Jornal Página 3
Coluna
Crônica Semanal
Por João José Leal

Conversas Praianas - Dubai Brasileira

Estiradas nas milhares de cadeiras de praias, armações de alumínio e plástico estendidas para abraçar corpos femininos vestidos com as duas peças do mínimo tolerado pelo pudor social, uns esculturais, sensuais, outros não tanto, fora do padrão de beleza, porque a natureza é seletiva, mulheres vindas de muitos rincões deste país e do continente sulamericano curtem a vaidade feminina sob a ação bronzeadora dos raios solares.

Quase não falam, o calor escaldante é um convite à indolência. Acima de tudo, sofrer é preciso, para o bronze brilhar na pele do objeto sexual do desejo machista.

Embaixo de outros tantos milhares de guarda-sóis e barracas de praia, oásis de sombra e ócio refrescado pelo sopro da brisa atlântica, homens conversam sobre futebol, mulheres e, também, sobre política. A depender dessas discussões, todos os problemas nacionais estariam solucionados e o Brasil seria o mais rico e feliz país do mundo, porque o efeito deletério do álcool move montanhas, conduz ao devaneio de imaginar que tudo é simples, fácil e possível.

Para esses veranistas vestidos em seus calções de banho, todos os maus políticos desta maltratada nação já estariam condenados e presos.

Lula na frente de todos, com uma longa pena a cumprir em regime fechado, porque lugar de ladrão é na cadeia.

Na temporada de férias coletivas, tempo estival de sol e calor, convite irresistível para contemplar a imensidão oceânica e se banhar no vai-e-vem das águas de espuma e sal, BCamboriú é pouso passageiro de milhares dessas aves de arribação chamadas turistas.

A maioria desses veranistas fica pouco tempo na praia. A rotina do trabalho e dos negócios é mais forte. Como diz a canção nativista, viajam e levam consigo desassossego negocial como companheiro.

Para essas aves de arribação, férias na praia é desperdício de tempo. Mas, acabam seguindo a romaria do turismo praiano. É moda, é chique e a família, em primeiro lugar, merece. Então, veranear é preciso.

E a praia se transforma em acampamento de banhistas sentados à sombra dos tetos de lona sem fim, muitos empunhando uma cerveja enlatada porque o calor convida a uma loira gelada. Outros - gaúcho, como pardal, você encontra em todo lugar - sem bombacha, sem bota e sem guaiaca, sorvendo o mate amargo, porque a tradição não morre à beira-mar.

Em tempo de veraneio e ociosidade, assim é a praia de BCamboriú, com seus espigões de concreto e aço avançando nas alturas sem limite.

Tomada por turistas vindos de perto e longe, até de além fronteiras, já está sendo chamada de Dubai brasileira. Sem petróleo, sem xeique e sem o autoritarismo político e religioso, é claro.

Aqui as mulheres são livres para desfilar de biquíni e fio dental e despertar paixões adormecidas em fracos corações masculinos.

Os homens, livres para criticar o governo e condenar os maus políticos à prisão perpétua, em nome da moralidade pública.

E a nação, essa imensa nave desgovernada, parece continuar afundando.

Escrito por João José Leal, 29/01/2018 às 08h21 | jjoseleal@gmail.com



João José Leal

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Graduado pela Faculdade de Direito da UFSC, Mestre em Ciências Criminológicas pela Universidade de Bruxelas, Livre-Docente-Doutor pela Universidade Gama Filho - Rio de Janeiro. Promotor de Justiça aposentado e Ex-Procurador Geral de Justiça de Santa Catarina. Ex-Professor de Direito Penal, de Criminologia e Diretor de Ciências Judiciais da FURB - Blumenau. Ex-Professor de Política Criminal e Controle Social do Programa de Mestrado em Ciência Jurídica da UNIVALI.


















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