Jornal Página 3
Coluna
Cá Pra Nós
Por Fernando Baumann

Estropiados

 Em outro texto falei sobre minhas experiências de caminhada com amigos um tanto sem noção. Sempre digo para a minha mãe que sou o melhor de todos. Ela diz que é difícil acreditar. Deixa pra lá, a questão aqui é conceitual.

Pois bem, numa destas vezes decidimos ir de Curitiba a Morretes  pelo caminho de Itupava. Saímos cedo de Balneário Camboriú e estacionamos nosso carro na Rodoferroviária em Curitiba. Dali pegamos nossas mochilas e seguimos a pé até Quatro Barras, nosso destino àquele dia. Foram aproximadamente 25 km percorridos entre avenidas e ruas da cidade e a rodovia Regis Bittencourt - um trecho bastante monótono – até chegarmos ao hotel em Quatro Barras.

No dia seguinte, já recompostos do primeiro trecho, saímos pela cidade de Quatro Barras rumo a entrada do caminho de Itupava. Como sempre baixei a cabeça e saí em disparada, deixando meus parceiros para traz. O dia estava nublado e muito propenso a chuvas. Próximo ao início da trilha lembrei que não estava sozinho e sentei no canto da rua para esperar os “mal-acabados” dos meus amigos. O tempo passou e nada deles. Já estava me aprontando para retornar quando eles apareceram dando risadas com o tênis do Agilson na mão com a sola descolada. Coisa de amador! Por sorte acharam um comércio aberto e conseguiram comprar outro.

Logo que entramos na trilha as coisas começaram a se complicar. No início maravilha, caminho bem aberto, depois foi fechando cada vez mais, com declives bastante acentuados, onde aproveitávamos, com a presença da chuva, para deslizar morro abaixo. Às vezes não era opção, a gente caia mesmo. E a chuva...bem essa veio com toda a força e persistência, parecia querer provar a nossa determinação.

Eu não havia falado, mas conta a história que o caminho de Itupava foi a primeira ligação entre o litoral e o planalto, subindo (ou escalando) a serra do mar, tendo sido originalmente trilhas indígenas, e depois melhoradas e utilizadas pelos jesuítas e colonizadores para ir a Curitiba, tanto que em alguns trechos ainda conservam a pavimentação de pedras originais.

Num dado momento a trilha cruza pela primeira vez a estrada de ferro que liga Paranaguá a Curitiba. Então propus ao Enir, ao Zé e ao Agilson que seguíssemos pelo caminho da ferrovia que ia ser bem mais divertido. Acho que eles não entenderam bem a “caca” que ia ser e aceitaram. Não deu 500 metros de caminhada daí apareceu uma litorina da Polícia Ferroviária que nos abordou, querendo saber o que nós engraçadinhos estávamos pensando em fazer.  Nos colocaram para cima, deram uma lição de moral aos quatro marmanjos e nos ficharam. Por fim dos deixaram de volta ao caminho, no ponto em que nos desviamos.

Se a primeira parte estava difícil, a segunda então foi punk. Eu e o Agilson despencamos trilha abaixo com uma chuva torrencial nas costas e muito frio. Olhávamos um para o outro e não nos reconhecíamos, de tão feio que estávamos. Então pela segunda vez cruzamos a estrada de ferro num ponto chamado Nossa Sra. do Cadeado. Nos abrigamos em baixo de uma pequena construção para tentar nos aquecer e comemos alguma coisa.

Uma hora depois o Enir chega carregando o Zé, que havia se machucado durante a descida. O Enir bastante solidário e o Zé bastante manhoso.  Eu e o Agilson nos arrependemos e ter deixado os dois para traz - só que não muito.

 Daí para frente a situação melhorou, com caminho menos íngreme, mais aberto e menos chuva. Ao final do dia chegamos a uma belíssima pousada já na estrada de Itupava, a 10 km de Morretes. Estropiados, irreconhecíveis, malcheirosos mas muito felizes.

No dia seguinte foi moleza, a caminhada até Morretes foi tranquila e prazerosa, onde pegamos o trem de volta para Curitiba. Corpo todo dolorido, mas a alma leve e preguiçosa.

 

Escrito por Fernando Baumann, 15/06/2018 às 10h32 | fernando@bba-reiki.com.br



Fernando Baumann

Assina a coluna Cá Pra Nós

Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.


Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade

Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br

Página 3
Cá Pra Nós
Por Fernando Baumann

Estropiados

 Em outro texto falei sobre minhas experiências de caminhada com amigos um tanto sem noção. Sempre digo para a minha mãe que sou o melhor de todos. Ela diz que é difícil acreditar. Deixa pra lá, a questão aqui é conceitual.

Pois bem, numa destas vezes decidimos ir de Curitiba a Morretes  pelo caminho de Itupava. Saímos cedo de Balneário Camboriú e estacionamos nosso carro na Rodoferroviária em Curitiba. Dali pegamos nossas mochilas e seguimos a pé até Quatro Barras, nosso destino àquele dia. Foram aproximadamente 25 km percorridos entre avenidas e ruas da cidade e a rodovia Regis Bittencourt - um trecho bastante monótono – até chegarmos ao hotel em Quatro Barras.

No dia seguinte, já recompostos do primeiro trecho, saímos pela cidade de Quatro Barras rumo a entrada do caminho de Itupava. Como sempre baixei a cabeça e saí em disparada, deixando meus parceiros para traz. O dia estava nublado e muito propenso a chuvas. Próximo ao início da trilha lembrei que não estava sozinho e sentei no canto da rua para esperar os “mal-acabados” dos meus amigos. O tempo passou e nada deles. Já estava me aprontando para retornar quando eles apareceram dando risadas com o tênis do Agilson na mão com a sola descolada. Coisa de amador! Por sorte acharam um comércio aberto e conseguiram comprar outro.

Logo que entramos na trilha as coisas começaram a se complicar. No início maravilha, caminho bem aberto, depois foi fechando cada vez mais, com declives bastante acentuados, onde aproveitávamos, com a presença da chuva, para deslizar morro abaixo. Às vezes não era opção, a gente caia mesmo. E a chuva...bem essa veio com toda a força e persistência, parecia querer provar a nossa determinação.

Eu não havia falado, mas conta a história que o caminho de Itupava foi a primeira ligação entre o litoral e o planalto, subindo (ou escalando) a serra do mar, tendo sido originalmente trilhas indígenas, e depois melhoradas e utilizadas pelos jesuítas e colonizadores para ir a Curitiba, tanto que em alguns trechos ainda conservam a pavimentação de pedras originais.

Num dado momento a trilha cruza pela primeira vez a estrada de ferro que liga Paranaguá a Curitiba. Então propus ao Enir, ao Zé e ao Agilson que seguíssemos pelo caminho da ferrovia que ia ser bem mais divertido. Acho que eles não entenderam bem a “caca” que ia ser e aceitaram. Não deu 500 metros de caminhada daí apareceu uma litorina da Polícia Ferroviária que nos abordou, querendo saber o que nós engraçadinhos estávamos pensando em fazer.  Nos colocaram para cima, deram uma lição de moral aos quatro marmanjos e nos ficharam. Por fim dos deixaram de volta ao caminho, no ponto em que nos desviamos.

Se a primeira parte estava difícil, a segunda então foi punk. Eu e o Agilson despencamos trilha abaixo com uma chuva torrencial nas costas e muito frio. Olhávamos um para o outro e não nos reconhecíamos, de tão feio que estávamos. Então pela segunda vez cruzamos a estrada de ferro num ponto chamado Nossa Sra. do Cadeado. Nos abrigamos em baixo de uma pequena construção para tentar nos aquecer e comemos alguma coisa.

Uma hora depois o Enir chega carregando o Zé, que havia se machucado durante a descida. O Enir bastante solidário e o Zé bastante manhoso.  Eu e o Agilson nos arrependemos e ter deixado os dois para traz - só que não muito.

 Daí para frente a situação melhorou, com caminho menos íngreme, mais aberto e menos chuva. Ao final do dia chegamos a uma belíssima pousada já na estrada de Itupava, a 10 km de Morretes. Estropiados, irreconhecíveis, malcheirosos mas muito felizes.

No dia seguinte foi moleza, a caminhada até Morretes foi tranquila e prazerosa, onde pegamos o trem de volta para Curitiba. Corpo todo dolorido, mas a alma leve e preguiçosa.

 

Escrito por Fernando Baumann, 15/06/2018 às 10h32 | fernando@bba-reiki.com.br



Fernando Baumann

Assina a coluna Cá Pra Nós

Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.


Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade