Jornal Página 3
Coluna
Literatura
Por Enéas Athanázio

GILBERTO AMADO, AINDA

Eugênio Gudin, Nereu Ramos, Gilberto Amado e Napoleão Alencastro Guimarães

Meus artigos a respeito de Gilberto Amado (1887/1969) provocaram muitas manifestações, em sua quase totalidade positivas, revelando que o sergipano ainda tem leitores e admiradores. Algumas, no entanto, revelaram vívida antipatia contra o memorialista de “História de Minha Infância.” Dentre estas, a carta curta e seca de um leitor de Brasília, também escritor, diz o seguinte: “Tudo bem, ele merece todos os elogios etc. Só faltou você mencionar que o diplomata, escritor, deputado e senador, era também um criminoso, já que ele assassinou um cidadão em seu Estado, lapso imperdoável para um promotor público.”

Ora, ora, pois, pois.O puxão de orelha revela que o missivista não conhece os fatos; ouviu o galo cantar mas não sabe onde. Não haveria razão para relembrar evento tão amargo numa série de artigos sobre a obra e as realizações culturais do escritor. Seja como for, não desconheço o trágico capítulo e li tudo que encontrei a respeito, além de ter conversado com pessoas que o conheciam em detalhes. Para escrever sobre o fato, vou me valer de autor que não foi biógrafo de Gilberto Amado e que, a rigor, não existe, e nem publicou ensaios sobre ele, presumindo, portanto, seja insuspeito. Como advertiu o crítico Wilson Martins, certos biógrafos tendem à hagiografia.

Gilberto Amado não costumava abdicar de suas posições ou de dizer o que pensava, mesmo que isso desagradasse a muitos. Como crítico, ousou fazer restrições à literatura de Coelho Neto e atacou Rui Barbosa por pretensões políticas que considerou injustificáveis, atitudes inconcebíveis na época, um quase delito de lesa-pátria. Escrevia em “O País”, de João Lage, como sucessor de Cármen Dolores, jornal de grande circulação e prestígio, e contava com a franca simpatia de Pinheiro Machado. Muito jovem, é natural que despertasse invejas e ressentimentos. Para muita gente, é difícil tolerar o sucesso alheio.

Tempos antes havia criticado obras de Elóí Pontes, romancista, e Lindolfo Collor, poeta, autores que julgava sofríveis e que, no entanto, recebiam “um chorrilho de elogios.” Irritado, Gilberto escreveu o artigo “É demais!”, denunciando a falsidade dos que aclamavam como gênios “simples espíritos medíocres, incapazes de um esforço para além da mediania.” Palavras que o tempo só fez ratificar, uma vez que ambos os criticados não sobreviveram na literatura. Na tarde do mesmo dia, quando caminhava pela Rua do Ouvidor em companhia de João do Rio, Gilberto foi surpreendido pela chegada de Collor que contra ele investiu de bengala em punho, ameaçando espancá-lo. Em seguida surge Elói Pontes, por acaso ou em combinação com o outro, e também investe contra o articulista. Diante da agressão iminente, Gilberto sacou do revólver e disparou um tiro que a ninguém atingiu e logo em seguida outro, este para o ar. Formou-se grande aglomeração de populares e os atacantes, esbaforidos, trataram de se safar. O fato teve intensa repercussão, inclusive na imprensa, mas deixou claro que o sergipano, embora pequeno e magrinho, não era de matar com a unha.

Formaram-se, a partir dali, duas correntes: uma pró e outra contra Gilberto. Nesta última alistou-se como voluntário o poeta mato-grossense Aníbal Teófilo, inimigo gratuito do escritor e que passou a exercitar contra ele uma série de ofensas, provocações e ameaças em todas as ocasiões. “A mesma intolerância em relação ao novo deputado por Sergipe manifestava o mato-grossense Aníbal Teófilo, compadre e comensal de Coelho Neto, muito grato a este, a quem devia o emprego de secretário do Teatro Municipal. Autor de escassa obra literária, tornara-se famoso por alguns sonetos, principalmente “A Cegonha”, que rapidamente se popularizara. Verdadeiro atleta, de porte gigantesco, era um tipo truculento e desafiador. Habituado a intimidar adversários, estava disposto a humilhar o desafeto pequeno e fraco, onde quer que o encontrasse.” São palavras de R. Magalhães Júnior, pesquisador sério e respeitado, fundadas em elementos criteriosos e em peças do próprio inquérito policial (“A Vida Vertiginosa de João do Rio”, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978, pág. 237). Eis o adversário temeroso que o destino colocou no caminho ascendente do jovem escritor, jornalista e deputado federal por Sergipe. Assombrado com o impasse, Gilberto tratou de evitar certos lugares e suas memórias registram a angústia que a situação provocava. Noites sem dormir, ausências à Câmara, nervosismo, fugas dos amigos. Pediu a intervenção de conhecidos comuns mas de nada adiantou, as ameaças prosseguiam na rua, nos bondes, nas redações – e ele via “as risadinhas em cada rosto.” Apavorava-o a hipótese de ser puxado pelas orelhas, de receber um puxavante em público, à frente de todos. Dias angustiantes se escoam devagar.

O mundo girava, indiferente ao drama do sergipano. Era o período da “epidemia” das conferências literárias, iniciadas por inspiração de Medeiros e Albuquerque em seu retorno da França, e que se encerraria exatamente no dia fatal. Faziam-se palestras sobre tudo: A Palavra, Beijos, Os Mortos, A Água, O Riso, O Diabo, A Beleza, A Graça, O Dinheiro, O Fogo, A Esperança, O Silêncio é de Ouro, A Dor, Os Poetas do Sertão, Casar é Bom, Mas não casar é Melhor e por aí além. Agripino Grieco em uma de suas entrevistas relembra essa fase da vida carioca em que o público acorria para ouvir seus palestrantes mediante entrada paga.

Até que, em 19 de junho de 1915, um sábado à tarde, terminava mais uma dessas conferências no salão nobre do “Jornal do Commercio” e os ouvintes se retiravam. Entre eles estava o deputado sergipano, discreto e silencioso, com certeza ressabiado de encontros indesejáveis. Trazia pelo braço a jovem esposa, grávida de seis meses, e estava acompanhado da cunhada, do irmão Gildo, ainda colegial, e de Paulo Hasslocher, seu sócio na banca de advocacia. Míope como era e na penumbra do local, pareceu-lhe que alguém o saudava e respondeu sem identificar o outro. Seguem-se minutos decisivos da tragédia que R. Magalhães Júnior assim resumiu: “E foi então que ouviu isto: - ‘Foi à sua mulher que eu cumprimentei! Não a você, seu...! A você, quando muito, eu puxo as orelhas!’ Disse-o marchando de dedo em riste, quase tocando o rosto de Gilberto, que não tinha ânimo para nada, tolhido e desarvorado (...) Fingira, em desespero de causa, não ter ouvido a nova e injuriosa provocação, e se dirigira ao elevador, mas Paulo Hasslocher procurou retê-lo, dizendo: - ‘Seu Gilberto, um homem não suporta isso! Meta a bengala nesse bandido!’ Gilberto se desculpou: - ‘Paulo, eu estou acompanhado de minha família. Que posso fazer? De resto, não brigarei nunca com esse homem. Devo desprezá-lo sempre. Faça você de mim o juízo que quiser...’ Foi então que Hasslocher, gaúcho de temperamento exaltado, dirigiu-se indignadamente a Aníbal: - ‘Você não pode desfeitear o meu amigo!’ Aníbal bradou-lhe: - ‘Tanto posso que o desfeiteei! E desfeitearei a você também!’ Atracaram-se. Ao ver o início de uma luta desigual, Gilberto sacou a arma e atirou em Aníbal. Teve morte imediata o atleta provocador” (Op. cit., págs. 238 e 239).

O ambiente ferveu e Gilberto foi preso em flagrante. Recolhido ao quartel da cavalaria da Polícia Militar, lá permaneceu preso até o julgamento. Foi denunciado por homicídio sem agravantes (simples) e Hasslocher como cúmplice (co-autor). Submetido a dois júris, foi absolvido em ambos, isentado, portanto, de qualquer responsabilidade criminal. Não é preciso ser criminalista para perceber que agiu em estrita legítima defesa de terceiro e com moderação. Apesar das distorções dos assistentes de acusação e da pressão de parte da imprensa, o júri popular reconheceu sua inocência.

Enquanto as ofensas foram contra ele, Gilberto tudo engoliu, procurando evitar o pior, ainda que mortificado pela injustiça das injúrias. Mas quando viu seu colega e amigo prestes a apanhar em público e sair desmoralizado por sua causa, não suportou. Como não tinha experiência no manejo de armas e mal sabia atirar, a circunstância de acertar a vítima de forma letal foi fruto de pura casualidade. Como diz a sabedoria popular, quem não sabe atirar acerta. Anos antes, fôra excluído da linha-de-tiro, em Pernambuco, porque nunca lograva acertar o alvo. Foi defendido pelo grande Evaristo de Morais e outros advogados.

Muito conversei sobre o assunto com os amigos Luiz Luna e Joaquim Inojosa. Ambos conheceram Gilberto Amado de perto, com ele convivendo na atividade jornalística, e o segundo chegou a ser seu sócio num escritório de advocacia, conforme relato que me fez. Confirmaram na íntegra a versão que procurei resumir. Luna ainda afirmou que o sergipano não sabia atirar, além de ser míope, atribuindo o desfecho à fatalidade. Note-se que ele não nutria grande simpatia pelo escritor.

