Jornal Página 3
Coluna
Cá Pra Nós
Por Fernando Baumann

A Corujinha Azul

 Ela entrou em minha vida a exatos quarenta anos. Lembro do dia que fui a Florianópolis com meu pai para buscá-la. Tinha uma cor azul muito bonita e quando nos olhamos a identificação foi imediata. Foi amor à primeira vista.

Como estava meio caidinha, passamos dificuldades para trazê-la até Balneário Camboriú. Precisamos de muito cuidado. Chegando em casa a primeira ação foi um belo banho e higienização completa, depois uma avaliação de seus problemas com profissionais especializados e os devidos tratamentos.

Assim que restabelecida, ela começou a cumprir seus afazeres diários, razão pela qual foi adquirida. Foram anos de trabalho duro e dedicado. Todo dia acordando cedo e indo até final da tarde sem reclamar, exceto finais de semana, quando tinha dia livre para descanso.

Claro, até eu me tornar adulto, por que daí em diante ela passou a ser a minha companheira de balada. Meu pai ainda era o proprietário oficial, mas de certa forma eu já ia me apoderando dela. Pelo menos nos finais de semana.

As garotas da época nos estranhavam muito, até nos olhavam com certo desprezo. Como éramos rejeitados! Imagina,  para completar eu ainda usava chinelão.

Meus amigos a acolheram com carinho, até tiravam uma casquinha de vez em quando. Lembro de uma vez que deixei o Eduardo ficar um pouquinho com ela. Ele não tinha muito jeito, então quase que liquida ela numa manobra desastrada. Que susto! E o Jorge então, abraçou um poste com ela. Ainda bem que foi de raspão. Imagina que tristeza seria.

Houve outros casos também. Um com meu pai e outro com meu irmão, mas em nenhum deles ela se machucou com gravidade.

E assim passaram os anos, e a aproximadamente seis ela é minha em definitivo. Velha companheira de guerra, hoje já aposentada, mesmo assim está sempre pronta para novas aventuras, nem parece ter a idade que tem. É uma jovem, uma jovem senhora, faceira e sapeca ainda.

Para mim ela é única e não me desfaço por nada. Tenho um canto especial  em minha garagem e sempre a cubro com um cobertor. Acho que fomos feitos um para o outro e preciso retribuir todos os belos momentos vividos ao longo destes anos todos.

Recebo muitas propostas de compra, mas eu não seria capaz. De certa forma até me ofendo.

Ah, quase ia me esquecendo, a Corujinha Azul é uma Kombi com carroceria, ano 1975, daquelas com vidro dianteiro repartido. Aqui os modelos até este ano são conhecidos assim.

Uma belezura só! Eu, ela e o chinelão. Imagina a cena.

 

Escrito por Fernando Baumann, 29/05/2018 às 10h22 | fernando@bba-reiki.com.br

Não Era Pra Ser

 Posso afirmar a você, o ano de 2012 quase representou o fim do mundo. Não para a humanidade em geral como estava sendo divulgado, mas para mim, Fernando. As previsões alarmistas tinham certo fundamento, hoje eu sei.

Explico melhor: Em 2011 eu andava com minha bicicleta para cima e para baixo em nossa cidade, com uma enorme placa lateral amarela escrita “Cidade Para As Pessoas”. Idealista, eu sempre acreditava que junto com meus pares poderia mudar o mundo. Talvez não o mundo, mas ao menos a cidade onde morava. Desejava um ambiente mais humano e cooperativo e acreditava ter capacidade para promover isto.

Então no ano seguinte em nossas eleições municipais coloquei meu nome à disposição para concorrer a uma vaga no legislativo. Era um passo importante e firme na direção do que entendia correto.

Para isto decidi junto com meus apoiadores que caminharíamos pelo único caminho que entendíamos aceitável: o da retidão. Fizemos uma campanha de baixo custo, com valor total gasto próximo a 20 mil, sendo que quase a metade se referia a materiais enviados pela coligação, e o restante dividido entre doações de amigos e 5 mil que desembolsei. Houve bicicletada e campanha boca-a-boca. Muito engajamento de amigos, conhecidos e desconhecidos.

Lembro do susto que tomamos quando recebemos os santinhos enviados pela coligação, numa quantidade absurda. Nossa plataforma era a sustentabilidade econômica e ambiental então não tivemos dúvidas, pegamos cada um uma pequena quantidade para entregar a pessoas próximas e o restante, talvez 99% do que foi recebido, levamos para ser reciclado na usina de lixo que tem perto da Canhanduba.

