Jornal Página 3
Coluna
Cá Pra Nós
Por Fernando Baumann

O Sistema TBC

 Vivemos tempos difíceis, de muita incerteza e insegurança. Não lembro em minha existência de algo semelhante. Parece que tudo está perdido. Crise financeira, crise política, crise social, um estado de ebulição constante.

Mas sabe, acredito que este momento está sendo muito rico para abrirmos em definitivo as discussões do que somos e do que queremos ser. A dificuldade nos empurra a sair do estado de letargia que nos encontramos, passivos diria assim, onde sempre esperamos que o outro faça por nós. Acho que as verdades estão sendo expostas.

Os piores momentos na verdade são sempre os melhores. Muito provavelmente hoje não consigamos enxergar, mas daqui a algum tempo, quando olharmos para traz, veremos que avanços importantes ocorreram. O fogo transforma, a exemplo do ferro em aço e do vidro comum em vidro temperado. Então que saibamos aproveitar este fogo que está aí com responsabilidade, civilidade e respeito para nos tornarmos mais fortes.

Uma questão que sempre me perturbou e agora decidi me posicionar é quanto aos legisladores municipais, estaduais e federais. Não concordo e não aceito que após eleitos os mesmos ocupem outra função que não a sua, como exemplo o vereador que vira secretário. Também o caso do executivo que renuncia a sua função para concorrer a outros níveis. Isto é virar as costas para o eleitor, que o elegeu para àquela função, usando-o como degrau para servir aos seus próprios interesses. O eleitor não é mais tão bobinho para não perceber isto, e eu não voto mais em candidatos com este histórico.

Também entendo que estamos em condições de discutir a carga tributária que carregamos. Não os impostos como causa, e sim como efeito(vou sugerir trocar o nome de “imposto” por “benefício”).  Sendo mais claro: o problema não é o quanto pagamos, mas o quanto recebemos. Pagar altas alíquotas de modo geral é aceitável, o que não é aceitável é que pagamos e não recebemos. Não tem estrada, não tem educação, não tem saúde e tudo precisa ser novamente contratado de forma particular por quem pode. Numa conta simples concluo que o custo é dobrado. Vender e não entregar é estelionato, e é isto que o sistema nos impõe, pois o mesmo é incapaz de cumprir suas funções, isto hoje é claro.

Por fim, a divisão do bolo. Não podemos mais concordar que o maior percentual caiba ao governo federal. A pirâmide precisa ser invertida, e o município tem que ficar com a maior fatia, que é onde efetivamente as coisas acontecem e nós conseguimos ver e controlar. O governo federal, este ogro, repleto de privilégios e luxos não precisa ter o tamanho que tem. Apartamentos funcionais, veículos de luxo com motoristas, ascensoristas, assessores, passagens aéreas, aviões, auxílios, aposentadorias e privilégios de toda ordem(cabelo, terno e o escambau)não cabem mais. Eu não aceito mais pagar esta conta.

É o que tenho para hoje.

(sistema TBC – Tirar a Bunda da Cadeira)

 

Escrito por Fernando Baumann, 08/06/2018 às 12h50 | fernando@bba-reiki.com.br

Eu, o menino

 Não lembro bem, mas eu devia ter uns 10 anos de idade. Estudava no Colégio João Goulart com a Dona Diva. Ela tinha um fusca branco que eu adorava, placa BB 0045 se não me engano. Era o máximo!

Aos sábados tínhamos nosso momento cívico, com o canto do hino em posição de sentido em respeito ao pavilhão nacional, sempre vigiados pela Dona Orieta. Ai de algum “abobado” fazer algo errado. Sempre tinha um, é claro, mas era firmemente repreendido.

Adorava esse dia simplesmente por que era diferente.

Meus pais sempre lutaram com dificuldades para manter os quatro filhos menores. Não nos faltava nada de essencial, mas luxos não nos eram permitidos. Lembro da conga que eu usava sonhando em ter um kichute, o “the best power” do momento. Com certeza meu futebol ia melhorar(bobagem, eu era muito ruim mesmo).

Vinha de bicicleta pelas trilhas que ligavam minha casa ao colégio. Colocava um gorro na cabeça pensando que era um capacete com balaclava e pedalava me sentindo o piloto do momento. Era muito divertido mas de vez em quando dava errado. Lembro de uma vez que vinha junto com o Nabor e tentei ultrapassar ele pelo mato, só que tinha um tronco, daí foi um “pacote” fenomenal. Até hoje ele me zoa por conta disso.

Mas o mais bacana de tudo era que no sábado meus pais me davam dinheiro para comprar o lanche na escola. Que delícia! O dinheiro era contado para comprar a laranjinha na cantina e a bananinha de um senhor que vinha vender no portão.

