Jornal Página 3
Coluna
Crônica Semanal
Por João José Leal

Seresteira da Praça da Lagoa

O nome não é por acaso. Um dia, lá pelos anos de 1960, ali existia uma lagoa, formada pelo então rio Marambaia, que dali escoava suas águas serpenteando por terras ainda livres, até o encontro com o mar, no Pontal Norte. Veio a insensatez imobiliária e o rio teve seu reduzido curso a uma fétida e poluída vala. E, assim, a antiga lagoa, suas águas sufocadas por aterros de todos lados, acabou transformada num espaço de lazer de uso comum da comunidade, batizada com o nome de Praça da Lagoa. Na verdade, um malcuidado calçadão, localizado atrás do Shopping Atlântico.

Quem, aos sábados, por ali passar, depois das 10 da manhã, vai se deparar com uma roda de seresta. E, com certeza, vai se surpreender com os acordes de uma bela voz, cantando as canções mais conhecidas e bonitas do nosso cancioneiro. Em volta da seresteira, um grupo de fieis fãs, amantes da velha e boa música popular, aquela que encantou corações, nos anos de 1940 e seguintes, música que ainda continua fazendo bem ao nosso espírito, porque a boa música não tem idade. Certamente, vai escutar um repertório de belas e melodiosas canções cheias de nostalgia, carinhosamente cantadas para seu fiel fã-clube, que ali bate ponto todas as manhãs de sábado.

Uns sentados, suas cadeiras de alumínio trazidas de casa. Outros em pé, o poder público ausente nessa manifestação musical de cada sábado, todos ali estão para ouvir e aplaudir Eulina da Silveira, a seresteira da Praça da Lagoa. Muitos, entusiasmados, cabelos brancos, mais velhos que a velha canção, saem a dançar na improvisada pista ao ar livre, sob o sol escaldante. A cada canção, Lampião de Gás, Chão de Estrelas, A Noite do Bem, os aplausos se repetem e a cantora, incansável, continua sua missão musical de seresteira da Praça da Lagoa.

Todos, fãs de cada sábado ou turistas de poucos dias, ali estão para prestigiar, admirar e aplaudir Eulina da Silveira e suas belas canções, que enchem de acordes os ares da Praça. Poucos sabem, no entanto, que Eulina já cantou ao lado de famosos artistas em diversas cidades brasileiras e de outros países. Bem que ela poderia ter sido uma cantora profissional.

Voz bem afinada, sempre no ritmo certo e interpretação perfeita, nunca lhe faltou. Aliás, ainda não lhe falta, nesta sua idade avançada de 88 anos, intensamente vividos, magistralmente repartidos entre a família, o trabalho de Escrivã Judicial e as noites de serestas, que não foram poucas. Preferiu cantar pelo prazer único de encantar o espírito e de encher corações de alegria, ser amadora no sentido mais nobre da palavra, cantando sem se preocupar em ganhar dinheiro com a música. Porisso, é admirada, aplaudida e amada por seus fãs, todos amigos de roda de seresta.

No último sábado, passei na Praça da Lagoa. Quase meio-dia. Sol a pino. Calor de mais de quase 40 graus, neste verão abrasador de nos fatigar e nos fazer correr, em busca de sombra. Em pé, postura reta, movimentando-se lépida sobre o chão de cimento escaldante, microfone na mão, cheia de vida e entusiasmo, lá estava Eulina da Silveira a cantar Jesus Cristo, de Roberto Carlos. É a sua costumeira canção de encerramento, com seus fãs, de mãos dadas, também cantando e sorrindo, um sorriso de tranquilidade, de paz e de gratidão pela dádiva musical recebida.

Não creio em milagre. Mas, saí dali pensando. Deve haver algum mistério envolvendo essa figura extraordinária chamada Eulina Silveira.

Escrito por João José Leal, 01/02/2019 às 10h20 | jjoseleal@gmail.com



João José Leal

Assina a coluna Crônica Semanal

Membro da Academia Catarinense de Letras. Graduado pela Faculdade de Direito da UFSC, Mestre em Ciências Criminológicas pela Universidade de Bruxelas, Livre-Docente-Doutor pela Universidade Gama Filho - Rio de Janeiro. Promotor de Justiça aposentado e Ex-Procurador Geral de Justiça de Santa Catarina. Ex-Professor de Direito Penal, de Criminologia e Diretor de Ciências Judiciais da FURB - Blumenau. Ex-Professor de Política Criminal e Controle Social do Programa de Mestrado em Ciência Jurídica da UNIVALI.


