Jornal Página 3
Coluna
Crônica Semanal
Por João José Leal

Conversas Praianas - Lar doce Lar

Sentadas ao redor da mesa, no deque da piscina de um edifício em Balneário Camboriú, mas que poderia ser de qualquer outra cidade praiana brasileira, mais de 9 mil quilômetros de sol, praia, areia, mar e ócio para os abonados ou a elite deste país de contradição social muito maior que nossa extensa faixa litorânea , um grupo de mulheres conversa sobre coisas da vida doméstica, do recanto eufemisticamente chamado de Lar doce Lar.

São mulheres da geração que quase não fala de política nem de futebol, muito menos da crise econômica, que parece passar longe das preocupações dessas senhoras da classe média alta e da elite brasileira.

Assim, o assunto preferido, nessa roda de conversa feminina, ainda fica conta da economia doméstica, dos filhos, dos netos, dos maridos atuais ou passados. Uma delas, sexagenária avó curitibana, envergando um biquíni floral, com visual de quarentona neste tempo de plásticas e silicone, dizia para as colegas que seu apartamento estava virado de pernas para o ar, banheiros e quartos entupidos de roupa jogada no chão, pia da cozinha cheia de pratos e talheres sujos, uma bagunça geral.

O motivo, suas duas filhas casadas, genros e três netos tinham chegado para passar as festas de fim de ano e iriam continuar por mais alguns dias. A rotina cotidiana do velho casal tinha sido completamente quebrada pelo agito sem disciplina nem horário da prole familiar. "Imaginem vocês, minhas filhas disseram que querem curtir as férias, sem compromisso nenhum com hora para levantar ou para comer. Nossos fusos horários não coincidem. Ao contrário, são completamente opostos. Nós nos levantamos antes das oito horas para o café da manhã e a caminhada na praia, antes do sol e do calor. Eles se levantam depois do meio dia, já sol a pino, quando eu e meu marido estamos nos preparando para o almoço".

Revelando certa contrariedade com a quebra da ordem doméstica, mas resignada, toda mãe e avó sabem cultivar muito bem essa virtude chamada resignação, a sexagenária veranista descreve com detalhes a bagunça na cozinha, transformada em verdadeira praça de alimentação. Com tristeza, diz que "é uma confusão geral. Cafeteira e panelas sobre o fogão, xícaras e pratos sobre a mesa, em meio a pães, queijos, geléias, carnes, maionese e saladas.

A velha geração quer almoçar, mas a nova ainda está quebrando o jejum, com sucos, frutas, cereais, cafés e tostadas. Afinal, a juventude também não é de ferro e merece alimentar o corpo, antes de partir para aproveitar a metade do dia não desperdiçada pelo sono matinal da preguiça e da ociosidade.

Então, lembrei do ditado popular: "Família reunida, paz comprometida."

Escrito por João José Leal, 22/01/2018 às 08h25 | jjoseleal@gmail.com

Bitcoin

Dinheiro não dá em árvores nem se pesca de caniço e anzol. Isso, eu aprendi, ainda jovem, quando estudava na Universidade.

Naquela época, apareceu uma dessas correntes com a proposta de se ganhar dinheiro fácil. Na verdade, garantia ao "investidor" ganhar um bom par de sapatos, de famosa marca, por apenas um quarto do valor.

Bastava, você ingressar na corrente, pagar 40 cruzeiros para um amigo vendedor, fazer o mesmo com outros cinco amigos e mandar o dinheiro para fábrica que lhe remetia um belo calçado no valor de 200 cruzeiros.

Paguei os 40 cruzeiros para meu amigo, que conseguiu vender as cinco cotas e receber seus sapatos feitos a mão, em couro cromo alemão.

Mas, não consegui convencer outros cinco amigos dispostos a acreditar na certeza do negócio e bancar o valor do meu par de sapatos. Logo, notei que outros casos semelhantes estavam ocorrendo. Os elos foram sendo quebrados e, em pouco tempo, já não se falava mais em corrente do sapato.

Fiquei no prejuízo. Mas, aprendi a lição: sempre é preciso pagar o sapato que calçamos. E o jeito foi colocar meia sola no meu velho sapato para enfrentar a caminhada diária pelas ruas da então provinciana capital catarinense.

Outras correntes chegaram e se foram, sempre deixando alguém ou muita gente no prejuízo. Inclusive, as sugestivas e, não menos enganosas, pirâmides financeiras, versão moderna das correntes dos anos 1970.

Agora, parece ser a vez dessa tal de Bitcoin, que já impressiona pelo nome em inglês. No nosso idioma, é conhecida por criptomoeda ou moeda digital, unidade monetária que só circula no mundo virtual e cibernético dos computadores. Você não pode ter uma bitcoin nas mãos, colocá-la na carteira nem no bolso. Ontem, uma só bitcoin estaria valendo R$ 52.700,00.

Os entusiasmados adeptos dizem que a bitcoin é a moeda do futuro que já chegou. Isso, é possível. Afinal, a informatização chegou para regular todos os escaninhos da complicada rede de atividades econômicas e sociais pósmodernas.

No entanto, a propaganda do novo produto não parece confiável. Todas, numa só voz, convidam você para ganhar dinheiro fácil. Em muito casos, é claramente enganosa, com anúncios tipo: "Morador de Paraisópolis fatura R$ 1,4 milhão com Bitcoins (Globo.com)" ou, ainda, "Homem compra US$ 27 em Bitcoins e, quatro anos depois, eles valem US$ 1 milhão (UOL)".

Porisso, seus críticos dizem que se trata de mais uma bolha financeira, prestes a estourar. Pessoalmente, sinto-me velho, sem vontade nenhuma de participar dessa nova corrida do ouro. Além disso, serviu-me a lição de meus tempos de universitário: um sapato novo sempre terá o preço a ser pago. 

Escrito por João José Leal, 15/01/2018 às 07h48 | jjoseleal@gmail.com

Fim de ano em Balneário Camboriú

A semana foi chuvosa. Mas, o sol brilhou no último dia do ano, para encher de entusiasmo os milhares de turistas que lotaram BCamboriú para as festas de fim de ano.

E põe gente nisso, saindo de edifícios furando os céus sem limite, essas caixas de concreto que um dia alcançaram 4, 10, 30, depois, 40 pavimentos. Agora, avançam para chegar aos 80, porque dos 60 andares, o desafio já foi vencido.

É uma multidão peregrina, aves de arribação de poucos dias, infinda procissão de festivos pagãos, caminhando por ruas e calçadas num vai-e-vem de pura ociosidade.

É muita gente, emergindo dos labirintos de uma cidade congestionada, atrofiada, com suas bocas de esgoto borbulhantes, as entranhas da terra devolvendo o excesso fisiológico que a burocracia oficial não consegue administrar.

É muita gente. Nos quiosques da orla tomados de assalto, veranistas vindos de todas as bandas disputam espaço para levantar nas mãos a euforizante caipirinha ou uma loira bem gelada, fontes do infalíveis do álcool a serviço do prazer coletivo.

Nesses bares praianos, também disputa acirrada em filas sem tamanho, de angustiados veranistas em busca do alívio da necessidade fisiológica, no único vaso sanitário.

Se turistas são algumas centenas de milhares, as latinhas vazias da cevada feita cerveja são de mais de milhão fazendo a alegria dessa gente passageira, em busca do lazer e do divertimento em tempo integral. Vazias, essas lâminas de alumínio pisoteado, sucateado, será convertido em moeda de lata (can coin) para a triste alegria dos catadores excluídos de uma sociedade tão contraditória.

Neste tempo de cidade tomada por aves de arribação chegando de todos os lados, a praia transforma-se numa floresta sem fim de guarda-sóis e barracas, num vasto milharal de lona e pano. Em tempo de virada de ano, assim é a praia de BCamboriú, meca profana do ócio temperado pela água e sal, adubado pela branca areia, curtido pelo raio solar.

No último instante do velho ano, no átimo de tempo que anuncia o novo ano, a multidão invade a praia para assistir ao esperado show pirotécnico dos fogos a colorir e iluminar os ares. Então, aquela gente frente à escuridão do mar, não tem olhos para as ondas se esparramando na areia, porque a fantasia e a ilusão tomam conta das suas mentes. São apenas 15 minutos de magia pirotécnica, mas aquela gente está cheia de esperança no Novo Ano.

Não sei o que vem pela frente nem o que a realidade nos aprontará. Mesmo assim, desejo aos meus leitores um Novo Ano de paz de felicidade.

Escrito por João José Leal, 02/01/2018 às 16h09 | jjoseleal@gmail.com

Natal 2017

Então, como diz a conhecida canção, é Natal! Há dias que o comércio, que precisa sobreviver, vem criando esse clima de alegria festiva, em torno da festa natalina. Os bem elaborados jingles publicitários cantados nas rádios e TV, as alegres mensagens de paz e prosperidade, a simpática figura do bom Papai Noel prometendo distribuir sacos de presentes, criam uma onda de alegria contagiante e, miram, com precisão, a nossa sensível veia consumidora para nos induzir a comprar e presentear parentes e amigos. Afinal, quem não se sente bem, comprando um presente para a mãe, o filho, a esposa ou até para a sogra?

