Jornal Página 3
Coluna
Cá Pra Nós
Por Fernando Baumann

Pedaladas Peregrinas

 Sou um cara de muita sorte. Já tive diversas oportunidades, algumas aproveitei e outras desperdicei. Coisas do momento. Uma destas que aproveitei me marcou muito: fazer de bicicleta o caminho de Santiago de Compostela na Espanha.

Eu e o Carlos percorremos o caminho francês, saindo de St. Jean Pied de Port na França, uma cidade medieval belíssima e encantadora.  Foram 13 dias pedalando e praticamente 860,0 quilômetros percorridos.

Logo no início, na subida dos Pirineus, uma cadeia de montanhas que separa a França da Espanha, um caminhão que vinha atrás de nós reduziu a velocidade “batendo” marcha,  e nos ultrapassou somente quando não vinha outro veículo em sentido contrário. Coisa de primeiro mundo.

Nunca havia dormido num albergue. Frequentamos vários e de todos os tipos. Alguns eram só para homens, outros misturavam homens e mulheres. Alguns pequenos, outros enormes como o de um convento com umas 20 camas num mesmo ambiente. Limpos ou sujos, rústicos ou um pouco mais modernos. Lembro da dificuldade que tive para me acostumar com o ronco alheio. Tinham noites que pareciam sinfonias, com notas de Dó a Sí. No final já nem me importava mais.

Teve um inclusive muito interessante, de propriedade de um brasileiro casado com uma italiana e que foi patrocinado pelo escritor Paulo Coelho, bem pequeno e seletivo que conseguimos vaga por que era amigo do Carlos. Lá participamos de um jantar onde haviam italianos, ingleses, alemães, franceses e nós brasileiros. Depois do segundo copo de vinho todos riam e se entendiam como se fossem velhos amigos, numa profusão de línguas diversas.

O caminho tem uma energia incrível embalado por três fatores:  o propósito comum de visitar o possível túmulo do apóstolo Tiago; o fato de todos irem no mesmo sentido; e o fato de todos despirem-se de suas vaidades(o caminho vai aos poucos retirando).

Você encontra todo  tipo de peregrino. A maioria são solitários, mas tem os que vão com seus animais de estimação, tem àquele que paga promessa arrastando uma enorme cruz de madeira, e tem também os ciclistas. Tem os focados que parece que estão competindo, e tem também os folgados, àqueles que não estão nem aí para os outros.

A noite as botinas ficam na rua. Já pensou o cheiro que cada uma tem? As bicicletas também, sem cadeado, e ninguém mexe. Aliás, durante o caminho a gente percebe que precisa de muito pouco para prosseguir, e que boa parte das coisas que carregamos são desnecessárias. Eu aprendi a não ter pressa(claro que só quando estava lá).

Percebi que não combina muito bicicleta e caminhante na mesma trilha. Várias vezes assustei peregrinos distraídos imersos em suas viagens particulares. Alguns com razão me xingaram. Mas a paz reina entre os aventureiros, a maioria pessoas de meia idade em diante.

Freávamos a bicicleta para atrasar nossa chegada. No caminho o que importava era o próprio caminho. Isto ficou claro quando chegamos defronte a catedral de Santiago de Compostela, uma bela construção de quase mil anos. Acabou, que pena.

Por fim, a missa do peregrino às 17:00h embalada pelo incrível movimento de um turíbulo gigante, e a nave da catedral lotada de almas esperançosas e renovadas.

Você pode ler o relato completo da viagem no endereço pedaladasperegrinas.blogspot.com

Buen camino! 

Escrito por Fernando Baumann, 23/05/2018 às 09h29 | fernando@bba-reiki.com.br

Dois Minutos

Hoje quero falar sobre a morte. Tudo bem para você? É um assunto desconfortável, com toda certeza, mas absolutamente necessário discutir, pois possivelmente viveríamos melhor se considerássemos a finitude corpórea a cada instante de nossa existência terrena.

As espécies vivas de modo geral tem uma coisa em comum. Aliás, uma que vira duas: vão envelhecer e por consequência vão morrer. Ninguém fica para semente como os antigos diziam quando eram surpreendidos pela pergunta dos seus pequenos.

Também acredito que a morte seja o maior presente nos dado em vida. Já pensou como seria se fôssemos fisicamente eternos? Assim como é já nos embebedamos em vaidades e prepotências, egoísmos e extorsões. Então, suportaríamos ficar aqui para sempre? A espécie resistiria? O planeta resistiria? Parece que não e tudo seria muito chato.

Entendo, dentro da minha limitação de entender, que não estamos aqui a passeio, e sim com um objetivo claro de evoluir através das experiências e relações humanas. Não somos deste planeta e estamos apenas de passagem. Viemos sem nada e voltaremos sem nada – indivíduos - simples assim. Quando alguém próximo se vai dizemos: ah, perdi o fulano...Acho que não! Ninguém perde o que não tem, e ninguém pertence a ninguém. O máximo é ter-se a si próprio. Então se é assim, que sejamos o melhor possível, lembrando que aqui nada é definitivo.

Encerrar um ciclo é cumprir aqui a sua jornada. Chorar, ficar triste e sentir saudade faz parte do acontecimento. Lamentar, desesperar e desesperançar não. Cadê a fé que sempre proferimos?

A morte deveria ser assunto presente em nossas conversas. Não a morte como fim, e sim a morte como começo, como retorno a Essência. Tento entender por que boa parte de nossas religiões tratam a morte como tabu. Talvez utilizem isto como trunfo para manter seus fiéis sob controle. Não sei, é apenas uma hipótese.

Sempre que lembro que aqui na terra estou apenas como passageiro, me dá um desespero danado e percebo que estou totalmente fora do meu propósito original. Sou conduzido e levado por influências materiais e comportamentais que me colocam do avesso. Vítima mas também cúmplice da situação. Não posso ser passageiro e sim condutor de mim mesmo. Sem desculpas e justificativas. Sinto-me pequeno, mas profundamente grato pela oportunidade de seguir.

Então, um brinde a morte, este santo remédio para uma vida terrena melhor!

Escrito por Fernando Baumann, 18/05/2018 às 12h36 | fernando@bba-reiki.com.br

Pronto, Falei

 Habitualmente venho para a minha empresa de bicicleta, que fica no bairro Bandeirantes, ao lado do novo Centro de Eventos de Balneário Camboriú. Para isso é necessário passar por um pequeno espaço de aproximadamente 60 cm (que é o que sobra para mim) ao atravessar a ponte da BR 101 sentido sul. Estava muito distraído pensando sobre um evento que participei ontem em comemoração aos 10 anos de fundação de nossa cooperativa de crédito quando um grande caminhão passou e provocou  forte deslocamento de ar, me desequilibrando e colocando em risco. Um enorme susto!

Esse evento, o susto, desencadeou uma tremedeira nas minhas pernas que me obrigou a parar alguns instantes para recuperar meu estado normal. Fiquei com muita raiva! De mim, por estar distraído, e do poder público pelo descaso com que trata o cidadão. E não interessa saber qual nível de poder, por que também é um jogo de empurra, onde ninguém se responsabiliza pelo que faz.

A concessionária da mesma rodovia acabou de entregar parcialmente a marginal leste, do outro lado. Uma vergonha que só faz aumentar minha indignação. Se você ainda não foi lá sugiro que vá, e observe que duas bicicletas em sentidos opostos passam raspando uma da outra. Parece que ninguém analisou que àquele é um bairro populoso, com alto tráfego de pessoas e bicicletas. Também esqueceram de medir os guidons. Um descaso e incompetência generalizados.

Sinto uma angústia e uma enorme vontade de gritar palavrões, o que no íntimo faço mesmo. Escuto muito falar em plano de mobilidade, acessibilidade e o caramba. Doutores especializados, visitas técnicas internacionais e falações. Tudo blá blá blá. É só faz de conta. Quem sabe eu deixe de ser um trouxa, que é assim que me sinto, e comece a usar automóvel.

Nossos administradores públicos, preocupados com projetos de poder que gravem seu nome para a história, esquecem de olhar para o básico, àquilo que de fato interessa e é percebido pela população. Estão mergulhados em seu mundo de vaidades, alheios a realidade e envoltos no monstrinho chamado máquina pública, digo, triturador público.

Um surto e tudo vem à tona. A umas três ou quatro semanas atrás fui na prefeitura solicitar audiência com o prefeito. Queria como cidadão levar minhas percepções a ele no intuito de auxiliar. A recepção com duas secretárias foi muito amistosa e simpática. Falei do meu intento e uma delas prontamente se dispôs a agendar. Daí ela pegou um post-it amarelo e anotou meu contato. Meus dados num bloco de anotações adesivo....é claro que não ia dar certo, como realmente não deu. Também já desisti, nem quero mais. Acho que valho mais respeito.

 

Escrito por Fernando Baumann, 04/05/2018 às 10h51 | fernando@bba-reiki.com.br

O Dia Em Que o Tempo Parou

  

Meus filhos eram pequenos e a época morávamos numa casa. A maior com 10 anos e o menor com cinco, formávamos os quatro uma família normal e feliz. Nossa rotina seguia regrada pela rigidez da educação que eu e minha esposa recebemos de nossos pais.

Era domingo e acordamos mais tarde. Por volta das 9:00h fui a padaria comprar pão e meu filho menor me acompanhou. Tudo como de costume e regra. Quando chegamos em casa, ao abrir o portão da garagem duas pessoas saíram de traz do muro lateral divisa de um terreno baldio. De arma em punho nos fizeram reféns. Com alta dose de adrenalina no corpo e àquele formigamento na língua pensei: será verdade? É mesmo comigo ou estou sonhando?

Sem tempo para raciocinar procurei manter a calma, retirei as mãos do volante e me coloquei em posição de rendido. Então mandaram entrar e fechar o portão. Meu filho perguntava: “pai, quem são esses homens? O que eles querem?” Não tive o que dizer, apenas pedi que confiasse em mim.

Com os dois dentro de casa minha filha e esposa também foram rendidas. Que sensação de impotência! Na sequência levaram nós quatro para a suíte e lá começaram a perguntar sobre cofre e valores guardados. Falei que nada tínhamos, o que era verdade. Desmontaram nosso quarto em busca do que procuravam, e como mencionado, nada acharam. Enquanto o fato se desenrolava um deles andava comigo com arma apontada para minha cabeça, e meus filhos e esposa ficaram sentados no chão. O menor mais quieto colocou a cabeça entre as pernas e as mãos na cabeça e assim ficou, porém a mais velha por entender melhor a situação não conseguia se conter, chorando e falando em voz alta, o que irritou muito os elementos.

Quando os dois primeiros concluíram que nada tínhamos ligaram para um terceiro elemento que em minutos chegou a minha casa. Quem já estava dentro foi lá e abriu o portão para ele entrar.

Me levaram então para a cozinha e fizeram sentar em uma cadeira. Com arma em punho o visitante mais novo encostou o cano na minha testa e disse: “seu f...p..., se você não disser aonde está o dinheiro eu vou estourar os teus miolos e sequestrar teus filhos!”  Não sei exatamente como o fato se desenrolou, porque tudo ainda parecia um sonho, mas eu consegui manter a calma e a tranquilidade e não me desesperar com as ameaças. De certa forma consegui negociar com o cidadão e provar para ele que bateram na casa errada, que seu plano foi equivocado. Nós não nos encaixávamos na vítima que eles procuravam. Talvez àquele fosse meu dia de sorte.

Os três se juntaram em reunião para decidir nosso destino. Minutos que valeram uma eternidade. Então subiram ao quarto e trouxeram minha esposa e filhos e nos trancaram na dispensa, com ordens expressas para não nos manifestarmos durante a próxima hora.

Assim que escutamos o portão fechar nos abraçamos os quatro e começamos a chorar. Naquele momento eu desmoronei e toda a minha fortaleza ruiu. Como eu pude colocar a minha família em tão elevado grau de risco? É claro que foi uma emboscada, pois eles conheciam muito bem a nossa rotina e pouco poderia ter sido feito para evitar.

A lição que ficou deste evento foi a preocupação em preservar a família, único bem importante naquele momento. E os bens materiais? Pois bem, danem-se os bens materiais!

Escrito por Fernando Baumann, 27/04/2018 às 18h31 | fernando@bba-reiki.com.br

O Fator Fazer

 Na minha percepção nosso atendimento ao público de modo geral é ruim. Parece que o cliente é um problema. Falta postura profissional, agilidade e simpatia. Quem nunca foi a um mercado, padaria ou outro comércio em geral e ficou aguardando enquanto os atendentes conversavam sobre o final de semana, o passeio, o futebol ou o cônjuge? Ou então àquela vontade danada em  atender que faz você se sentir um intruso, um incômodo?

Escuto muito a frase: “ah eu não tive sorte..., ah eu não tive oportunidade”...

Pois bem, num determinado dia fui fazer compras num mercado próximo a minha casa e aleatoriamente escolhi um caixa para efetivar o pagamento. Rapidamente pude observar a forma eficiente e eficaz com que o atendente realizava o seu trabalho, estando concentrado nos seus afazeres, procurando desempenhá-lo da melhor forma possível. Aquilo me chamou a atenção, pois o que deveria ser regra era exceção.

