Jornal Página 3
Coluna
Crônica Semanal
Por João José Leal

Almoço em Família de Antigamente

Como se dizia no tempo da carochinha, estórias que as crianças de hoje, celular nas mãos de siri a dedilhar sem parar na telinha mágica do mundo encantado digital, não querem mais escutar, houve uma época em que as famílias almoçavam, todos os dias, no recanto do lar doce lar. Quando cheguei a Brusque, além das poucas churrascarias, havia dois ou três restaurantes abertos ao meio-dia para almoço dos visitantes da cidade.

Havia até uma piada, conhecida e repetida, do marido dizendo à mulher: “Hoje, vamos almoçar fora”. E, quando a boa esposa, toda contente, corria para botar o vestido de festa e passar o pó de arroz nas faces envelhecidas, o marido logo cortava o barato para dizer, naquele tom patriarcal de chefe da família sem admitir pedido de explicação, muito menos contestação: “Onde pensas que vamos? Vai logo, botar a mesa no quintal, que o dia está ensolarado”.

Era um tempo de família numerosa, o casal, seis ou mais filhos e, ainda, a sempre bem-vinda e querida sogra. Se o marido era o chefe da família, cabia à mulher, mãe da numerosa prole, enfrentar sozinha a rotina da vida doméstica.  Especialmente, a repetitiva lide da cozinha, que significava passar a vida em frente ao fogão, no exaustivo manejo das panelas, frigideiras e chaleiras para o preparo das refeições diárias, porque alimentar a família era preciso, promessa sagrada feita para sempre aos pés do altar. 

Almoço servido, tribo familiar reunida à mesa e a luta pelo prato cheio, cada um buscando garantir o seu quinhão, sob o olhar da autoridade patriarcal. Comida nem sempre bastante, de raspar o prato, às vezes de dar briga pelo melhor pedaço, sempre apaziguada com um simples e convincente olhar maternal. Assim, era a reunião gastronômica diária das famílias de muitos filhos. Comer fora, um batalhão sentado à mesa de um restaurante, só em raros domingos e, isso, para as famílias ricas, que não eram muitas.

Sobremesa era iguaria sofisticada, coisa de rico, da culinária aristocrática, que só chegava à mesa da gente humilde, nos domingos. Lembro bem daquele manjar de coco Royal ou Medeiros, feito numa forma redonda, cheia de gomos e com um furo no meio. Minha mãe tinha um cuidado enorme, próprio do afeto maternal, para cortar o pitéu em quinhões iguais, tarefa acompanhada por mais de uma dezena de olhos arregalados, faiscando de gula.

Tantas bocas ávidas em volta da mesa, as partes eram centimetricamente cortadas, a cada um o seu pedaço, sem direito à repetição porque sobra não havia. Mas, sempre alguém achava o seu gomo de pudim menor. E, durante muito tempo, ouvi sem entender, o ditado repetido por minha mãe dizendo que o “melhor quinhão era do amuado”.

Escrito por João José Leal, 06/09/2018 às 11h00 | jjoseleal@gmail.com

Envelhecer é administrar perdas

Não creio em felicidade completa. Assim, não posso me queixar. Na última quarta-feira, completei 77 anos de idade com saúde, apesar da dezena de pílulas diárias para manter o equilíbrio da pressão arterial, a boa taxa de colesterol no sangue e o coração pulsando no ritmo nostálgico dos passos lentos de um samba canção dançado na penumbra de uma casa noturna dos Anos 60. Sigo meu destino e o ditado que diz viver é preciso.

Como me escreveu um amigo, professor de Matemática e também versado nas letras, “uma vez quebrada a barreira do tempo – 77 não é para qualquer um, chegou o dia em que os sinos dobram, as aves alçam vôo e o frio se acomoda”. E, eu completo, aqui, para dizer, sem mágoa nem tristeza, que cheguei à idade em que viver é administrar perdas.

É isso mesmo. Envelhecer é conviver com a perda dolorosa de parentes e amigos, não todos, felizmente. Mas, os que partem levam consigo boa parte dos bons momentos vividos e da nossa própria existência. É a perda implacável da memória, tormento que nos faz esquecer dos óculos, às vezes no próprio nariz, da chave nunca pendurada no prego, de tomar as pílulas, sempre mais numerosas e em maior dose, de apagar a luz, de pagar as contas, porque dívida não conhece idade.

É triste, mas envelhecer é perder a disposição que um dia tivemos para superar os desafios da vida. É perder a força física para caminhar rápido e correr em velocidade de quase alçar vôo, para saltar muros e cercas, subir escadas sem contar degraus e montanhas acima sem perder o fôlego e sem pensar em recuar. Sim, envelhecer é mergulhar fundo nas águas nebuosas, pantanosas da chamada terceira idade. Enfim, envelhecer é administrar as perdas que aparecem por todos os lados.

