Jornal Página 3
Coluna
Crônica Semanal
Por João José Leal

Eleição presidencial, o terrível dilema

João José Leal – Promotor de Justiça e Professor aposentado, da Academia Catarinense de Letras

O resultado do primeiro turno da eleição de domingo mostrou que os brasileiros não estão satisfeitos com a situação econômica e política do nosso país. Quanto à presidência, a vontade majoritária do eleitorado nos reservou, para o segundo turno, uma difícil escolha entre o ruim e o pior. Bolsonaro ou Haddad, eis o terrível dilema.

Penso que a "onda eleitoral Bolsonaro" é um inequívoco recado de que o povo quer mudança. Mas, infelizmente, nenhum dos dois candidatos apresentou plano de governo, com propostas objetivas, sérias e consistentes das reformas capazes de solucionar a grave crise econômica e política brasileira.

Reformas necessárias, mas impopulares como a previdenciária, foram intencionalmente omitidas nos discursos e nos programas de TV, que se restringiram, como sempre, a uma ladainha de promessas demagógicas e enganosas sobre saúde pública, segurança e educação.

Dessa forma, ficamos diante de um terrível dilema. Votar em Haddad significa escolher uma forma de governar que já conhecemos. Não deu certo e não devemos querer a volta ao poder de um partido que envenenou a administração pública com o vírus sistêmico da corrupção e levou a nação brasileira à ruína econômica e financeira.

Significa, também, votar no aparelhamento do Estado por uma militância ávida de poder político sem compromisso com a nação.

Votar em Bolsonaro é escolher um candidato que se apresenta com a pele de político novo. Mas, tem 27 anos de vida política. Passou por diversos partidos. Parece não ter compromisso com nenhum deles, inclusive com o seu, até pouco tempo atrás, desconhecido PSL.

Seus sucessivos mandatos foram conquistados com o fácil e sedutor discurso da segurança pública e do armamento do cidadão. Não apresentou nem defendeu qualquer proposta de reforma econômica ou política. Assim, tudo indica que não tem compromisso com um plano claro e objetivo de mudanças capazes superar a crise brasileira.

Recuamos no tempo político. Estamos no mesmo dilema de 1990, quando tivemos que escolher entre Collor de Mello e Lula da Silva. O desastroso resultado, todos conhecem.

Infelizmente, não vejo perspectiva de solução. Quase 30 anos depois, a nação brasileira ainda espera por governantes sérios, austeros, comprometidos com as reformas capazes de promover o bem estar econômico e social do povo brasileiro.

Escrito por João José Leal, 15/10/2018 às 09h56 | jjoseleal@gmail.com

Letras e Chope

Marejada, em Itajaí. Ocktoberfest, em Blumenau. Fenarreco, em Brusque. O Vale está em festa. Como sempre, serão dias de muita música, dança, chope e comida típica das cozinhas portuguesa e alemã. Também de muito barulho e bebedeira, porque festa é alegria turbinada pelo efeito deletério do álcool, que libera serotonina no cérebro e nos deixa cheios de euforia e excitação. Crise, nem pensar. Deixa para amanhã, que tem eleição, mil discursos na televisão e rosários de solução.

No momento em que os pavilhões abriam suas portas e a festa começava, chope jorrando para a alegria de muita gente de caneco na mão, eu estava em Florianópolis para tomar posse na Cadeira 31, da Academia Catarinense de Letras. A vida é assim mesmo, marcada pela biodiversidade. Uns bebem, dançam e se divertem. Alguns imaginam que, escrever, é preciso para alimentar a alma e divertir o espírito. Outros trabalham duro, porque a vida é preciso ganhar.

Minha eleição aconteceu em junho, num momento de colher os derradeiros frutos da semeadura feita durante a minha vida. E, na quinta-feira, tinha chegado a hora de adentrar o umbral do belo, imponente e centenário Casarão que abriga a Casa das Letras de Santa Catarina, para receber a láurea acadêmica, em reconhecimento ao que escrevi, no campo das letras jurídicas e da literatura, centenas de crônicas publicadas neste jornal e em outros do Estado.

Aposentado, escrever crônicas é o que tenho feito, além de viajar para respirar outros ares. Agora, sinto-me um cronista, lobo solitário sentado em frente à tela do computador – a velha máquina de datilografia já nas prateleiras e armários dos museus – escrevendo para dialogar, numa conversa semanal, com a inteligência, com a razão e com os sentimentos do meu leitor. Nesse processo de interação entre o artífice da palavra e o leitor, escrever é semear emoções e ilusões, é provocar alegrias e sorrisos, tristezas e lágrimas, amor e paz.

