Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O JOVEM HEMINGWAY

O escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899/1961), nascido em Oak Park, arredores de Chicago, transformou-se num dos mais lidos e populares autores da literatura mundial e um dos nomes da primeira linha das letras de seu país. Além disso, teve a fortuna de encontrar dedicados e competentes biógrafos que souberam registrar sua trajetória de vida e sua carreira de homem de letras, fator importante para a sobrevivência de qualquer autor. Entre os que o biografaram, destacam-se, entre outros, Carlos Baker, autor da mais completa obra a respeito, em dois alentados volumes, o britânico Anthony Burgess, A. E. Hotchner, que muito conviveu com o escritor em seus últimos anos de vida, Milt Machlin, que escreveu uma biografia de excelente leitura, e Peter Griffin, que se dedicou a reconstituir a existência do escritor na sua juventude, desde o nascimento até o primeiro casamento, com Hadley Richardson, no início de 1922. Outros autores também se entregaram à reconstituição da movimentada vida de Hemingway, na totalidade ou apenas em parte, inclusive no Brasil, mas creio que os mencionados são os mais significativos. O número de teses, ensaios, reportagens e matérias jornalísticas sobre Hemingway é imenso e se espalha por muitos países. É curioso lembrar que chegou a se tornar num dos mais lidos e populares na antiga URSS, ainda que nunca tivesse exercido qualquer atividade de natureza política.

Peter Griffin, em seu livro “O Jovem Hemingway” (Jorge Zahar Editor – Rio de Janeiro – 1987), realizou impressionante levantamento dos primeiros vinte e dois anos do escritor. Seu livro é minucioso ao extremo, contendo numerosas datas e muitas vezes até horários em que ocorreram certos fatos. Para tanto o autor teve que examinar avultado número de cartas, tanto de Hemingway e sua primeira esposa como de outras pessoas, os diários da mãe do escritor, manuscritos em diversos volumes, além da impressionante bibliografia existente sobre o tema e depoimentos de inúmeras personalidades. O resultado foi um livro documental, embora com sabor de romance, e que esclarece pormenores não abordados por outros autores. E como se diz que sobre um grande artista das letras tudo é importante, este livro é indispensável aos aficionados do romancista de “O Velho e o Mar.”

A leitura revela, entre outros fatos, que não foi nada fácil o início da carreira de Hemingway. Depois que concluiu o secundário e não quis ingressar numa universidade, para desgosto de seu pai, o médico Clarence Hemingway, o jovem candidato a escritor começou a duras penas o aprendizado. Passou uns tempos cuidando da fazenda paterna, exercendo um trabalho braçal, depois fez um longo estágio como foca de um grande jornal e, por fim, instalou-se em Chicago para trabalhar em publicidade. Esse foi um período duro, vivendo em acomodações miseráveis, alimentando-se mal e vestindo-se ainda pior, embora trabalhando com afinco para afiar o instrumento de trabalho – a linguagem literária. Escrevia e escrevia, lendo, estudando e observando, procurando absorver os ensinamentos dos mestres sobre a arte difícil de escrever. Além disso, exercitava-se de todas as formas, inclusive no box, embora não tivesse uma saúde das melhores. O grandalhão que parecia forte como um touro, na verdade padecia de vários males, entre eles uma renitente inflamação da garganta. Também namorava, bebia e se divertia com os amigos, enquanto tratava de economizar para voltar à Itália, onde pretendia se fixar após o casamento. Copiosa correspondência foi trocada entre ele e Hadley, revelando que a noiva também era doentia, nervosa e insegura, tudo indicando que o casamento estava fadado ao fracasso, como deveras aconteceu.

Sherwood Anderson, escritor célebre e admirador de Hemingway, convenceu o novo colega de que seu lugar não estava na Itália mas em Paris, onde Gertrude Stein, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound e James Joyce pontificavam e a “geração perdida” buscava conquistar o seu espaço. Hemingway e Hadley trocaram as liras economizadas por francos e partiram para a Cidade Luz, onde foram residir num minúsculo apartamento situado sobre uma serraria. Ali o escritor deu a arrancada na direção no Prêmio Nobel, coroando uma das mais belas carreiras das letras universais.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/09/2018 às 13h13 | e.atha@terra.com.br

Por ares nunca dantes navegados

O mundo reconhece a importância dos inventos de Alberto Santos Dumont, em especial o voo pioneiro com o mais pesado que o ar. No entanto, a vida e as peripécias do inventor para chegar a tal resultado nem de longe são conhecidas. Elas se perderiam no esquecimento, não fosse o trabalho ressuscitador e justiceiro dos biógrafos, a exemplo de Fernando Jorge em seu magnífico livro “As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont”, publicado por Harper Collins Brasil (São Paulo – 2018). É um trabalho minucioso, fundamentado em imensa pesquisa, rigoroso na escolha das fontes e que rastreia os passos do menino mineiro que gostava de balões, de máquinas e de pássaros até o inventor genial que deu asas ao homem e permitiu que ele voasse por ares nunca dantes navegados. Enfrentando toda sorte de obstáculos, afrontando o perigo em suas experiências, sobrevivendo a graves acidentes mas persistindo sempre, acabou por conquistar a glória merecida como, acredito, nenhum outro brasileiro havia conseguido. “Perseverar é cair sete vezes e levantar-se oito”, segundo o provérbio japonês que deveria norteá-lo.

Aclamado onde passasse ou estivesse, era cercado por multidões que desejavam homenageá-lo em solenidades, banquetes e recepções, com discursos, músicas e poemas. Até mesmo as pequenas estações onde faziam escalas os trens em que viajava se viam tomadas pelo povo sequioso por homenageá-lo. Havia uma verdadeira febre de homenagens, o que levou Monteiro Lobato a escrever:

“Não se fala, não se vê, não se ouve, não se come, não se sonha outra coisa que não seja ele, sempre ele, com o histórico panamazinho, sempre sob todas as formas, em todos os estilos, nas gravuras, nos trocadilhos, nos discursos, nos jornais, nos telegramas, nas petas, nos teatros, nos concertos, no céu, na terra, em toda a parte; é sempre ele, é sempre o ilustre brasileiro, o intrépido aeronauta, escalavrado de comentários patrióticos, arranhado, mordido, disputado, é sempre ele, o santo, o herói supremo, o mártir da retórica nacional, o impávido gigante saído incólume dos treze discursos com que Taubaté chimpou-lhe a coragem” (p. 258).

Ou muito me engano, ou vislumbro no texto um fiapo de inveja do jovem Lobato. É de reconhecer, porém, que o culto a Dumont chegou às raias do exagero e tudo indica que ele próprio se sentia constrangido com isso.

