Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

TUDO JUNTO (I)

A globalização atual, - porque outras aconteceram ao longo da história, - trouxe múltiplas consequências. Se, por um lado, facilitou o intercâmbio de produtos e informações, por outro descurou das coisas da cultura em nome do lucro e da vantagem. Assim aconteceu, por exemplo, com o chamado “globês”, por demais comentado na imprensa há alguns anos. Tratava-se da opinião de que não se justificava a existência de muitas palavras com o mesmo significado, devendo a linguagem, em consequência, ser enxugada dos sinônimos para que se usasse uma só e mesma palavra para designar alguma coisa. Diziam que não era econômico e nem prático manter vários vocábulos com o mesmo significado e, assim, o empobrecimento do vocabulário das pessoas se impunha. Ora, é justamente pela amplitude de seu vocabulário que se mede a cultura da pessoa, tornado-a capaz de interpretar qualquer texto escrito, de tal forma que a esdrúxula teoria propunha um movimento para trás, isto é, da incultura e da ignorância. Ninguém precisaria conhecer mais que 300 a 500 palavras para ganhar dinheiro, o valor maior e único dos afinados com a tal teoria. E todos falariam da mesma forma, como se fossem cópias.

Agora, porém, as coisas foram adiante. Uma ideia aberrante que se denomina “pedagogia pragmática” vem plantando notinhas na mídia no sentido de negar a necessidade de alfabetizar as pessoas, ou seja, não se ensinaria mais as pessoas a ler e, acima de tudo, a escrever. Seriam coisas supérfluas, pouco práticas e econômicas pelo tempo que tomam, uma vez que o audiovisual seria suficiente para a vida normal. Ler para quê? Escrever para quê? São atividades arcaicas e inúteis. Em duas ou três gerações o mundo voltaria a ser ágrafo, como nos áureos tempos das cavernas. A suprema consolidação da modernidade!

Tudo se resumiria ao som e à imagem. As cédulas de dinheiro trariam desenhos que representassem seus valores. E, com certeza, surgiriam um código semelhante à linguagem para surdos e outros recursos que dispensassem por completo a palavra. Os cidadãos, felizes e realizados, ficariam ricos com tanta praticidade e economia. Nos momentos de lazer sentariam diante da televisão de última geração e se comunicariam com os demais através de gestos, caretas e guinchos. Como os macacos.


O irrequieto líder modernista Oswald de Andrade, ainda que por linhas traversas, sempre volta à cena. Lavrou nos jornais aguda polêmica entre os poetas Augusto de Campos e Ferreira Gullar, ambos pioneiros do Movimento Concretista e mais tarde rompidos. Segundo Gullar, em almoço no Rio de Janeiro, há cerca de cinquenta anos, Augusto teria declarado que Oswald de Andrade fôra um irresponsável, desmerecendo o valor de sua obra. Indignado, o poeta paulista protestou e os dois passaram a se xingar através dos jornais de maneira virulenta. Embora seja uma questão de somenos constatar se o tal almoço aconteceu ou não, o assunto tocou em ponto sensível, uma vez que a obra de Oswald de Andrade foi a inspiradora do Concretismo e está na sua própria raiz.

Por coincidência, ou feliz acaso, estreou em São Paulo na mesma época a peça teatral “Macumba Antropófaga”, sob a direção de José Celso Martinez Corrêa, incorporando o célebre Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, uma das peças mais importantes e polêmicas do Modernismo.

Dois acontecimentos fortuitos tiraram do esquecimento, ainda que por tempo limitado, um escritor genial cuja obra é pouco lembrada e, menos ainda, lida.


Na coleção Cine Europeu que o jornal “Folha de S. Paulo” lançou, um dos primeiros números foi “Fitzcarraldo”, de Werner Herzog, com Klaus Kinski e Cláudia Cardinale. É a história do sonhador alucinado que desejava apresentar uma ópera em plena selva amazônica e para isso teve que enfrentar as mais inacreditáveis dificuldades, entre elas a de arrastar um navio completo pelo chão, através da selva, de um rio até outro, para prosseguir na viagem. Os cenários são grandiosos, as cenas chocantes, ainda mais para quem conhece a Amazônia e pode imaginar o tamanho da tarefa de cruzar um matagal fechado e inóspito. Dizem os críticos que tal foi o esforço feito que, após a filmagem, o ator Klaus Kinski teria ficado exaurido, esgotado, como se tivesse perdido a energia vital. Ele e o diretor Herzog brigavam o tempo todo e se consideravam inimigos íntimos. É uma aventura que merece ser vista e revista. 

Escrito por Enéas Athanázio, 17/06/2019 às 08h58 | e.atha@terra.com.br

TUDO JUNTO (II)

Graças à gentileza do talentoso poeta Tarso de Melo, recebi vários exemplares de “K – Jornal de Crítica”, publicado em São Paulo e do qual ele é um dos editores. Tenho para mim que é o mais sofisticado periódico nacional dedicado à crítica literária, contando com uma equipe de primeira linha, e realizando análises de obras e autores fora do âmbito universitário, hoje concentrando quase toda essa atividade, cujo espaço nos jornais está desaparecendo. Entre os que escrevem no jornal destacam-se nomes como Carlos Felipe Moisés, Manuel da Costa Pinto, Donizete Galvão, Reynaldo Damazio e muitos outros, além do próprio Tarso de Melo em sua coluna “K Indica”, focalizando obras recentes. O jornal também agasalha poesias de nível, garimpadas na obra de bons poetas. Excelentes os ensaios sobre Ana Cristina Cesar. Trata-se, enfim, de uma publicação que reavivou o meu enlevo pela velha e boa crítica literária, aquela que se constitui num facho de luz iluminando o caminho dos que não dispensam a companhia dos livros. Como já faz algum tempo que não tenho notícia do jornal, espero que não tenha sido vítima do mal do sexto número, como acontece com tantos periódicos culturais brasileiros.