Assim, tem sido o Natal, depois que a data foi transformada no período de maior movimento de compras, no ponto culminante do calendário mercantil. Isso, no nosso mundo ocidental e cristão. No Oriente, onde predominam diferentes crenças religiosas, não devem faltar outras datas para as pessoas se presentearem com pacotes de agrados e votos de felicidade.

No entanto, Natal não é só festa de regalos. É, antes de tudo, a data mais importante cristianismo, com sua ética baseada na humildade e no amor ao próximo, virtudes tão fáceis de serem aceitas e proclamadas, tão difíceis de serem praticadas. Nem mesmo os discípulos mais próximos do Mestre foram capazes de observar seus mandamentos sem deslizes e hesitações. Assim, é compreensível que nós, homens eticamente imperfeitos, vivendo numa sociedade materializada e de tantas contradições sociais, tenhamos também os nossos pecados, as nossas fraquezas morais.

E, então, como diz um dos versos da canção, chegado o momento da reflexão de mais um tempo natalino, devemos nos perguntar, o que fizemos de bom, que atos de verdadeira solidariedade cristã praticamos no decorrer desses 365 dias, que passaram rápidos, voando. Sei, por mim. Queremos, fazemos promessas mil. Mas, não é fácil praticar os ensinamentos da ética cristã. O que nos conforta é que, se não fomos bons o suficiente e o quanto podíamos, teremos mais uma oportunidade para melhorar. No próximo Natal, seremos chamados a fazer mais um balanço de nossas ações;

De qualquer forma, é Natal. A família vai se reunir porque Natal é momento de magia, é festa dessa tribo de gente que briga e se desentende. Porém, o sangue é mais forte e todos seguem a velha tradição. Não são mais os reis, seguindo o caminho do Oriente, marcado pela grande estrela de cauda. Agora, gente fina e gente humilde, todos, atendem ao chamado da velha matriarca, seguem o caminho do antigo lar, ninho de onde um dia partiram para construir outros lares e se reunirão para cantar Noite Feliz.

Passado o Natal, nem todos visitarão a velha mãe, o irmão, o cunhado ou a sogra, porque a vida tem suas distâncias, suas cercas invisíveis e nem sempre nos dá tempo. Mas, uma coisa é certa. No próximo ano, todos estarão reunidos, atendendo ao chamado mágico do canto natalino.

Aos meus pacientes leitores, desejo um Natal de Paz.

Escrito por João José Leal, 20/12/2017 às 12h55 | jjoseleal@gmail.com

Finados e o Culto aos Mortos

Ontem, Dia de Finados, data que os vivos resolveram dedicar à memória dos seus mortos, tradição cristã de mais de mil anos, repeti uma rotina dos últimos anos. No período da manhã, crisântemos brancos nas mãos, visitei o cemitério de Tijucas. Foi uma caminhada silenciosa pela alameda do descanso eterno, vereda da saudade que corta o campo santo de norte a sul.

Na caminhada, fui lendo o nome das famílias nas sepulturas silenciosas e das pessoas ali enterradas. Os Azevedos, vizinhos da minha casa, na rua Nova; os Laus, comerciantes, alguns escritores famosos, um deles desembargador e meu grande amigo; os Carvalhos, que tiveram conhecido Café, sorveteria e, até, prefeito da cidade; os Santanas, donos de fábrica de farinha de nozes, onde brinquei sobre montes do farelo branco, antes que se transformassem em precioso óleo de máquina; os Britos, marceneiros, um advogado, outro escrivão e técnico do Tiradentes e, ainda, da minha professora mais querida; os Ternes, da cerâmica, do conhecido sapateiro da cidade e pai de um de meus amigo de infância; os Chaves, da famosa bala e do musse de banana, um deles expedicionário da FEB, depois prefeito da cidade.

Passei, também, em frente do jazigo, da família Manoel Cruz arrojado comerciante português, que construiu o primeiro cine-teatro da região. Mais à frente, vi o imponente sepulcro, verdadeiro mausoléu, dos Bayers. No passado, adversários, até inimigos, disputaram o poder econômico e político da cidade, com seus rivais, os Gallottis. Hoje, os mortos destas duas tradicionais famílias descansam em paz, lado a lado, confirmando o velho ditado popular “a morte a todos iguala”.