Ao contrário do que faziam outros inventores, Dumont realizava suas experiências em público, sob os olhares atentos do povo, com a presença de inúmeros parisienses e da imprensa. O livro está recheado de fotos que assim o comprovam. Ele não escondia os fracassos e buscava o testemunho dos observadores nos sucessos.

O dia 13 de setembro de 1906 se tornou histórico porque pela primeira vez um homem se elevou ao ar por seus próprios meios. Ali Alberto Santos Dumont conquistava “uma glória colossal, ruidosa, incontrolável, esplendente...” Era um dos loucos voadores que teimavam em vencer o que parecia impossível. “E não condenemos todos os malucos de ideias extravagantes: sem eles o mundo se tornaria demasiado enfadonho” – escreveu Fernando Jorge.

Sempre elegante nos seus ternos impecáveis, colarinhos engomados e gravatas estilosas, cobrindo-se com o célebre panamá desabado, até mesmo nas suas experiências, Santos Dumont fruiu a maior glória já atribuída em vida a um brasileiro. Não obstante, entrou em irrefreável processo de profunda depressão que o conduziu a um trágico destino na praia do Guarujá, no litoral paulista. Foi atendido na ocasião pelo escritor Raimundo de Menezes, então delegado de polícia na cidade. Muitos de seus objetos pessoais se encontram em sua casa de Petrópolis, conhecida como a Encantada, hoje convertida em museu.

Escrito por Enéas Athanázio, 27/08/2018 às 10h49 | e.atha@terra.com.br

UM LIVRO ENCICLOPÉDICO

A língua é o maior patrimônio cultural de um povo. Ela registra sua história, lutas, conquistas, vitórias e derrotas. Documenta, enfim, a própria existência do povo e sua transformação em nação. Acima de tudo, permite a comunicação e o entendimento entre as pessoas. É uma entidade viva, em constante transformação, absorvendo influências de outras línguas e criando palavras novas em função do meio e das circunstâncias históricas. É merecedora do maior respeito. O perfeito domínio de uma língua é tarefa complexa, exigindo dedicação e estudo.

Numerosas são as línguas conhecidas, parte delas com seus dialetos, muitas faladas por grande quantidade de pessoas e em permanente expansão, outras minguando por ausência de falantes e até se extinguindo. Segundo a lenda, a diversidade linguística foi um castigo aplicado à pretensão humana de chegar ao céu com a construção da Torre de Babel. Os trabalhadores se desentenderam e as línguas se transformaram em sério obstáculo ao convívio humano. Para solucionar o problema, várias tentativas de criar uma língua universal aconteceram ao longo da História, a exemplo do Esperanto.

Muitas línguas de grande importância no passado desapareceram mas delas se originaram outras, vivas e faladas até hoje por grandes multidões ao redor do planeta. Foi o caso do Latim, idioma oficial da poderosa Roma, e das línguas germânicas faladas ao norte da Europa. Insatisfeito com as informações encontradas sobre o tema, o Prof. Adovaldo Fernandes Sampaio, filólogo e humanista de renome, se entregou à árdua tarefa de empreender um levantamento tão completo quanto possível das línguas e dialetos neolatinos e germânicos, cujo número se revelou maior do que o imaginado. Depois de uma pesquisa exaustiva, percorrendo imensa bibliografia, e se valendo de questionários submetidos a inúmeras pessoas espalhadas pelo mundo, deu a público o livro “Línguas e Dialetos Românicos e Germânicos”, publicado pela Editora Kelps (Goiânia – 2010). Trata-se de uma obra enciclopédica pela incrível quantidade de elementos informativos, realizada com apurado didatismo, fundamentada em sólidas fontes e elaborada com esmero.

Abre-se o livro com um quadro geral das línguas e dialetos românicos (Orbis Romanus) e que são os seguintes: Português, Galego, Francês (D’Oil e D’Oc), Valão, Italiano, Piemontês, Genovês, Espanhol, Moçárabe, Aragonês, Asturiano, Catalão, Occitano, Franco-Provençal, Reto-Românico, Sardo, Corso, Dálmata e Romeno. Fornece, a seguir, minuciosas informações a respeito de cada uma e relaciona seus múltiplos dialetos. Ficou-me a impressão de que o Italiano é a que conta com maior número de dialetos, sendo a Itália um país multilíngue. É impressionante a riqueza linguística que herdamos do Latim, idioma hoje descurado e cujos rudimentos não são ministrados nem sequer aos acadêmicos de cursos de Direito e que muito contribuiriam para a compreensão dos numerosos institutos jurídicos que nos vieram de Roma. Como elemento de comparação entre os diversos idiomas, o Autor publica o Pai-Nosso e a Ave-Maria traduzidos para cada um deles.

Idêntico processo é usado em relação aos idiomas germânicos, com o acréscimo de um minidicionário. São curiosidades as orações mencionadas vertidas ao Iídiche, ou judeo-alemão, escritas em caracteres hebraicos que mais parecem elaborados desenhos. Não são menos curiosas em Africâner. Não poucas línguas germânicas soam estranhas aos nossos ouvidos.

O alentado livro revela um Autor de vasta erudição, conhecimento linguístico e histórico, inclusive da História antiga de vários povos, e também da Geografia com suas mutações no correr dos tempos em virtude de guerras, invasões, disputas territoriais e toda sorte de contatos entre povos diferentes que conduziram suas línguas nativas, ocasionando recíprocas modificações. Só a visão panorâmica e segura do Autor permitiu a realização desta obra.

Para encerrar, permito-me transcrever a Ave-Maria em Latim, lembrando os distantes tempos em que tínhamos que rezá-la antes das refeições no velho internato:

Ave, Maria!

Ave, Maria, gratia plena;
Dominus tecum;
benedicta tu in mulieribus
et benedictus fructus
ventris tui Jesus.

Sancta Maria,
mater Dei, ora pro nobis
peccatoribus, nunc et in
hora mortis nostrae.
Amen.

Escrito por Enéas Athanázio, 20/08/2018 às 15h27 | e.atha@terra.com.br

OCASO

Amigo e confidente de Adolf Hitler, Albert Speer gozou de invulgar prestígio durante o III Reich. Arquiteto de formação e apolítico por temperamento, mesmo assim caiu nas graças do ditador, integrou o grupo de sua intimidade e se transformou no arquiteto do regime. A ele foram confiados importantes projetos e seria o encarregado de projetar as grandiosas obras para a futura Germânia em que se transformaria Berlim como a capital do mundo após a vitória nazista e a dominação global. Foi nomeado Ministro do Armamento, posição de relevo na máquina de guerra, o que lhe permitiu uma aproximação incomum com o ditador, inclusive nos últimos dias de sua vida, quando o sonho de poder mundial se desvaneceu ante o cerco de Berlim pelas tropas soviéticas e a inexorável derrota na guerra. Com o fim das hostilidades, Speer foi preso, julgado pelo Tribunal de Nuremberg e condenado a vinte anos de reclusão na penitenciária de Spandau.