Noticiaram os jornais que os desmatadores da Amazônia estão adotando métodos mais sofisticados. Com o uso de aviões, pulverizam herbicidas sobre a floresta, provocando em poucos dias a queda total das folhas das árvores. Aí entram as malignas motosserras e os monstruosos tratores derrubando tudo. É um herbicida semelhante ao célebre agente laranja que os Estados Unidos tanto usaram na Guerra do Vietnã. Além da destruição implacável das florestas, o veneno mata animais e insetos e contamina o lençol freático de maneira que a água, em toda a região, provoca intoxicação quando ingerida e problemas cutâneos. A nova modalidade de crime seria inacreditável não fosse constatada por satélite, averiguada in loco por fiscais e objeto de inquérito pela Polícia Federal que, por sinal, apreendeu toneladas do herbicida destinadas ao uso. Tais ações criminosas lembram a política de terra arrasada adotada em algumas guerras pelos inimigos. Mais grave, porém, é que são praticadas por brasileiros contra sua própria pátria, sem qualquer consideração pela saúde das pessoas e pelo futuro do país. E como tais práticas logo encontram imitadores, tudo indica que se multiplicarão de forma incontrolável. Até quando? Até que não reste o menor resquício de verde da maior floresta do mundo. País que tem filhos assim não carece de inimigos.


Quando eclodem escândalos na administração pública todos querem, com razão, que os corruptos sejam punidos. Quase ninguém, no entanto, se lembra de que os corruptores também têm idêntica responsabilidade e merecem a mesma punição. Impera a idéia de que quem rouba o erário é ladrão, mas quem furta dos particulares é esperto. Parece, porém, que as coisas aos poucos começam a mudar. Já aparecem na mídia aqueles que protestam contra isso e lembram que sem corruptores não existem corruptos. Antes tarde.
 

Escrito por Enéas Athanázio, 10/06/2019 às 16h01 | e.atha@terra.com.br

NA CAPITAL DA ERVA-MATE

Convidado pela Academia de Letras do Brasil, seção de Canoinhas, estive naquela cidade no dia 31 de maio. Participei como palestrante da sessão solene comemorativa do quinto aniversário da Instituição. A solenidade transcorreu com brilhantismo, foi muito bem organizada e contou com a presença de público considerável que não arredou pé do recinto até o final. Houve a apresentação dos acadêmicos com referências aos patronos de suas cadeiras, declamações e intervenção do coral da cidade. Na fala, recordei com brevidade minha passagem pela cidade, onde fui Promotor Público e professor, e fiz um resumo do panorama atual do regionalismo literário em nosso Estado, corrente literária com a qual Canoinhas contribui com dois expoentes: Fernando Tokarski e Mário Tessari.

Presidida pela Professora Rosane Godói, a Academia é formada por um grupo idealista e decidido. No seu primeiro quinqüênio já exibe um rico rol de realizações em favor da cultura em geral e das letras em particular. Entre seus membros estão Adair Dittrich, Pedro Penteado e Andreas Costenaro, todos com livros publicados e bem recebidos, além do referido Fernando Tokarski, historiador, dicionarista e contista regional de primeira linha. É também dedicado estudioso da erva-mate em todos seus aspectos, com ênfase na história e na fase áurea que impulsionou o desenvolvimento da cidade, fomentando a riqueza e o luxo e dando-lhe o merecido nome de Capital da Erva-mate. Graças à superior qualidade da “Ilex paraguariensis” lá produzida, é exportada para todos os recantos do país e também para o exterior. Comentei nesta coluna as obras de Dittrich, Penteado, Tokarski e Tessari.

A cidade planaltina de Santa Cruz de Canoinhas, a Ouro Verde de tantas histórias e lutas cresceu e melhorou. Está bem cuidada, suas praças vicejam, é dotada de excelente comércio e dispõe de importantes estabelecimentos de ensino em todos os graus. A Biblioteca Pública e o Museu Histórico são bem administrados e organizados. Durante a Guerra do Contestado (1912/1916), Canoinhas exerceu papel fundamental e lutou por todas as formas para permanecer em nosso Estado, tanto que seu lema é “Catharinensis semper!”.

O retorno a Canoinhas, ainda que breve, foi dos mais agradáveis. Revi velhos amigos e conheci pessoas, convivendo com eles momentos inesquecíveis. Minha esposa e eu fomos festejados, abraçados e presenteados com o carinho típico da gente serrana


Recebi a visita da Professora paulistana Camila Russo de Almeida Spagnoli, da USP, que prepara uma tese de doutorado sobre o escritor mineiro Godofredo Rangel (1884/1951), de quem continuo sendo o único biógrafo. Para melhor aprimorar seu trabalho, ela decidiu conhecer também o biógrafo de seu personagem e se deslocou até aqui com tal finalidade. Conversamos muito sobre o autor de “Vida Ociosa” e sua obra, ela gravou longa entrevista e cotejamos nossas informações. Para enriquecer suas pesquisas, ela foi a Blumenau para consultar o dossiê a meu respeito na Fundação Cultural e depois a Campos Novos, minha cidade natal, em busca de mais elementos. Chegando de retorno a São Paulo, informou que agora se entrega à escrita da tese que, pelo que se conclui, será algo monumental, ressuscitando Rangel do ostracismo e praticando um ato de autêntica justiça literária.  

