Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

A MISSÃO DO DR. ADROALDO

Pela segunda década do século passado o jovem Adroaldo, pernambucano do Recife e bacharel em Direito, é convidado pelo presidente do Estado a assumir o cargo de Promotor Público da comarca de Majestosa, no sul do país. Tinha como missão conter o separatismo que, segundo diziam, contava com adeptos na cidade, além de combater a criminalidade. Majestosa, situada ao pé da Serra, era uma cidade habitada por descendentes de alemães, cultivava os costumes germânicos e usava uma linguagem típica, engrolando um patuá que misturava o alemão e o português. Adroaldo assume suas funções imbuído das melhores intenções de cumprir à risca a missão que lhe fora confiada mas se depara com obstáculos jamais imaginados. Sem entender com precisão a linguagem local, provoca toda sorte de confusões, sempre interpretadas por outro prisma pela população, cuja opinião a respeito dele se divide. Ele enxerga maquinações separatistas até em reuniões de senhoras conversadeiras; vê indícios de crimes em atitudes triviais das pessoas, influenciado pela constante leitura de romances policiais. Até que, depois de tantas e tão variadas confusões, se convence de que a ameaça separatista na verdade não existe e a criminalidade local é escassa e leve. Para completar, apaixona-se pela bibliotecária Gertrude, cujo falecimento precoce o deixa arrasado. Durante muitos anos exerce as funções na comarca e morre solteiro, sem deixar descendentes e sem merecer nome de rua ou avenida. Até que um jornalista, tomado pela curiosidade histórica e pela originalidade do personagem, resolve biografá-lo, deparando-se com toda sorte de dificuldades diante da ausência de fontes de informação. Com grande esforço, colhendo dados daqui e dali, consegue reconstituir os passos do aguerrido Promotor e, mais tarde, encontra seu diário cujo conteúdo pouco altera o que havia escrito. Esse é, em grossas pinceladas, o enredo do romance “Adroaldo, de Majestosa”, de autoria de Eduardo Sens, publicado pela Editora Penalux (S. Paulo – 2018).

O autor revela paciência e fôlego para textos prolongados e mantém a narrativa em nível elevado, não permitindo que decaia o interesse do leitor, tarefa nem sempre alcançada no gênero romanesco. Escreve com desenvoltura e correção, enfrentando com habilidade os momentos dramáticos, sentimentais, de ação e de humor. Tem cultura e informação. Tudo indica que inicia com o pé direito uma bela carreira de romancista.

Há personagens e momentos inesquecíveis, a começar pela chegada de Adroaldo a Majestosa e sua condução ao hotel. Mais tarde, o discurso inflamado que profere no auditório vazio deixa as pessoas boquiabertas. Diligente e atento, não é homem de gabinete e busca sempre a ação. E assim, vai ter num chiqueiro de porcos com o objetivo de salvar crianças vítimas de crimes hediondos, embora tudo não fosse além de suas dificuldades com a fala local. Em outra diligência, imaginando maquinações separatistas, invade mu milharal numa das situações mais insólitas de todo o livro. Depara-se com inocente reunião de senhoras conversadeiras, enrosca-se numa cerca, é atacado por um velho cão e perde um pé dos sapatos. Mas tudo aceita com dignidade, suportando as agruras como ônus da função. Trata de investigar certo Professor Werner, autor de um livro que lhe infunde suspeitas, especializado na fabricação de salame e surdo quando convém. Para fugir de situações embaraçosas, confunde infame e exame com salame. No final, Adroaldo e Werner se tornam amigos, ainda que este seja suspeito de ter sido correspondente nazista no correr da guerra e, por contraditório que fosse, o único separatista verdadeiro da cidade. Como se vê, o romance tem ação, humor e registra os “devaneios alucinados” do jovem Promotor.

Mário de Andrade estudou as diferenças entre a língua e a fala. Aquela obedece aos cânones e às regras, esta é a maneira como o povo se expressa. No caso do romance, a diferença entre elas é ainda maior e às vezes ininteligível para ouvidos pouco treinados em virtude da influência estrangeira. Nesse aspecto o romance tem um fundo documental.

Saúdo o novel romancista, duas vezes colega, como escritor e membro do Ministério Público, desejando-lhe um futuro de muitas realizações e conquistas.

Escrito por Enéas Athanázio, 15/04/2019 às 15h48 | e.atha@terra.com.br

PITIGRILLI

Como tantos escritores que desfrutaram de grande popularidade, Pitigrilli anda esquecido. Nascido Dino Segre (1883/1975), adotou o pseudônimo cantante com o qual se consagrou e que usou até falecer, em Turim, onde veio à luz e morou a maior parte da existência. Como auto-exilado, residiu por algum tempo na Argentina, porque “gostava de por os pingos nos ii no que escrevia” e, em conseqüência, o ar da Itália estava ficando denso em demasia. Como sempre, ao longo da História, a pena dos escritores incomodava os mandões do momento.

Segundo relatou em suas memórias, “Pitigrilli fala de Pitigrilli”, saiu de casa, certa manhã, com a intenção de se matricular no curso de medicina. Como a fila estava muito longa, acabou se matriculando na Faculdade de Direito, ainda que jamais tivesse a menor intenção de fazer uso do diploma. Não tardou a se destacar como cronista, contista e romancista, e seus livros obtiveram grande aceitação, impulsionados também pela figura curiosa e carismática do próprio autor. Vários de seus livros se transformaram em best-sellers mundiais e conquistaram considerável público no Brasil, onde foram traduzidos e publicados pela extinta Editora Vecchi, do Rio de Janeiro.

Entre suas obras mais conhecidas alinham-se “A loura dolicocéfala”, cujo título vulgarizou a expressão e a colocou na boca do povo, “Cocaína”, no qual descreveu com humor e acuidade suas experiências com o uso da droga, fato raro na época, “Pitigrilli fala de Pitigrilli”, autobiografia escrita com ironia e onde revelou, ao final, suas preocupações místicas e certa inclinação pelo espiritismo. Publicou ainda um volume de crônicas saborosas, dentre as quais se destaca “ite” e “ose”, comentando as enfermidades agudas e crônicas, reais e imaginárias. Também fez sucesso entre nós o romance “O farmacêutico a cavalo”, tremenda sátira aos heróis consagrados, em especial nas pequenas comunidades. Traduzido por Marina Guaspari, renomada tradutora da época, foi publicado em 1951 num daqueles feios volumes da Editora Vecchi, em papel escuro, áspero e grosso.

