Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

ROMANCES CONFESSIONAIS

Dois romances ocupam lugares de destaque na obra de Ernest Hemingway (1899/1961) e estão entre os mais lidos de todo o mundo. Refiro-me a “Adeus às armas” e “Por quem os sinos dobram”, o primeiro deles considerado por alguns críticos como o melhor romance americano do século passado. Ambos os romances têm fundo memorialístico e muitos episódios coincidem com fatos vividos pelo próprio escritor em sua movimentada e rica existência. Neles o autor intercala suas ideias, pensamentos e confissões, enriquecendo as narrativas e se revelando por inteiro através dos personagens. O primeiro romance é ambientado durante a I Guerra Mundial e o segundo no decorrer da Guerra Civil espanhola, ou seja, ambos são autênticos romances de guerra, neles se misturando o amor e a tragédia. Nesses livros Hemingway esbanja sua apurada técnica do diálogo em páginas que serviram de lições para incontáveis escritores.

Tal como Hemingway na vida real, o herói do primeiro romance, Frederic Henry, se alista no exército italiano como motorista de ambulâncias e segue para a Itália. Logo no início é ferido com gravidade e conduzido a um hospital militar em Milão. Durante o prolongado internamento inicia um tórrido romance com a belíssima enfermeira inglesa Catherine Barkley. Recuperado, é reenviado ao fronte e tem início uma sucessão de fatos impressionantes, dentre eles o relato da célebre retirada de Caporetto e uma fuga cinematográfica em que mergulha no rio com as balas zunindo à sua volta. Consegue encontrar a namorada, com quem se considerava casado, e ambos fogem para a Suíça em um pequeno bote, atravessando o lago durante uma noite pesada e interminável. Lá se instalam enquanto progride a gravidez de Catherine, já anunciada em Milão, até que ela e o bebê morrem no hospital em decorrência de problemas do parto. Os episódios finais, descritos com extrema habilidade, constituem páginas emocionantes da melhor literatura ocidental. Só e desesperado, Henry sente-se vazio e oco ao caminhar sob a chuva para o seu hotel.

“Por quem os sinos dobram” teve seu título inspirado em um verso do poeta inglês John Donne. Nele, Robert Jordan, dinamitador americano, está a serviço dos republicanos na Guerra Civil espanhoa. É encarregado de explodir uma ponte em momento certo e adequado para impedir o ataque franquista. Junta-se aos guerrilheiros que lutam nas montanhas e ali conhece figuras impressionantes como Pablo, sua mulher Pilar e El Sordo, além da jovem Maria, que fora vítima de terríveis torturas quando esteve na mão dos inimigos. Enquanto aguarda o momento crucial, Jordan vive com os demais numa imensa caverna encravada nas montanhas e inicia um romance com Maria. Cenas terríveis se sucedem, como o massacre do grupo de El Sordo pelos bombardeios aéreos dos frqnquistas e o horripilante relato da eliminação dos fascistas sob o comando de Pablo. É um dos momentos mais arrepiantes da moderna literatura e sobre o qual escreveu Ênio Silveira: “Quereis ver a crueldade humana em seu fastígio? Estudai as guerras entre irmãos.” Em clima tenso, entre marchas e contramarchas, o romance transcorre até o momento exato da explosão da fatídica ponte que é, afinal, dinamitada com sucesso. Mas a reação é imediata e surpreende o grupo de Jordan. Este é ferido gravemente, impedido de andar e fugir do local. Os demais são instados por ele a escapar, inclusive a relutante Maria, enquanto ele permanece no local disposto a se defender até o minuto final.

Os dois romances são trágicos e seus heróis destruídos, um de forma moral, outro de forma física, mas ambos perecem sem piedade, provocando a inevitável comiseração do leitor. Hemingway não os poupa porque a guerra não poupa a ninguém, como não poupou a ele próprio quando ferido na I Guerra Mundial.

Os heróis de Hemingway são homens durões, estóicos e corajosos. Refletindo seu criador, são também intelectualizados e competentes nas análises que fazem do momento e do meio em que agem. Passagens antológicas por eles expressas ganharam o mundo. “Aos (homens) que trazem coragem a este mundo, o mundo precisa quebrá-los, para conseguir eliminá-los, e é o que faz. O mundo os quebra, a todos; no entanto, muitos deles tornam-se mais fortes, justamente no ponto onde foram quebrados. Então, aos que não se deixam quebrar, o mundo os mata” – reflete um deles. “A escultura sempre me pareceu uma arte melancólica – somente o bronze me diz alguma coisa. Mas bustos de mármore me dão a ideia de cemitério.” Sem dúvida uma opinião do autor, grande apreciador da arte, em especial da pintura, colocada na boca de seu personagem. Refletindo a dura experiência de ferido de guerra, em que quase perdeu uma perna, escreve: “Aquele joelho era do dr.Valentini; só o outro era meu. Os cirurgiões fazem em nosso corpo coisas que são mais deles do que nossas. As tripas e todo o interior eram meus. A cabeça era minha também. Mas de que servia a cabeça naquele momento? Só para guardar recordações e nem eram tantas assim.” Solitário no silêncio de uma trincheira molhada, o personagem analisa: “Você toca a sua vida achando que ela tem um significado e sempre acaba não significando nada.” Mais adiante, repete uma lição que Hemingway não se cansava de ministrar aos outros escritores: “Ele escreveria um livro, após passar por tudo isso. Mas somente sobre coisas que realmente conhecera, verdadeiras, e sobre o que sabia.” Escrever sempre com a verdade e só a respeito daquilo que de fato conhece. Fecho estas notas registrando a surpreendente declaração do velho guerrilheiro Anselmo, curtido pela guerra, de que não gosta de matar pessoas.

O passeio pelos romances de Ernest Hemingway é um mergulho no mundo tenebroso da guerra, essa tragédia absurda e sem sentido na qual os homens vêm se afundando sem cessar ao longo da história. E os personagens revelam seus dramas pessoais e íntimos enquanto convivem com a violência e a brutalidade em que se viram envolvidos. Inspiram no leitor o sentimento pacifista que deveria nortear todo ser humano.

Para completar, é uma escrita límpida e precisa, simples e elegante, que fascina do início ao fim. Como diz Gilberto Amado, livro bom faz bem à alma e traz felicidade.

Escrito por Enéas Athanázio, 14/10/2019 às 09h46 | e.atha@terra.com.br

A AVASSALADORA PRESENÇA DO MAL

Escritor australiano, Morris West é dos maiores sucessos de crítica e público do século passado. Vários de seus livros alcançaram tiragens impressionantes e “As sandálias do pescador” vendeu mais de 60 milhões de exemplares, número impensável no Brasil. Suas memórias,- “Do Alto da Montanha” (Record – Rio – 6ª. ed. – 2003) - conquistaram posição destacada num gênero sem muitos leitores entre nós. Elas retratam um homem de fé católica, ex-seminarista, sempre ligado à Igreja e preocupado com os mistérios de Deus. E suas memórias, no correr de quase todo o livro, circulam em torno dessas questões transcendentais. Sendo assim, é um homem otimista, cheio de certezas e esperanças a respeito da vida futura.