Cumprida a longa pena e colocado em liberdade, Speer concedeu inúmeras entrevistas ao escritor Joachim Fest, o biógrafo de Hitler e especialista mundial em nazismo, fazendo importantes revelações sobre o período da guerra, as atividades do governo e, em especial, sobre o comportamento de Hitler em seu ocaso. Com o título de “Conversas com Albert Speer”, o livro foi lançado no Brasil pela Editora Nova Fronteira (Rio de Janeiro – 2012).

Segundo ele, Hitler seria incapaz de algum gesto ou ato de amor, acreditando que nem mesmo com sua companheira, Eva Braun, tenha havido algo de mais íntimo. Seria incapaz “de fazer até mesmo um pequeno gesto amoroso a outra pessoa, como exige o ato sexual.” Sua atitude em relação a ela seria mais de gratidão por acompanhá-lo até a morte. Temperamento de altos e baixos, o ditador tinha verdadeiros acessos de fúria e momentos de recolhimento com longos períodos de mutismo e até mesmo de soluços e lágrimas. Desejava ficar na história muito mais como protetor das artes que como chefe militar. Tinha verdadeira obsessão pela morte, desejava ser cremado para que não fosse desonrado pelos inimigos e queria ser sepultado no alto de uma torre para ficar bem acima. Imaginava-se em condições idênticas aos de grandes heróis do passado, cujas virtudes admirava, e aos quais se igualava. Chegou a declarar, mais de uma vez, que gostaria de entrar para a história “como um homem que o mundo jamais conhecera” Afirmou Speer que tais foram suas palavras textuais. Seu objetivo, afirmou, seria conquistar a fama por quatro vias: pensador, estadista, patrono das artes e militar invencível.

Os fatos, porém, não permitiram a realização de suas ambições e à medida em que os Aliados venciam ele entrou em pânico. Segundo Speer, adquiriu uma aparência frágil, tornou-se trôpego e nervoso, seus braços tremiam muito, em especial o esquerdo, e sua autoridade entrou em visível declínio. A ordem de praticar a operação “terra arrasada” não foi obedecida e até mesmo nos pequenos atos seu desgaste ficou evidente. No “bunker” onde se refugiava, os subordinados nem mesmo se levantavam em sua presença e até fingiam não vê-lo. Quando o planejado contra-ataque final não aconteceu, foi tomado por violento ataque de fúria. Mesmo correndo risco de vida, Speer foi visitá-lo e se despedir antes do final que já se desenhava próximo. Como todos os ditadores, Hitler teve um fim trágico e violento.

Quanto a Speer, jamais confessou que soubesse das atrocidades do regime, em especial do genocídio dos judeus. Admitiu, quando muito, que alimentava suspeitas em virtude de algumas conversas ou indícios, mas nunca explicou porque não procurou se informar a respeito. Ao que parece, preferiu ignorar. É verdade que considerava o anissemitismo uma anomalia e nunca se enquadrou bem aos postulados nazistas, tornando-se conhecido como o “bom nazista.” Não explicou também sua atitude contraditória de servir a um regime e a seu chefe sem convicção. Não obstante, escapou da pena de morte, cumpriu a pena e ainda viveu muitos anos, tendo publicado livros sobre sua experiência. Também não soube explicar como um povo educado e esclarecido foi conduzido como um rebanho para a derrota e o caos.

Escrito por Enéas Athanázio, 14/08/2018 às 09h40 | e.atha@terra.com.br

A morte de Stálin

É curioso observar como os assuntos relacionados à extinta URSS e seus personagens continuam a interessar os pesquisadores, aumentando sem cessar a copiosa bibliografia existente. Entre os múltiplos livros que têm sido publicados, é significativo o lançamento de “A Morte de Stálin”, de Fabien Nury e Thierry Robin, editado pela Três Estrelas (S. Paulo – 2015). Em formato de álbum e tamanho grande, o volume em quadrinhos reconstitui os momentos finais e o funeral do líder soviético com base em pesquisas e documentos. Essa forma de apresentação visa alcançar o maior número de pessoas, inclusive aquelas não muito afeitas à leitura, o que parece ter conseguido a julgar pelo sucesso de vendas.

Os desenhos que preenchem as 150 páginas do volume são preciosos, mostrando os ambientes e os locais dos acontecimentos e, mais ainda, retratando os personagens com as características de cada um conforme são vistos em fotografias. Malienkov, Bulganin, Béria, Kaganovitch, Mikoyan, Kruschev e o próprio Stálin em seu costumeiro uniforme são retratados tal como costumávamos vê-los nos jornais da época. O ambiente pesado do Kremlin também transparece na caprichada reconstrução do episódio.

Como se sabe, depois de ouvir um concerto em gravação, Stálin foi acometido de violento derrame cerebral na datcha onde vivia, nos arrabaldes de Moscou. Estava deitado no chão, onde foi encontrado pela camareira. Ela lhe deu um calmante e informou aos que se encontravam no local sobre o fato. Começam, então, as maquinações encabeçadas por Béria, chefe da sinistra NKVD, e Nikita Kruschev, ambos sequiosos por suceder o enfermo na Secretaria-Geral do Partido, o posto mais importante na hierarquia soviética. Decidem, então, realizar uma reunião do comitê para tomar providências enquanto Stálin agoniza sem assistência médica. Passado muito tempo, convocam a equipe de médicos que faz o possível para salvar o doente. Mas era tarde e ele morreu praticamente à míngua. Béria nem sequer se dava o trabalho de esconder a alegria que sentia em face da possibilidade de galgar ao mais alto posto. O fato ocorreu na noite de 28 de fevereiro de 1953.

Acontecem, a seguir, acirradas discussões entre os membros do comitê. Como informar à população? Como evitar a vinda em massa de pessoas a Moscou ao tomarem conhecimento? Como realizar os funerais? Os debates se prolongam e o tempo se escoa. Afinal, depois de muito bate boca fixam as diretrizes e as providências. O Pravda noticia, enfim, que o coração do chefe havia parado de bater. Uma multidão acorre à capital, como se temia, e sua caminhada foi cortada pela força, resultando da repressão muitas vítimas pelas quais Kruschev, o encarregado, foi acusado. Após o apoteótico enterro, no qual não faltaram os discursos eloquentes, as crises e acessos de choro, os lamentos espetaculosos e outras manifestações explícitas de sentimentalismo, começam as conspirações e o jogo de forças dos quais a população nem sequer suspeitava. A imprensa do mundo todo registra o acontecimento em grandes manchetes.

Outro problema se apresenta: como se livrar de Béria, o facinoroso chefe da polícia política? Arma-se, então, nos corredores do Kremlin um verdadeiro golpe e ele é preso quando comparece à reunião, selando-se seu destino. Nikita Kruschev, ligado a Stálin e que havia chorado copiosamente por ocasião de sua morte, é sagrado Secretário-Geral. Figura curiosa, muito calvo e combativo, causou espanto ao tirar o sapato e bater com ele na tribuna de onde discursava numa reunião da ONU. Por surpreendente que fosse, Kruschev denunciaria os crimes de Stálin em público durante o XX Congresso do PC da URSS, fato que afastou simpatizantes de todo o mundo. Segundo os historiadores, nesse momento teve início o fim da URSS. Partidários notórios, entre os quais Jorge Amado e Pablo Neruda, se afastaram do partido.

Os autores reconstituem com precisão o episódio em que o filho de Stálin, general Djugachvili, acusa em altos brados os membros do comitê e os médicos de assassinarem o pai. Como tinha fama de devasso e beberrão, a acusação não foi levada a sério, embora ele fosse internado num estabelecimento próprio para a “reeducação” de recalcitrantes.

O livro focaliza um dos momentos mais graves da política mundial no auge da “guerra fria” e que teria intensa repercussão no futuro. Ali se encerrava um período sinistro da história e tinha início, a passos largos, a desintegração da URSS, colocando os Estados Unidos na posição de onipotência mundial e consolidando o capitalismo em seu apogeu.

Inspirado pelo livro, foi rodado um filme que vem fazendo grande sucesso e ao qual a imprensa tem dedicado inúmeras resenhas.

Escrito por Enéas Athanázio, 06/08/2018 às 10h28 | e.atha@terra.com.br

ARQUEOLOGIA LITERÁRIA

Como admirador de Lima Barreto (1881/1922) e de sua obra, fiquei deveras surpreso ao tomar conhecimento de que haviam sido identificados inúmeros textos de sua autoria, publicados sob pseudônimos, em revistas e jornais do início do século passado. Imaginava-se que tudo que havia escrito estava incorporado às suas Obras Completas, meticuloso trabalho publicado pela Editora Brasiliense, de São Paulo. Mas a notícia se confirmou e os referidos textos (artigos e crônicas) foram agora publicados no volume “Sátiras e Outras Subversões”, organizado por Felipe Botelho Corrêa e editado por Penguin/Cia. das Letras.

O organizador, professor da Universidade King’s College London, identificou nada menos que 164 textos, versando os mais variados temas, espalhados em periódicos do início do século passado, a maioria deles nas célebres revistas “Careta” e “Fon-Fon”, subscritos pelos mais estranhos pseudônimos. Num prolongado e paciente trabalho de arqueologia literária, comparando estilos, personagens, referências, citações. coincidências e outros detalhes, chegou à conclusão de que eram, sem a menor dúvida, saídos da pena do genial morador de Todos os Santos. Esses escritos eram mesmo desconhecidos dos biógrafos do escritor e especialistas em sua obra. Em longa e minuciosa apresentação, o organizador descreve o método usado e a técnica empregada nesse exaustivo e paciente trabalho, ainda mais no Brasil, onde as fontes de informação, acervos literários, arquivos históricos e documentais costumam ser bastante precários. Mas o livro foi editado, revelando aspectos desconhecidos nas preocupações do escritor carioca e assim enriquecendo sua obra.

Os oito capítulos em que se divide o volume procuram agrupar assuntos correlatos em cada um deles. Todos são interessantes, mas, na impossibilidade de comentá-los todos, destaco “Pistolões e costumes administrativos”, “A sã política é filha da moral e da razão”, “O país das vaidadezinhas” e “Para fazer o país feliz é preciso despovoá-lo pela miséria.” No primeiro deles o escritor fustiga os maus hábitos já então exercidos no reino da política e seus atores, mostrando como certas práticas são antigas e recorrentes no país. O pistolão, o tráfico de influência, as propinas, os jeitinhos e outros meios de burlar a lei são registrados com humor, satirizando os episódios e caricaturando os personagens, muitos deles reconhecíveis com facilidade pelos contemporâneos e, hoje em dia, através da história. Pinheiro Machado, o todo-poderoso da Velha República, está sempre presente e nunca é poupado. Era cortejado por muitos e odiado por outros tantos. Como se sabe, foi morto a punhaladas. Miguel Calmon, Coelho Neto, Epitácio Pessoa, Raul Soares, Urbano dos Santos, Auto de Sá e outros, todos figuras proeminentes da época, recebem verdadeiras sovas bem humoradas e são em geral postos no ridículo. Certo senador conhecido como “Rapadura” mereceu muitas referências pelo fato de que, em vez de encontrar seus eleitores nas urnas, ia procurá-los nos cemitérios, anotando nomes que depois exerciam o sufrágio em favor dele nas eleições a bico-de-pena! Raul Soares, mineiro de Araxá e que mal conhecia o mar, foi nomeado Ministro da Marinha. Apesar do absurdo dessa nomeação, o cronista não deixou de observar a elegante casaca com que tomou posse solene. Os partidos políticos pequenos, hoje considerados de aluguel, também foram abordados. Segundo o cronista, não tinham qualquer programa ou ideologia, tendência ou posição definida, porque seu objetivo único, em geral, consistia em agradar ao chefe e obter recompensas imediatistas. Diante de tudo isso, não é de admirar que a Revolução de 1930 tenha granjeado tantos apoiadores, derrubando o sistema vigente.

No segundo capítulo aqui destacado, Lima lembra a célebre máxima de Bossuet, segundo a qual a sã política é filha da moral e da razão, para concluir o quanto ela se encontrava desmoralizada entre nós. E, por fim, ao analisar as vaidadezinhas, ressalta o amor pelas aparências, ainda que falsas e dedicadas apenas à exibição pública. Não importa a dura e triste realidade, o que vale é a aparência. Em outro tópico, que parece escrito para os dias de hoje, ironiza os atos do governo que parecem desejar a morte dos miseráveis para despovoar o país e fazê-lo mais feliz. Arrocho salarial, aumento de impostos, retirada de auxílios aos menos favorecidos não é bem isso?

Sendo assim, é fácil entender porque o morador de Todos os Santos conquistou tantos desafetos. Mas, como afirmou um crítico, lê-se Lima Barreto para aprender a escrever, mas, acima de tudo, para aprender a ser brasileiro.