Outro fato notável aconteceu uma semana antes das eleições. Alguém que desconheço ligou para mim dizendo que tinha 100 litros de gasolina disponível para minha campanha.  Meio assustado agradeci dizendo que não tinha carros trabalhando para mim, mas por educação perguntei como poderia contabilizar a doação. Então a voz do outro lado da linha falou: “isso não tem como contabilizar...”, então a minha ascendência germânica aflorou e mandei ele enfiar àquilo num lugar não muito agradável que provavelmente arderia muito. Acho que entendeu, por que nunca mais ligou.

Também ao final da eleição fizemos a conta do quanto poluímos ou degradamos(não sei que coisa de conta é essa) e transformamos em árvores, plantadas numa área de preservação na Limeira, divisa de Camboriú com Brusque.

Quando o resultado da eleição foi apurado fiquei triste por não ter conseguido a desejada vaga. Os 970 votos recebidos não foram suficientes para me colocar lá dentro. Eu não estava acostumado a perder, então foi um grande ensinamento para mim.

Depois com mais serenidade refletindo sobre o ocorrido entendi que fui feito de bobo e servi de escada para eleger pessoas nas quais eu não votaria. Também boa parte dos vereadores da época se reelegeram, o que mostra que não é só o candidato que é ruim, o eleitor também é.

Por fim, entendi que àquele ambiente não era para mim, pois certamente o mundo que idealizava acabaria lá dentro, comigo junto. 

Escrito por Fernando Baumann, 25/05/2018 às 11h45 | fernando@bba-reiki.com.br

Pedaladas Peregrinas

 Sou um cara de muita sorte. Já tive diversas oportunidades, algumas aproveitei e outras desperdicei. Coisas do momento. Uma destas que aproveitei me marcou muito: fazer de bicicleta o caminho de Santiago de Compostela na Espanha.

Eu e o Carlos percorremos o caminho francês, saindo de St. Jean Pied de Port na França, uma cidade medieval belíssima e encantadora.  Foram 13 dias pedalando e praticamente 860,0 quilômetros percorridos.

Logo no início, na subida dos Pirineus, uma cadeia de montanhas que separa a França da Espanha, um caminhão que vinha atrás de nós reduziu a velocidade “batendo” marcha,  e nos ultrapassou somente quando não vinha outro veículo em sentido contrário. Coisa de primeiro mundo.

Nunca havia dormido num albergue. Frequentamos vários e de todos os tipos. Alguns eram só para homens, outros misturavam homens e mulheres. Alguns pequenos, outros enormes como o de um convento com umas 20 camas num mesmo ambiente. Limpos ou sujos, rústicos ou um pouco mais modernos. Lembro da dificuldade que tive para me acostumar com o ronco alheio. Tinham noites que pareciam sinfonias, com notas de Dó a Sí. No final já nem me importava mais.

Teve um inclusive muito interessante, de propriedade de um brasileiro casado com uma italiana e que foi patrocinado pelo escritor Paulo Coelho, bem pequeno e seletivo que conseguimos vaga por que era amigo do Carlos. Lá participamos de um jantar onde haviam italianos, ingleses, alemães, franceses e nós brasileiros. Depois do segundo copo de vinho todos riam e se entendiam como se fossem velhos amigos, numa profusão de línguas diversas.

O caminho tem uma energia incrível embalado por três fatores:  o propósito comum de visitar o possível túmulo do apóstolo Tiago; o fato de todos irem no mesmo sentido; e o fato de todos despirem-se de suas vaidades(o caminho vai aos poucos retirando).

Você encontra todo  tipo de peregrino. A maioria são solitários, mas tem os que vão com seus animais de estimação, tem àquele que paga promessa arrastando uma enorme cruz de madeira, e tem também os ciclistas. Tem os focados que parece que estão competindo, e tem também os folgados, àqueles que não estão nem aí para os outros.

A noite as botinas ficam na rua. Já pensou o cheiro que cada uma tem? As bicicletas também, sem cadeado, e ninguém mexe. Aliás, durante o caminho a gente percebe que precisa de muito pouco para prosseguir, e que boa parte das coisas que carregamos são desnecessárias. Eu aprendi a não ter pressa(claro que só quando estava lá).

Percebi que não combina muito bicicleta e caminhante na mesma trilha. Várias vezes assustei peregrinos distraídos imersos em suas viagens particulares. Alguns com razão me xingaram. Mas a paz reina entre os aventureiros, a maioria pessoas de meia idade em diante.

Freávamos a bicicleta para atrasar nossa chegada. No caminho o que importava era o próprio caminho. Isto ficou claro quando chegamos defronte a catedral de Santiago de Compostela, uma bela construção de quase mil anos. Acabou, que pena.