Numa segunda oportunidade que fui ao mesmo mercado lembrei do ocorrido na vez anterior e procurei utilizar o serviço do mesmo atendente. E lá estava ele igual: rápido, eficiente e ágil. Numa terceira vez o fato se repetiu. Então não tive dúvida, liguei para a empresa de recrutamento e seleção que me atende e disse: “quero que contrate esta pessoa!”

Pois bem, ele veio trabalhar comigo e de simples auxiliar galgou cargos importantes na empresa transformando-se num profissional de sucesso, sempre atualizado e esforçado em entregar o melhor. Hoje não faz mais parte dos nossos quadros, pois decidiu empreender por conta própria, tendo meu total apoio.

De auxiliar a dono do próprio negócio!

Hoje, refletindo sobre o ocorrido, fica claro para mim que cada profissional é patrão de si mesmo. Você não trabalha para um CNPJ, mas sim para o seu CPF. A questão da sorte ou da oportunidade é relativa a fazer ou esperar ser feito.

O tempo todos estamos sendo observados, então não estar nem aí com que os outros pensam ou acham pode servir contra você. Você é o melhor produto que tem para vender, então saiba se vender, pois se não for valorizado aonde está certamente alguém o fará.

E a sorte virá.

E as oportunidades virão!

 

Escrito por Fernando Baumann, 20/04/2018 às 09h42 | fernando@bba-reiki.com.br

Os Amigos Que Tenho

  

Minha vida sempre foi pautada por desafios, e acredito que a sua também. Cada um a seu modo ou medida precisa deles para testar seus limites, buscar novas experiências ou simplesmente sair do lugar comum e se sentir vivo. O gatilho que dispara essa necessidade em mim é  o frio na barriga. Se pensei em algo e este algo causou o efeito então preciso fazer. Ah, a consequência imediata é a necessidade de ir ao banheiro.

Um dia o Zoanir, companheiro de pedal de longas horas me fez um convite – Vamos fazer um desafio “non-stop” Balneário a São Paulo? Então àquela sensação me acometeu e não tive dúvida: Estou dentro!!

Plano feito, data definida e Luiz e Adão convidados para nos acompanhar de carro fui comunicar meus pais sobre nossa grande ideia. Meu pai como de costume calou-se em aprovação, mas minha mãe não. Com o dedo em riste apontou para o meu nariz e disse: Você é um irresponsável inconsequente. Dois filhos menores pra criar e se mete a besta  nessas coisas! Claro que concordei com ela. Só que não por muito tempo.

Saímos de Balneário Camboriú numa quinta-feira às 22:00h e lá estavam meu pais para nos desejar boa sorte. Como foi reconfortante o abraço e beijo deles. A família do Zô também estava em peso, assim como minha esposa e filhos. Família é tudo.

Nossa estratégia era o carro de apoio andar 80 a 100 km e nos aguardar, preferencialmente em um posto de gasolina para o devido descanso, esvaziamentos legais(!?) e reposição de calorias. No limite do cansaço dormíamos dentro do carro, no máximo duas horas, para o corpo não esfriar totalmente e impossibilitar o retorno ao pedal. Muito mais que desafio físico, atividade como essa exige controle emocional, perseverança e determinação.

Definimos nossa saída para àquele dia e horário para que conseguíssemos iniciar a subida da serra do Cafezal no sábado de manhã, período com menor movimento de caminhão, pois naquela época 30 km desta serra ainda era pista simples e sem acostamento, nos obrigando a andar em cima da pista de rolamento, e sem dúvida o local mais perigoso de todo o trajeto.

Às 6:30h do sábado nos aproximamos do início da subida da serra. Um carro da Autopista, administradora da rodovia, nos abordou e questionou se sabíamos dos riscos que estávamos correndo em prosseguir com nosso intuito. Falamos que sim e eles nos fizeram assinar um termo de responsabilidade. Três horas depois havíamos vencido os 30km, sendo 18km os mais tensos.

Um desafio como este, cujo objetivo é vencer a maior distância no menor tempo possível, é fundamental a equipe de apoio. E o maior “perrengue” acaba sendo deles, pois ficam muito tempo esperando e quase não conseguem dormir, ansiosos e preocupados pela nossa chegada.

No sábado à tarde entramos na Avenida Paulista e às 16:40h chegamos na frente do MASP, nosso objetivo final. Foram percorridos 620km em 42:40h, algo em torno de 30:00h pedalando e o resto descansando. Um misto de alegria e satisfação tomou conta de mim e do Zô, e lá estavam Luiz e Adão nos aguardando para num abraço coletivo selar nossa realização.

Mãe, cheguei!!!

Escrito por Fernando Baumann, 13/04/2018 às 15h04 | fernando@bba-reiki.com.br



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Fernando Baumann

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Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.