Cotejando o relato com outros, constatei não haver discrepância. Assim aconteceu com o que consta de “Perfil Parlamentar de Gilberto Amado”, ainda que muito simplificado (Publicação da Câmara dos Deputados – Brasília – 1979) e com as palavras do próprio Gilberto (“Presença na Política”, Rio de Janeiro, José Olympio, 1958, capítulo “Terrível Prova”, págs. 328 a 346).

Conclui-se, pois, que ele não foi um criminoso vulgar mas agiu como homem naquelas lamentáveis circunstâncias. Não deu início à agressão e tudo fez por evitar o sangrento desenlace. Mas, convenhamos, não poderia apanhar em público e dali se retirar com o rabo entre as pernas.

O fato provocou um longo hiato em sua carreira, afastando-o por bom tempo das atividades mais visíveis. A tragédia deixou fundas cicatrizes em sua alma. Conta-se que, já bem idoso (faleceu aos 82 anos), ele não a esquecia e costumava repetir: “Aquele homem roubou a minha solidão!”

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Outras fontes:
Wilson Martins, “História da Inteligência Brasileira”, S. Paulo, Cultrix/USP, Vol. VI, 1978.
Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa, “Enciclopédia de Literatura Brasileira”, Rio de Janeiro, MEC, 1990, Vol. I, págs. 202/203.
Raimundo de Menezes, “Dicionário Literário Brasileiro”, Rio de Janeiro, Editora LTC, 1978, págs. 34/35. 

 

Escrito por Enéas Athanázio, 21/09/2020 às 10h35 | e.atha@terra.com.br

GILBERTO AMADO, ESSE DESCONHECIDO

“Quem não gosta do Brasil não me interessa!”, Gilberto Amado ao centro

Recebo mensagem de um amigo paulistano desolado com o que viu na última Bienal Internacional do Livro. Segundo ele, a feira perdeu o caráter cultural que fazia dela um evento da maior importância e se transformou em mero comércio livreiro, sem preocupação com a qualidade. Não revelou empenho no lançamento de novidades significativas para a cultura, preocupada apenas com o volume das vendas de obras de auto-ajuda, didáticas e paradidáticas, mais vendidos, dicionários e enciclopédias, quadrinhos e coisas do gênero. Foi, enfim, uma imensa livraria temporária que só se distinguiu das outras pelo tamanho, sem maior influência cultural. Para completar - continua ele - havia estandes com outras finalidades, como vendas de produtos alheios ao objetivo e até turísticos, desfigurando-a por completo.

Leitor de Gilberto Amado (1887/1969), relata o meu amigo que percorreu toda a feira, de ponta a ponta, e não encontrou um único livro sobre esse escritor ou de sua autoria, nem mesmo nos estandes que vendiam livros usados. Indagando daqui e dali, não ouviu uma palavra no sentido de que alguém pretenda reeditar as obras do admirável escritor. Pessoas que lidam com livros revelaram nunca ter sequer ouvido falar dele. (Os livreiros também estão desaparecendo, sobram apenas vendedores desinformados e desinteressados). “Gilberto Amado está irremediavelmente esquecido!” – conclui em sua melancólica mensagem.

E quem foi Gilberto Amado? Segundo a crítica mais exigente, foi uma das figuras mais importantes do mundo cultural brasileiro no século passado, autor de uma obra da maior qualidade e com impressionante folha de serviços ao país. Jurista especializado em Direito Internacional, foi membro e presidente por várias vezes da Comissão de Direito Internacional da ONU, em Genebra, além de ter ocupado cargos de relevo na área diplomática. Ensaísta, romancista, crítico, poeta, é considerado um dos maiores memorialistas brasileiros, ao lado e ao par de Pedro Nava. Professor universitário, suas aulas alcançavam o nível de conferências, atraindo alunos de outras turmas e até colegas de magistério. Mesmo tendo vivido por longos anos no Exterior, nunca perdeu o agudo sentimento de nacionalidade e se conservou até o fim um apaixonado pelo Brasil, estudando-o e procurando interpretá-lo. Reagia com indignação às críticas ao nosso país, celebrizando-se episódios em que isso aconteceu. Em importante reunião internacional, uma palestrante criticou o Brasil, revelando antipatia e desconhecimento. Foi então que ele se levantou acintosamente e exclamou: “Quem não gosta do Brasil não me interessa!”, retirando-se da sala. As respostas candentes de “monsieur Amadô” se tornaram temidas.

Cidadão mítico em sua época, suas vindas ao país assumiam o caráter de acontecimentos da cultura. Fazia palestras, lançava livros, falava à imprensa, viajava a convite de universidades. Cidadão do mundo, deixou em vários escritos a visão abrangente e perspicaz com que observava o panorama mundial e previa seus desdobramentos. No pequeno volume “Dias e horas de vibração” lança um olhar agudo sobre o mundo de então e aponta detalhes nem sempre percebidos pelos contemporâneos. E nunca errava o alvo.

Mas o Brasil de hoje o esqueceu. 

Escrito por Enéas Athanázio, 15/09/2020 às 10h08 | e.atha@terra.com.br

A SENHORA DE PARIS

Gertrude Stein (Foto Getty Images)

A escritora e poeta Gertrude Stein (1874/1946) nasceu nos Estados Unidos mas esteve sempre ligada à França e, mais particularmente, a Paris. Pertencente a uma família alemã de judeus bem sucedidos, sua primeira estada em Paris foi aos quatro anos de idade, fato de que ela se lembraria com saudade pelo resto da vida. Mais tarde, já adulta, ela se fixou em definitivo na capital francesa, em companhia do irmão, Léo Stein, com quem fundaria uma grande editora. Depois se desentenderam, ele se afastou e acabou emigrando para a Austrália. Ela e o irmão patrocinavam artistas e escritores que necessitavam de apoio, mas todas as atenções convergiam para ela, uma personalidade forte e dominante. Aos poucos ela se tornou uma espécie de madrinha da classe artística, estabelecendo relações de amizade com figuras de grande destaque, como Pablo Picasso, James Joyce e Ezra Pound. Tornou-se uma figura poderosa, com grande influência no meio social, e sua casa, à Rue des Fleurus, 27, se transformou num centro de reuniões de artistas, escritores, jornalistas e personalidades. Ao mesmo tempo temida e admirada, desde o início começou a colecionar obras de arte, em especial pinturas, e sua casa se converteu num imenso museu. Segundo Hemingway, ela recomendava às esposas dos escritores e artistas que não gastassem com roupas reservando o dinheiro para a aquisição de quadros. Cercada pelos artistas e escritores, dentre eles os americanos expatriados que viviam em Paris, tinha como companheiros Alice Toklas e um cachorro. Sem a menor cerimônia, emitia opiniões favoráveis ou contrárias sobre as obras alheias, mesmo que os autores fossem seus amigos, o que a tornava muito temida. Foi amiga de Hemingway mas a amizade se desgastou e acabou com o correr do tempo. Segundo se sabe, foi ela quem batizou os escritores americanos que se mudaram para Paris de “geração perdida”, frase que ela teria ouvido de um mecânico. Seu poema “uma rosa é uma rosa é uma rosa” se tornou célebre em todo o mundo porque ela desprezava as regras da língua na linha de Joyce. Sylvia Beach, proprietária da célebre livraria “Shakespeare and Company”, escreveu: “os pobrezinhos (artistas e escritores) recorriam a mim, como se eu fosse alguma espécie de guia de turismo, e imploravam para que os levasse para ver Gertrude Stein.” E assim ela reinou por longos anos como a Senhora de Paris.

Dentre as obras de Gertrude Stein, destacam-se os livros “Autobiografia de Alice Toklas”, “Autobiografia de Todo Mundo” e “Paris França”, todos de grande sucesso na época da publicação. Este último é um livro curioso e que contém muito do pensamento e das observações da autora. Segundo a crítica Inês Cardoso, trata-se de um livro circular, uma vez que aborda um assunto, depois o abandona e retorna a ele outras vezes. É uma obra de caráter memorialista porque relembra muito da vida da autora em Paris e nas vilas do interior da França que costumava visitar. No correr do texto ela faz interessantes comparações entre os séculos XIX e XX e as mudanças acontecidas no mundo em cada um deles. O livro foi escrito durante a II Guerra Mundial, portanto em tempo de guerra, e publicado em 1940, no primeiro dia do cerco alemão à capital francesa. Segundo a crítica o livro é uma escrita cubista, transpondo para as letras o que Picasso fazia nas telas.

Gertrude Stein afirmava que o escritor necessita de dois países, aquele onde nasceu e um segundo, ideal e romântico, em que de fato vive. Parece que tinha razão, pois a “geração perdida” se impôs ao mundo em Paris. É no segundo país que ele encontra a total liberdade de criação. Paris, dizia ela, era o lugar certo para a pessoa (artistas e escritores) estar. Os estrangeiros estão em casa na França porque lá artistas e escritores são respeitados e merecem todas as deferências. Basta envelhecerem um pouco e já são tratados como “mestres.” Escritor e pintor têm privilégios, o que é muito agradável. Até numa oficina a mulher, o homem de letras e o pintor têm preferência. Por causa do elemento civilização, Paris sempre foi o lar dos artistas estrangeiros. Ela dizia não entender certos intelectuais que apoiavam regimes de força que fatalmente os perseguiriam e tornariam sua vida insuportável. Eu também não, mas eles existem.

