Jornal Página 3
Coluna
Crônica Semanal
Por João José Leal

Música, mensagem dos deuses

Não sei tocar nenhum instrumento. Não consigo distinguir uma nota da outra, mas gosto de música. Escrevo minhas crônicas, ouvindo música, de todos os cantos do mundo. Da dita música erudita à boa música popular, aquela que canta a vida, as coisas e o modo de ser das pessoas de cada região e do país.

Estou falando, é claro, da boa música, daquela que não tem idade nem selo de fronteira nacional. Basta que o ritmo, os acordes e a melodia agradem o ouvido. Penso que todo o ser humano gosta de música, que considero a arte mais sublime e envolvente dos nossos sentidos.

Não foi por acaso que Beethoven disse um dia, talvez diante de um piano e por ter (ironia da vida!) ficado surdo, que a melodia é a vida sensível da poesia. Schopenhauer, filosófo cheio de pessimismo, não acreditava na felicidade e achava que a vida é sofrimento positivo que nos faz crer na felicidade, sempre passageira e ilusória. Mesmo com seu azedo ceticismo, escreveu que a música exprime a mais alta filosofia, numa linguagem que a razão não compreende.

Já o grande Aristóteles, na sua sabedoria que atravessa os séculos para ser sempre atual, não deixou por menos. Sentenciou que a música é alguma coisa de natureza divina, celestial, uma beleza que encanta a alma. E Khalil Gibran, o poeta do amor, da amizade, da família e da esperança, aclamado por críticos e leigos, escreveu que a música é a linguagem dos espíritos.

Pelo que se vê, não é exagero dizer que os pensadores apreciam, curtem, amam a boa música, a ponto de sublimá-la e considerá-la algo divino, verdadeiro produto de deuses habitando um Olimpo desconhecido para nós, mortais, mas que deve existir e que seria a fonte celestial dos acordes musicais. Se isto parece uma utopia, uma fantasia, um sonho de ficção, não podemos negar que a música tem alguma origem misteriosa que, certamente, a razão pura desconhece.

Não são apenas os sábios. Nosso compositor dos tempos da Bossa Nossa, que não deixa de ser um porta-estandarte da filosofia popular, que também é de boteco, já disse que “quem não gosta de samba, bom sujeito não é”. Não conheço uma pessoa de bom senso, de temperamento, emocionalmente equilibrado, de bem com a vida, que não goste de nenhum gênero musical. É preciso cuidado com esse indivíduo. Deve ser alguém de outro planeta, um extraterrestre, de um mundo de surdos.

Ou, como diz o samba, alguém “ruim da cabeça ou doente do pé”! 

Escrito por João José Leal, 28/06/2018 às 19h12 | jjoseleal@gmail.com

Lisboa

Já escrevi que gosto de viajar, de cruzar ou, melhor, sobrevoar os mares para conhecer terras e gente do outro lado do Atlântico, lá da velha Europa, cheia de catedrais, monumentos e construções dos tempos medievais, suas cidades se exibindo como verdadeiros museus a céu aberto. Suas ruas estão sempre tomadas por milhares de curiosos turistas todos os lugares, porque curiosidade turística não tem pátria nem cor. Minha última viagem me levou a Portugal, terra dos meus antepassados.

Cada vez que piso o solo lusitano sinto uma forte emoção, como se estivesse retornando a uma terra que sempre me foi familiar, a um quintal de minha vida existencial. É como se estivesse caminhando pelas ruas de minha terra tijucana. Talvez, porque corre em minhas veias o sangue português. Afinal, a força do vínculo sanguíneo não deixa de marcar nossas emoções, nosso modo de ver e de sentir a vida.

Gosto de chegar a Lisboa, alegre capital portuguesa, em frente ao Tejo, de cujas margens partiu Cabral para nos descobrir. Conheci a cidade no tempo de Salazar, então, uma cidade triste, cinzenta, atrasada. Escapara ilesa da Segunda Guerra e, 25 anos depois, continuava atrasada em face das demais capitais européias, quase todas devastadas pelo grande conflito mundial e rapidamente reconstruídas, no plano econômico e político, a ponto de não se ver mais vestígios do tempo da guerra.  

Atualmente, Lisboa é uma cidade alegre, bem cuidada, segura, sem assalto e sem violência, cheia de monumentos, catedrais, museus, restaurantes e bares, onde todos parecem vender felicidade ou, quem sabe, ilusão, porque são estados d’alma que muitas vezes se confundem. A gente se sente bem, como se estivesse em terra brasileira, ao caminhar entre gente simpática e acolhedora, pelas ruas da parte alta, o conhecido Chiado, pelas praças do Rocio e do Comércio, cercadas por belas edifícios do final do século 18, construídos depois do grande terremoto que devastou a cidade, conta que o Brasil-colônia, ajudou a pagar, com o ouro daqui levado.

O belo e imponente Mosteiro dos Jerônimos, patrimônio da arquitetura mundidal, com sua construção iniciada na época do descobrimento do Brasil,  é testemunha silenciosa e inquestionável do progresso alcançado pela nação portuguesa, naquela sua época de ouro. Ali perto, outro monumento emblemático. A bela Torre de Belém, erguida à margem do Tejo, local de onde partiam as esquadras portuguesas para singrar os mares e conquistar um vasto império, em terras dos três continentes.

Vi uma Lisboa lotada de turistas de todas as partes do mundo, brasileiros por todos os lados, como sempre reclamando da crise, mas que sempre arranjam uns bons trocados para botar os pés em terras portuguesas.

Afinal, viajar é viver.

Escrito por João José Leal, 21/06/2018 às 09h10 | jjoseleal@gmail.com

Viagem de Trem

Gosto de viajar de trem. Na Europa, é claro, onde trem sai sempre na hora, marcada em minutos porque pontualidade faz parte da cultura europeia. São confortáveis e democráticos. Se você não vai na primeira classe, o vagão é um espaço onde se misturam jovens mochileiros, executivos engravatados, madames encasacadas bem penteadas e de salto alto. Nesse pedaço de diversidade social móvel e sem discriminação, todos convivem, com certa indiferença e allheamento, é verdade!, mas amistosamente.

Cada um no seu lugar, sem diferença de assento, sem preconceito de classe, de idade ou de raça. Um vagão europeu de passageiros é uma interessante arca de biotipos diversos, chineses, coreanos e japoneses, esses amarelos que só eles sabem a sua origem e que estão tomando conta do mundo globalizado. De nórdicos loiros, todos parecendo Fritzes e Fridas vindos das geladas terras escandinavas. De árabes e negros, a nova onda migratória em busca de trabalho no Velho Mundo. No meio dessa babel étnica e linguística, viajam também, é claro, os nativos europeus país que o turista está visitando.

Gosto de chegar na estação ferroviária, sempre no centro da cidade, referência de localização para quem procura por um endereço qualquer e ver aquele burburinho, aquele corre-corre de gente falando alto, muitos gritando, gente apressada para não perder o trem, que não espera um minuto sequer, porque horário é dever, é ponto de honra e atraso de minutos pode custar caro para a companhia, quase todas ainda empresas públicas.

Gosto de ver, logo no começo da viagem, aquelas casas velhas, muitas já centenárias do tempo da construção dos caminhos de ferro, quase todas de costas, a cozinha virada para a via férrea. para evitar o barulho ensurdecedor das pioneiras locomotivas movidas a vapor, pelo carvão incandescente. porque Seus moradores, gente simples sem escolha de moradia, de certo, quiseram evitar o barulho das pioneiras locomotivas e escolheram a sala para olhar a rua.

Depois, o trem em alta velocidade, 300 km/h, a paisagem do campo desfilando rápido na janela cinematográfica, as pastagens quase sem gado, meia dúzia de bois e ovelhas, porque não estamos contemplando os campos deste Brasil imenso, os trigais e as florestas, hoje retornando às terras europeias. Enfim, a chegada, pontualmente no horário, bem no coração da cidade, uma multidão de passageiros a andar rápido pela plataforma, uns para o trabalho, outros para o lazer, porque a vida é assim mesmo. Uns trabalham e outros se divertem.

É pena. No Brasil, não temos mais trens de passageiro, há muito tempo aposentados, transformados em sucata. Se quisermos percorrer a imensidão do território brasileiro, só de avião porque, de carro, leva tempo e é uma ventura perigosa.

Escrito por João José Leal, 11/06/2018 às 10h24 | jjoseleal@gmail.com

Internet e Transtorno Mental

De um pequeno cartaz afixado na parede de uma cafeteria, em Chapecó: “Aqui não tem Wi-FI. Conversem entre vocês!”

Psicólogos e psiquiatras ainda divergem sobre o vício ou dependência de crianças e adolescentes que passam o dia inteiro na internet. Para uns, ficar conectado por horas e horas, sem tirar os olhos e a mente da telinha mágica de cristal, é apenas um sintoma de um transtorno mental preexistente, como a depressão e a ansiedade. Como a humanidade contemporânea é feita de muita gente depressiva e ansiosa, o vício da internet seria apenas mais um sintoma desse transtorno generalizado.

