Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

Sobre a China

Xangai, a maior cidade chinesa

Com o surgimento da pandemia do coronavírus várias “teorias conspiratórias”, inspiradas no ódio dos dias que vivemos, circularam sobre a China, as mais graves delas insinuando que o país fomentou a disseminação do vírus com o objetivo de vender produtos e medicamentos e até que criou em laboratório a doença. Os Estados Unidos criaram a expressão “vírus chinês”, uma evidente insinuação que hoje corre o mundo. No passar dos dias, porém, ficou evidente o esforço hercúleo feito pela China para conter a doença e defender seu povo. É claro que esse fato não serviu para calar as bocas e apaziguar as consciências, mas a mídia não deixou dúvida.

A China é vítima de todas as acusações, tanto por ser socialista como por ser desconhecida. No Brasil as pessoas em geral pouco ou nada sabem a respeito dela e muitas afirmações falsas circulam como se fossem indiscutíveis verdades. Entre elas, é comum ouvir-se que os trabalhadores chineses recebem salários miseráveis ou salários de fome. Ora, informações de fonte segura e isenta afirmam que o salário médio deles é bastante superior ao dos brasileiros e tem maior poder de compra porque não convivem com a praga chamada inflação. Mas isso adquiriu foro de verdade indiscutível e não há quem possa alterar esse entendimento. Também são muito criticados os hábitos alimentares chineses. Esses costumes variam nas diversas regiões do globo e aquilo que parece estranho para uns é comum para outros. Os jegues do nosso Nordeste estavam sendo exportados para países asiáticos e lá se transformavam em carne moída para consumo humano. Outros povos consomem a carne de cavalos e os franceses fazem sopas com ninhos de andorinhas. Não obstante, os franceses são o povo mais sofisticado do mundo. A escritora brasileira Betty Milan muito escreveu sobre a culinária francesa e lembrou que à tarde muitas pessoas são vistas em Paris com sua “baguette” (pão alongado) debaixo do sovaco.

Rana Mitter, estudioso das coisas chinesas (sinólogo) e professor da Oxford University, escreveu um livro admirável sobre aquele país e que deveria ser lido porque o conhecimento é a melhor arma contra o preconceito e as falsas concepções. Trata-se de “China Moderna”, publicado entre nós pela L&PM Pocket (Porto Alegre – 2011). Ele desvenda um extenso panorama da China, suas história, cultura, economia e modus vivendi de seu povo. Tudo muito bem fundamentado e documentado, de forma isenta e distanciada.

Para bem entender a poderosa China de hoje, o autor se aprofunda na sua longa e complexa história. Revela um país dividido entre os poderes regionais que lutavam entre si e pareciam destituídos de um sentimento nacional. Governado por dinastias autoritárias e discricionárias, enfrentava com dificuldade a fome e a miséria. Durante o governo de Chiang Kaichek, auto-intitulado nacionalista, houve até mesmo a venda e o aluguel de partes do território nacional a potências estrangeiras. E elas exploraram essas concessões da forma mais livre e predatória possível, em tudo semelhando o colonialismo ocidental na América, na África e na Ásia. Tudo indica que foi a Longa Marcha de Mao Tsé Tung que fixou na população o sentimento de nação, mas no governo dele o país se isolou do mundo, daí derivando muitas das fantasias e invencionices que cercam a China. Mas depois veio a abertura para o mundo e a busca do equilíbrio entre o interesse nacional e a integração no panorama mundial. Em pouco mais de oitenta anos a China deixou de ser um país dividido, desorganizado e miserável para se tornar a segunda potência mundial. É claro que esse gigante realizador e decidido assusta as chamadas grandes potências, temerosas de perder sua hegemonia. Como registra a história, da mesma forma que com as pessoas os países crescem, chegam ao apogeu, envelhecem e morrem.

Impregnada desde séculos pelo pensamento de Confúcio, a sociedade chinesa entendeu que necessitava ingressar na modernidade. Sun Yatsen teve importante papel como figura devotada a uma China republicana e moderna. Travou-se tremenda luta para desvencilhar o país dos contratos ruinosos assinados com outras potências e um grande esforço para se livrar dos estrangeiros que dominavam pontos estratégicos da economia. O país chegou a sofrer uma guerra por tentar limitar a venda e a exportação do ópio. Foi invadido pelo Japão, numa guerra catastrófica, da qual só se livrou com a derrota do Eixo, na II Guerra Mundial, em 1945. Foram penosos e sofridos os caminhos do povo chinês até chegar ao atual status.

Assim como as grandes potências temem os países emergentes acontece na sociedade humana. As classes privilegiadas temem a ascensão dos mais pobres porque isso constitui uma ameaça às suas benesses. Aparece então o ódio como reação, o chamado ódio de classe, mais visível que nunca no mundo e no Brasil de hoje, embora sempre camuflado pelas formas mais sofisticadas. O ódio ideológico só faz agravar esse quadro. É por isso que a leitura é indispensável, espantando fantasmas que infestam as cabeças de muita gente.

Muitas pessoas alimentam a esperança de que da pandemia emergirá um mundo melhor, mais humano, fraterno e cordial. Mas não é o que se vê nas redes sociais, antes pelo contrário. O que se vê é mais ódio, intolerância, fanatismo e violência verbal nas ofensas e xingamentos. Nada indica que o homo homini lupus de Thomas Hobbes esteja perdendo a atualidade. E tudo muito mal escrito. É de dar medo! 

Escrito por Enéas Athanázio, 25/05/2020 às 10h25 | e.atha@terra.com.br

UM LIVRO TRISTE

O romance “O Velho e o Mar”, de autoria do escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899/1961) é proclamado como autêntica obra-prima e um dos pontos mais altos de sua produção. Segundo seus biógrafos, o livro contribuiu de forma decisiva para a conquista do Prêmio Nobel de Literatura, em 1954. É também um dos livros preferidos por grande parte dos leitores do escritor. É curioso notar que foi escrito numa fase em que Hemingway amargava críticas negativas ao seu livro anterior e os mais pessimistas o julgavam acabado. Mas os altos e baixos foram uma constante na vida do velho guerreiro e ele sempre ressurgia e se elevava cada vez mais alto.

A história que se desenrola no livro é tida como uma fábula e comparada às lutas homéricas dos grandes heróis, embora seja um relato linear e despido de personagens. O velho Santiago domina a cena e nela também se destaca o garoto Manolim, seu antigo companheiro de pescarias, proibido pelos pais de acompanhar o pescador porque ele estava “salao”, ou seja, era um azarado da pior espécie. Sem conseguir pescar nada há mais de oitenta dias, Santiago, sozinho, entra mar adentro no seu barco humilde e sem maiores recursos. Pesca um ou dois peixes pequenos dos quais se alimentará mais tarde e um peixe de proporções gigantescas engole sua isca. O peixe estica a linha e começa a rebocar o barco para o mar alto de maneira constante e persistente sem dar mostras de cansaço. Assim continua por dias e noites, submerso nas águas da Gulf Stream, e o velho pescador, com a linha envolta no corpo, amparada nas costas, resiste como pode. As luzes da cidade de Havana desaparecem e ele se vê só e isolado em meio à vastidão, arrastado pelo maior peixe que havia pescado. Depois de muita luta, o peixe vem à tona, é morto e amarrado ao lado do barco, uma vez que não caberia dentro dele. Foi uma vitória difícil, desigual, sobre-humana, de um homem envelhecido, desnutrido e fraco contra a força bruta. Mas ele vence e começa a voltar para a terra quando os tubarões atacam. O pescador, desesperado, luta com todas as forças mas é inútil. Os monstros devoram toda a carne do peixe, deixando apenas o espinhaço com o qual Santiago, mais morto que vivo, chega em casa.