Mas, não posso me queixar. Completei meus 77 anos, pensando com a minha cabeça, caminhando com minhas próprias pernas pelas ruas de Buenos Aires, contemplando as imponentes fachadas de seus edifícios do começo do século passado, belas silhuetas da arquitetura “Belle Époque” e o majestoso Teatro Colon que, dizem os argentinos, é o maior da América Latina. E, claro, visitando, também, alguns de seus bons museus. Sem dúvida, tudo isso faz a capital argentina se parecer com Madri, Paris ou Londres.

Realmente, tenho que me dar por satisfeito. No dia 14, lépido quanto me foi possível, caminhei pela avenida de Mayo até o Café Tortoni, o mais antigo do continente americano, para tomar um espresso. E, isso, já vale muito.

Escrito por João José Leal, 20/08/2018 às 15h31 | jjoseleal@gmail.com

Eleições 2018, a música não vai mudar!

As cartas estão sobre a mesa ou, melhor, as candidaturas foram lançadas e os pretendentes a um mandato político já estão nas estradas, nas mídias e nas redes sociais. É uma corrida de alta velocidade, de desesperada busca do precioso e necessário voto para uma vitória eleitoral. É a batalha para se tornar um representante do povo, deputado, governador ou presidente da República. Nem todos são estreantes. A maioria já tem diversas eleições e vitórias no currículo. Sabem o que é bom e não querem largar o osso, de jeito nenhum.

Pensam que, diante da crise ética e do mar de corrupção que contamina a vida pública e privada brasileira, seria um perigo, uma temeridade deixar a política para outros mais novos, sem experiência necessária para enfrentar as armadilhas e malandragens que envolvem o complicado processo político e administrativo. Então, por que renovar, se o que temos, no Congresso Nacional e nas Assembleias Legislativas, está muito bom, é uma maravilha? Assim, vão permanecendo no cenário político, aparecendo a cada quatro anos para pedir o voto do eleitor, jurando que o povo merece esse compromisso sagrado com uma vida política de abnegação, de desapego e dedicação à causa púbica.

Afinal, ser político, dizem eles, é uma missão sagrada, que exige sacrifício. E, acima de tudo, muita honestidade no trato do patrimônio da nação e do interesse público. Assim, esses candidatos que batem, a cada eleição, às nossas portas ou aparecem nas páginas dos jornais, nas telas da TV e dos telefones espertos se imaginam únicos, os melhores, os mais competentes para resolver os graves problemas econômicos e sociais deste país.

Como não quisemos ser políticos, temos que nos conformar com a nossa condição de eleitor e comparecer, no dia marcado, para exercer o voto obrigatório, que muitos acreditam ser o único caminho para a solução dos problemas econômicos, políticos e sociais. Na prática, as coisas parecem não ser assim. Penso que a democracia liberal, vista como o melhor regime político, está passando por uma grave crise. Principalmente, no Brasil. Nossas instituições estão corrompidas e ninguém parece disposto ao mínimo de sacrifício para promover as reformas indispensáveis à solução da nossa grave econômica.

Pois é, as eleições estão chegando e os candidatos aí estão, prometendo trabalho incessante, honestidade, garantindo a solução dos nossos problemas maiores. Dizem que, ser político, é ter compromisso certo com uma vida de pobreza, dura e cheia de sacrifício. Porém, não tenho a mínima ilusão. Penso que nenhum deles está comprometido, seriamente, muito menos, terá legitimidade e força política para promover as reformas que a república brasileira tanto precisa. E a nação continuará afundando.

Infelizmente, a música não vai mudar e os músicos continuarão os mesmos de sempre, na política e na administração desta infeliz nação.

Escrito por João José Leal, 14/08/2018 às 15h55 | jjoseleal@gmail.com

Bacharel em Direito na Floripa dos Anos 1960

Em dezembro de 1966, conquistei o diploma de bacharel em Direito. Foi, realmente, uma conquista. Naquela época, a então Faculdade Direito da UFSC era o único curso jurídico do nosso Estado. Poucos jovens tinham acesso à Universidade e, hoje, posso dizer que fui um privilegiado numa sociedade extremamente excludente. Terminei o ano, ainda vivendo as emoções da grande formatura, ato solene prestigiado pelas principais autoridades estaduais e municipais, o Teatro Álvaro de Carvalho lotado de familiares e amigos dos futuros advogados, juízes, promotores e delegados.

