Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Heróis e Bandidos

O escritor alemão Karl May (1842/1912) foi um dos autores mais lidos no Brasil, em especial pela juventude. Suas obras, traduzidas, eram publicadas pela Editora Globo, de Porto Alegre, em primorosas coleções encadernadas e ilustradas por desenhistas de renome. Produziu grande quantidade de livros de aventuras ambientadas em diversas regiões do planeta e envolvendo incontáveis personagens que se tornaram célebres, entre os quais se destacavam Winnetou, o poderoso cacique apache, Mão de Ferro, capaz de matar com um simples soco, Mão de Fogo, dono de temida espingarda milagrosa, Tia Droll, estranhíssima figura de bandoleiro que se vestia de mulher, Assef, o “servo” que portava um nome quilométrico e fazia questão dele, além de um esquisito lorde inglês viciado em apostas e um caçador que se expressava em versos rimados. O próprio narrador às vezes se travestia em herói, adotando posturas de grande valentia, habilidade e inteligência sem par. Dizia-se que Karl May escreveu suas obras sem sair da Alemanha, baseado em mapas e livros de viagens, mas é uma meia verdade porque, embora não tenha viajado muito, conheceu vários países onde colheu abundante material para seus escritos. De qualquer forma, impressiona a quantidade e a exatidão dos detalhes que descreve a respeito do relevo, da flora, da fauna, do clima, da rede fluvial, dos caminhos, das línguas e dialetos locais e tudo o mais.

Karl May escrevia de maneira simples e clara e era preciso nas suas descrições. É curioso observar que usava a segunda pessoa do singular, o que torna a leitura um tanto estranha para os brasileiros em geral, em especial nos diálogos. Eles, por sinal, são quase sempre longos e minuciosos, mesmo em momentos cruciais, fato que os deixa às vezes um tanto inverossímeis. Comparados aos textos mais modernos, seus escritos deixam a impressão de necessitar de rigorosa “poda.”

Os índios, muito presentes em suas histórias, são descritos como seres nobres, de caráter irretocável e de atitudes rigorosamente éticas. Os negros, no entanto, não merecem realce; são apenas “os negros” ou “o negro”, inominados, sem quaisquer detalhes. Por vezes, no entanto, afloram passagens que revelam arraigados preconceitos, como se verifica nas aventuras ambientadas no Oeste americano. Em certa passagem, referindo-se a um espetáculo, escreveu: “Os dois índios não haviam sido consultados se queriam tomar parte nele. Não era de bom tom que se admitisse dois índios entre um grupo constituído unicamente de senhoras e cavalheiros...” Mais adiante: “Um negro, que trabalhava na casa das máquinas do navio, não pode resistir à curiosidade e aproximou-se da jaula. O capitão, que o observava, ordenou-lhe que fosse pegar imediatamente o seu trabalho. Como o negro não obedecesse em seguida, o capitão deu-lhe alguns golpes com um cabo que segurava nas mãos.” Em outra passagem, após ter salvo uma menina do afogamento, pequeno índio é tratado como “gato sarnoso.” Quando alguém afirma que o território americano pertencia aos índios e que eles deveriam ser respeitados, outro retruca: “Hum! É verdade o que estás dizendo. Mas os vermelhos devem desaparecer, devem extinguir-se. Esse é o seu destino!” Ainda, em outro ponto: “Mão de Fogo dividiu estes peles-vermelhas, outrora tão soberbos e agora degenerados, em dois grupos.” Mais adiante, diz um oficial: “Não tem senso os brancos admitirem que os índios lhes façam propostas”, significando que com os indígenas nem sequer poderia haver negociação alguma. Outras tantas passagens poderiam ser lembradas.

Winnetou, chefe dos apaches, é aureolado de todas as virtudes. É que ele se aliou aos brancos. Uma espécie cacique Condá norte-americano. Aliás, impressiona a quantidade de subtribos pertencentes aos apaches e que o escritor levantou uma por uma.

Em todas as oportunidades, em especial nos encontros de compatriotas, a superioridade da raça alemã é sempre ressaltada.

Dois aspectos também chamam a atenção: a extrema violência e o permanente propósito de vingança.

Eliminar, esfaquear, atocaiar, apunhalar, estrangular, enforcar, tirotear, escalpelar são expressões correntes. Cenas de inaudita violência aparecem descritas em minúcia, não faltando as horrendas torturas praticadas contra os inimigos amarrados nos “postes dos martírios.” Cortar orelhas e narizes, manter os inimigos com pés e mãos amarrados e impedidos de articular por apertadas mordaças são cenas corriqueiras. Também acontecia ser estipulado prêmio por inimigo morto; “Estes sujeitos não são guerreiros com os quais se possa lutar honradamente, mas são cães sarnentos que se devem matar a chicotadas” – afirma Mão de Fogo em certa situação. Os inimigos são sempre cães e quanto mais odiosos maiores tormentos deverão padecer.

A vingança, por outro lado, é uma prática impositiva entre os índios. Ofensa grave exige vingança e, quanto mais dolorosa, melhor. É a forma de lavar a alma da afronta recebida.

Dono de inesgotável imaginação, Karl May era capaz de estender suas narrativas por quinhentas páginas, desenrolando tropelias que se enlaçam uma na outra sem perder a sequência e envolvendo incontáveis personagens e lugares.

Relido com os olhos de hoje, não me parece que, do ponto de vista pedagógico, os livros do escritor alemão sejam os mais indicados para a juventude. Por outro lado, se comparados a certos filmes e programas televisivos exibidos nos dias atuais, não contêm nada de incomum.

A verdade, porém, é que suas histórias fascinavam os jovens leitores e também os adultos. As figuras criadas pelo plácido alemão, no conforto do seu gabinete, em plena Alemanha, ganharam o mundo e os corações das pessoas. Com a curiosidade de que foi maniqueísta na construção dos personagens; ou eram bons e puros como os verdadeiros heróis, sem qualquer laivo de maldade, ou eram maus, sem a menor réstia de bondade. Herói é herói, bandido é bandido.

Dizia-se que ele foi o escritor predileto de Hitler, mas não posso afirmar que não se trate de lenda. Também informam seus biógrafos que, no final da vida, foi perturbado por processos que lhe moveram pessoas simplórias alegando ter praticado na vida real fatos descritos em suas obras envolvendo crimes e atos menos abonadores.

Embora pouco lembrado, Karl Friedrich May cativa com suas longas e minuciosas narrativas.

Escrito por Enéas Athanázio, 15/10/2018 às 09h50 | e.atha@terra.com.br

O OLHO DO TSAR

Nascido na Finlândia, então integrante do Império Russo, filho de um agente funerário fiel ao Tsar, Pekkala foi enviado pelo pai a Moscou para integrar o Regimento Finlandês, tropa de elite da estrita confiança do soberano. Em virtude de seu temperamento rebelde e de sua coragem, o rapaz caiu nas graças do Tsar Nicolau II, de quem se tornou amigo íntimo e homem de absoluta confiança. Frequentava o palácio e tratava o imperador de maneira informal, ainda que mantendo sempre a conveniente distância e o devido respeito. Encarregado das mais difíceis missões, incluindo investigações sigilosas, tornou-se o detetive mais famoso de toda a Rússia. Ficou conhecido como o “Olho de Esmeralda do Tsar.” Sua paixão por uma moça de nome Ilya era incentivada pelo próprio soberano. A vida transcorria serena e feliz.

Sobreveio, porém, a Revolução de 1917, e Pekkala não teve outro recurso senão tentar a fuga, no que foi apoiado pelo Tsar. Pretendia ir a Paris, onde a moça estaria à sua espera. Mas os revolucionários o prendem no caminho e, depois de marchas e contramarchas, é levado à presença de Stálin. O líder revolucionário o interroga sobre vários assuntos, em especial sobre o esconderijo do tesouro do Tsar que, segundo se dizia, era algo de fabuloso, como de fato se constataria mais tarde. Pekkala nada informou, mesmo porque nada sabia a respeito, uma vez que o monarca nunca havia chegado a tais detalhes. Impressionado com a postura do investigador, Stálin decide poupar sua vida, imaginando que ele poderia ser útil mais tarde. É enviado para a Sibéria, onde vive numa cabana miserável e tem por missão assinalar as árvores destinadas ao corte. No local em que foi confinado, a fuga era impossível e a sobrevivência dos prisioneiros não superava alguns meses, tão adversas eram as condições. Pekkala, no entanto, já estava lá há nove anos quando recebe um emissário. Tratava-se do comissário Kirov, que vinha em nome de Stálin, para livrá-lo do gulag.

Recebido por Stálin, nessa altura chefe de uma revolução consolidada, volta s ser interrogado e recebe dupla missão: descobrir quem assassinou a família Romanov (o Tesar, a esposa, quatro filhas e o filho Alexei) e o local onde se encontrava o tesouro do imperador. A execução da família imperial não teria sido determinada pelos revolucionários e nem estava nos seus planos. Houve o boato de que fora ordenada por Lênin, mas isso jamais foi comprovado. Em companhia de Kirov e de um irmão, Anton, Pekkala se põe em campo e dá início à complicada investigação.

Depois de longas andanças e buscas infrutíferas, grandes perigos e mortes de possíveis informantes, o trio encontra o fio da meada. Consegue reconstituir o assassinato da família imperial, na Casa Ipatiev, e os seus corpos, lançados nas profundezas de uma mina abandonada, com exceção de Alexei que lá não se encontrava. Mais tarde ele se apresenta, vivo e saudável, mas na verdade não passava de um impostor. O fabuloso tesouro do Tsar se encontrava em coletes ajustados ao corpo de cada uma das vítimas, contendo imensa fortuna em pedras preciosas, equivalentes hoje a mais de 190 milhões de dólares. Foi devolvido aos cofres públicos. E o verdadeiro Alexei, ao contrário da história real, jamais foi encontrado.