Para mim, com sua linguagem coloquial, muitas vezes, marcada pela ironia, a crônica é o gênero literário escrito na véspera, para chegar às mãos do leitor no dia seguinte e ser lida numa página de jornal. E, agora, tempo de comunicação virtual, também, na tela mágica das redes sociais. Assim, é a crônica, com o seu timing, com sua linguagem objetiva, salpicada com o tempero da crítica e da ironia, com sua temática garimpada do cotidiano da vida social, com um texto conciso, ajustado rigorosamente ao espaço da coluna de um jornal.

Como disse no discurso de posse, faço questão de compartilhar esse prêmio acadêmico com todos os leitores de minhas crônicas. São eles a razão maior da minha inspiração para escrever sobre o cotidiano da cidade e a vida das pessoas. Neste momento da minha vida, sinto que escrever é viver porque, enquanto puder sentar ao computador para escrever uma crônica, estarei vivendo para conversar com os meus amigos e leitores.

Escrito por João José Leal, 03/10/2018 às 09h21 | jjoseleal@gmail.com

Drogas e Mortes por Overdose

O tráfico e o uso de drogas é um tema polêmico. Porisso, como a política, divide as opiniões de especialistas e leigos. No entanto, num ponto, todos convergem e concordam que o consumo indevido de drogas e a consequente dependência do usuário, é um problema que precisa ser enfrentado pelo poder público e pela sociedade civil. A divergência está, apenas, em saber qual a melhor política para a solução razoável e eficaz do problema.

No caso dos Estados Unidos, alguns dos seus Estados liberaram o consumo da maconha, droga considerada menos nociva à saúde do que o tabaco e o álcool. Assim, pode ela ser adquirida em estabelecimentos comerciais credenciados. As demais drogas de maior potencial destrutivo da saúde continuam proibidas e punidas com severas penas. Nesse ponto, a lei federal norteamericana está entre as mais rigorosas. A ação da sua Agência Anti-Drogas tem sido implacável em relação aos traficantes e a justiça criminal responde no mesmo nível de severidade.

Mas, parece que a política norteamericana de liberação da maconha e de repressão às demais drogas pesadas, não é a melhor forma de tratar o problema. Informações oficiais dizem que, no ano passado, morreram ou se mataram, por overdose, mais de 72 mil usuários de drogas. Desde 2010, o país vive uma trágica epidemia de mortes por uso excessivo de narcóticos. Na sinistra e alucinógena caminhada para o morticínio coletivo, holocausto de vítimas de uma delirante tragédia desejada ou procurada, as drogas sintéticas derivadas do ópio foram as mais usadas.

Num país de exagerado liberalismo, que só admite intervenção do Estado na área econômica e social em casos excepcionais, as autoridades reconhecem que a sociedade norteamericana vive uma grave situação de emergência no campo da saúde pública. E não é para menos. Tantas mortes precoces, buscadas por milhares de dependentes da pílula sintética ou do pó mágico, gente angustiada, desesperada, alucinada, representam uma terrível tragédia, numa sociedade tão cheia de riqueza. O pior é que os números tem aumentado a cada ano.

Quando a tragédia teve início, mais de dois milhões de americanos faziam uso de poderosos analgésicos legais. Muitos se tornaram viciados e as autoridades acabaram por estabelecer medidas enérgicas contra a venda desses analgésicos. Para estudiosos do problema, a dificuldade criada pela legislação levou boa parte dos dependentes a consumir heroína, no mercado clandestino e, principalmente, o fentanil, mais barato e muito mais potente.

Não é só a heroína, cocaína e outras drogas sintéticas. No mundo sem lei e sem compaixão do tráfico, novidades trasvestidas de pílulas douradas sempre aparecem. Uma nova droga, um tipo de maconha sintética, conhecida como K2, está no mercado negro da morte precoce. É a nova arma tóxica usada para acelerar o naufrágio dos alucinados navegantes de um mar tenebroso, nas suas viagens de sofrimento e dor, sem rumo e sem volta.

Sem dúvida, o problema do tráfico e consumo de drogas é polêmico. Se liberar, o tráfico continua no mercado paralelo com suas drogas mortíferas. Se proibir, o tráfico atua clandestinamente para continuar levando a morte sob a forma de pó mágico e de pílulas douradas.