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Seresteira da Praça da Lagoa

O nome não é por acaso. Um dia, lá pelos anos de 1960, ali existia uma lagoa, formada pelo então rio Marambaia, que dali escoava suas águas serpenteando por terras ainda livres, até o encontro com o mar, no Pontal Norte. Veio a insensatez imobiliária e o rio teve seu reduzido curso a uma fétida e poluída vala. E, assim, a antiga lagoa, suas águas sufocadas por aterros de todos lados, acabou transformada num espaço de lazer de uso comum da comunidade, batizada com o nome de Praça da Lagoa. Na verdade, um malcuidado calçadão, localizado atrás do Shopping Atlântico.

Quem, aos sábados, por ali passar, depois das 10 da manhã, vai se deparar com uma roda de seresta. E, com certeza, vai se surpreender com os acordes de uma bela voz, cantando as canções mais conhecidas e bonitas do nosso cancioneiro. Em volta da seresteira, um grupo de fieis fãs, amantes da velha e boa música popular, aquela que encantou corações, nos anos de 1940 e seguintes, música que ainda continua fazendo bem ao nosso espírito, porque a boa música não tem idade. Certamente, vai escutar um repertório de belas e melodiosas canções cheias de nostalgia, carinhosamente cantadas para seu fiel fã-clube, que ali bate ponto todas as manhãs de sábado.

Uns sentados, suas cadeiras de alumínio trazidas de casa. Outros em pé, o poder público ausente nessa manifestação musical de cada sábado, todos ali estão para ouvir e aplaudir Eulina da Silveira, a seresteira da Praça da Lagoa. Muitos, entusiasmados, cabelos brancos, mais velhos que a velha canção, saem a dançar na improvisada pista ao ar livre, sob o sol escaldante. A cada canção, Lampião de Gás, Chão de Estrelas, A Noite do Bem, os aplausos se repetem e a cantora, incansável, continua sua missão musical de seresteira da Praça da Lagoa.

Todos, fãs de cada sábado ou turistas de poucos dias, ali estão para prestigiar, admirar e aplaudir Eulina da Silveira e suas belas canções, que enchem de acordes os ares da Praça. Poucos sabem, no entanto, que Eulina já cantou ao lado de famosos artistas em diversas cidades brasileiras e de outros países. Bem que ela poderia ter sido uma cantora profissional.

Voz bem afinada, sempre no ritmo certo e interpretação perfeita, nunca lhe faltou. Aliás, ainda não lhe falta, nesta sua idade avançada de 88 anos, intensamente vividos, magistralmente repartidos entre a família, o trabalho de Escrivã Judicial e as noites de serestas, que não foram poucas. Preferiu cantar pelo prazer único de encantar o espírito e de encher corações de alegria, ser amadora no sentido mais nobre da palavra, cantando sem se preocupar em ganhar dinheiro com a música. Porisso, é admirada, aplaudida e amada por seus fãs, todos amigos de roda de seresta.

No último sábado, passei na Praça da Lagoa. Quase meio-dia. Sol a pino. Calor de mais de quase 40 graus, neste verão abrasador de nos fatigar e nos fazer correr, em busca de sombra. Em pé, postura reta, movimentando-se lépida sobre o chão de cimento escaldante, microfone na mão, cheia de vida e entusiasmo, lá estava Eulina da Silveira a cantar Jesus Cristo, de Roberto Carlos. É a sua costumeira canção de encerramento, com seus fãs, de mãos dadas, também cantando e sorrindo, um sorriso de tranquilidade, de paz e de gratidão pela dádiva musical recebida.

Não creio em milagre. Mas, saí dali pensando. Deve haver algum mistério envolvendo essa figura extraordinária chamada Eulina Silveira.

Escrito por João José Leal, 01/02/2019 às 10h20 | jjoseleal@gmail.com



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Membro da Academia Catarinense de Letras. Graduado pela Faculdade de Direito da UFSC, Mestre em Ciências Criminológicas pela Universidade de Bruxelas, Livre-Docente-Doutor pela Universidade Gama Filho - Rio de Janeiro. Promotor de Justiça aposentado e Ex-Procurador Geral de Justiça de Santa Catarina. Ex-Professor de Direito Penal, de Criminologia e Diretor de Ciências Judiciais da FURB - Blumenau. Ex-Professor de Política Criminal e Controle Social do Programa de Mestrado em Ciência Jurídica da UNIVALI.


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