Encerrando o livro, Gertrude Stein dizia que o Século XX acabaria sendo civilizado e transformado num tempo em que todos poderiam ser livres para serem também civilizados. Escrevendo em 1940 ela não poderia prever as barbaridades do Século XX que nada tiveram de civilizadas. Duas guerras mundiais com milhões de mortos, holocausto e bomba atômica, a Revolução Russa, a Guerra Civil Espanhola, a Revolução Cubana, as guerras de libertação de Angola, Moçambique, Argélia, outras e outras guerras locais e regionais. Ditaduras sanguinárias em várias partes do mundo, a exemplo das encabeçadas por Salazar, Franco, Stroessner, Pinochet, Perón, Somoza, Duvalier, Médici etc. Gripe espanhola e AIDS. Crises do tipo 1929, fome e miséria na África, imigração irregular e clandestina para os países europeus. E no Brasil? Canudos, Contestado, Revolução de 1930, Revolução Paulista, tentativas golpistas e golpe de 1964, as terríveis secas nordestinas e as enchentes do Sul. E tudo mais que o leitor possa lembrar.

E o Século XXI, além da pandemia, que mais nos reserva? 

Escrito por Enéas Athanázio, 08/09/2020 às 09h18 | e.atha@terra.com.br

REVELAR, NÃO ESCONDER

Na época em que residi em Curitiba, na velha Pensão de Dona Rosa, a quinhentos metros da Boca Maldita, meu colega de quarto possuía excelente biblioteca que, aliás, era do pai dele, porque ele mesmo não lia nada. Abusando dela, nos dias de chuva e frio, comuns na cidade, eu tomava verdadeiras bebedeiras de leituras. Foi nessas ocasiões que li toda a obra de Humberto de Campos, o notável Conselheiro XX, cujas Obras Completas, em 22 volumes, publicadas pela W. M. Jackson Inc, em 1941, integravam o acervo. Não recordo como e nem porque essa coleção veio às minhas mãos e comigo permanece até hoje, enfrentando muitas andanças e mudanças, de casas e de cidades. Em face disso, nunca estive afastado do notável escritor maranhense, a cujos livros tenho retornado com frequência, sempre com o mesmo prazer e admiração pela sua magnífica escrita. Agora mesmo, em leituras intensivas, percorri os dois volumes de suas extraordinárias “Memórias.” Terá esse tão longo contato me influenciado? Confesso que não sei. Lembro que o saudoso Prof. Nereu Corrêa, nosso maior crítico, foi leitor assíduo de Humberto de Campos e se aprestava para escrever um ensaio a respeito de sua obra. Mas, infelizmente, não teve tempo.

Impressionam nesse escritor a elegância do estilo e a vastíssima erudição numa pessoa que viveu tão pouco. Cada uma de suas páginas é uma exibição de cultura e sabedoria. É também admirável a franqueza com que recorda o passado, nada escondendo, nem mesmo os erros que, como todo mundo, um dia cometeu. Como Jean-Jacques Rousseau, de quem foi aplicado leitor, sustentava que as memórias são para revelar, nunca para esconder ou escamotear.

Muito pobre, órfão de pai em tenra infância, padeceu toda sorte de privações, inclusive a fome aguda. Entregue aos cuidados de uma mãe lutadora mas enérgica, que lhe aplicava violentas surras, viveu momentos angustiantes, sem teto e sem pão. Numa viagem de navio, alegrava-se por não enjoar e “almoçar e jantar três vezes ao dia.” Passou por diversas escolas, sem grande proveito, e permaneceu por longo tempo na mais completa vadiagem, tanto em Meritiba, a terra natal, como em Parnaíba, no Piauí, onde a família viveu por muitos anos. Desde cedo, porém, nele se manifestou o gosto pela literatura e o hábito de ler se consolidou para sempre. Lia e estudava tudo que lhe caía nas mãos e assim amealhou vasto e variado conhecimento. Formado em Direito, andou por São Luís e por Belém, até se fixar no Rio de Janeiro, então capital do país, onde se consagrou como escritor e o cronista mais lido e influente de seu tempo. Foi deputado federal pelo Maranhão e ingressou ainda moço na Academia Brasileira de Letras.

Homem sofrido, os padecimentos fizeram dele uma pessoa triste e pessimista. O sofrimento deixou marcas indeléveis e elas transparecem com clareza em sua obra. Além disso, era um menino feio, ou assim se considerava, como escreveu nesta passagem: “Porque, se eu não nasci doente nem débil, sempre fui proclamado, embora sem irritação, consciente da minha parte, o menino mais feio da família. Nasci feio, e tenho sido, na vida, nesse ponto, de uma coerência acima de todo elogio.” Percebe-se que aceitava a proclamada feiúra, sem protesto ou revolta. Fazendo um balanço da vida, concluía que também não fora bafejado pela sorte. Eis o que afirmou: “O pouco que me dão na vida, ou é dado de má vontade, ou é podre.” Recordando o passageiro momento de felicidade que lhe provocou um brinquedo, escreveu: “E que tem sido para mim, pelo resto da vida, a felicidade, senão um brinquedo roubado, que eu escondo, que dissimulo assustadamente no coração, e que, no entanto, descobrem, e me tomam, quando custaria tão pouco me deixarem com ele?” Numa das passagens mais melancólicas de seus escritos, recorda ele o meio miserável em que cresceu. “O que eu via em redor de mim, fora do quadro escuro da nossa casa em que se lutava heroicamente pelo pão, era o tumulto das misérias humanas, a glorificação dos atos criminosos, e uma pequena humanidade arrastada, pela pobreza ou pela mediocridade do ambiente, para a sarjeta da vida e do mundo.”

Em “Fim de Século”, uma das páginas mais sentidas que escreveu, recorda a passagem do Século XIX para o Século XX. Alertado pelas leituras, o garoto de treze anos, imaginava o que traria o novo século, as conquistas, os espantos, os prodígios, as surpresas e as esperanças que enchiam o coração da humanidade. Ele imaginava o que ia lá fora, ouvia o foguetório, os gritos alegres, a música que enchia as ruas com seus sons repletos de alegria, as fábricas e os navios apitando com estridência. Mas ele, no interior obscuro e lúgubre da mercearia onde era caixeiro, ajudava o chefe no balanço do estoque, contando garrafas de bebidas e cantando em voz alta:

- Trinta e seis de Macieira!

- Vinte e duas de Colares!

- Trinta e seis de conhaque!

“A Civilização vira uma página lida – depõe ele – sem saber que emoções lhe reserva a outra, que vai ler . . . De pé na escada, tudo isso me passa pelo pensamento.” Mas sem um protesto ou um movimento de má vontade, continua a trabalhar. A humanidade entra numa nova era; o garoto, porém, tem que garantir o pão de amanhã.

Na crônica “Os Vareiros”, talvez sua página mais célebre, descreve a lida dos homens que impelem rio-acima as chatas pelo rio Parnaíba. Fixam a longa vara no fundo do rio, ajeitam a outra ponta no peito calejado e caminham pela borda, empurrando a pesada embarcação contra a corrente. Os atos são repetidos e continuados, dezenas, centenas, milhares de vezes e, uma vez chegados ao destino, tudo recomeça, agora em sentido contrário. E ele, então, velho, doente e quase cego, se compara aos vareiros: agarrado à máquina de escrever, como eles ao varão, escreve e escreve porque na escrita está seu ganha-pão e sua razão de viver. Escrever, diz ele, é sua glória e seu infortúnio, como também afirmava Rousseau.

Não obstante, foi muito criticado por escritores impiedosos e talvez ressentidos. Diziam que sua literatura era nociva e conformista, o que prejudicaria a juventude. Num desabafo contra um desses ataques, desferido por um jovem jornalista, lembrou que João Diogo, chegando ao céu, passou a descrever catastrófica enchente do rio São Francisco, causadora de mortes e tragédias. Muitos se espantaram, exceto um velhinho de longas barbas brancas, que não revelou qualquer surpresa. Findo o relato, João Diogo indagou: quem é o cidadão indiferente? E o informante: ele é Noé!

Diante da crítica do jovem, concluiu o escritor, ele antepunha sua experiência de vida às restrições do jornalista:

- Nesse terreno, eu sou Noé! – proclamou.

Numa das passagens mais brilhantes, irônicas e divertidas de sua obra, lança um “Manifesto à Nação.” Segundo ele, estava imitando todos os políticos que afirmavam que o país afundava quando, na verdade, eles próprios é que submergiam. Nessa página saborosa ele como que traça um roteiro para o que lhe resta de vida:

- Não voltar mais à política militante;

- Não receber originais de livros para ler;

- Não escrever sobre livro cujo autor lhe peça;

- Votará na Academia contra todo candidato que peça manifestação anterior sobre seu voto;

- Não escrever mais prefácios;

- Não aceitar convite para banquetes;

- Não servirá de “pistolão” junto a autoridades;

- Nos contratos de edição exigirá a numeração dos exemplares, não porque duvide dos editores, mas porque eles estão ricos e os escritores continuam pobres;

- Não emprestar livros de sua biblioteca porque eles são como o corvo que Noé soltou da arca; voam e não voltam;

- “Sorrirás diante de todas as cousas graves da vida. O sorriso transforma a ignorância em sabedoria.”

Ignoro se ele cumpriu até o fim suas próprias regras.

Mas vale a pena ler e reler a obra desse escritor tão brilhante quanto esquecido, cujas palavras enternecem e ensinam.