Por fim, a missa do peregrino às 17:00h embalada pelo incrível movimento de um turíbulo gigante, e a nave da catedral lotada de almas esperançosas e renovadas.

Você pode ler o relato completo da viagem no endereço pedaladasperegrinas.blogspot.com

Buen camino! 

Escrito por Fernando Baumann, 23/05/2018 às 09h29 | fernando@bba-reiki.com.br

Dois Minutos

Hoje quero falar sobre a morte. Tudo bem para você? É um assunto desconfortável, com toda certeza, mas absolutamente necessário discutir, pois possivelmente viveríamos melhor se considerássemos a finitude corpórea a cada instante de nossa existência terrena.

As espécies vivas de modo geral tem uma coisa em comum. Aliás, uma que vira duas: vão envelhecer e por consequência vão morrer. Ninguém fica para semente como os antigos diziam quando eram surpreendidos pela pergunta dos seus pequenos.

Também acredito que a morte seja o maior presente nos dado em vida. Já pensou como seria se fôssemos fisicamente eternos? Assim como é já nos embebedamos em vaidades e prepotências, egoísmos e extorsões. Então, suportaríamos ficar aqui para sempre? A espécie resistiria? O planeta resistiria? Parece que não e tudo seria muito chato.

Entendo, dentro da minha limitação de entender, que não estamos aqui a passeio, e sim com um objetivo claro de evoluir através das experiências e relações humanas. Não somos deste planeta e estamos apenas de passagem. Viemos sem nada e voltaremos sem nada – indivíduos - simples assim. Quando alguém próximo se vai dizemos: ah, perdi o fulano...Acho que não! Ninguém perde o que não tem, e ninguém pertence a ninguém. O máximo é ter-se a si próprio. Então se é assim, que sejamos o melhor possível, lembrando que aqui nada é definitivo.

Encerrar um ciclo é cumprir aqui a sua jornada. Chorar, ficar triste e sentir saudade faz parte do acontecimento. Lamentar, desesperar e desesperançar não. Cadê a fé que sempre proferimos?

A morte deveria ser assunto presente em nossas conversas. Não a morte como fim, e sim a morte como começo, como retorno a Essência. Tento entender por que boa parte de nossas religiões tratam a morte como tabu. Talvez utilizem isto como trunfo para manter seus fiéis sob controle. Não sei, é apenas uma hipótese.

Sempre que lembro que aqui na terra estou apenas como passageiro, me dá um desespero danado e percebo que estou totalmente fora do meu propósito original. Sou conduzido e levado por influências materiais e comportamentais que me colocam do avesso. Vítima mas também cúmplice da situação. Não posso ser passageiro e sim condutor de mim mesmo. Sem desculpas e justificativas. Sinto-me pequeno, mas profundamente grato pela oportunidade de seguir.

Então, um brinde a morte, este santo remédio para uma vida terrena melhor!

Escrito por Fernando Baumann, 18/05/2018 às 12h36 | fernando@bba-reiki.com.br

Pronto, Falei

 Habitualmente venho para a minha empresa de bicicleta, que fica no bairro Bandeirantes, ao lado do novo Centro de Eventos de Balneário Camboriú. Para isso é necessário passar por um pequeno espaço de aproximadamente 60 cm (que é o que sobra para mim) ao atravessar a ponte da BR 101 sentido sul. Estava muito distraído pensando sobre um evento que participei ontem em comemoração aos 10 anos de fundação de nossa cooperativa de crédito quando um grande caminhão passou e provocou  forte deslocamento de ar, me desequilibrando e colocando em risco. Um enorme susto!

Esse evento, o susto, desencadeou uma tremedeira nas minhas pernas que me obrigou a parar alguns instantes para recuperar meu estado normal. Fiquei com muita raiva! De mim, por estar distraído, e do poder público pelo descaso com que trata o cidadão. E não interessa saber qual nível de poder, por que também é um jogo de empurra, onde ninguém se responsabiliza pelo que faz.

A concessionária da mesma rodovia acabou de entregar parcialmente a marginal leste, do outro lado. Uma vergonha que só faz aumentar minha indignação. Se você ainda não foi lá sugiro que vá, e observe que duas bicicletas em sentidos opostos passam raspando uma da outra. Parece que ninguém analisou que àquele é um bairro populoso, com alto tráfego de pessoas e bicicletas. Também esqueceram de medir os guidons. Um descaso e incompetência generalizados.

Sinto uma angústia e uma enorme vontade de gritar palavrões, o que no íntimo faço mesmo. Escuto muito falar em plano de mobilidade, acessibilidade e o caramba. Doutores especializados, visitas técnicas internacionais e falações. Tudo blá blá blá. É só faz de conta. Quem sabe eu deixe de ser um trouxa, que é assim que me sinto, e comece a usar automóvel.