O prêmio pelo sucesso da operação foi a liberdade. Ainda que relutante, Pekkala deixa de ser o Olho do Tsar Nicolau para se transformar no Olho do Tsar Vermelho. Mas a felicidade nunca é completa: cansada de esperar por ele, Ilya havia se casado, tinha um filho e se tornara professora na capital francesa. Kirov, já major do Exército Vermelho, passou a integrar sua equipe de investigadores.

Essa é, em linhas gerais, a trama do excelente romance “O Olho do Tsar Vermelho”, de autoria do escritor inglês Sam Eastland, lançado no Brasil pela Editora Record (Rio de Janeiro – 2013), em tradução de Marcio de Paula S. Hack.

Além de uma história absorvente, o autor conseguiu reconstituir o ambiente caótico reinante na Rússia pós-revolucionária, a guerra entre Brancos e Vermelhos, a atmosfera de suspeitas e desconfianças, a caça-às-bruxas, o ódio, o terror, o medo. A figura do Tsar, sereno diante das perspectivas negras, impõe admiração pela coragem. E a figura de Stálin é sempre descrita da mesma forma sumária, sem que jamais se chegue a um retrato fiel. Assim o descreve o autor: “O homem que entrou na sala vestia um terno de lã simples, verde amarronzado, com um paletó de corte militar, de modo que seu colarinho duro e curto fechava-se em torno da garganta. Seus cabelos escuros, rajados de branco acima das orelhas e têmporas, fora penteado para trás e um espesso bigode acumulava-se sob o nariz. Quando ele sorriu, seus olhos se fecharam como os de um gato satisfeito.” Parece a reprodução estereotipada de mil outras descrições.

O romance, de fundo histórico, não se afasta muito dos fatos reais, que o autor revela conhecer em minúcia. Mas dentro de balizas rígidas a criatividade do romancista elabora uma trama cativante e que se destaca dentre outras obras do gênero.

Escrito por Enéas Athanázio, 08/10/2018 às 14h32 | e.atha@terra.com.br

Lampião: a verdade e o mito

Poucas figuras da história nacional são tão presentes no imaginário popular como Virgulino Ferreira da Silva, o célebre cangaceiro Lampião. Na literatura, na televisão, no cinema e na imprensa, ele é sempre lembrado por este ou aquele motivo. Incontáveis ensaios apontando sua faceta positiva ou negativa são publicados com frequência, mostrando que o chefe bandoleiro continua instigando a imaginação e a curiosidade dos pesquisadores. E não é por menos, uma vez que ele chegou a ser considerado o rei do cangaço e dominou um território tão extenso que propôs ao governador de Pernambuco dividir o Estado, ficando ele como chefe absoluto de todo o sertão.

Entre os trabalhos mais recentes a respeito de Lampião está o relato “Vem de longe...”, de autoria de Jurandy Temóteo, publicado no livro do mesmo nome (A Província Editora – CE – 2018). Nesse trabalho, o autor tece um conto explorando a teoria ou o mito de que o cangaceiro não morreu na Grota do Angico como afirma a versão oficial. Esse tipo de especulação costuma acontecer com algumas celebridades cujos admiradores se recusam a admitir suas mortes. Aconteceu também com Elvis Presley, como muitas pessoas devem se lembrar.

Tudo tem início quando o celeiro Raimundo, pernambucano, aparece na Fazenda Ponta da Serra, de propriedade de “seu” Britim, pedindo socorro. Vinha de muito longe, caminhando durante a noite para não ser visto, e tinha um feio inchaço protegido por uma atadura improvisada. Recolhido à casa dos cereais e alimentando, ele relata que estava numa missão sigilosa, buscando um tesouro deixado por Lampião, seu patrão e amigo, enterrado ao pé de uma grande árvore para marcar o lugar. Tratava-se de um imenso carregamento de armas e munições suficiente para enfrentar um batalhão. Diante do espanto do ouvinte, ele afirma que Lampião estava vivo e forte. A morte do cangaceiro era uma mentira propalada aos quatro ventos e agora seria revelada porque a verdade precisa ser dita.

“Na verdade, dizia Zé Ferreira, meu avô, com toda firmeza, aquilo foi invenção para vender jornais e revistas, tudo soprado pela polícia. Os “macacos” levaram muito dinheiro, ouro e pedras preciosas de Lampião, mas nem chegaram a trocar tiros, pois meu padrinho tinha sido avisado do que ia acontecer e lá não ficou. Os que morreram em Angico eram de um pequeno bando que em 1938 já estava desmembrado. Não tem fundamento - a não ser de enganar o povo – que Lampião e Maria Bonita estavam ali enfurnados com os outros cangaceiros naquela gruta apertada e com uma só saída.”

Segundo reiterados depoimentos, Lampião nunca permanecia em local onde houvesse uma só saída e nem permanecia por muito tempo no mesmo pouso. Esses detalhes contribuíram para levantar dúvidas.

Mas quem morreu em Angico e como agiram para demonstrar que se tratava do chefe cangaceiro, sua mulher e outros?

“Quem morreu no lugar de Lampião foi o ladrão de cavalo Zé do Sapo, por ter um olho cego (como Lampião) – prossegue o narrador. – E no lugar de Maria Bonita foi um jovem muito parecido com ela. É bom lembrar também que os “macacos” não mostraram os corpos pois as cabeças foram todas decepadas. E, mesmo assim, o povo só podia ver, muito depois do acontecido, de longe, separados por uma corda; e o fedor era muito grande pois as cabeças estavam em adiantado estado de podridão.”

Dizia-se também que após o massacre os policiais foram obrigados a jurar, sob pena de morte, que guardariam perpétuo silêncio sobre os fatos. E assim teria sido forjada a falsa notícia.

E Lampião, que foi feito dele?

Lépido e lampeiro, tratou de andar e andar, segundo recomendava seu conselheiro, o cangaceiro Sinhô Pereira. Permaneceu escondido por cerca de seis meses nas proximidades da cachoeira de Paulo Afonso, região que conhecia muito bem desde que fora empregado do coronel Delmiro Gouveia. Dali, rumou para o Piauí, onde nunca praticara o cangaço, escondendo-se numa fazenda de Santa Luzia e usando o codinome de Policarpo Lima, até 1942. Bem armado e acompanhado pelo guarda-costas Benedito Moura de Araújo, seguiu para Bom Jesus da Lapa, na Bahia, onde permaneceu por tempo indeterminado. Em penosas caminhadas noturnas, cercado do maior sigilo, foi margeando o rio São Francisco e afundou no alto sertão mineiro. Desde então as notícias sobre ele foram raras. Em 1945 teria sido visto em Januária mas não esquentava lugar, sempre trocando de nome. Entregava-se à venda de gado e terras, além do cultivo de roças de subsistência. Continuava valente mas evitando envolvimento em qualquer confusão.. Na imensidão do Estado mineiro, oculto e bem guarnecido, deve ter vivido sua última fase de vida. Como outros ex-cangaceiros, a exemplo de Moreno, encontrou guarida nas montanhas e nas matas das Gerais.

Afirmando que se louvou em fontes fidedignas, o autor lembra as palavras do personagem: “Essa história vem de longe, antes mesmo de você nascer. Durante todos esses anos a mentira vem sendo repetida como se fosse a verdade. . .A verdade precisa ser dita para nunca mais ser enterrada.”

O trabalho de Jurandy Temóteo é um prato cheio para os admiradores dos temas relacionados ao cangaço. Contribui, sem dúvida, para manter viva a memória de Lampião e suas inigualáveis proezas.