Escrito por Enéas Athanázio, 05/06/2019 às 11h50 | e.atha@terra.com.br

ALHOS E BUGALHOS

Sílvio Romero (1851/1914) foi uma das figuras mais impressionantes do meio cultural brasileiro. Além de jurista, filósofo e folclorista, foi crítico literário e historiador da literatura. Segundo João Ribeiro, foi o autor da melhor história de nossa literatura até então publicada. Numa de suas inúmeras conferências, fez observações que continuam válidas até hoje pela acuidade com que analisou a realidade nacional. Apontava ele, em certa passagem, a nossa tendência de procurar bodes expiatórios para nossos problemas quando, muitas vezes, a solução está em nós mesmos. Procuramos – escreveu ele – “um responsável pelos nossos desacertos, uma espécie de bode expiatório em que descarregamos nossas cóleras e maldições, quando o mal é imanente à nossa própria índole, ao nosso caráter, que urge reformar por adequados e enérgicos meios.” E enumera exemplos: o mal estava na escravatura, depois no império, mais tarde no voto a bico de pena, na velha Constituição Federal, no modelo educacional e por aí além. No entanto, tudo isso foi mudado, reformado, esquecido e, não obstante... nossos problemas continuam os mesmos, em especial aquele que mais nos indigna – a corrupção. “À vista de todos esses passos errados – indagava ele, - onde se acha a raiz do mal? Em nós mesmos, em nossa própria índole, que urge modificar, quanto possível, encaminhando-nos por outras estradas mais largas e mais seguras.” Em vários trechos alude ele aos políticos profissionais, antes como hoje objeto de constantes críticas. E, no entanto, o político não é um extraterrestre, mas, como todos, um produto da mesma sociedade em que vivemos. Diante disso, a pergunta a ser feita é: por que nossa sociedade vem criando tantos corruptos? Como se dizia nos tempos de dantes, aí é que está o busilis. No momento em que escrevo o tema dominante é a reforma da Previdência. Nela estaria a panacéia milagrosa para todos nossos males e no dia imediato o país será outro. Haverá quem acredite?

Essas e outras observações foram sugeridas pelo livro “Sílvio Romero e a Europa dos Pobres”, de Francisco de Vasconcellos, cuja leitura é das mais interessantes.


Dois assuntos voltaram a ocupar espaços na mídia nestes últimos tempos. O primeiro diz respeito à entrevista concedida por Jacqueline Kennedy em 1964, poucos meses após o homicídio de seu marido, o presidente John F. Kennedy, em Dallas, no Texas. Numa passagem de sua longa fala ela confessa que o marido, em 1962, já tramava contra o presidente João Goulart em secretas conversas com o embaixador americano no Brasil. Segundo trechos transcritos em jornais, o Departamento de Estado americano “propõe o rápido reconhecimento e apoio a qualquer regime que os brasileiros instalem, substituindo Goulart. E os EUA reconheceram o novo governo no dia 2 de abril, enquanto João Goulart ainda estava no Brasil.” Concluindo: o bom moço, herói de guerra, campeão dos direitos civis, enquanto se fantasiava de democrata insuflava golpes e apoiava ditaduras em outro país. Triste realidade.

O segundo assunto trata da Comissão da Verdade, a quem cabe fazer a narrativa oficial das violações dos direitos humanos entre 1946 e 1988 no Brasil. Seu objetivo não é uma caça às bruxas mas colocar em pratos limpos todas as barbaridades cometidas, inclusive antes de 1964, no regime da Constituição de 1946, período em que perseguições políticas levaram muitos brasileiros à prisão e ao exílio, embora houvesse no país uma democracia formal. O pintor Cândido Portinari, por exemplo, teve que se exilar na Argentina. Muita coisa interessante vai ganhar registro oficial.


O jornal “Folha de S. Paulo” publicou um caderno especial denominado “O custo da corrupção.” Ali estão listados os grandes escândalos que vêm emporcalhando a vida pública do país. Como de costume, porém, os corruptos são execrados mas os corruptores são omitidos, como se não existissem. Como se fosse possível uma corrupção de mão única.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/06/2019 às 14h42 | e.atha@terra.com.br

INCIDENTE NATALINO

Naquela manhã, quando saía de casa, Neco estava feliz. Sentia-se leve e tranquilo como poucas vezes acontecera. Chegando à área que se abria para a praça, contemplou do alto a cidade parada e silenciosa naquele começo de dia de Natal. Estendeu o olhar pela campanha que cercava a cidade e se admirou com o verde vivo que reverberava à luz do sol e que em geral não observava, envolvido nas ocupações e negócios. Permaneceu por alguns momentos entregue àquela muda contemplação e depois desceu devagar os dois lances de escada que o separavam do solo. Na rua, envergando roupas novas e bem talhadas, caminhou em passos lentos até a avenida principal, cumprimentando sorridente os conhecidos com quem cruzava. Entrou, afinal, na floricultura que ainda abria as portas e adquiriu um ramalhete de flores para a mulher. Ela, com certeza, gostaria da gentileza, atitude frequente no passado e que aos poucos se tornou rara. Sem dúvida, ela merecia!

Retornando para casa, meio sem jeito, com as flores na mão, ruminava bons pensamentos. A empresa estava bem, o ano fora positivo para os negócios, o filho, ainda garoto, se revelou um bom aluno e a mulher continuava bonita e sensual. Aconteceram algumas confusões, entre elas o boato de que havia falado mal do padre vigário e ele tentara processá-lo, além de desancar os linguarudos num sermão raivoso de domingo. Os comentários foram maldosos, provocaram grande tensão, mas tudo acabou em nada. Também aconteceu o atropelamento da carroça com o velhinho que a conduzia, quando dirigia um calhambeque que estava a seus cuidados. Depois de muita discussão, o caso se resolveu a contento, ainda que desembolsando boa quantia. Ah! – lembrou de repente – houve a discussão (ele dizia discutição) com certo Arcidioso, tido e havido como perigoso, mas ele o enfrentou de revólver em punho e o outro fugiu com o rabo entre as pernas. Problemas menores ainda aconteceram, como é natural no correr da vivência. Agora, passado o tempo, todos se tornaram motivo de piadas e brincadeiras.

