua fama, em pouco, se firmou na região, tanto que mesmo após tantas décadas sua memória é venerada. Diziam mesmo os mais antigos que sua alma prosseguia fazendo curas, tantas as promessas atendidas.
De pouco falar era, no entanto, espirituoso, desses que em duas palavras definem uma situação. Conta-se que foi visitado por um cliente, caboclo de enormes cabelos, barbas e bigodes.
- Para que tanto pelo, “Seu” João? – inquiriu.
- É luto, sentimento pela morte da mulher – explicou o homem.
- É, - concluiu o médico, - esse é um verdadeiro sentimento cabeludo!
Uma noite, - relatou um conhecido, - foi chamado a atender o ferido de tiroteio num baile do interior. Para lá se dirigiu, guiando o “Fordeco”, levando em sua companhia o meu informante, ainda estudante.
A vítima gemia numa “tarimba”, um projétil encravado nas costas. Verificou logo que se tratava de ferimento superficial: a bala transfixara outra pessoa, chegando sem força, e ficou presa apenas na pele. Numa manobra rápida, o médico a retirou, exibindo-a ao ferido, e ele, feliz da vida, parou os gemidos e se pôs a agradecer.
- Não agradeça – resolveu o médico brincar, ainda que com a fisionomia séria. – A bala passou pelo corpo do H. P. antes de atingir você. . .
O homem, no começo, não entendeu; depois, aos poucos, esbugalhou os olhos e caiu no desespero. É que o H. P. tinha fama de ser morfético.
Ouvi certa vez que ele teria extraído o coração de um suicida para estudos e dissecação. Por mais que investigasse, não encontrei qualquer indício de veracidade, de maneira que o incluo no rol dos numerosos “causos” em que é pródigo o povo. Meu pai só fazia pequenas cirurgias, uma vez que não havia hospital, instalações e pessoal habilitado para a realização de cirurgias maiores, de forma continuada. Minha mãe recorda a angústia que o acometia quando nada podia fazer, exceto encaminhar o doente para fora, sem saber se chegaria com vida.
Desprendido dos bens materiais, José Athanázio não se preocupava com dinheiro, roupas, vida social. Vestia-se com displicência, os sapatos sempre sem cordões. Fumava “Jockey Club”, cigarro da época, mas jogava-o antes de consumida a metade, para acender outro em seguida. Gostava de lidar no imenso pomar dos fundos da casa, fabricar móveis e andar a pé pelas redondezas da cidadezinha, acompanhado de seu cão São Bernardo, de nome Fumanchu. Durante anos manteve na cocheira o cavalo Tufão, um tordilho negro em que costumava visitar clientes e amigos. Foi também exímio nadador.
Irritava-se com os colegas mais novos, que viviam à caça do dinheiro, e por muitas vezes manifestou sua preocupação com a incipiente comercialização da medicina de seus dias. Não desejava que o filho fosse médico.
Herdou algumas terras, hoje situadas no município de Erval Velho. Relatam os seus amigos que ele gostava de subir ao alto de uma elevação e de lá apreciar a massa dos pinheiros verdes, de copadas farfalhantes. Pinheiro, naqueles tempos, nada valia. Havia até fazendeiros que os derrubavam para que suas grimpas espinhentas não “sujassem” os campos.
- Essa árvore – previa ele – valerá fortunas. Em vinte anos, quem tiver pinheiros estará muito rico.
Os caboclos, ao seu redor, sorriam por dentro e “maginavam” que aquilo era mesmo coisa de doutor de cidade grande.
José Athanázio já era um solteirão. Estava com trinta e dois anos quando resolveu casar. A sua decisão causou espanto entre os amigos, mas a escolhida foi Irma Vieira, filha dos fazendeiros Policarpo Alves Vieira e Olívia Alves Vieira, ele nascido em Curitibanos, ela nos campos de Vacaria. “Seu” Lica era o proprietário da Fazenda do Fundo Grande, onde residia. Numa antiga caderneta de capa preta, minha mãe escreveu em letras caprichadas: “Dia 8 de março de 1932. Fiquei noiva, sendo pedida na Fazenda.” Imagino o velho “Fordeco”, roncando e pulando pelos fundos trilhos campeiros, conduzindo o Dr. Athanázio para o pedido de casamento. Acredito que tenha ido só; nenhum de seus amigos, dentre os que conheci, se recordava de tê-lo acompanhado nessa jornada.
O casamento, porém, só se realizaria mais de dois anos depois, em 26 de maio de 1934, um sábado, pelas 21h, como era de praxe e a noiva registrou no caderninho preto. Eles se conheceram nos bailes e festas do Clube Repentino (que disputava com o Democrata) e de cujo carnaval minha mãe chegou a ser rainha. Lembra ela que papai era inteiramente desajeitado para danças.
As irmãs Irma e Iracy (esta depois se casaria com o advogado e mais tarde deputado Waldemar Rupp) eram bonitas e disputadas a tal ponto que se tornaram meio de comparação. Conta-se que Nhô Justo, morador daquelas bandas, quando queria realçar a beleza de alguma coisa, exclamava:
- Linda que nem as filhas do Lica Vieira!
O casamento, no entanto, só duraria menos de três anos. O casal teve um único filho.
Cercado pelos amigos e sempre às voltas com os livros, José Athanázio, além das leituras de assuntos profissionais, foi um apreciador da História e acompanhava com atenção a política nacional e estrangeira. Das freqüentes viagens ao Rio, voltava carregado de livros. Ele e os amigos, nas tardes de calor, rumavam para o Poço da Bica, nas cercanias da cidade. Deitados à sombra das árvores, liam e discutiam. Depois se banhavam na água cristalina e gelada que escorria da pequena bica de madeira. Num de seus últimos contos, Guido Wilnar Sassi recorda uma dessas tertúlias a céu aberto (“O Naufrágio do Black Ship”).
Nas noites silenciosas se reuniam na imensa sala do casarão de pedras. Ouviam rádio, quando não havia muita “estática”, num dos primeiros (provavelmente o primeiro) aparelhos por lá aparecidos. A voz dos locutores distantes estabelecia a ligação daquela vila perdida nos campos com o resto do mundo. A antena se estendia por muitos metros, fixada em postes que formavam fila ao longo do quintal.
A qualquer pretexto José Athanázio se punha a declamar Camões.  O célebre “Soneto 29” era o preferido:
 
