Jornal Página 3
Coluna
Cá Pra Nós
Por Fernando Baumann

Eu To Que To

 O tema do momento é a insegurança. Falo “tema” porque não conseguimos dar a devida atenção ao assunto ao longo dos anos, e quando o problema eclode fizemos cara de espanto, como se não soubéssemos que isso ia acontecer. Daí vira tema. Também tenho certa vivência no assunto, pois já fui feito refém durante um assalto junto com minha esposa e filhos a 12 anos atrás aqui em Balneário Camboriú.

A insegurança não existe. O prefixo “in” nega o sentido original da palavra, ou seja, não existe insegurança, e sim ausência de segurança. Parece a mesma coisa mas não é. Vou sustentar minha reflexão: o combate a insegurança é a força armada e a repressão; o combate a ausência da segurança é a educação de qualidade e acesso a saúde com respeito ao cidadão.

Hoje o estado(entenda municipal, estadual e federal) combate o efeito e não a causa, então não vai resolver. Violência gera violência e é um processo sem fim que se retroalimenta. Todos se sentem vítimas, quem ataca e quem é atacado, pela simples razão de não serem amparados por um ente maior eleito entre nós com a responsabilidade de regular e equilibrar as relações sociais.

Vou voltar um pouco no tempo. Quando terminei o curso de graduação em ciências econômicas meu trabalho de conclusão(TCC) foi sobre o processo de favelização no Brasil e seus impactos econômicos. A conclusão a que cheguei foi de que a forma como se deu a abolição da escravatura foi uma das suas responsáveis, tendo sido um ótimo negócio para os seus “proprietários” e uma grande sacanagem para com os negros, que foram arrancados da sua origem, transportados de forma desumana, forçados a um trabalho extasiante e depois expulsos e largados a própria sorte, sem nenhuma responsabilização econômica e social sobre os atos de quem os praticou. Por pressão internacional a abolição era certa e a questão foi resolvida de forma barata para os senhores da época. A fatura chegou.

De forma reta e dentro da minha ótica, existe uma maneira  simples de resolver, que é instalar dentro das comunidades carentes escolas de qualidade com padrão de excelência, hospitais bem equipados com profissionais idem e equipes de limpeza permanentes para elevar a alto estima dos seu moradores. Posso afirmar que custa muito menos que todo aparato policial e as consequências econômica e sociais do clima de medo que se instaurou em nosso país. A ausência do estado provoca um vácuo que é ocupado por quem não deveria. Está aí o resultado.

Então senhores mandatários, vamos esperar mais 130 anos para ver no que vai dar?

 

 

Escrito por Fernando Baumann, 16/02/2018 às 12h45 | fernando@bba-reiki.com.br

Heróis de Placa

 Quando eu era pequeno lembro do meu pai explicando sobre as rodovias brasileiras, suas características e nomenclaturas, e que eram numericamente nomeadas, aparentemente sem uma lógica clara, mas que facilitava muito a compreensão dos usuários. Depois de grande fiquei muito decepcionado quando descobri que a BR 101 foi rebatizada de “Governador Mário Covas”. Lendo os jornais da época entendi que  a referida pessoa era amiga e fundadora de um partido político junto com o então presidente da república. Talvez este tenha sido o critério da escolha.

Aí alguém me disse: “ah, mas ele foi um grande político e governador do maior estado do país”, e eu perguntei: “e daí?” Se ele desenvolveu tal papel é porque deve ter sido merecedor em vida, e certamente foi pago para isto, então não há nenhuma pendência. Houve uma troca justa. E continuo perguntando: qual o motivo que justifica isso? Por que descaracterizar algo tão bem pensado?  Então eu vou sugerir que coloque o nome do senhor que todo dia recolhe o lixo da minha casa, este sim para mim desempenha um papel muito importante e não é reconhecido(aliás, só lembramos dele quando não vem trabalhar) e também mal remunerado. Este sim é um herói que merece nome de placa. E como ele tem tantos outros que ajudam a manter a nossa cidade, estado e país em condições de habitabilidade.

Agora falando de Balneário Camboriú. Viajo com frequência e quando  pedem meu endereço e dou o número de uma rua as pessoas ficam pasmas em saber que isso existe. Sempre tive muita alegria em dizer que em minha cidade a nomenclatura das ruas havia sido relativamente planejadas, dentro de uma lógica. Da Avenida Central para norte números ímpares, para sul números pares. Avenida central por representar exatamente isso, o centro da cidade. Bairro das Nações nome de países, dos Municípios nome de cidades, e assim por diante.

A desordem começou com a rua 400 sendo substituída pelo nome de alguém que não lembro ter sabido quem é, e mesmo que lembrasse desconheço o mérito, e mesmo que tenha mérito acho que não merece, pois àquela rua não é de uma pessoa só. Aí tem Avenida do Estado, Terceira e Quarta avenidas com nomes agregados e por fim, a última discussão da nossa casa legislativa, com relação a troca do número de uma rua do calçadão da cidade por  nome  de pessoa recentemente falecida.