Esse romance relata a história de uma cidade que, de repente, se deu conta de que não possuía nenhuma estátua glorificando algum herói da terra. Começam, então, as discussões sobre o local e o tipo do monumento a ser erigido em praça pública. Ficou decidido que seria uma estátua equestre, como convém a toda cidade que se preze, esculpida em puro bronze, de preferência com o homenageado apontando a espada para o alto. Muitos e inflamados foram os debates mas, afinal, chegou-se ao consenso.

As dificuldades surgiram mesmo na escolha do conterrâneo a ser homenageado, ou melhor, em encontrá-lo. O primeiro foi descartado porque se descobriu que era estrangeiro; o segundo foi deixado de lado porque não gozava de reputação ilibada; o terceiro, enfim, havia escrito coisas ofensivas à cidade. E assim, de exclusão em exclusão, chegaram à melancólica conclusão de que não havia a quem homenagear. Até que alguém, num rasgo salvador, se lembrou do farmacêutico, cidadão pacato, ilibado, trabalhador, acima de qualquer suspeita. Mas um farmacêutico a cavalo numa estátua em praça pública? Absurdo! Depois de novas e intermináveis discussões, a explicação foi encontrada: o cavalo estaria com as patas dianteiras dobradas, como se estivesse inclinado, e seu cavaleiro com os olhos fitos no solo. Como cientista e pesquisador da farmacologia, estaria procurando ervas naturais que pudessem enriquecer suas curativas poções medicinais. E, naturalmente, a espada foi esquecida.

Dessa forma, entre vivas e discursos, foi encontrada solução. A cidade orgulhosa passou a contar com uma grande estátua equestre no principal logradouro, inaugurada com muita solenidade, homenageando um filho modesto mas legítimo e inatacável. É claro que a cidade em questão não era brasileira; aqui teríamos heróis aos montes e a dificuldade seria decidir qual deles ocuparia o honroso posto.

Para evitar que o leitor apressado vá direto ao desenlace, o romance tem a curiosidade de começar pelo capítulo sexto e todos os demais estão fora de ordem. Essa tática nasceu ao ver uma leitora, no bonde, abrindo com espátula as páginas finais de um livro, desprezando todo o esforço do autor para armar o seu enredo.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/04/2019 às 23h59 | e.atha@terra.com.br

A SECULAR ARTE DE JULGAR MAL

Revista de circulação nacional, dedicada a temas históricos, publicou extensa matéria a respeito de Monteiro Lobato (1882/1948) e sua incansável luta pelo petróleo no país subscrita por Luiz Muricy Cardoso (*).O autor relata as dificuldades enfrentadas pelo escritor para tentar a exploração do petróleo e as inacreditáveis perseguições de que foi vítima. Lobato entendia que o chamado ouro negro deveria ser explorado pela iniciativa privada nacional, evitando que caísse nas mãos do capitalismo mundial, o que sujeitaria o Brasil à submissão estrangeira em prejuízo de sua soberania. Afirmava ele que grande parte dos terrenos potencialmente petrolíferos já haviam sido “acaparados” pelos trustes internacionais e revelava tais fatos com provas irrefutáveis. Mas esses argumentos que hoje parecem tão óbvios eram descartados com a afirmação de que não havia petróleo no subsolo brasileiro, quando a Bolívia, nas proximidades de nossa fronteira, encontrara abundante e excelente óleo. Na verdade, sustentava Lobato, o governo brasileiro não queria extrair o petróleo e nem permitir que os brasileiros o extraíssem.

Em função disso, vieram as perseguições de toda ordem, culminando com a proibição pura e simples da exploração e, mais tarde, com um processo no nefando Tribunal de Segurança Nacional no qual o escritor foi condenado a seis meses de prisão, tendo cumprido a metade da pena até ser anistiado pelo presidente Vargas. Essa condenação, como é de imaginar, deixou profundas marcas na alma do patriota que ele era.

O tempo se encarregaria de comprovar que Lobato tinha razão e seu movimento foi o mais antigo precursor da pregação nacionalista que levaria à implantação do monopólio estatal do petróleo através da PETROBRAS. Embora adepto da exploração pela iniciativa privada, mais tarde o escritor se convenceu de que o monopólio estatal era a melhor solução, como declarou em carta a Getúlio Vargas. De qualquer forma, seu nome está ligado para sempre à história petrolífera nacional.

A partir daí, o articulista envereda por caminhos tortuosos na tentativa de relacionar o “pó de pirlimpimpim” à cocaína. Não deixa de ser estranho que um assunto ligado à literatura infantil seja incluído em reportagem a respeito do petróleo, mas ele mereceu um tópico especial no qual o autor se esforça para estabelecer uma relação que não passa de puro exercício de imaginação. O pó milagroso foi uma criação genial de Lobato sem qualquer intenção de sugerir o uso de cocaína ou outro produto do gênero. Como o pessoalzinho do Sítio do Picapau Amarelo não dispunha de recursos para suas viagens, o escritor imaginou o uso do pó que os levaria onde desejassem, mas sem o efeito surreal provocado pela cocaína. Nunca passou pela cabeça do escritor sugerir o uso da droga. A relação é, na verdade, uma criação do autor, enxergando intenções escusas onde não existiram. É o resultado de uma tendência de enxergar intenções malévolas ocultas em quaisquer atividades alheias, por mais inocentes que sejam. Até no nome Narizinho, atribuído à personagem Narizinho Arrebitado, o autor da reportagem vê indícios sugestivos do uso de cocaína, o que não tem fundamento porque a menina já aparece no primeiro livro da saga infantil. A hipótese levantada por ele não passa de uma infeliz elucubração cujo propósito me escapa: seria a busca do sensacionalismo ou a tentativa de criar uma polêmica? Ou, quiçá, um ato provocado pela secular arte de julgar mal o próximo?