Nossos administradores públicos, preocupados com projetos de poder que gravem seu nome para a história, esquecem de olhar para o básico, àquilo que de fato interessa e é percebido pela população. Estão mergulhados em seu mundo de vaidades, alheios a realidade e envoltos no monstrinho chamado máquina pública, digo, triturador público.

Um surto e tudo vem à tona. A umas três ou quatro semanas atrás fui na prefeitura solicitar audiência com o prefeito. Queria como cidadão levar minhas percepções a ele no intuito de auxiliar. A recepção com duas secretárias foi muito amistosa e simpática. Falei do meu intento e uma delas prontamente se dispôs a agendar. Daí ela pegou um post-it amarelo e anotou meu contato. Meus dados num bloco de anotações adesivo....é claro que não ia dar certo, como realmente não deu. Também já desisti, nem quero mais. Acho que valho mais respeito.

 

Escrito por Fernando Baumann, 04/05/2018 às 10h51 | fernando@bba-reiki.com.br

O Dia Em Que o Tempo Parou

  

Meus filhos eram pequenos e a época morávamos numa casa. A maior com 10 anos e o menor com cinco, formávamos os quatro uma família normal e feliz. Nossa rotina seguia regrada pela rigidez da educação que eu e minha esposa recebemos de nossos pais.

Era domingo e acordamos mais tarde. Por volta das 9:00h fui a padaria comprar pão e meu filho menor me acompanhou. Tudo como de costume e regra. Quando chegamos em casa, ao abrir o portão da garagem duas pessoas saíram de traz do muro lateral divisa de um terreno baldio. De arma em punho nos fizeram reféns. Com alta dose de adrenalina no corpo e àquele formigamento na língua pensei: será verdade? É mesmo comigo ou estou sonhando?

Sem tempo para raciocinar procurei manter a calma, retirei as mãos do volante e me coloquei em posição de rendido. Então mandaram entrar e fechar o portão. Meu filho perguntava: “pai, quem são esses homens? O que eles querem?” Não tive o que dizer, apenas pedi que confiasse em mim.

Com os dois dentro de casa minha filha e esposa também foram rendidas. Que sensação de impotência! Na sequência levaram nós quatro para a suíte e lá começaram a perguntar sobre cofre e valores guardados. Falei que nada tínhamos, o que era verdade. Desmontaram nosso quarto em busca do que procuravam, e como mencionado, nada acharam. Enquanto o fato se desenrolava um deles andava comigo com arma apontada para minha cabeça, e meus filhos e esposa ficaram sentados no chão. O menor mais quieto colocou a cabeça entre as pernas e as mãos na cabeça e assim ficou, porém a mais velha por entender melhor a situação não conseguia se conter, chorando e falando em voz alta, o que irritou muito os elementos.

Quando os dois primeiros concluíram que nada tínhamos ligaram para um terceiro elemento que em minutos chegou a minha casa. Quem já estava dentro foi lá e abriu o portão para ele entrar.

Me levaram então para a cozinha e fizeram sentar em uma cadeira. Com arma em punho o visitante mais novo encostou o cano na minha testa e disse: “seu f...p..., se você não disser aonde está o dinheiro eu vou estourar os teus miolos e sequestrar teus filhos!”  Não sei exatamente como o fato se desenrolou, porque tudo ainda parecia um sonho, mas eu consegui manter a calma e a tranquilidade e não me desesperar com as ameaças. De certa forma consegui negociar com o cidadão e provar para ele que bateram na casa errada, que seu plano foi equivocado. Nós não nos encaixávamos na vítima que eles procuravam. Talvez àquele fosse meu dia de sorte.

Os três se juntaram em reunião para decidir nosso destino. Minutos que valeram uma eternidade. Então subiram ao quarto e trouxeram minha esposa e filhos e nos trancaram na dispensa, com ordens expressas para não nos manifestarmos durante a próxima hora.

Assim que escutamos o portão fechar nos abraçamos os quatro e começamos a chorar. Naquele momento eu desmoronei e toda a minha fortaleza ruiu. Como eu pude colocar a minha família em tão elevado grau de risco? É claro que foi uma emboscada, pois eles conheciam muito bem a nossa rotina e pouco poderia ter sido feito para evitar.

A lição que ficou deste evento foi a preocupação em preservar a família, único bem importante naquele momento. E os bens materiais? Pois bem, danem-se os bens materiais!

Escrito por Fernando Baumann, 27/04/2018 às 18h31 | fernando@bba-reiki.com.br



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Fernando Baumann

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Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.