Em casa, Neco almoçou com a esposa e, depois de um bom descanso, começaram a beber. Aproveitando a ausência do filho que se encontrava em viagem, passando os festejos com os avós, avançaram nos brindes e empinaram consideráveis doses de champanhe. Depois se recolheram ao banheiro, encheram a enorme banheira de água espumante e se entregaram às carícias e ao amor. Ele enchia as taças e estimulava a mulher a beber. Ela já dava mostras de embriaguez, não tinha o hábito de beber, mas continuava ingerindo a bebida, estendida na banheira, lânguida e sonolenta, o corpo nu relaxado dentro da água tépida. Para estimulá-la, ele a puxou para baixo pelo dedo do pé, fazendo com que escorregasse, submergindo. Ela levantou a cabeça, tossindo a água que engoliu e rindo molemente. Outras doses foram tomadas e Neco repetia a perigosa brincadeira, puxando a mulher para baixo e fazendo-a submergir. E assim as mesmas manobras se repetiram até que, tomado por um repentino sentimento maligno, ele a manteve por mais tempo em baixo da água espumante. Só então, alarmado, percebeu que a mulher não voltava e nem se movia. Desesperado, puxou-a para fora e compreendeu num instante que fora longe demais. Ela não respirava; estava morta.

Tentou de todos os modos reanimá-la. Massagens no peito e nas costas, respiração boca-a-boca, tapinhas no rosto. Tudo inútil. O corpo bronzeado e sensual não tinha sinais vitais e permaneceu inerte sobre o tapete onde ele o colocou.

Tomado de desespero, saiu gritando por socorro pela rua a fora. Mas era tarde demais.

A notícia explodiu como uma bomba na pacatez da cidadezinha e ganhou todos os recantos. Pessoas cercaram a casa, curiosas e incrédulas. Os mais estranhos comentários dominaram as conversas por longo tempo e os incidentes do passado de Neco voltaram detalhados, esmiuçados e exagerados, inclusive alguns que se encontravam esquecidos. Mesmo sem julgamento, ele foi condenado, e aquele Natal permaneceu indelével na memória local.

Preso e condenado, Neco tudo recebeu com indiferença, como se não lhe dissesse respeito. Parecia desligado da realidade e cumpriu a pena sem reclamações. Expiava conformado a própria culpa. Deixando a prisão, mostrava-se triste e envelhecido. Em silêncio, liquidou os negócios e desapareceu.

Soube-se mais tarde que fixara residência numa fazendola das proximidades de outra cidade. E, para surpresa geral, casou-se com uma japonesa, cedendo talvez à curiosidade de verificar pessoalmente se as orientais são mesmo diferentes. Tratava-se de uma dúvida que o acicatava de longos anos.

Escrito por Enéas Athanázio, 27/05/2019 às 15h34 | e.atha@terra.com.br

CONTO EM XILOGRAVURA

Edições da Confraria, selo editorial da Confraria dos Bibliófilos do Brasil (CBB), com sede em Brasília, publicou um volume que é uma preciosidade. Trata-se do conto “Brutalidade”, de autoria do folclorista e pesquisador Leonardo Mota (1891/1948), única incursão conhecida na área da ficção, resgatada de um jornal que não pode ser identificado e publicada em 1920. Bastante longo, bem escrito e encadeado, o conto constitui-se numa grande surpresa, uma vez que revela o talento de um autor interessado em outras áreas para a short story. A história, chocante, se insere entre as obras da corrente naturalista e agrada pela maneira segura com que é conduzida, além do fato de ser uma raridade.

Mais curioso ainda é que o conto, além de publicado de maneira normal, é reproduzido em 50 xilogravuras de autoria do gravurista José Lourenço (Gonzaga), um dos mais conhecidos expoentes dessa arte tão difícil quanto trabalhosa. Como se sabe, a xilogravura é entalhada em uma prancha de um tipo especial de madeira (umburana ou louro), formando um molde sobre o qual é espalhada a tinta para permitir a impressão em papel. Lourenço é profissional da arte, de renome internacional, tendo realizado exposições em várias partes do mundo e suas obras estão expostas em importantes museus. Tem publicado álbuns, incontáveis capas de cordéis e realizado inúmeras outras obras.

Cada cena do conto é retratada em uma xilogravura conforme a visão do artista, de sorte que o leitor pode acompanhar o desenrolar da história cotejando com as ilustrações. A geografia dos locais, a paisagem, as características dos personagens, as suas fisionomias e reações faciais e tudo mais pode ser observado pelo leitor.

Segundo o editor, esse tipo de publicação é rotulado de Romance Gráfico Sem Palavras (Wordless Graphic Novels) e tem longa tradição em vários países. O processo foi criado pelo belga Frans Mosereel e tem sido praticado tanto na Europa como nos Estados Unidos. Não se confunde com as histórias em quadrinhos porque as ilustrações não têm legendas. (Nos Estados Unidos, novel é o nosso romance).

O livro contém interessante crônica de Mimosa Mota Fernandes sobre o pai Leonardo Mota, também conhecido como Leota, um ensaio de Jorge Brito sobre o contista e outro de Gilmar de Carvalho a respeito do gravurista. O conto, sob o aspecto literário, é analisado pelo crítico Sânzio de Azevedo em substancioso e preciso ensaio introdutório.

