Jornal Página 3
Coluna
Cá Pra Nós
Por Fernando Baumann

Mentiras Sinceras

 Ao que se diz, o Brasil é um país com sistema politico/administrativo democrático.  Mas enfim, o que isso significa? Eu particularmente tenho dificuldade em entender, pois de modo geral acho que é mais discurso que prática. Parece embalagem bonita de um presente qualquer.

Primeiro porque o gestor público quando eleito representa apenas uma parcela da sociedade, pois sua ascensão se dá por maioria simples, ficando uma legião de órfãos a buscar horizontes. O “nós e eles” que ouvimos num passado recente.

Segundo porque democracia não é doutrina. É cultura e valor. Acreditar em um nome é personificar o herói salvador, aquele que tudo sabe, o filho mais próximo do Criador. Uma sociedade solidamente constituída não permite o enaltecimento de projetos de poder, mas sim de projeto de estado, que dura bem mais que um ou dois mandatos e é resultado do entendimento coletivo.

Terceiro porque antes de eleito o candidato olha para fora, para o eleitor. Depois de eleito ele olha para dentro, para  interesses dos seus. Sem generalizar, de forma costumaz é isto que acontece. E também tem o poder econômico, que desiguala a disputa.

Em quarto por que  democracia é a razão de decisões coletivas, onde metade mais um prevalece, e a dinâmica diária da administração pública não permite tal possibilidade. Também por responsabilização de quem assina, que tem seu CPF exposto e sujeito as sanções da lei. Então a gestão pública é participativa, onde o responsável eleito de forma democrática deve decidir pelo melhor caminho após ouvir todos os interessados.

E por último, uma sociedade democrática só pode assim ser considerada quando antes, bem antes, ter claro quais são seu deveres. É justo reivindicar direitos baseados nos princípios da igualdade e da justiça, da razão e da verdade, mas é inconsistente e inócuo quando não se conhece quais são as obrigações. Por mais indesejado que seja,  precisamos reconhecer que o nosso modelo democrático chegou de forma avessa e com atalhos, e confundiu tudo. É como uma nau sem rumo - sem vela e sem leme - em meio a uma tempestade

Escrito por Fernando Baumann, 12/01/2018 às 16h45 | fernando@bba-reiki.com.br

Por Favor, Eduquem os Pais

 Cena 1: Indo pela Quinta Avenida em Balneário Camboriú sentido sul, paro num sinal vermelho, logo ao meu lado para uma senhora com sua filha de dois ou três anos no banco de traz do seu veículo, e observo que a criança está solta. Por instinto de pai baixo o vidro e falo: “senhora, sua criança está solta”; e ela responde: “ela não deixa amarrar”. Sem saber o que falar pensei: na adolescência vai bater nos pais!

Cena 2: Estou no shopping almoçando com minha esposa quando duas crianças correm por entre as mesas. De volta em volta param em uma mesa mais distante onde dois casais bebem e conversam animadamente, sem se importarem claramente com os pequenos. Possivelmente são os pais ou responsáveis. Uma vez, duas vezes...na terceira vez tranquei o maiorzinho com minha perna e falei: “aqui não é lugar de correr, logo vocês vão se machucar”

Cena 3: Participei durante um bom tempo da coordenação de um grupo de jovens meninas, entre 10 e 20 anos. Primeiro para acompanhar a minha filha, depois pelo interesse em auxiliar as demais em seu desenvolvimento nessa fase tão importante. Queria me fazer presente, e confesso que mais aprendi que ensinei. Durante este período sessenta ou setenta jovens participaram deste grupo, cujos encontros eram sábado à tarde, a cada quinze dias. Os pais, na maioria das vezes, deixavam suas filhas na porta do local e iam embora, nunca participando daquele momento, possivelmente por terem ocupações mais importantes. Conheci no máximo vinte deles durante esses anos todos.

Cena 4: Antes do natal fui corta o cabelo no local habitual. Há na sala um ambiente dividido com parede de madeira a 2/3 de altura, onde uma profissional da área da beleza presta seu serviço. Cheguei um pouco adiantado e fiquei aguardando minha hora. Então percebo que a referida profissional está atendendo uma cliente, e que esta está com uma ou duas crianças. Objetos caem a todo instante e não há nenhuma interferência da mãe, apenas risos pela “esperteza” da criança, sempre muito ativa, segundo ela. Chega minha vez e sou chamado a lavar o cabelo. Daí entra em cena um brinquedo de fricção, soltado com violência contra a parede de madeira. Algumas vezes depois a possível mãe intervém e diz:” filho, não faz isso...” desse jeito, com voz reticente e sem nenhuma autoridade. Bom, o entrevero continuou durante os quarenta e cinco minutos que estive lá.

P.S.: Nenhum dos relatos é obra de ficção, e qualquer semelhança é mera realidade.

Escrito por Fernando Baumann, 04/01/2018 às 21h29 | fernando@bba-reiki.com.br

Meu Pai

 Nasci em uma família comum, como convinha a época, rígida e disciplinada. Mas também não faltava amor, carinho e respeito as individualidades. Quando pequeno morria de medo do meu pai, sempre sério. Bastava um olhar firme para entender o que se passava. Minha mãe, mais conciliadora, fazia as vezes de “ponte” entre o nosso desejo e a capacidade de falar com ele. Os dois formavam uma boa dupla, como pai e mãe deviam ser.

O tempo passou(ou voou), eu e meu pai nos aproximamos muito.  Dois grandes amigos, pai e filho talvez. Então aos 78 anos ele foi diagnosticado com câncer, maligno, no pulmão. Não tinha metástase, mas a lesão já estava bem adiantada. Do choque inicial resultou a força em continuar lutando pela vida. Àquele homem sempre sério e forte diante das dificuldades estava para enfrentar seu maior desafio. E também minha mãe e irmãos, pois a família toda foi impactada. Aliás, minha mãe virou uma gigante.

Tratamento agressivo, fraqueza, mal estar e perda de cabelo foram as consequências mais visíveis. Passada esta primeira fase, bons resultados vieram junto com uma breve euforia, que logo foi extirpada por conta do retorno mais violento da doença.

Neste período nunca deixamos de tratar o assunto abertamente com ele, sem subterfúgios ou esconderijos. Por mais difícil que fosse, falávamos da morte como algo natural e certo. Não somente a ele, mas a todos nós.

Percebi com o passar do tempo que ele começou a aceitar essa possibilidade e a se desprender das coisas materiais, estando mais tranquilo frente aos fatos. O que não significou deixar de continuar lutando pela vida.

Por outro lado, de minha parte, tive a oportunidade de pedir perdão a ele por tudo o que de errado eu tinha feito. Falei várias vezes o quanto o amava e me inspirava a ser um pai igual com meus filhos. Que ele poderia seguir tranquilo que ficaríamos bem.

Após vinte meses de tratamento, sendo os últimos quinze dias de muito sofrimento, ele fechou seus olhos em definitivo. Descansou e se transformou num ser de luz. Durante a cerimônia de despedida sua fisionomia era de muita paz e serenidade, e foram poucas as lágrimas que derramei.

Alguns dias após seu passamento, um conhecido me ligou se desculpando por não ter sabido do ocorrido e não estado lá àquele dia, e que lamentava muito a minha perda. Num instante pensei: “não se perde o que não se tem”. Meu pai nunca foi meu, ele me foi cedido por empréstimo por um período para desempenhar seu papel de pai. Nada se tem a não ser a si próprio, e por não ser meu ele poderia partir.

Hoje, às vésperas de completar um ano do ocorrido, sinto que todo o seu processo foi uma oportunidade que tivemos, de nos despedir, de nos perdoar e de continuar seguindo nossa evolução individual, como ser humano e ser espiritual.

Não há dor, não há tristeza. Apenas saudade.

Escrito por Fernando Baumann, 29/12/2017 às 18h46 | fernando@bba-reiki.com.br

Carta em Defesa aos Políticos

 Quero aqui fazer uma defesa à classe política e sua função, tão desprestigiada ultimamente. Acho que é uma injustiça o que está acontecendo, como se esta fosse a única responsável pelas mazelas econômicas e sociais. É bem verdade que sua responsabilidade é grande. Mas não é só dela. E também não dá para dispensá-la.