Escrito por João José Leal, 14/09/2018 às 18h19 | jjoseleal@gmail.com

Almoço em Família de Antigamente

Como se dizia no tempo da carochinha, estórias que as crianças de hoje, celular nas mãos de siri a dedilhar sem parar na telinha mágica do mundo encantado digital, não querem mais escutar, houve uma época em que as famílias almoçavam, todos os dias, no recanto do lar doce lar. Quando cheguei a Brusque, além das poucas churrascarias, havia dois ou três restaurantes abertos ao meio-dia para almoço dos visitantes da cidade.

Havia até uma piada, conhecida e repetida, do marido dizendo à mulher: “Hoje, vamos almoçar fora”. E, quando a boa esposa, toda contente, corria para botar o vestido de festa e passar o pó de arroz nas faces envelhecidas, o marido logo cortava o barato para dizer, naquele tom patriarcal de chefe da família sem admitir pedido de explicação, muito menos contestação: “Onde pensas que vamos? Vai logo, botar a mesa no quintal, que o dia está ensolarado”.

Era um tempo de família numerosa, o casal, seis ou mais filhos e, ainda, a sempre bem-vinda e querida sogra. Se o marido era o chefe da família, cabia à mulher, mãe da numerosa prole, enfrentar sozinha a rotina da vida doméstica.  Especialmente, a repetitiva lide da cozinha, que significava passar a vida em frente ao fogão, no exaustivo manejo das panelas, frigideiras e chaleiras para o preparo das refeições diárias, porque alimentar a família era preciso, promessa sagrada feita para sempre aos pés do altar. 

Almoço servido, tribo familiar reunida à mesa e a luta pelo prato cheio, cada um buscando garantir o seu quinhão, sob o olhar da autoridade patriarcal. Comida nem sempre bastante, de raspar o prato, às vezes de dar briga pelo melhor pedaço, sempre apaziguada com um simples e convincente olhar maternal. Assim, era a reunião gastronômica diária das famílias de muitos filhos. Comer fora, um batalhão sentado à mesa de um restaurante, só em raros domingos e, isso, para as famílias ricas, que não eram muitas.

Sobremesa era iguaria sofisticada, coisa de rico, da culinária aristocrática, que só chegava à mesa da gente humilde, nos domingos. Lembro bem daquele manjar de coco Royal ou Medeiros, feito numa forma redonda, cheia de gomos e com um furo no meio. Minha mãe tinha um cuidado enorme, próprio do afeto maternal, para cortar o pitéu em quinhões iguais, tarefa acompanhada por mais de uma dezena de olhos arregalados, faiscando de gula.

Tantas bocas ávidas em volta da mesa, as partes eram centimetricamente cortadas, a cada um o seu pedaço, sem direito à repetição porque sobra não havia. Mas, sempre alguém achava o seu gomo de pudim menor. E, durante muito tempo, ouvi sem entender, o ditado repetido por minha mãe dizendo que o “melhor quinhão era do amuado”.

Escrito por João José Leal, 06/09/2018 às 11h00 | jjoseleal@gmail.com

Envelhecer é administrar perdas

Não creio em felicidade completa. Assim, não posso me queixar. Na última quarta-feira, completei 77 anos de idade com saúde, apesar da dezena de pílulas diárias para manter o equilíbrio da pressão arterial, a boa taxa de colesterol no sangue e o coração pulsando no ritmo nostálgico dos passos lentos de um samba canção dançado na penumbra de uma casa noturna dos Anos 60. Sigo meu destino e o ditado que diz viver é preciso.

Como me escreveu um amigo, professor de Matemática e também versado nas letras, “uma vez quebrada a barreira do tempo – 77 não é para qualquer um, chegou o dia em que os sinos dobram, as aves alçam vôo e o frio se acomoda”. E, eu completo, aqui, para dizer, sem mágoa nem tristeza, que cheguei à idade em que viver é administrar perdas.

É isso mesmo. Envelhecer é conviver com a perda dolorosa de parentes e amigos, não todos, felizmente. Mas, os que partem levam consigo boa parte dos bons momentos vividos e da nossa própria existência. É a perda implacável da memória, tormento que nos faz esquecer dos óculos, às vezes no próprio nariz, da chave nunca pendurada no prego, de tomar as pílulas, sempre mais numerosas e em maior dose, de apagar a luz, de pagar as contas, porque dívida não conhece idade.

É triste, mas envelhecer é perder a disposição que um dia tivemos para superar os desafios da vida. É perder a força física para caminhar rápido e correr em velocidade de quase alçar vôo, para saltar muros e cercas, subir escadas sem contar degraus e montanhas acima sem perder o fôlego e sem pensar em recuar. Sim, envelhecer é mergulhar fundo nas águas nebuosas, pantanosas da chamada terceira idade. Enfim, envelhecer é administrar as perdas que aparecem por todos os lados.