Ao final da caminhada da saudade, cumprindo a tradição do culto aos mortos, depositei as flores na sepultura de meus avós paternos. Não cheguei a conhecer minha avó paterna. De meu avô, lembro muito pouco, uma lembrança nebulosa. Mas, sentirei que ali estão enterrados personagens que fazem parte da minha existência e da minha história.

O meu périplo de Finados terminou no antigo cemitério de São Miguel, junto à bicentenária igreja do mesmo nome, próximo a Biguaçu. Lá, onde repousam famílias açorianas, estão enterrados meus pais e avós maternos. O cemitério é um pouco como as ruas tortuosas, desalinhadas e estreitas de Angra do Heroísmo, bela cidade dos Açores.

Para chegar ao túmulo de meus pais, foi preciso caminhar, ziguezagueando, sobre antigas sepulturas Mas, os mortos não falam, não reclamam nem se incomodam ao se sentirem pisoteados por estranhos de flores nas mãos, que ali foram, justamente, para preservar a tradição do culto aos seus antepassados. Na sepultura, também deixei crisântemos e agradeci aos meus pais e avós o exemplo de vida que me legaram e à toda nossa família.

Escrito por João José Leal, 03/11/2017 às 15h05 | jjoseleal@gmail.com

Michel Temer continua presidente

Num país sério, onde a política é pautada por princípios éticos, a honestidade como virtude fundamental para o exercício de qualquer função pública, há muito tempo, Michel Temer estaria afastado da presidência da República.

Aliás, nem teria lá chegado, nas condições em que assumiu.

Infelizmente, para a maioria dos nossos parlamentares sem compromisso com princípios nem com virtudes, o que vale é a permanência na vitrina dourada, não importa se conspurcada, do poder.

Mesmo que, para isso, esses vendilhões do templo, tenham que fincar os pés no lodaçal dos corredores e gabinetes planaltinos, vender a alma e o pensamento.

E, assim, Michel Termer escapou da segunda denúncia, juntamente com seus ministros mais próximos, acusados de obstrução de justiça e de integrarem uma organização criminosa.

Quase 600 milhões de reais teriam sido apropriados de diversos órgãos públicos pelo “Quadrilhão do PMDB”, da Câmara dos Deputados.

E, o chefe, não seria ninguém menos que atual presidente da República.

A gravíssima denúncia vai continur como uma espada sobre a cabeça de quem está no comando da nação brasileira. Em qualquer outro país democrático, o afastamento da presidência seria inevitável.

O mal é que a insólita acusação foi sendo digerida por boa parte da opinião pública, agora, habituada a ver políticos na prisão, no banco dos réus e nas páginas policiais. Com know how adquirido no processo da denúncia anterior, Michel Temer soube manipular a “vontade livre” de deputados que votaram “de acordo com suas consciências”.

Na verdade, soube trabalhar nos porões da Câmara baixa para garantir o apoio de aliados, sempre dispostos a negociar seus votos nas questões políticas mais importantes, desde que tratados a pão-de-ló, pago com dinheiro público. Cargos foram distribuídos, verbas empenhadas, reformas prometidas como indispensáveis, esquecidas.

Na quarta-feira, durante a votação da grave denúncia, o plenário da Câmara dos Deputados foi transformado, mais uma vez, num palco do teatro do absurdo, da demagogia explícita e despudorada. A nação brasileira, indignada e enojada, assistiu a cenas ridículas e vergonhosas de uma tragicomédia encenada por nossos deputados federais. O texto do melodrama da desfaçatez e do fisiologismo antiético, escrito com as tintas do aliciamento e do dinheiro ilícito, todos já conheciam o final.

Mas, nossos deputados, exímios profissionais na arte de fingir e dissimular, fizeram questão de encenar, com apaixonante eloquência, mais uma ridícula pantomima sob os holofotes da mídia, no desacreditado palco da demagogia parlamentar. E, assim, Michel Temer continua presidente.
 

Escrito por João José Leal, 26/10/2017 às 13h07 | jjoseleal@gmail.com



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João José Leal

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Graduado pela Faculdade de Direito da UFSC, Mestre em Ciências Criminológicas pela Universidade de Bruxelas, Livre-Docente-Doutor pela Universidade Gama Filho - Rio de Janeiro. Promotor de Justiça aposentado e Ex-Procurador Geral de Justiça de Santa Catarina. Ex-Professor de Direito Penal, de Criminologia e Diretor de Ciências Judiciais da FURB - Blumenau. Ex-Professor de Política Criminal e Controle Social do Programa de Mestrado em Ciência Jurídica da UNIVALI.