Como de costume, o livro é em si mesmo uma obra de arte gráfica. Em tamanho grande, com capa dura e sobrecapa, seus exemplares, numerados, se destinam a cada um dos associados da Confraria na ordem de suas inscrições. É obra para colecionadores, apaixonados por livros e leitores exigentes. Exemplares extras podem ser obtidos pelos interessados

_________________________
Confraria dos Bibliófilos do Brasil (CBB):
Caixa Postal 8 6 3 1 – CEP 70302-970 – DF.

 

Escrito por Enéas Athanázio, 20/05/2019 às 11h07 | e.atha@terra.com.br



1 2 3 4 5 6

Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade

Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br

Página 3
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

TUDO JUNTO (I)

A globalização atual, - porque outras aconteceram ao longo da história, - trouxe múltiplas consequências. Se, por um lado, facilitou o intercâmbio de produtos e informações, por outro descurou das coisas da cultura em nome do lucro e da vantagem. Assim aconteceu, por exemplo, com o chamado “globês”, por demais comentado na imprensa há alguns anos. Tratava-se da opinião de que não se justificava a existência de muitas palavras com o mesmo significado, devendo a linguagem, em consequência, ser enxugada dos sinônimos para que se usasse uma só e mesma palavra para designar alguma coisa. Diziam que não era econômico e nem prático manter vários vocábulos com o mesmo significado e, assim, o empobrecimento do vocabulário das pessoas se impunha. Ora, é justamente pela amplitude de seu vocabulário que se mede a cultura da pessoa, tornado-a capaz de interpretar qualquer texto escrito, de tal forma que a esdrúxula teoria propunha um movimento para trás, isto é, da incultura e da ignorância. Ninguém precisaria conhecer mais que 300 a 500 palavras para ganhar dinheiro, o valor maior e único dos afinados com a tal teoria. E todos falariam da mesma forma, como se fossem cópias.

Agora, porém, as coisas foram adiante. Uma ideia aberrante que se denomina “pedagogia pragmática” vem plantando notinhas na mídia no sentido de negar a necessidade de alfabetizar as pessoas, ou seja, não se ensinaria mais as pessoas a ler e, acima de tudo, a escrever. Seriam coisas supérfluas, pouco práticas e econômicas pelo tempo que tomam, uma vez que o audiovisual seria suficiente para a vida normal. Ler para quê? Escrever para quê? São atividades arcaicas e inúteis. Em duas ou três gerações o mundo voltaria a ser ágrafo, como nos áureos tempos das cavernas. A suprema consolidação da modernidade!

Tudo se resumiria ao som e à imagem. As cédulas de dinheiro trariam desenhos que representassem seus valores. E, com certeza, surgiriam um código semelhante à linguagem para surdos e outros recursos que dispensassem por completo a palavra. Os cidadãos, felizes e realizados, ficariam ricos com tanta praticidade e economia. Nos momentos de lazer sentariam diante da televisão de última geração e se comunicariam com os demais através de gestos, caretas e guinchos. Como os macacos.


O irrequieto líder modernista Oswald de Andrade, ainda que por linhas traversas, sempre volta à cena. Lavrou nos jornais aguda polêmica entre os poetas Augusto de Campos e Ferreira Gullar, ambos pioneiros do Movimento Concretista e mais tarde rompidos. Segundo Gullar, em almoço no Rio de Janeiro, há cerca de cinquenta anos, Augusto teria declarado que Oswald de Andrade fôra um irresponsável, desmerecendo o valor de sua obra. Indignado, o poeta paulista protestou e os dois passaram a se xingar através dos jornais de maneira virulenta. Embora seja uma questão de somenos constatar se o tal almoço aconteceu ou não, o assunto tocou em ponto sensível, uma vez que a obra de Oswald de Andrade foi a inspiradora do Concretismo e está na sua própria raiz.

Por coincidência, ou feliz acaso, estreou em São Paulo na mesma época a peça teatral “Macumba Antropófaga”, sob a direção de José Celso Martinez Corrêa, incorporando o célebre Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, uma das peças mais importantes e polêmicas do Modernismo.

Dois acontecimentos fortuitos tiraram do esquecimento, ainda que por tempo limitado, um escritor genial cuja obra é pouco lembrada e, menos ainda, lida.


Na coleção Cine Europeu que o jornal “Folha de S. Paulo” lançou, um dos primeiros números foi “Fitzcarraldo”, de Werner Herzog, com Klaus Kinski e Cláudia Cardinale. É a história do sonhador alucinado que desejava apresentar uma ópera em plena selva amazônica e para isso teve que enfrentar as mais inacreditáveis dificuldades, entre elas a de arrastar um navio completo pelo chão, através da selva, de um rio até outro, para prosseguir na viagem. Os cenários são grandiosos, as cenas chocantes, ainda mais para quem conhece a Amazônia e pode imaginar o tamanho da tarefa de cruzar um matagal fechado e inóspito. Dizem os críticos que tal foi o esforço feito que, após a filmagem, o ator Klaus Kinski teria ficado exaurido, esgotado, como se tivesse perdido a energia vital. Ele e o diretor Herzog brigavam o tempo todo e se consideravam inimigos íntimos. É uma aventura que merece ser vista e revista. 

Escrito por Enéas Athanázio, 17/06/2019 às 08h58 | e.atha@terra.com.br

TUDO JUNTO (II)

Graças à gentileza do talentoso poeta Tarso de Melo, recebi vários exemplares de “K – Jornal de Crítica”, publicado em São Paulo e do qual ele é um dos editores. Tenho para mim que é o mais sofisticado periódico nacional dedicado à crítica literária, contando com uma equipe de primeira linha, e realizando análises de obras e autores fora do âmbito universitário, hoje concentrando quase toda essa atividade, cujo espaço nos jornais está desaparecendo. Entre os que escrevem no jornal destacam-se nomes como Carlos Felipe Moisés, Manuel da Costa Pinto, Donizete Galvão, Reynaldo Damazio e muitos outros, além do próprio Tarso de Melo em sua coluna “K Indica”, focalizando obras recentes. O jornal também agasalha poesias de nível, garimpadas na obra de bons poetas. Excelentes os ensaios sobre Ana Cristina Cesar. Trata-se, enfim, de uma publicação que reavivou o meu enlevo pela velha e boa crítica literária, aquela que se constitui num facho de luz iluminando o caminho dos que não dispensam a companhia dos livros. Como já faz algum tempo que não tenho notícia do jornal, espero que não tenha sido vítima do mal do sexto número, como acontece com tantos periódicos culturais brasileiros.