Minha única tentativa em me tornar alguém público foi frustrada pela discordância e falta de apoio na minha família. Lembro meu pai dizer: "Fernando, por quê? Àquele não é lugar para você!” Daí falei: "pai, a vaga existe, alguém vai ocupar...” . Pois é assim que enxergamos a política, como algo que não nos pertence, mas que nos afeta diretamente.

Os políticos por assim dizer são pessoas comuns, iguais a nós. Nasceram e cresceram na cidade, correram e jogaram bola. Estudaram, se divertiram e frequentaram igrejas. Namoraram, casaram, tiveram filhos. Então por que são diferentes?  O que os distancia de nós?

Absolutamente nada!

Aquilo que enxergamos para fora é exatamente igual ao que acontece para dentro. Somos ótimos em criticar o que os outros fazem de errado, mas incapazes de perceber e corrigir o que nós mesmo fazemos de errado. Somos os atores principais do filme da nossa vida, e para avaliarmos nossa atuação precisamos sair da tela e ir para a plateia.

Os exemplos são muitos. Do pedestre que caminha na ciclovia, do ciclista que não respeita a sinalização e anda contramão, do motociclista que acha que tem preferência sobre tudo, do motorista que estaciona seu veículo em duas vagas, pouco se importando se alguém vai ficar sem - e assim vai. Da prova que o aluno colou, do nome que colocou no trabalho que outros fizeram, da assinatura na lista de presença que não o seu nome. Do empresário que sonega, que engana seus clientes, que paga propina. Do cliente que não devolve o troco errado, que fura fila, que compra produto sem nota ou roubado. Do eleitor que vende o voto ou negocia benefícios futuros – e a vida segue. Será que isso não é comigo?

Por mais outro tanto que poderia continuar escrevendo penso que o problema é nosso, e não deles. A classe política é causa e efeito da sociedade egoísta que nos tornamos, aonde se dar bem é o que importa. Aliás, para mim corrupção e egoísmo andam de mãos dadas e uma é consequência da outra.

Há um vácuo entre a sociedade real e a sociedade ideal, uma distância enorme entre dois pontos e que não é uma reta. Esta distância é o tanto que  enxergo o defeito no outro,  que diminui a medida  que enxergo o defeito em mim. Íntegro e consciente das minhas fraquezas, tenho a oportunidade de me corrigir. Mas é muito difícil.

Então, quando meu senso crítico aflora e passa a disparar contra `aqueles que condeno, meu senso de responsabilidade me chuta e diz: quem é você? O que está fazendo para melhorar? Qual sua contribuição para uma sociedade mais justa?

Muitas vezes não sei o que responder. E o problema é o político.

 

 

Escrito por Fernando Baumann, 22/12/2017 às 00h31 | fernando@bba-reiki.com.br

Ainda Bem

 O ano era 2008  e Balneário Camboriú e Camboriú sofriam uma grande enchente. Àquele final de novembro estava estranho demais. Havia me programado durante alguns meses para uma viagem de bicicleta entre Porto Alegre – RS e Buenos Aires na Argentina e tinha apenas dez dias disponível. Muitos acontecimentos me provocavam a não ir. E tinha o aniversário da minha esposa no dia oito de dezembro, data na qual eu teria que estar de volta.

Meu objetivo a época era percorrer o maior trecho possível em bicicleta. Já tinha feito São Paulo a Balneário Camboriú, São Paulo ao Rio de Janeiro e Porto Alegre a Balneário Camboriú. Então nada mais lógico que dar sequência ao roteiro imaginário saindo de Porto Alegre sentido ao sul.

Muito mais que uma experiência de corpo, a viagem de bicicleta é uma experiência de espírito, como se fosse uma segunda viagem, outra que não a física. E aí justifica todas as dificuldades e apreensões vividas, e você tem certeza que fez a escolha correta.

Estando pronto, não vou desistir – conclui. E assim foi.