Escrito por Enéas Athanázio, 01/10/2018 às 11h02 | e.atha@terra.com.br

Poesia, Humor & Crítica

Erudito e exigente, Leontino Filho é um poeta sofisticado, autor de uma obra que desafia a imaginação e toca o sentimento de leitores que apreciam a grande poesia. Sua produção é pensada, burilada esmerada, buscando sempre a perfeição do “le mot juste” para exprimir com total precisão suas ideias. É uma poética que exige convivência, pede concentração, quer reflexão para chegar ao seu âmago. Seus livros não são para ler às pressas. São para morar, como dizia Monteiro Lobato, e que possam ser lidos, relidos e treslidos sem que se esgotem. É por isso que não tenho largado sua mais recente obra, “A Anatomia do Ócio” (ABC Edições – Fortaleza – 2018). O livro tem excelente apresentação de Floriano Martins, que vem se revelando arguto analista literário, e esmerada feição gráfica.
O livro se desdobra em cinco capítulos: Reparo das Coisas, Saliência dos Afetos, Vexame dos Pesos, Fruição dos Sigilos e Meninez das Palavras. O simples enunciado dá ao leitor uma indicação da vastidão dos voos do poeta e dos páramos por onde navegou sua imaginação, ratificando a velha afirmação de que todo grande poeta é um filósofo.
No capítulo de abertura, conclui o poeta: “terra – poucas coisas/ encaixam-se/ simplesmente na/ melancólica e majestosa/ poeira – muitas coisas/ modificam-se/ ferozmente no/ subterrâneo e predestinado/ pó – muito pouca coisa/ turva-se/ enquanto barro/ aos olhos de um lugar/ cheio de tudo/ essa estrada/ estendida/ avança e avança/ a nada se iguala/ formigueiro gelatinoso/ sob os pés/ hospeda lama.”
Que coisas serão essas?
Em Anatomia do Nome, escreveu ele: “divisa – existe um destino/ que vigia os outros/ na semipenunbra da casa.”
Que destino será esse?
Com tais indagações, deixo ao leitor o convite para ler Leontino Filho e viajar com ele pelos caminhos da imaginação sem limites. Vale a pena!
_________________________
Professor aposentado de língua e literatura, Cláudio Feldman é um trabalhador incansável. Várias vezes o encontrei em São Paulo no corpo-a-corpo para difundir a sua obra. Sempre esteve ligado a diversas modalidades artísticas: cinema (ator e roteirista), teatro (autor), artes plásticas (desenho e colagem), jornalismo (artigos culturais, direção do “Jornal da Taturana”, com Moacir Torres), veiculação de livros pela Editora Taturana) e televisão (comerciais e minisséries).
Em primeiro plano, porém, esteve sempre a literatura. Nunca cessou de produzir. Como dizem os campeiros, escrever, para ele, é uma segunda natureza. Tem 55 livros publicados contendo poesia, contos, romance, topocrônica, literatura infantil, teatro e humor. Neste último gênero, entre outros, publicou “O rapto da mulher barbada”, “O encantador de minhocas”, “Sopa de vespas”, “Ossos de borboleta”, “Pastilhas de cianureto”, “Cama de pregos” etc. É de uma criatividade espantosa e dono de um “sense of humour” sutil e ferino.
Neste ano, publicou o livro “A vida anárquica de Horácio Peludo”, que ele rotula como ficção humorística (Editora Taturana – S. Paulo – 2018). O personagem central, no correr do livro, é colocado nas mais incríveis situações, sempre de forma criativa e engraçada, a começar pelo prefácio de cinco linhas com o qual introduz Horácio Peludo no mundo. Ele entra em cena dando declarações ao jornal Gazeta do Butantã, cuja redação visitou, “para apresentar suas despedidas públicas. Pretende se regenerar.” Observação: ele é deputado federal. . .
Em seguida, como delegado, intima certa Mary Posa a fechar sua casa suspeita porque fica nas proximidades do Jardim da Infância Olavo Bilac “que não deveria assistir a tais espetáculos, principalmente quando o ator principal é o próprio Horácio.”
Já como crítico literário, Horácio declara que não gosta do “best-seller” chamado Lista Telefônica de São Paulo “pois tem personagens demais.”
Além disso, iremos encontrá-lo em numerosas outras situações, inclusive concedendo entrevista sobre dados pessoais e se submetendo a sessões psicanalíticas. Sempre imprevisível e pronto a despertar o humor, aliviando a tensão dos dias soturnos que vivemos.
Seja bem-vindo, Horácio Peludo!
___________________________
Completando as Obras Completas de William Agel de Mello, foi lançado o quinto volume, contendo a Fortuna Crítica do autor. Diplomata, linguista, ficcionista e historiador, ele reuniu neste alentado volume (710 páginas), em tamanho grande, as manifestações dos analistas sobre sua produção nos vários gêneros a que se dedica. Aparecem as opiniões publicadas em livros, revistas, jornais, correspondência, Wikipédia, Internet, além da relação de títulos literários, honra ao mérito, medalhas, prêmios, relação das bibliotecas estrangeiras que possuem seus livros e um completo curriculum do autor. É um trabalho meticuloso, englobando manifestações de críticos de renome, estampadas nos mais importantes órgãos da imprensa de todo o país. Registra com justiça a dimensão e a importância da obra do autor e abre as portas para o perfeito entendimento da mesma. Está de parabéns William Agel de Mello por tão significativo complemento de sua vasta e profícua realização no campo das letras. O livro foi publicado pela Editora Kelps (Goiânia – 2018).
_______________________
Registro, por fim, o lamçamento de mais um número da Revista da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras (55), um dos mais importantes periódicos do gênero. Dirigido pelo acadêmico Manoel Onofre Jr. e tendo como editor o escritor Thiago Gonzaga, registra a vida acadêmica e cultural daquele Estado. Destaco os discursos de posse do novel acadêmico Clauder Arcano e de saudação pelo referido Manoel Onofre Jr., além do excelente artigo de Valério Andrade sobre as relações de Lima Barreto com o jornal Correio da Manhã. Thiago Gonzaga dá a público a segunda parte de sua crônica memorialista em texto de admirável sinceeridade.

Escrito por Enéas Athanázio, 24/09/2018 às 16h29 | e.atha@terra.com.br

A convivência das línguas

No magnífico livro “Línguas e Dialetos Românicos e Germânicos” (Editora Kelps – Goiânia – 2010), o Prof. Adovaldo Fernandes Sampaio faz a abordagem de um tema que me é muito caro, ainda que não fosse o assunto central de sua obra. Trata ele nesse tópico da convivência entre as línguas tupi e portuguesa no território nacional durante o regime colonial e a expansão da população, tanto na região norte como no sul. Segundo ele, a grande quantidade de pessoas que falavam o tupi ou tupinambá aumentava de tal forma que o governo chegou a baixar decretos (cartas régias), proibindo o uso do idioma nativo dos indígenas. Claro que terá sido uma medida inócua, uma vez que a língua é um fenômeno social e o uso do tupi só foi diminuindo à medida que os falantes do português foram ocupando o território e levando a sua fala. Por outro lado, o fato revela que a prática de proibir o uso de idiomas não é de hoje, tanto que voltou a acontecer durante a II Guerra Mundial em relação ao alemão. No entanto, nem o tupi e nem o alemão desapareceram.

Segundo o linguista, o tupi foi o idioma usado de maneira predominante nos contatos entre portugueses e índios nos séculos XVI e XVII. A consequência desse prolongado contato foi a incorporação de considerável número de palavras tupis para designar aves, peixes, locais e nomes próprios de pessoas. “É notável a quantidade de lugares – diz ele – com nomes de origem tupinambá, quase sem alteração de pronúncia, muitos deles dados pelos luso-brasileiros dos séculos passados a localidades onde nunca viveram índios tupinambás.” Isso me faz lembrar de certo índio, personagem de um conto, que não se conformava com o frequente “roubo” das palavras indígenas pelos brancos. Dizia ele que estes não tinham imaginação para criar os próprios nomes e por isso se apropriavam dos indígenas.

Lembra o ensaísta que a primeira gramática da língua tupi (nheengatu) se deve ao padre jesuíta José de Anchieta (1534/1597). Era a mais falada na costa do Brasil.

Segundo ele, baseado em intensa pesquisa, o português muito se enriqueceu com um grande número de vocábulos de origem tupi. Alguns exemplos: arapuca, babaquara, beiju, caboclo, caipira, carapina, cuia, embira, jacá, jirau, jururu, maracá, mingau, pamonha, peroba, peteca, pipoca, quicé, tapioca, tocaia. Há muitas criações novas, como os verbos capinar, cutucar, empipocar, espocar, pitar, sapecar. São numerosos os nomes de animais, plantas, topônimos e alguns nomes próprios, entre os quais Jandira, como se chama minha cara-metade.

Aspecto curioso é que vocábulos de origem tupi estão presentes em muitas expressões populares do português brasileiro, como informa o autor, citando os seguintes casos: meter a mão em cumbuca, deixar de nhenhenhém, ficar jururu, puxar pelo guatambu, dar abraço de tamanduá, estourar a sapucaia, ficar de butuca, não dar importância a porandubas, remexer coivara, deixar a pereba criar casca. Como se vê, algumas mais conhecidas por aqui e outras em diferentes lugares.

Conclui-se que, muitas vezes, imaginando se expressar em refinada linguagem europeia, estamos usando a fala indígena dos brasileiros autóctones, um dos três formadores de nossa etnia.

Talvez fosse coerente a campanha do Major Policarpo Quaresma, célebre personagem do genial escritor carioca Lima Barreto, pela adoção do tupi como língua nacional em lugar do português importado da Europa. Com esse objetivo enviou petições aos órgãos do governo e batalhou pelos meios ao seu alcance. Foi hostilizado e ridicularizado, não obteve sucesso e, por ironia do destino, acabou fuzilado, ainda que por outros motivos. Mas o tupi continua vivo nas páginas dos linguistas como o Prof. Adovaldo, é usado no dia a dia pelos índios remanescentes e por todos nós quando utilizamos palavras e expressões “furtadas” dos nossos irmãos índígenas.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/09/2018 às 14h33 | e.atha@terra.com.br

GARIMPEIRO DAS LETRAS

Iaponan Soares foi incansável pesquisador de nossa literatura. Nem havia eu estreado em livro, no início dos anos 70, e já andava ele a publicar ensaios e organizar antologias, atividades que continuou a exercitar com permanente dedicação. Garimpeiro das letras, sempre com a bateia entre as mãos, removendo o leito sedimentado por onde se espraiam as letras catarinenses, procurando afastar o cascalho e extrair algumas pepitas que, depois de lapidadas, recolheu ao arcaz em cujos gavetões guardou as preciosidades. Cada um de seus livros é um deles, repleto de achados que vai exibindo ao leitor com a satisfação de quem põe à mostra seus guardados.

Em um desses gavetões, isto é, em livro publicado, são incontáveis os achados que exibe aos curiosos das coisas da literatura e da vida literária no chão catarinense. “Virgílio Várzea & Outros”, tendo como subtítulo “Literatura e Vida Literária em Santa Catarina no Século XIX e início do Século XX” (Letras Contemporâneas – Florianópolis – 2002) é um conjunto de ensaios breves, mas nem por isso fáceis ou simplistas, que desvendam um mundo de acontecimentos insuspeitados pelos catarinenses em geral, revelando a efervescência do meio cultual naquele período, às vezes turbulento, mas sempre curioso e rico, reavivando passagens importantes que poderiam se apagar da memória histórica não fosse o faro desse faiscador sem cansaço. Graças a ele, detalhes incontáveis estão a salvo da inclemência do tempo e do esquecimento.