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Conversas Praianas - Lar doce Lar

Sentadas ao redor da mesa, no deque da piscina de um edifício em Balneário Camboriú, mas que poderia ser de qualquer outra cidade praiana brasileira, mais de 9 mil quilômetros de sol, praia, areia, mar e ócio para os abonados ou a elite deste país de contradição social muito maior que nossa extensa faixa litorânea , um grupo de mulheres conversa sobre coisas da vida doméstica, do recanto eufemisticamente chamado de Lar doce Lar.

São mulheres da geração que quase não fala de política nem de futebol, muito menos da crise econômica, que parece passar longe das preocupações dessas senhoras da classe média alta e da elite brasileira.

Assim, o assunto preferido, nessa roda de conversa feminina, ainda fica conta da economia doméstica, dos filhos, dos netos, dos maridos atuais ou passados. Uma delas, sexagenária avó curitibana, envergando um biquíni floral, com visual de quarentona neste tempo de plásticas e silicone, dizia para as colegas que seu apartamento estava virado de pernas para o ar, banheiros e quartos entupidos de roupa jogada no chão, pia da cozinha cheia de pratos e talheres sujos, uma bagunça geral.

O motivo, suas duas filhas casadas, genros e três netos tinham chegado para passar as festas de fim de ano e iriam continuar por mais alguns dias. A rotina cotidiana do velho casal tinha sido completamente quebrada pelo agito sem disciplina nem horário da prole familiar. "Imaginem vocês, minhas filhas disseram que querem curtir as férias, sem compromisso nenhum com hora para levantar ou para comer. Nossos fusos horários não coincidem. Ao contrário, são completamente opostos. Nós nos levantamos antes das oito horas para o café da manhã e a caminhada na praia, antes do sol e do calor. Eles se levantam depois do meio dia, já sol a pino, quando eu e meu marido estamos nos preparando para o almoço".

Revelando certa contrariedade com a quebra da ordem doméstica, mas resignada, toda mãe e avó sabem cultivar muito bem essa virtude chamada resignação, a sexagenária veranista descreve com detalhes a bagunça na cozinha, transformada em verdadeira praça de alimentação. Com tristeza, diz que "é uma confusão geral. Cafeteira e panelas sobre o fogão, xícaras e pratos sobre a mesa, em meio a pães, queijos, geléias, carnes, maionese e saladas.

A velha geração quer almoçar, mas a nova ainda está quebrando o jejum, com sucos, frutas, cereais, cafés e tostadas. Afinal, a juventude também não é de ferro e merece alimentar o corpo, antes de partir para aproveitar a metade do dia não desperdiçada pelo sono matinal da preguiça e da ociosidade.

Então, lembrei do ditado popular: "Família reunida, paz comprometida."

Escrito por João José Leal, 22/01/2018 às 08h25 | jjoseleal@gmail.com

Bitcoin

Dinheiro não dá em árvores nem se pesca de caniço e anzol. Isso, eu aprendi, ainda jovem, quando estudava na Universidade.

Naquela época, apareceu uma dessas correntes com a proposta de se ganhar dinheiro fácil. Na verdade, garantia ao "investidor" ganhar um bom par de sapatos, de famosa marca, por apenas um quarto do valor.

Bastava, você ingressar na corrente, pagar 40 cruzeiros para um amigo vendedor, fazer o mesmo com outros cinco amigos e mandar o dinheiro para fábrica que lhe remetia um belo calçado no valor de 200 cruzeiros.

Paguei os 40 cruzeiros para meu amigo, que conseguiu vender as cinco cotas e receber seus sapatos feitos a mão, em couro cromo alemão.

Mas, não consegui convencer outros cinco amigos dispostos a acreditar na certeza do negócio e bancar o valor do meu par de sapatos. Logo, notei que outros casos semelhantes estavam ocorrendo. Os elos foram sendo quebrados e, em pouco tempo, já não se falava mais em corrente do sapato.

Fiquei no prejuízo. Mas, aprendi a lição: sempre é preciso pagar o sapato que calçamos. E o jeito foi colocar meia sola no meu velho sapato para enfrentar a caminhada diária pelas ruas da então provinciana capital catarinense.

Outras correntes chegaram e se foram, sempre deixando alguém ou muita gente no prejuízo. Inclusive, as sugestivas e, não menos enganosas, pirâmides financeiras, versão moderna das correntes dos anos 1970.