Logo chegou 1967 e o dilema de escolher uma das carreiras jurídicas. Uma decisão, já tinha tomado. Não queria ficar em Floripa. Nada contra a capital. Principalmente, contra aquela cidade do Ponto Chic, o Café da elite democrática da Polis, local das conversas descontraídas sobre as coisas da cidade. Mas, também de discussões políticas acaloradas, pessedistas, udenistas, petebistas, muitos de paletó e gravata quase chegando às vias de fato, porque política em frente ao balcão, xícara de cafezinho quente na mão, é livre exercício da imaginação sem compromisso com o tamanho da verba orçamentária, é exaltação, é pura paixão de administradores públicos sonhadores, sem voto, sem mandato, sem cargo administrativo e sem poder de decisão.

Nada contra a capital da Choperia Chiquinho, bem em frente ao Ponto Chic, do outro lado da estreita Felipe Schmidt. Era o ponto de encontro dos que preferiam, copo gelado na mão, as discussões sobre futebol e conversas entusiasmadas sobre as mulheres bonitas e mais cobiçadas, todas conhecidas dos galãs encostados no balcão ou postados em frente às portas da Confeitaria, naquele pedaço de calçada da fama e da maledicência machista. Em pé, embalados pela ação deletéria do chope, aqueles sonhadores de ilusórias conquistas, vangloriavam-se de aventuras amorosas nunca acontecidas, numa capital ainda provinciana.

O Chiquinho não era local apenas do bom chope. Seus balcões eram recheados de saborosos pasteis de carne, palmito e camarão, sempre feitos na hora, o consumo a todo o momento não deixando a iguaria esfriar. O preferido dos pasteis era o de camarão, que se pescava, tarrafa lançada ao mar, até do cais do Mercado municipal ou do Miramar, num tempo em que as ondas encrespadas pelo vento sul, lambiam as fraldas do centro da cidade.

Nada contra uma capital com seus inúmeros clubes sociais dos tradicionais bailes, os dois mais ricos, da elite ilhéu, mas também muitos outros, mensalidades diversas para o tamanho do bolso dos associados das classes mais populares. Também, nada contra uma cidade que preservava os passeios dominicais noturnos, em frente ao Palácio do Governo e as enormes, falantes e alegres filas das sessões de cinemas.

Enfim, como não poderia gostar da capital que ainda, conservava o Miramar, bela construção mar adentro, suas muradas de balaústre fustigadas pelo vento sul, as ondas lançando suas águas em fúria, até o telhado?

É interessante. Gostava da bucólica Floripa dos anos de 1960. Mas, sou tijucano, nascido a beira-rio e uma estranha voz me chamava de volta para o interior. Então, resolvi ingressar no Ministério Público. Fui exercer a Promotoria na longínqua cidade de Palmitos, que não conhecia.

Escrito por João José Leal, 06/08/2018 às 10h19 | jjoseleal@gmail.com

Internet, Papa Francisco e Falsas Mensagens

Há pouco tempo, recebi uma mensagem com um bonito texto, atribuído ao Papa Francisco. Fala sobre a conduta humana, com um rosário de bons conselhos para se viver bem e feliz. A mensagem papal dizia que a vida é curta, que devemos vivê-la sem queixas, sem brigas com os outros nem críticas ao seu próprio corpo. Aconselha a perdoar mais, abraçar mais o próximo, a viver mais intensamente porque esta vida vai passar rápido.

Até aí, tudo bem. O texto poderia muito ser de autoria do papa Francisco, que ganhou a simpatia mundial pelo seu sorriso carismático, cheio de bondade e por suas mensagens de carinho e de compreensão. Em seguida, a mensagem postada no whatsapp aconselha a não guardar fortunas nem bens materiais, não perder o sono por causa de dívidas, não deixar herança para os filhos, mas viajar, gastar o dinheiro, usar o perfume e o tênis favoritos e deixar o resto nas mãos de Deus.

Desconfiei da autoria e pesquisei. O texto não é do Papa Francisco. Alguém escreveu ou fez uma montagem e postou na rede social.Como é uma mensagem de otimismo e de apologia ao consumismo, é evidente que muitos internautas gostaram do conteúdo e não perderam tempo para compartilhar. Infelizmente, notícias e mensagens falsas ou fake news rolam, com certa frequência, nas redes sociais.

Já escrevi que a internet, com suas redes sociais de uso livre, gratuito e sem fronteiras nacionais, promoveu a grande revolução da comunicação social. Com esse poderoso e democrático instrumento de informação sem limites, o cidadão do quintal de qualquer país mais isolado, tem o mundo na palma da mão. São mais de 4 bilhões em todo o planeta. No Brasil, mais de 120 milhões de usuários estão conectados, enredados nessa infinita teia de informações.