Primeiro eu ia comprar a bananinha. Era uma “muvuca” àquelas crianças com os braços estendidos através da grade do portão com o dinheiro na mão. Eu igual desesperado e boca salivando louco pela iguaria. Então num destes sábados  de braço estendido, um outro moleque pelo lado de fora do portão arrancou o dinheiro que tinha na minha mão e saiu correndo. Fiquei paralisado, decepcionado e muito triste. Chorei muito àquele dia.

Meu desejo de todo sábado indo embora correndo feito louco por conta de um moleque safado.

Hoje sempre que vou a uma padaria procuro pela bananinha e compro. Não é mais como no passado, mas como com satisfação. Talvez àquele menino entristecido que perdeu o seu dinheiro ainda chore dentro de mim, envolvido nas doces lembranças de um passado um pouco distante.

 

 

Escrito por Fernando Baumann, 05/06/2018 às 13h34 | fernando@bba-reiki.com.br

A Palavra

 A palavra é uma arma, dependendo de como é usada pode selar a paz ou incitar a guerra. De alcance letal, depois que proferida não retorna mais. Impossível trazer de volta. Ela tem o poder de levantar muros ou construir pontes.

Constituída com padrão, colabora na formatação do nosso modelo mental. Sou o que penso, expresso o que penso. Sendo verdade ou não, a minha manifestação diz muito do que sou. A palavra também carrega um fator de potência, que é a minha intenção com ela. A atribuição que dou aumenta ou diminui sua energia de impacto. Posso dizer algo amoroso de forma fria, ou algo ríspido com amorosidade.

Também tem a variação do significado de uma mesma palavra. Por exemplo, a palavra “trabalho” para uns pode significar fardo ou penitência, para outros pode ser oportunidade e crescimento. É a forma e o estado de espírito de cada um, e isto gera muita confusão comportamental.

Outro exemplo agora com o equívoco do uso diz respeito a palavra “amor”. Usamos para demonstrar desejo e sentimento, inclusive para expressar o clímax da intimidade entre duas pessoas – “fizemos amor”. Ora, fizemos sexo, não amor. Para mim o puro significado da palavra  é respeito e tolerância. Então amo meus pais, irmãos, esposa, filhos e amigos. Também posso amar meus desconhecidos nos encontros diários, num gesto, num aceno, numa gentileza. Amor é sentimento de igualdade, assim como orgulho é de superioridade.

E o caso do jogador que ao sair de campo é interpelado pelo repórter que lhe pergunta como foi a disputa, então ele diz: “ graças a Deus saímos vitoriosos...”? – daí eu penso, será que Deus foi contra quem perdeu? É claro que não, é apenas força de expressão. Mas se a palavra tem poder, então quais as consequências? Pois é, aí também depende da intenção, mas posso acreditar que não são boas. O Criador sempre é invocado aleatoriamente, e isso deve cansar muito.

Sabe, escrever os textos para mim é um exercício delicioso, mas preciso me policiar o tempo todo, por que dá vontade de colocar muita bobagem. Às vezes eu me passo e escapa algumas coisas, mas preciso respeitar o leitor, então cuido para expressar minhas opiniões de forma menos agressiva possível. Claro sem perder a minha verdade. Não escrevo o que os outros querem ler, mas preciso sempre cuidar da forma como expresso minhas ideias e opiniões. Eu preciso me importar com outro para não ser mal compreendido. E também cometo erros ortográficos ou conceituais.

Acredito que a palavra falada é a mais usual. O gesto é universal mas não tem eloquência e a escrita tem as limitações óbvias do tempo que toma. Então se observarmos a natureza ela própria nos dá mostras da importância de se cuidar com o que falamos. Veja a configuração dos seres vivos, os humanos em especial: Tem dois ouvidos, dois olhos, duas fossas nasais e uma boca. Então quer dizer que tenho que ouvir, ver e cheirar duas vezes mais que falar. Será possível?

Então, achar que dizer, escrever ou gestualizar o que pensa é uma virtude cuidado, sem avaliar as consequências pode funcionar como um bumerangue que vai e volta. E como volta!

Escrito por Fernando Baumann, 01/06/2018 às 18h03 | fernando@bba-reiki.com.br

A Corujinha Azul

 Ela entrou em minha vida a exatos quarenta anos. Lembro do dia que fui a Florianópolis com meu pai para buscá-la. Tinha uma cor azul muito bonita e quando nos olhamos a identificação foi imediata. Foi amor à primeira vista.