“Sete anos de pastor José servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,  
Que a ela só por prêmio pretendia.
 
Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.
 
Vendo o triste pastor que com enganos
Assi lhe era negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;
 
Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: Mais serviria, se não fora,
Para tão longo amor tão curta a vida.” (3)
 
Grande foi o seu círculo de amigos. Othon D’Eça, ainda solteiro e que viria a ser meu professor na Faculdade; Edmundo Acácio Moreira e José do Patrocínio Gallotti, também meus futuros professores; o Desembargador Sálvio Gonzaga; o juiz A. Selistre de Campos, figura ardorosa e controvertida de magistrado, defensor corajoso dos índios do Oeste Catarinense, foram seus amigos. Mas Antônio Bottini, também médico e mais tarde professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Darcy Pedroso, Paulo Blasi, Ozório Farias e Juventino Lemos eram os mais chegados. Este último foi o seu companheiro no fabrico de móveis, nas lidas de horta e pomar a que gostava de se entregar nas horas de folga, nas freqüentes caminhadas pelas cercanias e até em algumas pequenas viagens profissionais. “Tio Tino”, homem simples, tinha-lhe verdadeira adoração, embora fosse vítima constante de suas troças, das quais até gostava. De uma fidelidade inconcebível nos dias de hoje, contou-me o próprio “Tio Tino” que, quando se excedia no linguajar, meu pai se irritava:
- Cala a boca, Juventino! Deixa de burrices!
Mas ele se deleitava com as estórias de fantasmas e assombrações em que Juventino era pródigo e tinha nele um animado companheiro para os bailes do “Repentino”, pois “Tio Tino” era um grande carnavalesco. Dos seus amigos mais íntimos, foi o único com quem convivi e conheci bem de perto. Algumas passagens de sua vida dariam excelentes crônicas. Juventino guardou até o fim da vida uma dolorosa e sincera saudade do amigo que se foi tão jovem. Já bem velhinho, trôpego e cansado, muitas vezes vi seus olhos marejados quando recordávamos coisas vividas por ele e papai. Homem de passo leve e macio, costumava entrar em meu escritório sem se anunciar, sentando-se numa poltrona, e dali me observava em silêncio. Entretido no trabalho, eu levava um susto quando o avistava.
- Parece que estou vendo o José quando moço! – afirmava, acentuando sempre nossa semelhança física.
Othon D’Eça relembrava as longas conversas com meu pai nas noites silenciosas, caminhando em torno do célebre jardim com seus caramanchões, cedrinhos recortados e cercas vivas bem aparadas. Quando cansavam, depois de muito andar, sentavam-se no banco tosco, na verdade uma tora maciça lustrada pelo uso, diante do hotel em que D’Eça se hospedava, quase ao lado da casa de meus avós paternos, com os quais meu pai residia. A conversa se estendia sob um céu pintalgado de estrelas e às vezes o friozinho se anunciava. Enquanto D’Eça era falante, irrequieto, cheio de gestos, meu pai ouvia muito e falava pouco.
A biblioteca que pertenceu a José Athanázio, na parte que me chegou intacta e que guardo até hoje, era toda em francês, na literatura médica, e parte em francês e latim, na literatura geral.
Charles H. May, Gaston Lyon, E. Macé, Fernand Berlioz, J. Castaigne, H. Paillard, Victor Viau, M. Guibé, Alex Renault, M. Nicolle et J. Magrou, Ch. Debierre, G. Pouchet, Allyre Chassevant, Hermann Eichorst, Ph. Störh, F. Lejars, Rémy Perrier, E. Hédon, L. Testut, G. Dieulafoy, Ganot-Maneuvrier, Fabre, E. Apert, André Broca, A. Richaud, M. Arthus, J. Darier, J. Barozzi, C. Oddo, Simon Duplay, J. Courmont, E. Terrien, Guy Laroche, Georges Laurens, J. Comby, Félix Coste  são alguns autores de sua estante médica. Cícero (“Orationes”), Cesar (“De Bello Gallico”), Jules Verne, Gustave Le Bon, Louis Buchner, excelentes e variadas gramáticas e antologias latinas, francesas e portuguesas, além de inúmeros livros e revistas sobre assuntos da atualidade compunham a parte geral. Não poderia faltar a História de Cesare Cantu.