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Cá Pra Nós
Por Fernando Baumann

A Corujinha Azul

 Ela entrou em minha vida a exatos quarenta anos. Lembro do dia que fui a Florianópolis com meu pai para buscá-la. Tinha uma cor azul muito bonita e quando nos olhamos a identificação foi imediata. Foi amor à primeira vista.

Como estava meio caidinha, passamos dificuldades para trazê-la até Balneário Camboriú. Precisamos de muito cuidado. Chegando em casa a primeira ação foi um belo banho e higienização completa, depois uma avaliação de seus problemas com profissionais especializados e os devidos tratamentos.

Assim que restabelecida, ela começou a cumprir seus afazeres diários, razão pela qual foi adquirida. Foram anos de trabalho duro e dedicado. Todo dia acordando cedo e indo até final da tarde sem reclamar, exceto finais de semana, quando tinha dia livre para descanso.

Claro, até eu me tornar adulto, por que daí em diante ela passou a ser a minha companheira de balada. Meu pai ainda era o proprietário oficial, mas de certa forma eu já ia me apoderando dela. Pelo menos nos finais de semana.

As garotas da época nos estranhavam muito, até nos olhavam com certo desprezo. Como éramos rejeitados! Imagina,  para completar eu ainda usava chinelão.

Meus amigos a acolheram com carinho, até tiravam uma casquinha de vez em quando. Lembro de uma vez que deixei o Eduardo ficar um pouquinho com ela. Ele não tinha muito jeito, então quase que liquida ela numa manobra desastrada. Que susto! E o Jorge então, abraçou um poste com ela. Ainda bem que foi de raspão. Imagina que tristeza seria.

Houve outros casos também. Um com meu pai e outro com meu irmão, mas em nenhum deles ela se machucou com gravidade.

E assim passaram os anos, e a aproximadamente seis ela é minha em definitivo. Velha companheira de guerra, hoje já aposentada, mesmo assim está sempre pronta para novas aventuras, nem parece ter a idade que tem. É uma jovem, uma jovem senhora, faceira e sapeca ainda.

Para mim ela é única e não me desfaço por nada. Tenho um canto especial  em minha garagem e sempre a cubro com um cobertor. Acho que fomos feitos um para o outro e preciso retribuir todos os belos momentos vividos ao longo destes anos todos.

Recebo muitas propostas de compra, mas eu não seria capaz. De certa forma até me ofendo.

Ah, quase ia me esquecendo, a Corujinha Azul é uma Kombi com carroceria, ano 1975, daquelas com vidro dianteiro repartido. Aqui os modelos até este ano são conhecidos assim.

Uma belezura só! Eu, ela e o chinelão. Imagina a cena.

 

Escrito por Fernando Baumann, 29/05/2018 às 10h22 | fernando@bba-reiki.com.br

Não Era Pra Ser

 Posso afirmar a você, o ano de 2012 quase representou o fim do mundo. Não para a humanidade em geral como estava sendo divulgado, mas para mim, Fernando. As previsões alarmistas tinham certo fundamento, hoje eu sei.

Explico melhor: Em 2011 eu andava com minha bicicleta para cima e para baixo em nossa cidade, com uma enorme placa lateral amarela escrita “Cidade Para As Pessoas”. Idealista, eu sempre acreditava que junto com meus pares poderia mudar o mundo. Talvez não o mundo, mas ao menos a cidade onde morava. Desejava um ambiente mais humano e cooperativo e acreditava ter capacidade para promover isto.

Então no ano seguinte em nossas eleições municipais coloquei meu nome à disposição para concorrer a uma vaga no legislativo. Era um passo importante e firme na direção do que entendia correto.

Para isto decidi junto com meus apoiadores que caminharíamos pelo único caminho que entendíamos aceitável: o da retidão. Fizemos uma campanha de baixo custo, com valor total gasto próximo a 20 mil, sendo que quase a metade se referia a materiais enviados pela coligação, e o restante dividido entre doações de amigos e 5 mil que desembolsei. Houve bicicletada e campanha boca-a-boca. Muito engajamento de amigos, conhecidos e desconhecidos.

Lembro do susto que tomamos quando recebemos os santinhos enviados pela coligação, numa quantidade absurda. Nossa plataforma era a sustentabilidade econômica e ambiental então não tivemos dúvidas, pegamos cada um uma pequena quantidade para entregar a pessoas próximas e o restante, talvez 99% do que foi recebido, levamos para ser reciclado na usina de lixo que tem perto da Canhanduba.