Depois de alguns dias pedalando desde POA, saí do Brasil por Jaguarão e entrei no Uruguai rumo à cidade de Treinta y Tres, capital do estado de mesmo nome. Naqueles rincões de pequenos vilarejos afastados por muitos quilômetros de planície, por horas nada se via a não ser o pampa e sua finitude. Eram quilômetros de uma solidão só.

Um dos hábitos que adquiri por segurança de não me perder, foi acompanhar as placas de quilometragem que estão à beira da rodovia, principalmente em locais desabitados como o que estava percorrendo: 10, 11, 12...

E então, num determinado momento do meu desafio e longo trecho de coisa alguma, passei a avistar um carro parado à beira da pista. A medida que me aproximava procurava encontrar alguém por perto do veículo. Até que mais próximo vi um homem em cima de um barranco com um celular á mão falando ao fone. Também vi que o carro estava com a tampa do compartimento do motor aberta.

Pensei em simplesmente desviar o carro e seguir adiante, mas por intuito parei minha bicicleta e perguntei se ele precisava de ajuda – um tanto desmedida minha petulância. Foi aí que surpreso ele me perguntou, em castelhano, se eu sabia qual quilômetro era aquele. Muito possivelmente ele estava solicitando socorro e, como a distância entre os pontos de referência eram muito longas, não sabia precisar exatamente a sua localização.

Foi então que falei: quilômetro 71!

Ele me agradeceu e continuou falando ao telefone. Foi então que algo incrível aconteceu: uma incontida onda de alegria me acolheu, daquelas que elevam a gente a condição de ser iluminado. Me senti flutuando sem tirar os pés do chão. Numa janela de clareza, entendi que meu gesto fez mais bem a mim que a ele, e que servir ao próximo é um ato de caridade e elevação espiritual para consigo mesmo. A melhor tradução do significado de existir.

De volta em casa no prazo previsto (antes do aniversário) e refletindo sobre tudo o que se passou, pensei: ainda bem que não permiti que fatos contrários me levassem a desistir da minha própria experiência; ainda bem que não fiquei em casa arrumando desculpas para justificar minha desistência de ir. Ainda bem.

Escrito por Fernando Baumann, 14/12/2017 às 22h28 | fernando@bba-reiki.com.br

Mestre Desconhecido

 Programa de domingo - final de semana sim, final de semana não - era ir almoçar na casa dos sogros, intercalado com meus pais. Assim dividíamos nossos compromissos. Família grande, a casa estava sempre cheia, crianças e adultos. Uma baderna só.

Mais introspectivo que os demais e envolvido em minhas leituras, tinha o hábito de ficar recolhido na sala de visitas, na parte frontal a casa, próximo a rua e a porta principal. Lá viajava sem sair da onde estava.

O almoço estava para ser servido e um cheiro contagiante de churrasco se espalhava por toda a casa. Naquela época eu ainda comia carne, que era a especialidade do meu sogro, e sem falar na maionese, sobremesas e tudo mais.

Talvez um pouco distraído pela leitura ou pela atenção ao que estava próximo de ser servido, tomei um susto quando com firmeza bateram na porta. De pronto levantei e fui a janela verificar.

Estranhamente nada vi, então abri a porta com cuidado para entender o que se passava. Foi quando percebi um homem de aparente meia idade e muito mal vestido do lado de fora do cercado, sobre a calçada. Certamente era um andarilho.

Então ele me pediu um prato de comida. De bate-pronto respondi que nada tinha pois já havíamos almoçado. Aquela resposta pronta que vem a boca sem pensar ou medir as consequências. Uma inverdade!

Foi quando ele olhou para mim com seus olhos marejados e um breve sorriso nos lábios e falou: “tudo bem, o problema da fome é meu, não seu”.

Fiquei paralisado e demorei um pouco para entender o que havia se passado. Quando acordei do meu transe o sujeito já não estava mais ali. Fui para a rua, caminhei de um lado para o outro e nada, ele sumiu.

Hoje, quando sou abordado por alguém pedindo algo, ajudo e evito julgar. Lembro sempre daquela manhã de um domingo distante e penso:

Obrigado meu Mestre desconhecido! 

Escrito por Fernando Baumann, 08/12/2017 às 09h58 | fernando@bba-reiki.com.br



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Fernando Baumann

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Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.


















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