Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Vaqueiro e poeta

“Crônica Memorista”, de autoria de José Peixoto Júnior (Editora Kelps – Goiânia – 2017) é um livro escrito com o coração. Ele contém as remembranças de um homem vivido, calejado e sofrido, mas nem por isso brigado com a vida. Revela-se uma pessoa sensível, observador arguto e dono de admirável memória. Como dizia Gilberto Amado, soube prestar atenção à vida e rechear o minuto, condições indispensáveis a um bom memorialista.

Nascido nos ínvios da Chapada do Araripe, de origem modesta, com esforço e tenacidade foi galgando os degraus do sucesso. Estudou sem cansaço, muito aprendeu, conquistou posições. Perambulou no exercício de suas atividades por diversas cidades, cada uma delas deixando marcas nas recordações e, ao mesmo tempo, nelas deixando um pouco de si mesmo, como acontece com aqueles que a carreira leva por diferentes lugares.

Para mim, porém, o período mais interessante foi aquele em que Peixoto Júnior foi vaqueiro. Vaqueiro encourado, com peitoral, gibão, perneiras e chapéu de couro, varando a caatinga áspera e espinhenta na busca do gado xucro criado à solta. Essa fase é relatada no delicioso capítulo “Vaqueiro do derradeiro gado solto campeado na Serra Araripe.” Em linguagem típica, por ele ainda retida na memória de maneira admirável, o autor recorda os tempos aventureiros e brabos num meio rude, em contato com a natureza bruta do sertão nordestino. Apesar de tudo, eleva-se do texto uma aura de nostalgia, tanto pela ação em si como pelo tempo vivido e que já vai longe. Tudo se desenha de forma nítida aos olhos do leitor.

Num desses momentos, noite alta e céu límpido, o vaqueiro jovem observa pela primeira vez um eclipse total da lua, fenômeno jamais esquecido. Espera as reses, campeia-as nos seus pastos, as conduz estrovadas, está presente nos coletivos das apartações dos currais, reúne o gado pasteiro. Participa do esporte da vaquejada urbana, ainda recente naqueles dias, impetuoso pela força da idade, não decepciona seus pares. Enverga com orgulho a vestimenta de couro do vaqueiro, “traje romântico, uma armadura de cavaleiro. Dos pés à cabeça protege quem a veste, desde as chinelas de rosto fechado e as perneiras muito justas ao relevo das pernas e das coxas, o guarda-peito colado ao torso, o gibão amplo que mais acentua a esbelteza do homem e por fim o chapéu que é quase a cópia exata do elmo de Mambrino.” E assim entrajado, ele inflete a galope pelo mato a dentro, levando no peito tudo que encontra pela frente, a galharia batendo no peito, nos braços, nas pernas e até no rosto. Defende-se com extrema agilidade e conduz o cavalo com mão firme e segura.

Não raro, os acidentes acontecem.

“Zé nos encontrou caídos – relata ele -, um morto, um arquejando e este seu criado a gemer. Vinte e nove dias de motoro, perna entre duas telhas de barro, amarradas, e muito sumo de mentruz e caldo de pinto pilado com pena e tudo para o osso soldar.”

Os Zés não eram poucos. “Zé-de-Zeca é como me chamam desde eu vaqueiro – explica o memorista. – Somos três primos José e vaqueiros, ao mais velho coube o nome familiar, eu e Zé-de-Luna tomamos o nome paterno para a identificação quando necessário saber quem é quem de nós três.”

Essa vivência de memória saudosa revoluteia na cabeça do antigo vaqueiro e começa a retornar em forma de poemas, contos, novelas. As imagens da Chapada do Araripe, da qual manam as incontáveis fontes que fazem do Cariri um oásis em meio ao deserto, se transmudam em versos, as pessoas se transfundem em personagens, os idos e acontecidos são vertidos em contos, crônicas, novelas. O vaqueiro despiu o gibão, empunhou a pena, deixou de lado a luta com as bestas e travou-a com as palavras. Destacou-se na capital federal, sua obra se impôs, acabou presidente da Associação Nacional de Escritores (ANE).