Para outros especialistas, no entanto, não há mais dúvida, a conduta compulsiva de muitos internautas, que passam o dia conectados ao mundo virtual, pode ser considerado um tipo de transtorno mental, como uma dependência psíquica, igual à do álcool ou das demais drogas. É verdade que, ainda, não há um reconhecimento oficial. Mas, alguns países já encaram essa conduta de passar o dia todo com o celular nas mãos e olhar na tela, como um problema de saúde pública. É o caso da Coreia do Sul e do Japão.

Penso que não é preciso ser psiquiatra ou psicólogo para entender que não é normal viver o dia inteiro navegando nas ondas do mundo virtual. Principalmente, quando o vício começa a afetar a vida social do dependente, quando a criança ou o adolescente ignora o que se passa ao seu redor, desligando-se da vida familiar, dos amigos, da escola e do trabalho. Conheço alguns pais que estão preocupados com a conduta de seus filhos, que acordam e dormem de celular nas mãos. Esses jovens de mãos de siri, passam o dia inteiro manuseando o polegar, agora transformado em chave da porta de entrada no mundo fantástico e sedutor mundo virtual.

Para os usuários compulsivos da internet, esses que não conseguem mais ficar longe da tela de um computador ou de um celular, já existem clínicas especializadas no tratamento desses cyberdependentes, inclusive no Brasil. Nos Estados Unidos, sociedade tecnologicamente avançada, já são muitas. A Paradigm é uma das que chama a atenção pela luxo e sofisticação. Instalada numa colina da cosmopolita San Francisco, da Califórnia, com vista para a Gold Gate, é uma mansão transformada em casa de recuperação de cybernautas.

A diária tem custo de R$ 5.400 e o tratamento de crianças e adolescentes pode durar até 60 dias de internação, significando que a despesa total não é para qualquer pai comum. Na clínica computadores, tabletes e celulares são proibidos porque a terapia tem um objetivo bem definido: "desprogramar" o viciado e ajudá-lo a se reaproximar da família, dos amigos e da máquina. Então, a ordem é "desconectar" as mentes viciadas ali internadas, libertando-as da dependência causada pelo feitiço da tela mágica, que afasta o ser humano da realidade para escravizá-lo no mundo virtual da fantasia.

Assim é o ser humano, criador e escravo da própria máquina.

Escrito por João José Leal, 29/05/2018 às 14h20 | jjoseleal@gmail.com

Internet, passarela da vaidade virtual

Nestes novos tempos de vida virtual e informatizada, jovens e idosos, navegam nessa onda fantástica do telefone celular, esse aparelho esperto, que põe o mundo na palma da nossa mão. De celular em punho, todos curtem as mil coisas que circulam no mundo virtual do Face e do Whatsapp, vitrines sem vidraça da autoexposição, passarelas sem patrão do desfile da liberdade. Babel sem papel, onde todos se comunicam sem se falar. Afinal, quem consegue, hoje, viver fora dessa bolha cibernética, teia etérea, infinita rede que envolve a todos humanos, que pensam ou imaginam existir?

É interessante. A internet criou uma rede livre e infinita de comunicação. Tão imensa e poderosa que não podemos imaginar o seu tamanho, nem os seus limites. Mas, diálogo e conversa pessoal com o internauta amigo, perto ou distante, do outro lado da telinha de cristal, muito pouco ou quase nada. Passamos o dia inteiro de celular na mão, com o olhar fixado nessa tela milagrosa dos sonhos e fantasias, mas não temos tempo para leitura nem para escrever palavras que exprimam as nossas ideias nem o nosso sentimento de afeto.

Sem dúvida, as redes sociais revolucionaram os meios de comunicação. Nas suas páginas sem papel, infindas imagens de todo o tipo e tamanho circulam livremente. Podemos vê-las, senti-las e não ocupam espaço, mas não podemos pegá-las com as mãos. Para a tribo feminina, foi uma adorável revolução. As redes esvaziaram as tradicionais e seletivas colunas sociais das revistas e jornais impressos. Democraticamente, abriram espaço para que todas possam desfilar, sem discriminação estética nem econômica, nessa infinita passarela da vaidade virtual, mostrando suas caras sorridentes, joviais, não raro de épocas idas, porque o tempo é implacável.