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(*) “Leituras da História”, edição 95, ano de 2016, p. 50;

Escrito por Enéas Athanázio, 01/04/2019 às 10h39 | e.atha@terra.com.br

A LONGA NOITE SEM LUA

O escritor norte-americano John Steinbeck (1902/1968), Prêmio Nobel de Literatura, tornou-se popular em todo o mundo, inclusive no Brasil, onde tem inúmeros leitores, graças a alguns de seus livros mais conhecidos, como o célebre “As vinhas da ira”, “Doce quinta-feira” e “A pérola”, este último vertido para o cinema e o teatro nacionais. Foi um dos escritores mais filmados em vários países. Outros livros dele, no entanto, também tiveram numerosos leitores, como “Boêmios errantes”, “O inverno de nossa desesperança” e o pequeno romance “A longa noite sem lua”, traduzido para o português por Pinheiro de Lemos, e aquele que mais me toca em toda sua obra. É uma lição de amor à liberdade e de respeito à democracia, tanto que sua posse, nos países ocupados, durante a II Guerra Mundial, mesmo em toscas reproduções, importava em sumário fuzilamento.

Nesse romance, escrito com empenho e emoção, o exército nazista invade quase sem resistência um pequeno e indefeso país, instalando-se numa diminuta cidade onde funcionava produtiva mina de cujo carvão os ocupantes necessitavam com urgência. Logo de chegada, com a costumeira brutalidade, mataram com rajadas de metralhadoras seis guardas locais e feriram mais alguns, sem necessidade. Instalaram seu estado-maior no modesto palácio da prefeitura e tentaram, a todo custo, obter a adesão do prefeito, embora este explicasse que fôra eleito por um povo que só admitia autoridades por ele escolhidas com liberdade. Aquele povo elegia seus dirigentes há tanto tempo que se perdia na memória e há quatrocentos anos não sofria invasões estrangeiras. Para ele, só o voto legitimava os homens públicos, escolhidos depois de muita discussão e cada um votando conforme suas ideias. Povo dócil, trabalhador e pacífico – mas livre. Enquanto os nazistas seguiam sem discutir a ordem do líder, entre aquele povo cada um era seu próprio líder. Tentava explicar a diferença entre obediente e cumpridor da lei. Os invasores, arrogantes, não lhe deram ouvidos, imaginando que país ocupado significava país dominado. Esse erro de avaliação psicológica custou-lhes caro, foi sua perdição.

Passado o susto inicial, começou a resistência, uma resistência em surdina, uma resistência de algodão – como diria Graciliano Ramos. Os habitantes negavam a palavra aos ocupantes, só compravam o indispensável, recolhiam-se às suas casas, fugiam de qualquer contato com o invasor. Logo de início uma cozinheira (alçada à condição de heroína) lança água fervente em soldados que a espiavam através da porta, restaurantes serviam aos soldados comida com excesso de sal ou pimenta, um tenente foi morto a golpes de tesoura por uma mulher, outro tentou obrigar um mineiro a trabalhar e foi morto a picaretadas, a usina elétrica deixava de funcionar por mistério, vagonetes da mina descarrilavam, máquinas ficavam avariadas, atentados anônimos aconteciam. Nos menores gestos transparecia o ódio contido. E assim, dia a dia, o terror foi num crescendo, os invasores se sentiam cercados, vigiados, ameaçados; os vencedores temiam os vencidos. Enquanto isso, pescadores que fugiam levavam mensagens aos aliados e estes começaram a lançar dos aviões cartuchos de dinamite aos milhares, com instruções de uso, armando a população civil. Começam as explosões, aqui, ali, acolá, em toda parte, isoladas no começo, depois em série, tornando inviável o uso da mina ou de qualquer serviço da cidade coberta de neve. Ao longe, em outros campos de batalha, os aliados avançavam para a vitória final.

Nem o fuzilamento do prefeito e do velho médico, Dr. Winter, interrompe a reação popular. Este último, ao rumar para a morte, afirma ante um perplexo estado-maior: “Nosso país foi invadido, mas não creio que tenha sido conquistado. Ninguém jamais conseguirá quebrar o espírito do homem permanentemente!”

Escrito por Enéas Athanázio, 26/03/2019 às 11h11 | e.atha@terra.com.br

UMA HISTÓRIA DE AMOR E BALAS

Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, é uma das figuras mais conhecidas da história nacional contemporânea. Poucos homens públicos podem com ele se ombrear em fama e prestígio. Esse conhecimento, no entanto, é quase sempre superficial. Como alguns outros personagens célebres, não é muito o que se sabe de sua real personalidade. Apesar da imensa bibliografia existente, Lampião esconde uma face misteriosa e enigmática. O homem Lampião continua distante.

Decorrido quase um século de sua morte, em 1938, o cangaceiro continua a instigar o interesse dos pesquisadores e as obras a seu respeito não cessam de aparecer. Dentre as mais recentes está o livro “Lampião & Maria Bonita – Uma história de amor e balas”, de autoria do jornalista paulistano Wagner Gutierrez Barreira, publicado pela Editora Planeta (S. Paulo – 2018). É um livro bem escrito, lastreado em intensas pesquisas bibliográficas, visitas a locais de eventos significativos, entrevistas e buscas em publicações e documentos antigos. Traça uma biografia paralela dos dois personagens centrais da gesta cangaceira e revela com imparcialidade as atividades do bandoleiro que desafiou as autoridades e as volantes policiais que fervilhavam pelo sertão em seu encalço. Certas passagens chegam a ter o sabor de genuínas obras de ficção, tão inacreditáveis, ainda que rigorosamente verdadeiras.

Lampião era capaz de atos de extrema generosidade e de atitudes de absoluta crueldade. Implacável nas vinganças, tinha uma coragem sobre-humana. Ferido em combate, foi operado a frio, sem anestesia e sem um gemido. Quando fugiam das tropas policiais, a única filha, ainda de colo, começou a chorar, colocando em risco a segurança do bando. “Mate isso!”, teria determinado a Maria Bonita, ao que ela, indignada, jogou um cantil contra ele, atingindo-o na cabeça. O autor do livro revela um verdadeiro rosário de atrocidades e relaciona, com lugares e datas, os inúmeros combates em que o bando se envolveu.

Alguns episódios superam a ficção. No auge da fama, Lampião enviou uma carta ao governador de Pernambuco propondo a divisão do Estado. Ele governaria o sertão, deixando o restante do território estadual por conta do governador. Em outra ocasião, convidado por Floro Bartolomeu, braço direito do Padre Cícero Romão Batista, visitou Juazeiro do Norte, com toda sua cabroeira, onde foi recebido, entrevistado, armado e municiado para que se comprometesse a combater a Coluna Prestes que assombrava o Nordeste. Forjaram para ele uma patente de capitão dos Batalhões Patrióticos, assinada por um agrônomo do Ministério da Agricultura, sem qualquer validade. Desde então o cangaceiro passou a se declarar capitão mas jamais combateu a Coluna. Semianalfabeto, era inteligente, não se arriscando a enfrentar uma tropa de militares profissionais bem preparados e armados. Quando soube que a patente não tinha valor, teria ficado furioso e ameaçou invadir Juazeiro mas acabou recuando porque a cidade estava muito bem guarnecida. O folclorista potiguar Veríssimo de Melo afirmou que por ocasião do convite o Padre Cícero “estava dementado”, ou seja, “caduco”, na linguagem popular. Essa declaração provocou intensa polêmica.

O livro desvenda muitos episódios interessantes sobre a vida de Lampião e Maria Bonita, suas atividades e amores. É uma contribuição importante para o conhecimento de um tema inesgotável e fascinante: o cangaço. Uma forma de banditismo organizado típica do Brasil, sem similar no mundo e na história.

Escrito por Enéas Athanázio, 18/03/2019 às 13h39 | e.atha@terra.com.br

PROEZAS DE LAMPIÃO

O cangaço foi uma forma de banditismo organizado típica do Brasil, sem similar no mundo ou na história. Ela só foi possível graças aos imensos espaços vazios, abertos e livres de obstáculos, com a população escassa vivendo em fazendas isoladas ou pequenas cidades e vilas com poucos moradores e destituídas de meios de proteção. Graças a isso, o cangaço se espalhou por todo o Nordeste, partes de Minas e de Goiás e, apesar das chamadas “volantes policiais” fervilharem na região em perseguição aos cangaceiros, eles resistiam e seus bandos se tornavam cada vez mais ousados e poderosos. Muitos cangaceiros se transformaram numa espécie de heróis populares, imitações toscas de Robin Hood, que supostamente roubavam dos ricos para dar aos pobres. O Cabeleira, Jesuíno Brilhante, Antônio Silvino, Sinhô Pereira e Corisco (Cristino Gomes da Silva Cleto, o Diabo Loiro) e, acima de todos, Lampião (Virgulino Ferreira da Silva), se notabilizaram em todo o país e até no exterior graças ao noticiário da imprensa a respeito de suas tropelias. A crueldade deles, no entanto, não conhecia limites. Invadiam as povoações, roubavam, sequestravam, destruíam, estupravam e depois se retiravam levando o bárbaro butim.

Lampião granjeou imensa fama. Suas proezas chegaram a ponto de desafiar o governador de Pernambuco, propondo a divisão do Estado entre eles, ficando o cangaceiro como o rei do sertão. Em muitos ataques deixava recados e bilhetes desafiadores às autoridades. Chegou a visitar Juazeiro do Norte, uma das cidades mais importantes da região, avistando-se com o Padre Cícero Romão Batista e as autoridades locais, levando em sua companhia numerosa cabroeira armada. Prometeu combater a Coluna Prestes, obtendo armas e munições, mas jamais a combateu e usou essas provisões em benefício próprio. Encorajado pelo cangaceiro Massilon, aventurou-se a atacar Mossoró, cidade grande e bem guarnecida, mas a população indignada se armou e se defendeu com bravura. Lampião e seu bando sofreram constrangedora derrota e tiveram que se retirar com os rabos entre as pernas. A fuga até Pernambuco, viajando à noite e com toda cautela, foi um episódio épico.

As proezas de Lampião e outros cangaceiros, no entanto, causavam imenso constrangimento ao país, em especial pelo noticiário da imprensa internacional. Era uma vergonha, uma nódoa que em pleno Século XX o cangaço ainda agisse em vasta porção do nosso território. Apesar do intenso combate, ele persistiu até 1938, ano da morte de Lampião, e que os historiadores assinalam como o final do cangaço. As atividades cangaceiras chegaram até quase metade do século passado, enquanto o mundo superava a I Guerra Mundial, a Revolução Russa e outros acontecimentos que alteraram o panorama geopolítico do planeta. Mas os cangaceiros prosseguiam na sua faina assassina, indiferentes a tudo e desafiando o poder do Estado. Com a posse de Getúlio Vargas, na crista da vitoriosa Revolução de 1930, o governo federal “apertou” os governadores para que acabassem com o cangaço o mais depressa possível. Sua sobrevivência constituía uma vergonha nacional. Acabar com ele se tornou uma questão de honra.

Dentro do país, os protestos contra o cangaço não cessavam. Nos discursos e nos jornais muitas vozes se levantavam, exigindo seu fim. Entre os muitos que se manifestaram nesse sentido estava Humberto de Campos, escritor de grande mérito e prestígio, integrante da Academia Brasileira de Letras e temido pela combatividade e pela inaudita coragem. Em seu livro “Notas de um diarista”, 1ª. série, edição póstuma, nada menos que três ensaios são dedicados ao assunto. No primeiro deles, o autor registra sua indignação diante da invasão da vila de Curuçá pelo grupo de Lampião, composto de 60 cangaceiros, e praticando as maiores atrocidades; no segundo, comenta a anunciada formação de uma coluna militar com mais de ml homens e formidável armamento, inclusive com aviões, sob o comando do capitão do exército Carlos Chevalier; no terceiro e último, volta a comentar a Expedição Chevalier, cuja partida fora suspensa em face do elevado custo da operação. Relembra que – como havia previsto – ela estaria fadada ao fracasso, uma vez que metralhadoras pesadas, canhões e tanques de pouco serviriam na caatinga adusta, onde os cangaceiros exercitavam uma guerra móvel, precursora das guerrilhas, contando com grande mobilidade e absoluto conhecimento do terreno.

Enquanto se discutia, o bando de Lampião e outros agiam com a maior liberdade, colocando em pânico as populações sertanejas a um simples boato sobre sua chegada. Em virtude de sua excentricidade, o cangaço é um fenômeno de patologia social dos mais estudados, existindo hoje imensa bibliografia a respeito.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/03/2019 às 11h07 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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A MISSÃO DO DR. ADROALDO

Pela segunda década do século passado o jovem Adroaldo, pernambucano do Recife e bacharel em Direito, é convidado pelo presidente do Estado a assumir o cargo de Promotor Público da comarca de Majestosa, no sul do país. Tinha como missão conter o separatismo que, segundo diziam, contava com adeptos na cidade, além de combater a criminalidade. Majestosa, situada ao pé da Serra, era uma cidade habitada por descendentes de alemães, cultivava os costumes germânicos e usava uma linguagem típica, engrolando um patuá que misturava o alemão e o português. Adroaldo assume suas funções imbuído das melhores intenções de cumprir à risca a missão que lhe fora confiada mas se depara com obstáculos jamais imaginados. Sem entender com precisão a linguagem local, provoca toda sorte de confusões, sempre interpretadas por outro prisma pela população, cuja opinião a respeito dele se divide. Ele enxerga maquinações separatistas até em reuniões de senhoras conversadeiras; vê indícios de crimes em atitudes triviais das pessoas, influenciado pela constante leitura de romances policiais. Até que, depois de tantas e tão variadas confusões, se convence de que a ameaça separatista na verdade não existe e a criminalidade local é escassa e leve. Para completar, apaixona-se pela bibliotecária Gertrude, cujo falecimento precoce o deixa arrasado. Durante muitos anos exerce as funções na comarca e morre solteiro, sem deixar descendentes e sem merecer nome de rua ou avenida. Até que um jornalista, tomado pela curiosidade histórica e pela originalidade do personagem, resolve biografá-lo, deparando-se com toda sorte de dificuldades diante da ausência de fontes de informação. Com grande esforço, colhendo dados daqui e dali, consegue reconstituir os passos do aguerrido Promotor e, mais tarde, encontra seu diário cujo conteúdo pouco altera o que havia escrito. Esse é, em grossas pinceladas, o enredo do romance “Adroaldo, de Majestosa”, de autoria de Eduardo Sens, publicado pela Editora Penalux (S. Paulo – 2018).

O autor revela paciência e fôlego para textos prolongados e mantém a narrativa em nível elevado, não permitindo que decaia o interesse do leitor, tarefa nem sempre alcançada no gênero romanesco. Escreve com desenvoltura e correção, enfrentando com habilidade os momentos dramáticos, sentimentais, de ação e de humor. Tem cultura e informação. Tudo indica que inicia com o pé direito uma bela carreira de romancista.

Há personagens e momentos inesquecíveis, a começar pela chegada de Adroaldo a Majestosa e sua condução ao hotel. Mais tarde, o discurso inflamado que profere no auditório vazio deixa as pessoas boquiabertas. Diligente e atento, não é homem de gabinete e busca sempre a ação. E assim, vai ter num chiqueiro de porcos com o objetivo de salvar crianças vítimas de crimes hediondos, embora tudo não fosse além de suas dificuldades com a fala local. Em outra diligência, imaginando maquinações separatistas, invade mu milharal numa das situações mais insólitas de todo o livro. Depara-se com inocente reunião de senhoras conversadeiras, enrosca-se numa cerca, é atacado por um velho cão e perde um pé dos sapatos. Mas tudo aceita com dignidade, suportando as agruras como ônus da função. Trata de investigar certo Professor Werner, autor de um livro que lhe infunde suspeitas, especializado na fabricação de salame e surdo quando convém. Para fugir de situações embaraçosas, confunde infame e exame com salame. No final, Adroaldo e Werner se tornam amigos, ainda que este seja suspeito de ter sido correspondente nazista no correr da guerra e, por contraditório que fosse, o único separatista verdadeiro da cidade. Como se vê, o romance tem ação, humor e registra os “devaneios alucinados” do jovem Promotor.

Mário de Andrade estudou as diferenças entre a língua e a fala. Aquela obedece aos cânones e às regras, esta é a maneira como o povo se expressa. No caso do romance, a diferença entre elas é ainda maior e às vezes ininteligível para ouvidos pouco treinados em virtude da influência estrangeira. Nesse aspecto o romance tem um fundo documental.

Saúdo o novel romancista, duas vezes colega, como escritor e membro do Ministério Público, desejando-lhe um futuro de muitas realizações e conquistas.

Escrito por Enéas Athanázio, 15/04/2019 às 15h48 | e.atha@terra.com.br

PITIGRILLI

Como tantos escritores que desfrutaram de grande popularidade, Pitigrilli anda esquecido. Nascido Dino Segre (1883/1975), adotou o pseudônimo cantante com o qual se consagrou e que usou até falecer, em Turim, onde veio à luz e morou a maior parte da existência. Como auto-exilado, residiu por algum tempo na Argentina, porque “gostava de por os pingos nos ii no que escrevia” e, em conseqüência, o ar da Itália estava ficando denso em demasia. Como sempre, ao longo da História, a pena dos escritores incomodava os mandões do momento.

Segundo relatou em suas memórias, “Pitigrilli fala de Pitigrilli”, saiu de casa, certa manhã, com a intenção de se matricular no curso de medicina. Como a fila estava muito longa, acabou se matriculando na Faculdade de Direito, ainda que jamais tivesse a menor intenção de fazer uso do diploma. Não tardou a se destacar como cronista, contista e romancista, e seus livros obtiveram grande aceitação, impulsionados também pela figura curiosa e carismática do próprio autor. Vários de seus livros se transformaram em best-sellers mundiais e conquistaram considerável público no Brasil, onde foram traduzidos e publicados pela extinta Editora Vecchi, do Rio de Janeiro.

Entre suas obras mais conhecidas alinham-se “A loura dolicocéfala”, cujo título vulgarizou a expressão e a colocou na boca do povo, “Cocaína”, no qual descreveu com humor e acuidade suas experiências com o uso da droga, fato raro na época, “Pitigrilli fala de Pitigrilli”, autobiografia escrita com ironia e onde revelou, ao final, suas preocupações místicas e certa inclinação pelo espiritismo. Publicou ainda um volume de crônicas saborosas, dentre as quais se destaca “ite” e “ose”, comentando as enfermidades agudas e crônicas, reais e imaginárias. Também fez sucesso entre nós o romance “O farmacêutico a cavalo”, tremenda sátira aos heróis consagrados, em especial nas pequenas comunidades. Traduzido por Marina Guaspari, renomada tradutora da época, foi publicado em 1951 num daqueles feios volumes da Editora Vecchi, em papel escuro, áspero e grosso.