Agora, neste livro saboroso, conta aos amigos e leitores o que viveu, sentiu e aprendeu. Tudo num estilo viril e movimentado como as lidas do competente vaqueiro que foi.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/12/2017 às 10h59 | e.atha@terra.com.br

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Um mundaréu de histórias

 No correr das Oficinas Literárias promovidas pela Escola do Ministério Público observei que o colega participante Luiz Adalberto Villa Real é dotado de visível pendor literário. Além de escrever bem e com leveza, tem cultura e informação, revelando-se um observador atento dos fatos ao seu redor e das características peculiares das pessoas com as quais convive ou se depara nas atividades cotidianas. Esses são atributos indispensáveis ao escritor, pois, como dizia Gilberto Amado, o distraído, o avoado, o desligado poderá ser tudo, exceto ficcionista.

Agora, transcorrido algum tempo, Villa Real se encarrega de comprovar que minhas observações eram procedentes e apresenta um mundaréu de histórias compondo um volume com cerca de trezentas páginas. É um denso conjunto de contos, crônicas, quadros e aquilo que costumo chamar de fiapos de vida. São histórias captadas ao vivo, no dia-a-dia, nos mais diversos lugares e situações, entremeadas de elementos imaginários produzidos com criatividade e em geral permeados de humor. Ele consegue sempre fixar com precisão os aspectos pitorescos ou engraçados que envolvem os personagens e recriar de forma exata os locais em que estão ambientados.

A galeria de seus personagens é imensa, cada um deles retratado de maneira precisa, com seus hábitos, temperamentos e tendências. Batiza-os com nomes às vezes estranhos mas que se amoldam com justeza aos seus portadores. Também os lugares onde se desenrolam as histórias merecem denominações pouco comuns mas sempre criativas, em especial as pequenas localidades interioranas que servem de palco aos enredos. Em muitos casos o nome das figuras já anuncia por si só a personalidade do seu portador.

O mundo forense, no qual o autor tem vivido, como Promotor de Justiça e Advogado, fornece inspiração para muitas de suas histórias. As atitudes de certos juízes, as manhas de advogados afeitos às atividades do foro, as técnicas dos Promotores, tudo contribui para enriquecer e dar vida às histórias. O Tribunal do Júri, em especial, serve de motivo para  variados casos pelo que costuma fornecer de surpreendente e imprevisível. As questões com que se defronta o Promotor, no exercício de suas funções, também merecem referência. Situações em que ele se vê na contingência de agir como autoridade, mediador, conselheiro e até psicólogo para resolver os conflitos que são submetidos à sua apreciação. Nisso a experiência pessoal se revelou valiosa.

Villa Real escreve de maneira simples sem ser simplório. Utiliza uma linguagem clara e direta sem complicações desnecessárias. É uma linguagem que se casa muito bem com o conteúdo das histórias que abordam situações vividas, na grande maioria, por gente comum do povo. Forma e conteúdo se completam. E o conjunto acentua a inteligência, a esperteza e a inata sabedoria popular.

A leitura deste livro é um mergulho na alma do nosso povo e permite ao leitor agradáveis momentos de contato com textos esculpidos por um exímio contador de histórias. Embora estreante em livro, o autor é um escritor feito.

Rejubilo-me com o lançamento deste livro e estou certo de que alcançará grande sucesso entre os leitores e a crítica. E também pelo fato de que ele é mais um colega do Ministério Público que vem enriquecer a nossa grei de escritores.

O livro foi publicado pela Editora Insular e lançado no dia 9 de novembro na sede da Associação Catarinense do Ministério Público, em Florianópolis.