Escrito por Enéas Athanázio, 30/07/2018 às 10h01 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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O JOVEM HEMINGWAY

O escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899/1961), nascido em Oak Park, arredores de Chicago, transformou-se num dos mais lidos e populares autores da literatura mundial e um dos nomes da primeira linha das letras de seu país. Além disso, teve a fortuna de encontrar dedicados e competentes biógrafos que souberam registrar sua trajetória de vida e sua carreira de homem de letras, fator importante para a sobrevivência de qualquer autor. Entre os que o biografaram, destacam-se, entre outros, Carlos Baker, autor da mais completa obra a respeito, em dois alentados volumes, o britânico Anthony Burgess, A. E. Hotchner, que muito conviveu com o escritor em seus últimos anos de vida, Milt Machlin, que escreveu uma biografia de excelente leitura, e Peter Griffin, que se dedicou a reconstituir a existência do escritor na sua juventude, desde o nascimento até o primeiro casamento, com Hadley Richardson, no início de 1922. Outros autores também se entregaram à reconstituição da movimentada vida de Hemingway, na totalidade ou apenas em parte, inclusive no Brasil, mas creio que os mencionados são os mais significativos. O número de teses, ensaios, reportagens e matérias jornalísticas sobre Hemingway é imenso e se espalha por muitos países. É curioso lembrar que chegou a se tornar num dos mais lidos e populares na antiga URSS, ainda que nunca tivesse exercido qualquer atividade de natureza política.

Peter Griffin, em seu livro “O Jovem Hemingway” (Jorge Zahar Editor – Rio de Janeiro – 1987), realizou impressionante levantamento dos primeiros vinte e dois anos do escritor. Seu livro é minucioso ao extremo, contendo numerosas datas e muitas vezes até horários em que ocorreram certos fatos. Para tanto o autor teve que examinar avultado número de cartas, tanto de Hemingway e sua primeira esposa como de outras pessoas, os diários da mãe do escritor, manuscritos em diversos volumes, além da impressionante bibliografia existente sobre o tema e depoimentos de inúmeras personalidades. O resultado foi um livro documental, embora com sabor de romance, e que esclarece pormenores não abordados por outros autores. E como se diz que sobre um grande artista das letras tudo é importante, este livro é indispensável aos aficionados do romancista de “O Velho e o Mar.”

A leitura revela, entre outros fatos, que não foi nada fácil o início da carreira de Hemingway. Depois que concluiu o secundário e não quis ingressar numa universidade, para desgosto de seu pai, o médico Clarence Hemingway, o jovem candidato a escritor começou a duras penas o aprendizado. Passou uns tempos cuidando da fazenda paterna, exercendo um trabalho braçal, depois fez um longo estágio como foca de um grande jornal e, por fim, instalou-se em Chicago para trabalhar em publicidade. Esse foi um período duro, vivendo em acomodações miseráveis, alimentando-se mal e vestindo-se ainda pior, embora trabalhando com afinco para afiar o instrumento de trabalho – a linguagem literária. Escrevia e escrevia, lendo, estudando e observando, procurando absorver os ensinamentos dos mestres sobre a arte difícil de escrever. Além disso, exercitava-se de todas as formas, inclusive no box, embora não tivesse uma saúde das melhores. O grandalhão que parecia forte como um touro, na verdade padecia de vários males, entre eles uma renitente inflamação da garganta. Também namorava, bebia e se divertia com os amigos, enquanto tratava de economizar para voltar à Itália, onde pretendia se fixar após o casamento. Copiosa correspondência foi trocada entre ele e Hadley, revelando que a noiva também era doentia, nervosa e insegura, tudo indicando que o casamento estava fadado ao fracasso, como deveras aconteceu.

Sherwood Anderson, escritor célebre e admirador de Hemingway, convenceu o novo colega de que seu lugar não estava na Itália mas em Paris, onde Gertrude Stein, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound e James Joyce pontificavam e a “geração perdida” buscava conquistar o seu espaço. Hemingway e Hadley trocaram as liras economizadas por francos e partiram para a Cidade Luz, onde foram residir num minúsculo apartamento situado sobre uma serraria. Ali o escritor deu a arrancada na direção no Prêmio Nobel, coroando uma das mais belas carreiras das letras universais.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/09/2018 às 13h13 | e.atha@terra.com.br

Por ares nunca dantes navegados

O mundo reconhece a importância dos inventos de Alberto Santos Dumont, em especial o voo pioneiro com o mais pesado que o ar. No entanto, a vida e as peripécias do inventor para chegar a tal resultado nem de longe são conhecidas. Elas se perderiam no esquecimento, não fosse o trabalho ressuscitador e justiceiro dos biógrafos, a exemplo de Fernando Jorge em seu magnífico livro “As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont”, publicado por Harper Collins Brasil (São Paulo – 2018). É um trabalho minucioso, fundamentado em imensa pesquisa, rigoroso na escolha das fontes e que rastreia os passos do menino mineiro que gostava de balões, de máquinas e de pássaros até o inventor genial que deu asas ao homem e permitiu que ele voasse por ares nunca dantes navegados. Enfrentando toda sorte de obstáculos, afrontando o perigo em suas experiências, sobrevivendo a graves acidentes mas persistindo sempre, acabou por conquistar a glória merecida como, acredito, nenhum outro brasileiro havia conseguido. “Perseverar é cair sete vezes e levantar-se oito”, segundo o provérbio japonês que deveria norteá-lo.

Aclamado onde passasse ou estivesse, era cercado por multidões que desejavam homenageá-lo em solenidades, banquetes e recepções, com discursos, músicas e poemas. Até mesmo as pequenas estações onde faziam escalas os trens em que viajava se viam tomadas pelo povo sequioso por homenageá-lo. Havia uma verdadeira febre de homenagens, o que levou Monteiro Lobato a escrever:

“Não se fala, não se vê, não se ouve, não se come, não se sonha outra coisa que não seja ele, sempre ele, com o histórico panamazinho, sempre sob todas as formas, em todos os estilos, nas gravuras, nos trocadilhos, nos discursos, nos jornais, nos telegramas, nas petas, nos teatros, nos concertos, no céu, na terra, em toda a parte; é sempre ele, é sempre o ilustre brasileiro, o intrépido aeronauta, escalavrado de comentários patrióticos, arranhado, mordido, disputado, é sempre ele, o santo, o herói supremo, o mártir da retórica nacional, o impávido gigante saído incólume dos treze discursos com que Taubaté chimpou-lhe a coragem” (p. 258).

Ou muito me engano, ou vislumbro no texto um fiapo de inveja do jovem Lobato. É de reconhecer, porém, que o culto a Dumont chegou às raias do exagero e tudo indica que ele próprio se sentia constrangido com isso.