Como estava meio caidinha, passamos dificuldades para trazê-la até Balneário Camboriú. Precisamos de muito cuidado. Chegando em casa a primeira ação foi um belo banho e higienização completa, depois uma avaliação de seus problemas com profissionais especializados e os devidos tratamentos.

Assim que restabelecida, ela começou a cumprir seus afazeres diários, razão pela qual foi adquirida. Foram anos de trabalho duro e dedicado. Todo dia acordando cedo e indo até final da tarde sem reclamar, exceto finais de semana, quando tinha dia livre para descanso.

Claro, até eu me tornar adulto, por que daí em diante ela passou a ser a minha companheira de balada. Meu pai ainda era o proprietário oficial, mas de certa forma eu já ia me apoderando dela. Pelo menos nos finais de semana.

As garotas da época nos estranhavam muito, até nos olhavam com certo desprezo. Como éramos rejeitados! Imagina,  para completar eu ainda usava chinelão.

Meus amigos a acolheram com carinho, até tiravam uma casquinha de vez em quando. Lembro de uma vez que deixei o Eduardo ficar um pouquinho com ela. Ele não tinha muito jeito, então quase que liquida ela numa manobra desastrada. Que susto! E o Jorge então, abraçou um poste com ela. Ainda bem que foi de raspão. Imagina que tristeza seria.

Houve outros casos também. Um com meu pai e outro com meu irmão, mas em nenhum deles ela se machucou com gravidade.

E assim passaram os anos, e a aproximadamente seis ela é minha em definitivo. Velha companheira de guerra, hoje já aposentada, mesmo assim está sempre pronta para novas aventuras, nem parece ter a idade que tem. É uma jovem, uma jovem senhora, faceira e sapeca ainda.

Para mim ela é única e não me desfaço por nada. Tenho um canto especial  em minha garagem e sempre a cubro com um cobertor. Acho que fomos feitos um para o outro e preciso retribuir todos os belos momentos vividos ao longo destes anos todos.

Recebo muitas propostas de compra, mas eu não seria capaz. De certa forma até me ofendo.

Ah, quase ia me esquecendo, a Corujinha Azul é uma Kombi com carroceria, ano 1975, daquelas com vidro dianteiro repartido. Aqui os modelos até este ano são conhecidos assim.

Uma belezura só! Eu, ela e o chinelão. Imagina a cena.

 

Escrito por Fernando Baumann, 29/05/2018 às 10h22 | fernando@bba-reiki.com.br

Não Era Pra Ser

 Posso afirmar a você, o ano de 2012 quase representou o fim do mundo. Não para a humanidade em geral como estava sendo divulgado, mas para mim, Fernando. As previsões alarmistas tinham certo fundamento, hoje eu sei.

Explico melhor: Em 2011 eu andava com minha bicicleta para cima e para baixo em nossa cidade, com uma enorme placa lateral amarela escrita “Cidade Para As Pessoas”. Idealista, eu sempre acreditava que junto com meus pares poderia mudar o mundo. Talvez não o mundo, mas ao menos a cidade onde morava. Desejava um ambiente mais humano e cooperativo e acreditava ter capacidade para promover isto.

Então no ano seguinte em nossas eleições municipais coloquei meu nome à disposição para concorrer a uma vaga no legislativo. Era um passo importante e firme na direção do que entendia correto.

Para isto decidi junto com meus apoiadores que caminharíamos pelo único caminho que entendíamos aceitável: o da retidão. Fizemos uma campanha de baixo custo, com valor total gasto próximo a 20 mil, sendo que quase a metade se referia a materiais enviados pela coligação, e o restante dividido entre doações de amigos e 5 mil que desembolsei. Houve bicicletada e campanha boca-a-boca. Muito engajamento de amigos, conhecidos e desconhecidos.

Lembro do susto que tomamos quando recebemos os santinhos enviados pela coligação, numa quantidade absurda. Nossa plataforma era a sustentabilidade econômica e ambiental então não tivemos dúvidas, pegamos cada um uma pequena quantidade para entregar a pessoas próximas e o restante, talvez 99% do que foi recebido, levamos para ser reciclado na usina de lixo que tem perto da Canhanduba.

Outro fato notável aconteceu uma semana antes das eleições. Alguém que desconheço ligou para mim dizendo que tinha 100 litros de gasolina disponível para minha campanha.  Meio assustado agradeci dizendo que não tinha carros trabalhando para mim, mas por educação perguntei como poderia contabilizar a doação. Então a voz do outro lado da linha falou: “isso não tem como contabilizar...”, então a minha ascendência germânica aflorou e mandei ele enfiar àquilo num lugar não muito agradável que provavelmente arderia muito. Acho que entendeu, por que nunca mais ligou.