Sem dúvida, a internet é um excelente instrumento de acesso imediato, livre de censura à informação e ao vasto universo do conhecimento humano. É, também, uma importante ferramenta de aproximação entre as pessoas desta aldeia global. Mas, é preciso muito cuidado com o que vemos e o que lemos na tela mágica dos telefones espertos e dos computadores, grandes ou pequenos. Se nem tudo que brilha é ouro, também nem tudo que circula na internet é verdadeiro.

Você pode ajudar e deixar e de ser um elo dessa corrente sem fim de mentiras e falsidades. Quando a notícia ou a mensagem parecer duvidosa, basta pesquisar na própria internet e checar a veracidade do conteúdo. Assim, certamente, as redes sociais ficarão mais confiáveis e a serviço do bem.

Escrito por João José Leal, 26/07/2018 às 12h34 | jjoseleal@gmail.com

Copa do Mundo 2018 – França Campeã!

Merecidamente, com seu futebol, bonito, elegante, sem perder uma partida sequer, a França ganhou a Copa do Mundo de 2018. Apesar dos atos isolados de vandalismo verificados em algumas das maiores cidades francesas, a festa da vitória foi bonita, pacífica, democrática, milhares de eufóricos torcedores, lado a lado, todos se igualando, se irmanando na alegria causada pela vitória e pelo sentimento de ser vencedor do futebol mundial.

Foi, realmente, bonito ver a imagem da bela Champs-Élysées, cartão-postal da capital francesa, a cidade-luz acesa, engalanada, bandeiras tricolores tremulando, o imponente Arco do Triunfo como pano de fundo, lotada de baixo a cima, uma multidão entusiasmada para comemorar o bicampeonato mundial e aplaudir a passagem da sua seleção.

É interessante. Parece que futebol não é paixão somente brasileira, verde-amarela, mas mundial. O fanatismo da torcida parece ser o mesmo, em qualquer país. Basta ganhar um campeonato e levantar o caneco para que uma multidão se sinta vencedora, os torcedores campeões, como se eles próprios fossem os agentes, os atores do embate futebolístico.

Constatei esse fato observando a reação das torcidas dos diversos países, nas arquibancadas dos estádios e nas ruas da Rússia. A cada vitória, de qualquer país que fosse, a festa surgia espontânea e de pronto. Centenas e até milhares de torcedores-turistas, porque Copa do Mundo não é só futebol, explodiam de alegria, gritavam, cantavam, dançavam, como se a vida e a felicidade fossem feitas apenas de gols e vitórias da sua seleção de futebol; como se os jogadores fossem os grandes e únicos heróis da sua pátria amada.

É interessante. Pode mudar a cor da camisa, a nacionalidade e o salário dos atletas. Porém, lá como aqui, caminhão da polícia ou do corpo de bombeiros serve também para desfiles dos heróis e ídolos do futebol. Isto, claro, quando voltam para casa vencedores, de taça na mão para massagear o ego de fanáticos torcedores, reacender o espírito de patriotismo e adubar o sentimento de autoestima nacional.

Lá, a bela melodia da Marselhesa ecoou pela principal avenida e outras ruas parisienses, milhares de franceses entoando o histórico hino nacional que, um dia, já distante no tempo, no histórico 14 de julho de 1789, foi cantado pelo povo sofrido, explorado, faminto, para derrubar a Bastilha e a monarquia de uma nação que precisava ser refundada, política, econômica e socialmente.

Aqui, também, o povo canta o hino nacional, com fervor e devoção, quando nossa seleção verde-amarelo volta de caneco na mão. Infelizmente, não foi na Copa de 2018. O retorno foi amargo, meio disfarçado, com apenas meia dúzia de jogadores voltando para o Brasil. Os demais ficaram pelas europas, onde jogam e faturam milhões.

É interessante ou ironia do processo econômico. Historicamente, o Brasil se consolidou como exportador de café, matérias primas, grãos. Enfim, das commodities, na linguagem do moderno economês. De uns tempos para cá, a exportação de craques do futebol integra, também, nossa pauta exportadora.

Escrito por João José Leal, 20/07/2018 às 21h42 | jjoseleal@gmail.com



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João José Leal

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Membro da Academia Catarinense de Letras. Graduado pela Faculdade de Direito da UFSC, Mestre em Ciências Criminológicas pela Universidade de Bruxelas, Livre-Docente-Doutor pela Universidade Gama Filho - Rio de Janeiro. Promotor de Justiça aposentado e Ex-Procurador Geral de Justiça de Santa Catarina. Ex-Professor de Direito Penal, de Criminologia e Diretor de Ciências Judiciais da FURB - Blumenau. Ex-Professor de Política Criminal e Controle Social do Programa de Mestrado em Ciência Jurídica da UNIVALI.