Outro fato notável aconteceu uma semana antes das eleições. Alguém que desconheço ligou para mim dizendo que tinha 100 litros de gasolina disponível para minha campanha.  Meio assustado agradeci dizendo que não tinha carros trabalhando para mim, mas por educação perguntei como poderia contabilizar a doação. Então a voz do outro lado da linha falou: “isso não tem como contabilizar...”, então a minha ascendência germânica aflorou e mandei ele enfiar àquilo num lugar não muito agradável que provavelmente arderia muito. Acho que entendeu, por que nunca mais ligou.

Também ao final da eleição fizemos a conta do quanto poluímos ou degradamos(não sei que coisa de conta é essa) e transformamos em árvores, plantadas numa área de preservação na Limeira, divisa de Camboriú com Brusque.

Quando o resultado da eleição foi apurado fiquei triste por não ter conseguido a desejada vaga. Os 970 votos recebidos não foram suficientes para me colocar lá dentro. Eu não estava acostumado a perder, então foi um grande ensinamento para mim.

Depois com mais serenidade refletindo sobre o ocorrido entendi que fui feito de bobo e servi de escada para eleger pessoas nas quais eu não votaria. Também boa parte dos vereadores da época se reelegeram, o que mostra que não é só o candidato que é ruim, o eleitor também é.

Por fim, entendi que àquele ambiente não era para mim, pois certamente o mundo que idealizava acabaria lá dentro, comigo junto. 

Escrito por Fernando Baumann, 25/05/2018 às 11h45 | fernando@bba-reiki.com.br

Pedaladas Peregrinas

 Sou um cara de muita sorte. Já tive diversas oportunidades, algumas aproveitei e outras desperdicei. Coisas do momento. Uma destas que aproveitei me marcou muito: fazer de bicicleta o caminho de Santiago de Compostela na Espanha.

Eu e o Carlos percorremos o caminho francês, saindo de St. Jean Pied de Port na França, uma cidade medieval belíssima e encantadora.  Foram 13 dias pedalando e praticamente 860,0 quilômetros percorridos.

Logo no início, na subida dos Pirineus, uma cadeia de montanhas que separa a França da Espanha, um caminhão que vinha atrás de nós reduziu a velocidade “batendo” marcha,  e nos ultrapassou somente quando não vinha outro veículo em sentido contrário. Coisa de primeiro mundo.

Nunca havia dormido num albergue. Frequentamos vários e de todos os tipos. Alguns eram só para homens, outros misturavam homens e mulheres. Alguns pequenos, outros enormes como o de um convento com umas 20 camas num mesmo ambiente. Limpos ou sujos, rústicos ou um pouco mais modernos. Lembro da dificuldade que tive para me acostumar com o ronco alheio. Tinham noites que pareciam sinfonias, com notas de Dó a Sí. No final já nem me importava mais.

Teve um inclusive muito interessante, de propriedade de um brasileiro casado com uma italiana e que foi patrocinado pelo escritor Paulo Coelho, bem pequeno e seletivo que conseguimos vaga por que era amigo do Carlos. Lá participamos de um jantar onde haviam italianos, ingleses, alemães, franceses e nós brasileiros. Depois do segundo copo de vinho todos riam e se entendiam como se fossem velhos amigos, numa profusão de línguas diversas.

O caminho tem uma energia incrível embalado por três fatores:  o propósito comum de visitar o possível túmulo do apóstolo Tiago; o fato de todos irem no mesmo sentido; e o fato de todos despirem-se de suas vaidades(o caminho vai aos poucos retirando).

Você encontra todo  tipo de peregrino. A maioria são solitários, mas tem os que vão com seus animais de estimação, tem àquele que paga promessa arrastando uma enorme cruz de madeira, e tem também os ciclistas. Tem os focados que parece que estão competindo, e tem também os folgados, àqueles que não estão nem aí para os outros.

A noite as botinas ficam na rua. Já pensou o cheiro que cada uma tem? As bicicletas também, sem cadeado, e ninguém mexe. Aliás, durante o caminho a gente percebe que precisa de muito pouco para prosseguir, e que boa parte das coisas que carregamos são desnecessárias. Eu aprendi a não ter pressa(claro que só quando estava lá).

Percebi que não combina muito bicicleta e caminhante na mesma trilha. Várias vezes assustei peregrinos distraídos imersos em suas viagens particulares. Alguns com razão me xingaram. Mas a paz reina entre os aventureiros, a maioria pessoas de meia idade em diante.

Freávamos a bicicleta para atrasar nossa chegada. No caminho o que importava era o próprio caminho. Isto ficou claro quando chegamos defronte a catedral de Santiago de Compostela, uma bela construção de quase mil anos. Acabou, que pena.