Nas andanças pelo mar alto, rebocado pelo imenso espadarte, Santiago filosofa, reza, conversa consigo mesmo, inclusive em voz alta. Sente pena do peixe, que imagina muito lindo, mas sabe que terá que matá-lo. É pescador profissional, muito pobre, e o peixe, vendido no mercado, poderá lhe render bom dinheiro. Ele é o retrato da humildade e do conformismo. Mesmo exausto pelo esforço hercúleo que fez ao longo de tanto tempo e tendo seu peixe devorado por vorazes tubarões, não emite um só queixume, uma só palavra de revolta ou inconformismo. Reconhece para si mesmo que é um homem de pouca sorte, um azarado. O garoto, ao contrário, não se conforma com o que aconteceu ao seu amigo Santiago. Chora copiosamente, com as lágrimas escorrendo pelas faces, mesmo na rua e diante de outras pessoas, mas não se importa. Trata de ajudar o velho pescador de todas as formas que pode até que ele descanse na sua cama forrada de jornais velhos da qual tanto se lembrou com saudade durante a penosa jornada marítima. Sonha com leões brincando numa praia africana, tal como os vira na juventude.

No correr daquela luta desesperada, Santiago gostaria que tudo não fosse mais que um sonho, mas não admitia a derrota. Um homem não foi feito para a derrota, ele pode ser destruído mas jamais derrotado. E então redobrava os esforços naquela luta desesperada.

O velho Santiago, saltando das páginas luminosas de Hemingway, alcançou projeção universal e hoje é um dos personagens nucleares da moderna literatura.

Quanto a Ernest Hemingway, tornou-se uma lenda que extrapolou todos os limites da literatura e da arte. Não é apenas o criador de um estilo único na forma de escrever, sempre imitado mas jamais igualado, como continua sendo um dos escritores mais lidos de todo o mundo. É imitado de todas as formas, no porte, no vestuário, no jeito de andar e se vestir, no modo de falar. Existem concursos de sósias, de pesca e torneios com seu nome. É venerado em Cuba, onde viveu por mais de vintes anos na Finca Vigia, nos arredores de San Francisco de Paula, e nos lugares onde residiu, nos Estados Unidos, além de homenageado de todas as maneiras imagináveis.

Não obstante, foi um homem que sempre me pareceu triste. Este romance assim o revela, deixando no leitor, ao virar a última página, um misto de admiração pela beleza e de melancolia pela pouca sorte de Santiago.

 

Reprodução (The Old Man and The Sea, Alexander Petrov)
Escrito por Enéas Athanázio, 18/05/2020 às 17h06 | e.atha@terra.com.br

O FURIOSO DA RUE POPINCOURT

Georges Simenon (1903/1989) foi um dos mais prolíficos escritores da moderna literatura francesa. Conseguiu aliar o tom popularesco com a alta qualidade da escrita. Publicou mais de 200 livros e vendeu mais de um bilhão de exemplares, em todo o mundo, em versões para inúmeros idiomas. Dono de uma imaginação sem limites, engendrou numerosas histórias policiais nas quais desponta sempre o comissário da Polícia Judiciária francesa, Jules Maigret, um dos personagens de ficção mais célebres da literatura, formando ao lado de Sherlock Holmes e Hercule Poirot. Humano, compreensivo, Maigret não usa arma e nem a violência, preferindo desvendar os crimes pela dedução e pelo raciocínio. Salvo uns poucos casos, sempre se dá bem e acerta no alvo. Seu método é o de não ter método.

Muitos de seus romances têm sido publicados no Brasil, onde ele conta com apreciável número de leitores. Entre eles avulta Maigret e o Matador (L&PM Pocket P. Alegre 2018), contendo uma das mais intrigantes investigações do comissário, tendo como pano de fundo a cidade de Paris num período chuvoso em que escorria água pelas calçadas e o vento castigava as pessoas. Um rapaz de família rica, de comportamento discreto e sem antecedentes criminais, é assassinado com sete facadas numa noite silenciosa na Rua Popincourt. O crime é presenciado por um casal que se aproximava debaixo de seu guarda-chuva e por um idosa que tudo contempla pela janela do apartamento. Eles guardam na memória uns poucos detalhes do matador mas que seriam a chave do mistério e levariam ao criminoso. A vítima nutria paixão pelas gravações, portava sempre um gravador, e procurava registrar trechos de conversas nos mais variados locais. Considerava-as documentos humanos e pretendia estudar sociologia. Imaginou-se, no início, que tais gravações seriam a causa do crime, mas o matador não levou o gravador, embora isso pudesse ser feito com facilidade. Aí estava o qüiproquó, o nó górdio, da história. Maigret se põe em campo.

Os jornais dão ampla cobertura ao fato. A família do morto é influente. O juiz de instrução tem pressa e quer logo uma solução. O comissário, calmo e pachorrento, pouco parece fazer e não deixa de tomar seus goles de calvados ou uma boa cerveja na Brasserie Dauphine, seu ponto predileto. Nesse meio tempo o criminoso dá sinal de vida. Escreve cartas aos jornais, em letra de forma e cor verde, e entra em contato com o comissário pelo telefone. Acaba se entregando e tudo se esclarece.

Simenon é mestre do diálogo. Usa-o em profusão e de maneira perfeita. Também é preciso no uso da palavra, buscando sempre o le mot just dos clássicos franceses. Segundo a lenda, retirava os nomes dos personagens do catálogo telefônico de Paris, afirmação que não sei se merece muita fé. Sabe-se, no entanto, que quando escrevia trancava-se no escritório levando o guia telefônico e uma garrafa de bebida. Não falava com ninguém, não atendia ao telefone e não recebia visitas. Conta-se que seu editor brasileiro foi visitá-lo e deu com o nariz na porta: O senhor Simenon está escrevendo! lamentou a secretária. Hemingway também adotava método semelhante e entre as seis da manhã e as treze horas ficava recluso, escrevendo. É por isso que se diz que o ofício do escritor é o mais solitário do mundo. Diante da folha em branco ou da tela vazia ninguém pode ajudá-lo e ele tem que revolver suas entranhas para dar vida às palavras. Simenon estudou sociologia criminal e medicina legal, o que transparece dos seus livros quando Maigret faz especulações a respeito do crime e do criminoso. Dizia que para identificar o criminoso é indispensável bem conhecer a vítima. Sua técnica de interrogatório, repetindo e repetindo as mesmas perguntas por interrogadores diferentes sempre revelava bom resultado. Maigret é uma espécie de comissário-filósofo.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/05/2020 às 19h16 | e.atha@terra.com.br

PARIS É UMA FESTA

A chamada geração perdida foi constituída por um grupo de escritores norte-americanos que se expatriou em Paris em busca de melhor clima intelectual que no conservadorismo dos Estados Unidos. Entre os componentes do grupo estavam Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, For Madox Ford e mais alguns aderentes, entre os quais Ezra Pound e James Joyce. Na maioria jovens, lutavam com todas as forças para produzir e conquistar um lugar ao sol. A consagração na capital francesa garantia projeção mundial no campo das letras.