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Por João José Leal

Almoço em Família de Antigamente

Como se dizia no tempo da carochinha, estórias que as crianças de hoje, celular nas mãos de siri a dedilhar sem parar na telinha mágica do mundo encantado digital, não querem mais escutar, houve uma época em que as famílias almoçavam, todos os dias, no recanto do lar doce lar. Quando cheguei a Brusque, além das poucas churrascarias, havia dois ou três restaurantes abertos ao meio-dia para almoço dos visitantes da cidade.

Havia até uma piada, conhecida e repetida, do marido dizendo à mulher: “Hoje, vamos almoçar fora”. E, quando a boa esposa, toda contente, corria para botar o vestido de festa e passar o pó de arroz nas faces envelhecidas, o marido logo cortava o barato para dizer, naquele tom patriarcal de chefe da família sem admitir pedido de explicação, muito menos contestação: “Onde pensas que vamos? Vai logo, botar a mesa no quintal, que o dia está ensolarado”.

Era um tempo de família numerosa, o casal, seis ou mais filhos e, ainda, a sempre bem-vinda e querida sogra. Se o marido era o chefe da família, cabia à mulher, mãe da numerosa prole, enfrentar sozinha a rotina da vida doméstica.  Especialmente, a repetitiva lide da cozinha, que significava passar a vida em frente ao fogão, no exaustivo manejo das panelas, frigideiras e chaleiras para o preparo das refeições diárias, porque alimentar a família era preciso, promessa sagrada feita para sempre aos pés do altar. 

Almoço servido, tribo familiar reunida à mesa e a luta pelo prato cheio, cada um buscando garantir o seu quinhão, sob o olhar da autoridade patriarcal. Comida nem sempre bastante, de raspar o prato, às vezes de dar briga pelo melhor pedaço, sempre apaziguada com um simples e convincente olhar maternal. Assim, era a reunião gastronômica diária das famílias de muitos filhos. Comer fora, um batalhão sentado à mesa de um restaurante, só em raros domingos e, isso, para as famílias ricas, que não eram muitas.

Sobremesa era iguaria sofisticada, coisa de rico, da culinária aristocrática, que só chegava à mesa da gente humilde, nos domingos. Lembro bem daquele manjar de coco Royal ou Medeiros, feito numa forma redonda, cheia de gomos e com um furo no meio. Minha mãe tinha um cuidado enorme, próprio do afeto maternal, para cortar o pitéu em quinhões iguais, tarefa acompanhada por mais de uma dezena de olhos arregalados, faiscando de gula.

Tantas bocas ávidas em volta da mesa, as partes eram centimetricamente cortadas, a cada um o seu pedaço, sem direito à repetição porque sobra não havia. Mas, sempre alguém achava o seu gomo de pudim menor. E, durante muito tempo, ouvi sem entender, o ditado repetido por minha mãe dizendo que o “melhor quinhão era do amuado”.

Escrito por João José Leal, 06/09/2018 às 11h00 | jjoseleal@gmail.com

Envelhecer é administrar perdas

Não creio em felicidade completa. Assim, não posso me queixar. Na última quarta-feira, completei 77 anos de idade com saúde, apesar da dezena de pílulas diárias para manter o equilíbrio da pressão arterial, a boa taxa de colesterol no sangue e o coração pulsando no ritmo nostálgico dos passos lentos de um samba canção dançado na penumbra de uma casa noturna dos Anos 60. Sigo meu destino e o ditado que diz viver é preciso.

Como me escreveu um amigo, professor de Matemática e também versado nas letras, “uma vez quebrada a barreira do tempo – 77 não é para qualquer um, chegou o dia em que os sinos dobram, as aves alçam vôo e o frio se acomoda”. E, eu completo, aqui, para dizer, sem mágoa nem tristeza, que cheguei à idade em que viver é administrar perdas.

É isso mesmo. Envelhecer é conviver com a perda dolorosa de parentes e amigos, não todos, felizmente. Mas, os que partem levam consigo boa parte dos bons momentos vividos e da nossa própria existência. É a perda implacável da memória, tormento que nos faz esquecer dos óculos, às vezes no próprio nariz, da chave nunca pendurada no prego, de tomar as pílulas, sempre mais numerosas e em maior dose, de apagar a luz, de pagar as contas, porque dívida não conhece idade.

É triste, mas envelhecer é perder a disposição que um dia tivemos para superar os desafios da vida. É perder a força física para caminhar rápido e correr em velocidade de quase alçar vôo, para saltar muros e cercas, subir escadas sem contar degraus e montanhas acima sem perder o fôlego e sem pensar em recuar. Sim, envelhecer é mergulhar fundo nas águas nebuosas, pantanosas da chamada terceira idade. Enfim, envelhecer é administrar as perdas que aparecem por todos os lados.

Mas, não posso me queixar. Completei meus 77 anos, pensando com a minha cabeça, caminhando com minhas próprias pernas pelas ruas de Buenos Aires, contemplando as imponentes fachadas de seus edifícios do começo do século passado, belas silhuetas da arquitetura “Belle Époque” e o majestoso Teatro Colon que, dizem os argentinos, é o maior da América Latina. E, claro, visitando, também, alguns de seus bons museus. Sem dúvida, tudo isso faz a capital argentina se parecer com Madri, Paris ou Londres.

Realmente, tenho que me dar por satisfeito. No dia 14, lépido quanto me foi possível, caminhei pela avenida de Mayo até o Café Tortoni, o mais antigo do continente americano, para tomar um espresso. E, isso, já vale muito.

Escrito por João José Leal, 20/08/2018 às 15h31 | jjoseleal@gmail.com

Eleições 2018, a música não vai mudar!

As cartas estão sobre a mesa ou, melhor, as candidaturas foram lançadas e os pretendentes a um mandato político já estão nas estradas, nas mídias e nas redes sociais. É uma corrida de alta velocidade, de desesperada busca do precioso e necessário voto para uma vitória eleitoral. É a batalha para se tornar um representante do povo, deputado, governador ou presidente da República. Nem todos são estreantes. A maioria já tem diversas eleições e vitórias no currículo. Sabem o que é bom e não querem largar o osso, de jeito nenhum.

Pensam que, diante da crise ética e do mar de corrupção que contamina a vida pública e privada brasileira, seria um perigo, uma temeridade deixar a política para outros mais novos, sem experiência necessária para enfrentar as armadilhas e malandragens que envolvem o complicado processo político e administrativo. Então, por que renovar, se o que temos, no Congresso Nacional e nas Assembleias Legislativas, está muito bom, é uma maravilha? Assim, vão permanecendo no cenário político, aparecendo a cada quatro anos para pedir o voto do eleitor, jurando que o povo merece esse compromisso sagrado com uma vida política de abnegação, de desapego e dedicação à causa púbica.

Afinal, ser político, dizem eles, é uma missão sagrada, que exige sacrifício. E, acima de tudo, muita honestidade no trato do patrimônio da nação e do interesse público. Assim, esses candidatos que batem, a cada eleição, às nossas portas ou aparecem nas páginas dos jornais, nas telas da TV e dos telefones espertos se imaginam únicos, os melhores, os mais competentes para resolver os graves problemas econômicos e sociais deste país.

Como não quisemos ser políticos, temos que nos conformar com a nossa condição de eleitor e comparecer, no dia marcado, para exercer o voto obrigatório, que muitos acreditam ser o único caminho para a solução dos problemas econômicos, políticos e sociais. Na prática, as coisas parecem não ser assim. Penso que a democracia liberal, vista como o melhor regime político, está passando por uma grave crise. Principalmente, no Brasil. Nossas instituições estão corrompidas e ninguém parece disposto ao mínimo de sacrifício para promover as reformas indispensáveis à solução da nossa grave econômica.

Pois é, as eleições estão chegando e os candidatos aí estão, prometendo trabalho incessante, honestidade, garantindo a solução dos nossos problemas maiores. Dizem que, ser político, é ter compromisso certo com uma vida de pobreza, dura e cheia de sacrifício. Porém, não tenho a mínima ilusão. Penso que nenhum deles está comprometido, seriamente, muito menos, terá legitimidade e força política para promover as reformas que a república brasileira tanto precisa. E a nação continuará afundando.

Infelizmente, a música não vai mudar e os músicos continuarão os mesmos de sempre, na política e na administração desta infeliz nação.

Escrito por João José Leal, 14/08/2018 às 15h55 | jjoseleal@gmail.com

Bacharel em Direito na Floripa dos Anos 1960

Em dezembro de 1966, conquistei o diploma de bacharel em Direito. Foi, realmente, uma conquista. Naquela época, a então Faculdade Direito da UFSC era o único curso jurídico do nosso Estado. Poucos jovens tinham acesso à Universidade e, hoje, posso dizer que fui um privilegiado numa sociedade extremamente excludente. Terminei o ano, ainda vivendo as emoções da grande formatura, ato solene prestigiado pelas principais autoridades estaduais e municipais, o Teatro Álvaro de Carvalho lotado de familiares e amigos dos futuros advogados, juízes, promotores e delegados.