Por fim, a missa do peregrino às 17:00h embalada pelo incrível movimento de um turíbulo gigante, e a nave da catedral lotada de almas esperançosas e renovadas.

Você pode ler o relato completo da viagem no endereço pedaladasperegrinas.blogspot.com

Buen camino! 

Escrito por Fernando Baumann, 23/05/2018 às 09h29 | fernando@bba-reiki.com.br

Dois Minutos

Hoje quero falar sobre a morte. Tudo bem para você? É um assunto desconfortável, com toda certeza, mas absolutamente necessário discutir, pois possivelmente viveríamos melhor se considerássemos a finitude corpórea a cada instante de nossa existência terrena.

As espécies vivas de modo geral tem uma coisa em comum. Aliás, uma que vira duas: vão envelhecer e por consequência vão morrer. Ninguém fica para semente como os antigos diziam quando eram surpreendidos pela pergunta dos seus pequenos.

Também acredito que a morte seja o maior presente nos dado em vida. Já pensou como seria se fôssemos fisicamente eternos? Assim como é já nos embebedamos em vaidades e prepotências, egoísmos e extorsões. Então, suportaríamos ficar aqui para sempre? A espécie resistiria? O planeta resistiria? Parece que não e tudo seria muito chato.

Entendo, dentro da minha limitação de entender, que não estamos aqui a passeio, e sim com um objetivo claro de evoluir através das experiências e relações humanas. Não somos deste planeta e estamos apenas de passagem. Viemos sem nada e voltaremos sem nada – indivíduos - simples assim. Quando alguém próximo se vai dizemos: ah, perdi o fulano...Acho que não! Ninguém perde o que não tem, e ninguém pertence a ninguém. O máximo é ter-se a si próprio. Então se é assim, que sejamos o melhor possível, lembrando que aqui nada é definitivo.

Encerrar um ciclo é cumprir aqui a sua jornada. Chorar, ficar triste e sentir saudade faz parte do acontecimento. Lamentar, desesperar e desesperançar não. Cadê a fé que sempre proferimos?

A morte deveria ser assunto presente em nossas conversas. Não a morte como fim, e sim a morte como começo, como retorno a Essência. Tento entender por que boa parte de nossas religiões tratam a morte como tabu. Talvez utilizem isto como trunfo para manter seus fiéis sob controle. Não sei, é apenas uma hipótese.

Sempre que lembro que aqui na terra estou apenas como passageiro, me dá um desespero danado e percebo que estou totalmente fora do meu propósito original. Sou conduzido e levado por influências materiais e comportamentais que me colocam do avesso. Vítima mas também cúmplice da situação. Não posso ser passageiro e sim condutor de mim mesmo. Sem desculpas e justificativas. Sinto-me pequeno, mas profundamente grato pela oportunidade de seguir.

Então, um brinde a morte, este santo remédio para uma vida terrena melhor!

Escrito por Fernando Baumann, 18/05/2018 às 12h36 | fernando@bba-reiki.com.br

Pronto, Falei

 Habitualmente venho para a minha empresa de bicicleta, que fica no bairro Bandeirantes, ao lado do novo Centro de Eventos de Balneário Camboriú. Para isso é necessário passar por um pequeno espaço de aproximadamente 60 cm (que é o que sobra para mim) ao atravessar a ponte da BR 101 sentido sul. Estava muito distraído pensando sobre um evento que participei ontem em comemoração aos 10 anos de fundação de nossa cooperativa de crédito quando um grande caminhão passou e provocou  forte deslocamento de ar, me desequilibrando e colocando em risco. Um enorme susto!

Esse evento, o susto, desencadeou uma tremedeira nas minhas pernas que me obrigou a parar alguns instantes para recuperar meu estado normal. Fiquei com muita raiva! De mim, por estar distraído, e do poder público pelo descaso com que trata o cidadão. E não interessa saber qual nível de poder, por que também é um jogo de empurra, onde ninguém se responsabiliza pelo que faz.

A concessionária da mesma rodovia acabou de entregar parcialmente a marginal leste, do outro lado. Uma vergonha que só faz aumentar minha indignação. Se você ainda não foi lá sugiro que vá, e observe que duas bicicletas em sentidos opostos passam raspando uma da outra. Parece que ninguém analisou que àquele é um bairro populoso, com alto tráfego de pessoas e bicicletas. Também esqueceram de medir os guidons. Um descaso e incompetência generalizados.

Sinto uma angústia e uma enorme vontade de gritar palavrões, o que no íntimo faço mesmo. Escuto muito falar em plano de mobilidade, acessibilidade e o caramba. Doutores especializados, visitas técnicas internacionais e falações. Tudo blá blá blá. É só faz de conta. Quem sabe eu deixe de ser um trouxa, que é assim que me sinto, e comece a usar automóvel.