Ao contrário do que faziam outros inventores, Dumont realizava suas experiências em público, sob os olhares atentos do povo, com a presença de inúmeros parisienses e da imprensa. O livro está recheado de fotos que assim o comprovam. Ele não escondia os fracassos e buscava o testemunho dos observadores nos sucessos.

O dia 13 de setembro de 1906 se tornou histórico porque pela primeira vez um homem se elevou ao ar por seus próprios meios. Ali Alberto Santos Dumont conquistava “uma glória colossal, ruidosa, incontrolável, esplendente...” Era um dos loucos voadores que teimavam em vencer o que parecia impossível. “E não condenemos todos os malucos de ideias extravagantes: sem eles o mundo se tornaria demasiado enfadonho” – escreveu Fernando Jorge.

Sempre elegante nos seus ternos impecáveis, colarinhos engomados e gravatas estilosas, cobrindo-se com o célebre panamá desabado, até mesmo nas suas experiências, Santos Dumont fruiu a maior glória já atribuída em vida a um brasileiro. Não obstante, entrou em irrefreável processo de profunda depressão que o conduziu a um trágico destino na praia do Guarujá, no litoral paulista. Foi atendido na ocasião pelo escritor Raimundo de Menezes, então delegado de polícia na cidade. Muitos de seus objetos pessoais se encontram em sua casa de Petrópolis, conhecida como a Encantada, hoje convertida em museu.

Escrito por Enéas Athanázio, 27/08/2018 às 10h49 | e.atha@terra.com.br

UM LIVRO ENCICLOPÉDICO

A língua é o maior patrimônio cultural de um povo. Ela registra sua história, lutas, conquistas, vitórias e derrotas. Documenta, enfim, a própria existência do povo e sua transformação em nação. Acima de tudo, permite a comunicação e o entendimento entre as pessoas. É uma entidade viva, em constante transformação, absorvendo influências de outras línguas e criando palavras novas em função do meio e das circunstâncias históricas. É merecedora do maior respeito. O perfeito domínio de uma língua é tarefa complexa, exigindo dedicação e estudo.

Numerosas são as línguas conhecidas, parte delas com seus dialetos, muitas faladas por grande quantidade de pessoas e em permanente expansão, outras minguando por ausência de falantes e até se extinguindo. Segundo a lenda, a diversidade linguística foi um castigo aplicado à pretensão humana de chegar ao céu com a construção da Torre de Babel. Os trabalhadores se desentenderam e as línguas se transformaram em sério obstáculo ao convívio humano. Para solucionar o problema, várias tentativas de criar uma língua universal aconteceram ao longo da História, a exemplo do Esperanto.

Muitas línguas de grande importância no passado desapareceram mas delas se originaram outras, vivas e faladas até hoje por grandes multidões ao redor do planeta. Foi o caso do Latim, idioma oficial da poderosa Roma, e das línguas germânicas faladas ao norte da Europa. Insatisfeito com as informações encontradas sobre o tema, o Prof. Adovaldo Fernandes Sampaio, filólogo e humanista de renome, se entregou à árdua tarefa de empreender um levantamento tão completo quanto possível das línguas e dialetos neolatinos e germânicos, cujo número se revelou maior do que o imaginado. Depois de uma pesquisa exaustiva, percorrendo imensa bibliografia, e se valendo de questionários submetidos a inúmeras pessoas espalhadas pelo mundo, deu a público o livro “Línguas e Dialetos Românicos e Germânicos”, publicado pela Editora Kelps (Goiânia – 2010). Trata-se de uma obra enciclopédica pela incrível quantidade de elementos informativos, realizada com apurado didatismo, fundamentada em sólidas fontes e elaborada com esmero.

Abre-se o livro com um quadro geral das línguas e dialetos românicos (Orbis Romanus) e que são os seguintes: Português, Galego, Francês (D’Oil e D’Oc), Valão, Italiano, Piemontês, Genovês, Espanhol, Moçárabe, Aragonês, Asturiano, Catalão, Occitano, Franco-Provençal, Reto-Românico, Sardo, Corso, Dálmata e Romeno. Fornece, a seguir, minuciosas informações a respeito de cada uma e relaciona seus múltiplos dialetos. Ficou-me a impressão de que o Italiano é a que conta com maior número de dialetos, sendo a Itália um país multilíngue. É impressionante a riqueza linguística que herdamos do Latim, idioma hoje descurado e cujos rudimentos não são ministrados nem sequer aos acadêmicos de cursos de Direito e que muito contribuiriam para a compreensão dos numerosos institutos jurídicos que nos vieram de Roma. Como elemento de comparação entre os diversos idiomas, o Autor publica o Pai-Nosso e a Ave-Maria traduzidos para cada um deles.

Idêntico processo é usado em relação aos idiomas germânicos, com o acréscimo de um minidicionário. São curiosidades as orações mencionadas vertidas ao Iídiche, ou judeo-alemão, escritas em caracteres hebraicos que mais parecem elaborados desenhos. Não são menos curiosas em Africâner. Não poucas línguas germânicas soam estranhas aos nossos ouvidos.

O alentado livro revela um Autor de vasta erudição, conhecimento linguístico e histórico, inclusive da História antiga de vários povos, e também da Geografia com suas mutações no correr dos tempos em virtude de guerras, invasões, disputas territoriais e toda sorte de contatos entre povos diferentes que conduziram suas línguas nativas, ocasionando recíprocas modificações. Só a visão panorâmica e segura do Autor permitiu a realização desta obra.

Para encerrar, permito-me transcrever a Ave-Maria em Latim, lembrando os distantes tempos em que tínhamos que rezá-la antes das refeições no velho internato:

Ave, Maria!

Ave, Maria, gratia plena;
Dominus tecum;
benedicta tu in mulieribus
et benedictus fructus
ventris tui Jesus.

Sancta Maria,
mater Dei, ora pro nobis
peccatoribus, nunc et in
hora mortis nostrae.
Amen.

Escrito por Enéas Athanázio, 20/08/2018 às 15h27 | e.atha@terra.com.br

OCASO

Amigo e confidente de Adolf Hitler, Albert Speer gozou de invulgar prestígio durante o III Reich. Arquiteto de formação e apolítico por temperamento, mesmo assim caiu nas graças do ditador, integrou o grupo de sua intimidade e se transformou no arquiteto do regime. A ele foram confiados importantes projetos e seria o encarregado de projetar as grandiosas obras para a futura Germânia em que se transformaria Berlim como a capital do mundo após a vitória nazista e a dominação global. Foi nomeado Ministro do Armamento, posição de relevo na máquina de guerra, o que lhe permitiu uma aproximação incomum com o ditador, inclusive nos últimos dias de sua vida, quando o sonho de poder mundial se desvaneceu ante o cerco de Berlim pelas tropas soviéticas e a inexorável derrota na guerra. Com o fim das hostilidades, Speer foi preso, julgado pelo Tribunal de Nuremberg e condenado a vinte anos de reclusão na penitenciária de Spandau.