Escrito por Enéas Athanázio, 04/12/2017 às 10h27 | e.atha@terra.com.br

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Desprezo pela vida

A França vivia sob o tacão nazista, ocupada pelo exército alemão, durante a II Guerra Mundial. As prisões, torturas e fuzilamentos se tornaram tenebrosa rotina. A vida de um francês nada valia e todos os esforços se faziam necessários para sobreviver. Ocultar-se, omitir-se, evaporar-se eram as melhores fórmulas para continuar vivo. Ou, em contrapartida, aliar-se ao inimigo, ainda que correndo o risco de ser executado pela Resistência. Mesmo assim, essa foi a opção de Lotte, mantendo em sua própria casa um bordel para servir aos oficiais alemães.

Nesse ambiente deletério, misturado às profissionais do sexo – Blanche, Minna, Anny e outras – vivia Frank, filho da proprietária, mocetão bonito e dos seus 19 anos de idade. Alheio ao que se passava a seu redor, o rapaz parecia ausente de tudo aquilo. Bem vestido, envergando um legítimo “pelo de camelo”, trocava pernas pelas ruas recobertas de neve e frequentava os bares do bairro, juntando-se à pior ralé imaginável. Ali conheceu oficiais da ocupação, mulheres e muitos elementos de vida e ocupações duvidosas. Interessado em obter uma arma, tarefa difícil naqueles dias nebulosos, passou a desejar o revólver de um oficial gordo, beberrão e depravado que aparecia no Bar do Timo. Não havendo outro meio, não hesitou a matá-lo a facadas numa noite escura, nas proximidades do muro de um curtume abandonado. Apossou-se da arma ambicionada, mas teve a má sorte de ser visto por um vizinho do mesmo prédio, o motorneiro de bondes Holst, pai de Sissy, de cujo silêncio se tornou refém.

O tempo passa, o motorneiro não abre a boca, a filha dele se apaixona pelo rapaz que arma contra ela a mais indecente das ciladas. Nesse meio, é informado de que certo general, cujo nome nunca se pronunciava, colecionava relógios e pagava fortunas por raridades. Lembra-se, então, do relojoeiro de sua vila natal e resolve assaltá-lo. Reconhecido pela irmã dele, mata-a com o maior sangue-frio. Entregue a encomenda, recebe a metade do butim, importância muito alta, nada comum naqueles tempos de dinheiro curto. Passa a viver como um nababo, exibindo dinheiro e poder. Não contava ele, porém, com o imponderável: o dinheiro fora furtado pelo general e as notas estavam marcadas. Foi a sua perdição.

Quando menos espera, é preso e conduzido a uma escola improvisada em presídio. Não o torturam, preferem vencê-lo no cansaço, submetendo-o a seguidos interrogatórios. Ele resiste. Os dias se sucedem, os interrogatórios continuam e ele vai percebendo que eles tudo sabiam. Para seu espanto, descobre que Anny, uma das pensionistas, era agente da Resistência e emitia mensagens secretas. Como fazia isso constituía um mistério, pois passava os momentos livres lendo revistas. Recebe visitas da mãe e de Sissy. Aconselham-no a colaborar, mas ele resiste, nega e se recusa a responder. Mas o desgaste físico e psicológico é inevitável. Emagrece, vive sujo, barbudo, com os trajes amarrotados. Com dezenove dias de prisão não lembra nem de longe o moço bonito que foi e a vida lá fora parecia algo tão distante como uma miragem. Mas a técnica aplicada acaba mostrando seus resultados e ele se entrega. Confessa tudo, com datas, locais, horários. E depois se cala, sejam quais forem as consequências.  

Espancam-no, deixam-no nu no escritório, dão-lhe joelhadas nas partes genitais, só lhe dão sopa aguada para tomar. Mas ele nada diz, impenetrável no seu mutismo. Até que, numa madrugada fúnebre, o conduzem através do pátio, pisando na neve suja, ao ponto das execuções. Como vira tantos assim fazerem, levanta a gola do sobretudo e ruma cabisbaixo para o trágico desenlace. Entra em longa fila indiana à margem da galeria.

Esse, em breves pinceladas, o entrecho de “A Neve Estava Suja” (Cia. das Letras – S. Paulo – 2014), de Georges Simenon (1903/1989), com justa razão considerado um dos mais instigantes romances ambientados na França ocupada.