Neste tempo de mundo virtual, de metaversos, paraversos e jogos irreais, conhecemos a realidade da vida pelo cristal do pequeno tablete mágico. Fotos e vídeos circulam às centenas, aos milhares, aos milhões mesmo, porque câmara e máquina fotográfica, agora, se escondem nesse tablete digital, que parecem nascer nas mãos de todo o ser vivente. Vemos recém-nascidos nos braços do feliz pai, a criança na pia batismal e velas de aniversário denunciando a idade nem sempre anunciada. Longe da igreja, testemunhamos a promessa de casamento aos pés do altar, noivos vestidos a rigor, rodeados por um batalhão de padrinhos.

Desejamos saúde bastante para doentes em estado grave e; pesarosos, manifestamos votos de condolência aos que nos deixam para sempre. Em nossa casa ou na mesa de um bar, vemos parentes e amigos em poses cinematográficas, ao fundo o Coliseu, a Torre Eiffel, o Big Ben, a Muralha da China e, até, o Pão de Açucar, porque o Brasil também merece.

Tudo isso e muito mais, ficamos sabendo. Mas, tem um preço. Conectar é preciso! 

Escrito por João José Leal, 23/05/2018 às 12h02 | jjoseleal@gmail.com

Dia das Mães e Internet

No último domingo, foi comemorado o merecido Dia das Mães, data que deveria ser lembrada a cada dia, para reverenciar o ente querido que nos deu a luz e a missão cósmica de viver nesse extraordinário vale de lágrimas e sorrisos, porque a vida será sempre uma gangorra de horas amargas e de momentos felizes. . A todas as mães brusquenses, minhas leitoras, parabéns e o meu abraço.

Temos dia marcado para comemorar tudo e todos. Amanhã, será comemorado o Dia Internacional da Internet. Instituída pela ONU, em 2006 a data tem por objetivo lembrar a grande revolução ocorrida no campo da comunicação social e promover a inclusão digital. O passo inicial foi dado em 1969, com o primeiro email enviado de uma universidade da Califórnia. A partir dos anos 1990, a internet foi disponibilizada, de forma livre e gratuita, para um número de pessoas que não para de crescer.

Hoje, são mais de 4 bilhões de usuários em todo o mundo. Com mais de 116 milhões de internautas, o Brasil é o quarto maior usuário dessa infinita rede de computadores, que une as pessoas e as organizações públicas ou privadas em todo o planeta para a livre troca de dados, mensagens e informações.

A data deve servir, também, para uma séria reflexão sobre a influência dessa poderosa ferramenta de comunicação sobre o comportamento humano e, em consequência, sobre as nossas vidas. Afinal, somos todos ou quase todos navegadores desse imenso e fantástico oceano da comunicação virtual. Sem dúvida, a internet mudou o comportamento e a vida das pessoas, inclusive das nossas mães.

No último domingo, penso que somente as mães mais idosas, aquelas que pertencem à faixa etária das veteranas sem Iphone nem Androide nas mãos, que passam o tempo no crochê, tenham recebido dos filhos distantes que não compareceram ao almoço da família, aquele tradicional telefonema ou o carinhoso cartão com desenhos de flores e coração entregue pelo carteiro na porta da casa.

As mães mais novas, que trabalham fora do lar, dividem a educação dos filhos e os cuidados da casa com os bons maridos de hoje e, ainda, encontram tempo para surfar na onda contagiante dessa teia infinita de comunicação virtual que nos envolve, hipnotiza e nos domina, essas modernas esposas do século 21, com certeza, receberam a carinhosa mensagem filial pela rede sem tamanho e sem fronteira do Face ou do Whatsapp.

O tempo passou. Mas, o que nos conforta é que o amor de mãe continua o mesmo, resistindo às mudanças trazidas pela internet.

Escrito por João José Leal, 16/05/2018 às 07h56 | jjoseleal@gmail.com



1 2 3 4 5 6 7

João José Leal

Assina a coluna Crônica Semanal

Graduado pela Faculdade de Direito da UFSC, Mestre em Ciências Criminológicas pela Universidade de Bruxelas, Livre-Docente-Doutor pela Universidade Gama Filho - Rio de Janeiro. Promotor de Justiça aposentado e Ex-Procurador Geral de Justiça de Santa Catarina. Ex-Professor de Direito Penal, de Criminologia e Diretor de Ciências Judiciais da FURB - Blumenau. Ex-Professor de Política Criminal e Controle Social do Programa de Mestrado em Ciência Jurídica da UNIVALI.


Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade

Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br