Também ao final da eleição fizemos a conta do quanto poluímos ou degradamos(não sei que coisa de conta é essa) e transformamos em árvores, plantadas numa área de preservação na Limeira, divisa de Camboriú com Brusque.

Quando o resultado da eleição foi apurado fiquei triste por não ter conseguido a desejada vaga. Os 970 votos recebidos não foram suficientes para me colocar lá dentro. Eu não estava acostumado a perder, então foi um grande ensinamento para mim.

Depois com mais serenidade refletindo sobre o ocorrido entendi que fui feito de bobo e servi de escada para eleger pessoas nas quais eu não votaria. Também boa parte dos vereadores da época se reelegeram, o que mostra que não é só o candidato que é ruim, o eleitor também é.

Por fim, entendi que àquele ambiente não era para mim, pois certamente o mundo que idealizava acabaria lá dentro, comigo junto. 

Escrito por Fernando Baumann, 25/05/2018 às 11h45 | fernando@bba-reiki.com.br

Pedaladas Peregrinas

 Sou um cara de muita sorte. Já tive diversas oportunidades, algumas aproveitei e outras desperdicei. Coisas do momento. Uma destas que aproveitei me marcou muito: fazer de bicicleta o caminho de Santiago de Compostela na Espanha.

Eu e o Carlos percorremos o caminho francês, saindo de St. Jean Pied de Port na França, uma cidade medieval belíssima e encantadora.  Foram 13 dias pedalando e praticamente 860,0 quilômetros percorridos.

Logo no início, na subida dos Pirineus, uma cadeia de montanhas que separa a França da Espanha, um caminhão que vinha atrás de nós reduziu a velocidade “batendo” marcha,  e nos ultrapassou somente quando não vinha outro veículo em sentido contrário. Coisa de primeiro mundo.

Nunca havia dormido num albergue. Frequentamos vários e de todos os tipos. Alguns eram só para homens, outros misturavam homens e mulheres. Alguns pequenos, outros enormes como o de um convento com umas 20 camas num mesmo ambiente. Limpos ou sujos, rústicos ou um pouco mais modernos. Lembro da dificuldade que tive para me acostumar com o ronco alheio. Tinham noites que pareciam sinfonias, com notas de Dó a Sí. No final já nem me importava mais.

Teve um inclusive muito interessante, de propriedade de um brasileiro casado com uma italiana e que foi patrocinado pelo escritor Paulo Coelho, bem pequeno e seletivo que conseguimos vaga por que era amigo do Carlos. Lá participamos de um jantar onde haviam italianos, ingleses, alemães, franceses e nós brasileiros. Depois do segundo copo de vinho todos riam e se entendiam como se fossem velhos amigos, numa profusão de línguas diversas.

O caminho tem uma energia incrível embalado por três fatores:  o propósito comum de visitar o possível túmulo do apóstolo Tiago; o fato de todos irem no mesmo sentido; e o fato de todos despirem-se de suas vaidades(o caminho vai aos poucos retirando).

Você encontra todo  tipo de peregrino. A maioria são solitários, mas tem os que vão com seus animais de estimação, tem àquele que paga promessa arrastando uma enorme cruz de madeira, e tem também os ciclistas. Tem os focados que parece que estão competindo, e tem também os folgados, àqueles que não estão nem aí para os outros.

A noite as botinas ficam na rua. Já pensou o cheiro que cada uma tem? As bicicletas também, sem cadeado, e ninguém mexe. Aliás, durante o caminho a gente percebe que precisa de muito pouco para prosseguir, e que boa parte das coisas que carregamos são desnecessárias. Eu aprendi a não ter pressa(claro que só quando estava lá).

Percebi que não combina muito bicicleta e caminhante na mesma trilha. Várias vezes assustei peregrinos distraídos imersos em suas viagens particulares. Alguns com razão me xingaram. Mas a paz reina entre os aventureiros, a maioria pessoas de meia idade em diante.

Freávamos a bicicleta para atrasar nossa chegada. No caminho o que importava era o próprio caminho. Isto ficou claro quando chegamos defronte a catedral de Santiago de Compostela, uma bela construção de quase mil anos. Acabou, que pena.

Por fim, a missa do peregrino às 17:00h embalada pelo incrível movimento de um turíbulo gigante, e a nave da catedral lotada de almas esperançosas e renovadas.

Você pode ler o relato completo da viagem no endereço pedaladasperegrinas.blogspot.com

Buen camino! 

Escrito por Fernando Baumann, 23/05/2018 às 09h29 | fernando@bba-reiki.com.br



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Fernando Baumann

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Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.