Abrindo o desfile, surge Virgílio Várzea, aquele que mereceu a mais volumosa abordagem. Nessas páginas a ele dedicadas o ensaísta se debruçou sobre a história e a ficção na obra do escritor, o recurso da memória, o desaparecimento da musa, a influência de Eça de Queirós, com quem teria tentado uma aproximação, o mistério reinante sobre o livro “Miudezas” e o sabor da aventura que cerca “O Brigue Flibusteiro”, apontado como um dos melhores livros do ano em que foi publicado. O tema desse romance chegou ao conhecimento do autor no período em que ele viajou por três anos pelos oceanos Atlântico e Índico, integrando a tripulação de um navio espanhol. Merece destaque a página que recorda a polêmica entre novos e velhos, através dos jornais, em conseqüência da qual Eduardo Nunes Pires tentou “a todo custo, socar pela boca do jovem Virgílio Várzea o recorte do jornal que estampava os versos provocativos” (Pág. 36). O episódio teve ampla repercussão, pontilhando a “guerrilha literária” que eclodiu como uma espécie de Questão Coimbrã desterrense. Naqueles dias os embates de ideias incendiavam os corações e, às vezes, levavam até ao desafio para duelos. Hoje só haveria o encolher de ombros da indiferença.

O gaúcho Raul Bopp, celebrado poeta de “Cobra Norato”, conquista espaço no livro por conta de um poema que escreveu sobre a Ilha – “Florianóspi”, - um “registro lírico da capital catarinense em 1928” (Pág. 71), cujo texto é transcrito na íntegra. O poema, no entanto, foi eliminado da obra pelo próprio autor. É que, dizia ele, “teria sido mal interpretado por algumas pessoas que naqueles versos só encontraram um deliberado propósito de ridicularizar a terra e a gente catarinense. E para não ferir mais suscetibilidades, “Florianóspi” foi retirado de circulação...” (Pág. 73). O poema nada tem de ofensivo, é antes uma peça impressionista do que o autor sentiu, mas a censura da opinião pública surtiu efeito.

Curiosas também foram as relações de Araújo Figueredo (sem i) com o espiritismo. Segundo o ensaísta, mais que seus livros foram suas curas que o tornaram conhecido e amado pelos contemporâneos. As notícias dessas curas corriam de boca em boca e a casa do poeta se transformou num consultório onde ele dava conselhos e remédios, por isso cada vez mais concorrida, em especial pela gente pobre. Os poderes mediúnicos do poeta caíram na boca do povo, geraram estórias e lendas, provocaram denúncias à Saúde Pública e deram o tom pitoresco, alheio ao campo literário, à biografia do autor de “Madrigais” e “Ascetério.” Além de tudo, por pouco não foi fuzilado durante a Revolução de 93, tendo que buscar asilo em...Tijucas! Para lá fugiu, vestido de mulher, mas as perseguições não cessaram e foi forçado a retornar ao Desterro, onde sobreviveu com o disfarce de... mendigo! Desconheço páginas memorialistas escritas pelo poeta, mas a vida dele, sem dúvida, daria um romance.

Outros autores surgem no livro, abordados sob os mais variados e curiosos ângulos. Assim acontece com Oscar Rosas, Horácio de Carvalho, Duarte Schutel, os irmãos Nunes Pires, João Silveira de Sousa, Silva Mafra, Delminda Silveira, Carlos de Faria, Luís Delfino e outros tantos, inclusive os “três desterrados” – Carl Seidler, Josep Hoermeyer e José Mascarenhas. O segundo deles previu, em visão profética, um brilhante futuro para Itajaí, Joinville e a Ilha. Inúmeros outros aspectos e temas são tratados, tornando impossível focalizá-los a todos neste comentário.

Deixei para o final, muito a propósito, duas figuras estudadas no livro porque me são muito caras – Altino Flores e Othon D’Eça. Não conheci o primeiro em pessoa, mas comentei num jornal, na época do lançamento, seu livro “Sondagens Literárias.” Desde então nos tornamos amigos e por ocasião de uma malfadada candidatura ele, muito doente, enviou através da filha o recado de que me dava o apoio, o que muito me surpreendeu. Quanto ao segundo, exerceu atividades profissionais em minha terra, onde se tornou amigo de meu pai. Quando fui estudar em Florianópolis, eu o encontrava com freqüência e nessas ocasiões ele não se cansava de repetir que eu “parecia o Athanázio quando jovem”, referindo-se, é claro, a meu pai. Abraçava-me com emoção, revelando sempre sentida saudade do amigo de juventude. Fui depois seu aluno na Faculdade de Direito e, muitos anos mais tarde, prefaciei o livro “Aos Espanhóis Confinantes!”, de sua autoria, para a coleção das Obras Completas, editadas pela FCC (*). Em 2000, mais uma vez o acaso nos uniria: recebi o “Prêmio Othon D’Eça”, por ter sido eleito o escritor do ano pela Academia Catarinense de Letras.

Em “Uma conversa à margem do tempo”, Altino Flores aparece numa entrevista fictícia em que Iaponan Soares formula as perguntas e vai buscar as respostas na própria obra do autor, versando, acima de tudo, a crítica literária, da qual o entrevistado foi um militante constante e rigoroso. Mas ele se reporta também ao próprio pai, ao seu projeto de vida, ao jornalismo cultural, que exerceu por longo tempo, aos remanescentes do grupo de Cruz e Sousa, ao sucesso no campo das letras, à polêmica com o bispo D. Joaquim Domingues de Oliveira a respeito de Renan, de cujas ideias discordava, mas assumiu sua defesa ao vê-lo injustiçado, e, por fim, seu “evangelho” de crítico literário. “A minha reação ante as consagrações fáceis pode indicar tudo quanto quiserem os que por ela se sentem incomodados: mas as pessoas cultas e sensatas hão de reconhecer que ela representou sempre contraposta à apologia dos tolos e à vitória da petulância sobre o talento” – resumiu-se ele.(...) “A estimativa do mérito e do demérito (na literatura) começa no momento em que a carcaça do indivíduo é entregue à podridão tumular” (Pág. 53).

Afastando-se da vida pública, “distanciou-se também da vida literária catarinense, pela qual nunca mostrara a menor afeição. Enfarado do convívio mundano, recolheu-se entre os seus livros à espera da última viagem, num exílio voluntário só pouquíssimas vezes rompido” (Pág. 40). Erudito, culto, sensível, duro e justo nos seus julgamentos. Altino Flores foi um crítico como poucos. Sua projeção não foi mais ampla porque exercitava na Província o áspero ofício.

Em “Othon D’Eça, múltiplo”, Iaponan destaca vários aspectos desse intelectual que foi jurista, contista, memorialista, poeta, articulista, agitador cultural, professor e homem público. Mostra como ele “procurou a seu modo neutralizar junto aos confrades da Academia Catarinense de Letras o horror que as ideias modernistas lhes causavam. Gradativamente foi divulgando nesse espaço (suplemento “Letras e Artes”, do jornal O Estado, que dirigia) poemas dos modernistas menos radicais como Menotti Del Picchia, Ribeiro Couto, Caio de Melo Franco e outros” (Pág. 59). Também fazia observações sobre a arte moderna, em sua coluna, sem adesão incondicional, mas entendendo a mudança dos tempos. Sem sua atuação, é certo que o modernismo tardaria ainda mais a chegar nestas bandas.

Durante a Revolução Federalista sua família sofreu sérias perseguições, tendo o escritor perdido o avô e um tio, ambos fuzilados em Anhatomirim. A família fugiu para a Bahia, onde ele foi batizado. Essas passagens biográficas foram reveladas através de Cesário Braz, pseudônimo que usava em muitos escritos da época. Participou da obra coletiva “ No Mistério da Noite”, que obteve sucesso na imprensa do Desterro, sendo ele o co-autor que Iaponan identifica na letra “O”, sendo “T” de Tito Carvalho e “N” de Gustavo Neves, os outros autores (Pág. 65).

Episódios dos mais curiosos aconteciam, gerando atritos e polêmicas. Altino Flores, crítico literário, desentendeu-se muitas vezes com os medalhões da terra e até mesmo com seus companheiros de geração. Numa de suas crônicas fez comentários que Othon D’Eça julgou dirigidos a ele e se ofendeu, respondendo de forma agressiva no número seguinte, ameaçando o adversário de maneira violenta. Dias depois Altino Flores foi procurado por um emissário que lhe comunicou ter Othon D’Ela convidado a ele e a outro para padrinhos no duelo que travaria com Altino, escolhendo como arma a espada. O desafio provocou muito comentário e divertiu a valer todos que acompanhavam os incidentes, mas não passou disso. “Para tranquilidade de todos, o próprio desafiante, coração boníssimo, logo voltou para o Rio de Janeiro, onde concluía o curso de Direito e logo esqueceu tudo” (Pág. 68).

Concluindo, diria que o livro de Iaponan Soares é um inesgotável manancial de informações sobre nossa vida cultural, além de constituir um agradável exercício de boa leitura.

______________________________
(*) O prefácio foi publicado também em meu Livro “Adeus, Rangel!”, ensaios, Balneário Camboriú/SC, Editora Minarete, 1994.