Mas, não posso me queixar. Completei meus 77 anos, pensando com a minha cabeça, caminhando com minhas próprias pernas pelas ruas de Buenos Aires, contemplando as imponentes fachadas de seus edifícios do começo do século passado, belas silhuetas da arquitetura “Belle Époque” e o majestoso Teatro Colon que, dizem os argentinos, é o maior da América Latina. E, claro, visitando, também, alguns de seus bons museus. Sem dúvida, tudo isso faz a capital argentina se parecer com Madri, Paris ou Londres.

Realmente, tenho que me dar por satisfeito. No dia 14, lépido quanto me foi possível, caminhei pela avenida de Mayo até o Café Tortoni, o mais antigo do continente americano, para tomar um espresso. E, isso, já vale muito.

Escrito por João José Leal, 20/08/2018 às 15h31 | jjoseleal@gmail.com

Eleições 2018, a música não vai mudar!

As cartas estão sobre a mesa ou, melhor, as candidaturas foram lançadas e os pretendentes a um mandato político já estão nas estradas, nas mídias e nas redes sociais. É uma corrida de alta velocidade, de desesperada busca do precioso e necessário voto para uma vitória eleitoral. É a batalha para se tornar um representante do povo, deputado, governador ou presidente da República. Nem todos são estreantes. A maioria já tem diversas eleições e vitórias no currículo. Sabem o que é bom e não querem largar o osso, de jeito nenhum.

Pensam que, diante da crise ética e do mar de corrupção que contamina a vida pública e privada brasileira, seria um perigo, uma temeridade deixar a política para outros mais novos, sem experiência necessária para enfrentar as armadilhas e malandragens que envolvem o complicado processo político e administrativo. Então, por que renovar, se o que temos, no Congresso Nacional e nas Assembleias Legislativas, está muito bom, é uma maravilha? Assim, vão permanecendo no cenário político, aparecendo a cada quatro anos para pedir o voto do eleitor, jurando que o povo merece esse compromisso sagrado com uma vida política de abnegação, de desapego e dedicação à causa púbica.

Afinal, ser político, dizem eles, é uma missão sagrada, que exige sacrifício. E, acima de tudo, muita honestidade no trato do patrimônio da nação e do interesse público. Assim, esses candidatos que batem, a cada eleição, às nossas portas ou aparecem nas páginas dos jornais, nas telas da TV e dos telefones espertos se imaginam únicos, os melhores, os mais competentes para resolver os graves problemas econômicos e sociais deste país.

Como não quisemos ser políticos, temos que nos conformar com a nossa condição de eleitor e comparecer, no dia marcado, para exercer o voto obrigatório, que muitos acreditam ser o único caminho para a solução dos problemas econômicos, políticos e sociais. Na prática, as coisas parecem não ser assim. Penso que a democracia liberal, vista como o melhor regime político, está passando por uma grave crise. Principalmente, no Brasil. Nossas instituições estão corrompidas e ninguém parece disposto ao mínimo de sacrifício para promover as reformas indispensáveis à solução da nossa grave econômica.

Pois é, as eleições estão chegando e os candidatos aí estão, prometendo trabalho incessante, honestidade, garantindo a solução dos nossos problemas maiores. Dizem que, ser político, é ter compromisso certo com uma vida de pobreza, dura e cheia de sacrifício. Porém, não tenho a mínima ilusão. Penso que nenhum deles está comprometido, seriamente, muito menos, terá legitimidade e força política para promover as reformas que a república brasileira tanto precisa. E a nação continuará afundando.

Infelizmente, a música não vai mudar e os músicos continuarão os mesmos de sempre, na política e na administração desta infeliz nação.

Escrito por João José Leal, 14/08/2018 às 15h55 | jjoseleal@gmail.com



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João José Leal

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Graduado pela Faculdade de Direito da UFSC, Mestre em Ciências Criminológicas pela Universidade de Bruxelas, Livre-Docente-Doutor pela Universidade Gama Filho - Rio de Janeiro. Promotor de Justiça aposentado e Ex-Procurador Geral de Justiça de Santa Catarina. Ex-Professor de Direito Penal, de Criminologia e Diretor de Ciências Judiciais da FURB - Blumenau. Ex-Professor de Política Criminal e Controle Social do Programa de Mestrado em Ciência Jurídica da UNIVALI.


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Por João José Leal

Eleição presidencial, o terrível dilema

João José Leal – Promotor de Justiça e Professor aposentado, da Academia Catarinense de Letras

O resultado do primeiro turno da eleição de domingo mostrou que os brasileiros não estão satisfeitos com a situação econômica e política do nosso país. Quanto à presidência, a vontade majoritária do eleitorado nos reservou, para o segundo turno, uma difícil escolha entre o ruim e o pior. Bolsonaro ou Haddad, eis o terrível dilema.

Penso que a "onda eleitoral Bolsonaro" é um inequívoco recado de que o povo quer mudança. Mas, infelizmente, nenhum dos dois candidatos apresentou plano de governo, com propostas objetivas, sérias e consistentes das reformas capazes de solucionar a grave crise econômica e política brasileira.

Reformas necessárias, mas impopulares como a previdenciária, foram intencionalmente omitidas nos discursos e nos programas de TV, que se restringiram, como sempre, a uma ladainha de promessas demagógicas e enganosas sobre saúde pública, segurança e educação.

Dessa forma, ficamos diante de um terrível dilema. Votar em Haddad significa escolher uma forma de governar que já conhecemos. Não deu certo e não devemos querer a volta ao poder de um partido que envenenou a administração pública com o vírus sistêmico da corrupção e levou a nação brasileira à ruína econômica e financeira.

Significa, também, votar no aparelhamento do Estado por uma militância ávida de poder político sem compromisso com a nação.

Votar em Bolsonaro é escolher um candidato que se apresenta com a pele de político novo. Mas, tem 27 anos de vida política. Passou por diversos partidos. Parece não ter compromisso com nenhum deles, inclusive com o seu, até pouco tempo atrás, desconhecido PSL.

Seus sucessivos mandatos foram conquistados com o fácil e sedutor discurso da segurança pública e do armamento do cidadão. Não apresentou nem defendeu qualquer proposta de reforma econômica ou política. Assim, tudo indica que não tem compromisso com um plano claro e objetivo de mudanças capazes superar a crise brasileira.

Recuamos no tempo político. Estamos no mesmo dilema de 1990, quando tivemos que escolher entre Collor de Mello e Lula da Silva. O desastroso resultado, todos conhecem.

Infelizmente, não vejo perspectiva de solução. Quase 30 anos depois, a nação brasileira ainda espera por governantes sérios, austeros, comprometidos com as reformas capazes de promover o bem estar econômico e social do povo brasileiro.

Escrito por João José Leal, 15/10/2018 às 09h56 | jjoseleal@gmail.com

Letras e Chope

Marejada, em Itajaí. Ocktoberfest, em Blumenau. Fenarreco, em Brusque. O Vale está em festa. Como sempre, serão dias de muita música, dança, chope e comida típica das cozinhas portuguesa e alemã. Também de muito barulho e bebedeira, porque festa é alegria turbinada pelo efeito deletério do álcool, que libera serotonina no cérebro e nos deixa cheios de euforia e excitação. Crise, nem pensar. Deixa para amanhã, que tem eleição, mil discursos na televisão e rosários de solução.

No momento em que os pavilhões abriam suas portas e a festa começava, chope jorrando para a alegria de muita gente de caneco na mão, eu estava em Florianópolis para tomar posse na Cadeira 31, da Academia Catarinense de Letras. A vida é assim mesmo, marcada pela biodiversidade. Uns bebem, dançam e se divertem. Alguns imaginam que, escrever, é preciso para alimentar a alma e divertir o espírito. Outros trabalham duro, porque a vida é preciso ganhar.

Minha eleição aconteceu em junho, num momento de colher os derradeiros frutos da semeadura feita durante a minha vida. E, na quinta-feira, tinha chegado a hora de adentrar o umbral do belo, imponente e centenário Casarão que abriga a Casa das Letras de Santa Catarina, para receber a láurea acadêmica, em reconhecimento ao que escrevi, no campo das letras jurídicas e da literatura, centenas de crônicas publicadas neste jornal e em outros do Estado.

Aposentado, escrever crônicas é o que tenho feito, além de viajar para respirar outros ares. Agora, sinto-me um cronista, lobo solitário sentado em frente à tela do computador – a velha máquina de datilografia já nas prateleiras e armários dos museus – escrevendo para dialogar, numa conversa semanal, com a inteligência, com a razão e com os sentimentos do meu leitor. Nesse processo de interação entre o artífice da palavra e o leitor, escrever é semear emoções e ilusões, é provocar alegrias e sorrisos, tristezas e lágrimas, amor e paz.