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Por Fernando Baumann

Pedaladas Peregrinas

 Sou um cara de muita sorte. Já tive diversas oportunidades, algumas aproveitei e outras desperdicei. Coisas do momento. Uma destas que aproveitei me marcou muito: fazer de bicicleta o caminho de Santiago de Compostela na Espanha.

Eu e o Carlos percorremos o caminho francês, saindo de St. Jean Pied de Port na França, uma cidade medieval belíssima e encantadora.  Foram 13 dias pedalando e praticamente 860,0 quilômetros percorridos.

Logo no início, na subida dos Pirineus, uma cadeia de montanhas que separa a França da Espanha, um caminhão que vinha atrás de nós reduziu a velocidade “batendo” marcha,  e nos ultrapassou somente quando não vinha outro veículo em sentido contrário. Coisa de primeiro mundo.

Nunca havia dormido num albergue. Frequentamos vários e de todos os tipos. Alguns eram só para homens, outros misturavam homens e mulheres. Alguns pequenos, outros enormes como o de um convento com umas 20 camas num mesmo ambiente. Limpos ou sujos, rústicos ou um pouco mais modernos. Lembro da dificuldade que tive para me acostumar com o ronco alheio. Tinham noites que pareciam sinfonias, com notas de Dó a Sí. No final já nem me importava mais.

Teve um inclusive muito interessante, de propriedade de um brasileiro casado com uma italiana e que foi patrocinado pelo escritor Paulo Coelho, bem pequeno e seletivo que conseguimos vaga por que era amigo do Carlos. Lá participamos de um jantar onde haviam italianos, ingleses, alemães, franceses e nós brasileiros. Depois do segundo copo de vinho todos riam e se entendiam como se fossem velhos amigos, numa profusão de línguas diversas.

O caminho tem uma energia incrível embalado por três fatores:  o propósito comum de visitar o possível túmulo do apóstolo Tiago; o fato de todos irem no mesmo sentido; e o fato de todos despirem-se de suas vaidades(o caminho vai aos poucos retirando).

Você encontra todo  tipo de peregrino. A maioria são solitários, mas tem os que vão com seus animais de estimação, tem àquele que paga promessa arrastando uma enorme cruz de madeira, e tem também os ciclistas. Tem os focados que parece que estão competindo, e tem também os folgados, àqueles que não estão nem aí para os outros.

A noite as botinas ficam na rua. Já pensou o cheiro que cada uma tem? As bicicletas também, sem cadeado, e ninguém mexe. Aliás, durante o caminho a gente percebe que precisa de muito pouco para prosseguir, e que boa parte das coisas que carregamos são desnecessárias. Eu aprendi a não ter pressa(claro que só quando estava lá).

Percebi que não combina muito bicicleta e caminhante na mesma trilha. Várias vezes assustei peregrinos distraídos imersos em suas viagens particulares. Alguns com razão me xingaram. Mas a paz reina entre os aventureiros, a maioria pessoas de meia idade em diante.

Freávamos a bicicleta para atrasar nossa chegada. No caminho o que importava era o próprio caminho. Isto ficou claro quando chegamos defronte a catedral de Santiago de Compostela, uma bela construção de quase mil anos. Acabou, que pena.

Por fim, a missa do peregrino às 17:00h embalada pelo incrível movimento de um turíbulo gigante, e a nave da catedral lotada de almas esperançosas e renovadas.

Você pode ler o relato completo da viagem no endereço pedaladasperegrinas.blogspot.com

Buen camino! 

Escrito por Fernando Baumann, 23/05/2018 às 09h29 | fernando@bba-reiki.com.br

Dois Minutos

Hoje quero falar sobre a morte. Tudo bem para você? É um assunto desconfortável, com toda certeza, mas absolutamente necessário discutir, pois possivelmente viveríamos melhor se considerássemos a finitude corpórea a cada instante de nossa existência terrena.

As espécies vivas de modo geral tem uma coisa em comum. Aliás, uma que vira duas: vão envelhecer e por consequência vão morrer. Ninguém fica para semente como os antigos diziam quando eram surpreendidos pela pergunta dos seus pequenos.

Também acredito que a morte seja o maior presente nos dado em vida. Já pensou como seria se fôssemos fisicamente eternos? Assim como é já nos embebedamos em vaidades e prepotências, egoísmos e extorsões. Então, suportaríamos ficar aqui para sempre? A espécie resistiria? O planeta resistiria? Parece que não e tudo seria muito chato.