Cumprida a longa pena e colocado em liberdade, Speer concedeu inúmeras entrevistas ao escritor Joachim Fest, o biógrafo de Hitler e especialista mundial em nazismo, fazendo importantes revelações sobre o período da guerra, as atividades do governo e, em especial, sobre o comportamento de Hitler em seu ocaso. Com o título de “Conversas com Albert Speer”, o livro foi lançado no Brasil pela Editora Nova Fronteira (Rio de Janeiro – 2012).

Segundo ele, Hitler seria incapaz de algum gesto ou ato de amor, acreditando que nem mesmo com sua companheira, Eva Braun, tenha havido algo de mais íntimo. Seria incapaz “de fazer até mesmo um pequeno gesto amoroso a outra pessoa, como exige o ato sexual.” Sua atitude em relação a ela seria mais de gratidão por acompanhá-lo até a morte. Temperamento de altos e baixos, o ditador tinha verdadeiros acessos de fúria e momentos de recolhimento com longos períodos de mutismo e até mesmo de soluços e lágrimas. Desejava ficar na história muito mais como protetor das artes que como chefe militar. Tinha verdadeira obsessão pela morte, desejava ser cremado para que não fosse desonrado pelos inimigos e queria ser sepultado no alto de uma torre para ficar bem acima. Imaginava-se em condições idênticas aos de grandes heróis do passado, cujas virtudes admirava, e aos quais se igualava. Chegou a declarar, mais de uma vez, que gostaria de entrar para a história “como um homem que o mundo jamais conhecera” Afirmou Speer que tais foram suas palavras textuais. Seu objetivo, afirmou, seria conquistar a fama por quatro vias: pensador, estadista, patrono das artes e militar invencível.

Os fatos, porém, não permitiram a realização de suas ambições e à medida em que os Aliados venciam ele entrou em pânico. Segundo Speer, adquiriu uma aparência frágil, tornou-se trôpego e nervoso, seus braços tremiam muito, em especial o esquerdo, e sua autoridade entrou em visível declínio. A ordem de praticar a operação “terra arrasada” não foi obedecida e até mesmo nos pequenos atos seu desgaste ficou evidente. No “bunker” onde se refugiava, os subordinados nem mesmo se levantavam em sua presença e até fingiam não vê-lo. Quando o planejado contra-ataque final não aconteceu, foi tomado por violento ataque de fúria. Mesmo correndo risco de vida, Speer foi visitá-lo e se despedir antes do final que já se desenhava próximo. Como todos os ditadores, Hitler teve um fim trágico e violento.

Quanto a Speer, jamais confessou que soubesse das atrocidades do regime, em especial do genocídio dos judeus. Admitiu, quando muito, que alimentava suspeitas em virtude de algumas conversas ou indícios, mas nunca explicou porque não procurou se informar a respeito. Ao que parece, preferiu ignorar. É verdade que considerava o anissemitismo uma anomalia e nunca se enquadrou bem aos postulados nazistas, tornando-se conhecido como o “bom nazista.” Não explicou também sua atitude contraditória de servir a um regime e a seu chefe sem convicção. Não obstante, escapou da pena de morte, cumpriu a pena e ainda viveu muitos anos, tendo publicado livros sobre sua experiência. Também não soube explicar como um povo educado e esclarecido foi conduzido como um rebanho para a derrota e o caos.

Escrito por Enéas Athanázio, 14/08/2018 às 09h40 | e.atha@terra.com.br

A morte de Stálin

É curioso observar como os assuntos relacionados à extinta URSS e seus personagens continuam a interessar os pesquisadores, aumentando sem cessar a copiosa bibliografia existente. Entre os múltiplos livros que têm sido publicados, é significativo o lançamento de “A Morte de Stálin”, de Fabien Nury e Thierry Robin, editado pela Três Estrelas (S. Paulo – 2015). Em formato de álbum e tamanho grande, o volume em quadrinhos reconstitui os momentos finais e o funeral do líder soviético com base em pesquisas e documentos. Essa forma de apresentação visa alcançar o maior número de pessoas, inclusive aquelas não muito afeitas à leitura, o que parece ter conseguido a julgar pelo sucesso de vendas.

Os desenhos que preenchem as 150 páginas do volume são preciosos, mostrando os ambientes e os locais dos acontecimentos e, mais ainda, retratando os personagens com as características de cada um conforme são vistos em fotografias. Malienkov, Bulganin, Béria, Kaganovitch, Mikoyan, Kruschev e o próprio Stálin em seu costumeiro uniforme são retratados tal como costumávamos vê-los nos jornais da época. O ambiente pesado do Kremlin também transparece na caprichada reconstrução do episódio.

Como se sabe, depois de ouvir um concerto em gravação, Stálin foi acometido de violento derrame cerebral na datcha onde vivia, nos arrabaldes de Moscou. Estava deitado no chão, onde foi encontrado pela camareira. Ela lhe deu um calmante e informou aos que se encontravam no local sobre o fato. Começam, então, as maquinações encabeçadas por Béria, chefe da sinistra NKVD, e Nikita Kruschev, ambos sequiosos por suceder o enfermo na Secretaria-Geral do Partido, o posto mais importante na hierarquia soviética. Decidem, então, realizar uma reunião do comitê para tomar providências enquanto Stálin agoniza sem assistência médica. Passado muito tempo, convocam a equipe de médicos que faz o possível para salvar o doente. Mas era tarde e ele morreu praticamente à míngua. Béria nem sequer se dava o trabalho de esconder a alegria que sentia em face da possibilidade de galgar ao mais alto posto. O fato ocorreu na noite de 28 de fevereiro de 1953.

Acontecem, a seguir, acirradas discussões entre os membros do comitê. Como informar à população? Como evitar a vinda em massa de pessoas a Moscou ao tomarem conhecimento? Como realizar os funerais? Os debates se prolongam e o tempo se escoa. Afinal, depois de muito bate boca fixam as diretrizes e as providências. O Pravda noticia, enfim, que o coração do chefe havia parado de bater. Uma multidão acorre à capital, como se temia, e sua caminhada foi cortada pela força, resultando da repressão muitas vítimas pelas quais Kruschev, o encarregado, foi acusado. Após o apoteótico enterro, no qual não faltaram os discursos eloquentes, as crises e acessos de choro, os lamentos espetaculosos e outras manifestações explícitas de sentimentalismo, começam as conspirações e o jogo de forças dos quais a população nem sequer suspeitava. A imprensa do mundo todo registra o acontecimento em grandes manchetes.