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Por Fernando Baumann

O Sistema TBC

 Vivemos tempos difíceis, de muita incerteza e insegurança. Não lembro em minha existência de algo semelhante. Parece que tudo está perdido. Crise financeira, crise política, crise social, um estado de ebulição constante.

Mas sabe, acredito que este momento está sendo muito rico para abrirmos em definitivo as discussões do que somos e do que queremos ser. A dificuldade nos empurra a sair do estado de letargia que nos encontramos, passivos diria assim, onde sempre esperamos que o outro faça por nós. Acho que as verdades estão sendo expostas.

Os piores momentos na verdade são sempre os melhores. Muito provavelmente hoje não consigamos enxergar, mas daqui a algum tempo, quando olharmos para traz, veremos que avanços importantes ocorreram. O fogo transforma, a exemplo do ferro em aço e do vidro comum em vidro temperado. Então que saibamos aproveitar este fogo que está aí com responsabilidade, civilidade e respeito para nos tornarmos mais fortes.

Uma questão que sempre me perturbou e agora decidi me posicionar é quanto aos legisladores municipais, estaduais e federais. Não concordo e não aceito que após eleitos os mesmos ocupem outra função que não a sua, como exemplo o vereador que vira secretário. Também o caso do executivo que renuncia a sua função para concorrer a outros níveis. Isto é virar as costas para o eleitor, que o elegeu para àquela função, usando-o como degrau para servir aos seus próprios interesses. O eleitor não é mais tão bobinho para não perceber isto, e eu não voto mais em candidatos com este histórico.

Também entendo que estamos em condições de discutir a carga tributária que carregamos. Não os impostos como causa, e sim como efeito(vou sugerir trocar o nome de “imposto” por “benefício”).  Sendo mais claro: o problema não é o quanto pagamos, mas o quanto recebemos. Pagar altas alíquotas de modo geral é aceitável, o que não é aceitável é que pagamos e não recebemos. Não tem estrada, não tem educação, não tem saúde e tudo precisa ser novamente contratado de forma particular por quem pode. Numa conta simples concluo que o custo é dobrado. Vender e não entregar é estelionato, e é isto que o sistema nos impõe, pois o mesmo é incapaz de cumprir suas funções, isto hoje é claro.

Por fim, a divisão do bolo. Não podemos mais concordar que o maior percentual caiba ao governo federal. A pirâmide precisa ser invertida, e o município tem que ficar com a maior fatia, que é onde efetivamente as coisas acontecem e nós conseguimos ver e controlar. O governo federal, este ogro, repleto de privilégios e luxos não precisa ter o tamanho que tem. Apartamentos funcionais, veículos de luxo com motoristas, ascensoristas, assessores, passagens aéreas, aviões, auxílios, aposentadorias e privilégios de toda ordem(cabelo, terno e o escambau)não cabem mais. Eu não aceito mais pagar esta conta.

É o que tenho para hoje.

(sistema TBC – Tirar a Bunda da Cadeira)

 

Escrito por Fernando Baumann, 08/06/2018 às 12h50 | fernando@bba-reiki.com.br

Eu, o menino

 Não lembro bem, mas eu devia ter uns 10 anos de idade. Estudava no Colégio João Goulart com a Dona Diva. Ela tinha um fusca branco que eu adorava, placa BB 0045 se não me engano. Era o máximo!

Aos sábados tínhamos nosso momento cívico, com o canto do hino em posição de sentido em respeito ao pavilhão nacional, sempre vigiados pela Dona Orieta. Ai de algum “abobado” fazer algo errado. Sempre tinha um, é claro, mas era firmemente repreendido.

Adorava esse dia simplesmente por que era diferente.

Meus pais sempre lutaram com dificuldades para manter os quatro filhos menores. Não nos faltava nada de essencial, mas luxos não nos eram permitidos. Lembro da conga que eu usava sonhando em ter um kichute, o “the best power” do momento. Com certeza meu futebol ia melhorar(bobagem, eu era muito ruim mesmo).

Vinha de bicicleta pelas trilhas que ligavam minha casa ao colégio. Colocava um gorro na cabeça pensando que era um capacete com balaclava e pedalava me sentindo o piloto do momento. Era muito divertido mas de vez em quando dava errado. Lembro de uma vez que vinha junto com o Nabor e tentei ultrapassar ele pelo mato, só que tinha um tronco, daí foi um “pacote” fenomenal. Até hoje ele me zoa por conta disso.

Mas o mais bacana de tudo era que no sábado meus pais me davam dinheiro para comprar o lanche na escola. Que delícia! O dinheiro era contado para comprar a laranjinha na cantina e a bananinha de um senhor que vinha vender no portão.