Ernest Hemingway (1899/1961) foi um dos mais ativos e lutadores do grupo. Nessa época vivia em Paris, em companhia da primeira esposa, Hadley Richardson, e do primeiro filho, ainda criança, Bumby. O casal era muito pobre, residia num pequeno apartamento sobre uma serraria, situado em bairro dos mais modestos. Decidido a viver apenas de literatura, Hemingway abandonou o jornalismo que lhe pagava bem pelos despachos, permitindo suprir as necessidades mais prementes. Não conseguia vender seus contos, exceto um ou outro, sempre devolvidos pelas publicações a que enviava. Mas, com o apoio da mulher, persistia no propósito de viver da literatura e o tempo mostraria que estava certo. Com a publicação do primeiro romance, “O sol também se levanta”, granjeou a extraordinária fama que o acompanharia por toda a vida e o levaria inclusive a merecer o Prêmio Nobel de Literatura. Tornou-se um homem rico, o que lhe permitiu viver com intensidade a vida do escritor, viajando, acompanhando as touradas na Espanha, realizando safáris na África, navegando em sua lancha Pilar e visitando lugares e países.

O período vivido em Paris inspirou-lhe um de seus mais deliciosos livros, “Paris é uma festa”, publicado em edição póstuma. Nele, o escritor rememora, de maneira leve e agradável, esse tempo duro mas romântico de sua vida. Relata a extrema dedicação com que se entregava ao trabalho literário. “Depois de escrever um conto sentia-me sempre vazio, e, simultaneamente, triste e feliz, como se tivesse acabado de me entregar ao amor físico. Estava convicto de que o conto que acabara de escrever era muito bom, embora não soubesse o quanto, até lê-lo de ponta a ponta no dia seguinte” – escreveu.
Em páginas de rara beleza, evoca a amizade com Gertrude Stein e como ela se esvaiu de maneira estranha e silenciosa. Stein era uma matrona poderosa, ao mesmo tempo admirada e temida, que tinha relações com todo o meio cultural e recebia em sua morada todos os figurões franceses. Seu apartamento parecia autêntico museu, ostentando obras de arte dos grandes mestres da época e do passado. Tomou-se de intensa simpatia por Hemingway, em quem adivinhava imenso talento, sentindo-se no direito de dizer-lhe com total franqueza o que pensava de seus escritos. Também não escondia suas opiniões sobre outros autores, fossem ou não consagrados, e não admitia discussões a respeito. Fica a impressão, talvez ilusória, de que Hemingway gostava mais do apartamento-museu que de sua habitante. Foi Gertrude Stein quem vulgarizou a expressão geração perdida, ouvida de um mecânico.

Outra figura evocada com carinho é Sylvia Beach, proprietária da livraria-biblioteca “Shakespeare and Company”, a quem ficou devendo inúmeros favores que jamais esqueceu. Local de encontros de escritores e artistas, alugava e emprestava livros, e lá costumavam acontecer grandes debates sobre a vida cultural parisiense. Entre seus frequentadores mais ilustres estavam James Joyce e Ezra Pound. Hemingway se tornou “habitué.”

Os moradores, pequenos comerciantes, frequentadores e pescadores das margens do Sena são evocados com evidente saudade. Hemingway nutria imensa simpatia por aquelas pessoas simples a quem chamava gente do Sena. Recordava-se até mesmo de livros de segunda mão adquiridos dos “bouqunists” que os vendiam naquela região da cidade e das refeições feitas em modestos restaurantes populares e baratos. Gostava de trocar pernas ao longo do cais, ouvindo as conversas das pessoas e o marulhar das águas. Reteve na memória detalhes das ruas, da arquitetura e da vida naqueles locais. Às vezes fazia essas caminhadas tomado de grande forme, não sei se real ou imaginária.

A amizade do memorialista com F. Scott Fitzgerald toma extensa parte do livro. Muitos acontecimentos vividos pelos dois são recordados, restando a triste conclusão de que o talentoso autor de “O Grande Gatsby” caminhou para uma morte precoce vítima de insuperável alcoolismo. As discussões de ambos sobre literatura constituem grandes ensinamentos, entre elas a “teoria” de escrita gorda e magra. A primeira é a escrita enxundiosa, rebuscada, envolta em palavrório inútil e desnecessário. A outra é a escrita limpa, precisa, buscando a palavra exata, o “le mot just” dos clássicos franceses.

Os cafés parisienses, as corridas de cavalos e de bicicletas, as lutas e box, as fugas para as estações de esqui e outras viagens, quando tinham algum dinheiro, são recordadas com intensidade de detalhes, indicando quão marcantes foram. E muito mais desses anos benéficos surge nestas páginas maravilhosas. Até que entra em cena uma nova personagem, Pauline Pfiffer, jovem e linda, e o Destino traça novos rumos para a vida do escritor.

Escrito por Enéas Athanázio, 04/05/2020 às 14h01 | e.atha@terra.com.br

A RAINHA DO CRIME

O escritor britânico John Curran, especialista na vida/obra de Agatha Christie (1885/1970) teve acesso e conseguiu examinar os célebres Cadernos da criadora do investigador Hercule Poirot. Contando com a anuência e o incentivo de Mathew Prichard, guardião do acervo e neto da escritora, ele pode manusear um por um dos 73 Cadernos em que a escritora fazia suas anotações. O pesquisador nutria esperança de que neles encontraria a chave do método criador de uma escritora que publicou mais de 80 livros policiais, peças de teatro e textos variados, tornando-se uma das personalidades mais famosas do panorama literário mundial.

Para sua surpresa, os Cadernos continham verdadeira balbúrdia de anotações sobre diversos assuntos, com páginas em branco, muitas utilizadas apenas em parte e outras riscadas de cima a baixo. Anotações sobre a obra eram sempre sumárias e em alguns locais não passavam de três ou quatro palavras. A conclusão inevitável a que chegou foi a de que o método da Rainha do Crime era justamente o de não ter método. Ela própria admitiu, em entrevista, que não tinha qualquer método e só escrevia sobre aquilo que conhecia. Como o pesquisador conhece a obra de Agatha em minúcias, encontrou algumas pistas que o levaram a concluir que se tratavam de esboços para histórias concluídas ou abandonadas. Fez um laborioso trabalho de arqueologia literária.