Escrito por Enéas Athanázio, 27/11/2017 às 08h56 | e.atha@terra.com.br

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O romance do sofrimento

Rena e Danka Kornreich, moças polonesas e irmãs, viviam numa vila chamada Tylicz, na Polônia. Vida simples, tranquila e honesta. de família judia da classe média. O pai, ortodoxo, usava trancinhas nos cabelos e orientava a família a observar os rituais religiosos. Mas eis que nuvens turvas surgem no horizonte, os nazistas invadem o país e tem início a implacável perseguição aos judeus. Por medida de segurança, as irmãs são enviadas à Eslováquia, cruzando a fronteira de maneira clandestina, na calada da noite, correndo risco de vida caso fossem apanhadas. No país vizinho não acreditavam no que acontecia na Polônia, até que os nazistas lá também chegaram. Como as pessoas que abrigavam judeus eram fuziladas de forma sumária, as duas irmãs decidiram se entregar para salvar os parentes em cuja casa viviam. Imaginavam, na santa ingenuidade, que iriam para um campo de trabalho forçado de onde seriam libertadas mais tarde. Ledo e trágico engano.

Rena tinha 22 anos, Danka um pouco menos.

Conduzidas em um trem destinado ao transporte de gado, foram levadas ao campo de extermínio de Auschwitz, onde funcionavam a pleno vapor as câmaras de gás e as chaminés exalavam dia e noite a fumaça negra e fétida dos crematórios. Faziam parte da primeira leva de moças e mulheres destinadas à execução dentro do plano de “solução final do problema judaico”, arquitetado com técnica e precisão matemáticas. Mas, apesar dos horrores, Rena estava tomada da decisão inabalável de sobreviver e salvar a irmã mais jovem, alimentando o sonho quase impossível de retornarem juntas para casa, um dia. Tem início, então, a luta da inteligência contra a brutalidade.

Observando detalhes, analisando as atitudes dos soldados da SS e das Kapos, obtendo pequenos favores, furtando ínfimas porções de alimentos, negociando a ração diária de pão, ela tentava por todos os meios driblar os perigos e sobreviver. Tiradas das tarimbas em que dormiam às quatro da madrugada, formavam imensas filas para a contagem e depois eram forçadas a trabalhar até o anoitecer nos serviços mais rudes, sem qualquer reclamo, sob pena de açoites, chutes e pancadas. Pisando na neve ou suportando o granizo que caía, penavam com o frio intenso e a fome aguda. Sujas pela falta de água, cheias de sarna, piolhos e percevejos, eram proibidas de usar roupas de baixo. Em conseqiência, o roçar das roupas grosseiras (peças de uniformes de soldados russos fuzilados) feriam os seios, os pescoços e as pernas, transformando-os em verdadeiras chagas. Mas Rena não se rendia e tudo suportava. Cada dia vivido constituía uma vitória. Em momentos de desespero, elevava as mãos aos céus e clamava: Ó Deus, como permitis que isto aconteça?

Sufocando os gritos, as lágrimas e a revolta, assistiram a incontáveis cenas de inaudita brutalidade. Viram moças e mulheres fuziladas ao tentarem se suicidar lançando-se contra as cercas eletrificadas; contemplaram vidas serem tiradas a socos, pontapés, chibatadas e pisoteios; acompanharam as “seleções” para as câmaras de gás e os “experimentos científicos” de Mengele; acompanharam enormes colunas de crianças pequenas conduzidas às câmaras de gás e a chegada de novas levas de mulheres e, mais tarde, de homens cujos destinos estavam traçados. Sob a mira dos fuzis, foram forçadas a enterrar os mortos cujos corpos se deterioravam em toda parte. Enquanto isso, na maior tranquilidade, Irma Geese, brutal soldado da SS, tomava banhos de sol e exigia que Rena esfregasse suas costas bronzeadas com protetor solar, afirmando enfática que os nazistas estavam vencendo a guerra, dominariam o mundo e os poloneses seriam enviados a Madagascar como escravos vitalícios. Ela não contava com a chegada dos soviéticos e a corda com a qual seria enforcada aos 22 anos de idade.

Rena e Danka são transferidas para Birkenau e Neustadt Glewe, esqueléticas, doentes, desdentadas, famintas, mas ainda vivas, como por milagre. Notam que o campo começa a silenciar; muitos soldados fogem. Segue-se a tentativa frenética de esconder os vestígios antes que os soviéticos cheguem. Aviões aliados bombardeiam o campo. O caos se instala e tem início a Marcha da Morte tentando levar os prisioneiros para a Alemanha. Mas é tarde, muito tarde. Entram no campo os soviéticos e depois os britânicos. Rena e Danka são libertadas e ambas iniciam a inacreditável luta para reiniciar a vida.

Muitos anos depois, em depoimento à jornalista americana Heather Dune Macadam, já residindo nos Estados Unidos, Rena relata sua terrível história. O resultado foi o livro “Irmãs em Auschwitz”, publicado no Brasil pela Editora Universo dos Livros (São Paulo – 2015), um verdadeiro romance do sofrimento.

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O celebrado crítico literário Antônio Torres propunha a criação de um Gabinete de Profilaxia e Extinção de Poetas, anexo à Chefia de Polícia e destinado a catrafilar todo indivíduo que, tendo mais de vinte e cinco anos de idade, tivesse o desaforo de fazer um soneto amoroso. Com agências em todos os Estados, a repartição teria tantos funcionários quantos fossem necessários para deitar a mão aos poetas. Como seria impossível prendê-los todos, uma vez que se reproduzem como coelhos, a eliminação de boa parte serviria de bom exemplo para demover os plumitivos a suspenderem a pena e arquivar o estro. A proposição provocou protestos, em prosa e verso, mas o crítico a sustentou por longos anos, como informou mestre Wilson Martins em sua monumental “História da Inteligência Brasileira.”

Nos dias atuais – penso eu – a competência do tal Gabinete deveria ser estendida aos organizadores e participantes das ditas “antologias” que pululam por aí. Juntam-se algumas pessoas, recolhem uns tantos textos mal acabados, muitas vezes sem pé nem cabeça, e lançam um livro que, de livro mesmo, só tem o formato. Depois, em bombásticos lançamentos, são distribuídos ao público incauto. É dose!

Escrito por Enéas Athanázio, 21/11/2017 às 10h48 | e.atha@terra.com.br

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Os bem casados

 O terceiro e último romance do escritor mineiro Godofredo Rangel (1884/1951) é uma crítica ao casamento levada às raias da caricatura. A esposa ambiciosa inicia pela dominação do marido, indivíduo fraco, destituído de personalidade, “anêmico de caráter”, acabando por se tornar uma déspota familiar que explora os pobres filhos, molambentos e tristes, e que reduz a autênticos servos-da-gleba. Esta, a gleba, é a fazenda de onde sobrevêm não apenas a subsistência, a riqueza material e o luxo, mas também a dignidade latifundiária.

“Os Bem Casados”, escrito com a mesma correção, limpeza e propriedade de expressão de “Vida Ociosa”, o romance de estreia, é triste, uma sátira terrível dos que  casam bem. Há momentos, porém, em que é impossível conter a gargalhada diante dos retratos de certas figuras ou do ridículo de algumas cenas.

Da mesma forma como ocorreu com “Falange Gloriosa”, o aparecimento do livro era temido pelo autor. Receava ele, sem dúvida, que alguém se identificasse nos seus personagens. Por essa razão, como na anterior, a obra só veio a público quatro anos após a morte do autor. A timidez rangelina manteve o “número três”, como ele dizia, por longos anos no fundo da gaveta.