Escrito por Enéas Athanázio, 10/09/2018 às 12h48 | e.atha@terra.com.br



1 2 3 4 5 6

Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade

Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br

Página 3
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Heróis e Bandidos

O escritor alemão Karl May (1842/1912) foi um dos autores mais lidos no Brasil, em especial pela juventude. Suas obras, traduzidas, eram publicadas pela Editora Globo, de Porto Alegre, em primorosas coleções encadernadas e ilustradas por desenhistas de renome. Produziu grande quantidade de livros de aventuras ambientadas em diversas regiões do planeta e envolvendo incontáveis personagens que se tornaram célebres, entre os quais se destacavam Winnetou, o poderoso cacique apache, Mão de Ferro, capaz de matar com um simples soco, Mão de Fogo, dono de temida espingarda milagrosa, Tia Droll, estranhíssima figura de bandoleiro que se vestia de mulher, Assef, o “servo” que portava um nome quilométrico e fazia questão dele, além de um esquisito lorde inglês viciado em apostas e um caçador que se expressava em versos rimados. O próprio narrador às vezes se travestia em herói, adotando posturas de grande valentia, habilidade e inteligência sem par. Dizia-se que Karl May escreveu suas obras sem sair da Alemanha, baseado em mapas e livros de viagens, mas é uma meia verdade porque, embora não tenha viajado muito, conheceu vários países onde colheu abundante material para seus escritos. De qualquer forma, impressiona a quantidade e a exatidão dos detalhes que descreve a respeito do relevo, da flora, da fauna, do clima, da rede fluvial, dos caminhos, das línguas e dialetos locais e tudo o mais.

Karl May escrevia de maneira simples e clara e era preciso nas suas descrições. É curioso observar que usava a segunda pessoa do singular, o que torna a leitura um tanto estranha para os brasileiros em geral, em especial nos diálogos. Eles, por sinal, são quase sempre longos e minuciosos, mesmo em momentos cruciais, fato que os deixa às vezes um tanto inverossímeis. Comparados aos textos mais modernos, seus escritos deixam a impressão de necessitar de rigorosa “poda.”

Os índios, muito presentes em suas histórias, são descritos como seres nobres, de caráter irretocável e de atitudes rigorosamente éticas. Os negros, no entanto, não merecem realce; são apenas “os negros” ou “o negro”, inominados, sem quaisquer detalhes. Por vezes, no entanto, afloram passagens que revelam arraigados preconceitos, como se verifica nas aventuras ambientadas no Oeste americano. Em certa passagem, referindo-se a um espetáculo, escreveu: “Os dois índios não haviam sido consultados se queriam tomar parte nele. Não era de bom tom que se admitisse dois índios entre um grupo constituído unicamente de senhoras e cavalheiros...” Mais adiante: “Um negro, que trabalhava na casa das máquinas do navio, não pode resistir à curiosidade e aproximou-se da jaula. O capitão, que o observava, ordenou-lhe que fosse pegar imediatamente o seu trabalho. Como o negro não obedecesse em seguida, o capitão deu-lhe alguns golpes com um cabo que segurava nas mãos.” Em outra passagem, após ter salvo uma menina do afogamento, pequeno índio é tratado como “gato sarnoso.” Quando alguém afirma que o território americano pertencia aos índios e que eles deveriam ser respeitados, outro retruca: “Hum! É verdade o que estás dizendo. Mas os vermelhos devem desaparecer, devem extinguir-se. Esse é o seu destino!” Ainda, em outro ponto: “Mão de Fogo dividiu estes peles-vermelhas, outrora tão soberbos e agora degenerados, em dois grupos.” Mais adiante, diz um oficial: “Não tem senso os brancos admitirem que os índios lhes façam propostas”, significando que com os indígenas nem sequer poderia haver negociação alguma. Outras tantas passagens poderiam ser lembradas.

Winnetou, chefe dos apaches, é aureolado de todas as virtudes. É que ele se aliou aos brancos. Uma espécie cacique Condá norte-americano. Aliás, impressiona a quantidade de subtribos pertencentes aos apaches e que o escritor levantou uma por uma.

Em todas as oportunidades, em especial nos encontros de compatriotas, a superioridade da raça alemã é sempre ressaltada.

Dois aspectos também chamam a atenção: a extrema violência e o permanente propósito de vingança.

Eliminar, esfaquear, atocaiar, apunhalar, estrangular, enforcar, tirotear, escalpelar são expressões correntes. Cenas de inaudita violência aparecem descritas em minúcia, não faltando as horrendas torturas praticadas contra os inimigos amarrados nos “postes dos martírios.” Cortar orelhas e narizes, manter os inimigos com pés e mãos amarrados e impedidos de articular por apertadas mordaças são cenas corriqueiras. Também acontecia ser estipulado prêmio por inimigo morto; “Estes sujeitos não são guerreiros com os quais se possa lutar honradamente, mas são cães sarnentos que se devem matar a chicotadas” – afirma Mão de Fogo em certa situação. Os inimigos são sempre cães e quanto mais odiosos maiores tormentos deverão padecer.

A vingança, por outro lado, é uma prática impositiva entre os índios. Ofensa grave exige vingança e, quanto mais dolorosa, melhor. É a forma de lavar a alma da afronta recebida.

Dono de inesgotável imaginação, Karl May era capaz de estender suas narrativas por quinhentas páginas, desenrolando tropelias que se enlaçam uma na outra sem perder a sequência e envolvendo incontáveis personagens e lugares.

Relido com os olhos de hoje, não me parece que, do ponto de vista pedagógico, os livros do escritor alemão sejam os mais indicados para a juventude. Por outro lado, se comparados a certos filmes e programas televisivos exibidos nos dias atuais, não contêm nada de incomum.

A verdade, porém, é que suas histórias fascinavam os jovens leitores e também os adultos. As figuras criadas pelo plácido alemão, no conforto do seu gabinete, em plena Alemanha, ganharam o mundo e os corações das pessoas. Com a curiosidade de que foi maniqueísta na construção dos personagens; ou eram bons e puros como os verdadeiros heróis, sem qualquer laivo de maldade, ou eram maus, sem a menor réstia de bondade. Herói é herói, bandido é bandido.

Dizia-se que ele foi o escritor predileto de Hitler, mas não posso afirmar que não se trate de lenda. Também informam seus biógrafos que, no final da vida, foi perturbado por processos que lhe moveram pessoas simplórias alegando ter praticado na vida real fatos descritos em suas obras envolvendo crimes e atos menos abonadores.

Embora pouco lembrado, Karl Friedrich May cativa com suas longas e minuciosas narrativas.

Escrito por Enéas Athanázio, 15/10/2018 às 09h50 | e.atha@terra.com.br

O OLHO DO TSAR

Nascido na Finlândia, então integrante do Império Russo, filho de um agente funerário fiel ao Tsar, Pekkala foi enviado pelo pai a Moscou para integrar o Regimento Finlandês, tropa de elite da estrita confiança do soberano. Em virtude de seu temperamento rebelde e de sua coragem, o rapaz caiu nas graças do Tsar Nicolau II, de quem se tornou amigo íntimo e homem de absoluta confiança. Frequentava o palácio e tratava o imperador de maneira informal, ainda que mantendo sempre a conveniente distância e o devido respeito. Encarregado das mais difíceis missões, incluindo investigações sigilosas, tornou-se o detetive mais famoso de toda a Rússia. Ficou conhecido como o “Olho de Esmeralda do Tsar.” Sua paixão por uma moça de nome Ilya era incentivada pelo próprio soberano. A vida transcorria serena e feliz.

Sobreveio, porém, a Revolução de 1917, e Pekkala não teve outro recurso senão tentar a fuga, no que foi apoiado pelo Tsar. Pretendia ir a Paris, onde a moça estaria à sua espera. Mas os revolucionários o prendem no caminho e, depois de marchas e contramarchas, é levado à presença de Stálin. O líder revolucionário o interroga sobre vários assuntos, em especial sobre o esconderijo do tesouro do Tsar que, segundo se dizia, era algo de fabuloso, como de fato se constataria mais tarde. Pekkala nada informou, mesmo porque nada sabia a respeito, uma vez que o monarca nunca havia chegado a tais detalhes. Impressionado com a postura do investigador, Stálin decide poupar sua vida, imaginando que ele poderia ser útil mais tarde. É enviado para a Sibéria, onde vive numa cabana miserável e tem por missão assinalar as árvores destinadas ao corte. No local em que foi confinado, a fuga era impossível e a sobrevivência dos prisioneiros não superava alguns meses, tão adversas eram as condições. Pekkala, no entanto, já estava lá há nove anos quando recebe um emissário. Tratava-se do comissário Kirov, que vinha em nome de Stálin, para livrá-lo do gulag.

Recebido por Stálin, nessa altura chefe de uma revolução consolidada, volta s ser interrogado e recebe dupla missão: descobrir quem assassinou a família Romanov (o Tesar, a esposa, quatro filhas e o filho Alexei) e o local onde se encontrava o tesouro do imperador. A execução da família imperial não teria sido determinada pelos revolucionários e nem estava nos seus planos. Houve o boato de que fora ordenada por Lênin, mas isso jamais foi comprovado. Em companhia de Kirov e de um irmão, Anton, Pekkala se põe em campo e dá início à complicada investigação.

Depois de longas andanças e buscas infrutíferas, grandes perigos e mortes de possíveis informantes, o trio encontra o fio da meada. Consegue reconstituir o assassinato da família imperial, na Casa Ipatiev, e os seus corpos, lançados nas profundezas de uma mina abandonada, com exceção de Alexei que lá não se encontrava. Mais tarde ele se apresenta, vivo e saudável, mas na verdade não passava de um impostor. O fabuloso tesouro do Tsar se encontrava em coletes ajustados ao corpo de cada uma das vítimas, contendo imensa fortuna em pedras preciosas, equivalentes hoje a mais de 190 milhões de dólares. Foi devolvido aos cofres públicos. E o verdadeiro Alexei, ao contrário da história real, jamais foi encontrado.

O prêmio pelo sucesso da operação foi a liberdade. Ainda que relutante, Pekkala deixa de ser o Olho do Tsar Nicolau para se transformar no Olho do Tsar Vermelho. Mas a felicidade nunca é completa: cansada de esperar por ele, Ilya havia se casado, tinha um filho e se tornara professora na capital francesa. Kirov, já major do Exército Vermelho, passou a integrar sua equipe de investigadores.

Essa é, em linhas gerais, a trama do excelente romance “O Olho do Tsar Vermelho”, de autoria do escritor inglês Sam Eastland, lançado no Brasil pela Editora Record (Rio de Janeiro – 2013), em tradução de Marcio de Paula S. Hack.

Além de uma história absorvente, o autor conseguiu reconstituir o ambiente caótico reinante na Rússia pós-revolucionária, a guerra entre Brancos e Vermelhos, a atmosfera de suspeitas e desconfianças, a caça-às-bruxas, o ódio, o terror, o medo. A figura do Tsar, sereno diante das perspectivas negras, impõe admiração pela coragem. E a figura de Stálin é sempre descrita da mesma forma sumária, sem que jamais se chegue a um retrato fiel. Assim o descreve o autor: “O homem que entrou na sala vestia um terno de lã simples, verde amarronzado, com um paletó de corte militar, de modo que seu colarinho duro e curto fechava-se em torno da garganta. Seus cabelos escuros, rajados de branco acima das orelhas e têmporas, fora penteado para trás e um espesso bigode acumulava-se sob o nariz. Quando ele sorriu, seus olhos se fecharam como os de um gato satisfeito.” Parece a reprodução estereotipada de mil outras descrições.

O romance, de fundo histórico, não se afasta muito dos fatos reais, que o autor revela conhecer em minúcia. Mas dentro de balizas rígidas a criatividade do romancista elabora uma trama cativante e que se destaca dentre outras obras do gênero.

Escrito por Enéas Athanázio, 08/10/2018 às 14h32 | e.atha@terra.com.br

Lampião: a verdade e o mito

Poucas figuras da história nacional são tão presentes no imaginário popular como Virgulino Ferreira da Silva, o célebre cangaceiro Lampião. Na literatura, na televisão, no cinema e na imprensa, ele é sempre lembrado por este ou aquele motivo. Incontáveis ensaios apontando sua faceta positiva ou negativa são publicados com frequência, mostrando que o chefe bandoleiro continua instigando a imaginação e a curiosidade dos pesquisadores. E não é por menos, uma vez que ele chegou a ser considerado o rei do cangaço e dominou um território tão extenso que propôs ao governador de Pernambuco dividir o Estado, ficando ele como chefe absoluto de todo o sertão.

Entre os trabalhos mais recentes a respeito de Lampião está o relato “Vem de longe...”, de autoria de Jurandy Temóteo, publicado no livro do mesmo nome (A Província Editora – CE – 2018). Nesse trabalho, o autor tece um conto explorando a teoria ou o mito de que o cangaceiro não morreu na Grota do Angico como afirma a versão oficial. Esse tipo de especulação costuma acontecer com algumas celebridades cujos admiradores se recusam a admitir suas mortes. Aconteceu também com Elvis Presley, como muitas pessoas devem se lembrar.

Tudo tem início quando o celeiro Raimundo, pernambucano, aparece na Fazenda Ponta da Serra, de propriedade de “seu” Britim, pedindo socorro. Vinha de muito longe, caminhando durante a noite para não ser visto, e tinha um feio inchaço protegido por uma atadura improvisada. Recolhido à casa dos cereais e alimentando, ele relata que estava numa missão sigilosa, buscando um tesouro deixado por Lampião, seu patrão e amigo, enterrado ao pé de uma grande árvore para marcar o lugar. Tratava-se de um imenso carregamento de armas e munições suficiente para enfrentar um batalhão. Diante do espanto do ouvinte, ele afirma que Lampião estava vivo e forte. A morte do cangaceiro era uma mentira propalada aos quatro ventos e agora seria revelada porque a verdade precisa ser dita.

“Na verdade, dizia Zé Ferreira, meu avô, com toda firmeza, aquilo foi invenção para vender jornais e revistas, tudo soprado pela polícia. Os “macacos” levaram muito dinheiro, ouro e pedras preciosas de Lampião, mas nem chegaram a trocar tiros, pois meu padrinho tinha sido avisado do que ia acontecer e lá não ficou. Os que morreram em Angico eram de um pequeno bando que em 1938 já estava desmembrado. Não tem fundamento - a não ser de enganar o povo – que Lampião e Maria Bonita estavam ali enfurnados com os outros cangaceiros naquela gruta apertada e com uma só saída.”

Segundo reiterados depoimentos, Lampião nunca permanecia em local onde houvesse uma só saída e nem permanecia por muito tempo no mesmo pouso. Esses detalhes contribuíram para levantar dúvidas.

Mas quem morreu em Angico e como agiram para demonstrar que se tratava do chefe cangaceiro, sua mulher e outros?

“Quem morreu no lugar de Lampião foi o ladrão de cavalo Zé do Sapo, por ter um olho cego (como Lampião) – prossegue o narrador. – E no lugar de Maria Bonita foi um jovem muito parecido com ela. É bom lembrar também que os “macacos” não mostraram os corpos pois as cabeças foram todas decepadas. E, mesmo assim, o povo só podia ver, muito depois do acontecido, de longe, separados por uma corda; e o fedor era muito grande pois as cabeças estavam em adiantado estado de podridão.”

Dizia-se também que após o massacre os policiais foram obrigados a jurar, sob pena de morte, que guardariam perpétuo silêncio sobre os fatos. E assim teria sido forjada a falsa notícia.

E Lampião, que foi feito dele?

Lépido e lampeiro, tratou de andar e andar, segundo recomendava seu conselheiro, o cangaceiro Sinhô Pereira. Permaneceu escondido por cerca de seis meses nas proximidades da cachoeira de Paulo Afonso, região que conhecia muito bem desde que fora empregado do coronel Delmiro Gouveia. Dali, rumou para o Piauí, onde nunca praticara o cangaço, escondendo-se numa fazenda de Santa Luzia e usando o codinome de Policarpo Lima, até 1942. Bem armado e acompanhado pelo guarda-costas Benedito Moura de Araújo, seguiu para Bom Jesus da Lapa, na Bahia, onde permaneceu por tempo indeterminado. Em penosas caminhadas noturnas, cercado do maior sigilo, foi margeando o rio São Francisco e afundou no alto sertão mineiro. Desde então as notícias sobre ele foram raras. Em 1945 teria sido visto em Januária mas não esquentava lugar, sempre trocando de nome. Entregava-se à venda de gado e terras, além do cultivo de roças de subsistência. Continuava valente mas evitando envolvimento em qualquer confusão.. Na imensidão do Estado mineiro, oculto e bem guarnecido, deve ter vivido sua última fase de vida. Como outros ex-cangaceiros, a exemplo de Moreno, encontrou guarida nas montanhas e nas matas das Gerais.

Afirmando que se louvou em fontes fidedignas, o autor lembra as palavras do personagem: “Essa história vem de longe, antes mesmo de você nascer. Durante todos esses anos a mentira vem sendo repetida como se fosse a verdade. . .A verdade precisa ser dita para nunca mais ser enterrada.”

O trabalho de Jurandy Temóteo é um prato cheio para os admiradores dos temas relacionados ao cangaço. Contribui, sem dúvida, para manter viva a memória de Lampião e suas inigualáveis proezas.

