Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O HAGIÓGRAFO SEM FÉ

Hagiografia, definem os dicionários, é a arte de escrever a vida dos santos. São em geral as pessoas religiosas e de profunda fé que se entregam à reconstituição das vidas daqueles que foram santificados e elevados aos altares. No caso do escritor franco-suiço Blaise Cendrars (1887/1961), no entanto, as coisas foram bem diferentes. Com um dos filhos engajado nos combates da I Guerra Mundial (1914/1918), como piloto de caça, Cendrars prometera a ele encontrar um santo que pudesse ser eleito o novo patrono da aviação e tratou de se entregar à pesquisa. O filho, vítima de um ataque aéreo, não chegou a tomar conhecimento da escolha do pai, mas Cendrars, em compensação, foi tomado de viva admiração por São José de Cupertino, cuja existência rebuscou em todas as fontes ao seu alcance. Giuseppe Desa, mais conhecido como São José de Cupertino (1603/1663), teve um lugar destacado na história da Igreja e, em especial, da levitação. Segundo as informações do escritor, ele não apenas levitava com grande facilidade como foi o único levita de que se tem notícia capaz de levitar em marcha a ré! Seus voos eram tão frequentes que chegavam a perturbar a paz do convento, razão pela qual os demais padres costumavam excluí-lo das atividades públicas. E o mais curioso é que foi considerado homem de inteligência limitada, ingênuo e um tanto simplório, concluindo-se que a santidade não depende de elevados dotes mentais. Segundo Cendrars, ninguém mais indicado que o levita para ser o novo patrono da aviação. Influenciado pela sua história, o escritor realizou um levantamento completo de todos os levitas reconhecidos, século a século, ocupando grande parte de seu livro “O Loteamento do Céu”, publicado entre nós pela Cia. das Letras (2009). Para concluir o rol de curiosidades, anote-se que Blaise Cendrars se declarava um homem sem fé, um ateu confesso, que se transformou no minucioso hagiógrafo de um santo humilde e pouco conhecido dos crentes em geral.

“O Loteamento do Céu” é um dos chamados “livros brasileiros” de Cendrars, uma vez que numerosas páginas são dedicadas ao nosso país, pelo qual o escritor tinha imensa admiração e onde esteve pelo menos três vezes. Tudo que diz respeito ao Brasil é registrado em termos superlativos e exagerados que o tradutor e o coordenador se apressam a corrigir em frequentes notas de rodapé. Embora considerado um volume de memórias, a realidade e a fantasia se misturam de tal forma que em muitas passagens é impossível separá-las.

Capítulo dos mais interessantes é “A torre Eiffel sideral”, onde ele relata sua permanência, em parte imaginária e sempre exagerada, na Fazenda Morro Azul, no interior paulista. Dirigindo um Alfa Romeo cor de vinho, que na verdade nunca esteve no Brasil, e tomando por uma estrada errada, saltando sobre pedras e buracos, vai ter, afinal, na monumental sede da fazenda cafeeira, esta sim autêntica. Lá é recebido pelo proprietário, homem estranho, solitário e gentil, apaixonado por Sarah Bernhardt, para quem escreve cartas e poemas que vai empilhando sem jamais chegarem ao conhecimento dela. Além disso, nas suas observações de astrônomo amador, perscrutando o céu límpido em noites salpicadas de estrelas, está convencido de que havia descoberto uma nova constelação, “roubando” astros de outras, com o perfeito formato da torre parisiense – a torre Eiffel sideral. Ainda que jamais reconhecida a admirável descoberta, pela qual Cendrars e ele próprio teriam movido fundos e mundos, o assunto ocupa as atenções do escritor ao longo de numerosas páginas. Nessas longas noites de silêncio e paz, as lembranças do anfitrião e do hóspede vagam pelos mais estranhos caminhos. Enquanto aquele recorda o beijo imaginário que teria recebido de Sarah Bernhardt, ocasião em que ela lhe dera um pedaço da renda de sua roupa (depois emoldurada no gabinete de trabalho), o hóspede relembra o que teria escrito em Kyoto, onde nunca estivera, confunde o número de degraus da entrada de seu aposento, mistura paulistas com gaúchos pilchados e se equivoca na biografia do próprio pai, além de divisar serpentes inexistentes e desvendar mistérios insondáveis. Como ele próprio dizia, “escrever é descer como um mineiro ao fundo da mina, com uma lâmpada de grade na testa, pavio de duvidosa luminosidade e que tudo deforma...” (pág. 325). Não foi por mero acaso que este livro deixou perplexa a crítica francesa! Mas é uma leitura inesquecível que nos conduz pelo mundo sem limites da imaginação criadora.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/12/2018 às 10h24 | e.atha@terra.com.br

A RESTINGA

A Restinga! Ali na canhada, entre dois coxilhões, ela se estendia por quilômetros, campo a fora. Bem na baixada, através de curvas caprichosas, o riacho escorria águas claras e geladas, alisando sem cansaço os seixos encontrados no caminho. Em ambas as margens o mato fechado crescia exuberante, formando uma muralha viva e esvoaçante de mil tons de verde. Parecia a linha divisória entre campos, como se a natureza desejasse demarcá-los por razões desconhecidas. Flores do mato, em cores vivas, vermelhas, brancas, amarelas, roxas, enfeitavam um dos panoramas mais lindos daqueles campos. A passarada, com seus cantos e gritos, não silenciava nunca, revezando dia e noite na inesgotável alegria de viver em liberdade.

Cortando-a em diagonal, uma estradinha coleante cruzava a Restinga. Seu leito de chão vermelho semelhava uma cicatriz gigantesca no verde campeiro. Por ela transitavam veículos e cavaleiros, levantando nuvens de poeira, e todos acelerando a marcha na passagem, como se temessem alguma coisa. É que a Restinga, apesar da beleza esfuziante, amargava a triste fama de mal-assombrada. Naquele trecho o viajante, mesmo o mais valente, não escapava do receio atávico que vem do sobrenatural. Persignando-se ou balbuciando alguma oração, tratava de se afastar o quanto antes. A pressa aumentava quando o acaso o levava à noite por tão temidas paragens.

Na Restinga, dizia a voz do povo, morava uma bola de fogo que perseguia os cavaleiros estrada a fora, assustando as montarias, e dispersando tropas. Nas noites escuras, um cavaleiro fantasma troteava em silêncio ao lado do viajante solitário, e isso por longo trecho, só desaparecendo com as luzes da cidade. Um negro velho, morto nos tempos de dantes, quando cavava por ali na busca de uma panela de ouro ao pé de um pinheirão, também costumava se mostrar. Molambento e desgrenhado, corria pela estrada, gritando palavrões e pragas. Pedrinhas e gravetos, jogados por mãos misteriosas de dentro do mato, atingiam os viajeiros com precisão. Gritos, gemidos dolorosos e risadas se ouviam com frequência, ecoando nas coxilhas silenciosas. E além disso, nas noites de sextas-feiras, um carro iluminado e barulhento, apitando e rangendo, percorria aquele mato, com as rodas martelando trilhos inexistentes... Um mistério insondável, a Restinga!

Com escritório na cidade próxima, onde atendia às terças-feiras, muitas vezes cruzei por ali, algumas delas à noite. Embora a experiência não fosse agradável, jamais presenciei tais fenômenos, limitando-me a narrar um pouco do muito que ouvi.

Com a construção da nova estrada, na mexida das pontes e aterros, a Restinga quase desapareceu com sua fama de mistério e assombro. O progresso parece ter desalojado os fantasmas que a habitavam.

Escrito por Enéas Athanázio, 26/11/2018 às 12h19 | e.atha@terra.com.br

A língua nossa de cada dia

A língua é o maior patrimônio cultural de um povo e por isso merecedora do maior respeito. É uma entidade viva e complexa, em constante mutação. Algumas florescem e se impõem ao uso de milhões de pessoas; outras, ao contrário, declinam, fenecem e até morrem. Exemplo marcante é o do Latim, idioma de imensa influência em tempos antigos e que caiu em desuso e desapareceu, ainda que deixando vários “filhotes.”

Toda língua tem suas normas e regras que precisam ser conhecidas para que possa ser manejada com segurança e correção. O estudo desses temas constitui objeto da ciência denominada Filologia e os estudiosos que a ela se entregam são os filólogos ou gramáticos. O Brasil sempre teve e ainda tem estudiosos da língua portuguesa de reconhecida competência científica. Dentre os atuais, em franca atividade, muitos estão integrados à Academia Brasileira de Filologia, com sede no Rio de Janeiro, dos quais destaco, sem demérito dos demais, os nomes de Deonísio da Silva, vice-presidente, Antônio Martins de Araújo, editor da revista, Cunha e Silva Filho, professor e escritor, e Manoel Pinto Ribeiro, redator-chefe, porque os conheço melhor.

Manoel Pinto Ribeiro é autor, entre outras obras, de uma “Gramática Aplicada da Língua Portuguesa”, que já se encontra na 23ª. edição, sempre atualizada, eis que foi lançada em 1976, (Metáfora Editora – Rio de Janeiro – 2017). Trata-se de uma obra monumental, daquelas que Monteiro Lobato chamava de livro para morar porque pode ser lido, relido, treslido e consultado infinitas vezes sem jamais se esgotar. Foi acrescida de um segundo volume designado Livro de Respostas. Nem é necessário dizer que é um livro completo, abordando todas as facetas da língua e dando ao leitor uma visão integral do Português e seus mistérios. Tudo exposto de maneira clara e objetiva, sempre calcado em sólidas fontes e com centenas de exemplos explicativos. Um manancial inesgotável de informações, além de abordar temas correlatos, tornando a leitura mais interessante e mais viva.

Segundo Hernani Donato, a palavra escrita foi uma das mais importantes conquistas do homem, só equiparada à do fogo. Sem elas, viveríamos hoje como nossos antepassados. Ela, a palavra, expressa nosso pensamento, nosso sentimento e nossas ideias, preservando-os no espaço e no tempo.

O autor prestigia os textos literários e até jornalísticos para ilustrar suas exposições, acentuando as características de cada um. Aborda de forma científica a distinção entre língua e linguagem, fonética e fonologia, a sociolingüística, ortografia, morfologia, sintaxe, pontuação, estilística, versificação, semântica e vários outros capítulos não menos importantes ao perfeito domínio da língua portuguesa. Dedica atenção aos vocábulos homônimos, ao apóstrofo, à crase (via crucis dos que escrevem), aos neologismos, prefixos gregos e latinos, numerais, pontuação etc. Aborda ainda, em capítulos especiais, a versificação, a estilística, a absorção de palavras estrangeiras, em especial do inglês, e fornece um grande elenco de expressões latinas de uso corrente, cuja leitura me trouxe à lembrança os estudos de Direito Romano. A técnica da redação oficial, incluindo abreviaturas, a linguística teatral e muitos outros aspectos são expostos para tornarem o livro um mestre inigualável na arte de bem falar e escrever o Português, Como aconselhou alguém, “Torne-se perito no falar porque por esse meio poderá elevar-se. A língua do homem é arma e a fala é mais poderosa que o combate.” (Frase encontrada no túmulo de um faraó, escrita há três mil anos – p. 467).

Em outro livro, indispensável para quem escreve, o Prof. Manoel P. Ribeiro analisa o Novo Acordo Ortográfico que entrou em vigor em 2013 visando unificar a língua portuguesa nos países lusófonos (Metáfora Editora – Rio de Janeiro – 2012 – 2ª. edição). Com idêntica clareza e segurança, o autor esmiúça as normas impostas pelo acordo, as alterações e novidades dele decorrentes, sempre exemplificando com exercícios que afastam as dúvidas do leitor estudioso. A ortografia é da maior importância em uma língua para expressar com perfeição o pensamento humano. “A luta contra o erro tipográfico – escreveu Lobato – tem algo de homérico. Durante a revisão os erros se escondem, fazem-se positivamente invisíveis. Mas, assim que o livro sai, tornam-se visibilíssimos, verdadeiros sacis a nos botar a língua em todas as páginas. Trata-se de um mistério que a ciência ainda não conseguiu decifrar” (p. 11).

As obras do Prof. Manoel P. Ribeiro foram consagradas pela mais categorizada crítica. Com elas, só fala e escreve errado quem quer.