Às vezes, porém, espraiando o olhar pelo mundo, ele vacila e questiona. “Quanto mais penso a respeito dessas coisas, mais assustado fico pela crua realidade, o mistério obscuro e repetitivo da maldade no mundo. Nada aprendemos com o holocausto, o genocídio em Kampuchea, com as longas e sangrentas agonias da guerra no Oriente Médio. Por que é assim? Por que nós, criaturas racionais, agimos tão perversamente, tão destrutivamente? O que produz essa monstruosidade? O que a mantém viva e se reproduzindo?” – indaga ele (pág. 124). Examina em seguida a questão da tortura que campeia por esse mundo e para a qual a imensa maioria das pessoas se limita a encolher os ombros. “Ela é planejada por seres inteligentes para chegar à total degradação de uma pessoa humana, o aniquilamento da vontade e da dignidade mediante o exercício da crueldade baseado na suprema indiferença e na ilusória onipotência” (pág. 125). Ficou deveras chocado quando um industrial brasileiro não apenas justificou os “esquadrões da morte” como informou que ele e seus colegas financiavam essas atividades (pág. 134). Claro que se tratava de um cidadão prestante, modelo de virtudes, assíduo frequentador de cultos e generoso colaborador de entidades sociais. Diante disso tudo, conclui o memorialista: “Fui forçado a concluir – embora com relutância – que o homem é um animal enlouquecido, dedicado, por um quase universal impulso para a morte, à sua própria destruição” (pág. 138).

Creio que Morris West não conhece a “teoria” de Monteiro Lobato. Segundo ela, o ser mais elevado criado por Deus foi o macaco. Ele vivia feliz e livre, despreocupado e alegre, pulando de galho em galho. Até que um deles, errando o cipó, caiu com a cabeça numa pedra e nela se desenvolveu um estranho tumor – o cérebro humano. Seus infelizes descendentes começaram a nascer com cérebros e deu no que deu. Enquanto isso Deus, com seu imenso “sense of humour” deixou as coisas correrem para ver o que aconteceria. Com certeza está estarrecido mas entende que ainda não chegou o momento das providências. 

Escrito por Enéas Athanázio, 07/10/2019 às 14h16 | e.atha@terra.com.br

A ARTE DE FAZER FRASES

O ser humano, ao longo da existência, vai fazendo frases e mais frases, a menos que seja mudo. Fazê-las é uma arte e muitas delas ficaram registradas na História, ao passo que outras tantas revelam pobreza de espírito ou falta de imaginação. Alguns frasistas se tornaram célebres graças ao talento para esculpir em poucas palavras uma situação ou traçar a caricatura de certos personagens. São os que o povo rotula de bocas malditas, bocas do inferno etc., temidos e evitados.

Desde priscas eras as frases ecoam pelos tempos, sempre lembradas e repetidas. Júlio César e sua “alea jacta est”, ao cruzar o Rubicon proibido, não apenas são lembrados como se tornaram justificativas para graves decisões. Outros, mais recentes, nunca são esquecidos. “Governar é abrir estradas”, proclamava Washington Luís, sem perceber que abria caminho para Vargas e seus seguidores. “O preço da liberdade é a eterna vigilância”, gritavam os udenistas, até que deixaram de ser vigiados e acabaram com a liberdade. “Um país se faz com homens e livros”, escreveu Monteiro Lobato, numa frase sempre repetida, muitas vezes de forma errada. Guimarães Rosa, frasista incomparável, fez inúmeras, duas delas merecendo lembrança: “Toda saudade é uma espécie de velhice” e “Viver é um descuido prosseguido.” Nelson Rodrigues indignou as mulheres ao afirmar que “só as normais gostam de apanhar.” O inesquecível Barão de Itararé, por sua vez, afirmava que “entre o céu e a terra existe muito mais que os aviões de carreira.” Stanislaw Ponte Preta batizou a televisão para sempre: máquina de fazer doidos. Jânio Quadros, justificando-se por ter desinfetado a poltrona onde o açodado FHC, candidato por ele derrotado, havia sentado: Fi-lo porque qui-lo! E o magistrado de dantes, refutando argumentos da parte: Tudo são logomaquias de uma inextrincável fraseologia metafísica.” Não se esqueça também do ex-senador Jaison Barreto ao definir a política atual como “uma suruba partidária.” A lista seria interminável.

Mas existem outras frases, dessas sem dono, que surgem não se sabe de onde e passam a circular com freqüência sem que as pessoas percebam o quanto são feias, desagradáveis e ocas de conteúdo. E o mais interessante é que quase sempre são repetidas como demonstração de modernidade ou elegância. Alguns exemplos que me ocorrem: fazemos oposição com a cabeça e não com o fígado (imaginem se fosse com o fígado!); estamos trabalhando em cima de (não seria melhor trabalhar em baixo, com proteção?); a nível de Brasil; nós, enquanto brasileiros; um beijo em seu coração (Argh!); bom dia, flor do dia!; manjar dos deuses; programa de índio; linda de morrer; o Brasil precisa de um choque disto ou daquilo; com certeza etc. etc.

São frases que nada dizem mas que se tornaram comuns pela força da repetição. Empobrecem e enfeiam a linguagem. Mas lutar contra elas - para repetir outra frase - é dar murro em ponta de faca.

Escrito por Enéas Athanázio, 30/09/2019 às 11h24 | e.atha@terra.com.br

Variadas

Existem certos programas televisivos dedicados a entrevistar grandes empresários, aqueles a que chamam de bem-sucedidos. Invariavelmente, o que se ouve dos entrevistados é uma torrente de críticas ao Brasil, quase sempre as mesmas. O país não cresce, não tem estrutura viária, o custo Brasil atrapalha, a carga tributária é muito elevada, a deusa Bolsa e o deus Mercado, os índices, as percentagens, as estatísticas e por aí vai. Diante do que afirmam, qualquer iniciativa estará inexoravelmente fadada ao fracasso. No entanto, chama a atenção o fato de que todos se apresentam gordos, bem nutridos, exibindo a barriga comercial e financeira de que falava Lima Barreto, exibindo o aspecto de pessoas bem tratadas e saudáveis, vestidos nos trinques, além de chegarem em carrões de elevado custo. Ora, ora, penso eu, humilde servidor público, se o país é assim tão ruim como conseguiram amealhar semelhantes fortunas de milhões que ninguém sabe para que servem e onde estão? E por que não vão embora? Por que não vão entoar loas aos países que amam, uma vez que do Brasil parece que só querem mesmo o dinheiro? Ficaríamos livres de sua hipocrisia e de seu falso pessimismo.