Escrito por Enéas Athanázio, 01/10/2018 às 11h02 | e.atha@terra.com.br

Poesia, Humor & Crítica

Erudito e exigente, Leontino Filho é um poeta sofisticado, autor de uma obra que desafia a imaginação e toca o sentimento de leitores que apreciam a grande poesia. Sua produção é pensada, burilada esmerada, buscando sempre a perfeição do “le mot juste” para exprimir com total precisão suas ideias. É uma poética que exige convivência, pede concentração, quer reflexão para chegar ao seu âmago. Seus livros não são para ler às pressas. São para morar, como dizia Monteiro Lobato, e que possam ser lidos, relidos e treslidos sem que se esgotem. É por isso que não tenho largado sua mais recente obra, “A Anatomia do Ócio” (ABC Edições – Fortaleza – 2018). O livro tem excelente apresentação de Floriano Martins, que vem se revelando arguto analista literário, e esmerada feição gráfica.
O livro se desdobra em cinco capítulos: Reparo das Coisas, Saliência dos Afetos, Vexame dos Pesos, Fruição dos Sigilos e Meninez das Palavras. O simples enunciado dá ao leitor uma indicação da vastidão dos voos do poeta e dos páramos por onde navegou sua imaginação, ratificando a velha afirmação de que todo grande poeta é um filósofo.
No capítulo de abertura, conclui o poeta: “terra – poucas coisas/ encaixam-se/ simplesmente na/ melancólica e majestosa/ poeira – muitas coisas/ modificam-se/ ferozmente no/ subterrâneo e predestinado/ pó – muito pouca coisa/ turva-se/ enquanto barro/ aos olhos de um lugar/ cheio de tudo/ essa estrada/ estendida/ avança e avança/ a nada se iguala/ formigueiro gelatinoso/ sob os pés/ hospeda lama.”
Que coisas serão essas?
Em Anatomia do Nome, escreveu ele: “divisa – existe um destino/ que vigia os outros/ na semipenunbra da casa.”
Que destino será esse?
Com tais indagações, deixo ao leitor o convite para ler Leontino Filho e viajar com ele pelos caminhos da imaginação sem limites. Vale a pena!
_________________________
Professor aposentado de língua e literatura, Cláudio Feldman é um trabalhador incansável. Várias vezes o encontrei em São Paulo no corpo-a-corpo para difundir a sua obra. Sempre esteve ligado a diversas modalidades artísticas: cinema (ator e roteirista), teatro (autor), artes plásticas (desenho e colagem), jornalismo (artigos culturais, direção do “Jornal da Taturana”, com Moacir Torres), veiculação de livros pela Editora Taturana) e televisão (comerciais e minisséries).
Em primeiro plano, porém, esteve sempre a literatura. Nunca cessou de produzir. Como dizem os campeiros, escrever, para ele, é uma segunda natureza. Tem 55 livros publicados contendo poesia, contos, romance, topocrônica, literatura infantil, teatro e humor. Neste último gênero, entre outros, publicou “O rapto da mulher barbada”, “O encantador de minhocas”, “Sopa de vespas”, “Ossos de borboleta”, “Pastilhas de cianureto”, “Cama de pregos” etc. É de uma criatividade espantosa e dono de um “sense of humour” sutil e ferino.
Neste ano, publicou o livro “A vida anárquica de Horácio Peludo”, que ele rotula como ficção humorística (Editora Taturana – S. Paulo – 2018). O personagem central, no correr do livro, é colocado nas mais incríveis situações, sempre de forma criativa e engraçada, a começar pelo prefácio de cinco linhas com o qual introduz Horácio Peludo no mundo. Ele entra em cena dando declarações ao jornal Gazeta do Butantã, cuja redação visitou, “para apresentar suas despedidas públicas. Pretende se regenerar.” Observação: ele é deputado federal. . .
Em seguida, como delegado, intima certa Mary Posa a fechar sua casa suspeita porque fica nas proximidades do Jardim da Infância Olavo Bilac “que não deveria assistir a tais espetáculos, principalmente quando o ator principal é o próprio Horácio.”
Já como crítico literário, Horácio declara que não gosta do “best-seller” chamado Lista Telefônica de São Paulo “pois tem personagens demais.”
Além disso, iremos encontrá-lo em numerosas outras situações, inclusive concedendo entrevista sobre dados pessoais e se submetendo a sessões psicanalíticas. Sempre imprevisível e pronto a despertar o humor, aliviando a tensão dos dias soturnos que vivemos.
Seja bem-vindo, Horácio Peludo!
___________________________
Completando as Obras Completas de William Agel de Mello, foi lançado o quinto volume, contendo a Fortuna Crítica do autor. Diplomata, linguista, ficcionista e historiador, ele reuniu neste alentado volume (710 páginas), em tamanho grande, as manifestações dos analistas sobre sua produção nos vários gêneros a que se dedica. Aparecem as opiniões publicadas em livros, revistas, jornais, correspondência, Wikipédia, Internet, além da relação de títulos literários, honra ao mérito, medalhas, prêmios, relação das bibliotecas estrangeiras que possuem seus livros e um completo curriculum do autor. É um trabalho meticuloso, englobando manifestações de críticos de renome, estampadas nos mais importantes órgãos da imprensa de todo o país. Registra com justiça a dimensão e a importância da obra do autor e abre as portas para o perfeito entendimento da mesma. Está de parabéns William Agel de Mello por tão significativo complemento de sua vasta e profícua realização no campo das letras. O livro foi publicado pela Editora Kelps (Goiânia – 2018).
_______________________
Registro, por fim, o lamçamento de mais um número da Revista da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras (55), um dos mais importantes periódicos do gênero. Dirigido pelo acadêmico Manoel Onofre Jr. e tendo como editor o escritor Thiago Gonzaga, registra a vida acadêmica e cultural daquele Estado. Destaco os discursos de posse do novel acadêmico Clauder Arcano e de saudação pelo referido Manoel Onofre Jr., além do excelente artigo de Valério Andrade sobre as relações de Lima Barreto com o jornal Correio da Manhã. Thiago Gonzaga dá a público a segunda parte de sua crônica memorialista em texto de admirável sinceeridade.

Escrito por Enéas Athanázio, 24/09/2018 às 16h29 | e.atha@terra.com.br

A convivência das línguas

No magnífico livro “Línguas e Dialetos Românicos e Germânicos” (Editora Kelps – Goiânia – 2010), o Prof. Adovaldo Fernandes Sampaio faz a abordagem de um tema que me é muito caro, ainda que não fosse o assunto central de sua obra. Trata ele nesse tópico da convivência entre as línguas tupi e portuguesa no território nacional durante o regime colonial e a expansão da população, tanto na região norte como no sul. Segundo ele, a grande quantidade de pessoas que falavam o tupi ou tupinambá aumentava de tal forma que o governo chegou a baixar decretos (cartas régias), proibindo o uso do idioma nativo dos indígenas. Claro que terá sido uma medida inócua, uma vez que a língua é um fenômeno social e o uso do tupi só foi diminuindo à medida que os falantes do português foram ocupando o território e levando a sua fala. Por outro lado, o fato revela que a prática de proibir o uso de idiomas não é de hoje, tanto que voltou a acontecer durante a II Guerra Mundial em relação ao alemão. No entanto, nem o tupi e nem o alemão desapareceram.

Segundo o linguista, o tupi foi o idioma usado de maneira predominante nos contatos entre portugueses e índios nos séculos XVI e XVII. A consequência desse prolongado contato foi a incorporação de considerável número de palavras tupis para designar aves, peixes, locais e nomes próprios de pessoas. “É notável a quantidade de lugares – diz ele – com nomes de origem tupinambá, quase sem alteração de pronúncia, muitos deles dados pelos luso-brasileiros dos séculos passados a localidades onde nunca viveram índios tupinambás.” Isso me faz lembrar de certo índio, personagem de um conto, que não se conformava com o frequente “roubo” das palavras indígenas pelos brancos. Dizia ele que estes não tinham imaginação para criar os próprios nomes e por isso se apropriavam dos indígenas.

Lembra o ensaísta que a primeira gramática da língua tupi (nheengatu) se deve ao padre jesuíta José de Anchieta (1534/1597). Era a mais falada na costa do Brasil.

Segundo ele, baseado em intensa pesquisa, o português muito se enriqueceu com um grande número de vocábulos de origem tupi. Alguns exemplos: arapuca, babaquara, beiju, caboclo, caipira, carapina, cuia, embira, jacá, jirau, jururu, maracá, mingau, pamonha, peroba, peteca, pipoca, quicé, tapioca, tocaia. Há muitas criações novas, como os verbos capinar, cutucar, empipocar, espocar, pitar, sapecar. São numerosos os nomes de animais, plantas, topônimos e alguns nomes próprios, entre os quais Jandira, como se chama minha cara-metade.

Aspecto curioso é que vocábulos de origem tupi estão presentes em muitas expressões populares do português brasileiro, como informa o autor, citando os seguintes casos: meter a mão em cumbuca, deixar de nhenhenhém, ficar jururu, puxar pelo guatambu, dar abraço de tamanduá, estourar a sapucaia, ficar de butuca, não dar importância a porandubas, remexer coivara, deixar a pereba criar casca. Como se vê, algumas mais conhecidas por aqui e outras em diferentes lugares.

Conclui-se que, muitas vezes, imaginando se expressar em refinada linguagem europeia, estamos usando a fala indígena dos brasileiros autóctones, um dos três formadores de nossa etnia.

Talvez fosse coerente a campanha do Major Policarpo Quaresma, célebre personagem do genial escritor carioca Lima Barreto, pela adoção do tupi como língua nacional em lugar do português importado da Europa. Com esse objetivo enviou petições aos órgãos do governo e batalhou pelos meios ao seu alcance. Foi hostilizado e ridicularizado, não obteve sucesso e, por ironia do destino, acabou fuzilado, ainda que por outros motivos. Mas o tupi continua vivo nas páginas dos linguistas como o Prof. Adovaldo, é usado no dia a dia pelos índios remanescentes e por todos nós quando utilizamos palavras e expressões “furtadas” dos nossos irmãos índígenas.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/09/2018 às 14h33 | e.atha@terra.com.br

GARIMPEIRO DAS LETRAS

Iaponan Soares foi incansável pesquisador de nossa literatura. Nem havia eu estreado em livro, no início dos anos 70, e já andava ele a publicar ensaios e organizar antologias, atividades que continuou a exercitar com permanente dedicação. Garimpeiro das letras, sempre com a bateia entre as mãos, removendo o leito sedimentado por onde se espraiam as letras catarinenses, procurando afastar o cascalho e extrair algumas pepitas que, depois de lapidadas, recolheu ao arcaz em cujos gavetões guardou as preciosidades. Cada um de seus livros é um deles, repleto de achados que vai exibindo ao leitor com a satisfação de quem põe à mostra seus guardados.

Em um desses gavetões, isto é, em livro publicado, são incontáveis os achados que exibe aos curiosos das coisas da literatura e da vida literária no chão catarinense. “Virgílio Várzea & Outros”, tendo como subtítulo “Literatura e Vida Literária em Santa Catarina no Século XIX e início do Século XX” (Letras Contemporâneas – Florianópolis – 2002) é um conjunto de ensaios breves, mas nem por isso fáceis ou simplistas, que desvendam um mundo de acontecimentos insuspeitados pelos catarinenses em geral, revelando a efervescência do meio cultual naquele período, às vezes turbulento, mas sempre curioso e rico, reavivando passagens importantes que poderiam se apagar da memória histórica não fosse o faro desse faiscador sem cansaço. Graças a ele, detalhes incontáveis estão a salvo da inclemência do tempo e do esquecimento.