Esse romance relata a história de uma cidade que, de repente, se deu conta de que não possuía nenhuma estátua glorificando algum herói da terra. Começam, então, as discussões sobre o local e o tipo do monumento a ser erigido em praça pública. Ficou decidido que seria uma estátua equestre, como convém a toda cidade que se preze, esculpida em puro bronze, de preferência com o homenageado apontando a espada para o alto. Muitos e inflamados foram os debates mas, afinal, chegou-se ao consenso.

As dificuldades surgiram mesmo na escolha do conterrâneo a ser homenageado, ou melhor, em encontrá-lo. O primeiro foi descartado porque se descobriu que era estrangeiro; o segundo foi deixado de lado porque não gozava de reputação ilibada; o terceiro, enfim, havia escrito coisas ofensivas à cidade. E assim, de exclusão em exclusão, chegaram à melancólica conclusão de que não havia a quem homenagear. Até que alguém, num rasgo salvador, se lembrou do farmacêutico, cidadão pacato, ilibado, trabalhador, acima de qualquer suspeita. Mas um farmacêutico a cavalo numa estátua em praça pública? Absurdo! Depois de novas e intermináveis discussões, a explicação foi encontrada: o cavalo estaria com as patas dianteiras dobradas, como se estivesse inclinado, e seu cavaleiro com os olhos fitos no solo. Como cientista e pesquisador da farmacologia, estaria procurando ervas naturais que pudessem enriquecer suas curativas poções medicinais. E, naturalmente, a espada foi esquecida.

Dessa forma, entre vivas e discursos, foi encontrada solução. A cidade orgulhosa passou a contar com uma grande estátua equestre no principal logradouro, inaugurada com muita solenidade, homenageando um filho modesto mas legítimo e inatacável. É claro que a cidade em questão não era brasileira; aqui teríamos heróis aos montes e a dificuldade seria decidir qual deles ocuparia o honroso posto.

Para evitar que o leitor apressado vá direto ao desenlace, o romance tem a curiosidade de começar pelo capítulo sexto e todos os demais estão fora de ordem. Essa tática nasceu ao ver uma leitora, no bonde, abrindo com espátula as páginas finais de um livro, desprezando todo o esforço do autor para armar o seu enredo.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/04/2019 às 23h59 | e.atha@terra.com.br

A SECULAR ARTE DE JULGAR MAL

Revista de circulação nacional, dedicada a temas históricos, publicou extensa matéria a respeito de Monteiro Lobato (1882/1948) e sua incansável luta pelo petróleo no país subscrita por Luiz Muricy Cardoso (*).O autor relata as dificuldades enfrentadas pelo escritor para tentar a exploração do petróleo e as inacreditáveis perseguições de que foi vítima. Lobato entendia que o chamado ouro negro deveria ser explorado pela iniciativa privada nacional, evitando que caísse nas mãos do capitalismo mundial, o que sujeitaria o Brasil à submissão estrangeira em prejuízo de sua soberania. Afirmava ele que grande parte dos terrenos potencialmente petrolíferos já haviam sido “acaparados” pelos trustes internacionais e revelava tais fatos com provas irrefutáveis. Mas esses argumentos que hoje parecem tão óbvios eram descartados com a afirmação de que não havia petróleo no subsolo brasileiro, quando a Bolívia, nas proximidades de nossa fronteira, encontrara abundante e excelente óleo. Na verdade, sustentava Lobato, o governo brasileiro não queria extrair o petróleo e nem permitir que os brasileiros o extraíssem.

Em função disso, vieram as perseguições de toda ordem, culminando com a proibição pura e simples da exploração e, mais tarde, com um processo no nefando Tribunal de Segurança Nacional no qual o escritor foi condenado a seis meses de prisão, tendo cumprido a metade da pena até ser anistiado pelo presidente Vargas. Essa condenação, como é de imaginar, deixou profundas marcas na alma do patriota que ele era.

O tempo se encarregaria de comprovar que Lobato tinha razão e seu movimento foi o mais antigo precursor da pregação nacionalista que levaria à implantação do monopólio estatal do petróleo através da PETROBRAS. Embora adepto da exploração pela iniciativa privada, mais tarde o escritor se convenceu de que o monopólio estatal era a melhor solução, como declarou em carta a Getúlio Vargas. De qualquer forma, seu nome está ligado para sempre à história petrolífera nacional.

A partir daí, o articulista envereda por caminhos tortuosos na tentativa de relacionar o “pó de pirlimpimpim” à cocaína. Não deixa de ser estranho que um assunto ligado à literatura infantil seja incluído em reportagem a respeito do petróleo, mas ele mereceu um tópico especial no qual o autor se esforça para estabelecer uma relação que não passa de puro exercício de imaginação. O pó milagroso foi uma criação genial de Lobato sem qualquer intenção de sugerir o uso de cocaína ou outro produto do gênero. Como o pessoalzinho do Sítio do Picapau Amarelo não dispunha de recursos para suas viagens, o escritor imaginou o uso do pó que os levaria onde desejassem, mas sem o efeito surreal provocado pela cocaína. Nunca passou pela cabeça do escritor sugerir o uso da droga. A relação é, na verdade, uma criação do autor, enxergando intenções escusas onde não existiram. É o resultado de uma tendência de enxergar intenções malévolas ocultas em quaisquer atividades alheias, por mais inocentes que sejam. Até no nome Narizinho, atribuído à personagem Narizinho Arrebitado, o autor da reportagem vê indícios sugestivos do uso de cocaína, o que não tem fundamento porque a menina já aparece no primeiro livro da saga infantil. A hipótese levantada por ele não passa de uma infeliz elucubração cujo propósito me escapa: seria a busca do sensacionalismo ou a tentativa de criar uma polêmica? Ou, quiçá, um ato provocado pela secular arte de julgar mal o próximo?

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(*) “Leituras da História”, edição 95, ano de 2016, p. 50;

Escrito por Enéas Athanázio, 01/04/2019 às 10h39 | e.atha@terra.com.br

A LONGA NOITE SEM LUA

O escritor norte-americano John Steinbeck (1902/1968), Prêmio Nobel de Literatura, tornou-se popular em todo o mundo, inclusive no Brasil, onde tem inúmeros leitores, graças a alguns de seus livros mais conhecidos, como o célebre “As vinhas da ira”, “Doce quinta-feira” e “A pérola”, este último vertido para o cinema e o teatro nacionais. Foi um dos escritores mais filmados em vários países. Outros livros dele, no entanto, também tiveram numerosos leitores, como “Boêmios errantes”, “O inverno de nossa desesperança” e o pequeno romance “A longa noite sem lua”, traduzido para o português por Pinheiro de Lemos, e aquele que mais me toca em toda sua obra. É uma lição de amor à liberdade e de respeito à democracia, tanto que sua posse, nos países ocupados, durante a II Guerra Mundial, mesmo em toscas reproduções, importava em sumário fuzilamento.

Nesse romance, escrito com empenho e emoção, o exército nazista invade quase sem resistência um pequeno e indefeso país, instalando-se numa diminuta cidade onde funcionava produtiva mina de cujo carvão os ocupantes necessitavam com urgência. Logo de chegada, com a costumeira brutalidade, mataram com rajadas de metralhadoras seis guardas locais e feriram mais alguns, sem necessidade. Instalaram seu estado-maior no modesto palácio da prefeitura e tentaram, a todo custo, obter a adesão do prefeito, embora este explicasse que fôra eleito por um povo que só admitia autoridades por ele escolhidas com liberdade. Aquele povo elegia seus dirigentes há tanto tempo que se perdia na memória e há quatrocentos anos não sofria invasões estrangeiras. Para ele, só o voto legitimava os homens públicos, escolhidos depois de muita discussão e cada um votando conforme suas ideias. Povo dócil, trabalhador e pacífico – mas livre. Enquanto os nazistas seguiam sem discutir a ordem do líder, entre aquele povo cada um era seu próprio líder. Tentava explicar a diferença entre obediente e cumpridor da lei. Os invasores, arrogantes, não lhe deram ouvidos, imaginando que país ocupado significava país dominado. Esse erro de avaliação psicológica custou-lhes caro, foi sua perdição.

Passado o susto inicial, começou a resistência, uma resistência em surdina, uma resistência de algodão – como diria Graciliano Ramos. Os habitantes negavam a palavra aos ocupantes, só compravam o indispensável, recolhiam-se às suas casas, fugiam de qualquer contato com o invasor. Logo de início uma cozinheira (alçada à condição de heroína) lança água fervente em soldados que a espiavam através da porta, restaurantes serviam aos soldados comida com excesso de sal ou pimenta, um tenente foi morto a golpes de tesoura por uma mulher, outro tentou obrigar um mineiro a trabalhar e foi morto a picaretadas, a usina elétrica deixava de funcionar por mistério, vagonetes da mina descarrilavam, máquinas ficavam avariadas, atentados anônimos aconteciam. Nos menores gestos transparecia o ódio contido. E assim, dia a dia, o terror foi num crescendo, os invasores se sentiam cercados, vigiados, ameaçados; os vencedores temiam os vencidos. Enquanto isso, pescadores que fugiam levavam mensagens aos aliados e estes começaram a lançar dos aviões cartuchos de dinamite aos milhares, com instruções de uso, armando a população civil. Começam as explosões, aqui, ali, acolá, em toda parte, isoladas no começo, depois em série, tornando inviável o uso da mina ou de qualquer serviço da cidade coberta de neve. Ao longe, em outros campos de batalha, os aliados avançavam para a vitória final.

Nem o fuzilamento do prefeito e do velho médico, Dr. Winter, interrompe a reação popular. Este último, ao rumar para a morte, afirma ante um perplexo estado-maior: “Nosso país foi invadido, mas não creio que tenha sido conquistado. Ninguém jamais conseguirá quebrar o espírito do homem permanentemente!”

Escrito por Enéas Athanázio, 26/03/2019 às 11h11 | e.atha@terra.com.br

UMA HISTÓRIA DE AMOR E BALAS

Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, é uma das figuras mais conhecidas da história nacional contemporânea. Poucos homens públicos podem com ele se ombrear em fama e prestígio. Esse conhecimento, no entanto, é quase sempre superficial. Como alguns outros personagens célebres, não é muito o que se sabe de sua real personalidade. Apesar da imensa bibliografia existente, Lampião esconde uma face misteriosa e enigmática. O homem Lampião continua distante.

Decorrido quase um século de sua morte, em 1938, o cangaceiro continua a instigar o interesse dos pesquisadores e as obras a seu respeito não cessam de aparecer. Dentre as mais recentes está o livro “Lampião & Maria Bonita – Uma história de amor e balas”, de autoria do jornalista paulistano Wagner Gutierrez Barreira, publicado pela Editora Planeta (S. Paulo – 2018). É um livro bem escrito, lastreado em intensas pesquisas bibliográficas, visitas a locais de eventos significativos, entrevistas e buscas em publicações e documentos antigos. Traça uma biografia paralela dos dois personagens centrais da gesta cangaceira e revela com imparcialidade as atividades do bandoleiro que desafiou as autoridades e as volantes policiais que fervilhavam pelo sertão em seu encalço. Certas passagens chegam a ter o sabor de genuínas obras de ficção, tão inacreditáveis, ainda que rigorosamente verdadeiras.

Lampião era capaz de atos de extrema generosidade e de atitudes de absoluta crueldade. Implacável nas vinganças, tinha uma coragem sobre-humana. Ferido em combate, foi operado a frio, sem anestesia e sem um gemido. Quando fugiam das tropas policiais, a única filha, ainda de colo, começou a chorar, colocando em risco a segurança do bando. “Mate isso!”, teria determinado a Maria Bonita, ao que ela, indignada, jogou um cantil contra ele, atingindo-o na cabeça. O autor do livro revela um verdadeiro rosário de atrocidades e relaciona, com lugares e datas, os inúmeros combates em que o bando se envolveu.

Alguns episódios superam a ficção. No auge da fama, Lampião enviou uma carta ao governador de Pernambuco propondo a divisão do Estado. Ele governaria o sertão, deixando o restante do território estadual por conta do governador. Em outra ocasião, convidado por Floro Bartolomeu, braço direito do Padre Cícero Romão Batista, visitou Juazeiro do Norte, com toda sua cabroeira, onde foi recebido, entrevistado, armado e municiado para que se comprometesse a combater a Coluna Prestes que assombrava o Nordeste. Forjaram para ele uma patente de capitão dos Batalhões Patrióticos, assinada por um agrônomo do Ministério da Agricultura, sem qualquer validade. Desde então o cangaceiro passou a se declarar capitão mas jamais combateu a Coluna. Semianalfabeto, era inteligente, não se arriscando a enfrentar uma tropa de militares profissionais bem preparados e armados. Quando soube que a patente não tinha valor, teria ficado furioso e ameaçou invadir Juazeiro mas acabou recuando porque a cidade estava muito bem guarnecida. O folclorista potiguar Veríssimo de Melo afirmou que por ocasião do convite o Padre Cícero “estava dementado”, ou seja, “caduco”, na linguagem popular. Essa declaração provocou intensa polêmica.

O livro desvenda muitos episódios interessantes sobre a vida de Lampião e Maria Bonita, suas atividades e amores. É uma contribuição importante para o conhecimento de um tema inesgotável e fascinante: o cangaço. Uma forma de banditismo organizado típica do Brasil, sem similar no mundo e na história.

Escrito por Enéas Athanázio, 18/03/2019 às 13h39 | e.atha@terra.com.br

PROEZAS DE LAMPIÃO

O cangaço foi uma forma de banditismo organizado típica do Brasil, sem similar no mundo ou na história. Ela só foi possível graças aos imensos espaços vazios, abertos e livres de obstáculos, com a população escassa vivendo em fazendas isoladas ou pequenas cidades e vilas com poucos moradores e destituídas de meios de proteção. Graças a isso, o cangaço se espalhou por todo o Nordeste, partes de Minas e de Goiás e, apesar das chamadas “volantes policiais” fervilharem na região em perseguição aos cangaceiros, eles resistiam e seus bandos se tornavam cada vez mais ousados e poderosos. Muitos cangaceiros se transformaram numa espécie de heróis populares, imitações toscas de Robin Hood, que supostamente roubavam dos ricos para dar aos pobres. O Cabeleira, Jesuíno Brilhante, Antônio Silvino, Sinhô Pereira e Corisco (Cristino Gomes da Silva Cleto, o Diabo Loiro) e, acima de todos, Lampião (Virgulino Ferreira da Silva), se notabilizaram em todo o país e até no exterior graças ao noticiário da imprensa a respeito de suas tropelias. A crueldade deles, no entanto, não conhecia limites. Invadiam as povoações, roubavam, sequestravam, destruíam, estupravam e depois se retiravam levando o bárbaro butim.

Lampião granjeou imensa fama. Suas proezas chegaram a ponto de desafiar o governador de Pernambuco, propondo a divisão do Estado entre eles, ficando o cangaceiro como o rei do sertão. Em muitos ataques deixava recados e bilhetes desafiadores às autoridades. Chegou a visitar Juazeiro do Norte, uma das cidades mais importantes da região, avistando-se com o Padre Cícero Romão Batista e as autoridades locais, levando em sua companhia numerosa cabroeira armada. Prometeu combater a Coluna Prestes, obtendo armas e munições, mas jamais a combateu e usou essas provisões em benefício próprio. Encorajado pelo cangaceiro Massilon, aventurou-se a atacar Mossoró, cidade grande e bem guarnecida, mas a população indignada se armou e se defendeu com bravura. Lampião e seu bando sofreram constrangedora derrota e tiveram que se retirar com os rabos entre as pernas. A fuga até Pernambuco, viajando à noite e com toda cautela, foi um episódio épico.

As proezas de Lampião e outros cangaceiros, no entanto, causavam imenso constrangimento ao país, em especial pelo noticiário da imprensa internacional. Era uma vergonha, uma nódoa que em pleno Século XX o cangaço ainda agisse em vasta porção do nosso território. Apesar do intenso combate, ele persistiu até 1938, ano da morte de Lampião, e que os historiadores assinalam como o final do cangaço. As atividades cangaceiras chegaram até quase metade do século passado, enquanto o mundo superava a I Guerra Mundial, a Revolução Russa e outros acontecimentos que alteraram o panorama geopolítico do planeta. Mas os cangaceiros prosseguiam na sua faina assassina, indiferentes a tudo e desafiando o poder do Estado. Com a posse de Getúlio Vargas, na crista da vitoriosa Revolução de 1930, o governo federal “apertou” os governadores para que acabassem com o cangaço o mais depressa possível. Sua sobrevivência constituía uma vergonha nacional. Acabar com ele se tornou uma questão de honra.

Dentro do país, os protestos contra o cangaço não cessavam. Nos discursos e nos jornais muitas vozes se levantavam, exigindo seu fim. Entre os muitos que se manifestaram nesse sentido estava Humberto de Campos, escritor de grande mérito e prestígio, integrante da Academia Brasileira de Letras e temido pela combatividade e pela inaudita coragem. Em seu livro “Notas de um diarista”, 1ª. série, edição póstuma, nada menos que três ensaios são dedicados ao assunto. No primeiro deles, o autor registra sua indignação diante da invasão da vila de Curuçá pelo grupo de Lampião, composto de 60 cangaceiros, e praticando as maiores atrocidades; no segundo, comenta a anunciada formação de uma coluna militar com mais de ml homens e formidável armamento, inclusive com aviões, sob o comando do capitão do exército Carlos Chevalier; no terceiro e último, volta a comentar a Expedição Chevalier, cuja partida fora suspensa em face do elevado custo da operação. Relembra que – como havia previsto – ela estaria fadada ao fracasso, uma vez que metralhadoras pesadas, canhões e tanques de pouco serviriam na caatinga adusta, onde os cangaceiros exercitavam uma guerra móvel, precursora das guerrilhas, contando com grande mobilidade e absoluto conhecimento do terreno.

Enquanto se discutia, o bando de Lampião e outros agiam com a maior liberdade, colocando em pânico as populações sertanejas a um simples boato sobre sua chegada. Em virtude de sua excentricidade, o cangaço é um fenômeno de patologia social dos mais estudados, existindo hoje imensa bibliografia a respeito.

Escrito por Enéas Athanázio, 11/03/2019 às 11h07 | e.atha@terra.com.br



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Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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