Agora, parece ser a vez dessa tal de Bitcoin, que já impressiona pelo nome em inglês. No nosso idioma, é conhecida por criptomoeda ou moeda digital, unidade monetária que só circula no mundo virtual e cibernético dos computadores. Você não pode ter uma bitcoin nas mãos, colocá-la na carteira nem no bolso. Ontem, uma só bitcoin estaria valendo R$ 52.700,00.

Os entusiasmados adeptos dizem que a bitcoin é a moeda do futuro que já chegou. Isso, é possível. Afinal, a informatização chegou para regular todos os escaninhos da complicada rede de atividades econômicas e sociais pósmodernas.

No entanto, a propaganda do novo produto não parece confiável. Todas, numa só voz, convidam você para ganhar dinheiro fácil. Em muito casos, é claramente enganosa, com anúncios tipo: "Morador de Paraisópolis fatura R$ 1,4 milhão com Bitcoins (Globo.com)" ou, ainda, "Homem compra US$ 27 em Bitcoins e, quatro anos depois, eles valem US$ 1 milhão (UOL)".

Porisso, seus críticos dizem que se trata de mais uma bolha financeira, prestes a estourar. Pessoalmente, sinto-me velho, sem vontade nenhuma de participar dessa nova corrida do ouro. Além disso, serviu-me a lição de meus tempos de universitário: um sapato novo sempre terá o preço a ser pago. 

Escrito por João José Leal, 15/01/2018 às 07h48 | jjoseleal@gmail.com

Fim de ano em Balneário Camboriú

A semana foi chuvosa. Mas, o sol brilhou no último dia do ano, para encher de entusiasmo os milhares de turistas que lotaram BCamboriú para as festas de fim de ano.

E põe gente nisso, saindo de edifícios furando os céus sem limite, essas caixas de concreto que um dia alcançaram 4, 10, 30, depois, 40 pavimentos. Agora, avançam para chegar aos 80, porque dos 60 andares, o desafio já foi vencido.

É uma multidão peregrina, aves de arribação de poucos dias, infinda procissão de festivos pagãos, caminhando por ruas e calçadas num vai-e-vem de pura ociosidade.

É muita gente, emergindo dos labirintos de uma cidade congestionada, atrofiada, com suas bocas de esgoto borbulhantes, as entranhas da terra devolvendo o excesso fisiológico que a burocracia oficial não consegue administrar.

É muita gente. Nos quiosques da orla tomados de assalto, veranistas vindos de todas as bandas disputam espaço para levantar nas mãos a euforizante caipirinha ou uma loira bem gelada, fontes do infalíveis do álcool a serviço do prazer coletivo.

Nesses bares praianos, também disputa acirrada em filas sem tamanho, de angustiados veranistas em busca do alívio da necessidade fisiológica, no único vaso sanitário.

Se turistas são algumas centenas de milhares, as latinhas vazias da cevada feita cerveja são de mais de milhão fazendo a alegria dessa gente passageira, em busca do lazer e do divertimento em tempo integral. Vazias, essas lâminas de alumínio pisoteado, sucateado, será convertido em moeda de lata (can coin) para a triste alegria dos catadores excluídos de uma sociedade tão contraditória.

Neste tempo de cidade tomada por aves de arribação chegando de todos os lados, a praia transforma-se numa floresta sem fim de guarda-sóis e barracas, num vasto milharal de lona e pano. Em tempo de virada de ano, assim é a praia de BCamboriú, meca profana do ócio temperado pela água e sal, adubado pela branca areia, curtido pelo raio solar.

No último instante do velho ano, no átimo de tempo que anuncia o novo ano, a multidão invade a praia para assistir ao esperado show pirotécnico dos fogos a colorir e iluminar os ares. Então, aquela gente frente à escuridão do mar, não tem olhos para as ondas se esparramando na areia, porque a fantasia e a ilusão tomam conta das suas mentes. São apenas 15 minutos de magia pirotécnica, mas aquela gente está cheia de esperança no Novo Ano.

Não sei o que vem pela frente nem o que a realidade nos aprontará. Mesmo assim, desejo aos meus leitores um Novo Ano de paz de felicidade.

Escrito por João José Leal, 02/01/2018 às 16h09 | jjoseleal@gmail.com

Natal 2017

Então, como diz a conhecida canção, é Natal! Há dias que o comércio, que precisa sobreviver, vem criando esse clima de alegria festiva, em torno da festa natalina. Os bem elaborados jingles publicitários cantados nas rádios e TV, as alegres mensagens de paz e prosperidade, a simpática figura do bom Papai Noel prometendo distribuir sacos de presentes, criam uma onda de alegria contagiante e, miram, com precisão, a nossa sensível veia consumidora para nos induzir a comprar e presentear parentes e amigos. Afinal, quem não se sente bem, comprando um presente para a mãe, o filho, a esposa ou até para a sogra?