 


Desde que ingressei no Ministério Público (por concurso) – e lá se foi meio século – sempre surgiram iniciativas visando cercear as atividades da Instituição. Tentaram retirar-lhe atribuições, sujeitar certos atos a prévia autorização superior, impedir a realização de investigações, invocaram a remoção ex-officio para afastar o Promotor do caso e outras tantas manobras de que nem me recordo. Por outro lado, aumentaram o tempo de serviço e a contribuição previdenciária. Agora, para variar, tudo recomeça. Tramita no Congresso projeto de lei sob o rótulo de abuso de autoridade que constitui verdadeira ameaça aos integrantes do Ministério Público. O objetivo, na verdade, me parece muito claro: amedrontar. Mas a Instituição não se renderá e haverá de obter mais uma vitória como em tantas outras ocasiões. O Ministério Público é o dominus littis, é ele quem toma as iniciativas, investiga, prova e busca a condenação dos criminosos que infestam este país. Com as mãos amarradas, quem defenderá a sociedade? O Promotor é a voz dos que não têm voz e não pode ser calado


José Alberto Barbosa tem o faro do pesquisador. Quando se lança a estudar um assunto vai a fundo, mói e remói, busca e rebusca, não se cansa de investigar detalhes mínimos. Em consequência, seus trabalhos são sempre amplos e completos.

Depois de muito estudo e dedicação, está publicando agora o ensaio “O Itapocu, Tomé e o Caminho de Peabirú”, lançado no me de julho em Jaraguá do Sul em edição do Autor e com o patrocínio da Secretaria Municipal de Cultura.

O ensaio é um mergulho nos temas abordados, focalizando os mais diversos aspectos do Vale do Itapocu, da misteriosa figura de Tomé e do encantado Caminho de Peabiru implantado pelos indígenas e ligando o Atlântico ao Pacífico. Como se vê, é um apelo poderoso ao leitor sequioso de informações sobre tais locais e personagens.

Ao longo de páginas densas e bem fundamentadas, o ensaísta aborda o Vale do Itapocu numa visão geral, deixando nítida impressão de que conhece tudo aquilo como a palma da mão, a geografia física, a flora, a fauna, a ocupação humena, a toponímia e a etimologia, o misterioso Caminho do Peabiru, a saga de Aleixo Garcia, a entrada de Cabeza de Vaca, o misterioso Tomé, Yvy Marã Eyn e a terra sem males, criadores, tropeiros e carroceiros e indicações turísticas da região.

Como se vê, é um levantamento do Vale, seu passado, seu presente e sua realidade. Tudo baseado em investigações bibliográficas, entrevistas e depoimentos, documentos e observações pessoais do próprio ensaísta. São impressionantes a bibliografia e outras referências de que se valeu.

O Caminho do Peabiru, a figura de Tomé e as entradas de Aleixo Garcia e Cabeza de Vaca são os grandes momentos da narrativa, com o sabor das novelas de aventuras, ainda que firmadas em sólida documentação.

Com mais esse trabalho, creio que posso afirmar sem medo de errar, que José Alberto Barbosa se consagra como o cronista do Vale do Itapocu. Meus parabéns ao colega e amigo.

Escrito por Enéas Athanázio, 23/09/2019 às 15h20 | e.atha@terra.com.br

A honra da família

Para Márcia, Eneida e Patrícia,
que não arredaram pé, e para
Jandira, sempre junto
(Escrito no hospital)
Enéas Athanázio

A Fazenda do Aranha ocupava um mundaréu de terras. Principiava no caminho geral do Portão do Alto e descambava em campos de coxilhas e canhadas no rumo do Taimbé. Dividia-se em grandes invernadas de cria e engorda de gado, cavalos e mulas, ovelhas e cabras em quantidade. Para as bandas da geral conservava-se um mato inceiro, onde farfalhavam numerosos pinheiros e madeiras de lei, mantidos como reserva. Ali uma porcada meio alçada pelichava de gorda na safra do pinhão. A Fazenda era uma propriedade de respeito, tinha aguadas suficientes e era bem administrada.

A sede se erguia no alto de um coxilhão verdejante de grama, sólido casarão construído de madeira de lei cerrada em lua própria. Pintada de um azul brilhante, os vidros de suas numerosas janelas e portas retiniam à luz do sol e lançavam chispas à distância. Diante dela corria uma área coberta, larga e espaçosa, onde se alinhavam cadeiras confortáveis, avistando-se dali o panorama que se estendia pela campanha até se juntar com o horizonte do céu azulado. Cercava a casa um jardim sempre florido e bem cuidado no qual estava presente a mão cuidadosa da própria fazendeira.

A Fazenda do Aranha pertencia à mesma família há três gerações, conduzida com mão firme pelo fazendeiro conhecido como Nenê Grande, assim chamado para distinguir de um parente apelidado Nenê Pequeno. Nenê Grande vivia em paz, cuidando dos seus negócios, em companhia da esposa, mulher caprichosa e dedicada, de um filho solteiro de seus vinte anos e a filha caçula de nome Doralinda, tratada pelos íntimos como Linda. Tinha como capataz de fiança um lageano por nome Dorvalino, sojeito de pouca prosa e sorrisos raros, que comandava um ror de peões bem treinados que cuidavam da propriedade com muito zelo.

Nenhuma preocupação grave toldava os dias pacíficos do fazendeiro cujos negócios progrediam, permitindo novas compras de terras com os lucros obtidos. Apenas o comportamento da filha Linda, nos seus dezesseis anos, chamava sua atenção. A moça se interessava pelas festas, encontros com amigos e bailarecos na vila do Pito Aceso e nas fazendas em derredor e lá sempre comparecia, acompanhada pela mãe ou por uma cria de confiança da casa. Atento, o pai acompanhava esse movimento, recomendando sempre a maior atenção.

Nos últimos tempos notou admirado que o interesse da filha por essas festas e encontros havia desaparecido. Não revelava mais o desejo de frequentá-las, preferindo permanecer em casa. O pai aguçou as observações e surpreendeu certas conversas meio murmuradas entre a mãe e a filha sobre assuntos que não conseguiu distinguir. Preocupado, fechou-se com a mulher num quarto e a botou em confissão. Estarrecido, soube que a menina estava grávida de um bundinha da cidade com o qual vinha namorando. O fazendeiro ficou furioso, seus olhos pareciam lançar chispas e teve uma conversa muito séria com a filha que acabou confessando o seu descuido e confirmando que o namorado era mesmo o rapaz da cidade.

Nenê Grande, diante da confirmação do fato, esbravejava, andando pela casa e batendo com o rabo de tatu nos canos das botas. Como se atrevia aquele guri a manchar a honra da casa! Isso não poderia ficar assim! A mulher tudo fazia para acalmá-lo, mas ele afirmava que a atitude merecia uma resposta enérgica. Sem mais conversa intimou o capataz Dorvalino ao escritório e passou ordens diretas.