Baldados foram os esforços de Monteiro Lobato para que o publicasse em vida. “Li o “Bem Casados” de uma assentada – o que quer você mais? Só as novelas muito empolgantes suportam essa prova. Todos os personagens fisgados na vida; e cada um, um tipo. Dona Alípia, ótima! O Coutinho, o Licínio, todos, até a Flausina, ótimos! Só Dona Ismênia me parece algo imaginado – poderá lá existir tamanha carneirice? Mas fica bem num livro de tanto realismo essa leve fuga à realidade. É sal na melancia. Está você, portanto, doutorado em romance” – escrevia-lhe o taubateano (“A Barca de Gleyre”, I/210).

Antonio Candido considera este o melhor livro do escritor mineiro, colocando-o mesmo acima de “Vida Ociosa.”

“Com efeito – escreve ele – para o leitor ainda lembrado das aquarelas pitorescas de “Vida Ociosa”, “Os Bem Casados” revelam um romancista novo e vigoroso, em que as qualidades ali manifestadas se encontram no plano mais alto duma visão novelesca surpreendente pela densidade humana, o equilíbrio da fatura e a nítida linha diretora da concepção. Na literatura brasileira Godofredo Rangel não será mais daqui por diante (penso eu) o autor plácido e humorístico de “Vida Ociosa”, mas sobretudo o autor amargo e destemido de “Os Bem Casados” (“Literatura Caligráfica”, p. 5).

Embora escrito antes dos demais (em fase anterior a 1910) é o romance mais perfeito da trilogia rangelina. Ao que tudo indica, foi totalmente reescrito, revisto e melhorado pelo autor, com paciência, antes do lançamento. Era o único livro de Rangel realmente inédito, jamais publicado, mesmo em jornais ou revistas. Nele, ao contrário do que ocorreu com outros escritos, Rangel abandona os personagens à própria sorte, sem enternecimento algum, aspecto também já anotado pelos seus analistas.

“Os Bem Casados” foi lançado em volume por Edições Melhoramentos, na série Ficção Nacional, e se encontra totalmente esgotado.

Desde 1977 – quarenta anos! – travo uma cruzada em favor de Godofredo Rangel. Perdi a conta dos locais e ocasiões em que falei e escrevi a respeito dele. Apesar de meu esforço, reconheço que o resultado tem sido pífio. Mas não perdi a esperança de que surja um editor corajoso que reedite suas Obras Completas, em volumes caprichados e com grande divulgação. Será prova de que a justiça, incluindo a literária, às vezes tarda mas não falha.

Escrito por Enéas Athanázio, 13/11/2017 às 18h35 | e.atha@terra.com.br

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Libelo contra Lampião

O cangaço existiu desde o final do século XVIII até meados do século XX e constituiu um dos fenômenos mais curiosos de doença social endêmica até hoje registrado pela História. Foi um banditismo típico de nosso país, sem similar em qualquer outro canto do mundo. Bandoleiros e assaltantes existiram em muitos países, mas nunca com a organização interna, a hierarquia, as técnicas e a longevidade do cangaço brasileiro. Por tudo isso, ele tem sido objeto de permanente estudo por parte de historiadores, sociólogos e cientistas sociais, brasileiros e estrangeiros, muitos dos quais se tornaram especialistas no tema. A bibliografia a respeito é imensa, espraiando-se pelo cinema, pela televisão e pelo jornalismo em todas suas modalidades.

Em ordem cronológica, os autores costumam situar os períodos do cangaço conforme a figura do cangaceiro dominante na época. Assim, o mais antigo deles teria sido o Cabeleira, descrito em romance célebre por Franklin Távora. Chamava-se José ou Joaquim Gomes. No mesmo período, ou logo a seguir, pontificava Lucas da Feira, estuprador e torturador que chegou a interessar ao Imperador. Em seguida apareceu Jesuíno Brilhante, chamado o cangaceiro romântico, espécie de justiceiro que tirava dos ricos para dar aos pobres e se recusava a ser considerado ladrão. Também apareceu Antônio Dó, homem revoltado e violento. Depois deles, destacou-se Antônio Silvino, considerado homem de coragem sobre-humana, mas que acabou ferido e preso, cumprindo longa pena na penitenciária de Recife, hoje transformada em centro de cultura popular. Entrou em cena, então, a figura estranha de Sinhô Pereira, cangaceiro de longa carreira que pressentiu o início do fim e se retirou para uma vida pacata, nos confins de Goiás, depois de designar como seu sucessor ninguém menos que Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião. Imperando por 22 anos, Lampião foi morto na Grota do Angico em 28 de julho de 1938, data considerada como o fecho do cangaço. É verdade que Cristino Gomes da Silva Cleto, o Corisco, tentou resistir como chefe de bando e praticou as maiores atrocidades como vingança, mas acabou morto em 25 de maio de 1940.