Assim, tem sido o Natal, depois que a data foi transformada no período de maior movimento de compras, no ponto culminante do calendário mercantil. Isso, no nosso mundo ocidental e cristão. No Oriente, onde predominam diferentes crenças religiosas, não devem faltar outras datas para as pessoas se presentearem com pacotes de agrados e votos de felicidade.

No entanto, Natal não é só festa de regalos. É, antes de tudo, a data mais importante cristianismo, com sua ética baseada na humildade e no amor ao próximo, virtudes tão fáceis de serem aceitas e proclamadas, tão difíceis de serem praticadas. Nem mesmo os discípulos mais próximos do Mestre foram capazes de observar seus mandamentos sem deslizes e hesitações. Assim, é compreensível que nós, homens eticamente imperfeitos, vivendo numa sociedade materializada e de tantas contradições sociais, tenhamos também os nossos pecados, as nossas fraquezas morais.

E, então, como diz um dos versos da canção, chegado o momento da reflexão de mais um tempo natalino, devemos nos perguntar, o que fizemos de bom, que atos de verdadeira solidariedade cristã praticamos no decorrer desses 365 dias, que passaram rápidos, voando. Sei, por mim. Queremos, fazemos promessas mil. Mas, não é fácil praticar os ensinamentos da ética cristã. O que nos conforta é que, se não fomos bons o suficiente e o quanto podíamos, teremos mais uma oportunidade para melhorar. No próximo Natal, seremos chamados a fazer mais um balanço de nossas ações;

De qualquer forma, é Natal. A família vai se reunir porque Natal é momento de magia, é festa dessa tribo de gente que briga e se desentende. Porém, o sangue é mais forte e todos seguem a velha tradição. Não são mais os reis, seguindo o caminho do Oriente, marcado pela grande estrela de cauda. Agora, gente fina e gente humilde, todos, atendem ao chamado da velha matriarca, seguem o caminho do antigo lar, ninho de onde um dia partiram para construir outros lares e se reunirão para cantar Noite Feliz.

Passado o Natal, nem todos visitarão a velha mãe, o irmão, o cunhado ou a sogra, porque a vida tem suas distâncias, suas cercas invisíveis e nem sempre nos dá tempo. Mas, uma coisa é certa. No próximo ano, todos estarão reunidos, atendendo ao chamado mágico do canto natalino.

Aos meus pacientes leitores, desejo um Natal de Paz.

Escrito por João José Leal, 20/12/2017 às 12h55 | jjoseleal@gmail.com

Finados e o Culto aos Mortos

Ontem, Dia de Finados, data que os vivos resolveram dedicar à memória dos seus mortos, tradição cristã de mais de mil anos, repeti uma rotina dos últimos anos. No período da manhã, crisântemos brancos nas mãos, visitei o cemitério de Tijucas. Foi uma caminhada silenciosa pela alameda do descanso eterno, vereda da saudade que corta o campo santo de norte a sul.

Na caminhada, fui lendo o nome das famílias nas sepulturas silenciosas e das pessoas ali enterradas. Os Azevedos, vizinhos da minha casa, na rua Nova; os Laus, comerciantes, alguns escritores famosos, um deles desembargador e meu grande amigo; os Carvalhos, que tiveram conhecido Café, sorveteria e, até, prefeito da cidade; os Santanas, donos de fábrica de farinha de nozes, onde brinquei sobre montes do farelo branco, antes que se transformassem em precioso óleo de máquina; os Britos, marceneiros, um advogado, outro escrivão e técnico do Tiradentes e, ainda, da minha professora mais querida; os Ternes, da cerâmica, do conhecido sapateiro da cidade e pai de um de meus amigo de infância; os Chaves, da famosa bala e do musse de banana, um deles expedicionário da FEB, depois prefeito da cidade.

Passei, também, em frente do jazigo, da família Manoel Cruz arrojado comerciante português, que construiu o primeiro cine-teatro da região. Mais à frente, vi o imponente sepulcro, verdadeiro mausoléu, dos Bayers. No passado, adversários, até inimigos, disputaram o poder econômico e político da cidade, com seus rivais, os Gallottis. Hoje, os mortos destas duas tradicionais famílias descansam em paz, lado a lado, confirmando o velho ditado popular “a morte a todos iguala”.