O ponto mais alto e positivo, no entanto, estava na descoberta de dois contos inéditos de Agatha Christie e que foram por ele publicados pela primeira vez. Trata-se de “A captura de Cérbero” e “O incidente da bola de cachorro.” Surgiram então mil especulações: por que eles não foram publicados, mesmo tendo sido produzidos há tanto tempo? As hipóteses fervilham e o ensaísta se debruça sobre cada uma delas. No caso do primeiro conto, é evidente a semelhança do personagem central com Adolf Hitler, e essa talvez tenha sido a razão pela qual a autora não o publicou. Ela era terminantemente apolítica. No caso do segundo conto, cenas semelhantes teriam sido usadas em outra história, motivo pelo qual a autora não o deu a público. Esse detalhe, no entanto, em nada prejudicou o conto que não perdeu a qualidade. Ambos os contos são excelentes e muito bem escritos. Aliás, a Rainha do Crime escrevia muito bem, de forma precisa, leve e agradável. “A prosa de Agatha – escreve Curran, – única em todos os sentidos, flui com facilidade, os personagens são factíveis e distintos e grande parte dos romances é narrada em forma de diálogos.” Como Hemingway, ela foi mestra do diálogo.

Os estudos de Curran sobre os misteriosos Cadernos e os dois contos foram publicados no Brasil em dois volumes pela Editora Leya – Texto Editores (S. Paulo – 2019), em tradução de Thereza Christina Roque da Motta. Constituem uma leitura das mais curiosas pelo que contêm de detalhes, informações, reproduções, bastidores das histórias e análises. É interessante observar a onipresença de Poirot que, embora criado por uma autora britânica, é de nacionalidade belga e usa frequentes expressões francesas nas suas falas. Também valem suas “filosofias”, como “em tempos de desespero, é preciso aplicar meios desesperados.” Como o inspetor Maigret, de Simenon, às vezes parece que Poirot mais adivinha que desvenda. A personalidade de Poirot é cintilante, magnética, e ele dá a impressão de que está se divertindo durante as investigações e não exercendo seu poderoso raciocínio.

Encerrando estas notas, transcrevo uma indagação que Curran deixou no ar: “Por quê? Porque nenhum outro autor de romances policiais escreveu tão bem, tanto ou por tanto tempo, ninguém conseguiu igualar sua combinação de legibilidade, trama, justiça e produtividade?”

Eis a questão.

Escrito por Enéas Athanázio, 27/04/2020 às 08h49 | e.atha@terra.com.br

A SOLIDÃO NA MULTIDÃO

Não deixa de ser curioso que a moradora da maior cidade do país, convivendo com multidões, publique um livro de poesias enfatizando a solidão. A jornalista e poeta Rosani Abou Adal, editora do jornal cultural “Linguagem Viva”, de São Paulo, publicou o livro “Manchetes em Versos” que se abre abordando justamente a solidão. Seus textos curtos, semelhando manchetes, refletem com precisão o sentimento que vai na alma da poeta: toda aquela gente que se movimenta, povoa as ruas e praças, os prédios e tudo mais não consegue afastar a solidão paradoxal que vive naquele meio tão agitado. “Palavras mudas/presas na garganta” indicariam o desejo impossível de gritar? “Mulher a beber/as próprias palavras/ na mesa de um bar” e Mulher a amar/os fragmentos/de sua imagem” refletem com precisão o sentimento de solidão e transmitem melancolia e tristeza. Mas a poeta prossegue:

“Deitar na cama/com homem invisível/sem sonhos/sem sono” e “Beijo calado/sem gosto” acentuam aquele sentimento. Já “Homem a dialogar/com seu fantasma” retrata a figura ruminando suas ideias sem que ninguém saiba porque o interlocutor é um fantasma. Talvez ele domine o ímpeto de “Falar e gritar/ninguém para codificar/ a linguagem” porque ninguém está disposto a ouvi-lo, mesmo na multidão.
A poesia de Rosani também vai pelo social em palavras agudas e contundentes, “Crianças raquíticas/comem o resto/da comida dos porcos”, registra ela. Não há “Ninguém para/dividir a fome”, “Nenhum amigo/ para dividir/a dor e o pão” enquanto “Lagostas regadas/de espumante francês/nas mesas dos três poderes,/a fome devastando sonhos/nos pratos da periferia”.


Mas há muito mais. Cada mini-poema é para ser lido com calma e meditado. Neles há muito de vida e sentimento. É um livro que merece atenção.


GÊNESE

 

“Gênese de um contador de estórias” (Editora Areia – Joinville – 2019) é uma coletânea de crônicas de Carlos Adauto Vieira, nosso cronista – mor, também conhecido como Charles d’Olénger ou Charlot. Edição primorosa, com capa muito expressiva, reúne cerca de 25 textos escolhidos, começando com um protesto de gratidão do autor para os que o apoiaram e divulgaram na carreira literária. Página carregada de sentimento e revelando gratidão, sentimento cada vez mais raro e quase nunca revelado em público.


Na crônica que dá título ao livro o autor rememora sua iniciação em Joinville, como escritor e advogado, cidade que ama e conhece como poucos, inclusive sua história. Escreve para os jornais, em especial para “A Notícia”, no qual mantém uma coluna. Nos tempos de ditadura é proibido de publicar com o próprio nome e então adota pseudônimos para continuar saindo. Creio, porém, que os leitores o identificavam pelo estilo e pelo tom leve e agradável, permeado de humor. Advoga com entusiasmo e sem cessar, sendo hoje o decano dos profissionais da comarca. Ferrenho adversário da ditadura, não tardou a cair sob os olhos dos “dedos-duros” e sofreu prisões em 1964, 1965 e 1967, quando foi submetido a interrogatórios e a IPMs que, acredito eu, deram em nada porque não existiam provas contra ele. Esses incidentes grotescos, propiciados pelo regime de força, inspiraram crônicas e “causos” que não se cansa de contar. Entre eles, o de um cidadão que apoiava a ditadura e evitava contatos com os adversários. Ao sair da prisão, Adauto o encontrou e lhe disse que, sob a ameaça de armas, foi forçado a delatar os demais oponentes da ditadura. O primeiro nome que lhe ocorreu, afirmou ele, foi justamente o do ferrenho defensor da ditadura. O homem ficou desesperado e dali em diante quebrava esquinas para não se encontrar com o cronista. Mas tudo isso ficou no passado e a cidade reconheceu nele um benfeitor, homenageando-o de várias formas, inclusive dando seu nome a uma ponte – a Passarela Charlot. Por feliz coincidência, ela liga o setor forense com o centro cultural da cidade, os dois campos em que ele tanto tem atuado.


As crônicas de Adauto são sempre uma agradável leitura e revelam um homem antenado nos acontecimentos ao seu redor, captando com precisão os temas cronicáveis e transformando-os em peças literárias.

Escrito por Enéas Athanázio, 20/04/2020 às 13h06 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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Por Enéas Athanázio

Sobre a China

Xangai, a maior cidade chinesa

Com o surgimento da pandemia do coronavírus várias “teorias conspiratórias”, inspiradas no ódio dos dias que vivemos, circularam sobre a China, as mais graves delas insinuando que o país fomentou a disseminação do vírus com o objetivo de vender produtos e medicamentos e até que criou em laboratório a doença. Os Estados Unidos criaram a expressão “vírus chinês”, uma evidente insinuação que hoje corre o mundo. No passar dos dias, porém, ficou evidente o esforço hercúleo feito pela China para conter a doença e defender seu povo. É claro que esse fato não serviu para calar as bocas e apaziguar as consciências, mas a mídia não deixou dúvida.

A China é vítima de todas as acusações, tanto por ser socialista como por ser desconhecida. No Brasil as pessoas em geral pouco ou nada sabem a respeito dela e muitas afirmações falsas circulam como se fossem indiscutíveis verdades. Entre elas, é comum ouvir-se que os trabalhadores chineses recebem salários miseráveis ou salários de fome. Ora, informações de fonte segura e isenta afirmam que o salário médio deles é bastante superior ao dos brasileiros e tem maior poder de compra porque não convivem com a praga chamada inflação. Mas isso adquiriu foro de verdade indiscutível e não há quem possa alterar esse entendimento. Também são muito criticados os hábitos alimentares chineses. Esses costumes variam nas diversas regiões do globo e aquilo que parece estranho para uns é comum para outros. Os jegues do nosso Nordeste estavam sendo exportados para países asiáticos e lá se transformavam em carne moída para consumo humano. Outros povos consomem a carne de cavalos e os franceses fazem sopas com ninhos de andorinhas. Não obstante, os franceses são o povo mais sofisticado do mundo. A escritora brasileira Betty Milan muito escreveu sobre a culinária francesa e lembrou que à tarde muitas pessoas são vistas em Paris com sua “baguette” (pão alongado) debaixo do sovaco.

Rana Mitter, estudioso das coisas chinesas (sinólogo) e professor da Oxford University, escreveu um livro admirável sobre aquele país e que deveria ser lido porque o conhecimento é a melhor arma contra o preconceito e as falsas concepções. Trata-se de “China Moderna”, publicado entre nós pela L&PM Pocket (Porto Alegre – 2011). Ele desvenda um extenso panorama da China, suas história, cultura, economia e modus vivendi de seu povo. Tudo muito bem fundamentado e documentado, de forma isenta e distanciada.

Para bem entender a poderosa China de hoje, o autor se aprofunda na sua longa e complexa história. Revela um país dividido entre os poderes regionais que lutavam entre si e pareciam destituídos de um sentimento nacional. Governado por dinastias autoritárias e discricionárias, enfrentava com dificuldade a fome e a miséria. Durante o governo de Chiang Kaichek, auto-intitulado nacionalista, houve até mesmo a venda e o aluguel de partes do território nacional a potências estrangeiras. E elas exploraram essas concessões da forma mais livre e predatória possível, em tudo semelhando o colonialismo ocidental na América, na África e na Ásia. Tudo indica que foi a Longa Marcha de Mao Tsé Tung que fixou na população o sentimento de nação, mas no governo dele o país se isolou do mundo, daí derivando muitas das fantasias e invencionices que cercam a China. Mas depois veio a abertura para o mundo e a busca do equilíbrio entre o interesse nacional e a integração no panorama mundial. Em pouco mais de oitenta anos a China deixou de ser um país dividido, desorganizado e miserável para se tornar a segunda potência mundial. É claro que esse gigante realizador e decidido assusta as chamadas grandes potências, temerosas de perder sua hegemonia. Como registra a história, da mesma forma que com as pessoas os países crescem, chegam ao apogeu, envelhecem e morrem.

Impregnada desde séculos pelo pensamento de Confúcio, a sociedade chinesa entendeu que necessitava ingressar na modernidade. Sun Yatsen teve importante papel como figura devotada a uma China republicana e moderna. Travou-se tremenda luta para desvencilhar o país dos contratos ruinosos assinados com outras potências e um grande esforço para se livrar dos estrangeiros que dominavam pontos estratégicos da economia. O país chegou a sofrer uma guerra por tentar limitar a venda e a exportação do ópio. Foi invadido pelo Japão, numa guerra catastrófica, da qual só se livrou com a derrota do Eixo, na II Guerra Mundial, em 1945. Foram penosos e sofridos os caminhos do povo chinês até chegar ao atual status.

Assim como as grandes potências temem os países emergentes acontece na sociedade humana. As classes privilegiadas temem a ascensão dos mais pobres porque isso constitui uma ameaça às suas benesses. Aparece então o ódio como reação, o chamado ódio de classe, mais visível que nunca no mundo e no Brasil de hoje, embora sempre camuflado pelas formas mais sofisticadas. O ódio ideológico só faz agravar esse quadro. É por isso que a leitura é indispensável, espantando fantasmas que infestam as cabeças de muita gente.

Muitas pessoas alimentam a esperança de que da pandemia emergirá um mundo melhor, mais humano, fraterno e cordial. Mas não é o que se vê nas redes sociais, antes pelo contrário. O que se vê é mais ódio, intolerância, fanatismo e violência verbal nas ofensas e xingamentos. Nada indica que o homo homini lupus de Thomas Hobbes esteja perdendo a atualidade. E tudo muito mal escrito. É de dar medo! 

Escrito por Enéas Athanázio, 25/05/2020 às 10h25 | e.atha@terra.com.br

UM LIVRO TRISTE

O romance “O Velho e o Mar”, de autoria do escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899/1961) é proclamado como autêntica obra-prima e um dos pontos mais altos de sua produção. Segundo seus biógrafos, o livro contribuiu de forma decisiva para a conquista do Prêmio Nobel de Literatura, em 1954. É também um dos livros preferidos por grande parte dos leitores do escritor. É curioso notar que foi escrito numa fase em que Hemingway amargava críticas negativas ao seu livro anterior e os mais pessimistas o julgavam acabado. Mas os altos e baixos foram uma constante na vida do velho guerreiro e ele sempre ressurgia e se elevava cada vez mais alto.

A história que se desenrola no livro é tida como uma fábula e comparada às lutas homéricas dos grandes heróis, embora seja um relato linear e despido de personagens. O velho Santiago domina a cena e nela também se destaca o garoto Manolim, seu antigo companheiro de pescarias, proibido pelos pais de acompanhar o pescador porque ele estava “salao”, ou seja, era um azarado da pior espécie. Sem conseguir pescar nada há mais de oitenta dias, Santiago, sozinho, entra mar adentro no seu barco humilde e sem maiores recursos. Pesca um ou dois peixes pequenos dos quais se alimentará mais tarde e um peixe de proporções gigantescas engole sua isca. O peixe estica a linha e começa a rebocar o barco para o mar alto de maneira constante e persistente sem dar mostras de cansaço. Assim continua por dias e noites, submerso nas águas da Gulf Stream, e o velho pescador, com a linha envolta no corpo, amparada nas costas, resiste como pode. As luzes da cidade de Havana desaparecem e ele se vê só e isolado em meio à vastidão, arrastado pelo maior peixe que havia pescado. Depois de muita luta, o peixe vem à tona, é morto e amarrado ao lado do barco, uma vez que não caberia dentro dele. Foi uma vitória difícil, desigual, sobre-humana, de um homem envelhecido, desnutrido e fraco contra a força bruta. Mas ele vence e começa a voltar para a terra quando os tubarões atacam. O pescador, desesperado, luta com todas as forças mas é inútil. Os monstros devoram toda a carne do peixe, deixando apenas o espinhaço com o qual Santiago, mais morto que vivo, chega em casa.

Nas andanças pelo mar alto, rebocado pelo imenso espadarte, Santiago filosofa, reza, conversa consigo mesmo, inclusive em voz alta. Sente pena do peixe, que imagina muito lindo, mas sabe que terá que matá-lo. É pescador profissional, muito pobre, e o peixe, vendido no mercado, poderá lhe render bom dinheiro. Ele é o retrato da humildade e do conformismo. Mesmo exausto pelo esforço hercúleo que fez ao longo de tanto tempo e tendo seu peixe devorado por vorazes tubarões, não emite um só queixume, uma só palavra de revolta ou inconformismo. Reconhece para si mesmo que é um homem de pouca sorte, um azarado. O garoto, ao contrário, não se conforma com o que aconteceu ao seu amigo Santiago. Chora copiosamente, com as lágrimas escorrendo pelas faces, mesmo na rua e diante de outras pessoas, mas não se importa. Trata de ajudar o velho pescador de todas as formas que pode até que ele descanse na sua cama forrada de jornais velhos da qual tanto se lembrou com saudade durante a penosa jornada marítima. Sonha com leões brincando numa praia africana, tal como os vira na juventude.

No correr daquela luta desesperada, Santiago gostaria que tudo não fosse mais que um sonho, mas não admitia a derrota. Um homem não foi feito para a derrota, ele pode ser destruído mas jamais derrotado. E então redobrava os esforços naquela luta desesperada.

O velho Santiago, saltando das páginas luminosas de Hemingway, alcançou projeção universal e hoje é um dos personagens nucleares da moderna literatura.

Quanto a Ernest Hemingway, tornou-se uma lenda que extrapolou todos os limites da literatura e da arte. Não é apenas o criador de um estilo único na forma de escrever, sempre imitado mas jamais igualado, como continua sendo um dos escritores mais lidos de todo o mundo. É imitado de todas as formas, no porte, no vestuário, no jeito de andar e se vestir, no modo de falar. Existem concursos de sósias, de pesca e torneios com seu nome. É venerado em Cuba, onde viveu por mais de vintes anos na Finca Vigia, nos arredores de San Francisco de Paula, e nos lugares onde residiu, nos Estados Unidos, além de homenageado de todas as maneiras imagináveis.

Não obstante, foi um homem que sempre me pareceu triste. Este romance assim o revela, deixando no leitor, ao virar a última página, um misto de admiração pela beleza e de melancolia pela pouca sorte de Santiago.

 

Reprodução (The Old Man and The Sea, Alexander Petrov)
Escrito por Enéas Athanázio, 18/05/2020 às 17h06 | e.atha@terra.com.br

O FURIOSO DA RUE POPINCOURT

Georges Simenon (1903/1989) foi um dos mais prolíficos escritores da moderna literatura francesa. Conseguiu aliar o tom popularesco com a alta qualidade da escrita. Publicou mais de 200 livros e vendeu mais de um bilhão de exemplares, em todo o mundo, em versões para inúmeros idiomas. Dono de uma imaginação sem limites, engendrou numerosas histórias policiais nas quais desponta sempre o comissário da Polícia Judiciária francesa, Jules Maigret, um dos personagens de ficção mais célebres da literatura, formando ao lado de Sherlock Holmes e Hercule Poirot. Humano, compreensivo, Maigret não usa arma e nem a violência, preferindo desvendar os crimes pela dedução e pelo raciocínio. Salvo uns poucos casos, sempre se dá bem e acerta no alvo. Seu método é o de não ter método.

Muitos de seus romances têm sido publicados no Brasil, onde ele conta com apreciável número de leitores. Entre eles avulta Maigret e o Matador (L&PM Pocket P. Alegre 2018), contendo uma das mais intrigantes investigações do comissário, tendo como pano de fundo a cidade de Paris num período chuvoso em que escorria água pelas calçadas e o vento castigava as pessoas. Um rapaz de família rica, de comportamento discreto e sem antecedentes criminais, é assassinado com sete facadas numa noite silenciosa na Rua Popincourt. O crime é presenciado por um casal que se aproximava debaixo de seu guarda-chuva e por um idosa que tudo contempla pela janela do apartamento. Eles guardam na memória uns poucos detalhes do matador mas que seriam a chave do mistério e levariam ao criminoso. A vítima nutria paixão pelas gravações, portava sempre um gravador, e procurava registrar trechos de conversas nos mais variados locais. Considerava-as documentos humanos e pretendia estudar sociologia. Imaginou-se, no início, que tais gravações seriam a causa do crime, mas o matador não levou o gravador, embora isso pudesse ser feito com facilidade. Aí estava o qüiproquó, o nó górdio, da história. Maigret se põe em campo.

Os jornais dão ampla cobertura ao fato. A família do morto é influente. O juiz de instrução tem pressa e quer logo uma solução. O comissário, calmo e pachorrento, pouco parece fazer e não deixa de tomar seus goles de calvados ou uma boa cerveja na Brasserie Dauphine, seu ponto predileto. Nesse meio tempo o criminoso dá sinal de vida. Escreve cartas aos jornais, em letra de forma e cor verde, e entra em contato com o comissário pelo telefone. Acaba se entregando e tudo se esclarece.

Simenon é mestre do diálogo. Usa-o em profusão e de maneira perfeita. Também é preciso no uso da palavra, buscando sempre o le mot just dos clássicos franceses. Segundo a lenda, retirava os nomes dos personagens do catálogo telefônico de Paris, afirmação que não sei se merece muita fé. Sabe-se, no entanto, que quando escrevia trancava-se no escritório levando o guia telefônico e uma garrafa de bebida. Não falava com ninguém, não atendia ao telefone e não recebia visitas. Conta-se que seu editor brasileiro foi visitá-lo e deu com o nariz na porta: O senhor Simenon está escrevendo! lamentou a secretária. Hemingway também adotava método semelhante e entre as seis da manhã e as treze horas ficava recluso, escrevendo. É por isso que se diz que o ofício do escritor é o mais solitário do mundo. Diante da folha em branco ou da tela vazia ninguém pode ajudá-lo e ele tem que revolver suas entranhas para dar vida às palavras. Simenon estudou sociologia criminal e medicina legal, o que transparece dos seus livros quando Maigret faz especulações a respeito do crime e do criminoso. Dizia que para identificar o criminoso é indispensável bem conhecer a vítima. Sua técnica de interrogatório, repetindo e repetindo as mesmas perguntas por interrogadores diferentes sempre revelava bom resultado. Maigret é uma espécie de comissário-filósofo.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/05/2020 às 19h16 | e.atha@terra.com.br

PARIS É UMA FESTA

A chamada geração perdida foi constituída por um grupo de escritores norte-americanos que se expatriou em Paris em busca de melhor clima intelectual que no conservadorismo dos Estados Unidos. Entre os componentes do grupo estavam Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, For Madox Ford e mais alguns aderentes, entre os quais Ezra Pound e James Joyce. Na maioria jovens, lutavam com todas as forças para produzir e conquistar um lugar ao sol. A consagração na capital francesa garantia projeção mundial no campo das letras.

Ernest Hemingway (1899/1961) foi um dos mais ativos e lutadores do grupo. Nessa época vivia em Paris, em companhia da primeira esposa, Hadley Richardson, e do primeiro filho, ainda criança, Bumby. O casal era muito pobre, residia num pequeno apartamento sobre uma serraria, situado em bairro dos mais modestos. Decidido a viver apenas de literatura, Hemingway abandonou o jornalismo que lhe pagava bem pelos despachos, permitindo suprir as necessidades mais prementes. Não conseguia vender seus contos, exceto um ou outro, sempre devolvidos pelas publicações a que enviava. Mas, com o apoio da mulher, persistia no propósito de viver da literatura e o tempo mostraria que estava certo. Com a publicação do primeiro romance, “O sol também se levanta”, granjeou a extraordinária fama que o acompanharia por toda a vida e o levaria inclusive a merecer o Prêmio Nobel de Literatura. Tornou-se um homem rico, o que lhe permitiu viver com intensidade a vida do escritor, viajando, acompanhando as touradas na Espanha, realizando safáris na África, navegando em sua lancha Pilar e visitando lugares e países.

O período vivido em Paris inspirou-lhe um de seus mais deliciosos livros, “Paris é uma festa”, publicado em edição póstuma. Nele, o escritor rememora, de maneira leve e agradável, esse tempo duro mas romântico de sua vida. Relata a extrema dedicação com que se entregava ao trabalho literário. “Depois de escrever um conto sentia-me sempre vazio, e, simultaneamente, triste e feliz, como se tivesse acabado de me entregar ao amor físico. Estava convicto de que o conto que acabara de escrever era muito bom, embora não soubesse o quanto, até lê-lo de ponta a ponta no dia seguinte” – escreveu.
Em páginas de rara beleza, evoca a amizade com Gertrude Stein e como ela se esvaiu de maneira estranha e silenciosa. Stein era uma matrona poderosa, ao mesmo tempo admirada e temida, que tinha relações com todo o meio cultural e recebia em sua morada todos os figurões franceses. Seu apartamento parecia autêntico museu, ostentando obras de arte dos grandes mestres da época e do passado. Tomou-se de intensa simpatia por Hemingway, em quem adivinhava imenso talento, sentindo-se no direito de dizer-lhe com total franqueza o que pensava de seus escritos. Também não escondia suas opiniões sobre outros autores, fossem ou não consagrados, e não admitia discussões a respeito. Fica a impressão, talvez ilusória, de que Hemingway gostava mais do apartamento-museu que de sua habitante. Foi Gertrude Stein quem vulgarizou a expressão geração perdida, ouvida de um mecânico.

Outra figura evocada com carinho é Sylvia Beach, proprietária da livraria-biblioteca “Shakespeare and Company”, a quem ficou devendo inúmeros favores que jamais esqueceu. Local de encontros de escritores e artistas, alugava e emprestava livros, e lá costumavam acontecer grandes debates sobre a vida cultural parisiense. Entre seus frequentadores mais ilustres estavam James Joyce e Ezra Pound. Hemingway se tornou “habitué.”

Os moradores, pequenos comerciantes, frequentadores e pescadores das margens do Sena são evocados com evidente saudade. Hemingway nutria imensa simpatia por aquelas pessoas simples a quem chamava gente do Sena. Recordava-se até mesmo de livros de segunda mão adquiridos dos “bouqunists” que os vendiam naquela região da cidade e das refeições feitas em modestos restaurantes populares e baratos. Gostava de trocar pernas ao longo do cais, ouvindo as conversas das pessoas e o marulhar das águas. Reteve na memória detalhes das ruas, da arquitetura e da vida naqueles locais. Às vezes fazia essas caminhadas tomado de grande forme, não sei se real ou imaginária.

A amizade do memorialista com F. Scott Fitzgerald toma extensa parte do livro. Muitos acontecimentos vividos pelos dois são recordados, restando a triste conclusão de que o talentoso autor de “O Grande Gatsby” caminhou para uma morte precoce vítima de insuperável alcoolismo. As discussões de ambos sobre literatura constituem grandes ensinamentos, entre elas a “teoria” de escrita gorda e magra. A primeira é a escrita enxundiosa, rebuscada, envolta em palavrório inútil e desnecessário. A outra é a escrita limpa, precisa, buscando a palavra exata, o “le mot just” dos clássicos franceses.

Os cafés parisienses, as corridas de cavalos e de bicicletas, as lutas e box, as fugas para as estações de esqui e outras viagens, quando tinham algum dinheiro, são recordadas com intensidade de detalhes, indicando quão marcantes foram. E muito mais desses anos benéficos surge nestas páginas maravilhosas. Até que entra em cena uma nova personagem, Pauline Pfiffer, jovem e linda, e o Destino traça novos rumos para a vida do escritor.

Escrito por Enéas Athanázio, 04/05/2020 às 14h01 | e.atha@terra.com.br

A RAINHA DO CRIME

O escritor britânico John Curran, especialista na vida/obra de Agatha Christie (1885/1970) teve acesso e conseguiu examinar os célebres Cadernos da criadora do investigador Hercule Poirot. Contando com a anuência e o incentivo de Mathew Prichard, guardião do acervo e neto da escritora, ele pode manusear um por um dos 73 Cadernos em que a escritora fazia suas anotações. O pesquisador nutria esperança de que neles encontraria a chave do método criador de uma escritora que publicou mais de 80 livros policiais, peças de teatro e textos variados, tornando-se uma das personalidades mais famosas do panorama literário mundial.

Para sua surpresa, os Cadernos continham verdadeira balbúrdia de anotações sobre diversos assuntos, com páginas em branco, muitas utilizadas apenas em parte e outras riscadas de cima a baixo. Anotações sobre a obra eram sempre sumárias e em alguns locais não passavam de três ou quatro palavras. A conclusão inevitável a que chegou foi a de que o método da Rainha do Crime era justamente o de não ter método. Ela própria admitiu, em entrevista, que não tinha qualquer método e só escrevia sobre aquilo que conhecia. Como o pesquisador conhece a obra de Agatha em minúcias, encontrou algumas pistas que o levaram a concluir que se tratavam de esboços para histórias concluídas ou abandonadas. Fez um laborioso trabalho de arqueologia literária.

O ponto mais alto e positivo, no entanto, estava na descoberta de dois contos inéditos de Agatha Christie e que foram por ele publicados pela primeira vez. Trata-se de “A captura de Cérbero” e “O incidente da bola de cachorro.” Surgiram então mil especulações: por que eles não foram publicados, mesmo tendo sido produzidos há tanto tempo? As hipóteses fervilham e o ensaísta se debruça sobre cada uma delas. No caso do primeiro conto, é evidente a semelhança do personagem central com Adolf Hitler, e essa talvez tenha sido a razão pela qual a autora não o publicou. Ela era terminantemente apolítica. No caso do segundo conto, cenas semelhantes teriam sido usadas em outra história, motivo pelo qual a autora não o deu a público. Esse detalhe, no entanto, em nada prejudicou o conto que não perdeu a qualidade. Ambos os contos são excelentes e muito bem escritos. Aliás, a Rainha do Crime escrevia muito bem, de forma precisa, leve e agradável. “A prosa de Agatha – escreve Curran, – única em todos os sentidos, flui com facilidade, os personagens são factíveis e distintos e grande parte dos romances é narrada em forma de diálogos.” Como Hemingway, ela foi mestra do diálogo.

Os estudos de Curran sobre os misteriosos Cadernos e os dois contos foram publicados no Brasil em dois volumes pela Editora Leya – Texto Editores (S. Paulo – 2019), em tradução de Thereza Christina Roque da Motta. Constituem uma leitura das mais curiosas pelo que contêm de detalhes, informações, reproduções, bastidores das histórias e análises. É interessante observar a onipresença de Poirot que, embora criado por uma autora britânica, é de nacionalidade belga e usa frequentes expressões francesas nas suas falas. Também valem suas “filosofias”, como “em tempos de desespero, é preciso aplicar meios desesperados.” Como o inspetor Maigret, de Simenon, às vezes parece que Poirot mais adivinha que desvenda. A personalidade de Poirot é cintilante, magnética, e ele dá a impressão de que está se divertindo durante as investigações e não exercendo seu poderoso raciocínio.

Encerrando estas notas, transcrevo uma indagação que Curran deixou no ar: “Por quê? Porque nenhum outro autor de romances policiais escreveu tão bem, tanto ou por tanto tempo, ninguém conseguiu igualar sua combinação de legibilidade, trama, justiça e produtividade?”

Eis a questão.

Escrito por Enéas Athanázio, 27/04/2020 às 08h49 | e.atha@terra.com.br

A SOLIDÃO NA MULTIDÃO

Não deixa de ser curioso que a moradora da maior cidade do país, convivendo com multidões, publique um livro de poesias enfatizando a solidão. A jornalista e poeta Rosani Abou Adal, editora do jornal cultural “Linguagem Viva”, de São Paulo, publicou o livro “Manchetes em Versos” que se abre abordando justamente a solidão. Seus textos curtos, semelhando manchetes, refletem com precisão o sentimento que vai na alma da poeta: toda aquela gente que se movimenta, povoa as ruas e praças, os prédios e tudo mais não consegue afastar a solidão paradoxal que vive naquele meio tão agitado. “Palavras mudas/presas na garganta” indicariam o desejo impossível de gritar? “Mulher a beber/as próprias palavras/ na mesa de um bar” e Mulher a amar/os fragmentos/de sua imagem” refletem com precisão o sentimento de solidão e transmitem melancolia e tristeza. Mas a poeta prossegue:

“Deitar na cama/com homem invisível/sem sonhos/sem sono” e “Beijo calado/sem gosto” acentuam aquele sentimento. Já “Homem a dialogar/com seu fantasma” retrata a figura ruminando suas ideias sem que ninguém saiba porque o interlocutor é um fantasma. Talvez ele domine o ímpeto de “Falar e gritar/ninguém para codificar/ a linguagem” porque ninguém está disposto a ouvi-lo, mesmo na multidão.
A poesia de Rosani também vai pelo social em palavras agudas e contundentes, “Crianças raquíticas/comem o resto/da comida dos porcos”, registra ela. Não há “Ninguém para/dividir a fome”, “Nenhum amigo/ para dividir/a dor e o pão” enquanto “Lagostas regadas/de espumante francês/nas mesas dos três poderes,/a fome devastando sonhos/nos pratos da periferia”.


Mas há muito mais. Cada mini-poema é para ser lido com calma e meditado. Neles há muito de vida e sentimento. É um livro que merece atenção.


GÊNESE

 

“Gênese de um contador de estórias” (Editora Areia – Joinville – 2019) é uma coletânea de crônicas de Carlos Adauto Vieira, nosso cronista – mor, também conhecido como Charles d’Olénger ou Charlot. Edição primorosa, com capa muito expressiva, reúne cerca de 25 textos escolhidos, começando com um protesto de gratidão do autor para os que o apoiaram e divulgaram na carreira literária. Página carregada de sentimento e revelando gratidão, sentimento cada vez mais raro e quase nunca revelado em público.


Na crônica que dá título ao livro o autor rememora sua iniciação em Joinville, como escritor e advogado, cidade que ama e conhece como poucos, inclusive sua história. Escreve para os jornais, em especial para “A Notícia”, no qual mantém uma coluna. Nos tempos de ditadura é proibido de publicar com o próprio nome e então adota pseudônimos para continuar saindo. Creio, porém, que os leitores o identificavam pelo estilo e pelo tom leve e agradável, permeado de humor. Advoga com entusiasmo e sem cessar, sendo hoje o decano dos profissionais da comarca. Ferrenho adversário da ditadura, não tardou a cair sob os olhos dos “dedos-duros” e sofreu prisões em 1964, 1965 e 1967, quando foi submetido a interrogatórios e a IPMs que, acredito eu, deram em nada porque não existiam provas contra ele. Esses incidentes grotescos, propiciados pelo regime de força, inspiraram crônicas e “causos” que não se cansa de contar. Entre eles, o de um cidadão que apoiava a ditadura e evitava contatos com os adversários. Ao sair da prisão, Adauto o encontrou e lhe disse que, sob a ameaça de armas, foi forçado a delatar os demais oponentes da ditadura. O primeiro nome que lhe ocorreu, afirmou ele, foi justamente o do ferrenho defensor da ditadura. O homem ficou desesperado e dali em diante quebrava esquinas para não se encontrar com o cronista. Mas tudo isso ficou no passado e a cidade reconheceu nele um benfeitor, homenageando-o de várias formas, inclusive dando seu nome a uma ponte – a Passarela Charlot. Por feliz coincidência, ela liga o setor forense com o centro cultural da cidade, os dois campos em que ele tanto tem atuado.


As crônicas de Adauto são sempre uma agradável leitura e revelam um homem antenado nos acontecimentos ao seu redor, captando com precisão os temas cronicáveis e transformando-os em peças literárias.

Escrito por Enéas Athanázio, 20/04/2020 às 13h06 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

Assina a coluna Literatura

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.