Noticiaram os jornais que os desmatadores da Amazônia estão adotando métodos mais sofisticados. Com o uso de aviões, pulverizam herbicidas sobre a floresta, provocando em poucos dias a queda total das folhas das árvores. Aí entram as malignas motosserras e os monstruosos tratores derrubando tudo. É um herbicida semelhante ao célebre agente laranja que os Estados Unidos tanto usaram na Guerra do Vietnã. Além da destruição implacável das florestas, o veneno mata animais e insetos e contamina o lençol freático de maneira que a água, em toda a região, provoca intoxicação quando ingerida e problemas cutâneos. A nova modalidade de crime seria inacreditável não fosse constatada por satélite, averiguada in loco por fiscais e objeto de inquérito pela Polícia Federal que, por sinal, apreendeu toneladas do herbicida destinadas ao uso. Tais ações criminosas lembram a política de terra arrasada adotada em algumas guerras pelos inimigos. Mais grave, porém, é que são praticadas por brasileiros contra sua própria pátria, sem qualquer consideração pela saúde das pessoas e pelo futuro do país. E como tais práticas logo encontram imitadores, tudo indica que se multiplicarão de forma incontrolável. Até quando? Até que não reste o menor resquício de verde da maior floresta do mundo. País que tem filhos assim não carece de inimigos.


Quando eclodem escândalos na administração pública todos querem, com razão, que os corruptos sejam punidos. Quase ninguém, no entanto, se lembra de que os corruptores também têm idêntica responsabilidade e merecem a mesma punição. Impera a idéia de que quem rouba o erário é ladrão, mas quem furta dos particulares é esperto. Parece, porém, que as coisas aos poucos começam a mudar. Já aparecem na mídia aqueles que protestam contra isso e lembram que sem corruptores não existem corruptos. Antes tarde.
 

Escrito por Enéas Athanázio, 10/06/2019 às 16h01 | e.atha@terra.com.br

NA CAPITAL DA ERVA-MATE

Convidado pela Academia de Letras do Brasil, seção de Canoinhas, estive naquela cidade no dia 31 de maio. Participei como palestrante da sessão solene comemorativa do quinto aniversário da Instituição. A solenidade transcorreu com brilhantismo, foi muito bem organizada e contou com a presença de público considerável que não arredou pé do recinto até o final. Houve a apresentação dos acadêmicos com referências aos patronos de suas cadeiras, declamações e intervenção do coral da cidade. Na fala, recordei com brevidade minha passagem pela cidade, onde fui Promotor Público e professor, e fiz um resumo do panorama atual do regionalismo literário em nosso Estado, corrente literária com a qual Canoinhas contribui com dois expoentes: Fernando Tokarski e Mário Tessari.

Presidida pela Professora Rosane Godói, a Academia é formada por um grupo idealista e decidido. No seu primeiro quinqüênio já exibe um rico rol de realizações em favor da cultura em geral e das letras em particular. Entre seus membros estão Adair Dittrich, Pedro Penteado e Andreas Costenaro, todos com livros publicados e bem recebidos, além do referido Fernando Tokarski, historiador, dicionarista e contista regional de primeira linha. É também dedicado estudioso da erva-mate em todos seus aspectos, com ênfase na história e na fase áurea que impulsionou o desenvolvimento da cidade, fomentando a riqueza e o luxo e dando-lhe o merecido nome de Capital da Erva-mate. Graças à superior qualidade da “Ilex paraguariensis” lá produzida, é exportada para todos os recantos do país e também para o exterior. Comentei nesta coluna as obras de Dittrich, Penteado, Tokarski e Tessari.

A cidade planaltina de Santa Cruz de Canoinhas, a Ouro Verde de tantas histórias e lutas cresceu e melhorou. Está bem cuidada, suas praças vicejam, é dotada de excelente comércio e dispõe de importantes estabelecimentos de ensino em todos os graus. A Biblioteca Pública e o Museu Histórico são bem administrados e organizados. Durante a Guerra do Contestado (1912/1916), Canoinhas exerceu papel fundamental e lutou por todas as formas para permanecer em nosso Estado, tanto que seu lema é “Catharinensis semper!”.

O retorno a Canoinhas, ainda que breve, foi dos mais agradáveis. Revi velhos amigos e conheci pessoas, convivendo com eles momentos inesquecíveis. Minha esposa e eu fomos festejados, abraçados e presenteados com o carinho típico da gente serrana


Recebi a visita da Professora paulistana Camila Russo de Almeida Spagnoli, da USP, que prepara uma tese de doutorado sobre o escritor mineiro Godofredo Rangel (1884/1951), de quem continuo sendo o único biógrafo. Para melhor aprimorar seu trabalho, ela decidiu conhecer também o biógrafo de seu personagem e se deslocou até aqui com tal finalidade. Conversamos muito sobre o autor de “Vida Ociosa” e sua obra, ela gravou longa entrevista e cotejamos nossas informações. Para enriquecer suas pesquisas, ela foi a Blumenau para consultar o dossiê a meu respeito na Fundação Cultural e depois a Campos Novos, minha cidade natal, em busca de mais elementos. Chegando de retorno a São Paulo, informou que agora se entrega à escrita da tese que, pelo que se conclui, será algo monumental, ressuscitando Rangel do ostracismo e praticando um ato de autêntica justiça literária.  