Não tenho fôlego para que minhas palavras  cheguem a Brasília, mas tenho para pedir aos nossos vereadores que parem de descaracterizar a cidade, e como eleitor de Balneário Camboriú solicito que deixem o que está certo como está,  e cuidem daquilo que não está certo, que é bastante!

 

 

Escrito por Fernando Baumann, 08/02/2018 às 14h52 | fernando@bba-reiki.com.br

Marcas do Que Ficou

 Em dezembro passado fez 48 anos que chegamos em Balneário Camboriú. Aproveitando para fazer o balanço do ano que se encerrava e planos para o ano que vinha, num flash me veio a tela mental momentos e fatos passados em todos esses anos. Um misto de saudosismo, perplexidade e dúvidas: o tempo passa ou simplesmente “avoa”? Nós mudamos ou somos mudados?

Lembrei de uma pescaria que fiz com meus irmãos em uma canoa atrás da casa do tio Kinas, que ficava na avenida Atlântica esquina com rua Alvin Bauer, onde hoje é o edifício Oasis. Do pontilhão de madeira que tinha ali. Do parque de diversões que todo ano se instalava do outro lado do rio já na avenida Brasil. Da agência da volkswagen na curva da avenida Central e da rodoviária na mesma avenida esquina com rua 600. Também lembrei da delegacia no final da rua 800, defronte onde nós morávamos. Dali meus irmão iam a pé para o colégio João Goulart por trilhas no meio do mato. Das “peladas” e raladas no Guadalajara com piso de cimento rugoso.

Naquela época conhecíamos as pessoas pela placa do carro. A nossa era a BB 0015. Um fato curioso é que o sr Aroldo gostava de placas com final 13, mas ele não tinha a 0013, uma joia que pertencia ao dr. Spósito. Este último, num gesto ímpar, lhe deu de presente em seu aniversário.

Lembrei do dia que acordamos com a notícia de que durante a madrugada máquinas da prefeitura derrubaram muros na avenida Atlântica de casas cujos proprietários não aceitavam o seu alargamento, e da coragem do sr Meirinho em peitar tal iniciativa. Também da morte prematura de seu filho.

Da igreja Luterana a rua 2.300, onde fiz meu ensino confirmatório e casei. Da inauguração da Tuti’s Pão onde antes o sr Wegner tinha uma loja de móveis ou algo parecido. Dos filmes de domingo no Cinerama da avenida Brasil. Da Moustache, do Baturité, do Whiskadão e do Fantástico Clube. E do salão 33 na rua 3300, uma estrutura gigante de madeira cujo acesso por ruas esburacadas, dependendo da época, era quase impossível.

Relatando assim em ordem cronológica lembro de muitos fatos que poderiam encher várias páginas. Talvez entre eles existam coisas apenas vistas por mim, que sejam fruto da imaginação de uma criança e que contenham alguma imprecisão. Mas posso afirmar que eu vi e vivi este filme, pois meu intervalo na história de Balneário Camboriú teve início no final de 1969.

Ah, lembrei que fui na inauguração do edifício Imperador e no almoço de lançamento da pedra fundamental do edifício Imperatriz, e também...

 

Escrito por Fernando Baumann, 01/02/2018 às 16h31 | fernando@bba-reiki.com.br

O Tal e Sua Moto

  

“Eita” coisa do capeta! Não tem meio termo, ou você é fascinado ou não quer nem saber. A moto, esse veículo dos infernos, proporciona sensações indescritíveis de liberdade, poder e elegâncias sem igual. E por conta disso faz-se tantas besteiras.

Antes de continuar o texto quero deixar claro que pertenço ao primeiro grupo, ou seja, sou louco por motos. Foi meu primeiro aprendizado motor, meu primeiro veículo, minhas primeiras alegrias e aventuras. Minha família sempre teve motos: pai, avô, irmãos...tá no sangue. Competi, viajei, trabalhei; fiz tudo.

Mas não é para qualquer um. Você precisa ter uma forte ligação com seu anjo da guarda para ele te proteger. Pelo menos o juízo necessário, que é difícil. Quando você senta a bunda nela parece que esquece que é mais frágil em relação aos outros veículos motores. Também esquece que o campo de visão na moto é 150º, no carro é 60º; o tempo de reação no carro pelo seu tamanho é muito maior. E também tem o ponto cego, que na moto não existe.

Ultrapassamos pela esquerda, pela direita, por cima e por baixo e xingamos os motoristas quando eles não nos veem. Esperamos que os outros façam a coisa certa mas não fizemos nada certo. Achamos que a preferência é sempre nossa.