Escrito por Enéas Athanázio, 21/11/2018 às 10h38 | e.atha@terra.com.br

A infância de Lobato

Para assinalar os setenta anos do falecimento de Monteiro Lobato (1882/1948), o Prof. Osni Lourenço Cruz publicou um livro que é um marco na bibliografia sobre o criador do Sítio do Picapau Amarelo. Em tamanho grande e com 360 páginas. “Na trilha de Lobato – A inquieta juventude” (Edição do Autor – Taubaté/SP) é um imenso repertório das primeiras fases da vida do escritor, iniciando-se no nascimento e acompanhando passo a passo até sua formatura pela Faculdade de Direito de São Paulo. Para mais enriquecer o trabalho, o pesquisador realiza o levantamento da árvore genealógica de Lobato, recorda alguns eventos envolvendo José Francisco Monteiro, o Visconde de Tremembé, avô materno do escritor, faz uma curiosa confrontação entre os fatos e as lendas que cercam Lobato e comenta incorreções da obra de Edgard Cavalheiro, o mais categorizado biógrafo lobatiano. O livro é de imensa riqueza iconográfica, estampando grande número de fotos, gravuras, caricaturas, cartas e documentos como jamais encontrei, mesmo sendo assíduo leitor de/e sobre Lobato. Muitas dessas ilustrações aparecem pela primeira vez em livro, o que me leva a imaginar a extensão da pesquisa feita pelo autor em publicações antigas, jornais velhos, arquivos públicos e particulares, diários e anotações pessoais, cartórios e repartições.

Em seguida o autor esmiúça a infância de Lobato, fase por fase, sempre com sólidas bases documentais. Esclarece que não nasceu na Chácara do Visconde, como tantas vezes tem sido afirmado, e que nunca se chamou Renato. Descreve as relações do menino com a mãe, afetivas e carinhosas, e com o pai, formais e um pouco distantes. São evocadas as aventuras, correndo livre pela fazenda e pela chácara, as caçadas na companhia paterna, as brincadeiras com as irmãs, a biblioteca do avô, onde se enfurnava por horas e horas, a vergonha ao aparecer em público com as primeiras calças compridas. A vida estudantil, nos vários colégios que frequentou, e momentos marcantes, como o primeiro livro que ganhou (“João Felpudo”), a visita do Imperador D. Pedro II, hospedando-se na casa do avô, e que provocou a curiosidade do menino porque um homem tão forte e barbado tinha uma voz tão fininha, fato de que jamais esqueceria. Momentos tristes, como a perda da mãe, ainda jovem, e do pai, deixando-o aos cuidados do avô. A iniciação nas letras e o florescer do gosto literário. Por fim, a mudança para São Paulo, onde permaneceria até a formatura em Direito.

Capítulo dos mais interessantes e que também nunca vira relatado em minúcias foi o envolvimento de José Francisco Monteiro, Visconde de Tremembé e avô de Lobato num episódio de inusitada violência, inexplicável numa figura de tal realce e importância na cidade e na região. A cabra e dois filhotes pertencentes a um mecânico alemão de nome Augusto Kreye escapam de seu gradil, penetram no jardim do Visconde e causam algum dano. Numa atitude inacreditável, ele mutila a cabra, corta-lhe as orelhas e a cauda e provoca outras lesões no animal. Indignado, e com razão, o mecânico vai falar com o Visconde, ocasião em que este saca de um revólver e desfere um tiro contra o reclamante. O projétil fura-lhe o chapéu e atinge de raspão a cabeça, causando um ferimento e copiosa hemorragia. Tudo indicava que a intenção do atirador era acertar a cabeça do mecânico. Segundo testemunhas, de revólver em punho, o Visconde indaga da vítima se ainda queria mais. Instaurado inquérito policial, o indiciado empenhou-se de todas as formas em procrastinar o seu trâmite, não atendendo às notificações e nunca comparecendo aos atos processuais. Para completar, foi denunciado por lesão corporal leve quando os fatos indicavam uma evidente tentativa de homicídio. No decorrer do processo, tal como antes, o Visconde usou de todas as chicanas imagináveis para tumultuar o andamento do feito. Durante o julgamento pelo Tribunal do Júri, conforme o sistema processual da época, recusou-se a sentar e permaneceu em pé até a decisão final. E se isso tudo não fosse suficiente, foi absolvido por unanimidade!

Mas a arrogância do poderoso membro da nobreza rural não ficou satisfeita e o Visconde não titubeou em usar de suas influências para infernizar a vida do mecânico. Relata o autor do livro, com base em suas pesquisas, que o Visconde usou de todos os estratagemas para prejudicar o infeliz proprietário da desastrada cabra, provocando até mesmo sua demissão do emprego de guarda noturno da estação da estrada de ferro. É um bom exemplo do comportamento dos “nobres” daquela época.

Recorda o autor o surgimento da literatura infantil de Lobato conforme a versão do próprio escritor. Segundo ele, quando se encontrava em seu escritório, à Rua Bela Vista, o romancista Toledo Malta relatou a história de um peixinho que ficou muito tempo fora d’água e quando retornou morreu afogado porque havia esquecido de nadar. A historinha ficou bailando na cabeça do escritor até que ele a escreveu. O sucesso foi enorme e despertou nele o desejo de escrever para crianças. E assim, “um grão de pólen me caiu um dia em algum óvulo cerebral e gerou o primeiro “A menina do narizinho arrebitado.” O começo foi esse...” Ali nascia o mundo encantado do Sítio do Picapau Amarelo e ao mesmo tempo a literatura infantil brasileira.

Está de parabéns o Prof. Osni Lourenço Cruz pela excelente contribuição para o conhecimento de Lobato e sua obra, fonte de consulta indispensável daqui em diante aos estudiosos de nossa literatura.

Escrito por Enéas Athanázio, 19/11/2018 às 11h58 | e.atha@terra.com.br

HEMINGWAY: OS ANOS DE PARIS

Poucos escritores da moderna literatura fascinam os estudiosos como o americano Ernest Hemingway (1899/1961). Mesmo tendo desaparecido há mais de meio século, são frequentes as obras a respeito dele e de sua obra. É um caso raro em que a vida pessoal do escritor foi uma permanente aventura, tão ou mais movimentada que sua própria produção literária. Exemplo bem ilustrativo é o romance “Casados com Paris”, de Paula McLain, publicado pela Editora Nova Fronteira (Rio – 2011).

Embora seja obra de ficção, o livro é fiel aos fatos conhecidos e documentados, abordando os começos da carreira literária do escritor na Paris dos chamados anos loucos de 1920, período em que integrou a célebre geração perdida, assim apelidada por Gertrude Stein. Nessa altura Hemingway já havia sido ferido na Itália, na I Guerra Mundial, e sagrado herói, condecorado por bravura, além de ser rejeitado pela enfermeira Agnes von Kurowski, por quem se apaixonara durante o tratamento no hospital. Voltando a Oak Park, perto de Chicago, e recebido como celebridade, acabou se casando com Hadley Richardson, uma solteirona bonita e oito anos mais velha que ele. Induzido pelo escritor Sherwood Anderson, vai com a esposa para Paris e ali tem início a árdua luta em busca de estilo próprio e da realização de uma obra. Foi um período duro, repleto de dificuldades e frustrações, trabalhando como um desesperado e, nas horas vagas, convivendo com figuras como Gertrude Stein, Ezra Pound, F. Scott Fitzgerald, James Joyce, John dos Passos, Ford Madox Ford, Sylvia Beach e tantos outros, numa fase em que a capital francesa regurgitava de americanos expatriados.

Durante a narrativa a autora se coloca na pele de Hadley, a esposa do escritor, e relata os acontecimentos pela visão dela, situação que me parece única até agora em obras sobre o tema. “Minha intenção foi mergulhar mais fundo na vida emocional dos personagens e lançar uma nova luz sobre os acontecimentos históricos” – escreveu a autora (p. 334). E ela teve êxito, reconstruindo com fidelidade o ambiente reinante com todos seus abusos e excessos, as bebedeiras, os ciúmes, os dramas e as comédias, as viagens constantes, a inquietação, a batalha pessoal de cada um para impor sua arte. Nesse meio conturbado, lutando para salvar o casamento, uma instituição que parecia tão desacreditada, Hadley se transforma na “esposa de Paris”, observando alarmada e impotente a infiltração de outra mulher entre ela e o marido, pela qual seria trocada. No correr dos anos, a outra também seria trocada por outra e esta ainda por outra, uma vez que Hemigway teve quatro esposas.

Esposa dedicada, mãe do primeiro filho do escritor, Hadley tudo suportou com enorme paciência, submetendo-se a uma vida de limitações e privações sem conta enquanto ele lutava com as letras. Mas acabou vencida na concorrência com Pauline Pfeiffer, morena elegante e sofisticada, consultora de modas da “Vogue.” A separação e o divórcio foram inevitáveis e ela retornou com o filho aos Estados Unidos. Tempos depois casou com um jornalista e com ele viveu bem até o final de uma longa vida. Acompanhou à distância o sucesso mundial do ex-marido, suas conquistas literárias, inclusive o Prêmio Nobel, as aventuras, viagens, caçadas, touradas e guerras que cobriu para a imprensa. Tudo iniciando com o romance “O sol também se levanta”, escrito nos tempos em que viveram juntos e que abriu a ele as portas do sucesso. Nesse livro ele criava um estilo pessoal e inimitável, enxuto, seco, quase telegráfico.

Mas ele – concluiu a ex-esposa – foi infeliz no amor. Em sucessivos casamentos, buscou sempre a mulher dos sonhos e que talvez não existisse. Até que, em julho de 1961, vem a ligação comunicando que ele se suicidara com um tiro de espingarda. Tantos foram os fantasmas que se acumularam em sua cabeça que não conseguiu suportar. E desde então passou a viver em outro território – o do mito.

Escrito por Enéas Athanázio, 12/11/2018 às 08h51 | e.atha@terra.com.br

FILETE QUE ASPIRA A SER RIO

O silêncio reinante a respeito de “Sonetos de Bolso – Antologia Poética”, organizada por Jarbas Júnior e João Carlos Taveira (Thesaurus Editora – Brasília ), me leva a redigir estas notas, ainda que sem a pretensão de julgar o mérito dos poemas nela reunidos.

Trata-se de um belo livro, executado com esmero, em formato pequeno, tipo “pocket-book”, conforme sugere o próprio título. Reúne trabalhos de quinze sonetistas, todos ligados à cidade de Brasília, onde residem ou residiram. São eles: Anderson Braga Horta, Anderson de Araújo Horta, Antonio Miranda, Antonio Temóteo dos Anjos Sobrinho, Fernando Mendes Viana, Henriques do Cerro Azul, José Geraldo Pires de Mello, José Jeronymo Rivera, José Peixoto Júnior, Luiz Carlos de Oliveira Cerqueira, Márcio Catunda, Maria Braga Horta, Nilto Maciel, Romeu Jobim e Viriato Gaspar. Contém ainda excelentes notas explicativas introdutórias e abas de autoria dos organizadores. Segundo Taveira, a presença de uma única mulher se deve ao fato de que as poetas planaltinas não costumam se dedicar ao soneto.

Dois autores me surpreenderam porque desconhecia sua vis poética e, menos ainda, sua arte na composição de sonetos: José Peixoto Júnior e Nilto Maciel. Como escreveu Jarbas Júnior, “Concebido na primeira metade do século XII pelo engenhoso trovador siciliano Giácomo da Lentine, o soneto passa à Itália, onde alcança notoriedade e chega aos cimos da glória com Dante e Petrarca” (p. 9). Daí se expande por toda a Europa onde, “com Luís de Camões esse esplêndido pequeno poema atinge o trono do Monte Parnaso, a elegância simples da perfeição” (loc. cit.). No Brasil o poema metrificado encontrou terreno fértil e tem sido praticado por inúmeros poetas. Nunca desapareceu o gosto dos leitores de poesia pelo soneto e muitos de nossos poetas se tornaram mestres no gênero.

Quanto aos sonetistas acima referidos, José Peixoto Júnior, filho do Cariri Cearense, criado à sombra da Chapada do Araripe, contribui com dez sonetos, todos bem realizados e surpreendentes, como “Castro Alves, Filho de Brasília.” Nilto Maciel, meu velho amigo, foi um escritor prolífico e criativo que nos deixou antes do tempo e faz muita falta. Também contribuiu com dez sonetos, dentre os quais destaco “Oferenda.”

Todos os participantes da antologia são competentes e inspirados sonetistas. Conheço a obra poética de vários deles, alguns de consolidado renome no meio literário. Anderson Braga Horta, Henriques do Cerro Azul, José Peixoto Júnior, Nilto Maciel eu os conheci em pessoa. Já José Jeronymo Rivera, Márcio Catunda e o organizador João Carlos Taveira são ou foram correspondentes. Como diria Monteiro Lobato, são amigos escritos.

Concluindo, penso que “Sonetos de Bolso” foi uma bela iniciativa. É um livro para se carregar na algibeira e para ter sempre à mão, abrindo para uma leitura naqueles momentos em que a alma pede poesia.

Mas o livro não pretende ser uma publicação isolada. Os organizadores cogitam em dar continuidade, incluindo outras poetas. Como escreveu Taveira, “Sonetos de Bolso” é apenas um filete de água que pretende, um dia, transformar-se em córrego, em rio...”

Escrito por Enéas Athanázio, 06/11/2018 às 16h14 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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O HAGIÓGRAFO SEM FÉ

Hagiografia, definem os dicionários, é a arte de escrever a vida dos santos. São em geral as pessoas religiosas e de profunda fé que se entregam à reconstituição das vidas daqueles que foram santificados e elevados aos altares. No caso do escritor franco-suiço Blaise Cendrars (1887/1961), no entanto, as coisas foram bem diferentes. Com um dos filhos engajado nos combates da I Guerra Mundial (1914/1918), como piloto de caça, Cendrars prometera a ele encontrar um santo que pudesse ser eleito o novo patrono da aviação e tratou de se entregar à pesquisa. O filho, vítima de um ataque aéreo, não chegou a tomar conhecimento da escolha do pai, mas Cendrars, em compensação, foi tomado de viva admiração por São José de Cupertino, cuja existência rebuscou em todas as fontes ao seu alcance. Giuseppe Desa, mais conhecido como São José de Cupertino (1603/1663), teve um lugar destacado na história da Igreja e, em especial, da levitação. Segundo as informações do escritor, ele não apenas levitava com grande facilidade como foi o único levita de que se tem notícia capaz de levitar em marcha a ré! Seus voos eram tão frequentes que chegavam a perturbar a paz do convento, razão pela qual os demais padres costumavam excluí-lo das atividades públicas. E o mais curioso é que foi considerado homem de inteligência limitada, ingênuo e um tanto simplório, concluindo-se que a santidade não depende de elevados dotes mentais. Segundo Cendrars, ninguém mais indicado que o levita para ser o novo patrono da aviação. Influenciado pela sua história, o escritor realizou um levantamento completo de todos os levitas reconhecidos, século a século, ocupando grande parte de seu livro “O Loteamento do Céu”, publicado entre nós pela Cia. das Letras (2009). Para concluir o rol de curiosidades, anote-se que Blaise Cendrars se declarava um homem sem fé, um ateu confesso, que se transformou no minucioso hagiógrafo de um santo humilde e pouco conhecido dos crentes em geral.

“O Loteamento do Céu” é um dos chamados “livros brasileiros” de Cendrars, uma vez que numerosas páginas são dedicadas ao nosso país, pelo qual o escritor tinha imensa admiração e onde esteve pelo menos três vezes. Tudo que diz respeito ao Brasil é registrado em termos superlativos e exagerados que o tradutor e o coordenador se apressam a corrigir em frequentes notas de rodapé. Embora considerado um volume de memórias, a realidade e a fantasia se misturam de tal forma que em muitas passagens é impossível separá-las.

Capítulo dos mais interessantes é “A torre Eiffel sideral”, onde ele relata sua permanência, em parte imaginária e sempre exagerada, na Fazenda Morro Azul, no interior paulista. Dirigindo um Alfa Romeo cor de vinho, que na verdade nunca esteve no Brasil, e tomando por uma estrada errada, saltando sobre pedras e buracos, vai ter, afinal, na monumental sede da fazenda cafeeira, esta sim autêntica. Lá é recebido pelo proprietário, homem estranho, solitário e gentil, apaixonado por Sarah Bernhardt, para quem escreve cartas e poemas que vai empilhando sem jamais chegarem ao conhecimento dela. Além disso, nas suas observações de astrônomo amador, perscrutando o céu límpido em noites salpicadas de estrelas, está convencido de que havia descoberto uma nova constelação, “roubando” astros de outras, com o perfeito formato da torre parisiense – a torre Eiffel sideral. Ainda que jamais reconhecida a admirável descoberta, pela qual Cendrars e ele próprio teriam movido fundos e mundos, o assunto ocupa as atenções do escritor ao longo de numerosas páginas. Nessas longas noites de silêncio e paz, as lembranças do anfitrião e do hóspede vagam pelos mais estranhos caminhos. Enquanto aquele recorda o beijo imaginário que teria recebido de Sarah Bernhardt, ocasião em que ela lhe dera um pedaço da renda de sua roupa (depois emoldurada no gabinete de trabalho), o hóspede relembra o que teria escrito em Kyoto, onde nunca estivera, confunde o número de degraus da entrada de seu aposento, mistura paulistas com gaúchos pilchados e se equivoca na biografia do próprio pai, além de divisar serpentes inexistentes e desvendar mistérios insondáveis. Como ele próprio dizia, “escrever é descer como um mineiro ao fundo da mina, com uma lâmpada de grade na testa, pavio de duvidosa luminosidade e que tudo deforma...” (pág. 325). Não foi por mero acaso que este livro deixou perplexa a crítica francesa! Mas é uma leitura inesquecível que nos conduz pelo mundo sem limites da imaginação criadora.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/12/2018 às 10h24 | e.atha@terra.com.br

A RESTINGA

A Restinga! Ali na canhada, entre dois coxilhões, ela se estendia por quilômetros, campo a fora. Bem na baixada, através de curvas caprichosas, o riacho escorria águas claras e geladas, alisando sem cansaço os seixos encontrados no caminho. Em ambas as margens o mato fechado crescia exuberante, formando uma muralha viva e esvoaçante de mil tons de verde. Parecia a linha divisória entre campos, como se a natureza desejasse demarcá-los por razões desconhecidas. Flores do mato, em cores vivas, vermelhas, brancas, amarelas, roxas, enfeitavam um dos panoramas mais lindos daqueles campos. A passarada, com seus cantos e gritos, não silenciava nunca, revezando dia e noite na inesgotável alegria de viver em liberdade.

Cortando-a em diagonal, uma estradinha coleante cruzava a Restinga. Seu leito de chão vermelho semelhava uma cicatriz gigantesca no verde campeiro. Por ela transitavam veículos e cavaleiros, levantando nuvens de poeira, e todos acelerando a marcha na passagem, como se temessem alguma coisa. É que a Restinga, apesar da beleza esfuziante, amargava a triste fama de mal-assombrada. Naquele trecho o viajante, mesmo o mais valente, não escapava do receio atávico que vem do sobrenatural. Persignando-se ou balbuciando alguma oração, tratava de se afastar o quanto antes. A pressa aumentava quando o acaso o levava à noite por tão temidas paragens.

Na Restinga, dizia a voz do povo, morava uma bola de fogo que perseguia os cavaleiros estrada a fora, assustando as montarias, e dispersando tropas. Nas noites escuras, um cavaleiro fantasma troteava em silêncio ao lado do viajante solitário, e isso por longo trecho, só desaparecendo com as luzes da cidade. Um negro velho, morto nos tempos de dantes, quando cavava por ali na busca de uma panela de ouro ao pé de um pinheirão, também costumava se mostrar. Molambento e desgrenhado, corria pela estrada, gritando palavrões e pragas. Pedrinhas e gravetos, jogados por mãos misteriosas de dentro do mato, atingiam os viajeiros com precisão. Gritos, gemidos dolorosos e risadas se ouviam com frequência, ecoando nas coxilhas silenciosas. E além disso, nas noites de sextas-feiras, um carro iluminado e barulhento, apitando e rangendo, percorria aquele mato, com as rodas martelando trilhos inexistentes... Um mistério insondável, a Restinga!

Com escritório na cidade próxima, onde atendia às terças-feiras, muitas vezes cruzei por ali, algumas delas à noite. Embora a experiência não fosse agradável, jamais presenciei tais fenômenos, limitando-me a narrar um pouco do muito que ouvi.

Com a construção da nova estrada, na mexida das pontes e aterros, a Restinga quase desapareceu com sua fama de mistério e assombro. O progresso parece ter desalojado os fantasmas que a habitavam.

Escrito por Enéas Athanázio, 26/11/2018 às 12h19 | e.atha@terra.com.br

A língua nossa de cada dia

A língua é o maior patrimônio cultural de um povo e por isso merecedora do maior respeito. É uma entidade viva e complexa, em constante mutação. Algumas florescem e se impõem ao uso de milhões de pessoas; outras, ao contrário, declinam, fenecem e até morrem. Exemplo marcante é o do Latim, idioma de imensa influência em tempos antigos e que caiu em desuso e desapareceu, ainda que deixando vários “filhotes.”

Toda língua tem suas normas e regras que precisam ser conhecidas para que possa ser manejada com segurança e correção. O estudo desses temas constitui objeto da ciência denominada Filologia e os estudiosos que a ela se entregam são os filólogos ou gramáticos. O Brasil sempre teve e ainda tem estudiosos da língua portuguesa de reconhecida competência científica. Dentre os atuais, em franca atividade, muitos estão integrados à Academia Brasileira de Filologia, com sede no Rio de Janeiro, dos quais destaco, sem demérito dos demais, os nomes de Deonísio da Silva, vice-presidente, Antônio Martins de Araújo, editor da revista, Cunha e Silva Filho, professor e escritor, e Manoel Pinto Ribeiro, redator-chefe, porque os conheço melhor.

Manoel Pinto Ribeiro é autor, entre outras obras, de uma “Gramática Aplicada da Língua Portuguesa”, que já se encontra na 23ª. edição, sempre atualizada, eis que foi lançada em 1976, (Metáfora Editora – Rio de Janeiro – 2017). Trata-se de uma obra monumental, daquelas que Monteiro Lobato chamava de livro para morar porque pode ser lido, relido, treslido e consultado infinitas vezes sem jamais se esgotar. Foi acrescida de um segundo volume designado Livro de Respostas. Nem é necessário dizer que é um livro completo, abordando todas as facetas da língua e dando ao leitor uma visão integral do Português e seus mistérios. Tudo exposto de maneira clara e objetiva, sempre calcado em sólidas fontes e com centenas de exemplos explicativos. Um manancial inesgotável de informações, além de abordar temas correlatos, tornando a leitura mais interessante e mais viva.

Segundo Hernani Donato, a palavra escrita foi uma das mais importantes conquistas do homem, só equiparada à do fogo. Sem elas, viveríamos hoje como nossos antepassados. Ela, a palavra, expressa nosso pensamento, nosso sentimento e nossas ideias, preservando-os no espaço e no tempo.

O autor prestigia os textos literários e até jornalísticos para ilustrar suas exposições, acentuando as características de cada um. Aborda de forma científica a distinção entre língua e linguagem, fonética e fonologia, a sociolingüística, ortografia, morfologia, sintaxe, pontuação, estilística, versificação, semântica e vários outros capítulos não menos importantes ao perfeito domínio da língua portuguesa. Dedica atenção aos vocábulos homônimos, ao apóstrofo, à crase (via crucis dos que escrevem), aos neologismos, prefixos gregos e latinos, numerais, pontuação etc. Aborda ainda, em capítulos especiais, a versificação, a estilística, a absorção de palavras estrangeiras, em especial do inglês, e fornece um grande elenco de expressões latinas de uso corrente, cuja leitura me trouxe à lembrança os estudos de Direito Romano. A técnica da redação oficial, incluindo abreviaturas, a linguística teatral e muitos outros aspectos são expostos para tornarem o livro um mestre inigualável na arte de bem falar e escrever o Português, Como aconselhou alguém, “Torne-se perito no falar porque por esse meio poderá elevar-se. A língua do homem é arma e a fala é mais poderosa que o combate.” (Frase encontrada no túmulo de um faraó, escrita há três mil anos – p. 467).

Em outro livro, indispensável para quem escreve, o Prof. Manoel P. Ribeiro analisa o Novo Acordo Ortográfico que entrou em vigor em 2013 visando unificar a língua portuguesa nos países lusófonos (Metáfora Editora – Rio de Janeiro – 2012 – 2ª. edição). Com idêntica clareza e segurança, o autor esmiúça as normas impostas pelo acordo, as alterações e novidades dele decorrentes, sempre exemplificando com exercícios que afastam as dúvidas do leitor estudioso. A ortografia é da maior importância em uma língua para expressar com perfeição o pensamento humano. “A luta contra o erro tipográfico – escreveu Lobato – tem algo de homérico. Durante a revisão os erros se escondem, fazem-se positivamente invisíveis. Mas, assim que o livro sai, tornam-se visibilíssimos, verdadeiros sacis a nos botar a língua em todas as páginas. Trata-se de um mistério que a ciência ainda não conseguiu decifrar” (p. 11).

As obras do Prof. Manoel P. Ribeiro foram consagradas pela mais categorizada crítica. Com elas, só fala e escreve errado quem quer.

Escrito por Enéas Athanázio, 21/11/2018 às 10h38 | e.atha@terra.com.br

A infância de Lobato

Para assinalar os setenta anos do falecimento de Monteiro Lobato (1882/1948), o Prof. Osni Lourenço Cruz publicou um livro que é um marco na bibliografia sobre o criador do Sítio do Picapau Amarelo. Em tamanho grande e com 360 páginas. “Na trilha de Lobato – A inquieta juventude” (Edição do Autor – Taubaté/SP) é um imenso repertório das primeiras fases da vida do escritor, iniciando-se no nascimento e acompanhando passo a passo até sua formatura pela Faculdade de Direito de São Paulo. Para mais enriquecer o trabalho, o pesquisador realiza o levantamento da árvore genealógica de Lobato, recorda alguns eventos envolvendo José Francisco Monteiro, o Visconde de Tremembé, avô materno do escritor, faz uma curiosa confrontação entre os fatos e as lendas que cercam Lobato e comenta incorreções da obra de Edgard Cavalheiro, o mais categorizado biógrafo lobatiano. O livro é de imensa riqueza iconográfica, estampando grande número de fotos, gravuras, caricaturas, cartas e documentos como jamais encontrei, mesmo sendo assíduo leitor de/e sobre Lobato. Muitas dessas ilustrações aparecem pela primeira vez em livro, o que me leva a imaginar a extensão da pesquisa feita pelo autor em publicações antigas, jornais velhos, arquivos públicos e particulares, diários e anotações pessoais, cartórios e repartições.

Em seguida o autor esmiúça a infância de Lobato, fase por fase, sempre com sólidas bases documentais. Esclarece que não nasceu na Chácara do Visconde, como tantas vezes tem sido afirmado, e que nunca se chamou Renato. Descreve as relações do menino com a mãe, afetivas e carinhosas, e com o pai, formais e um pouco distantes. São evocadas as aventuras, correndo livre pela fazenda e pela chácara, as caçadas na companhia paterna, as brincadeiras com as irmãs, a biblioteca do avô, onde se enfurnava por horas e horas, a vergonha ao aparecer em público com as primeiras calças compridas. A vida estudantil, nos vários colégios que frequentou, e momentos marcantes, como o primeiro livro que ganhou (“João Felpudo”), a visita do Imperador D. Pedro II, hospedando-se na casa do avô, e que provocou a curiosidade do menino porque um homem tão forte e barbado tinha uma voz tão fininha, fato de que jamais esqueceria. Momentos tristes, como a perda da mãe, ainda jovem, e do pai, deixando-o aos cuidados do avô. A iniciação nas letras e o florescer do gosto literário. Por fim, a mudança para São Paulo, onde permaneceria até a formatura em Direito.

Capítulo dos mais interessantes e que também nunca vira relatado em minúcias foi o envolvimento de José Francisco Monteiro, Visconde de Tremembé e avô de Lobato num episódio de inusitada violência, inexplicável numa figura de tal realce e importância na cidade e na região. A cabra e dois filhotes pertencentes a um mecânico alemão de nome Augusto Kreye escapam de seu gradil, penetram no jardim do Visconde e causam algum dano. Numa atitude inacreditável, ele mutila a cabra, corta-lhe as orelhas e a cauda e provoca outras lesões no animal. Indignado, e com razão, o mecânico vai falar com o Visconde, ocasião em que este saca de um revólver e desfere um tiro contra o reclamante. O projétil fura-lhe o chapéu e atinge de raspão a cabeça, causando um ferimento e copiosa hemorragia. Tudo indicava que a intenção do atirador era acertar a cabeça do mecânico. Segundo testemunhas, de revólver em punho, o Visconde indaga da vítima se ainda queria mais. Instaurado inquérito policial, o indiciado empenhou-se de todas as formas em procrastinar o seu trâmite, não atendendo às notificações e nunca comparecendo aos atos processuais. Para completar, foi denunciado por lesão corporal leve quando os fatos indicavam uma evidente tentativa de homicídio. No decorrer do processo, tal como antes, o Visconde usou de todas as chicanas imagináveis para tumultuar o andamento do feito. Durante o julgamento pelo Tribunal do Júri, conforme o sistema processual da época, recusou-se a sentar e permaneceu em pé até a decisão final. E se isso tudo não fosse suficiente, foi absolvido por unanimidade!

Mas a arrogância do poderoso membro da nobreza rural não ficou satisfeita e o Visconde não titubeou em usar de suas influências para infernizar a vida do mecânico. Relata o autor do livro, com base em suas pesquisas, que o Visconde usou de todos os estratagemas para prejudicar o infeliz proprietário da desastrada cabra, provocando até mesmo sua demissão do emprego de guarda noturno da estação da estrada de ferro. É um bom exemplo do comportamento dos “nobres” daquela época.

Recorda o autor o surgimento da literatura infantil de Lobato conforme a versão do próprio escritor. Segundo ele, quando se encontrava em seu escritório, à Rua Bela Vista, o romancista Toledo Malta relatou a história de um peixinho que ficou muito tempo fora d’água e quando retornou morreu afogado porque havia esquecido de nadar. A historinha ficou bailando na cabeça do escritor até que ele a escreveu. O sucesso foi enorme e despertou nele o desejo de escrever para crianças. E assim, “um grão de pólen me caiu um dia em algum óvulo cerebral e gerou o primeiro “A menina do narizinho arrebitado.” O começo foi esse...” Ali nascia o mundo encantado do Sítio do Picapau Amarelo e ao mesmo tempo a literatura infantil brasileira.

Está de parabéns o Prof. Osni Lourenço Cruz pela excelente contribuição para o conhecimento de Lobato e sua obra, fonte de consulta indispensável daqui em diante aos estudiosos de nossa literatura.

Escrito por Enéas Athanázio, 19/11/2018 às 11h58 | e.atha@terra.com.br

HEMINGWAY: OS ANOS DE PARIS

Poucos escritores da moderna literatura fascinam os estudiosos como o americano Ernest Hemingway (1899/1961). Mesmo tendo desaparecido há mais de meio século, são frequentes as obras a respeito dele e de sua obra. É um caso raro em que a vida pessoal do escritor foi uma permanente aventura, tão ou mais movimentada que sua própria produção literária. Exemplo bem ilustrativo é o romance “Casados com Paris”, de Paula McLain, publicado pela Editora Nova Fronteira (Rio – 2011).

Embora seja obra de ficção, o livro é fiel aos fatos conhecidos e documentados, abordando os começos da carreira literária do escritor na Paris dos chamados anos loucos de 1920, período em que integrou a célebre geração perdida, assim apelidada por Gertrude Stein. Nessa altura Hemingway já havia sido ferido na Itália, na I Guerra Mundial, e sagrado herói, condecorado por bravura, além de ser rejeitado pela enfermeira Agnes von Kurowski, por quem se apaixonara durante o tratamento no hospital. Voltando a Oak Park, perto de Chicago, e recebido como celebridade, acabou se casando com Hadley Richardson, uma solteirona bonita e oito anos mais velha que ele. Induzido pelo escritor Sherwood Anderson, vai com a esposa para Paris e ali tem início a árdua luta em busca de estilo próprio e da realização de uma obra. Foi um período duro, repleto de dificuldades e frustrações, trabalhando como um desesperado e, nas horas vagas, convivendo com figuras como Gertrude Stein, Ezra Pound, F. Scott Fitzgerald, James Joyce, John dos Passos, Ford Madox Ford, Sylvia Beach e tantos outros, numa fase em que a capital francesa regurgitava de americanos expatriados.

Durante a narrativa a autora se coloca na pele de Hadley, a esposa do escritor, e relata os acontecimentos pela visão dela, situação que me parece única até agora em obras sobre o tema. “Minha intenção foi mergulhar mais fundo na vida emocional dos personagens e lançar uma nova luz sobre os acontecimentos históricos” – escreveu a autora (p. 334). E ela teve êxito, reconstruindo com fidelidade o ambiente reinante com todos seus abusos e excessos, as bebedeiras, os ciúmes, os dramas e as comédias, as viagens constantes, a inquietação, a batalha pessoal de cada um para impor sua arte. Nesse meio conturbado, lutando para salvar o casamento, uma instituição que parecia tão desacreditada, Hadley se transforma na “esposa de Paris”, observando alarmada e impotente a infiltração de outra mulher entre ela e o marido, pela qual seria trocada. No correr dos anos, a outra também seria trocada por outra e esta ainda por outra, uma vez que Hemigway teve quatro esposas.

Esposa dedicada, mãe do primeiro filho do escritor, Hadley tudo suportou com enorme paciência, submetendo-se a uma vida de limitações e privações sem conta enquanto ele lutava com as letras. Mas acabou vencida na concorrência com Pauline Pfeiffer, morena elegante e sofisticada, consultora de modas da “Vogue.” A separação e o divórcio foram inevitáveis e ela retornou com o filho aos Estados Unidos. Tempos depois casou com um jornalista e com ele viveu bem até o final de uma longa vida. Acompanhou à distância o sucesso mundial do ex-marido, suas conquistas literárias, inclusive o Prêmio Nobel, as aventuras, viagens, caçadas, touradas e guerras que cobriu para a imprensa. Tudo iniciando com o romance “O sol também se levanta”, escrito nos tempos em que viveram juntos e que abriu a ele as portas do sucesso. Nesse livro ele criava um estilo pessoal e inimitável, enxuto, seco, quase telegráfico.

Mas ele – concluiu a ex-esposa – foi infeliz no amor. Em sucessivos casamentos, buscou sempre a mulher dos sonhos e que talvez não existisse. Até que, em julho de 1961, vem a ligação comunicando que ele se suicidara com um tiro de espingarda. Tantos foram os fantasmas que se acumularam em sua cabeça que não conseguiu suportar. E desde então passou a viver em outro território – o do mito.

Escrito por Enéas Athanázio, 12/11/2018 às 08h51 | e.atha@terra.com.br

FILETE QUE ASPIRA A SER RIO

O silêncio reinante a respeito de “Sonetos de Bolso – Antologia Poética”, organizada por Jarbas Júnior e João Carlos Taveira (Thesaurus Editora – Brasília ), me leva a redigir estas notas, ainda que sem a pretensão de julgar o mérito dos poemas nela reunidos.

Trata-se de um belo livro, executado com esmero, em formato pequeno, tipo “pocket-book”, conforme sugere o próprio título. Reúne trabalhos de quinze sonetistas, todos ligados à cidade de Brasília, onde residem ou residiram. São eles: Anderson Braga Horta, Anderson de Araújo Horta, Antonio Miranda, Antonio Temóteo dos Anjos Sobrinho, Fernando Mendes Viana, Henriques do Cerro Azul, José Geraldo Pires de Mello, José Jeronymo Rivera, José Peixoto Júnior, Luiz Carlos de Oliveira Cerqueira, Márcio Catunda, Maria Braga Horta, Nilto Maciel, Romeu Jobim e Viriato Gaspar. Contém ainda excelentes notas explicativas introdutórias e abas de autoria dos organizadores. Segundo Taveira, a presença de uma única mulher se deve ao fato de que as poetas planaltinas não costumam se dedicar ao soneto.

Dois autores me surpreenderam porque desconhecia sua vis poética e, menos ainda, sua arte na composição de sonetos: José Peixoto Júnior e Nilto Maciel. Como escreveu Jarbas Júnior, “Concebido na primeira metade do século XII pelo engenhoso trovador siciliano Giácomo da Lentine, o soneto passa à Itália, onde alcança notoriedade e chega aos cimos da glória com Dante e Petrarca” (p. 9). Daí se expande por toda a Europa onde, “com Luís de Camões esse esplêndido pequeno poema atinge o trono do Monte Parnaso, a elegância simples da perfeição” (loc. cit.). No Brasil o poema metrificado encontrou terreno fértil e tem sido praticado por inúmeros poetas. Nunca desapareceu o gosto dos leitores de poesia pelo soneto e muitos de nossos poetas se tornaram mestres no gênero.

Quanto aos sonetistas acima referidos, José Peixoto Júnior, filho do Cariri Cearense, criado à sombra da Chapada do Araripe, contribui com dez sonetos, todos bem realizados e surpreendentes, como “Castro Alves, Filho de Brasília.” Nilto Maciel, meu velho amigo, foi um escritor prolífico e criativo que nos deixou antes do tempo e faz muita falta. Também contribuiu com dez sonetos, dentre os quais destaco “Oferenda.”

Todos os participantes da antologia são competentes e inspirados sonetistas. Conheço a obra poética de vários deles, alguns de consolidado renome no meio literário. Anderson Braga Horta, Henriques do Cerro Azul, José Peixoto Júnior, Nilto Maciel eu os conheci em pessoa. Já José Jeronymo Rivera, Márcio Catunda e o organizador João Carlos Taveira são ou foram correspondentes. Como diria Monteiro Lobato, são amigos escritos.

Concluindo, penso que “Sonetos de Bolso” foi uma bela iniciativa. É um livro para se carregar na algibeira e para ter sempre à mão, abrindo para uma leitura naqueles momentos em que a alma pede poesia.

Mas o livro não pretende ser uma publicação isolada. Os organizadores cogitam em dar continuidade, incluindo outras poetas. Como escreveu Taveira, “Sonetos de Bolso” é apenas um filete de água que pretende, um dia, transformar-se em córrego, em rio...”

Escrito por Enéas Athanázio, 06/11/2018 às 16h14 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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