Escrito por Enéas Athanázio, 05/06/2019 às 11h50 | e.atha@terra.com.br

ALHOS E BUGALHOS

Sílvio Romero (1851/1914) foi uma das figuras mais impressionantes do meio cultural brasileiro. Além de jurista, filósofo e folclorista, foi crítico literário e historiador da literatura. Segundo João Ribeiro, foi o autor da melhor história de nossa literatura até então publicada. Numa de suas inúmeras conferências, fez observações que continuam válidas até hoje pela acuidade com que analisou a realidade nacional. Apontava ele, em certa passagem, a nossa tendência de procurar bodes expiatórios para nossos problemas quando, muitas vezes, a solução está em nós mesmos. Procuramos – escreveu ele – “um responsável pelos nossos desacertos, uma espécie de bode expiatório em que descarregamos nossas cóleras e maldições, quando o mal é imanente à nossa própria índole, ao nosso caráter, que urge reformar por adequados e enérgicos meios.” E enumera exemplos: o mal estava na escravatura, depois no império, mais tarde no voto a bico de pena, na velha Constituição Federal, no modelo educacional e por aí além. No entanto, tudo isso foi mudado, reformado, esquecido e, não obstante... nossos problemas continuam os mesmos, em especial aquele que mais nos indigna – a corrupção. “À vista de todos esses passos errados – indagava ele, - onde se acha a raiz do mal? Em nós mesmos, em nossa própria índole, que urge modificar, quanto possível, encaminhando-nos por outras estradas mais largas e mais seguras.” Em vários trechos alude ele aos políticos profissionais, antes como hoje objeto de constantes críticas. E, no entanto, o político não é um extraterrestre, mas, como todos, um produto da mesma sociedade em que vivemos. Diante disso, a pergunta a ser feita é: por que nossa sociedade vem criando tantos corruptos? Como se dizia nos tempos de dantes, aí é que está o busilis. No momento em que escrevo o tema dominante é a reforma da Previdência. Nela estaria a panacéia milagrosa para todos nossos males e no dia imediato o país será outro. Haverá quem acredite?

Essas e outras observações foram sugeridas pelo livro “Sílvio Romero e a Europa dos Pobres”, de Francisco de Vasconcellos, cuja leitura é das mais interessantes.


Dois assuntos voltaram a ocupar espaços na mídia nestes últimos tempos. O primeiro diz respeito à entrevista concedida por Jacqueline Kennedy em 1964, poucos meses após o homicídio de seu marido, o presidente John F. Kennedy, em Dallas, no Texas. Numa passagem de sua longa fala ela confessa que o marido, em 1962, já tramava contra o presidente João Goulart em secretas conversas com o embaixador americano no Brasil. Segundo trechos transcritos em jornais, o Departamento de Estado americano “propõe o rápido reconhecimento e apoio a qualquer regime que os brasileiros instalem, substituindo Goulart. E os EUA reconheceram o novo governo no dia 2 de abril, enquanto João Goulart ainda estava no Brasil.” Concluindo: o bom moço, herói de guerra, campeão dos direitos civis, enquanto se fantasiava de democrata insuflava golpes e apoiava ditaduras em outro país. Triste realidade.

O segundo assunto trata da Comissão da Verdade, a quem cabe fazer a narrativa oficial das violações dos direitos humanos entre 1946 e 1988 no Brasil. Seu objetivo não é uma caça às bruxas mas colocar em pratos limpos todas as barbaridades cometidas, inclusive antes de 1964, no regime da Constituição de 1946, período em que perseguições políticas levaram muitos brasileiros à prisão e ao exílio, embora houvesse no país uma democracia formal. O pintor Cândido Portinari, por exemplo, teve que se exilar na Argentina. Muita coisa interessante vai ganhar registro oficial.


O jornal “Folha de S. Paulo” publicou um caderno especial denominado “O custo da corrupção.” Ali estão listados os grandes escândalos que vêm emporcalhando a vida pública do país. Como de costume, porém, os corruptos são execrados mas os corruptores são omitidos, como se não existissem. Como se fosse possível uma corrupção de mão única.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/06/2019 às 14h42 | e.atha@terra.com.br

INCIDENTE NATALINO

Naquela manhã, quando saía de casa, Neco estava feliz. Sentia-se leve e tranquilo como poucas vezes acontecera. Chegando à área que se abria para a praça, contemplou do alto a cidade parada e silenciosa naquele começo de dia de Natal. Estendeu o olhar pela campanha que cercava a cidade e se admirou com o verde vivo que reverberava à luz do sol e que em geral não observava, envolvido nas ocupações e negócios. Permaneceu por alguns momentos entregue àquela muda contemplação e depois desceu devagar os dois lances de escada que o separavam do solo. Na rua, envergando roupas novas e bem talhadas, caminhou em passos lentos até a avenida principal, cumprimentando sorridente os conhecidos com quem cruzava. Entrou, afinal, na floricultura que ainda abria as portas e adquiriu um ramalhete de flores para a mulher. Ela, com certeza, gostaria da gentileza, atitude frequente no passado e que aos poucos se tornou rara. Sem dúvida, ela merecia!

Retornando para casa, meio sem jeito, com as flores na mão, ruminava bons pensamentos. A empresa estava bem, o ano fora positivo para os negócios, o filho, ainda garoto, se revelou um bom aluno e a mulher continuava bonita e sensual. Aconteceram algumas confusões, entre elas o boato de que havia falado mal do padre vigário e ele tentara processá-lo, além de desancar os linguarudos num sermão raivoso de domingo. Os comentários foram maldosos, provocaram grande tensão, mas tudo acabou em nada. Também aconteceu o atropelamento da carroça com o velhinho que a conduzia, quando dirigia um calhambeque que estava a seus cuidados. Depois de muita discussão, o caso se resolveu a contento, ainda que desembolsando boa quantia. Ah! – lembrou de repente – houve a discussão (ele dizia discutição) com certo Arcidioso, tido e havido como perigoso, mas ele o enfrentou de revólver em punho e o outro fugiu com o rabo entre as pernas. Problemas menores ainda aconteceram, como é natural no correr da vivência. Agora, passado o tempo, todos se tornaram motivo de piadas e brincadeiras.