Escrito por Enéas Athanázio, 31/08/2020 às 09h48 | e.atha@terra.com.br

MULHERES EM DESFILE

Clauder Arcanjo (Foto Cezar Alves)

A mulher sempre foi fonte de inspiração para poetas e escritores. Certos poetas românticos viam na lua uma mulher e ficavam a dedicar-lhe versos cheios de amor, como faziam também compositores de músicas populares. Ricardo Gonçalves, integrante do grupo de Monteiro Lobato, era um desses poetas apaixonados, o que levou o taubateano a defini-lo como um cão lírico que ladra à lua. Mas a mulher, desde que existe literatura, tem sido retratada nas letras de todas as formas imagináveis e numa variedade de enfoques que parece não ter fim.

Clauder Arcanjo, conhecido escritor cearense, inovou na maneira de ver a mulher e publicou um delicioso livro em que ela é vista nos mais variados papéis. Trata-se de “Mulheres Fantásticas”, publicado em belíssima edição pela Editora Sarau das Letras (Mossoró – 2019). Segundo o autor, o livro nasceu de um desafio que lhe foi formulado e desde então ele se entregou a pensar, observar e interpretar a mulher nas mais variadas posições numa coletânea de crônicas de leitura fascinante. Dentre as figuras focalizadas, exibem-se a mulher galinha, sapo, eterna, ventania, elétrica, abelha, consolação e assim por diante. Em todas as situações a mulher sai por cima, ou seja, a figura feminina é sempre exaltada. Merecem uma referência especial as ilustrações de Raísa Christina, apropriadas e sugestivas.

Dentre tantas que desfilam no livro, a mulher elétrica chamou minha atenção. Depois de longos anos à luz de velas e lamparinas, Licânia, cidade mítica em que se ambientam muitas histórias do autor, conheceu a luz elétrica. Com festa e foguetório foi inaugurado um gerador elétrico a diesel e a luz varreu a escuridão das ruas e das casas. Mas a alegria durou pouco e uma semana depois a máquina pifou. O técnico alemão foi chamado e, mesmo usando de todo seu conhecimento, estudando os manuais e verificando cada engrenagem, não conseguia colocar em ação o genioso aparelho. Até que alguém, em boa hora, se lembrou de Fabrícia de Luzia, uma das belas filhas do lugar e mulher de um tal Chico das Tripas. Linda como era, ela produzia luz onde passava. Foi levada à prefeitura e ao local onde estava o gerador. Foi entrando, linda e poderosa, saudada pelo técnico admirado: “Fraulein! Fraulein!” Sem querer, a moça tropeçou numa alavanca e a geringonça começou a funcionar com perfeição. Desde então, a presença de Fabrícia no local garantia o perfeito funcionamento do gerador e não faltou mais luz em Licânia. Na voz do povo ela passou a ser a mulher elétrica e todos temiam pela sorte do marido, o Chico das Tripas, “que andava com a bateria meio arriada.”

A crônica é desenvolvida com perfeição, a linguagem é adequada ao local e à situação. A vida da pequena cidade transparece em cada passo e o leitor sente o ambiente reinante. Tudo escrito com economia de palavras como requer a verdadeira crônica.

Todas as mulheres que desfilam no livro são surpreendentes e encantadoras, às vezes enigmáticas e complexas, mas atraem o leitor de forma irresistível. Vale a pena tentar decifrá-las uma a uma.

Como asseverou Dimas Macedo, “mesmo tratando-se de histórias ficcionais, “Mulheres Fantásticas” também pode ser lido como uma reunião de crônicas e memórias, quanto fragmentos daquilo que se pode fazer com a magia das mulheres e com aura de suas fantasias.”

Com este livro, Clauder Arcanjo crava mais um ponto significativo em sua exitosa carreira de escritor criativo e plural. 

Escrito por Enéas Athanázio, 25/08/2020 às 08h45 | e.atha@terra.com.br

CARLOS NEJAR, NOSSO POETA-MOR

“Subir é depurar-se”

Carlos Nejar é considerado o maior poeta da literatura brasileira contemporânea. Foi apontado como um dos 37 escritores referenciais do Século XX. Gaúcho de Porto Alegre, fez a carreira do Ministério Público, aposentando-se como Procurador de Justiça. Transferiu-se para o Espírito Santo, fixando-se em Guarapari e depois no Rio de Janeiro, onde reside na sua “Casa do Vento”. É membro da Academia Brasileira de Letras (Cadeira número 4), da Academia Brasileira de Filosofia e da Academia Espírito-Santense de Letras. É poeta, ficcionista e historiador da literatura brasileira. Tem numerosos livros publicados, inclusive em Portugal, e recebeu os mais importantes prêmios nacionais. Sua obra tem sido traduzida para vários idiomas. Estudou nas principais universidades do Brasil e do exterior. É considerado um inventor incansável e transita por todos os gêneros: dramaturgia, poesia, romance, conto, ensaio, infanto-juvenil e história da literatura.

Dentre suas obras, avulta “A Idade da Aurora: a Fundação do Brasil”, rapsódia épica do nosso país. Segundo Oscar Gama Filho, “Em “A Idade da Aurora”, Nejar sentou nos ombros de James Joyce e de Guimarães Rosa. Assim ombreado, equiparou-se a eles. Este é o seu melhor livro, uma obra-prima que lhe garante vaga na imortalidade ao lado de ambos, com quem passa a compor a santíssima trindade do romance.”

O crítico equipara Nejar a Joyce, um dos maiores escritores de todo o mundo, talvez ao lado de Proust, e a Guimarães Rosa, o ponto alto das letras nacionais. O poema mencionado é a história poética do Brasil, uma obra sofisticada e reveladora de ilimitada criatividade.

Outros críticos de renome se manifestaram de maneira positiva sobre o livro, entre eles Gilberto Mendonça Teles, Virgilio López Lemus, César Leal, Abgar Renault, José Saramago, José Jorge Letria, Fábio Lucas, Gustav Siebenmann, Fernando Py, Lênia Márcia Moncelli, Donaldo Schuler, Sérgio Ribeiro Rosa e Luciana Stegagno Picchio.

Colhendo ao acaso, anotei alguns versos que ficaram bailando na minha memória:

Na aleluia da luz mais exata
Ir vivendo é ir soprando as coisas
Até que um Brasil sobre o chão despertasse
Liberto é o que na alma varia
Deus era a sua maior intimidade
Mesmo sem a usança da língua, nesta estranheza de
onde manam os alfabetos
Inventar não; é o só vivendo
Ir além é o que importa
Amor é quando a graça sobe os píncaros
E nem percebe mais o que fazer com os vasos do
coração regados
Dos olhos ao coração é um til, um trim
O amor é o arco-íris, o arco-velo do vento
Amor se é verde, dói
Viver é ir caindo no vivido
Mais bela é a espada, quando guerreada
E a infância não sabe nada, nada de si mesma

* * *

Outro livro de grande destaque é “A Árvore de Deus”, publicado em Portugal. Aqui o poeta se revela o místico que é, sempre com os olhos e o coração voltados para Deus, presente em todo o longo poema.

“Ò Deus, há tanto amor,
a ponto de não carecer de nome
o amor. Já sai de mim
como a borboleta
do casulo saiu no voo.”

“Deixei de morrer
assim que vi Deus.”

“Eu me movo em Deus.”

Misticismo que se revelará em outros tantos poemas.

* * *

Ainda no campo da poesia, merece especial referência o volume “Os dias pelos dias”, reunindo três livros: “Canga”, “O poço do calabouço” e “Árvore do mundo”, compondo um conjunto impressionante de mais de trezentas páginas.

O primeiro deles contém a saga de Jesualdo Monte, trabalhador geral nas cangalhas do espanto porque é um burro (de carga?), carregando os ossos porque em volta dele o mundo apertou as suas cinchas. Porque Jesualdo Monte galopa, galopa, e não se esconde, está vivo e morto.

“Canga” enternece, revolta, choca. É um brado em defesa do social.

O segundo livro inicia criando um clima sufocante, depois infunde o medo e invoca a liberdade, porque “sem ti nada mais sei.” Ela traz o alívio. O poeta conduz o leitor para onde quer, manobrando seus sentimentos como um guia.

No terceiro livro, por fim, a variedade de temas que atraem e encantam.

Como escreveu o crítico Adriano Espínola, a trilogia “é um dos mais altos momentos da lírica participativa da língua portuguesa dos últimos tempos. Participativa não só do drama político, mas também da vida cotidiana, da “dor geral” e particular do ser humano na sua “ciência maior de estar vivo.”

“Os dias pelos dias” é um marco da poética brasileira.

Tristão de Athayde, Antônio Houaiss e Eduardo Portella, três pesos-pesados da crítica nacional aplaudiram Nejar.

* * *

Ingressando pelo campo da prosa-poética, Nejar publicou “Carta aos loucos” e “O evangelho segundo o vento.”

Creio que o primeiro é um de seus livros mais conhecidos. Nele, o autor “aponta o rio da memória em que o realismo mágico necessita desembocar. Não basta mais expor a realidade pelos seus excessos, mostrar o impossível, o fantástico. “ Como disse Paulo Coelho, é a sábia e inovadora loucura de Nejar.

O segundo começa com uma proposição e uma indagação: “Ninguém simula o mundo, se ele é sempre o mesmo. Ninguém simula nada; as coisas passam de uma aparência a outra. Tal um rio. E como conseguiremos segurar o que sempre nos foge?” Mergulhando nessas páginas o leitor encontrará a resposta ou, pelo menos, a sua resposta.