No dia seguinte, muito cedo, o capataz e mais quatro homens escolhidos entre os peões mais valentes, encilharam as montarias para uma jornada até a cidade. Vestidos nos trinques, montados em animais aperados no capricho e todos armados de revólveres, partiram no cumprimento da missão determinada pelo patrão. Foi bonito de ver a cavalhada levantando poeira na estrada de chão batido no rumo de São Simão. Postado na área, o fazendeiro observava a partida de seus homens, enquanto a mulher desesperada procurava demovê-lo daquela ideia.

A entrada do grupo nas ruas da pacata cidade logo chamou a atenção dos raros transeuntes. Firmes no trote dos animais, os homens do Aranha não tardaram a encontrar a casa onde o namorado da filha residia com os pais e logo se postaram diante dela, um ao lado do outro, na frente da cerca dianteira. Em voz firme o capataz Dorvalino interpelou os moradores:

- Ô de casa!

As pessoas se movimentaram e o dono da casa, com jeito assustado, apareceu na porta e deu com a tropa de cavaleiros enfileirados à sua frente.

- Chame o seu filho! – gritou o capataz Dorvalino com voz firme.

Atrapalhado, o dono da casa se voltou para dentro e chamou o filho aos berros para que aparecesse e ele surgiu ressabiado, ainda arrumando a cabeleira desgrenhada e com cara de muito sono, perguntando o que estava acontecendo.

Dorvalino em poucas palavras explicou que lá se encontrava com ordens expressas de marcar a data para o casamento e assim lavar a honra da casa de Nenê Grande. Pai e filho, temerosos das conseqüências, conversaram em voz baixa enquanto as demais pessoas da casa se juntavam a eles. Confabularam às pressas e discutiram o assunto até se fixarem numa data em que o casamento deveria ser realizado. Diante da palavra empenhada, Dorvalino e seus companheiros se retiraram, deixando para trás a família perplexa do rapaz.

Tempos depois o casamento foi realizado com toda pompa e circunstância. Nenê Grande comandava a sua gente, montado no burro preto da estima, tendo ao lado a mulher no seu cavalo tordilho e do outro a noiva na sua montaria preferida. Atrás, todos enfileirados, desfilavam os peões da fazenda seguidos de numerosos convidados.

E assim a honra da família de Nenê Grande foi lavada em público.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/09/2019 às 13h59 | e.atha@terra.com.br

EXISTE APENAS AQUI

Sempre que toco no assunto recebo mensagens de alguns leitores manifestando desagrado. Dizem que deve ser esquecido, assim como o foram tantas atrocidades cometidas ao longo da história humana. Penso, ao contrário, que deve ser lembrado sempre e sempre como um dos episódios mais brutais da história contemporânea. Deve e precisa ser lembrado para que não mais se repita e caia no esquecimento pelas novas gerações. Refiro-me ao Holocausto que colocou em execução a monstruosa Solução Final do Problema Judaico, durante a II Guerra Mundial, com seu horrendo propósito de exterminar os judeus da face da terra. Recordar os fatos é ainda mais necessário quando o neonazismo, por espantoso que seja, cresce em toda parte e uma direita agressiva ameaça o mundo.

A tenebrosa memória dos campos de extermínio instituídos como destino final de milhões de inocentes, velhos, doentes, inválidos, crianças, homens e mulheres de todas as idades fechando o círculo de uma operação em moldes industriais calou fundo na memória coletiva e não cessam de surgir novos documentos a respeito, constituindo uma imensa bibliografia. Entre os livros mais recentes, lançado no Brasil depois de imenso sucesso mundial, está “O Tatuador de Asuschwitz”, de autoria da jornalista australiana Heather Morris e publicada pela Editora Planeta (S. Paulo – 2018).

Nele se revela a pungente história de Lale Sokolov, rapaz que vivia em paz numa pequena cidade eslovaca quando o país foi invadido pela Alemanha nazista. Os invasores convocam os judeus para trabalharem no esforço de guerra e como o irmão de Lale era casado e tinha filhos a sustentar, ele se apresenta em Praga e lá é embarcado em trem destinado ao transporte de gado sem saber para onde se dirige. Está tão lotado que torna impossível sentar ou deitar e as pessoas, espremidas, respiram umas sobre as outras. Não há sanitários e são usados baldes cujo conteúdo não tarda a deixar o ar empestado e irrespirável. As portas se fecham e o comboio parte. Três dias e três noites viajando em pé com algumas paradas, sempre fora das cidades ou vilas para não despertar atenção. Há mortes, desmaios, brigas, agressões de guardas, insultos, até a chegada ao destino. Então os infelizes percebem que foram levados ao complexo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, na Polônica. Sobre o portão principal lia-se a frase “O trabalho liberta.”

Tangidos através de longa passarela, sob chuva e frio, são despojados de tudo. Perdem os parcos pertences, suas roupas são trocadas por sovados uniformes de soldados inimigos, as bocas são revistadas e os cabelos raspados. Sedentos e famintos, são amontoados em alojamentos superlotados de onde são retirados todos os dias para os trabalhos forçados enquanto resistem. Julgados incapazes, vão para as câmaras de gás e os crematórios cujas cinzas sobem pelas chaminés e cobrem tudo com uma fina camada. Seres esqueléticos, cambaleantes, amedrontados circulam aos milhares, trazidos de toda a Europa.

Nesse ambiente tenebroso onde tudo parece perdido, Lale tem uma oportunidade raríssima: é designado tatuador oficial do campo, cabendo-lhe enumerar os braços dos prisioneiros que chegam. Graças à sua habilidade, consegue uma posição um pouco melhor, ainda que patrulhado sem cansaço pelo guarda Baretski, indivíduo arrogante e boçal, sempre disposto a sacar da pistola e matar por qualquer motivo. Se por um lado consegue furtar pequenas quantidades de comida para os colegas de alojamento, Lale vive o permanente terror de ser considerado colaboracionista ou traidor. Mas a opção era nítida: obedecer ou morrer.Aos trancos a barrancos, padecendo de todos os horrores e contrariando as expectativas, Lale sobrevive por três duros e longos anos. Conhece Gita Fuhrmannova, por quem se apaixona, imaginando uma vida feliz em companhia dela após o pesadelo. A moça, no entanto, não enxerga qualquer perspectiva de futuro e se limita a repetir: existe apenas aqui!

Felizmente ela estava enganada. Os soviéticos se aproximam, invadem e desmantelam o campo, julgam e executam os carrascos. Baretski é condenado à prisão perpétua e se suicida na prisão. Gita e Lale se juntam e recomeçam a vida com bravura e vontade de viver. No momento da libertação do campo o comandante da tropa teria dito: Filmem, fotografem, colham o maior número possível de provas e documentos porque dentro de dez anos não faltará quem sustente que isto não aconteceu!

Escrito por Enéas Athanázio, 09/09/2019 às 08h45 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.