Primeiro eu ia comprar a bananinha. Era uma “muvuca” àquelas crianças com os braços estendidos através da grade do portão com o dinheiro na mão. Eu igual desesperado e boca salivando louco pela iguaria. Então num destes sábados  de braço estendido, um outro moleque pelo lado de fora do portão arrancou o dinheiro que tinha na minha mão e saiu correndo. Fiquei paralisado, decepcionado e muito triste. Chorei muito àquele dia.

Meu desejo de todo sábado indo embora correndo feito louco por conta de um moleque safado.

Hoje sempre que vou a uma padaria procuro pela bananinha e compro. Não é mais como no passado, mas como com satisfação. Talvez àquele menino entristecido que perdeu o seu dinheiro ainda chore dentro de mim, envolvido nas doces lembranças de um passado um pouco distante.

 

 

Escrito por Fernando Baumann, 05/06/2018 às 13h34 | fernando@bba-reiki.com.br

A Palavra

 A palavra é uma arma, dependendo de como é usada pode selar a paz ou incitar a guerra. De alcance letal, depois que proferida não retorna mais. Impossível trazer de volta. Ela tem o poder de levantar muros ou construir pontes.

Constituída com padrão, colabora na formatação do nosso modelo mental. Sou o que penso, expresso o que penso. Sendo verdade ou não, a minha manifestação diz muito do que sou. A palavra também carrega um fator de potência, que é a minha intenção com ela. A atribuição que dou aumenta ou diminui sua energia de impacto. Posso dizer algo amoroso de forma fria, ou algo ríspido com amorosidade.

Também tem a variação do significado de uma mesma palavra. Por exemplo, a palavra “trabalho” para uns pode significar fardo ou penitência, para outros pode ser oportunidade e crescimento. É a forma e o estado de espírito de cada um, e isto gera muita confusão comportamental.

Outro exemplo agora com o equívoco do uso diz respeito a palavra “amor”. Usamos para demonstrar desejo e sentimento, inclusive para expressar o clímax da intimidade entre duas pessoas – “fizemos amor”. Ora, fizemos sexo, não amor. Para mim o puro significado da palavra  é respeito e tolerância. Então amo meus pais, irmãos, esposa, filhos e amigos. Também posso amar meus desconhecidos nos encontros diários, num gesto, num aceno, numa gentileza. Amor é sentimento de igualdade, assim como orgulho é de superioridade.

E o caso do jogador que ao sair de campo é interpelado pelo repórter que lhe pergunta como foi a disputa, então ele diz: “ graças a Deus saímos vitoriosos...”? – daí eu penso, será que Deus foi contra quem perdeu? É claro que não, é apenas força de expressão. Mas se a palavra tem poder, então quais as consequências? Pois é, aí também depende da intenção, mas posso acreditar que não são boas. O Criador sempre é invocado aleatoriamente, e isso deve cansar muito.

Sabe, escrever os textos para mim é um exercício delicioso, mas preciso me policiar o tempo todo, por que dá vontade de colocar muita bobagem. Às vezes eu me passo e escapa algumas coisas, mas preciso respeitar o leitor, então cuido para expressar minhas opiniões de forma menos agressiva possível. Claro sem perder a minha verdade. Não escrevo o que os outros querem ler, mas preciso sempre cuidar da forma como expresso minhas ideias e opiniões. Eu preciso me importar com outro para não ser mal compreendido. E também cometo erros ortográficos ou conceituais.

Acredito que a palavra falada é a mais usual. O gesto é universal mas não tem eloquência e a escrita tem as limitações óbvias do tempo que toma. Então se observarmos a natureza ela própria nos dá mostras da importância de se cuidar com o que falamos. Veja a configuração dos seres vivos, os humanos em especial: Tem dois ouvidos, dois olhos, duas fossas nasais e uma boca. Então quer dizer que tenho que ouvir, ver e cheirar duas vezes mais que falar. Será possível?

Então, achar que dizer, escrever ou gestualizar o que pensa é uma virtude cuidado, sem avaliar as consequências pode funcionar como um bumerangue que vai e volta. E como volta!

Escrito por Fernando Baumann, 01/06/2018 às 18h03 | fernando@bba-reiki.com.br

A Corujinha Azul

 Ela entrou em minha vida a exatos quarenta anos. Lembro do dia que fui a Florianópolis com meu pai para buscá-la. Tinha uma cor azul muito bonita e quando nos olhamos a identificação foi imediata. Foi amor à primeira vista.

