Jornal Página 3
Coluna
Crônica Semanal
Por João José Leal

Papo de vinho

Não creio que o vinho seja remédio, como dizem algumas mensagens que circulam nas redes sociais. Mas, toda noite tomo vinho, geralmente, jantando e assistindo ao noticiário. Se até Cristo ofereceu vinho aos seus discípulos, penso que nós, pecadores imperfeitos, podemos beber, moderadamente, que não faz mal a ninguém. Ao menos, meu médico cardiologista não é daqueles que faz terrorismo. Nunca me proibiu beber uma taça de vinho, por dia. Se bebo duas, aí, é por minha conta.

Gosto de conversar sobre a história do vinho. Afinal, na Idade da Pedra, há mais de 7 mil anos, o homem já cultivava as primeiras parreiras de uva. E a história nos ensina que o vinho esteve presente na vida de todas civilizações. Gregos e romanos veneravam os seus deuses do vinho, dedicando-lhes festanças e orgias sem tamanho, sem dia e hora para acabar. Portanto, há milênios, o ser humano consome essa bebida euforizante para espancar tristezas da alma e mistérios que a razão humana desconhece. Hoje, com ou sem deuses, o consumo do vinho parece que só aumenta.

O que não gosto, mesmo, é daquele discurso de sommelier, profissional com nome francês e conversa afetada, artificiosa, sobre a receita para se conhecer um bom vinho e o protocolo para se tomar uma boa dose da bebida. É um discurso em tom professoral, de palavras vazias, beirando o ridículo, que busca apenas impressionar e sugestionar o consumidor, principalmente, o iniciante. É um papo difícil de escutar, é conversa fiada. Para esse profissional, vinho na taça, é convite a um ritual da frescura.

O cerimonial da chatice começa com a taça levada ao nariz e aquela conversa pernóstica sobre o aroma do vinho, marcada por adjetivos e substantivos frívolos e de mil sentidos. São frases prontas, decoradas, para dizer que o vinho cheira a framboesa, melão, manga e groselha, um pomar inteiro de aromas, porque é preciso arranjar uma fruta para cada rótulo. E quando faltam as frutas, recorre-se às especiarias. É o cravo, a canela, o cominho, o anis e outros temperos refinados, porque o vinho tem que ter cheiro de outra coisa que não seja o do próprio vinho.

Depois da taça no nariz, vem o papo de se harmonizar bebida com comida, coisa superimportante, no discurso do pregoeiro da enofilia. Milhares são as receitas para o prato ideal que deve combinar com o tinto ou o branco a ser tomado. Li a recomendação de um sommelier, indicando os pratos para acompanhar vinho produzido nos confins da Patagônia e me convenci de que estava a desdenhar da minha inteligência: “ótima combinação com sopa de feijão-branco, cubos de presunto e farofinha crocante; com goulasch de fígado de bovino e molho de tomate; ou com canelone de abobrinha e tomate seco”.

Tanta abobrinha, só com um vinho na taça.

Escrito por João José Leal, 30/11/2018 às 09h45 | jjoseleal@gmail.com



João José Leal

Assina a coluna Crônica Semanal

Membro da Academia Catarinense de Letras. Graduado pela Faculdade de Direito da UFSC, Mestre em Ciências Criminológicas pela Universidade de Bruxelas, Livre-Docente-Doutor pela Universidade Gama Filho - Rio de Janeiro. Promotor de Justiça aposentado e Ex-Procurador Geral de Justiça de Santa Catarina. Ex-Professor de Direito Penal, de Criminologia e Diretor de Ciências Judiciais da FURB - Blumenau. Ex-Professor de Política Criminal e Controle Social do Programa de Mestrado em Ciência Jurídica da UNIVALI.


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Papo de vinho

Não creio que o vinho seja remédio, como dizem algumas mensagens que circulam nas redes sociais. Mas, toda noite tomo vinho, geralmente, jantando e assistindo ao noticiário. Se até Cristo ofereceu vinho aos seus discípulos, penso que nós, pecadores imperfeitos, podemos beber, moderadamente, que não faz mal a ninguém. Ao menos, meu médico cardiologista não é daqueles que faz terrorismo. Nunca me proibiu beber uma taça de vinho, por dia. Se bebo duas, aí, é por minha conta.

Gosto de conversar sobre a história do vinho. Afinal, na Idade da Pedra, há mais de 7 mil anos, o homem já cultivava as primeiras parreiras de uva. E a história nos ensina que o vinho esteve presente na vida de todas civilizações. Gregos e romanos veneravam os seus deuses do vinho, dedicando-lhes festanças e orgias sem tamanho, sem dia e hora para acabar. Portanto, há milênios, o ser humano consome essa bebida euforizante para espancar tristezas da alma e mistérios que a razão humana desconhece. Hoje, com ou sem deuses, o consumo do vinho parece que só aumenta.

O que não gosto, mesmo, é daquele discurso de sommelier, profissional com nome francês e conversa afetada, artificiosa, sobre a receita para se conhecer um bom vinho e o protocolo para se tomar uma boa dose da bebida. É um discurso em tom professoral, de palavras vazias, beirando o ridículo, que busca apenas impressionar e sugestionar o consumidor, principalmente, o iniciante. É um papo difícil de escutar, é conversa fiada. Para esse profissional, vinho na taça, é convite a um ritual da frescura.

O cerimonial da chatice começa com a taça levada ao nariz e aquela conversa pernóstica sobre o aroma do vinho, marcada por adjetivos e substantivos frívolos e de mil sentidos. São frases prontas, decoradas, para dizer que o vinho cheira a framboesa, melão, manga e groselha, um pomar inteiro de aromas, porque é preciso arranjar uma fruta para cada rótulo. E quando faltam as frutas, recorre-se às especiarias. É o cravo, a canela, o cominho, o anis e outros temperos refinados, porque o vinho tem que ter cheiro de outra coisa que não seja o do próprio vinho.

Depois da taça no nariz, vem o papo de se harmonizar bebida com comida, coisa superimportante, no discurso do pregoeiro da enofilia. Milhares são as receitas para o prato ideal que deve combinar com o tinto ou o branco a ser tomado. Li a recomendação de um sommelier, indicando os pratos para acompanhar vinho produzido nos confins da Patagônia e me convenci de que estava a desdenhar da minha inteligência: “ótima combinação com sopa de feijão-branco, cubos de presunto e farofinha crocante; com goulasch de fígado de bovino e molho de tomate; ou com canelone de abobrinha e tomate seco”.

Tanta abobrinha, só com um vinho na taça.

Escrito por João José Leal, 30/11/2018 às 09h45 | jjoseleal@gmail.com



João José Leal

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Membro da Academia Catarinense de Letras. Graduado pela Faculdade de Direito da UFSC, Mestre em Ciências Criminológicas pela Universidade de Bruxelas, Livre-Docente-Doutor pela Universidade Gama Filho - Rio de Janeiro. Promotor de Justiça aposentado e Ex-Procurador Geral de Justiça de Santa Catarina. Ex-Professor de Direito Penal, de Criminologia e Diretor de Ciências Judiciais da FURB - Blumenau. Ex-Professor de Política Criminal e Controle Social do Programa de Mestrado em Ciência Jurídica da UNIVALI.


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