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ROMANCES CONFESSIONAIS

Dois romances ocupam lugares de destaque na obra de Ernest Hemingway (1899/1961) e estão entre os mais lidos de todo o mundo. Refiro-me a “Adeus às armas” e “Por quem os sinos dobram”, o primeiro deles considerado por alguns críticos como o melhor romance americano do século passado. Ambos os romances têm fundo memorialístico e muitos episódios coincidem com fatos vividos pelo próprio escritor em sua movimentada e rica existência. Neles o autor intercala suas ideias, pensamentos e confissões, enriquecendo as narrativas e se revelando por inteiro através dos personagens. O primeiro romance é ambientado durante a I Guerra Mundial e o segundo no decorrer da Guerra Civil espanhola, ou seja, ambos são autênticos romances de guerra, neles se misturando o amor e a tragédia. Nesses livros Hemingway esbanja sua apurada técnica do diálogo em páginas que serviram de lições para incontáveis escritores.

Tal como Hemingway na vida real, o herói do primeiro romance, Frederic Henry, se alista no exército italiano como motorista de ambulâncias e segue para a Itália. Logo no início é ferido com gravidade e conduzido a um hospital militar em Milão. Durante o prolongado internamento inicia um tórrido romance com a belíssima enfermeira inglesa Catherine Barkley. Recuperado, é reenviado ao fronte e tem início uma sucessão de fatos impressionantes, dentre eles o relato da célebre retirada de Caporetto e uma fuga cinematográfica em que mergulha no rio com as balas zunindo à sua volta. Consegue encontrar a namorada, com quem se considerava casado, e ambos fogem para a Suíça em um pequeno bote, atravessando o lago durante uma noite pesada e interminável. Lá se instalam enquanto progride a gravidez de Catherine, já anunciada em Milão, até que ela e o bebê morrem no hospital em decorrência de problemas do parto. Os episódios finais, descritos com extrema habilidade, constituem páginas emocionantes da melhor literatura ocidental. Só e desesperado, Henry sente-se vazio e oco ao caminhar sob a chuva para o seu hotel.

“Por quem os sinos dobram” teve seu título inspirado em um verso do poeta inglês John Donne. Nele, Robert Jordan, dinamitador americano, está a serviço dos republicanos na Guerra Civil espanhoa. É encarregado de explodir uma ponte em momento certo e adequado para impedir o ataque franquista. Junta-se aos guerrilheiros que lutam nas montanhas e ali conhece figuras impressionantes como Pablo, sua mulher Pilar e El Sordo, além da jovem Maria, que fora vítima de terríveis torturas quando esteve na mão dos inimigos. Enquanto aguarda o momento crucial, Jordan vive com os demais numa imensa caverna encravada nas montanhas e inicia um romance com Maria. Cenas terríveis se sucedem, como o massacre do grupo de El Sordo pelos bombardeios aéreos dos frqnquistas e o horripilante relato da eliminação dos fascistas sob o comando de Pablo. É um dos momentos mais arrepiantes da moderna literatura e sobre o qual escreveu Ênio Silveira: “Quereis ver a crueldade humana em seu fastígio? Estudai as guerras entre irmãos.” Em clima tenso, entre marchas e contramarchas, o romance transcorre até o momento exato da explosão da fatídica ponte que é, afinal, dinamitada com sucesso. Mas a reação é imediata e surpreende o grupo de Jordan. Este é ferido gravemente, impedido de andar e fugir do local. Os demais são instados por ele a escapar, inclusive a relutante Maria, enquanto ele permanece no local disposto a se defender até o minuto final.

Os dois romances são trágicos e seus heróis destruídos, um de forma moral, outro de forma física, mas ambos perecem sem piedade, provocando a inevitável comiseração do leitor. Hemingway não os poupa porque a guerra não poupa a ninguém, como não poupou a ele próprio quando ferido na I Guerra Mundial.

Os heróis de Hemingway são homens durões, estóicos e corajosos. Refletindo seu criador, são também intelectualizados e competentes nas análises que fazem do momento e do meio em que agem. Passagens antológicas por eles expressas ganharam o mundo. “Aos (homens) que trazem coragem a este mundo, o mundo precisa quebrá-los, para conseguir eliminá-los, e é o que faz. O mundo os quebra, a todos; no entanto, muitos deles tornam-se mais fortes, justamente no ponto onde foram quebrados. Então, aos que não se deixam quebrar, o mundo os mata” – reflete um deles. “A escultura sempre me pareceu uma arte melancólica – somente o bronze me diz alguma coisa. Mas bustos de mármore me dão a ideia de cemitério.” Sem dúvida uma opinião do autor, grande apreciador da arte, em especial da pintura, colocada na boca de seu personagem. Refletindo a dura experiência de ferido de guerra, em que quase perdeu uma perna, escreve: “Aquele joelho era do dr.Valentini; só o outro era meu. Os cirurgiões fazem em nosso corpo coisas que são mais deles do que nossas. As tripas e todo o interior eram meus. A cabeça era minha também. Mas de que servia a cabeça naquele momento? Só para guardar recordações e nem eram tantas assim.” Solitário no silêncio de uma trincheira molhada, o personagem analisa: “Você toca a sua vida achando que ela tem um significado e sempre acaba não significando nada.” Mais adiante, repete uma lição que Hemingway não se cansava de ministrar aos outros escritores: “Ele escreveria um livro, após passar por tudo isso. Mas somente sobre coisas que realmente conhecera, verdadeiras, e sobre o que sabia.” Escrever sempre com a verdade e só a respeito daquilo que de fato conhece. Fecho estas notas registrando a surpreendente declaração do velho guerrilheiro Anselmo, curtido pela guerra, de que não gosta de matar pessoas.

O passeio pelos romances de Ernest Hemingway é um mergulho no mundo tenebroso da guerra, essa tragédia absurda e sem sentido na qual os homens vêm se afundando sem cessar ao longo da história. E os personagens revelam seus dramas pessoais e íntimos enquanto convivem com a violência e a brutalidade em que se viram envolvidos. Inspiram no leitor o sentimento pacifista que deveria nortear todo ser humano.

Para completar, é uma escrita límpida e precisa, simples e elegante, que fascina do início ao fim. Como diz Gilberto Amado, livro bom faz bem à alma e traz felicidade.

Escrito por Enéas Athanázio, 14/10/2019 às 09h46 | e.atha@terra.com.br

A AVASSALADORA PRESENÇA DO MAL

Escritor australiano, Morris West é dos maiores sucessos de crítica e público do século passado. Vários de seus livros alcançaram tiragens impressionantes e “As sandálias do pescador” vendeu mais de 60 milhões de exemplares, número impensável no Brasil. Suas memórias,- “Do Alto da Montanha” (Record – Rio – 6ª. ed. – 2003) - conquistaram posição destacada num gênero sem muitos leitores entre nós. Elas retratam um homem de fé católica, ex-seminarista, sempre ligado à Igreja e preocupado com os mistérios de Deus. E suas memórias, no correr de quase todo o livro, circulam em torno dessas questões transcendentais. Sendo assim, é um homem otimista, cheio de certezas e esperanças a respeito da vida futura.

Às vezes, porém, espraiando o olhar pelo mundo, ele vacila e questiona. “Quanto mais penso a respeito dessas coisas, mais assustado fico pela crua realidade, o mistério obscuro e repetitivo da maldade no mundo. Nada aprendemos com o holocausto, o genocídio em Kampuchea, com as longas e sangrentas agonias da guerra no Oriente Médio. Por que é assim? Por que nós, criaturas racionais, agimos tão perversamente, tão destrutivamente? O que produz essa monstruosidade? O que a mantém viva e se reproduzindo?” – indaga ele (pág. 124). Examina em seguida a questão da tortura que campeia por esse mundo e para a qual a imensa maioria das pessoas se limita a encolher os ombros. “Ela é planejada por seres inteligentes para chegar à total degradação de uma pessoa humana, o aniquilamento da vontade e da dignidade mediante o exercício da crueldade baseado na suprema indiferença e na ilusória onipotência” (pág. 125). Ficou deveras chocado quando um industrial brasileiro não apenas justificou os “esquadrões da morte” como informou que ele e seus colegas financiavam essas atividades (pág. 134). Claro que se tratava de um cidadão prestante, modelo de virtudes, assíduo frequentador de cultos e generoso colaborador de entidades sociais. Diante disso tudo, conclui o memorialista: “Fui forçado a concluir – embora com relutância – que o homem é um animal enlouquecido, dedicado, por um quase universal impulso para a morte, à sua própria destruição” (pág. 138).

Creio que Morris West não conhece a “teoria” de Monteiro Lobato. Segundo ela, o ser mais elevado criado por Deus foi o macaco. Ele vivia feliz e livre, despreocupado e alegre, pulando de galho em galho. Até que um deles, errando o cipó, caiu com a cabeça numa pedra e nela se desenvolveu um estranho tumor – o cérebro humano. Seus infelizes descendentes começaram a nascer com cérebros e deu no que deu. Enquanto isso Deus, com seu imenso “sense of humour” deixou as coisas correrem para ver o que aconteceria. Com certeza está estarrecido mas entende que ainda não chegou o momento das providências. 

Escrito por Enéas Athanázio, 07/10/2019 às 14h16 | e.atha@terra.com.br

A ARTE DE FAZER FRASES

O ser humano, ao longo da existência, vai fazendo frases e mais frases, a menos que seja mudo. Fazê-las é uma arte e muitas delas ficaram registradas na História, ao passo que outras tantas revelam pobreza de espírito ou falta de imaginação. Alguns frasistas se tornaram célebres graças ao talento para esculpir em poucas palavras uma situação ou traçar a caricatura de certos personagens. São os que o povo rotula de bocas malditas, bocas do inferno etc., temidos e evitados.

Desde priscas eras as frases ecoam pelos tempos, sempre lembradas e repetidas. Júlio César e sua “alea jacta est”, ao cruzar o Rubicon proibido, não apenas são lembrados como se tornaram justificativas para graves decisões. Outros, mais recentes, nunca são esquecidos. “Governar é abrir estradas”, proclamava Washington Luís, sem perceber que abria caminho para Vargas e seus seguidores. “O preço da liberdade é a eterna vigilância”, gritavam os udenistas, até que deixaram de ser vigiados e acabaram com a liberdade. “Um país se faz com homens e livros”, escreveu Monteiro Lobato, numa frase sempre repetida, muitas vezes de forma errada. Guimarães Rosa, frasista incomparável, fez inúmeras, duas delas merecendo lembrança: “Toda saudade é uma espécie de velhice” e “Viver é um descuido prosseguido.” Nelson Rodrigues indignou as mulheres ao afirmar que “só as normais gostam de apanhar.” O inesquecível Barão de Itararé, por sua vez, afirmava que “entre o céu e a terra existe muito mais que os aviões de carreira.” Stanislaw Ponte Preta batizou a televisão para sempre: máquina de fazer doidos. Jânio Quadros, justificando-se por ter desinfetado a poltrona onde o açodado FHC, candidato por ele derrotado, havia sentado: Fi-lo porque qui-lo! E o magistrado de dantes, refutando argumentos da parte: Tudo são logomaquias de uma inextrincável fraseologia metafísica.” Não se esqueça também do ex-senador Jaison Barreto ao definir a política atual como “uma suruba partidária.” A lista seria interminável.

Mas existem outras frases, dessas sem dono, que surgem não se sabe de onde e passam a circular com freqüência sem que as pessoas percebam o quanto são feias, desagradáveis e ocas de conteúdo. E o mais interessante é que quase sempre são repetidas como demonstração de modernidade ou elegância. Alguns exemplos que me ocorrem: fazemos oposição com a cabeça e não com o fígado (imaginem se fosse com o fígado!); estamos trabalhando em cima de (não seria melhor trabalhar em baixo, com proteção?); a nível de Brasil; nós, enquanto brasileiros; um beijo em seu coração (Argh!); bom dia, flor do dia!; manjar dos deuses; programa de índio; linda de morrer; o Brasil precisa de um choque disto ou daquilo; com certeza etc. etc.

São frases que nada dizem mas que se tornaram comuns pela força da repetição. Empobrecem e enfeiam a linguagem. Mas lutar contra elas - para repetir outra frase - é dar murro em ponta de faca.

Escrito por Enéas Athanázio, 30/09/2019 às 11h24 | e.atha@terra.com.br

Variadas

Existem certos programas televisivos dedicados a entrevistar grandes empresários, aqueles a que chamam de bem-sucedidos. Invariavelmente, o que se ouve dos entrevistados é uma torrente de críticas ao Brasil, quase sempre as mesmas. O país não cresce, não tem estrutura viária, o custo Brasil atrapalha, a carga tributária é muito elevada, a deusa Bolsa e o deus Mercado, os índices, as percentagens, as estatísticas e por aí vai. Diante do que afirmam, qualquer iniciativa estará inexoravelmente fadada ao fracasso. No entanto, chama a atenção o fato de que todos se apresentam gordos, bem nutridos, exibindo a barriga comercial e financeira de que falava Lima Barreto, exibindo o aspecto de pessoas bem tratadas e saudáveis, vestidos nos trinques, além de chegarem em carrões de elevado custo. Ora, ora, penso eu, humilde servidor público, se o país é assim tão ruim como conseguiram amealhar semelhantes fortunas de milhões que ninguém sabe para que servem e onde estão? E por que não vão embora? Por que não vão entoar loas aos países que amam, uma vez que do Brasil parece que só querem mesmo o dinheiro? Ficaríamos livres de sua hipocrisia e de seu falso pessimismo.

 


Desde que ingressei no Ministério Público (por concurso) – e lá se foi meio século – sempre surgiram iniciativas visando cercear as atividades da Instituição. Tentaram retirar-lhe atribuições, sujeitar certos atos a prévia autorização superior, impedir a realização de investigações, invocaram a remoção ex-officio para afastar o Promotor do caso e outras tantas manobras de que nem me recordo. Por outro lado, aumentaram o tempo de serviço e a contribuição previdenciária. Agora, para variar, tudo recomeça. Tramita no Congresso projeto de lei sob o rótulo de abuso de autoridade que constitui verdadeira ameaça aos integrantes do Ministério Público. O objetivo, na verdade, me parece muito claro: amedrontar. Mas a Instituição não se renderá e haverá de obter mais uma vitória como em tantas outras ocasiões. O Ministério Público é o dominus littis, é ele quem toma as iniciativas, investiga, prova e busca a condenação dos criminosos que infestam este país. Com as mãos amarradas, quem defenderá a sociedade? O Promotor é a voz dos que não têm voz e não pode ser calado


José Alberto Barbosa tem o faro do pesquisador. Quando se lança a estudar um assunto vai a fundo, mói e remói, busca e rebusca, não se cansa de investigar detalhes mínimos. Em consequência, seus trabalhos são sempre amplos e completos.

Depois de muito estudo e dedicação, está publicando agora o ensaio “O Itapocu, Tomé e o Caminho de Peabirú”, lançado no me de julho em Jaraguá do Sul em edição do Autor e com o patrocínio da Secretaria Municipal de Cultura.

O ensaio é um mergulho nos temas abordados, focalizando os mais diversos aspectos do Vale do Itapocu, da misteriosa figura de Tomé e do encantado Caminho de Peabiru implantado pelos indígenas e ligando o Atlântico ao Pacífico. Como se vê, é um apelo poderoso ao leitor sequioso de informações sobre tais locais e personagens.

Ao longo de páginas densas e bem fundamentadas, o ensaísta aborda o Vale do Itapocu numa visão geral, deixando nítida impressão de que conhece tudo aquilo como a palma da mão, a geografia física, a flora, a fauna, a ocupação humena, a toponímia e a etimologia, o misterioso Caminho do Peabiru, a saga de Aleixo Garcia, a entrada de Cabeza de Vaca, o misterioso Tomé, Yvy Marã Eyn e a terra sem males, criadores, tropeiros e carroceiros e indicações turísticas da região.

Como se vê, é um levantamento do Vale, seu passado, seu presente e sua realidade. Tudo baseado em investigações bibliográficas, entrevistas e depoimentos, documentos e observações pessoais do próprio ensaísta. São impressionantes a bibliografia e outras referências de que se valeu.

O Caminho do Peabiru, a figura de Tomé e as entradas de Aleixo Garcia e Cabeza de Vaca são os grandes momentos da narrativa, com o sabor das novelas de aventuras, ainda que firmadas em sólida documentação.

Com mais esse trabalho, creio que posso afirmar sem medo de errar, que José Alberto Barbosa se consagra como o cronista do Vale do Itapocu. Meus parabéns ao colega e amigo.

Escrito por Enéas Athanázio, 23/09/2019 às 15h20 | e.atha@terra.com.br

A honra da família

Para Márcia, Eneida e Patrícia,
que não arredaram pé, e para
Jandira, sempre junto
(Escrito no hospital)
Enéas Athanázio

A Fazenda do Aranha ocupava um mundaréu de terras. Principiava no caminho geral do Portão do Alto e descambava em campos de coxilhas e canhadas no rumo do Taimbé. Dividia-se em grandes invernadas de cria e engorda de gado, cavalos e mulas, ovelhas e cabras em quantidade. Para as bandas da geral conservava-se um mato inceiro, onde farfalhavam numerosos pinheiros e madeiras de lei, mantidos como reserva. Ali uma porcada meio alçada pelichava de gorda na safra do pinhão. A Fazenda era uma propriedade de respeito, tinha aguadas suficientes e era bem administrada.

A sede se erguia no alto de um coxilhão verdejante de grama, sólido casarão construído de madeira de lei cerrada em lua própria. Pintada de um azul brilhante, os vidros de suas numerosas janelas e portas retiniam à luz do sol e lançavam chispas à distância. Diante dela corria uma área coberta, larga e espaçosa, onde se alinhavam cadeiras confortáveis, avistando-se dali o panorama que se estendia pela campanha até se juntar com o horizonte do céu azulado. Cercava a casa um jardim sempre florido e bem cuidado no qual estava presente a mão cuidadosa da própria fazendeira.

A Fazenda do Aranha pertencia à mesma família há três gerações, conduzida com mão firme pelo fazendeiro conhecido como Nenê Grande, assim chamado para distinguir de um parente apelidado Nenê Pequeno. Nenê Grande vivia em paz, cuidando dos seus negócios, em companhia da esposa, mulher caprichosa e dedicada, de um filho solteiro de seus vinte anos e a filha caçula de nome Doralinda, tratada pelos íntimos como Linda. Tinha como capataz de fiança um lageano por nome Dorvalino, sojeito de pouca prosa e sorrisos raros, que comandava um ror de peões bem treinados que cuidavam da propriedade com muito zelo.

Nenhuma preocupação grave toldava os dias pacíficos do fazendeiro cujos negócios progrediam, permitindo novas compras de terras com os lucros obtidos. Apenas o comportamento da filha Linda, nos seus dezesseis anos, chamava sua atenção. A moça se interessava pelas festas, encontros com amigos e bailarecos na vila do Pito Aceso e nas fazendas em derredor e lá sempre comparecia, acompanhada pela mãe ou por uma cria de confiança da casa. Atento, o pai acompanhava esse movimento, recomendando sempre a maior atenção.

Nos últimos tempos notou admirado que o interesse da filha por essas festas e encontros havia desaparecido. Não revelava mais o desejo de frequentá-las, preferindo permanecer em casa. O pai aguçou as observações e surpreendeu certas conversas meio murmuradas entre a mãe e a filha sobre assuntos que não conseguiu distinguir. Preocupado, fechou-se com a mulher num quarto e a botou em confissão. Estarrecido, soube que a menina estava grávida de um bundinha da cidade com o qual vinha namorando. O fazendeiro ficou furioso, seus olhos pareciam lançar chispas e teve uma conversa muito séria com a filha que acabou confessando o seu descuido e confirmando que o namorado era mesmo o rapaz da cidade.

Nenê Grande, diante da confirmação do fato, esbravejava, andando pela casa e batendo com o rabo de tatu nos canos das botas. Como se atrevia aquele guri a manchar a honra da casa! Isso não poderia ficar assim! A mulher tudo fazia para acalmá-lo, mas ele afirmava que a atitude merecia uma resposta enérgica. Sem mais conversa intimou o capataz Dorvalino ao escritório e passou ordens diretas.