Como estava meio caidinha, passamos dificuldades para trazê-la até Balneário Camboriú. Precisamos de muito cuidado. Chegando em casa a primeira ação foi um belo banho e higienização completa, depois uma avaliação de seus problemas com profissionais especializados e os devidos tratamentos.

Assim que restabelecida, ela começou a cumprir seus afazeres diários, razão pela qual foi adquirida. Foram anos de trabalho duro e dedicado. Todo dia acordando cedo e indo até final da tarde sem reclamar, exceto finais de semana, quando tinha dia livre para descanso.

Claro, até eu me tornar adulto, por que daí em diante ela passou a ser a minha companheira de balada. Meu pai ainda era o proprietário oficial, mas de certa forma eu já ia me apoderando dela. Pelo menos nos finais de semana.

As garotas da época nos estranhavam muito, até nos olhavam com certo desprezo. Como éramos rejeitados! Imagina,  para completar eu ainda usava chinelão.

Meus amigos a acolheram com carinho, até tiravam uma casquinha de vez em quando. Lembro de uma vez que deixei o Eduardo ficar um pouquinho com ela. Ele não tinha muito jeito, então quase que liquida ela numa manobra desastrada. Que susto! E o Jorge então, abraçou um poste com ela. Ainda bem que foi de raspão. Imagina que tristeza seria.

Houve outros casos também. Um com meu pai e outro com meu irmão, mas em nenhum deles ela se machucou com gravidade.

E assim passaram os anos, e a aproximadamente seis ela é minha em definitivo. Velha companheira de guerra, hoje já aposentada, mesmo assim está sempre pronta para novas aventuras, nem parece ter a idade que tem. É uma jovem, uma jovem senhora, faceira e sapeca ainda.

Para mim ela é única e não me desfaço por nada. Tenho um canto especial  em minha garagem e sempre a cubro com um cobertor. Acho que fomos feitos um para o outro e preciso retribuir todos os belos momentos vividos ao longo destes anos todos.

Recebo muitas propostas de compra, mas eu não seria capaz. De certa forma até me ofendo.

Ah, quase ia me esquecendo, a Corujinha Azul é uma Kombi com carroceria, ano 1975, daquelas com vidro dianteiro repartido. Aqui os modelos até este ano são conhecidos assim.

Uma belezura só! Eu, ela e o chinelão. Imagina a cena.

 

Escrito por Fernando Baumann, 29/05/2018 às 10h22 | fernando@bba-reiki.com.br

Não Era Pra Ser

 Posso afirmar a você, o ano de 2012 quase representou o fim do mundo. Não para a humanidade em geral como estava sendo divulgado, mas para mim, Fernando. As previsões alarmistas tinham certo fundamento, hoje eu sei.

Explico melhor: Em 2011 eu andava com minha bicicleta para cima e para baixo em nossa cidade, com uma enorme placa lateral amarela escrita “Cidade Para As Pessoas”. Idealista, eu sempre acreditava que junto com meus pares poderia mudar o mundo. Talvez não o mundo, mas ao menos a cidade onde morava. Desejava um ambiente mais humano e cooperativo e acreditava ter capacidade para promover isto.

Então no ano seguinte em nossas eleições municipais coloquei meu nome à disposição para concorrer a uma vaga no legislativo. Era um passo importante e firme na direção do que entendia correto.

Para isto decidi junto com meus apoiadores que caminharíamos pelo único caminho que entendíamos aceitável: o da retidão. Fizemos uma campanha de baixo custo, com valor total gasto próximo a 20 mil, sendo que quase a metade se referia a materiais enviados pela coligação, e o restante dividido entre doações de amigos e 5 mil que desembolsei. Houve bicicletada e campanha boca-a-boca. Muito engajamento de amigos, conhecidos e desconhecidos.

Lembro do susto que tomamos quando recebemos os santinhos enviados pela coligação, numa quantidade absurda. Nossa plataforma era a sustentabilidade econômica e ambiental então não tivemos dúvidas, pegamos cada um uma pequena quantidade para entregar a pessoas próximas e o restante, talvez 99% do que foi recebido, levamos para ser reciclado na usina de lixo que tem perto da Canhanduba.

Outro fato notável aconteceu uma semana antes das eleições. Alguém que desconheço ligou para mim dizendo que tinha 100 litros de gasolina disponível para minha campanha.  Meio assustado agradeci dizendo que não tinha carros trabalhando para mim, mas por educação perguntei como poderia contabilizar a doação. Então a voz do outro lado da linha falou: “isso não tem como contabilizar...”, então a minha ascendência germânica aflorou e mandei ele enfiar àquilo num lugar não muito agradável que provavelmente arderia muito. Acho que entendeu, por que nunca mais ligou.