Porque? Sinceramente não sei. Acho que pode ser alguma entidade do mal que se apossa do nosso corpinho. Aliás, para saberem, dos acidentes com moto em grandes cidades quando não morrem boa parte dos motociclistas tem sua genitália atrofiada ou arrancada - Fiquei apavorado agora!!

Fazemos papel de vilão achando que somos heróis.

Sem graça isso.

Escrito por Fernando Baumann, 26/01/2018 às 18h46 | fernando@bba-reiki.com.br

Coisas Que Não Entendo

 Tem coisas sobre as quais eu penso e, por mais que tento, não consigo entender. E olha que já busquei auxílio com especialistas e profissionais da área, que me explicaram de todas as formas. Mesmo assim não deu.

Eu não entendo porque tratamos os eleitos para cargos legislativo e executivo como autoridades, dando-lhes destaque, atenção e reverência diferenciados. Se eles foram escolhidos para cumprir um mandato,  então a eles é que cabe cortejar. A autoridade é de quem assina o cheque, não de quem recebe. E o cheque é o voto.

Eu não entendo porque as mesmas autoridades precisam se deslocar em veículos de luxo com placa preta e motorista. Porque não andam a pé, de bicicleta, de ônibus, de aplicativo ou carro próprio como a maioria dos que os elegeu?

Eu não entendo porque existem “cargos de confiança”. Os demais são o que, de desconfiança? Se o trabalho é técnico e exige conhecimento, porque esses cargos algumas vezes são ocupados por pessoas de fora, da cota pessoal de alguém ou partido e sem comprovada capacidade?

Eu não entendo porque a secretaria de Educação tem esse nome, se o que ela oferece é conhecimento, informação, cultura e alguma disciplina.  Educação não compete aos pais, a família? Talvez por isso tantos transferem para as escolas a responsabilidade de educar seus filhos. Educação é princípio, valor e limite, e isso vem de casa.

Eu não entendo porque não temos políticas e campanhas permanentes de orientação ao trânsito visando a boa convivência entre pedestres, ciclistas, motociclistas e motoristas. É ali que todos se encontram e a socialização acontece de fato, independentemente da condição econômica e cultural de cada um. Por que não é uma disciplina curricular do ensino fundamental? E salve-se quem puder!

Eu não entendo porque falamos tanto em mobilidade urbana se o que se move são as pessoas, não a cidade. Será por isso é tão confuso?

Pois é, acho que estou ficando velho e chato, talvez por isso não entenda.

Escrito por Fernando Baumann, 19/01/2018 às 08h25 | fernando@bba-reiki.com.br

Mentiras Sinceras

 Ao que se diz, o Brasil é um país com sistema politico/administrativo democrático.  Mas enfim, o que isso significa? Eu particularmente tenho dificuldade em entender, pois de modo geral acho que é mais discurso que prática. Parece embalagem bonita de um presente qualquer.

Primeiro porque o gestor público quando eleito representa apenas uma parcela da sociedade, pois sua ascensão se dá por maioria simples, ficando uma legião de órfãos a buscar horizontes. O “nós e eles” que ouvimos num passado recente.

Segundo porque democracia não é doutrina. É cultura e valor. Acreditar em um nome é personificar o herói salvador, aquele que tudo sabe, o filho mais próximo do Criador. Uma sociedade solidamente constituída não permite o enaltecimento de projetos de poder, mas sim de projeto de estado, que dura bem mais que um ou dois mandatos e é resultado do entendimento coletivo.

Terceiro porque antes de eleito o candidato olha para fora, para o eleitor. Depois de eleito ele olha para dentro, para  interesses dos seus. Sem generalizar, de forma costumaz é isto que acontece. E também tem o poder econômico, que desiguala a disputa.

Em quarto por que  democracia é a razão de decisões coletivas, onde metade mais um prevalece, e a dinâmica diária da administração pública não permite tal possibilidade. Também por responsabilização de quem assina, que tem seu CPF exposto e sujeito as sanções da lei. Então a gestão pública é participativa, onde o responsável eleito de forma democrática deve decidir pelo melhor caminho após ouvir todos os interessados.

E por último, uma sociedade democrática só pode assim ser considerada quando antes, bem antes, ter claro quais são seu deveres. É justo reivindicar direitos baseados nos princípios da igualdade e da justiça, da razão e da verdade, mas é inconsistente e inócuo quando não se conhece quais são as obrigações. Por mais indesejado que seja,  precisamos reconhecer que o nosso modelo democrático chegou de forma avessa e com atalhos, e confundiu tudo. É como uma nau sem rumo - sem vela e sem leme - em meio a uma tempestade

Escrito por Fernando Baumann, 12/01/2018 às 16h45 | fernando@bba-reiki.com.br



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Fernando Baumann

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Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.


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