Ao final da caminhada da saudade, cumprindo a tradição do culto aos mortos, depositei as flores na sepultura de meus avós paternos. Não cheguei a conhecer minha avó paterna. De meu avô, lembro muito pouco, uma lembrança nebulosa. Mas, sentirei que ali estão enterrados personagens que fazem parte da minha existência e da minha história.

O meu périplo de Finados terminou no antigo cemitério de São Miguel, junto à bicentenária igreja do mesmo nome, próximo a Biguaçu. Lá, onde repousam famílias açorianas, estão enterrados meus pais e avós maternos. O cemitério é um pouco como as ruas tortuosas, desalinhadas e estreitas de Angra do Heroísmo, bela cidade dos Açores.

Para chegar ao túmulo de meus pais, foi preciso caminhar, ziguezagueando, sobre antigas sepulturas Mas, os mortos não falam, não reclamam nem se incomodam ao se sentirem pisoteados por estranhos de flores nas mãos, que ali foram, justamente, para preservar a tradição do culto aos seus antepassados. Na sepultura, também deixei crisântemos e agradeci aos meus pais e avós o exemplo de vida que me legaram e à toda nossa família.

Escrito por João José Leal, 03/11/2017 às 15h05 | jjoseleal@gmail.com

Michel Temer continua presidente

Num país sério, onde a política é pautada por princípios éticos, a honestidade como virtude fundamental para o exercício de qualquer função pública, há muito tempo, Michel Temer estaria afastado da presidência da República.

Aliás, nem teria lá chegado, nas condições em que assumiu.

Infelizmente, para a maioria dos nossos parlamentares sem compromisso com princípios nem com virtudes, o que vale é a permanência na vitrina dourada, não importa se conspurcada, do poder.

Mesmo que, para isso, esses vendilhões do templo, tenham que fincar os pés no lodaçal dos corredores e gabinetes planaltinos, vender a alma e o pensamento.

E, assim, Michel Termer escapou da segunda denúncia, juntamente com seus ministros mais próximos, acusados de obstrução de justiça e de integrarem uma organização criminosa.

Quase 600 milhões de reais teriam sido apropriados de diversos órgãos públicos pelo “Quadrilhão do PMDB”, da Câmara dos Deputados.

E, o chefe, não seria ninguém menos que atual presidente da República.

A gravíssima denúncia vai continur como uma espada sobre a cabeça de quem está no comando da nação brasileira. Em qualquer outro país democrático, o afastamento da presidência seria inevitável.

O mal é que a insólita acusação foi sendo digerida por boa parte da opinião pública, agora, habituada a ver políticos na prisão, no banco dos réus e nas páginas policiais. Com know how adquirido no processo da denúncia anterior, Michel Temer soube manipular a “vontade livre” de deputados que votaram “de acordo com suas consciências”.

Na verdade, soube trabalhar nos porões da Câmara baixa para garantir o apoio de aliados, sempre dispostos a negociar seus votos nas questões políticas mais importantes, desde que tratados a pão-de-ló, pago com dinheiro público. Cargos foram distribuídos, verbas empenhadas, reformas prometidas como indispensáveis, esquecidas.

Na quarta-feira, durante a votação da grave denúncia, o plenário da Câmara dos Deputados foi transformado, mais uma vez, num palco do teatro do absurdo, da demagogia explícita e despudorada. A nação brasileira, indignada e enojada, assistiu a cenas ridículas e vergonhosas de uma tragicomédia encenada por nossos deputados federais. O texto do melodrama da desfaçatez e do fisiologismo antiético, escrito com as tintas do aliciamento e do dinheiro ilícito, todos já conheciam o final.

Mas, nossos deputados, exímios profissionais na arte de fingir e dissimular, fizeram questão de encenar, com apaixonante eloquência, mais uma ridícula pantomima sob os holofotes da mídia, no desacreditado palco da demagogia parlamentar. E, assim, Michel Temer continua presidente.
 

Escrito por João José Leal, 26/10/2017 às 13h07 | jjoseleal@gmail.com



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João José Leal

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Graduado pela Faculdade de Direito da UFSC, Mestre em Ciências Criminológicas pela Universidade de Bruxelas, Livre-Docente-Doutor pela Universidade Gama Filho - Rio de Janeiro. Promotor de Justiça aposentado e Ex-Procurador Geral de Justiça de Santa Catarina. Ex-Professor de Direito Penal, de Criminologia e Diretor de Ciências Judiciais da FURB - Blumenau. Ex-Professor de Política Criminal e Controle Social do Programa de Mestrado em Ciência Jurídica da UNIVALI.


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