Abrindo o desfile, surge Virgílio Várzea, aquele que mereceu a mais volumosa abordagem. Nessas páginas a ele dedicadas o ensaísta se debruçou sobre a história e a ficção na obra do escritor, o recurso da memória, o desaparecimento da musa, a influência de Eça de Queirós, com quem teria tentado uma aproximação, o mistério reinante sobre o livro “Miudezas” e o sabor da aventura que cerca “O Brigue Flibusteiro”, apontado como um dos melhores livros do ano em que foi publicado. O tema desse romance chegou ao conhecimento do autor no período em que ele viajou por três anos pelos oceanos Atlântico e Índico, integrando a tripulação de um navio espanhol. Merece destaque a página que recorda a polêmica entre novos e velhos, através dos jornais, em conseqüência da qual Eduardo Nunes Pires tentou “a todo custo, socar pela boca do jovem Virgílio Várzea o recorte do jornal que estampava os versos provocativos” (Pág. 36). O episódio teve ampla repercussão, pontilhando a “guerrilha literária” que eclodiu como uma espécie de Questão Coimbrã desterrense. Naqueles dias os embates de ideias incendiavam os corações e, às vezes, levavam até ao desafio para duelos. Hoje só haveria o encolher de ombros da indiferença.

O gaúcho Raul Bopp, celebrado poeta de “Cobra Norato”, conquista espaço no livro por conta de um poema que escreveu sobre a Ilha – “Florianóspi”, - um “registro lírico da capital catarinense em 1928” (Pág. 71), cujo texto é transcrito na íntegra. O poema, no entanto, foi eliminado da obra pelo próprio autor. É que, dizia ele, “teria sido mal interpretado por algumas pessoas que naqueles versos só encontraram um deliberado propósito de ridicularizar a terra e a gente catarinense. E para não ferir mais suscetibilidades, “Florianóspi” foi retirado de circulação...” (Pág. 73). O poema nada tem de ofensivo, é antes uma peça impressionista do que o autor sentiu, mas a censura da opinião pública surtiu efeito.

Curiosas também foram as relações de Araújo Figueredo (sem i) com o espiritismo. Segundo o ensaísta, mais que seus livros foram suas curas que o tornaram conhecido e amado pelos contemporâneos. As notícias dessas curas corriam de boca em boca e a casa do poeta se transformou num consultório onde ele dava conselhos e remédios, por isso cada vez mais concorrida, em especial pela gente pobre. Os poderes mediúnicos do poeta caíram na boca do povo, geraram estórias e lendas, provocaram denúncias à Saúde Pública e deram o tom pitoresco, alheio ao campo literário, à biografia do autor de “Madrigais” e “Ascetério.” Além de tudo, por pouco não foi fuzilado durante a Revolução de 93, tendo que buscar asilo em...Tijucas! Para lá fugiu, vestido de mulher, mas as perseguições não cessaram e foi forçado a retornar ao Desterro, onde sobreviveu com o disfarce de... mendigo! Desconheço páginas memorialistas escritas pelo poeta, mas a vida dele, sem dúvida, daria um romance.

Outros autores surgem no livro, abordados sob os mais variados e curiosos ângulos. Assim acontece com Oscar Rosas, Horácio de Carvalho, Duarte Schutel, os irmãos Nunes Pires, João Silveira de Sousa, Silva Mafra, Delminda Silveira, Carlos de Faria, Luís Delfino e outros tantos, inclusive os “três desterrados” – Carl Seidler, Josep Hoermeyer e José Mascarenhas. O segundo deles previu, em visão profética, um brilhante futuro para Itajaí, Joinville e a Ilha. Inúmeros outros aspectos e temas são tratados, tornando impossível focalizá-los a todos neste comentário.

Deixei para o final, muito a propósito, duas figuras estudadas no livro porque me são muito caras – Altino Flores e Othon D’Eça. Não conheci o primeiro em pessoa, mas comentei num jornal, na época do lançamento, seu livro “Sondagens Literárias.” Desde então nos tornamos amigos e por ocasião de uma malfadada candidatura ele, muito doente, enviou através da filha o recado de que me dava o apoio, o que muito me surpreendeu. Quanto ao segundo, exerceu atividades profissionais em minha terra, onde se tornou amigo de meu pai. Quando fui estudar em Florianópolis, eu o encontrava com freqüência e nessas ocasiões ele não se cansava de repetir que eu “parecia o Athanázio quando jovem”, referindo-se, é claro, a meu pai. Abraçava-me com emoção, revelando sempre sentida saudade do amigo de juventude. Fui depois seu aluno na Faculdade de Direito e, muitos anos mais tarde, prefaciei o livro “Aos Espanhóis Confinantes!”, de sua autoria, para a coleção das Obras Completas, editadas pela FCC (*). Em 2000, mais uma vez o acaso nos uniria: recebi o “Prêmio Othon D’Eça”, por ter sido eleito o escritor do ano pela Academia Catarinense de Letras.

Em “Uma conversa à margem do tempo”, Altino Flores aparece numa entrevista fictícia em que Iaponan Soares formula as perguntas e vai buscar as respostas na própria obra do autor, versando, acima de tudo, a crítica literária, da qual o entrevistado foi um militante constante e rigoroso. Mas ele se reporta também ao próprio pai, ao seu projeto de vida, ao jornalismo cultural, que exerceu por longo tempo, aos remanescentes do grupo de Cruz e Sousa, ao sucesso no campo das letras, à polêmica com o bispo D. Joaquim Domingues de Oliveira a respeito de Renan, de cujas ideias discordava, mas assumiu sua defesa ao vê-lo injustiçado, e, por fim, seu “evangelho” de crítico literário. “A minha reação ante as consagrações fáceis pode indicar tudo quanto quiserem os que por ela se sentem incomodados: mas as pessoas cultas e sensatas hão de reconhecer que ela representou sempre contraposta à apologia dos tolos e à vitória da petulância sobre o talento” – resumiu-se ele.(...) “A estimativa do mérito e do demérito (na literatura) começa no momento em que a carcaça do indivíduo é entregue à podridão tumular” (Pág. 53).

Afastando-se da vida pública, “distanciou-se também da vida literária catarinense, pela qual nunca mostrara a menor afeição. Enfarado do convívio mundano, recolheu-se entre os seus livros à espera da última viagem, num exílio voluntário só pouquíssimas vezes rompido” (Pág. 40). Erudito, culto, sensível, duro e justo nos seus julgamentos. Altino Flores foi um crítico como poucos. Sua projeção não foi mais ampla porque exercitava na Província o áspero ofício.

Em “Othon D’Eça, múltiplo”, Iaponan destaca vários aspectos desse intelectual que foi jurista, contista, memorialista, poeta, articulista, agitador cultural, professor e homem público. Mostra como ele “procurou a seu modo neutralizar junto aos confrades da Academia Catarinense de Letras o horror que as ideias modernistas lhes causavam. Gradativamente foi divulgando nesse espaço (suplemento “Letras e Artes”, do jornal O Estado, que dirigia) poemas dos modernistas menos radicais como Menotti Del Picchia, Ribeiro Couto, Caio de Melo Franco e outros” (Pág. 59). Também fazia observações sobre a arte moderna, em sua coluna, sem adesão incondicional, mas entendendo a mudança dos tempos. Sem sua atuação, é certo que o modernismo tardaria ainda mais a chegar nestas bandas.

Durante a Revolução Federalista sua família sofreu sérias perseguições, tendo o escritor perdido o avô e um tio, ambos fuzilados em Anhatomirim. A família fugiu para a Bahia, onde ele foi batizado. Essas passagens biográficas foram reveladas através de Cesário Braz, pseudônimo que usava em muitos escritos da época. Participou da obra coletiva “ No Mistério da Noite”, que obteve sucesso na imprensa do Desterro, sendo ele o co-autor que Iaponan identifica na letra “O”, sendo “T” de Tito Carvalho e “N” de Gustavo Neves, os outros autores (Pág. 65).

Episódios dos mais curiosos aconteciam, gerando atritos e polêmicas. Altino Flores, crítico literário, desentendeu-se muitas vezes com os medalhões da terra e até mesmo com seus companheiros de geração. Numa de suas crônicas fez comentários que Othon D’Eça julgou dirigidos a ele e se ofendeu, respondendo de forma agressiva no número seguinte, ameaçando o adversário de maneira violenta. Dias depois Altino Flores foi procurado por um emissário que lhe comunicou ter Othon D’Ela convidado a ele e a outro para padrinhos no duelo que travaria com Altino, escolhendo como arma a espada. O desafio provocou muito comentário e divertiu a valer todos que acompanhavam os incidentes, mas não passou disso. “Para tranquilidade de todos, o próprio desafiante, coração boníssimo, logo voltou para o Rio de Janeiro, onde concluía o curso de Direito e logo esqueceu tudo” (Pág. 68).

Concluindo, diria que o livro de Iaponan Soares é um inesgotável manancial de informações sobre nossa vida cultural, além de constituir um agradável exercício de boa leitura.

______________________________
(*) O prefácio foi publicado também em meu Livro “Adeus, Rangel!”, ensaios, Balneário Camboriú/SC, Editora Minarete, 1994.

Escrito por Enéas Athanázio, 10/09/2018 às 12h48 | e.atha@terra.com.br



1 2 3 4 5 6

Enéas Athanázio

Assina a coluna Enéas Athanázio

Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade