Jornal Página 3
Coluna
Cá Pra Nós
Por Fernando Baumann

Ainda Bem

 O ano era 2008  e Balneário Camboriú e Camboriú sofriam uma grande enchente. Àquele final de novembro estava estranho demais. Havia me programado durante alguns meses para uma viagem de bicicleta entre Porto Alegre – RS e Buenos Aires na Argentina e tinha apenas dez dias disponível. Muitos acontecimentos me provocavam a não ir. E tinha o aniversário da minha esposa no dia oito de dezembro, data na qual eu teria que estar de volta.

Meu objetivo a época era percorrer o maior trecho possível em bicicleta. Já tinha feito São Paulo a Balneário Camboriú, São Paulo ao Rio de Janeiro e Porto Alegre a Balneário Camboriú. Então nada mais lógico que dar sequência ao roteiro imaginário saindo de Porto Alegre sentido ao sul.

Muito mais que uma experiência de corpo, a viagem de bicicleta é uma experiência de espírito, como se fosse uma segunda viagem, outra que não a física. E aí justifica todas as dificuldades e apreensões vividas, e você tem certeza que fez a escolha correta.

Estando pronto, não vou desistir – conclui. E assim foi.

Depois de alguns dias pedalando desde POA, saí do Brasil por Jaguarão e entrei no Uruguai rumo à cidade de Treinta y Tres, capital do estado de mesmo nome. Naqueles rincões de pequenos vilarejos afastados por muitos quilômetros de planície, por horas nada se via a não ser o pampa e sua finitude. Eram quilômetros de uma solidão só.

Um dos hábitos que adquiri por segurança de não me perder, foi acompanhar as placas de quilometragem que estão à beira da rodovia, principalmente em locais desabitados como o que estava percorrendo: 10, 11, 12...

E então, num determinado momento do meu desafio e longo trecho de coisa alguma, passei a avistar um carro parado à beira da pista. A medida que me aproximava procurava encontrar alguém por perto do veículo. Até que mais próximo vi um homem em cima de um barranco com um celular á mão falando ao fone. Também vi que o carro estava com a tampa do compartimento do motor aberta.

Pensei em simplesmente desviar o carro e seguir adiante, mas por intuito parei minha bicicleta e perguntei se ele precisava de ajuda – um tanto desmedida minha petulância. Foi aí que surpreso ele me perguntou, em castelhano, se eu sabia qual quilômetro era aquele. Muito possivelmente ele estava solicitando socorro e, como a distância entre os pontos de referência eram muito longas, não sabia precisar exatamente a sua localização.

Foi então que falei: quilômetro 71!

Ele me agradeceu e continuou falando ao telefone. Foi então que algo incrível aconteceu: uma incontida onda de alegria me acolheu, daquelas que elevam a gente a condição de ser iluminado. Me senti flutuando sem tirar os pés do chão. Numa janela de clareza, entendi que meu gesto fez mais bem a mim que a ele, e que servir ao próximo é um ato de caridade e elevação espiritual para consigo mesmo. A melhor tradução do significado de existir.

De volta em casa no prazo previsto (antes do aniversário) e refletindo sobre tudo o que se passou, pensei: ainda bem que não permiti que fatos contrários me levassem a desistir da minha própria experiência; ainda bem que não fiquei em casa arrumando desculpas para justificar minha desistência de ir. Ainda bem.

Escrito por Fernando Baumann, 14/12/2017 às 22h28 | fernando@bba-reiki.com.br



Fernando Baumann

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Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.


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