Jornal Página 3
Coluna
Cá Pra Nós
Por Fernando Baumann

A vigilância

 Acordei assustado com índios atacando a nossa casa. Ela era de madeira e o impacto das flechas produzia sons ensurdecedores. Estava sozinho naquele momento.

O medo era tanto que me escondi em baixo do cobertor e enrijeci meu corpo para não ser descoberto. Fiquei desta forma por tanto tempo que nem sei o quanto.

Desesperado, pensava como havia sido abandonado daquele jeito. Como que puderam fazer isso comigo? Nem fui eu que os provoquei, aliás, não havia feito nada que os motivasse a isso, que eu lembrasse. Minha família também sempre se deu bem com todos e tinha bons amigos. Então por que?

O ataque não cessava, ora menos intenso ora mais intenso. Pela quantidade eu imaginava que devia ser mais de uma tribo. Meu queixo doía por conta da tensão nervosa, só não consegui dizer isso para a minha bexiga, que em determinado tempo decidiu espontaneamente liberar o líquido acondicionado, borrando lençol, cobertor e tudo mais.

Por vezes junto com os estalos ao fundo vinha o som de um uivo distante. Esperava que a qualquer momento a parede fosse derrubada e o cacique entrasse triunfante naquele local e me fizesse refém, depois levado a sua tribo onde seria escalpelado para divertimento deles.

Quanta tensão!!

Então amanhece o dia e vejo minha mãe se levantando da cama ao lado. O que aconteceu? Onde estão os índios, o cacique e o ataque? Ela vem em minha direção e me dá um reconfortante beijo. Assustado e choroso conto a ela a minha experiência, com a linguagem que conhecia na época. Ela também percebeu o estrago na cama.

Então carinhosamente ela me pega no colo e conta que naquela noite deu um vento muito forte na nossa cidade. Me leva para fora de casa e mostra o grande coqueiro que havia ao lado da nossa garagem, que era ao lado do nosso quarto, e que com o vento os coquinhos caíram em cima do telhado, provocando todo aquele barulho.

Um pouco mais aliviado eu a abracei com força, tendo certeza naquele momento de que ela jamais me abandonaria. O amor dela era inquestionável, mas a história do vento e dos coquinhos não me convenceu muito, por que tem certas coisas que adulto não entende.

Isso foi lá pelo ano de 1972, em nossa casa defronte à delegacia na rua 800, um beco. Dali para traz era só mato, para mim uma floresta, e com certeza lá dentro tinha muito índio. Ah, tinha sim!

Escrito por Fernando Baumann, 01/11/2018 às 10h41 | fernando@bba-reiki.com.br



Fernando Baumann

Assina a coluna Cá Pra Nós

Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.


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Cá Pra Nós
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A vigilância

 Acordei assustado com índios atacando a nossa casa. Ela era de madeira e o impacto das flechas produzia sons ensurdecedores. Estava sozinho naquele momento.

O medo era tanto que me escondi em baixo do cobertor e enrijeci meu corpo para não ser descoberto. Fiquei desta forma por tanto tempo que nem sei o quanto.

Desesperado, pensava como havia sido abandonado daquele jeito. Como que puderam fazer isso comigo? Nem fui eu que os provoquei, aliás, não havia feito nada que os motivasse a isso, que eu lembrasse. Minha família também sempre se deu bem com todos e tinha bons amigos. Então por que?

O ataque não cessava, ora menos intenso ora mais intenso. Pela quantidade eu imaginava que devia ser mais de uma tribo. Meu queixo doía por conta da tensão nervosa, só não consegui dizer isso para a minha bexiga, que em determinado tempo decidiu espontaneamente liberar o líquido acondicionado, borrando lençol, cobertor e tudo mais.

Por vezes junto com os estalos ao fundo vinha o som de um uivo distante. Esperava que a qualquer momento a parede fosse derrubada e o cacique entrasse triunfante naquele local e me fizesse refém, depois levado a sua tribo onde seria escalpelado para divertimento deles.

Quanta tensão!!

Então amanhece o dia e vejo minha mãe se levantando da cama ao lado. O que aconteceu? Onde estão os índios, o cacique e o ataque? Ela vem em minha direção e me dá um reconfortante beijo. Assustado e choroso conto a ela a minha experiência, com a linguagem que conhecia na época. Ela também percebeu o estrago na cama.

Então carinhosamente ela me pega no colo e conta que naquela noite deu um vento muito forte na nossa cidade. Me leva para fora de casa e mostra o grande coqueiro que havia ao lado da nossa garagem, que era ao lado do nosso quarto, e que com o vento os coquinhos caíram em cima do telhado, provocando todo aquele barulho.

Um pouco mais aliviado eu a abracei com força, tendo certeza naquele momento de que ela jamais me abandonaria. O amor dela era inquestionável, mas a história do vento e dos coquinhos não me convenceu muito, por que tem certas coisas que adulto não entende.

Isso foi lá pelo ano de 1972, em nossa casa defronte à delegacia na rua 800, um beco. Dali para traz era só mato, para mim uma floresta, e com certeza lá dentro tinha muito índio. Ah, tinha sim!

Escrito por Fernando Baumann, 01/11/2018 às 10h41 | fernando@bba-reiki.com.br



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