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Coluna
Cá Pra Nós
Por Fernando Baumann

Meu Pai

 Nasci em uma família comum, como convinha a época, rígida e disciplinada. Mas também não faltava amor, carinho e respeito as individualidades. Quando pequeno morria de medo do meu pai, sempre sério. Bastava um olhar firme para entender o que se passava. Minha mãe, mais conciliadora, fazia as vezes de “ponte” entre o nosso desejo e a capacidade de falar com ele. Os dois formavam uma boa dupla, como pai e mãe deviam ser.

O tempo passou(ou voou), eu e meu pai nos aproximamos muito.  Dois grandes amigos, pai e filho talvez. Então aos 78 anos ele foi diagnosticado com câncer, maligno, no pulmão. Não tinha metástase, mas a lesão já estava bem adiantada. Do choque inicial resultou a força em continuar lutando pela vida. Àquele homem sempre sério e forte diante das dificuldades estava para enfrentar seu maior desafio. E também minha mãe e irmãos, pois a família toda foi impactada. Aliás, minha mãe virou uma gigante.

Tratamento agressivo, fraqueza, mal estar e perda de cabelo foram as consequências mais visíveis. Passada esta primeira fase, bons resultados vieram junto com uma breve euforia, que logo foi extirpada por conta do retorno mais violento da doença.

Neste período nunca deixamos de tratar o assunto abertamente com ele, sem subterfúgios ou esconderijos. Por mais difícil que fosse, falávamos da morte como algo natural e certo. Não somente a ele, mas a todos nós.

Percebi com o passar do tempo que ele começou a aceitar essa possibilidade e a se desprender das coisas materiais, estando mais tranquilo frente aos fatos. O que não significou deixar de continuar lutando pela vida.

Por outro lado, de minha parte, tive a oportunidade de pedir perdão a ele por tudo o que de errado eu tinha feito. Falei várias vezes o quanto o amava e me inspirava a ser um pai igual com meus filhos. Que ele poderia seguir tranquilo que ficaríamos bem.

Após vinte meses de tratamento, sendo os últimos quinze dias de muito sofrimento, ele fechou seus olhos em definitivo. Descansou e se transformou num ser de luz. Durante a cerimônia de despedida sua fisionomia era de muita paz e serenidade, e foram poucas as lágrimas que derramei.

Alguns dias após seu passamento, um conhecido me ligou se desculpando por não ter sabido do ocorrido e não estado lá àquele dia, e que lamentava muito a minha perda. Num instante pensei: “não se perde o que não se tem”. Meu pai nunca foi meu, ele me foi cedido por empréstimo por um período para desempenhar seu papel de pai. Nada se tem a não ser a si próprio, e por não ser meu ele poderia partir.

Hoje, às vésperas de completar um ano do ocorrido, sinto que todo o seu processo foi uma oportunidade que tivemos, de nos despedir, de nos perdoar e de continuar seguindo nossa evolução individual, como ser humano e ser espiritual.

Não há dor, não há tristeza. Apenas saudade.

Escrito por Fernando Baumann, 29/12/2017 às 18h46 | fernando@bba-reiki.com.br

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Fernando Baumann

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Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.
















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