Esta é uma breve notícia sobre parte da obra de nosso poeta maior, sem pretensão analítica ou interpretativa. É um convite para a leitura da produção de um poeta personalíssimo e incansável criador de cosmogonias, como o definiu um crítico.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/08/2020 às 10h45 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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Página 3
Literatura
Por Enéas Athanázio

GILBERTO AMADO, AINDA

Eugênio Gudin, Nereu Ramos, Gilberto Amado e Napoleão Alencastro Guimarães

Meus artigos a respeito de Gilberto Amado (1887/1969) provocaram muitas manifestações, em sua quase totalidade positivas, revelando que o sergipano ainda tem leitores e admiradores. Algumas, no entanto, revelaram vívida antipatia contra o memorialista de “História de Minha Infância.” Dentre estas, a carta curta e seca de um leitor de Brasília, também escritor, diz o seguinte: “Tudo bem, ele merece todos os elogios etc. Só faltou você mencionar que o diplomata, escritor, deputado e senador, era também um criminoso, já que ele assassinou um cidadão em seu Estado, lapso imperdoável para um promotor público.”

Ora, ora, pois, pois.O puxão de orelha revela que o missivista não conhece os fatos; ouviu o galo cantar mas não sabe onde. Não haveria razão para relembrar evento tão amargo numa série de artigos sobre a obra e as realizações culturais do escritor. Seja como for, não desconheço o trágico capítulo e li tudo que encontrei a respeito, além de ter conversado com pessoas que o conheciam em detalhes. Para escrever sobre o fato, vou me valer de autor que não foi biógrafo de Gilberto Amado e que, a rigor, não existe, e nem publicou ensaios sobre ele, presumindo, portanto, seja insuspeito. Como advertiu o crítico Wilson Martins, certos biógrafos tendem à hagiografia.

Gilberto Amado não costumava abdicar de suas posições ou de dizer o que pensava, mesmo que isso desagradasse a muitos. Como crítico, ousou fazer restrições à literatura de Coelho Neto e atacou Rui Barbosa por pretensões políticas que considerou injustificáveis, atitudes inconcebíveis na época, um quase delito de lesa-pátria. Escrevia em “O País”, de João Lage, como sucessor de Cármen Dolores, jornal de grande circulação e prestígio, e contava com a franca simpatia de Pinheiro Machado. Muito jovem, é natural que despertasse invejas e ressentimentos. Para muita gente, é difícil tolerar o sucesso alheio.

Tempos antes havia criticado obras de Elóí Pontes, romancista, e Lindolfo Collor, poeta, autores que julgava sofríveis e que, no entanto, recebiam “um chorrilho de elogios.” Irritado, Gilberto escreveu o artigo “É demais!”, denunciando a falsidade dos que aclamavam como gênios “simples espíritos medíocres, incapazes de um esforço para além da mediania.” Palavras que o tempo só fez ratificar, uma vez que ambos os criticados não sobreviveram na literatura. Na tarde do mesmo dia, quando caminhava pela Rua do Ouvidor em companhia de João do Rio, Gilberto foi surpreendido pela chegada de Collor que contra ele investiu de bengala em punho, ameaçando espancá-lo. Em seguida surge Elói Pontes, por acaso ou em combinação com o outro, e também investe contra o articulista. Diante da agressão iminente, Gilberto sacou do revólver e disparou um tiro que a ninguém atingiu e logo em seguida outro, este para o ar. Formou-se grande aglomeração de populares e os atacantes, esbaforidos, trataram de se safar. O fato teve intensa repercussão, inclusive na imprensa, mas deixou claro que o sergipano, embora pequeno e magrinho, não era de matar com a unha.

Formaram-se, a partir dali, duas correntes: uma pró e outra contra Gilberto. Nesta última alistou-se como voluntário o poeta mato-grossense Aníbal Teófilo, inimigo gratuito do escritor e que passou a exercitar contra ele uma série de ofensas, provocações e ameaças em todas as ocasiões. “A mesma intolerância em relação ao novo deputado por Sergipe manifestava o mato-grossense Aníbal Teófilo, compadre e comensal de Coelho Neto, muito grato a este, a quem devia o emprego de secretário do Teatro Municipal. Autor de escassa obra literária, tornara-se famoso por alguns sonetos, principalmente “A Cegonha”, que rapidamente se popularizara. Verdadeiro atleta, de porte gigantesco, era um tipo truculento e desafiador. Habituado a intimidar adversários, estava disposto a humilhar o desafeto pequeno e fraco, onde quer que o encontrasse.” São palavras de R. Magalhães Júnior, pesquisador sério e respeitado, fundadas em elementos criteriosos e em peças do próprio inquérito policial (“A Vida Vertiginosa de João do Rio”, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978, pág. 237). Eis o adversário temeroso que o destino colocou no caminho ascendente do jovem escritor, jornalista e deputado federal por Sergipe. Assombrado com o impasse, Gilberto tratou de evitar certos lugares e suas memórias registram a angústia que a situação provocava. Noites sem dormir, ausências à Câmara, nervosismo, fugas dos amigos. Pediu a intervenção de conhecidos comuns mas de nada adiantou, as ameaças prosseguiam na rua, nos bondes, nas redações – e ele via “as risadinhas em cada rosto.” Apavorava-o a hipótese de ser puxado pelas orelhas, de receber um puxavante em público, à frente de todos. Dias angustiantes se escoam devagar.

O mundo girava, indiferente ao drama do sergipano. Era o período da “epidemia” das conferências literárias, iniciadas por inspiração de Medeiros e Albuquerque em seu retorno da França, e que se encerraria exatamente no dia fatal. Faziam-se palestras sobre tudo: A Palavra, Beijos, Os Mortos, A Água, O Riso, O Diabo, A Beleza, A Graça, O Dinheiro, O Fogo, A Esperança, O Silêncio é de Ouro, A Dor, Os Poetas do Sertão, Casar é Bom, Mas não casar é Melhor e por aí além. Agripino Grieco em uma de suas entrevistas relembra essa fase da vida carioca em que o público acorria para ouvir seus palestrantes mediante entrada paga.

Até que, em 19 de junho de 1915, um sábado à tarde, terminava mais uma dessas conferências no salão nobre do “Jornal do Commercio” e os ouvintes se retiravam. Entre eles estava o deputado sergipano, discreto e silencioso, com certeza ressabiado de encontros indesejáveis. Trazia pelo braço a jovem esposa, grávida de seis meses, e estava acompanhado da cunhada, do irmão Gildo, ainda colegial, e de Paulo Hasslocher, seu sócio na banca de advocacia. Míope como era e na penumbra do local, pareceu-lhe que alguém o saudava e respondeu sem identificar o outro. Seguem-se minutos decisivos da tragédia que R. Magalhães Júnior assim resumiu: “E foi então que ouviu isto: - ‘Foi à sua mulher que eu cumprimentei! Não a você, seu...! A você, quando muito, eu puxo as orelhas!’ Disse-o marchando de dedo em riste, quase tocando o rosto de Gilberto, que não tinha ânimo para nada, tolhido e desarvorado (...) Fingira, em desespero de causa, não ter ouvido a nova e injuriosa provocação, e se dirigira ao elevador, mas Paulo Hasslocher procurou retê-lo, dizendo: - ‘Seu Gilberto, um homem não suporta isso! Meta a bengala nesse bandido!’ Gilberto se desculpou: - ‘Paulo, eu estou acompanhado de minha família. Que posso fazer? De resto, não brigarei nunca com esse homem. Devo desprezá-lo sempre. Faça você de mim o juízo que quiser...’ Foi então que Hasslocher, gaúcho de temperamento exaltado, dirigiu-se indignadamente a Aníbal: - ‘Você não pode desfeitear o meu amigo!’ Aníbal bradou-lhe: - ‘Tanto posso que o desfeiteei! E desfeitearei a você também!’ Atracaram-se. Ao ver o início de uma luta desigual, Gilberto sacou a arma e atirou em Aníbal. Teve morte imediata o atleta provocador” (Op. cit., págs. 238 e 239).

O ambiente ferveu e Gilberto foi preso em flagrante. Recolhido ao quartel da cavalaria da Polícia Militar, lá permaneceu preso até o julgamento. Foi denunciado por homicídio sem agravantes (simples) e Hasslocher como cúmplice (co-autor). Submetido a dois júris, foi absolvido em ambos, isentado, portanto, de qualquer responsabilidade criminal. Não é preciso ser criminalista para perceber que agiu em estrita legítima defesa de terceiro e com moderação. Apesar das distorções dos assistentes de acusação e da pressão de parte da imprensa, o júri popular reconheceu sua inocência.

Enquanto as ofensas foram contra ele, Gilberto tudo engoliu, procurando evitar o pior, ainda que mortificado pela injustiça das injúrias. Mas quando viu seu colega e amigo prestes a apanhar em público e sair desmoralizado por sua causa, não suportou. Como não tinha experiência no manejo de armas e mal sabia atirar, a circunstância de acertar a vítima de forma letal foi fruto de pura casualidade. Como diz a sabedoria popular, quem não sabe atirar acerta. Anos antes, fôra excluído da linha-de-tiro, em Pernambuco, porque nunca lograva acertar o alvo. Foi defendido pelo grande Evaristo de Morais e outros advogados.

Muito conversei sobre o assunto com os amigos Luiz Luna e Joaquim Inojosa. Ambos conheceram Gilberto Amado de perto, com ele convivendo na atividade jornalística, e o segundo chegou a ser seu sócio num escritório de advocacia, conforme relato que me fez. Confirmaram na íntegra a versão que procurei resumir. Luna ainda afirmou que o sergipano não sabia atirar, além de ser míope, atribuindo o desfecho à fatalidade. Note-se que ele não nutria grande simpatia pelo escritor.