Logo chegou 1967 e o dilema de escolher uma das carreiras jurídicas. Uma decisão, já tinha tomado. Não queria ficar em Floripa. Nada contra a capital. Principalmente, contra aquela cidade do Ponto Chic, o Café da elite democrática da Polis, local das conversas descontraídas sobre as coisas da cidade. Mas, também de discussões políticas acaloradas, pessedistas, udenistas, petebistas, muitos de paletó e gravata quase chegando às vias de fato, porque política em frente ao balcão, xícara de cafezinho quente na mão, é livre exercício da imaginação sem compromisso com o tamanho da verba orçamentária, é exaltação, é pura paixão de administradores públicos sonhadores, sem voto, sem mandato, sem cargo administrativo e sem poder de decisão.

Nada contra a capital da Choperia Chiquinho, bem em frente ao Ponto Chic, do outro lado da estreita Felipe Schmidt. Era o ponto de encontro dos que preferiam, copo gelado na mão, as discussões sobre futebol e conversas entusiasmadas sobre as mulheres bonitas e mais cobiçadas, todas conhecidas dos galãs encostados no balcão ou postados em frente às portas da Confeitaria, naquele pedaço de calçada da fama e da maledicência machista. Em pé, embalados pela ação deletéria do chope, aqueles sonhadores de ilusórias conquistas, vangloriavam-se de aventuras amorosas nunca acontecidas, numa capital ainda provinciana.

O Chiquinho não era local apenas do bom chope. Seus balcões eram recheados de saborosos pasteis de carne, palmito e camarão, sempre feitos na hora, o consumo a todo o momento não deixando a iguaria esfriar. O preferido dos pasteis era o de camarão, que se pescava, tarrafa lançada ao mar, até do cais do Mercado municipal ou do Miramar, num tempo em que as ondas encrespadas pelo vento sul, lambiam as fraldas do centro da cidade.

Nada contra uma capital com seus inúmeros clubes sociais dos tradicionais bailes, os dois mais ricos, da elite ilhéu, mas também muitos outros, mensalidades diversas para o tamanho do bolso dos associados das classes mais populares. Também, nada contra uma cidade que preservava os passeios dominicais noturnos, em frente ao Palácio do Governo e as enormes, falantes e alegres filas das sessões de cinemas.

Enfim, como não poderia gostar da capital que ainda, conservava o Miramar, bela construção mar adentro, suas muradas de balaústre fustigadas pelo vento sul, as ondas lançando suas águas em fúria, até o telhado?

É interessante. Gostava da bucólica Floripa dos anos de 1960. Mas, sou tijucano, nascido a beira-rio e uma estranha voz me chamava de volta para o interior. Então, resolvi ingressar no Ministério Público. Fui exercer a Promotoria na longínqua cidade de Palmitos, que não conhecia.

Escrito por João José Leal, 06/08/2018 às 10h19 | jjoseleal@gmail.com

Internet, Papa Francisco e Falsas Mensagens

Há pouco tempo, recebi uma mensagem com um bonito texto, atribuído ao Papa Francisco. Fala sobre a conduta humana, com um rosário de bons conselhos para se viver bem e feliz. A mensagem papal dizia que a vida é curta, que devemos vivê-la sem queixas, sem brigas com os outros nem críticas ao seu próprio corpo. Aconselha a perdoar mais, abraçar mais o próximo, a viver mais intensamente porque esta vida vai passar rápido.

Até aí, tudo bem. O texto poderia muito ser de autoria do papa Francisco, que ganhou a simpatia mundial pelo seu sorriso carismático, cheio de bondade e por suas mensagens de carinho e de compreensão. Em seguida, a mensagem postada no whatsapp aconselha a não guardar fortunas nem bens materiais, não perder o sono por causa de dívidas, não deixar herança para os filhos, mas viajar, gastar o dinheiro, usar o perfume e o tênis favoritos e deixar o resto nas mãos de Deus.

Desconfiei da autoria e pesquisei. O texto não é do Papa Francisco. Alguém escreveu ou fez uma montagem e postou na rede social.Como é uma mensagem de otimismo e de apologia ao consumismo, é evidente que muitos internautas gostaram do conteúdo e não perderam tempo para compartilhar. Infelizmente, notícias e mensagens falsas ou fake news rolam, com certa frequência, nas redes sociais.

Já escrevi que a internet, com suas redes sociais de uso livre, gratuito e sem fronteiras nacionais, promoveu a grande revolução da comunicação social. Com esse poderoso e democrático instrumento de informação sem limites, o cidadão do quintal de qualquer país mais isolado, tem o mundo na palma da mão. São mais de 4 bilhões em todo o planeta. No Brasil, mais de 120 milhões de usuários estão conectados, enredados nessa infinita teia de informações.