Para mim, com sua linguagem coloquial, muitas vezes, marcada pela ironia, a crônica é o gênero literário escrito na véspera, para chegar às mãos do leitor no dia seguinte e ser lida numa página de jornal. E, agora, tempo de comunicação virtual, também, na tela mágica das redes sociais. Assim, é a crônica, com o seu timing, com sua linguagem objetiva, salpicada com o tempero da crítica e da ironia, com sua temática garimpada do cotidiano da vida social, com um texto conciso, ajustado rigorosamente ao espaço da coluna de um jornal.

Como disse no discurso de posse, faço questão de compartilhar esse prêmio acadêmico com todos os leitores de minhas crônicas. São eles a razão maior da minha inspiração para escrever sobre o cotidiano da cidade e a vida das pessoas. Neste momento da minha vida, sinto que escrever é viver porque, enquanto puder sentar ao computador para escrever uma crônica, estarei vivendo para conversar com os meus amigos e leitores.

Escrito por João José Leal, 03/10/2018 às 09h21 | jjoseleal@gmail.com

Drogas e Mortes por Overdose

O tráfico e o uso de drogas é um tema polêmico. Porisso, como a política, divide as opiniões de especialistas e leigos. No entanto, num ponto, todos convergem e concordam que o consumo indevido de drogas e a consequente dependência do usuário, é um problema que precisa ser enfrentado pelo poder público e pela sociedade civil. A divergência está, apenas, em saber qual a melhor política para a solução razoável e eficaz do problema.

No caso dos Estados Unidos, alguns dos seus Estados liberaram o consumo da maconha, droga considerada menos nociva à saúde do que o tabaco e o álcool. Assim, pode ela ser adquirida em estabelecimentos comerciais credenciados. As demais drogas de maior potencial destrutivo da saúde continuam proibidas e punidas com severas penas. Nesse ponto, a lei federal norteamericana está entre as mais rigorosas. A ação da sua Agência Anti-Drogas tem sido implacável em relação aos traficantes e a justiça criminal responde no mesmo nível de severidade.

Mas, parece que a política norteamericana de liberação da maconha e de repressão às demais drogas pesadas, não é a melhor forma de tratar o problema. Informações oficiais dizem que, no ano passado, morreram ou se mataram, por overdose, mais de 72 mil usuários de drogas. Desde 2010, o país vive uma trágica epidemia de mortes por uso excessivo de narcóticos. Na sinistra e alucinógena caminhada para o morticínio coletivo, holocausto de vítimas de uma delirante tragédia desejada ou procurada, as drogas sintéticas derivadas do ópio foram as mais usadas.

Num país de exagerado liberalismo, que só admite intervenção do Estado na área econômica e social em casos excepcionais, as autoridades reconhecem que a sociedade norteamericana vive uma grave situação de emergência no campo da saúde pública. E não é para menos. Tantas mortes precoces, buscadas por milhares de dependentes da pílula sintética ou do pó mágico, gente angustiada, desesperada, alucinada, representam uma terrível tragédia, numa sociedade tão cheia de riqueza. O pior é que os números tem aumentado a cada ano.

Quando a tragédia teve início, mais de dois milhões de americanos faziam uso de poderosos analgésicos legais. Muitos se tornaram viciados e as autoridades acabaram por estabelecer medidas enérgicas contra a venda desses analgésicos. Para estudiosos do problema, a dificuldade criada pela legislação levou boa parte dos dependentes a consumir heroína, no mercado clandestino e, principalmente, o fentanil, mais barato e muito mais potente.

Não é só a heroína, cocaína e outras drogas sintéticas. No mundo sem lei e sem compaixão do tráfico, novidades trasvestidas de pílulas douradas sempre aparecem. Uma nova droga, um tipo de maconha sintética, conhecida como K2, está no mercado negro da morte precoce. É a nova arma tóxica usada para acelerar o naufrágio dos alucinados navegantes de um mar tenebroso, nas suas viagens de sofrimento e dor, sem rumo e sem volta.

Sem dúvida, o problema do tráfico e consumo de drogas é polêmico. Se liberar, o tráfico continua no mercado paralelo com suas drogas mortíferas. Se proibir, o tráfico atua clandestinamente para continuar levando a morte sob a forma de pó mágico e de pílulas douradas.

Escrito por João José Leal, 14/09/2018 às 18h19 | jjoseleal@gmail.com

Almoço em Família de Antigamente

Como se dizia no tempo da carochinha, estórias que as crianças de hoje, celular nas mãos de siri a dedilhar sem parar na telinha mágica do mundo encantado digital, não querem mais escutar, houve uma época em que as famílias almoçavam, todos os dias, no recanto do lar doce lar. Quando cheguei a Brusque, além das poucas churrascarias, havia dois ou três restaurantes abertos ao meio-dia para almoço dos visitantes da cidade.

Havia até uma piada, conhecida e repetida, do marido dizendo à mulher: “Hoje, vamos almoçar fora”. E, quando a boa esposa, toda contente, corria para botar o vestido de festa e passar o pó de arroz nas faces envelhecidas, o marido logo cortava o barato para dizer, naquele tom patriarcal de chefe da família sem admitir pedido de explicação, muito menos contestação: “Onde pensas que vamos? Vai logo, botar a mesa no quintal, que o dia está ensolarado”.

Era um tempo de família numerosa, o casal, seis ou mais filhos e, ainda, a sempre bem-vinda e querida sogra. Se o marido era o chefe da família, cabia à mulher, mãe da numerosa prole, enfrentar sozinha a rotina da vida doméstica.  Especialmente, a repetitiva lide da cozinha, que significava passar a vida em frente ao fogão, no exaustivo manejo das panelas, frigideiras e chaleiras para o preparo das refeições diárias, porque alimentar a família era preciso, promessa sagrada feita para sempre aos pés do altar. 

Almoço servido, tribo familiar reunida à mesa e a luta pelo prato cheio, cada um buscando garantir o seu quinhão, sob o olhar da autoridade patriarcal. Comida nem sempre bastante, de raspar o prato, às vezes de dar briga pelo melhor pedaço, sempre apaziguada com um simples e convincente olhar maternal. Assim, era a reunião gastronômica diária das famílias de muitos filhos. Comer fora, um batalhão sentado à mesa de um restaurante, só em raros domingos e, isso, para as famílias ricas, que não eram muitas.

Sobremesa era iguaria sofisticada, coisa de rico, da culinária aristocrática, que só chegava à mesa da gente humilde, nos domingos. Lembro bem daquele manjar de coco Royal ou Medeiros, feito numa forma redonda, cheia de gomos e com um furo no meio. Minha mãe tinha um cuidado enorme, próprio do afeto maternal, para cortar o pitéu em quinhões iguais, tarefa acompanhada por mais de uma dezena de olhos arregalados, faiscando de gula.

Tantas bocas ávidas em volta da mesa, as partes eram centimetricamente cortadas, a cada um o seu pedaço, sem direito à repetição porque sobra não havia. Mas, sempre alguém achava o seu gomo de pudim menor. E, durante muito tempo, ouvi sem entender, o ditado repetido por minha mãe dizendo que o “melhor quinhão era do amuado”.

Escrito por João José Leal, 06/09/2018 às 11h00 | jjoseleal@gmail.com

Envelhecer é administrar perdas

Não creio em felicidade completa. Assim, não posso me queixar. Na última quarta-feira, completei 77 anos de idade com saúde, apesar da dezena de pílulas diárias para manter o equilíbrio da pressão arterial, a boa taxa de colesterol no sangue e o coração pulsando no ritmo nostálgico dos passos lentos de um samba canção dançado na penumbra de uma casa noturna dos Anos 60. Sigo meu destino e o ditado que diz viver é preciso.

Como me escreveu um amigo, professor de Matemática e também versado nas letras, “uma vez quebrada a barreira do tempo – 77 não é para qualquer um, chegou o dia em que os sinos dobram, as aves alçam vôo e o frio se acomoda”. E, eu completo, aqui, para dizer, sem mágoa nem tristeza, que cheguei à idade em que viver é administrar perdas.

É isso mesmo. Envelhecer é conviver com a perda dolorosa de parentes e amigos, não todos, felizmente. Mas, os que partem levam consigo boa parte dos bons momentos vividos e da nossa própria existência. É a perda implacável da memória, tormento que nos faz esquecer dos óculos, às vezes no próprio nariz, da chave nunca pendurada no prego, de tomar as pílulas, sempre mais numerosas e em maior dose, de apagar a luz, de pagar as contas, porque dívida não conhece idade.

É triste, mas envelhecer é perder a disposição que um dia tivemos para superar os desafios da vida. É perder a força física para caminhar rápido e correr em velocidade de quase alçar vôo, para saltar muros e cercas, subir escadas sem contar degraus e montanhas acima sem perder o fôlego e sem pensar em recuar. Sim, envelhecer é mergulhar fundo nas águas nebuosas, pantanosas da chamada terceira idade. Enfim, envelhecer é administrar as perdas que aparecem por todos os lados.