Entendo, dentro da minha limitação de entender, que não estamos aqui a passeio, e sim com um objetivo claro de evoluir através das experiências e relações humanas. Não somos deste planeta e estamos apenas de passagem. Viemos sem nada e voltaremos sem nada – indivíduos - simples assim. Quando alguém próximo se vai dizemos: ah, perdi o fulano...Acho que não! Ninguém perde o que não tem, e ninguém pertence a ninguém. O máximo é ter-se a si próprio. Então se é assim, que sejamos o melhor possível, lembrando que aqui nada é definitivo.

Encerrar um ciclo é cumprir aqui a sua jornada. Chorar, ficar triste e sentir saudade faz parte do acontecimento. Lamentar, desesperar e desesperançar não. Cadê a fé que sempre proferimos?

A morte deveria ser assunto presente em nossas conversas. Não a morte como fim, e sim a morte como começo, como retorno a Essência. Tento entender por que boa parte de nossas religiões tratam a morte como tabu. Talvez utilizem isto como trunfo para manter seus fiéis sob controle. Não sei, é apenas uma hipótese.

Sempre que lembro que aqui na terra estou apenas como passageiro, me dá um desespero danado e percebo que estou totalmente fora do meu propósito original. Sou conduzido e levado por influências materiais e comportamentais que me colocam do avesso. Vítima mas também cúmplice da situação. Não posso ser passageiro e sim condutor de mim mesmo. Sem desculpas e justificativas. Sinto-me pequeno, mas profundamente grato pela oportunidade de seguir.

Então, um brinde a morte, este santo remédio para uma vida terrena melhor!

Escrito por Fernando Baumann, 18/05/2018 às 12h36 | fernando@bba-reiki.com.br

Pronto, Falei

 Habitualmente venho para a minha empresa de bicicleta, que fica no bairro Bandeirantes, ao lado do novo Centro de Eventos de Balneário Camboriú. Para isso é necessário passar por um pequeno espaço de aproximadamente 60 cm (que é o que sobra para mim) ao atravessar a ponte da BR 101 sentido sul. Estava muito distraído pensando sobre um evento que participei ontem em comemoração aos 10 anos de fundação de nossa cooperativa de crédito quando um grande caminhão passou e provocou  forte deslocamento de ar, me desequilibrando e colocando em risco. Um enorme susto!

Esse evento, o susto, desencadeou uma tremedeira nas minhas pernas que me obrigou a parar alguns instantes para recuperar meu estado normal. Fiquei com muita raiva! De mim, por estar distraído, e do poder público pelo descaso com que trata o cidadão. E não interessa saber qual nível de poder, por que também é um jogo de empurra, onde ninguém se responsabiliza pelo que faz.

A concessionária da mesma rodovia acabou de entregar parcialmente a marginal leste, do outro lado. Uma vergonha que só faz aumentar minha indignação. Se você ainda não foi lá sugiro que vá, e observe que duas bicicletas em sentidos opostos passam raspando uma da outra. Parece que ninguém analisou que àquele é um bairro populoso, com alto tráfego de pessoas e bicicletas. Também esqueceram de medir os guidons. Um descaso e incompetência generalizados.

Sinto uma angústia e uma enorme vontade de gritar palavrões, o que no íntimo faço mesmo. Escuto muito falar em plano de mobilidade, acessibilidade e o caramba. Doutores especializados, visitas técnicas internacionais e falações. Tudo blá blá blá. É só faz de conta. Quem sabe eu deixe de ser um trouxa, que é assim que me sinto, e comece a usar automóvel.

Nossos administradores públicos, preocupados com projetos de poder que gravem seu nome para a história, esquecem de olhar para o básico, àquilo que de fato interessa e é percebido pela população. Estão mergulhados em seu mundo de vaidades, alheios a realidade e envoltos no monstrinho chamado máquina pública, digo, triturador público.

Um surto e tudo vem à tona. A umas três ou quatro semanas atrás fui na prefeitura solicitar audiência com o prefeito. Queria como cidadão levar minhas percepções a ele no intuito de auxiliar. A recepção com duas secretárias foi muito amistosa e simpática. Falei do meu intento e uma delas prontamente se dispôs a agendar. Daí ela pegou um post-it amarelo e anotou meu contato. Meus dados num bloco de anotações adesivo....é claro que não ia dar certo, como realmente não deu. Também já desisti, nem quero mais. Acho que valho mais respeito.

 

Escrito por Fernando Baumann, 04/05/2018 às 10h51 | fernando@bba-reiki.com.br

O Dia Em Que o Tempo Parou

  

Meus filhos eram pequenos e a época morávamos numa casa. A maior com 10 anos e o menor com cinco, formávamos os quatro uma família normal e feliz. Nossa rotina seguia regrada pela rigidez da educação que eu e minha esposa recebemos de nossos pais.