Outro problema se apresenta: como se livrar de Béria, o facinoroso chefe da polícia política? Arma-se, então, nos corredores do Kremlin um verdadeiro golpe e ele é preso quando comparece à reunião, selando-se seu destino. Nikita Kruschev, ligado a Stálin e que havia chorado copiosamente por ocasião de sua morte, é sagrado Secretário-Geral. Figura curiosa, muito calvo e combativo, causou espanto ao tirar o sapato e bater com ele na tribuna de onde discursava numa reunião da ONU. Por surpreendente que fosse, Kruschev denunciaria os crimes de Stálin em público durante o XX Congresso do PC da URSS, fato que afastou simpatizantes de todo o mundo. Segundo os historiadores, nesse momento teve início o fim da URSS. Partidários notórios, entre os quais Jorge Amado e Pablo Neruda, se afastaram do partido.

Os autores reconstituem com precisão o episódio em que o filho de Stálin, general Djugachvili, acusa em altos brados os membros do comitê e os médicos de assassinarem o pai. Como tinha fama de devasso e beberrão, a acusação não foi levada a sério, embora ele fosse internado num estabelecimento próprio para a “reeducação” de recalcitrantes.

O livro focaliza um dos momentos mais graves da política mundial no auge da “guerra fria” e que teria intensa repercussão no futuro. Ali se encerrava um período sinistro da história e tinha início, a passos largos, a desintegração da URSS, colocando os Estados Unidos na posição de onipotência mundial e consolidando o capitalismo em seu apogeu.

Inspirado pelo livro, foi rodado um filme que vem fazendo grande sucesso e ao qual a imprensa tem dedicado inúmeras resenhas.

Escrito por Enéas Athanázio, 06/08/2018 às 10h28 | e.atha@terra.com.br

ARQUEOLOGIA LITERÁRIA

Como admirador de Lima Barreto (1881/1922) e de sua obra, fiquei deveras surpreso ao tomar conhecimento de que haviam sido identificados inúmeros textos de sua autoria, publicados sob pseudônimos, em revistas e jornais do início do século passado. Imaginava-se que tudo que havia escrito estava incorporado às suas Obras Completas, meticuloso trabalho publicado pela Editora Brasiliense, de São Paulo. Mas a notícia se confirmou e os referidos textos (artigos e crônicas) foram agora publicados no volume “Sátiras e Outras Subversões”, organizado por Felipe Botelho Corrêa e editado por Penguin/Cia. das Letras.

O organizador, professor da Universidade King’s College London, identificou nada menos que 164 textos, versando os mais variados temas, espalhados em periódicos do início do século passado, a maioria deles nas célebres revistas “Careta” e “Fon-Fon”, subscritos pelos mais estranhos pseudônimos. Num prolongado e paciente trabalho de arqueologia literária, comparando estilos, personagens, referências, citações. coincidências e outros detalhes, chegou à conclusão de que eram, sem a menor dúvida, saídos da pena do genial morador de Todos os Santos. Esses escritos eram mesmo desconhecidos dos biógrafos do escritor e especialistas em sua obra. Em longa e minuciosa apresentação, o organizador descreve o método usado e a técnica empregada nesse exaustivo e paciente trabalho, ainda mais no Brasil, onde as fontes de informação, acervos literários, arquivos históricos e documentais costumam ser bastante precários. Mas o livro foi editado, revelando aspectos desconhecidos nas preocupações do escritor carioca e assim enriquecendo sua obra.

Os oito capítulos em que se divide o volume procuram agrupar assuntos correlatos em cada um deles. Todos são interessantes, mas, na impossibilidade de comentá-los todos, destaco “Pistolões e costumes administrativos”, “A sã política é filha da moral e da razão”, “O país das vaidadezinhas” e “Para fazer o país feliz é preciso despovoá-lo pela miséria.” No primeiro deles o escritor fustiga os maus hábitos já então exercidos no reino da política e seus atores, mostrando como certas práticas são antigas e recorrentes no país. O pistolão, o tráfico de influência, as propinas, os jeitinhos e outros meios de burlar a lei são registrados com humor, satirizando os episódios e caricaturando os personagens, muitos deles reconhecíveis com facilidade pelos contemporâneos e, hoje em dia, através da história. Pinheiro Machado, o todo-poderoso da Velha República, está sempre presente e nunca é poupado. Era cortejado por muitos e odiado por outros tantos. Como se sabe, foi morto a punhaladas. Miguel Calmon, Coelho Neto, Epitácio Pessoa, Raul Soares, Urbano dos Santos, Auto de Sá e outros, todos figuras proeminentes da época, recebem verdadeiras sovas bem humoradas e são em geral postos no ridículo. Certo senador conhecido como “Rapadura” mereceu muitas referências pelo fato de que, em vez de encontrar seus eleitores nas urnas, ia procurá-los nos cemitérios, anotando nomes que depois exerciam o sufrágio em favor dele nas eleições a bico-de-pena! Raul Soares, mineiro de Araxá e que mal conhecia o mar, foi nomeado Ministro da Marinha. Apesar do absurdo dessa nomeação, o cronista não deixou de observar a elegante casaca com que tomou posse solene. Os partidos políticos pequenos, hoje considerados de aluguel, também foram abordados. Segundo o cronista, não tinham qualquer programa ou ideologia, tendência ou posição definida, porque seu objetivo único, em geral, consistia em agradar ao chefe e obter recompensas imediatistas. Diante de tudo isso, não é de admirar que a Revolução de 1930 tenha granjeado tantos apoiadores, derrubando o sistema vigente.

No segundo capítulo aqui destacado, Lima lembra a célebre máxima de Bossuet, segundo a qual a sã política é filha da moral e da razão, para concluir o quanto ela se encontrava desmoralizada entre nós. E, por fim, ao analisar as vaidadezinhas, ressalta o amor pelas aparências, ainda que falsas e dedicadas apenas à exibição pública. Não importa a dura e triste realidade, o que vale é a aparência. Em outro tópico, que parece escrito para os dias de hoje, ironiza os atos do governo que parecem desejar a morte dos miseráveis para despovoar o país e fazê-lo mais feliz. Arrocho salarial, aumento de impostos, retirada de auxílios aos menos favorecidos não é bem isso?

Sendo assim, é fácil entender porque o morador de Todos os Santos conquistou tantos desafetos. Mas, como afirmou um crítico, lê-se Lima Barreto para aprender a escrever, mas, acima de tudo, para aprender a ser brasileiro.

Escrito por Enéas Athanázio, 30/07/2018 às 10h01 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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