Nossos administradores públicos, preocupados com projetos de poder que gravem seu nome para a história, esquecem de olhar para o básico, àquilo que de fato interessa e é percebido pela população. Estão mergulhados em seu mundo de vaidades, alheios a realidade e envoltos no monstrinho chamado máquina pública, digo, triturador público.

Um surto e tudo vem à tona. A umas três ou quatro semanas atrás fui na prefeitura solicitar audiência com o prefeito. Queria como cidadão levar minhas percepções a ele no intuito de auxiliar. A recepção com duas secretárias foi muito amistosa e simpática. Falei do meu intento e uma delas prontamente se dispôs a agendar. Daí ela pegou um post-it amarelo e anotou meu contato. Meus dados num bloco de anotações adesivo....é claro que não ia dar certo, como realmente não deu. Também já desisti, nem quero mais. Acho que valho mais respeito.

 

Escrito por Fernando Baumann, 04/05/2018 às 10h51 | fernando@bba-reiki.com.br

O Dia Em Que o Tempo Parou

  

Meus filhos eram pequenos e a época morávamos numa casa. A maior com 10 anos e o menor com cinco, formávamos os quatro uma família normal e feliz. Nossa rotina seguia regrada pela rigidez da educação que eu e minha esposa recebemos de nossos pais.

Era domingo e acordamos mais tarde. Por volta das 9:00h fui a padaria comprar pão e meu filho menor me acompanhou. Tudo como de costume e regra. Quando chegamos em casa, ao abrir o portão da garagem duas pessoas saíram de traz do muro lateral divisa de um terreno baldio. De arma em punho nos fizeram reféns. Com alta dose de adrenalina no corpo e àquele formigamento na língua pensei: será verdade? É mesmo comigo ou estou sonhando?

Sem tempo para raciocinar procurei manter a calma, retirei as mãos do volante e me coloquei em posição de rendido. Então mandaram entrar e fechar o portão. Meu filho perguntava: “pai, quem são esses homens? O que eles querem?” Não tive o que dizer, apenas pedi que confiasse em mim.

Com os dois dentro de casa minha filha e esposa também foram rendidas. Que sensação de impotência! Na sequência levaram nós quatro para a suíte e lá começaram a perguntar sobre cofre e valores guardados. Falei que nada tínhamos, o que era verdade. Desmontaram nosso quarto em busca do que procuravam, e como mencionado, nada acharam. Enquanto o fato se desenrolava um deles andava comigo com arma apontada para minha cabeça, e meus filhos e esposa ficaram sentados no chão. O menor mais quieto colocou a cabeça entre as pernas e as mãos na cabeça e assim ficou, porém a mais velha por entender melhor a situação não conseguia se conter, chorando e falando em voz alta, o que irritou muito os elementos.

Quando os dois primeiros concluíram que nada tínhamos ligaram para um terceiro elemento que em minutos chegou a minha casa. Quem já estava dentro foi lá e abriu o portão para ele entrar.

Me levaram então para a cozinha e fizeram sentar em uma cadeira. Com arma em punho o visitante mais novo encostou o cano na minha testa e disse: “seu f...p..., se você não disser aonde está o dinheiro eu vou estourar os teus miolos e sequestrar teus filhos!”  Não sei exatamente como o fato se desenrolou, porque tudo ainda parecia um sonho, mas eu consegui manter a calma e a tranquilidade e não me desesperar com as ameaças. De certa forma consegui negociar com o cidadão e provar para ele que bateram na casa errada, que seu plano foi equivocado. Nós não nos encaixávamos na vítima que eles procuravam. Talvez àquele fosse meu dia de sorte.

Os três se juntaram em reunião para decidir nosso destino. Minutos que valeram uma eternidade. Então subiram ao quarto e trouxeram minha esposa e filhos e nos trancaram na dispensa, com ordens expressas para não nos manifestarmos durante a próxima hora.

Assim que escutamos o portão fechar nos abraçamos os quatro e começamos a chorar. Naquele momento eu desmoronei e toda a minha fortaleza ruiu. Como eu pude colocar a minha família em tão elevado grau de risco? É claro que foi uma emboscada, pois eles conheciam muito bem a nossa rotina e pouco poderia ter sido feito para evitar.

A lição que ficou deste evento foi a preocupação em preservar a família, único bem importante naquele momento. E os bens materiais? Pois bem, danem-se os bens materiais!

Escrito por Fernando Baumann, 27/04/2018 às 18h31 | fernando@bba-reiki.com.br



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Fernando Baumann

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Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.


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