Cotejando o relato com outros, constatei não haver discrepância. Assim aconteceu com o que consta de “Perfil Parlamentar de Gilberto Amado”, ainda que muito simplificado (Publicação da Câmara dos Deputados – Brasília – 1979) e com as palavras do próprio Gilberto (“Presença na Política”, Rio de Janeiro, José Olympio, 1958, capítulo “Terrível Prova”, págs. 328 a 346).

Conclui-se, pois, que ele não foi um criminoso vulgar mas agiu como homem naquelas lamentáveis circunstâncias. Não deu início à agressão e tudo fez por evitar o sangrento desenlace. Mas, convenhamos, não poderia apanhar em público e dali se retirar com o rabo entre as pernas.

O fato provocou um longo hiato em sua carreira, afastando-o por bom tempo das atividades mais visíveis. A tragédia deixou fundas cicatrizes em sua alma. Conta-se que, já bem idoso (faleceu aos 82 anos), ele não a esquecia e costumava repetir: “Aquele homem roubou a minha solidão!”

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Outras fontes:
Wilson Martins, “História da Inteligência Brasileira”, S. Paulo, Cultrix/USP, Vol. VI, 1978.
Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa, “Enciclopédia de Literatura Brasileira”, Rio de Janeiro, MEC, 1990, Vol. I, págs. 202/203.
Raimundo de Menezes, “Dicionário Literário Brasileiro”, Rio de Janeiro, Editora LTC, 1978, págs. 34/35. 

 

Escrito por Enéas Athanázio, 21/09/2020 às 10h35 | e.atha@terra.com.br

GILBERTO AMADO, ESSE DESCONHECIDO

“Quem não gosta do Brasil não me interessa!”, Gilberto Amado ao centro

Recebo mensagem de um amigo paulistano desolado com o que viu na última Bienal Internacional do Livro. Segundo ele, a feira perdeu o caráter cultural que fazia dela um evento da maior importância e se transformou em mero comércio livreiro, sem preocupação com a qualidade. Não revelou empenho no lançamento de novidades significativas para a cultura, preocupada apenas com o volume das vendas de obras de auto-ajuda, didáticas e paradidáticas, mais vendidos, dicionários e enciclopédias, quadrinhos e coisas do gênero. Foi, enfim, uma imensa livraria temporária que só se distinguiu das outras pelo tamanho, sem maior influência cultural. Para completar - continua ele - havia estandes com outras finalidades, como vendas de produtos alheios ao objetivo e até turísticos, desfigurando-a por completo.

Leitor de Gilberto Amado (1887/1969), relata o meu amigo que percorreu toda a feira, de ponta a ponta, e não encontrou um único livro sobre esse escritor ou de sua autoria, nem mesmo nos estandes que vendiam livros usados. Indagando daqui e dali, não ouviu uma palavra no sentido de que alguém pretenda reeditar as obras do admirável escritor. Pessoas que lidam com livros revelaram nunca ter sequer ouvido falar dele. (Os livreiros também estão desaparecendo, sobram apenas vendedores desinformados e desinteressados). “Gilberto Amado está irremediavelmente esquecido!” – conclui em sua melancólica mensagem.

E quem foi Gilberto Amado? Segundo a crítica mais exigente, foi uma das figuras mais importantes do mundo cultural brasileiro no século passado, autor de uma obra da maior qualidade e com impressionante folha de serviços ao país. Jurista especializado em Direito Internacional, foi membro e presidente por várias vezes da Comissão de Direito Internacional da ONU, em Genebra, além de ter ocupado cargos de relevo na área diplomática. Ensaísta, romancista, crítico, poeta, é considerado um dos maiores memorialistas brasileiros, ao lado e ao par de Pedro Nava. Professor universitário, suas aulas alcançavam o nível de conferências, atraindo alunos de outras turmas e até colegas de magistério. Mesmo tendo vivido por longos anos no Exterior, nunca perdeu o agudo sentimento de nacionalidade e se conservou até o fim um apaixonado pelo Brasil, estudando-o e procurando interpretá-lo. Reagia com indignação às críticas ao nosso país, celebrizando-se episódios em que isso aconteceu. Em importante reunião internacional, uma palestrante criticou o Brasil, revelando antipatia e desconhecimento. Foi então que ele se levantou acintosamente e exclamou: “Quem não gosta do Brasil não me interessa!”, retirando-se da sala. As respostas candentes de “monsieur Amadô” se tornaram temidas.

Cidadão mítico em sua época, suas vindas ao país assumiam o caráter de acontecimentos da cultura. Fazia palestras, lançava livros, falava à imprensa, viajava a convite de universidades. Cidadão do mundo, deixou em vários escritos a visão abrangente e perspicaz com que observava o panorama mundial e previa seus desdobramentos. No pequeno volume “Dias e horas de vibração” lança um olhar agudo sobre o mundo de então e aponta detalhes nem sempre percebidos pelos contemporâneos. E nunca errava o alvo.

Mas o Brasil de hoje o esqueceu. 

Escrito por Enéas Athanázio, 15/09/2020 às 10h08 | e.atha@terra.com.br

A SENHORA DE PARIS

Gertrude Stein (Foto Getty Images)

A escritora e poeta Gertrude Stein (1874/1946) nasceu nos Estados Unidos mas esteve sempre ligada à França e, mais particularmente, a Paris. Pertencente a uma família alemã de judeus bem sucedidos, sua primeira estada em Paris foi aos quatro anos de idade, fato de que ela se lembraria com saudade pelo resto da vida. Mais tarde, já adulta, ela se fixou em definitivo na capital francesa, em companhia do irmão, Léo Stein, com quem fundaria uma grande editora. Depois se desentenderam, ele se afastou e acabou emigrando para a Austrália. Ela e o irmão patrocinavam artistas e escritores que necessitavam de apoio, mas todas as atenções convergiam para ela, uma personalidade forte e dominante. Aos poucos ela se tornou uma espécie de madrinha da classe artística, estabelecendo relações de amizade com figuras de grande destaque, como Pablo Picasso, James Joyce e Ezra Pound. Tornou-se uma figura poderosa, com grande influência no meio social, e sua casa, à Rue des Fleurus, 27, se transformou num centro de reuniões de artistas, escritores, jornalistas e personalidades. Ao mesmo tempo temida e admirada, desde o início começou a colecionar obras de arte, em especial pinturas, e sua casa se converteu num imenso museu. Segundo Hemingway, ela recomendava às esposas dos escritores e artistas que não gastassem com roupas reservando o dinheiro para a aquisição de quadros. Cercada pelos artistas e escritores, dentre eles os americanos expatriados que viviam em Paris, tinha como companheiros Alice Toklas e um cachorro. Sem a menor cerimônia, emitia opiniões favoráveis ou contrárias sobre as obras alheias, mesmo que os autores fossem seus amigos, o que a tornava muito temida. Foi amiga de Hemingway mas a amizade se desgastou e acabou com o correr do tempo. Segundo se sabe, foi ela quem batizou os escritores americanos que se mudaram para Paris de “geração perdida”, frase que ela teria ouvido de um mecânico. Seu poema “uma rosa é uma rosa é uma rosa” se tornou célebre em todo o mundo porque ela desprezava as regras da língua na linha de Joyce. Sylvia Beach, proprietária da célebre livraria “Shakespeare and Company”, escreveu: “os pobrezinhos (artistas e escritores) recorriam a mim, como se eu fosse alguma espécie de guia de turismo, e imploravam para que os levasse para ver Gertrude Stein.” E assim ela reinou por longos anos como a Senhora de Paris.

Dentre as obras de Gertrude Stein, destacam-se os livros “Autobiografia de Alice Toklas”, “Autobiografia de Todo Mundo” e “Paris França”, todos de grande sucesso na época da publicação. Este último é um livro curioso e que contém muito do pensamento e das observações da autora. Segundo a crítica Inês Cardoso, trata-se de um livro circular, uma vez que aborda um assunto, depois o abandona e retorna a ele outras vezes. É uma obra de caráter memorialista porque relembra muito da vida da autora em Paris e nas vilas do interior da França que costumava visitar. No correr do texto ela faz interessantes comparações entre os séculos XIX e XX e as mudanças acontecidas no mundo em cada um deles. O livro foi escrito durante a II Guerra Mundial, portanto em tempo de guerra, e publicado em 1940, no primeiro dia do cerco alemão à capital francesa. Segundo a crítica o livro é uma escrita cubista, transpondo para as letras o que Picasso fazia nas telas.

Gertrude Stein afirmava que o escritor necessita de dois países, aquele onde nasceu e um segundo, ideal e romântico, em que de fato vive. Parece que tinha razão, pois a “geração perdida” se impôs ao mundo em Paris. É no segundo país que ele encontra a total liberdade de criação. Paris, dizia ela, era o lugar certo para a pessoa (artistas e escritores) estar. Os estrangeiros estão em casa na França porque lá artistas e escritores são respeitados e merecem todas as deferências. Basta envelhecerem um pouco e já são tratados como “mestres.” Escritor e pintor têm privilégios, o que é muito agradável. Até numa oficina a mulher, o homem de letras e o pintor têm preferência. Por causa do elemento civilização, Paris sempre foi o lar dos artistas estrangeiros. Ela dizia não entender certos intelectuais que apoiavam regimes de força que fatalmente os perseguiriam e tornariam sua vida insuportável. Eu também não, mas eles existem.

Encerrando o livro, Gertrude Stein dizia que o Século XX acabaria sendo civilizado e transformado num tempo em que todos poderiam ser livres para serem também civilizados. Escrevendo em 1940 ela não poderia prever as barbaridades do Século XX que nada tiveram de civilizadas. Duas guerras mundiais com milhões de mortos, holocausto e bomba atômica, a Revolução Russa, a Guerra Civil Espanhola, a Revolução Cubana, as guerras de libertação de Angola, Moçambique, Argélia, outras e outras guerras locais e regionais. Ditaduras sanguinárias em várias partes do mundo, a exemplo das encabeçadas por Salazar, Franco, Stroessner, Pinochet, Perón, Somoza, Duvalier, Médici etc. Gripe espanhola e AIDS. Crises do tipo 1929, fome e miséria na África, imigração irregular e clandestina para os países europeus. E no Brasil? Canudos, Contestado, Revolução de 1930, Revolução Paulista, tentativas golpistas e golpe de 1964, as terríveis secas nordestinas e as enchentes do Sul. E tudo mais que o leitor possa lembrar.

E o Século XXI, além da pandemia, que mais nos reserva? 

Escrito por Enéas Athanázio, 08/09/2020 às 09h18 | e.atha@terra.com.br

REVELAR, NÃO ESCONDER

Na época em que residi em Curitiba, na velha Pensão de Dona Rosa, a quinhentos metros da Boca Maldita, meu colega de quarto possuía excelente biblioteca que, aliás, era do pai dele, porque ele mesmo não lia nada. Abusando dela, nos dias de chuva e frio, comuns na cidade, eu tomava verdadeiras bebedeiras de leituras. Foi nessas ocasiões que li toda a obra de Humberto de Campos, o notável Conselheiro XX, cujas Obras Completas, em 22 volumes, publicadas pela W. M. Jackson Inc, em 1941, integravam o acervo. Não recordo como e nem porque essa coleção veio às minhas mãos e comigo permanece até hoje, enfrentando muitas andanças e mudanças, de casas e de cidades. Em face disso, nunca estive afastado do notável escritor maranhense, a cujos livros tenho retornado com frequência, sempre com o mesmo prazer e admiração pela sua magnífica escrita. Agora mesmo, em leituras intensivas, percorri os dois volumes de suas extraordinárias “Memórias.” Terá esse tão longo contato me influenciado? Confesso que não sei. Lembro que o saudoso Prof. Nereu Corrêa, nosso maior crítico, foi leitor assíduo de Humberto de Campos e se aprestava para escrever um ensaio a respeito de sua obra. Mas, infelizmente, não teve tempo.

Impressionam nesse escritor a elegância do estilo e a vastíssima erudição numa pessoa que viveu tão pouco. Cada uma de suas páginas é uma exibição de cultura e sabedoria. É também admirável a franqueza com que recorda o passado, nada escondendo, nem mesmo os erros que, como todo mundo, um dia cometeu. Como Jean-Jacques Rousseau, de quem foi aplicado leitor, sustentava que as memórias são para revelar, nunca para esconder ou escamotear.

Muito pobre, órfão de pai em tenra infância, padeceu toda sorte de privações, inclusive a fome aguda. Entregue aos cuidados de uma mãe lutadora mas enérgica, que lhe aplicava violentas surras, viveu momentos angustiantes, sem teto e sem pão. Numa viagem de navio, alegrava-se por não enjoar e “almoçar e jantar três vezes ao dia.” Passou por diversas escolas, sem grande proveito, e permaneceu por longo tempo na mais completa vadiagem, tanto em Meritiba, a terra natal, como em Parnaíba, no Piauí, onde a família viveu por muitos anos. Desde cedo, porém, nele se manifestou o gosto pela literatura e o hábito de ler se consolidou para sempre. Lia e estudava tudo que lhe caía nas mãos e assim amealhou vasto e variado conhecimento. Formado em Direito, andou por São Luís e por Belém, até se fixar no Rio de Janeiro, então capital do país, onde se consagrou como escritor e o cronista mais lido e influente de seu tempo. Foi deputado federal pelo Maranhão e ingressou ainda moço na Academia Brasileira de Letras.

Homem sofrido, os padecimentos fizeram dele uma pessoa triste e pessimista. O sofrimento deixou marcas indeléveis e elas transparecem com clareza em sua obra. Além disso, era um menino feio, ou assim se considerava, como escreveu nesta passagem: “Porque, se eu não nasci doente nem débil, sempre fui proclamado, embora sem irritação, consciente da minha parte, o menino mais feio da família. Nasci feio, e tenho sido, na vida, nesse ponto, de uma coerência acima de todo elogio.” Percebe-se que aceitava a proclamada feiúra, sem protesto ou revolta. Fazendo um balanço da vida, concluía que também não fora bafejado pela sorte. Eis o que afirmou: “O pouco que me dão na vida, ou é dado de má vontade, ou é podre.” Recordando o passageiro momento de felicidade que lhe provocou um brinquedo, escreveu: “E que tem sido para mim, pelo resto da vida, a felicidade, senão um brinquedo roubado, que eu escondo, que dissimulo assustadamente no coração, e que, no entanto, descobrem, e me tomam, quando custaria tão pouco me deixarem com ele?” Numa das passagens mais melancólicas de seus escritos, recorda ele o meio miserável em que cresceu. “O que eu via em redor de mim, fora do quadro escuro da nossa casa em que se lutava heroicamente pelo pão, era o tumulto das misérias humanas, a glorificação dos atos criminosos, e uma pequena humanidade arrastada, pela pobreza ou pela mediocridade do ambiente, para a sarjeta da vida e do mundo.”

Em “Fim de Século”, uma das páginas mais sentidas que escreveu, recorda a passagem do Século XIX para o Século XX. Alertado pelas leituras, o garoto de treze anos, imaginava o que traria o novo século, as conquistas, os espantos, os prodígios, as surpresas e as esperanças que enchiam o coração da humanidade. Ele imaginava o que ia lá fora, ouvia o foguetório, os gritos alegres, a música que enchia as ruas com seus sons repletos de alegria, as fábricas e os navios apitando com estridência. Mas ele, no interior obscuro e lúgubre da mercearia onde era caixeiro, ajudava o chefe no balanço do estoque, contando garrafas de bebidas e cantando em voz alta:

- Trinta e seis de Macieira!

- Vinte e duas de Colares!

- Trinta e seis de conhaque!

“A Civilização vira uma página lida – depõe ele – sem saber que emoções lhe reserva a outra, que vai ler . . . De pé na escada, tudo isso me passa pelo pensamento.” Mas sem um protesto ou um movimento de má vontade, continua a trabalhar. A humanidade entra numa nova era; o garoto, porém, tem que garantir o pão de amanhã.

Na crônica “Os Vareiros”, talvez sua página mais célebre, descreve a lida dos homens que impelem rio-acima as chatas pelo rio Parnaíba. Fixam a longa vara no fundo do rio, ajeitam a outra ponta no peito calejado e caminham pela borda, empurrando a pesada embarcação contra a corrente. Os atos são repetidos e continuados, dezenas, centenas, milhares de vezes e, uma vez chegados ao destino, tudo recomeça, agora em sentido contrário. E ele, então, velho, doente e quase cego, se compara aos vareiros: agarrado à máquina de escrever, como eles ao varão, escreve e escreve porque na escrita está seu ganha-pão e sua razão de viver. Escrever, diz ele, é sua glória e seu infortúnio, como também afirmava Rousseau.

Não obstante, foi muito criticado por escritores impiedosos e talvez ressentidos. Diziam que sua literatura era nociva e conformista, o que prejudicaria a juventude. Num desabafo contra um desses ataques, desferido por um jovem jornalista, lembrou que João Diogo, chegando ao céu, passou a descrever catastrófica enchente do rio São Francisco, causadora de mortes e tragédias. Muitos se espantaram, exceto um velhinho de longas barbas brancas, que não revelou qualquer surpresa. Findo o relato, João Diogo indagou: quem é o cidadão indiferente? E o informante: ele é Noé!

Diante da crítica do jovem, concluiu o escritor, ele antepunha sua experiência de vida às restrições do jornalista:

- Nesse terreno, eu sou Noé! – proclamou.

Numa das passagens mais brilhantes, irônicas e divertidas de sua obra, lança um “Manifesto à Nação.” Segundo ele, estava imitando todos os políticos que afirmavam que o país afundava quando, na verdade, eles próprios é que submergiam. Nessa página saborosa ele como que traça um roteiro para o que lhe resta de vida:

- Não voltar mais à política militante;

- Não receber originais de livros para ler;

- Não escrever sobre livro cujo autor lhe peça;

- Votará na Academia contra todo candidato que peça manifestação anterior sobre seu voto;

- Não escrever mais prefácios;

- Não aceitar convite para banquetes;

- Não servirá de “pistolão” junto a autoridades;

- Nos contratos de edição exigirá a numeração dos exemplares, não porque duvide dos editores, mas porque eles estão ricos e os escritores continuam pobres;

- Não emprestar livros de sua biblioteca porque eles são como o corvo que Noé soltou da arca; voam e não voltam;

- “Sorrirás diante de todas as cousas graves da vida. O sorriso transforma a ignorância em sabedoria.”

Ignoro se ele cumpriu até o fim suas próprias regras.

Mas vale a pena ler e reler a obra desse escritor tão brilhante quanto esquecido, cujas palavras enternecem e ensinam.