Também ao final da eleição fizemos a conta do quanto poluímos ou degradamos(não sei que coisa de conta é essa) e transformamos em árvores, plantadas numa área de preservação na Limeira, divisa de Camboriú com Brusque.

Quando o resultado da eleição foi apurado fiquei triste por não ter conseguido a desejada vaga. Os 970 votos recebidos não foram suficientes para me colocar lá dentro. Eu não estava acostumado a perder, então foi um grande ensinamento para mim.

Depois com mais serenidade refletindo sobre o ocorrido entendi que fui feito de bobo e servi de escada para eleger pessoas nas quais eu não votaria. Também boa parte dos vereadores da época se reelegeram, o que mostra que não é só o candidato que é ruim, o eleitor também é.

Por fim, entendi que àquele ambiente não era para mim, pois certamente o mundo que idealizava acabaria lá dentro, comigo junto. 

Escrito por Fernando Baumann, 25/05/2018 às 11h45 | fernando@bba-reiki.com.br

Pedaladas Peregrinas

 Sou um cara de muita sorte. Já tive diversas oportunidades, algumas aproveitei e outras desperdicei. Coisas do momento. Uma destas que aproveitei me marcou muito: fazer de bicicleta o caminho de Santiago de Compostela na Espanha.

Eu e o Carlos percorremos o caminho francês, saindo de St. Jean Pied de Port na França, uma cidade medieval belíssima e encantadora.  Foram 13 dias pedalando e praticamente 860,0 quilômetros percorridos.

Logo no início, na subida dos Pirineus, uma cadeia de montanhas que separa a França da Espanha, um caminhão que vinha atrás de nós reduziu a velocidade “batendo” marcha,  e nos ultrapassou somente quando não vinha outro veículo em sentido contrário. Coisa de primeiro mundo.

Nunca havia dormido num albergue. Frequentamos vários e de todos os tipos. Alguns eram só para homens, outros misturavam homens e mulheres. Alguns pequenos, outros enormes como o de um convento com umas 20 camas num mesmo ambiente. Limpos ou sujos, rústicos ou um pouco mais modernos. Lembro da dificuldade que tive para me acostumar com o ronco alheio. Tinham noites que pareciam sinfonias, com notas de Dó a Sí. No final já nem me importava mais.

Teve um inclusive muito interessante, de propriedade de um brasileiro casado com uma italiana e que foi patrocinado pelo escritor Paulo Coelho, bem pequeno e seletivo que conseguimos vaga por que era amigo do Carlos. Lá participamos de um jantar onde haviam italianos, ingleses, alemães, franceses e nós brasileiros. Depois do segundo copo de vinho todos riam e se entendiam como se fossem velhos amigos, numa profusão de línguas diversas.

O caminho tem uma energia incrível embalado por três fatores:  o propósito comum de visitar o possível túmulo do apóstolo Tiago; o fato de todos irem no mesmo sentido; e o fato de todos despirem-se de suas vaidades(o caminho vai aos poucos retirando).

Você encontra todo  tipo de peregrino. A maioria são solitários, mas tem os que vão com seus animais de estimação, tem àquele que paga promessa arrastando uma enorme cruz de madeira, e tem também os ciclistas. Tem os focados que parece que estão competindo, e tem também os folgados, àqueles que não estão nem aí para os outros.

A noite as botinas ficam na rua. Já pensou o cheiro que cada uma tem? As bicicletas também, sem cadeado, e ninguém mexe. Aliás, durante o caminho a gente percebe que precisa de muito pouco para prosseguir, e que boa parte das coisas que carregamos são desnecessárias. Eu aprendi a não ter pressa(claro que só quando estava lá).

Percebi que não combina muito bicicleta e caminhante na mesma trilha. Várias vezes assustei peregrinos distraídos imersos em suas viagens particulares. Alguns com razão me xingaram. Mas a paz reina entre os aventureiros, a maioria pessoas de meia idade em diante.

Freávamos a bicicleta para atrasar nossa chegada. No caminho o que importava era o próprio caminho. Isto ficou claro quando chegamos defronte a catedral de Santiago de Compostela, uma bela construção de quase mil anos. Acabou, que pena.

Por fim, a missa do peregrino às 17:00h embalada pelo incrível movimento de um turíbulo gigante, e a nave da catedral lotada de almas esperançosas e renovadas.

Você pode ler o relato completo da viagem no endereço pedaladasperegrinas.blogspot.com

Buen camino! 

Escrito por Fernando Baumann, 23/05/2018 às 09h29 | fernando@bba-reiki.com.br



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Fernando Baumann

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Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.


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