No dia seguinte, muito cedo, o capataz e mais quatro homens escolhidos entre os peões mais valentes, encilharam as montarias para uma jornada até a cidade. Vestidos nos trinques, montados em animais aperados no capricho e todos armados de revólveres, partiram no cumprimento da missão determinada pelo patrão. Foi bonito de ver a cavalhada levantando poeira na estrada de chão batido no rumo de São Simão. Postado na área, o fazendeiro observava a partida de seus homens, enquanto a mulher desesperada procurava demovê-lo daquela ideia.

A entrada do grupo nas ruas da pacata cidade logo chamou a atenção dos raros transeuntes. Firmes no trote dos animais, os homens do Aranha não tardaram a encontrar a casa onde o namorado da filha residia com os pais e logo se postaram diante dela, um ao lado do outro, na frente da cerca dianteira. Em voz firme o capataz Dorvalino interpelou os moradores:

- Ô de casa!

As pessoas se movimentaram e o dono da casa, com jeito assustado, apareceu na porta e deu com a tropa de cavaleiros enfileirados à sua frente.

- Chame o seu filho! – gritou o capataz Dorvalino com voz firme.

Atrapalhado, o dono da casa se voltou para dentro e chamou o filho aos berros para que aparecesse e ele surgiu ressabiado, ainda arrumando a cabeleira desgrenhada e com cara de muito sono, perguntando o que estava acontecendo.

Dorvalino em poucas palavras explicou que lá se encontrava com ordens expressas de marcar a data para o casamento e assim lavar a honra da casa de Nenê Grande. Pai e filho, temerosos das conseqüências, conversaram em voz baixa enquanto as demais pessoas da casa se juntavam a eles. Confabularam às pressas e discutiram o assunto até se fixarem numa data em que o casamento deveria ser realizado. Diante da palavra empenhada, Dorvalino e seus companheiros se retiraram, deixando para trás a família perplexa do rapaz.

Tempos depois o casamento foi realizado com toda pompa e circunstância. Nenê Grande comandava a sua gente, montado no burro preto da estima, tendo ao lado a mulher no seu cavalo tordilho e do outro a noiva na sua montaria preferida. Atrás, todos enfileirados, desfilavam os peões da fazenda seguidos de numerosos convidados.

E assim a honra da família de Nenê Grande foi lavada em público.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/09/2019 às 13h59 | e.atha@terra.com.br

EXISTE APENAS AQUI

Sempre que toco no assunto recebo mensagens de alguns leitores manifestando desagrado. Dizem que deve ser esquecido, assim como o foram tantas atrocidades cometidas ao longo da história humana. Penso, ao contrário, que deve ser lembrado sempre e sempre como um dos episódios mais brutais da história contemporânea. Deve e precisa ser lembrado para que não mais se repita e caia no esquecimento pelas novas gerações. Refiro-me ao Holocausto que colocou em execução a monstruosa Solução Final do Problema Judaico, durante a II Guerra Mundial, com seu horrendo propósito de exterminar os judeus da face da terra. Recordar os fatos é ainda mais necessário quando o neonazismo, por espantoso que seja, cresce em toda parte e uma direita agressiva ameaça o mundo.

A tenebrosa memória dos campos de extermínio instituídos como destino final de milhões de inocentes, velhos, doentes, inválidos, crianças, homens e mulheres de todas as idades fechando o círculo de uma operação em moldes industriais calou fundo na memória coletiva e não cessam de surgir novos documentos a respeito, constituindo uma imensa bibliografia. Entre os livros mais recentes, lançado no Brasil depois de imenso sucesso mundial, está “O Tatuador de Asuschwitz”, de autoria da jornalista australiana Heather Morris e publicada pela Editora Planeta (S. Paulo – 2018).

Nele se revela a pungente história de Lale Sokolov, rapaz que vivia em paz numa pequena cidade eslovaca quando o país foi invadido pela Alemanha nazista. Os invasores convocam os judeus para trabalharem no esforço de guerra e como o irmão de Lale era casado e tinha filhos a sustentar, ele se apresenta em Praga e lá é embarcado em trem destinado ao transporte de gado sem saber para onde se dirige. Está tão lotado que torna impossível sentar ou deitar e as pessoas, espremidas, respiram umas sobre as outras. Não há sanitários e são usados baldes cujo conteúdo não tarda a deixar o ar empestado e irrespirável. As portas se fecham e o comboio parte. Três dias e três noites viajando em pé com algumas paradas, sempre fora das cidades ou vilas para não despertar atenção. Há mortes, desmaios, brigas, agressões de guardas, insultos, até a chegada ao destino. Então os infelizes percebem que foram levados ao complexo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, na Polônica. Sobre o portão principal lia-se a frase “O trabalho liberta.”

Tangidos através de longa passarela, sob chuva e frio, são despojados de tudo. Perdem os parcos pertences, suas roupas são trocadas por sovados uniformes de soldados inimigos, as bocas são revistadas e os cabelos raspados. Sedentos e famintos, são amontoados em alojamentos superlotados de onde são retirados todos os dias para os trabalhos forçados enquanto resistem. Julgados incapazes, vão para as câmaras de gás e os crematórios cujas cinzas sobem pelas chaminés e cobrem tudo com uma fina camada. Seres esqueléticos, cambaleantes, amedrontados circulam aos milhares, trazidos de toda a Europa.

Nesse ambiente tenebroso onde tudo parece perdido, Lale tem uma oportunidade raríssima: é designado tatuador oficial do campo, cabendo-lhe enumerar os braços dos prisioneiros que chegam. Graças à sua habilidade, consegue uma posição um pouco melhor, ainda que patrulhado sem cansaço pelo guarda Baretski, indivíduo arrogante e boçal, sempre disposto a sacar da pistola e matar por qualquer motivo. Se por um lado consegue furtar pequenas quantidades de comida para os colegas de alojamento, Lale vive o permanente terror de ser considerado colaboracionista ou traidor. Mas a opção era nítida: obedecer ou morrer.Aos trancos a barrancos, padecendo de todos os horrores e contrariando as expectativas, Lale sobrevive por três duros e longos anos. Conhece Gita Fuhrmannova, por quem se apaixona, imaginando uma vida feliz em companhia dela após o pesadelo. A moça, no entanto, não enxerga qualquer perspectiva de futuro e se limita a repetir: existe apenas aqui!

Felizmente ela estava enganada. Os soviéticos se aproximam, invadem e desmantelam o campo, julgam e executam os carrascos. Baretski é condenado à prisão perpétua e se suicida na prisão. Gita e Lale se juntam e recomeçam a vida com bravura e vontade de viver. No momento da libertação do campo o comandante da tropa teria dito: Filmem, fotografem, colham o maior número possível de provas e documentos porque dentro de dez anos não faltará quem sustente que isto não aconteceu!

Escrito por Enéas Athanázio, 09/09/2019 às 08h45 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.