Era domingo e acordamos mais tarde. Por volta das 9:00h fui a padaria comprar pão e meu filho menor me acompanhou. Tudo como de costume e regra. Quando chegamos em casa, ao abrir o portão da garagem duas pessoas saíram de traz do muro lateral divisa de um terreno baldio. De arma em punho nos fizeram reféns. Com alta dose de adrenalina no corpo e àquele formigamento na língua pensei: será verdade? É mesmo comigo ou estou sonhando?

Sem tempo para raciocinar procurei manter a calma, retirei as mãos do volante e me coloquei em posição de rendido. Então mandaram entrar e fechar o portão. Meu filho perguntava: “pai, quem são esses homens? O que eles querem?” Não tive o que dizer, apenas pedi que confiasse em mim.

Com os dois dentro de casa minha filha e esposa também foram rendidas. Que sensação de impotência! Na sequência levaram nós quatro para a suíte e lá começaram a perguntar sobre cofre e valores guardados. Falei que nada tínhamos, o que era verdade. Desmontaram nosso quarto em busca do que procuravam, e como mencionado, nada acharam. Enquanto o fato se desenrolava um deles andava comigo com arma apontada para minha cabeça, e meus filhos e esposa ficaram sentados no chão. O menor mais quieto colocou a cabeça entre as pernas e as mãos na cabeça e assim ficou, porém a mais velha por entender melhor a situação não conseguia se conter, chorando e falando em voz alta, o que irritou muito os elementos.

Quando os dois primeiros concluíram que nada tínhamos ligaram para um terceiro elemento que em minutos chegou a minha casa. Quem já estava dentro foi lá e abriu o portão para ele entrar.

Me levaram então para a cozinha e fizeram sentar em uma cadeira. Com arma em punho o visitante mais novo encostou o cano na minha testa e disse: “seu f...p..., se você não disser aonde está o dinheiro eu vou estourar os teus miolos e sequestrar teus filhos!”  Não sei exatamente como o fato se desenrolou, porque tudo ainda parecia um sonho, mas eu consegui manter a calma e a tranquilidade e não me desesperar com as ameaças. De certa forma consegui negociar com o cidadão e provar para ele que bateram na casa errada, que seu plano foi equivocado. Nós não nos encaixávamos na vítima que eles procuravam. Talvez àquele fosse meu dia de sorte.

Os três se juntaram em reunião para decidir nosso destino. Minutos que valeram uma eternidade. Então subiram ao quarto e trouxeram minha esposa e filhos e nos trancaram na dispensa, com ordens expressas para não nos manifestarmos durante a próxima hora.

Assim que escutamos o portão fechar nos abraçamos os quatro e começamos a chorar. Naquele momento eu desmoronei e toda a minha fortaleza ruiu. Como eu pude colocar a minha família em tão elevado grau de risco? É claro que foi uma emboscada, pois eles conheciam muito bem a nossa rotina e pouco poderia ter sido feito para evitar.

A lição que ficou deste evento foi a preocupação em preservar a família, único bem importante naquele momento. E os bens materiais? Pois bem, danem-se os bens materiais!

Escrito por Fernando Baumann, 27/04/2018 às 18h31 | fernando@bba-reiki.com.br

O Fator Fazer

 Na minha percepção nosso atendimento ao público de modo geral é ruim. Parece que o cliente é um problema. Falta postura profissional, agilidade e simpatia. Quem nunca foi a um mercado, padaria ou outro comércio em geral e ficou aguardando enquanto os atendentes conversavam sobre o final de semana, o passeio, o futebol ou o cônjuge? Ou então àquela vontade danada em  atender que faz você se sentir um intruso, um incômodo?

Escuto muito a frase: “ah eu não tive sorte..., ah eu não tive oportunidade”...

Pois bem, num determinado dia fui fazer compras num mercado próximo a minha casa e aleatoriamente escolhi um caixa para efetivar o pagamento. Rapidamente pude observar a forma eficiente e eficaz com que o atendente realizava o seu trabalho, estando concentrado nos seus afazeres, procurando desempenhá-lo da melhor forma possível. Aquilo me chamou a atenção, pois o que deveria ser regra era exceção.

Numa segunda oportunidade que fui ao mesmo mercado lembrei do ocorrido na vez anterior e procurei utilizar o serviço do mesmo atendente. E lá estava ele igual: rápido, eficiente e ágil. Numa terceira vez o fato se repetiu. Então não tive dúvida, liguei para a empresa de recrutamento e seleção que me atende e disse: “quero que contrate esta pessoa!”