Em política, formou ao lado de Adolfo Konder, integrando o grupo dos “Coligados.” Candidato a deputado, não foi eleito, embora obtivesse mais votos que o concorrente de sua região. O sistema eleitoral da época, ainda na República Velha, continha dessas armadilhas.
Desde 1936 começou a apresentar problemas de saúde. Não alterou, porém, o modo de vida, trabalhando e atendendo normalmente a clientela. Em novembro desse mesmo ano, apesar de seu empenho e dedicação, falece sua mãe, Bernardina, fato que muito o abala e leva a surdas recriminações contra os limitados recursos médicos de então. Salvara tanta gente, jovens e velhos, e, no entanto, era incapaz de evitar o falecimento da mãe, cuja morte veio a agravar o seu próprio estado. As fotografias dessa época mostram-no triste e abatido.
No início do ano seguinte a sua saúde inspira cuidados. Colegas e amigos temem pela sua vida e se desvelam em tratamentos e cuidados. A 24 de março não se sente bem, permanece acamado, mas conversa com a esposa e recebe os amigos pela manhã. Seus colegas, inclusive de cidades vizinhas, e até um colega de turma, vêm prestar-lhe assistência. Consciente do seu estado, e por certo seguro como sempre no diagnóstico, por volta das nove horas afirma a Paulo Blasi, em francês: “C’est mon dernier jour!” Efetivamente, assinalavam os sinos da velha igreja matriz o meio-dia quando ele deixou de existir. Era uma quarta-feira cinzenta e fria.
Sepultado no dia seguinte, no cemitério de sua terra, quase toda a população o acompanhou. Paulo Blasi, o mesmo amigo inseparável, faz um sentido discurso. “Espírito humanitário, - escreveu ele – encontramos sempre em José Athanázio um amigo dedicado, um amigo nas passagens mais alegres, um amigo nos momentos mais melindrosos, como um abnegado nos transes mais amargos e dolorosos. Desempenhando suas funções de médico, não foi só o profissional, foi o abnegado. Muitas vezes não dava ao pobre só a receita, mas também dinheiro para que pudesse mandar aviá-la.”
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(1)                                                                                 – Sobre Miguel Couto, v. “Enciclopédia Brasileira Globo”, P. Alegre, 1971, Vol. IV.
(2)                                                                                 – A tese foi publicada pela Tipografia Alba, à Rua Maranguape, 17, Lapa/RJ, no mesmo ano de 1923. Tem 45 páginas, divididas em nove capítulos, e a bibliografia arrolada é toda estrangeira, indicando que o assunto era mesmo novo no Brasil.  Há exemplares dela nas bibliotecas de Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, São Paulo e Rio, bem como em bibliotecas universitárias, como a da UFSC.
(3)                                                                                 – “Obras” – Tomo II da edição do Visconde de Jurumenha. Indicações anotadas num exemplar do soneto encontrado nos papéis de José Athanázio.
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(Transcrito, com acréscimos e correções, do livro “Figuras e Lugares”, Blumenau/SC, Fundação Casa Dr. Blumenau, 1983).
Escrito por Enéas Athanázio, 09/08/2019 às 16h00 | e.atha@terra.com.br

MAR E GUERRA

Em visita ao Rio de Janeiro, para receber os prêmios que me foram conferidos pela União Brasileira de Escritores (UBE/RJ), adquiri numa loja das Livrarias da Travessa um exemplar do terceiro volume dos contos de Ernest Hemingway (1899/1961), integrante de suas Obras Completas (Bertrand Brasil – Rio – 2001). O volume reúne 21 contos de autoria do norte-americano, dentre eles alguns dos menos conhecidos e outros muito longos, talvez fragmentos de romances não concluídos pelo autor. A tradução é de José J. Veiga.