Sem dúvida, a internet é um excelente instrumento de acesso imediato, livre de censura à informação e ao vasto universo do conhecimento humano. É, também, uma importante ferramenta de aproximação entre as pessoas desta aldeia global. Mas, é preciso muito cuidado com o que vemos e o que lemos na tela mágica dos telefones espertos e dos computadores, grandes ou pequenos. Se nem tudo que brilha é ouro, também nem tudo que circula na internet é verdadeiro.

Você pode ajudar e deixar e de ser um elo dessa corrente sem fim de mentiras e falsidades. Quando a notícia ou a mensagem parecer duvidosa, basta pesquisar na própria internet e checar a veracidade do conteúdo. Assim, certamente, as redes sociais ficarão mais confiáveis e a serviço do bem.

Escrito por João José Leal, 26/07/2018 às 12h34 | jjoseleal@gmail.com

Copa do Mundo 2018 – França Campeã!

Merecidamente, com seu futebol, bonito, elegante, sem perder uma partida sequer, a França ganhou a Copa do Mundo de 2018. Apesar dos atos isolados de vandalismo verificados em algumas das maiores cidades francesas, a festa da vitória foi bonita, pacífica, democrática, milhares de eufóricos torcedores, lado a lado, todos se igualando, se irmanando na alegria causada pela vitória e pelo sentimento de ser vencedor do futebol mundial.

Foi, realmente, bonito ver a imagem da bela Champs-Élysées, cartão-postal da capital francesa, a cidade-luz acesa, engalanada, bandeiras tricolores tremulando, o imponente Arco do Triunfo como pano de fundo, lotada de baixo a cima, uma multidão entusiasmada para comemorar o bicampeonato mundial e aplaudir a passagem da sua seleção.

É interessante. Parece que futebol não é paixão somente brasileira, verde-amarela, mas mundial. O fanatismo da torcida parece ser o mesmo, em qualquer país. Basta ganhar um campeonato e levantar o caneco para que uma multidão se sinta vencedora, os torcedores campeões, como se eles próprios fossem os agentes, os atores do embate futebolístico.

Constatei esse fato observando a reação das torcidas dos diversos países, nas arquibancadas dos estádios e nas ruas da Rússia. A cada vitória, de qualquer país que fosse, a festa surgia espontânea e de pronto. Centenas e até milhares de torcedores-turistas, porque Copa do Mundo não é só futebol, explodiam de alegria, gritavam, cantavam, dançavam, como se a vida e a felicidade fossem feitas apenas de gols e vitórias da sua seleção de futebol; como se os jogadores fossem os grandes e únicos heróis da sua pátria amada.

É interessante. Pode mudar a cor da camisa, a nacionalidade e o salário dos atletas. Porém, lá como aqui, caminhão da polícia ou do corpo de bombeiros serve também para desfiles dos heróis e ídolos do futebol. Isto, claro, quando voltam para casa vencedores, de taça na mão para massagear o ego de fanáticos torcedores, reacender o espírito de patriotismo e adubar o sentimento de autoestima nacional.

Lá, a bela melodia da Marselhesa ecoou pela principal avenida e outras ruas parisienses, milhares de franceses entoando o histórico hino nacional que, um dia, já distante no tempo, no histórico 14 de julho de 1789, foi cantado pelo povo sofrido, explorado, faminto, para derrubar a Bastilha e a monarquia de uma nação que precisava ser refundada, política, econômica e socialmente.

Aqui, também, o povo canta o hino nacional, com fervor e devoção, quando nossa seleção verde-amarelo volta de caneco na mão. Infelizmente, não foi na Copa de 2018. O retorno foi amargo, meio disfarçado, com apenas meia dúzia de jogadores voltando para o Brasil. Os demais ficaram pelas europas, onde jogam e faturam milhões.

É interessante ou ironia do processo econômico. Historicamente, o Brasil se consolidou como exportador de café, matérias primas, grãos. Enfim, das commodities, na linguagem do moderno economês. De uns tempos para cá, a exportação de craques do futebol integra, também, nossa pauta exportadora.

Escrito por João José Leal, 20/07/2018 às 21h42 | jjoseleal@gmail.com



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João José Leal

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Membro da Academia Catarinense de Letras. Graduado pela Faculdade de Direito da UFSC, Mestre em Ciências Criminológicas pela Universidade de Bruxelas, Livre-Docente-Doutor pela Universidade Gama Filho - Rio de Janeiro. Promotor de Justiça aposentado e Ex-Procurador Geral de Justiça de Santa Catarina. Ex-Professor de Direito Penal, de Criminologia e Diretor de Ciências Judiciais da FURB - Blumenau. Ex-Professor de Política Criminal e Controle Social do Programa de Mestrado em Ciência Jurídica da UNIVALI.


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