Com o ingresso de Lampião na vida cangaceira, segundo os autores, teve início a era do cangaço sem ética. Para ele e seu bando não existiam limites. Invadia vilas e cidades indefesas, assaltava propriedades, torturava pessoas, sequestrava, surrava, humilhava. Exigia vultosos pagamentos em dinheiro da população sob pena de depredar suas casas. Sua audácia chegou a tal ponto que enviou uma carta ao governador propondo a divisão do Estado em duas partes, ficando ele como governador do sertão. Zé Baiano, um de seus homens, ferrava as mulheres nas faces com um ferro incandescente com suas iniciais. Em suma, Lampião constituía um flagelo para os moradores, sempre temerosos de sua chegada. Qualquer boato nesse sentido levava a população em massa a se refugiar nas matas. Não obstante, Lampião sempre teve um séquito de admiradores que o consideravam o herói que enfrentava o poder público ausente e corrupto.

Foi então que Pedro de Morais, magistrado aposentado, publicou o livro “Lampião, o mata sete” (2011) no qual, além de realçar toda a maldade de Lampião, afirma que o mesmo era  gay, revelando essa tendência desde a infância. Segundo ele, o cangaceiro formava um trio amoroso com Luís Pedro, integrante do grupo e seu protegido, e a célebre Maria Bonita. Para tanto se baseou em vastíssima pesquisa, consultado os mais respeitados especialistas. Como é de imaginar, a obra caiu como autêntica bomba e provocou intensa polêmica. A filha e a neta de Lampião obtiveram uma liminar proibindo a circulação da obra, mas o Tribunal de Justiça a cassou e a venda foi permitida. Archimedes Marques, outro estudioso do assunto, publicou o livro “Lampião contra o mata sete” em que rebate as afirmações de Pedro de Morais e defende a masculinidade de Lampião. E assim a polêmica se instaurou, prosseguindo até hoje, com debates, entrevistas, cartas e o mais. Tudo indica que não terminará tão cedo.

Mesmo deixando de lado essa questão, o livro de Pedro de Morais é um tremendo libelo contra Lampião. Grande conhecedor da biografia do cangaceiro, o autor põe em dúvida sua proclamada valentia, duvida de sua estratégia, afirma que nada entendia de guerrilha e aponta sua extrema crueldade, incapaz de qualquer sentimento mais nobre. Embora invocasse justificativas sentimentais (escudo ético), na verdade teria abraçado o cangaço por pura ganância, como lucrativo meio de vida, tanto que, ao morrer, carregava vultosa quantidade de dinheiro e ouro. Segundo ele, Lampião não passou de um degenerado. É verdade que sua visão é conservadora, não levando em conta as circunstâncias mesológicas, como se o cangaceiro pura e simplesmente decidisse, de um momento para o outro, tornar-se um indivíduo maligno, capaz das maiores atrocidades. Também não explica como, com tantas falhas, Lampião tenha sobrevivido no cangaço por longos 22 anos e só foi morto graças a uma traição e com o sertão fervilhando de volantes à sua procura.

Seja como for, é uma contribuição importante e merece ser lido. Livro bem escrito e fundamentado.

Escrito por Enéas Athanázio, 06/11/2017 às 10h41 | e.atha@terra.com.br

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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 48 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
















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