Nesses contos, como em toda a obra do autor, o mar e a guerra são muito presentes. É conhecida a paixão dele pelo mar, pelas pescarias e aventuras marítimas, aos quais se dedicou com intensidade, em especial no período em que viveu na Finca Vigia, em Cuba. Ficou célebre sua lancha Pilar, com a qual muito navegou pelo Gulf Stream e que usou até mesmo para localizar submarinos alemães durante a II Guerra Mundial. Também o fascínio que alimentava pelas guerras é conhecido, uma vez que se tornou herói da I Guerra Mundial, ao ser ferido em missão, na Itália. Depois disso, cobriu outros conflitos e até mesmo participou de operações bélicas, inclusive na Guerra Civil espanhola e na retomada de Paris. Diante disso tudo, é natural que muito dessas experiências transpareça na sua obra em páginas de fundo memorialístico, como acontece em muitos destes contos.

Logo no conto de abertura nos deparamos com o capitão Harry, personagem já conhecido, seu barco e uma perigosa travessia clandestina para contrabandear chineses. É um conto que culmina com muita violência, como se espera do capitão Harry, em que é morto o Sr. Sing, intermediário do negócio, sem que pareça existir motivo. E os chineses transportados, em vez de serem levados a um dos destinos combinados, são largados à própria sorte em Cuba. Conto escrito com maestria, com muito diálogo e que transmite com precisão o ambiente do cais e da gente ribeirinha. O conto seguinte também se envolve com as coisas do mar. E os três que se seguem têm a guerra como pano de fundo. Em um deles é relatada a angústia do combatente na véspera de uma batalha que já sabe perdida e na qual prevê que vai morrer. Esses contos acontecem na época em que o narrador-personagem vivia no Hotel Flórida, em Madri, enquanto a guerra se travava no fim da rua e as bombas explodiam na frente do próprio hotel e às vezes até o atingiam.

Os contos subsequentes também têm a guerra como pano de fundo, um na Espanha e outro em Cuba. São contos “pesados”, conforme a divisão de Monteiro Lobato, tradutor de Hemingway, para distingui-los dos “leves” No primeiro deles, o cinegrafista filma uma batalha ao pé da cordilheira quando observa um soldado francês que está desertando, desiludido com a possibilidade de vitória. É então perseguido e morto de maneira fria e implacável pelos fiscais armados. No segundo conto, numa casa cheia de armas, jovem casal revolucionário tenta fugir. O rapaz é metralhado e a moça conduzida à prisão e à tortura pela polícia do ditador Batista. Nesses contos Hemingway parece dizer que os humanistas apreciam a humanidade cm conjunto, como algo etéreo e distante, mas não suportam os indivíduos isolados, em carne e osso. É um amor platônico pelo ser humano indeterminado – aquele a que chamamos o povo.

No longo conto “Quando o mundo era novo”, o escritor repisa uma de suas antigas obsessões: a velhice deste mundo caduco e que está sempre repetindo os mesmos erros. Nele parece suspirar de doloridas saudades de um mundo jovem, limpo, justo e humano. No fundo, é provável que acreditasse no rejuvenescimento deste mundo velho renovando-se para melhor. E nos demais contos reunidos no volume o leitor vai encontrar todas as paixões do escritor: a África, a Espanha (que considerava a segunda pátria), as touradas, os animais (com predileção pelos grandes – leões, búfalos, elefantes, cães...), as viagens, o movimento, as inquietações, as argutas observações. Sempre e sempre a atividade, as lutas, as vitórias e as derrotas, a vida e a morte, a paisagem, a natureza, o amor, o espetáculo da vida. Nunca a masturbação psicológica de que falava o crítico Wilson Martins. Nick Adams, um de seus mais célebres personagens, também se apresenta. Estes talvez não sejam o melhor Hemingway mas são, sem dúvida, alguns dos grandes momentos da contística universal.

Escrito por Enéas Athanázio, 05/08/2019 às 12h04 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.