Mas, não posso me queixar. Completei meus 77 anos, pensando com a minha cabeça, caminhando com minhas próprias pernas pelas ruas de Buenos Aires, contemplando as imponentes fachadas de seus edifícios do começo do século passado, belas silhuetas da arquitetura “Belle Époque” e o majestoso Teatro Colon que, dizem os argentinos, é o maior da América Latina. E, claro, visitando, também, alguns de seus bons museus. Sem dúvida, tudo isso faz a capital argentina se parecer com Madri, Paris ou Londres.

Realmente, tenho que me dar por satisfeito. No dia 14, lépido quanto me foi possível, caminhei pela avenida de Mayo até o Café Tortoni, o mais antigo do continente americano, para tomar um espresso. E, isso, já vale muito.

Escrito por João José Leal, 20/08/2018 às 15h31 | jjoseleal@gmail.com

Eleições 2018, a música não vai mudar!

As cartas estão sobre a mesa ou, melhor, as candidaturas foram lançadas e os pretendentes a um mandato político já estão nas estradas, nas mídias e nas redes sociais. É uma corrida de alta velocidade, de desesperada busca do precioso e necessário voto para uma vitória eleitoral. É a batalha para se tornar um representante do povo, deputado, governador ou presidente da República. Nem todos são estreantes. A maioria já tem diversas eleições e vitórias no currículo. Sabem o que é bom e não querem largar o osso, de jeito nenhum.

Pensam que, diante da crise ética e do mar de corrupção que contamina a vida pública e privada brasileira, seria um perigo, uma temeridade deixar a política para outros mais novos, sem experiência necessária para enfrentar as armadilhas e malandragens que envolvem o complicado processo político e administrativo. Então, por que renovar, se o que temos, no Congresso Nacional e nas Assembleias Legislativas, está muito bom, é uma maravilha? Assim, vão permanecendo no cenário político, aparecendo a cada quatro anos para pedir o voto do eleitor, jurando que o povo merece esse compromisso sagrado com uma vida política de abnegação, de desapego e dedicação à causa púbica.

Afinal, ser político, dizem eles, é uma missão sagrada, que exige sacrifício. E, acima de tudo, muita honestidade no trato do patrimônio da nação e do interesse público. Assim, esses candidatos que batem, a cada eleição, às nossas portas ou aparecem nas páginas dos jornais, nas telas da TV e dos telefones espertos se imaginam únicos, os melhores, os mais competentes para resolver os graves problemas econômicos e sociais deste país.

Como não quisemos ser políticos, temos que nos conformar com a nossa condição de eleitor e comparecer, no dia marcado, para exercer o voto obrigatório, que muitos acreditam ser o único caminho para a solução dos problemas econômicos, políticos e sociais. Na prática, as coisas parecem não ser assim. Penso que a democracia liberal, vista como o melhor regime político, está passando por uma grave crise. Principalmente, no Brasil. Nossas instituições estão corrompidas e ninguém parece disposto ao mínimo de sacrifício para promover as reformas indispensáveis à solução da nossa grave econômica.

Pois é, as eleições estão chegando e os candidatos aí estão, prometendo trabalho incessante, honestidade, garantindo a solução dos nossos problemas maiores. Dizem que, ser político, é ter compromisso certo com uma vida de pobreza, dura e cheia de sacrifício. Porém, não tenho a mínima ilusão. Penso que nenhum deles está comprometido, seriamente, muito menos, terá legitimidade e força política para promover as reformas que a república brasileira tanto precisa. E a nação continuará afundando.

Infelizmente, a música não vai mudar e os músicos continuarão os mesmos de sempre, na política e na administração desta infeliz nação.

Escrito por João José Leal, 14/08/2018 às 15h55 | jjoseleal@gmail.com



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João José Leal

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Graduado pela Faculdade de Direito da UFSC, Mestre em Ciências Criminológicas pela Universidade de Bruxelas, Livre-Docente-Doutor pela Universidade Gama Filho - Rio de Janeiro. Promotor de Justiça aposentado e Ex-Procurador Geral de Justiça de Santa Catarina. Ex-Professor de Direito Penal, de Criminologia e Diretor de Ciências Judiciais da FURB - Blumenau. Ex-Professor de Política Criminal e Controle Social do Programa de Mestrado em Ciência Jurídica da UNIVALI.


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