Escrito por Enéas Athanázio, 31/08/2020 às 09h48 | e.atha@terra.com.br

MULHERES EM DESFILE

Clauder Arcanjo (Foto Cezar Alves)

A mulher sempre foi fonte de inspiração para poetas e escritores. Certos poetas românticos viam na lua uma mulher e ficavam a dedicar-lhe versos cheios de amor, como faziam também compositores de músicas populares. Ricardo Gonçalves, integrante do grupo de Monteiro Lobato, era um desses poetas apaixonados, o que levou o taubateano a defini-lo como um cão lírico que ladra à lua. Mas a mulher, desde que existe literatura, tem sido retratada nas letras de todas as formas imagináveis e numa variedade de enfoques que parece não ter fim.

Clauder Arcanjo, conhecido escritor cearense, inovou na maneira de ver a mulher e publicou um delicioso livro em que ela é vista nos mais variados papéis. Trata-se de “Mulheres Fantásticas”, publicado em belíssima edição pela Editora Sarau das Letras (Mossoró – 2019). Segundo o autor, o livro nasceu de um desafio que lhe foi formulado e desde então ele se entregou a pensar, observar e interpretar a mulher nas mais variadas posições numa coletânea de crônicas de leitura fascinante. Dentre as figuras focalizadas, exibem-se a mulher galinha, sapo, eterna, ventania, elétrica, abelha, consolação e assim por diante. Em todas as situações a mulher sai por cima, ou seja, a figura feminina é sempre exaltada. Merecem uma referência especial as ilustrações de Raísa Christina, apropriadas e sugestivas.

Dentre tantas que desfilam no livro, a mulher elétrica chamou minha atenção. Depois de longos anos à luz de velas e lamparinas, Licânia, cidade mítica em que se ambientam muitas histórias do autor, conheceu a luz elétrica. Com festa e foguetório foi inaugurado um gerador elétrico a diesel e a luz varreu a escuridão das ruas e das casas. Mas a alegria durou pouco e uma semana depois a máquina pifou. O técnico alemão foi chamado e, mesmo usando de todo seu conhecimento, estudando os manuais e verificando cada engrenagem, não conseguia colocar em ação o genioso aparelho. Até que alguém, em boa hora, se lembrou de Fabrícia de Luzia, uma das belas filhas do lugar e mulher de um tal Chico das Tripas. Linda como era, ela produzia luz onde passava. Foi levada à prefeitura e ao local onde estava o gerador. Foi entrando, linda e poderosa, saudada pelo técnico admirado: “Fraulein! Fraulein!” Sem querer, a moça tropeçou numa alavanca e a geringonça começou a funcionar com perfeição. Desde então, a presença de Fabrícia no local garantia o perfeito funcionamento do gerador e não faltou mais luz em Licânia. Na voz do povo ela passou a ser a mulher elétrica e todos temiam pela sorte do marido, o Chico das Tripas, “que andava com a bateria meio arriada.”

A crônica é desenvolvida com perfeição, a linguagem é adequada ao local e à situação. A vida da pequena cidade transparece em cada passo e o leitor sente o ambiente reinante. Tudo escrito com economia de palavras como requer a verdadeira crônica.

Todas as mulheres que desfilam no livro são surpreendentes e encantadoras, às vezes enigmáticas e complexas, mas atraem o leitor de forma irresistível. Vale a pena tentar decifrá-las uma a uma.

Como asseverou Dimas Macedo, “mesmo tratando-se de histórias ficcionais, “Mulheres Fantásticas” também pode ser lido como uma reunião de crônicas e memórias, quanto fragmentos daquilo que se pode fazer com a magia das mulheres e com aura de suas fantasias.”

Com este livro, Clauder Arcanjo crava mais um ponto significativo em sua exitosa carreira de escritor criativo e plural. 

Escrito por Enéas Athanázio, 25/08/2020 às 08h45 | e.atha@terra.com.br

CARLOS NEJAR, NOSSO POETA-MOR

“Subir é depurar-se”

Carlos Nejar é considerado o maior poeta da literatura brasileira contemporânea. Foi apontado como um dos 37 escritores referenciais do Século XX. Gaúcho de Porto Alegre, fez a carreira do Ministério Público, aposentando-se como Procurador de Justiça. Transferiu-se para o Espírito Santo, fixando-se em Guarapari e depois no Rio de Janeiro, onde reside na sua “Casa do Vento”. É membro da Academia Brasileira de Letras (Cadeira número 4), da Academia Brasileira de Filosofia e da Academia Espírito-Santense de Letras. É poeta, ficcionista e historiador da literatura brasileira. Tem numerosos livros publicados, inclusive em Portugal, e recebeu os mais importantes prêmios nacionais. Sua obra tem sido traduzida para vários idiomas. Estudou nas principais universidades do Brasil e do exterior. É considerado um inventor incansável e transita por todos os gêneros: dramaturgia, poesia, romance, conto, ensaio, infanto-juvenil e história da literatura.

Dentre suas obras, avulta “A Idade da Aurora: a Fundação do Brasil”, rapsódia épica do nosso país. Segundo Oscar Gama Filho, “Em “A Idade da Aurora”, Nejar sentou nos ombros de James Joyce e de Guimarães Rosa. Assim ombreado, equiparou-se a eles. Este é o seu melhor livro, uma obra-prima que lhe garante vaga na imortalidade ao lado de ambos, com quem passa a compor a santíssima trindade do romance.”

O crítico equipara Nejar a Joyce, um dos maiores escritores de todo o mundo, talvez ao lado de Proust, e a Guimarães Rosa, o ponto alto das letras nacionais. O poema mencionado é a história poética do Brasil, uma obra sofisticada e reveladora de ilimitada criatividade.

Outros críticos de renome se manifestaram de maneira positiva sobre o livro, entre eles Gilberto Mendonça Teles, Virgilio López Lemus, César Leal, Abgar Renault, José Saramago, José Jorge Letria, Fábio Lucas, Gustav Siebenmann, Fernando Py, Lênia Márcia Moncelli, Donaldo Schuler, Sérgio Ribeiro Rosa e Luciana Stegagno Picchio.

Colhendo ao acaso, anotei alguns versos que ficaram bailando na minha memória:

Na aleluia da luz mais exata
Ir vivendo é ir soprando as coisas
Até que um Brasil sobre o chão despertasse
Liberto é o que na alma varia
Deus era a sua maior intimidade
Mesmo sem a usança da língua, nesta estranheza de
onde manam os alfabetos
Inventar não; é o só vivendo
Ir além é o que importa
Amor é quando a graça sobe os píncaros
E nem percebe mais o que fazer com os vasos do
coração regados
Dos olhos ao coração é um til, um trim
O amor é o arco-íris, o arco-velo do vento
Amor se é verde, dói
Viver é ir caindo no vivido
Mais bela é a espada, quando guerreada
E a infância não sabe nada, nada de si mesma

* * *

Outro livro de grande destaque é “A Árvore de Deus”, publicado em Portugal. Aqui o poeta se revela o místico que é, sempre com os olhos e o coração voltados para Deus, presente em todo o longo poema.

“Ò Deus, há tanto amor,
a ponto de não carecer de nome
o amor. Já sai de mim
como a borboleta
do casulo saiu no voo.”

“Deixei de morrer
assim que vi Deus.”

“Eu me movo em Deus.”

Misticismo que se revelará em outros tantos poemas.

* * *

Ainda no campo da poesia, merece especial referência o volume “Os dias pelos dias”, reunindo três livros: “Canga”, “O poço do calabouço” e “Árvore do mundo”, compondo um conjunto impressionante de mais de trezentas páginas.

O primeiro deles contém a saga de Jesualdo Monte, trabalhador geral nas cangalhas do espanto porque é um burro (de carga?), carregando os ossos porque em volta dele o mundo apertou as suas cinchas. Porque Jesualdo Monte galopa, galopa, e não se esconde, está vivo e morto.

“Canga” enternece, revolta, choca. É um brado em defesa do social.

O segundo livro inicia criando um clima sufocante, depois infunde o medo e invoca a liberdade, porque “sem ti nada mais sei.” Ela traz o alívio. O poeta conduz o leitor para onde quer, manobrando seus sentimentos como um guia.

No terceiro livro, por fim, a variedade de temas que atraem e encantam.

Como escreveu o crítico Adriano Espínola, a trilogia “é um dos mais altos momentos da lírica participativa da língua portuguesa dos últimos tempos. Participativa não só do drama político, mas também da vida cotidiana, da “dor geral” e particular do ser humano na sua “ciência maior de estar vivo.”

“Os dias pelos dias” é um marco da poética brasileira.

Tristão de Athayde, Antônio Houaiss e Eduardo Portella, três pesos-pesados da crítica nacional aplaudiram Nejar.

* * *

Ingressando pelo campo da prosa-poética, Nejar publicou “Carta aos loucos” e “O evangelho segundo o vento.”

Creio que o primeiro é um de seus livros mais conhecidos. Nele, o autor “aponta o rio da memória em que o realismo mágico necessita desembocar. Não basta mais expor a realidade pelos seus excessos, mostrar o impossível, o fantástico. “ Como disse Paulo Coelho, é a sábia e inovadora loucura de Nejar.

O segundo começa com uma proposição e uma indagação: “Ninguém simula o mundo, se ele é sempre o mesmo. Ninguém simula nada; as coisas passam de uma aparência a outra. Tal um rio. E como conseguiremos segurar o que sempre nos foge?” Mergulhando nessas páginas o leitor encontrará a resposta ou, pelo menos, a sua resposta.

Esta é uma breve notícia sobre parte da obra de nosso poeta maior, sem pretensão analítica ou interpretativa. É um convite para a leitura da produção de um poeta personalíssimo e incansável criador de cosmogonias, como o definiu um crítico.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/08/2020 às 10h45 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.