Pois bem, ele veio trabalhar comigo e de simples auxiliar galgou cargos importantes na empresa transformando-se num profissional de sucesso, sempre atualizado e esforçado em entregar o melhor. Hoje não faz mais parte dos nossos quadros, pois decidiu empreender por conta própria, tendo meu total apoio.

De auxiliar a dono do próprio negócio!

Hoje, refletindo sobre o ocorrido, fica claro para mim que cada profissional é patrão de si mesmo. Você não trabalha para um CNPJ, mas sim para o seu CPF. A questão da sorte ou da oportunidade é relativa a fazer ou esperar ser feito.

O tempo todos estamos sendo observados, então não estar nem aí com que os outros pensam ou acham pode servir contra você. Você é o melhor produto que tem para vender, então saiba se vender, pois se não for valorizado aonde está certamente alguém o fará.

E a sorte virá.

E as oportunidades virão!

 

Escrito por Fernando Baumann, 20/04/2018 às 09h42 | fernando@bba-reiki.com.br

Os Amigos Que Tenho

  

Minha vida sempre foi pautada por desafios, e acredito que a sua também. Cada um a seu modo ou medida precisa deles para testar seus limites, buscar novas experiências ou simplesmente sair do lugar comum e se sentir vivo. O gatilho que dispara essa necessidade em mim é  o frio na barriga. Se pensei em algo e este algo causou o efeito então preciso fazer. Ah, a consequência imediata é a necessidade de ir ao banheiro.

Um dia o Zoanir, companheiro de pedal de longas horas me fez um convite – Vamos fazer um desafio “non-stop” Balneário a São Paulo? Então àquela sensação me acometeu e não tive dúvida: Estou dentro!!

Plano feito, data definida e Luiz e Adão convidados para nos acompanhar de carro fui comunicar meus pais sobre nossa grande ideia. Meu pai como de costume calou-se em aprovação, mas minha mãe não. Com o dedo em riste apontou para o meu nariz e disse: Você é um irresponsável inconsequente. Dois filhos menores pra criar e se mete a besta  nessas coisas! Claro que concordei com ela. Só que não por muito tempo.

Saímos de Balneário Camboriú numa quinta-feira às 22:00h e lá estavam meu pais para nos desejar boa sorte. Como foi reconfortante o abraço e beijo deles. A família do Zô também estava em peso, assim como minha esposa e filhos. Família é tudo.

Nossa estratégia era o carro de apoio andar 80 a 100 km e nos aguardar, preferencialmente em um posto de gasolina para o devido descanso, esvaziamentos legais(!?) e reposição de calorias. No limite do cansaço dormíamos dentro do carro, no máximo duas horas, para o corpo não esfriar totalmente e impossibilitar o retorno ao pedal. Muito mais que desafio físico, atividade como essa exige controle emocional, perseverança e determinação.

Definimos nossa saída para àquele dia e horário para que conseguíssemos iniciar a subida da serra do Cafezal no sábado de manhã, período com menor movimento de caminhão, pois naquela época 30 km desta serra ainda era pista simples e sem acostamento, nos obrigando a andar em cima da pista de rolamento, e sem dúvida o local mais perigoso de todo o trajeto.

Às 6:30h do sábado nos aproximamos do início da subida da serra. Um carro da Autopista, administradora da rodovia, nos abordou e questionou se sabíamos dos riscos que estávamos correndo em prosseguir com nosso intuito. Falamos que sim e eles nos fizeram assinar um termo de responsabilidade. Três horas depois havíamos vencido os 30km, sendo 18km os mais tensos.

Um desafio como este, cujo objetivo é vencer a maior distância no menor tempo possível, é fundamental a equipe de apoio. E o maior “perrengue” acaba sendo deles, pois ficam muito tempo esperando e quase não conseguem dormir, ansiosos e preocupados pela nossa chegada.

No sábado à tarde entramos na Avenida Paulista e às 16:40h chegamos na frente do MASP, nosso objetivo final. Foram percorridos 620km em 42:40h, algo em torno de 30:00h pedalando e o resto descansando. Um misto de alegria e satisfação tomou conta de mim e do Zô, e lá estavam Luiz e Adão nos aguardando para num abraço coletivo selar nossa realização.

Mãe, cheguei!!!

Escrito por Fernando Baumann, 13/04/2018 às 15h04 | fernando@bba-reiki.com.br



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Fernando Baumann

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Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.


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