Em casa, Neco almoçou com a esposa e, depois de um bom descanso, começaram a beber. Aproveitando a ausência do filho que se encontrava em viagem, passando os festejos com os avós, avançaram nos brindes e empinaram consideráveis doses de champanhe. Depois se recolheram ao banheiro, encheram a enorme banheira de água espumante e se entregaram às carícias e ao amor. Ele enchia as taças e estimulava a mulher a beber. Ela já dava mostras de embriaguez, não tinha o hábito de beber, mas continuava ingerindo a bebida, estendida na banheira, lânguida e sonolenta, o corpo nu relaxado dentro da água tépida. Para estimulá-la, ele a puxou para baixo pelo dedo do pé, fazendo com que escorregasse, submergindo. Ela levantou a cabeça, tossindo a água que engoliu e rindo molemente. Outras doses foram tomadas e Neco repetia a perigosa brincadeira, puxando a mulher para baixo e fazendo-a submergir. E assim as mesmas manobras se repetiram até que, tomado por um repentino sentimento maligno, ele a manteve por mais tempo em baixo da água espumante. Só então, alarmado, percebeu que a mulher não voltava e nem se movia. Desesperado, puxou-a para fora e compreendeu num instante que fora longe demais. Ela não respirava; estava morta.

Tentou de todos os modos reanimá-la. Massagens no peito e nas costas, respiração boca-a-boca, tapinhas no rosto. Tudo inútil. O corpo bronzeado e sensual não tinha sinais vitais e permaneceu inerte sobre o tapete onde ele o colocou.

Tomado de desespero, saiu gritando por socorro pela rua a fora. Mas era tarde demais.

A notícia explodiu como uma bomba na pacatez da cidadezinha e ganhou todos os recantos. Pessoas cercaram a casa, curiosas e incrédulas. Os mais estranhos comentários dominaram as conversas por longo tempo e os incidentes do passado de Neco voltaram detalhados, esmiuçados e exagerados, inclusive alguns que se encontravam esquecidos. Mesmo sem julgamento, ele foi condenado, e aquele Natal permaneceu indelével na memória local.

Preso e condenado, Neco tudo recebeu com indiferença, como se não lhe dissesse respeito. Parecia desligado da realidade e cumpriu a pena sem reclamações. Expiava conformado a própria culpa. Deixando a prisão, mostrava-se triste e envelhecido. Em silêncio, liquidou os negócios e desapareceu.

Soube-se mais tarde que fixara residência numa fazendola das proximidades de outra cidade. E, para surpresa geral, casou-se com uma japonesa, cedendo talvez à curiosidade de verificar pessoalmente se as orientais são mesmo diferentes. Tratava-se de uma dúvida que o acicatava de longos anos.

Escrito por Enéas Athanázio, 27/05/2019 às 15h34 | e.atha@terra.com.br

CONTO EM XILOGRAVURA

Edições da Confraria, selo editorial da Confraria dos Bibliófilos do Brasil (CBB), com sede em Brasília, publicou um volume que é uma preciosidade. Trata-se do conto “Brutalidade”, de autoria do folclorista e pesquisador Leonardo Mota (1891/1948), única incursão conhecida na área da ficção, resgatada de um jornal que não pode ser identificado e publicada em 1920. Bastante longo, bem escrito e encadeado, o conto constitui-se numa grande surpresa, uma vez que revela o talento de um autor interessado em outras áreas para a short story. A história, chocante, se insere entre as obras da corrente naturalista e agrada pela maneira segura com que é conduzida, além do fato de ser uma raridade.

Mais curioso ainda é que o conto, além de publicado de maneira normal, é reproduzido em 50 xilogravuras de autoria do gravurista José Lourenço (Gonzaga), um dos mais conhecidos expoentes dessa arte tão difícil quanto trabalhosa. Como se sabe, a xilogravura é entalhada em uma prancha de um tipo especial de madeira (umburana ou louro), formando um molde sobre o qual é espalhada a tinta para permitir a impressão em papel. Lourenço é profissional da arte, de renome internacional, tendo realizado exposições em várias partes do mundo e suas obras estão expostas em importantes museus. Tem publicado álbuns, incontáveis capas de cordéis e realizado inúmeras outras obras.

Cada cena do conto é retratada em uma xilogravura conforme a visão do artista, de sorte que o leitor pode acompanhar o desenrolar da história cotejando com as ilustrações. A geografia dos locais, a paisagem, as características dos personagens, as suas fisionomias e reações faciais e tudo mais pode ser observado pelo leitor.

Segundo o editor, esse tipo de publicação é rotulado de Romance Gráfico Sem Palavras (Wordless Graphic Novels) e tem longa tradição em vários países. O processo foi criado pelo belga Frans Mosereel e tem sido praticado tanto na Europa como nos Estados Unidos. Não se confunde com as histórias em quadrinhos porque as ilustrações não têm legendas. (Nos Estados Unidos, novel é o nosso romance).

O livro contém interessante crônica de Mimosa Mota Fernandes sobre o pai Leonardo Mota, também conhecido como Leota, um ensaio de Jorge Brito sobre o contista e outro de Gilmar de Carvalho a respeito do gravurista. O conto, sob o aspecto literário, é analisado pelo crítico Sânzio de Azevedo em substancioso e preciso ensaio introdutório.

Como de costume, o livro é em si mesmo uma obra de arte gráfica. Em tamanho grande, com capa dura e sobrecapa, seus exemplares, numerados, se destinam a cada um dos associados da Confraria na ordem de suas inscrições. É obra para colecionadores, apaixonados por livros e leitores exigentes. Exemplares extras podem ser obtidos pelos interessados

_________________________
Confraria dos Bibliófilos do Brasil (CBB):
Caixa Postal 8 6 3 1 – CEP 70302-970 – DF.

 

Escrito por Enéas Athanázio, 20/05/2019 às 11h07 | e.atha@terra.com.br



1 2 3 4 5 6

Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade