Jornal Página 3
Coluna
Cá Pra Nós
Por Fernando Baumann

A serenidade

 Às vésperas da eleição de outubro, sinto que percorremos um curto caminho longo, que não estamos preparados para vivenciar o que ai está posto. Assim como exigimos que os partidos políticos revejam sua conduta, que façam o dever de olhar para dentro e assumir onde erraram, nós eleitores precisamos fazer o mesmo.

Me parece que estamos experimentando a democracia da pior forma possível, com divisão de classes e opiniões tão extremadas que beiram a insanidade. Ser democrático é ter a possibilidade de expressar opiniões as mais diversas, mas não é só isso. Ser democrático é também ter a capacidade de ouvir opiniões diferentes das nossas e aceita-las como são.

E não só na política. Isto está intrínseco na religião e no esporte, o futebol em especial. Até a questão de gênero virou base para acaloradas discussões. Como ser de um jeito ou de outro nos torna menos iguais. Nascemos e morremos do mesmo jeito, é só fazer uma visita a maternidade e ao cemitério para verificar.

No meu entendimento falta capacidade de diálogo, onde saber ouvir e não falar faz toda a diferença. Falta respeito por quem discorda e tolerância para quem é diferente. Aliás, não falta muito para quem é igual ficar diferente também. Tenho me sentido mal por ser empresário, branco, hétero, escolarizado, não ser portador de deficiência física e ainda não ser idoso segundo o entendimento da lei. Falo isso por que o respeito é uma relação de mão dupla.

Por fim, não observo nenhum movimento no sentido de tornar o substantivo “gratidão” como regra existencial. Agradecer por estarmos vivos, por ser quem somos e por ter as relações que temos, por fim, de poder desfrutar de um mundo interessante e cheio de possibilidade.

Pra que simplificar se dá pra complicar né? Criar confusão parece ser  bem mais interessante.

 

Escrito por Fernando Baumann, 01/10/2018 às 12h22 | fernando@bba-reiki.com.br

Os bons amigos

 Hoje um amigo desde a infância e juventude partiu.

Tínhamos um time e futebol de salão que jogava semanalmente no Guadalajara. Ele não podia faltar, porque era o único que tinha algum talento. Muito inteligente, estava sempre entre os primeiros da classe naqueles tempos de João Goulart.

Lembro da vez em que já morando em Joinville fizemos de trem o caminho entre Curitiba e Paranaguá. E noutro momento em que fomos na fazendo do seu avô em Bom Retiro. Magro e alto, devia pesar no máximo 70 quilos.

Bons tempos de juventude. Podíamos dizer que Balneário Camboriú era “nossa”. Na turma tínhamos corcel, opala, dodginho, passat e kombi. Quando a avenida Brasil terminava na avenida Atlântica, um “cotovelo” um pouco antes do início do que é hoje a avenida Beira Rio era nosso desafio, muitas vezes contornado raspando espelho com espelho.

Essa pequena e unida turma cresceu junta. Aos 18 anos fizemos nossa primeira festa conjunta de aniversário na casa do Luizão. Depois vieram outras, sendo que a última foi para fechar a fatura, aos 40 anos. Um estrago.

Todos casaram, alguns descasaram, outros tiveram filhos. Poucos se afastaram, e àquele espírito de união nunca se abalou. Ao longo dos anos vários foram os momentos de confraternização e risadas, de gozação e cumplicidade. Uma turma unida que de certa forma se protegeu. Podíamos ficar tempo sem falar, ao primeiro encontro parecia que o último contato havia sido no dia anterior.

Mas a vida segue e tudo são escolhas, sendo cada um responsável pelas suas. Razões pessoais são inquestionáveis e cada qual as faz conforme sua intensão, não cabe julgar nem lamentar. Mas ele partiu muito cedo, e nós não conseguimos ajudar. Escapou dentre nós a olhos vistos, como que escorregando das mãos. Foi seu último drible.

Repensando em todos os momentos vividos sinto que tudo valeu, que as amizades valeram e que ajudaram o moldar quem sou. Sou grato a cada um pela influência e diferença que fez e faz na minha vida. Pela bronca, pelo riso e pela cumplicidade. Isso é o que realmente importa. Pena este sentimento de gratidão surgir apenas neste momento.

Rogério, meu irmão, obrigado por tudo! Siga em paz no retorno à sua Essência. Fique bem por que aqui estamos bem.

Apenas a saudade vai se acumular.

Até mais amigão!

 

Escrito por Fernando Baumann, 25/09/2018 às 10h47 | fernando@bba-reiki.com.br

Saintly

 Fico vagando entre esperar e esperançar.

Tenho esperança em um país melhor e mais justo, com acesso a ensino de qualidade e famílias comprometidas com a educação de seus filhos. Tenho esperança na nossa mudança de compreensão com relação ao compromisso com o outro. Tenho esperança que a vaidade, o orgulho e o egoísmo sejam gradativamente dilapidados da nossa existência, quando possamos viver em comunhão. Tenho esperança que a gratidão seja a palavra primeira em nosso vocabulário.

Mas não há muito o que esperar, há muito o que fazer. Não espero que nossos governantes resolvam nossas dificuldades, não espero que o outro motorista seja gentil, não espero que meu vizinho não deposite seu lixo na frente da minha casa, e também não espero que meu colega de trabalho vá resolver o que cabe a mim. Esperar e esperançar são graficamente semelhantes, mas muito distintas em seus significados.

Sendo menos teórico e mais prático, eu tenho muita esperança que os próximos eleitos em outubro deste ano cumpram com sua missão de forma digna e adequada, melhor do que os que serão substituídos, mas não espero milagres.

O milagre para mim não vai existir porque os santos continuam os mesmos. Os santos e os fiéis.

Por mais que se fale em renovação e que os discursos ataquem as mazelas sociais, não há fórmula mágica se não houver mudança comportamental, que está longe de existir. Pego exemplo dos candidatos ao legislativo estadual e federal de nossa região, a quantidade de nomes em campanha é simplesmente incompreensível, sujeito a eleger ninguém. É a velha política travestida de novo, e o mesmo projeto de poder de sempre. E porquê? Novamente por conta da vaidade, do orgulho e do egoísmo. Não vi até agora proposta concreta a ser defendida em prol de nossa região, apenas falácias e balelas. Não há nada em discussão com a sociedade, e já está provado que super-heróis não existem.

Também o eleitor não mudou a forma de avaliar os candidatos, pois o “nome conhecido” é o mais seguro. Vale ser redundante e lembrar que o legislativo de Balneário Camboriú  em 2016 reelegeu 80% dos que concorreram à reeleição. E falamos de uma região com bom nível de esclarecimento!

Bom, quanto ao número de candidatos eu tenho mais um palpite: querem aproveitar 2018 e firmar seu nome para 2020, que é o que verdadeiramente interessa. Meu caro (e)leitor, vou deixar perguntas para você avaliar: nos enganamos ou somos enganados? Esperamos ou esperançamos?

Aí podemos voltar no segundo parágrafo e refletir sobre nossa educação e conhecimento, família e escola.

Santo sem virtude é charlatão.

Escrito por Fernando Baumann, 24/08/2018 às 10h14 | fernando@bba-reiki.com.br

A estupidez

 Tinha acabado de fazer 40 anos e comprado uma moto nova. Me achava “o cara” no auge da crise da meia idade, querendo provar não sei o que para não sei quem. Coisas de jovem senhor abestalhado.

Sempre que podia utilizava a moto para viagens. Então surgiu um compromisso na Associação Empresarial de Rio do Sul e lá fui eu em disparada com minha moto. O dia estava ótimo para andar, com céu limpo e temperatura agradável.

Não tinha pra ninguém. Eu estava possuído em cima do meu cavalo mecânico. Passando por Ascurra placas de sinalização surgiram avisando que a estrada estava em reforma, e que era para os motoristas estarem atentos. Eu nem ai continuei enrolando o cabo. Na ponte em curva sobre o rio Itajaí-açu entrei forte, parecia que a moto ia sair de baixo de mim. Os “S” na sequência da rodovia atiçaram ainda mais meu desejo insano.

Então a sequência de placas se intensificou e no início de uma longa reta um pouco antes da entrada de Ibirama percebo os veículos parando em cima da pista. Tranquilamente começo a frear a moto mas....quem diz que ela para? A traseira de um Celta branco começou a crescer no visor do meu capacete. Caramba!!!

Não tinha mais o que fazer, então usei a experiência de competição e dei uma “alicatada” no freio dianteiro, derrubando a moto que deslizou até bater no carro, e eu sair rolando pelo acostamento.

Enquanto rolava sentido acostamento pensei: será que isto está acontecendo comigo? Quando parei de rolar já estatelado no chão pensei: será que isso aconteceu comigo? Quando consegui levantar e entender o estrago na minha perna direita pensei: isso realmente aconteceu comigo!!

Bom, o primeiro sentimento pós choque foi de vergonha pela lambança que fiz. Na sequência junta uma pequena multidão querendo saber como eu estava, e outra que foi levantar a moto caída no asfalto. Interessante a comoção de todos e eu não sabendo onde enfiar a minha cara.

O carro que bati na traseira já estava um tanto detonado, e o impacto não modificou muito o estado dele. Então o motorista me deu um tapa nas costas e me desejou juízo, indo embora.

Olhando o estado da moto percebi que mesmo bastante danificada tinha condições de andar. Minha perna apesar da desconexão do joelho com o resto que tinha para baixo ainda permitia pilotar a moto. Talvez por ainda estar aquecido ou pela adrenalina me despachei sentido Rio do Sul bem “queridinho” em cima da moto.

Chegando lá o pessoal da ACIRS me levou para o hospital, onde foi constatado semi-ruptura de dois ligamentos, ruptura do ligamento cruzado anterior e leve fratura do joelho. Dali para frente foram seis meses de muita fisioterapia e tratamento para recuperar o movimento do joelho.

Na volta para Balneário de carona no veículo da Associação uma voz me soou nos ouvidos dizendo: “seu bobo, te derrubamos para salvar a tua vida. Do jeito que estava indo não ia chegar vivo no destino”. Fechei os olhos e cheio de lágrimas agradeci aos meus anjos a nova chance que recebi.

Escrito por Fernando Baumann, 17/08/2018 às 10h06 | fernando@bba-reiki.com.br

Detalhes tão pequenos

 Tinha o hábito de assistir um programa sobre desastres aéreos num canal pago. A questão que me prendia ao seriado não era a tragédia em si, mas aos fatos que levavam ela a ocorrer.

Uma das que mais me marcou foi o acidente com um dos últimos aviões concorde em operação, no aeroporto Charles de Gaulle na França no ano de 2000.  O concorde era um avião de bico fino e levemente arcado para baixo, com design marcante, o jato supersônico viajava a aproximadamente dois mil quilômetros por hora, o dobro dos jatos tradicionais. O assento custava muito caro, mas valia a pena para quem não tinha tempo a perder.

O voo 4590 da Air France entre Paris e Nova Iorque era um voo regular. Naquele 25 de julho assim que decolou explodiu, ainda no final da cabeceira da pista, sem conseguir ganhar altitude, matando todos os seus ocupantes.

Como de praxe, os restos da aeronave foram recolhidos para iniciar a investigação e determinar as causas do acidente, sempre com o objetivo de assegurar melhores condições de segurança para os voos futuros.

A primeira descoberta foi de que houve uma ruptura no tanque de combustível número 5, que cheio vazou e deu ignição à explosão. O próximo passo foi descobrir o que provocou esta ruptura. Em visita à pista de decolagem que estava fechada enquanto a perícia prosseguia, encontraram um parafuso bem na rota do pneu do trem de pouso, e pela marcação foi identificado como pertencente a um DC 10 que levantara voo instantes antes. Numa análise mais técnica e apurada perceberam que faltava uma lasca do pneu do trem de pouso do concorde.  

Na conclusão do relatório técnico a constatação da trágica sequência de fatos. Um parafuso mal apertado de outra aeronave que decolou anteriormente caiu na pista na rota da decolagem, que atingiu o pneu exatamente na posição em que rasgou um pedaço, e que esse pedaço foi projetado com velocidade exatamente na direção da asa, que furou e vazou combustível, causando a explosão.

No relatório prático, a lição de que a causa de um acidente não é apenas um único e derradeiro fato, mas sim a sequência de pequenos acontecimentos que isoladamente seriam irrelevantes, mas que no conjunto se potencializam e podem derrubar um avião.

Os detalhes! Na conversão do aprendizado, fica registrado a importância de cuidar das pequenas coisas, das decisões diárias que ao final de uma vida irão representar a relevância da existência de cada um. O caminho reto ou o caminho torto.

É tudo soma das escolhas que fizemos.

B x P = D, onde “B” é a bússola(princípios, valores e crenças),  “P” são os passos(fazer ou não fazer) e “D” é o destino.

Muito simples.

Escrito por Fernando Baumann, 13/08/2018 às 10h20 | fernando@bba-reiki.com.br

Apenas provas de amor

 Quando levanto de manhã, ato contínuo a higiene básica é ler as principais notícias nos jornais que tenho acesso. Demoro um bom tempo nisso. O Página 3 de hoje fala sobre importantes obras viárias licitadas pela prefeitura municipal de Balneário Camboriú, que visam melhorar o fluxo de veículos. Li e guardei a informação no “meu” HD.

Moro na região da Quarta Avenida e trabalho no bairro Nova Esperança. Sempre que possível vou de bicicleta, por três objetivos: ativar meu corpo, não poluir e colaborar com um carro a menos. Hoje foi um desses dias. Temperatura agradável e céu claro atiçaram meu desejo de pedalar, sem falar que não tinha nenhum compromisso fora da empresa.

Este trecho demora em média 15 minutos de bicicleta, no que aproveito para repassar minha agenda ou então para refletir sobre qualquer assunto, deixando minha mente livre para fluir por onde desejar.

Já na Quarta Avenida indo para a minha empresa, nos cruzamentos com semáforos, deparo com a dificuldade por conta de não haver sinalização para as bicicletas. Em que momento eu posso passar? Passo quando está aberto para a avenida ou para quando está aberto para a rua transversal? Então busco no “meu” HD a informação que li no Página 3 hoje de manhã. Novas vias, ligações, novas ruas...

As eleições municipais de 2016 já ocorreram num cenário de indignação e mudanças. Lembro que os primeiros movimentos mais substanciais aconteceram em 2013. Quando fomos às urnas já falávamos de uma nova consciência e de um novo perfil dos postulantes aos cargos públicos, e também da melhoria na qualidade das escolhas e de uma nova ordem pública.

Novas ideias, novo sangue e juventude.

Tento muito perceber mudanças, mas não consigo. Talvez seja consequência da minha visão míope ou da minha incapacidade de entender as entranhas do poder e a dificuldade de movimentar este mastodonte.

Ouço e leio sobre mega projetos daqui e dali, mas não vejo nada com relação aos detalhes, ao carinho que os munícipes merecem receber nas pequenas ações. Vou exemplificar: apesar de existir em boa quantidade, as ciclovias são péssimas, mal projetadas e mal executadas(a recém inaugurada no prolongamento da Quarta Avenida empossa água); as calçadas não tem cuidado algum, cheias de desníveis e inclinações, sem falar nas lixeiras plantadas em cima delas, um risco eminente; sinaleiras sem estágio para travessia de pedestres; pedintes e desocupados por todos os cantos; venda de produtos em sinaleiras, farto consumo de drogas na orla  e assim vai. Tenho uma relação enorme para publicar se necessário, fáceis de executar, é só querer fazer.

Mas aí vem o ponto central deste texto. Aonde estão as figuras públicas responsáveis por isso? Àquelas eleitas em 2016 para uma nova ordem? Cadê os vereadores para fiscalizar, que é a principal função deles? Ah desculpe, não havia lembrado, estão preocupados em conceder homenagens e participar da próxima corrida eleitoral. Realmente uma grande atribuição para este tempo que exige mudanças urgentes.

Sou um eterno otimista e sempre acredito que, mesmo piorando, as coisas podem melhorar. Tenho muita alegria em viver numa das melhores regiões que, apesar de tudo, está a frente de muitas outras. Mas apenas novas ideias não bastam, é preciso ter novas atitudes. E então se está bom vamos cuidar para não piorar. 

Escrito por Fernando Baumann, 08/08/2018 às 09h52 | fernando@bba-reiki.com.br



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Fernando Baumann

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Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.


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Por Fernando Baumann

A serenidade

 Às vésperas da eleição de outubro, sinto que percorremos um curto caminho longo, que não estamos preparados para vivenciar o que ai está posto. Assim como exigimos que os partidos políticos revejam sua conduta, que façam o dever de olhar para dentro e assumir onde erraram, nós eleitores precisamos fazer o mesmo.

Me parece que estamos experimentando a democracia da pior forma possível, com divisão de classes e opiniões tão extremadas que beiram a insanidade. Ser democrático é ter a possibilidade de expressar opiniões as mais diversas, mas não é só isso. Ser democrático é também ter a capacidade de ouvir opiniões diferentes das nossas e aceita-las como são.

E não só na política. Isto está intrínseco na religião e no esporte, o futebol em especial. Até a questão de gênero virou base para acaloradas discussões. Como ser de um jeito ou de outro nos torna menos iguais. Nascemos e morremos do mesmo jeito, é só fazer uma visita a maternidade e ao cemitério para verificar.

No meu entendimento falta capacidade de diálogo, onde saber ouvir e não falar faz toda a diferença. Falta respeito por quem discorda e tolerância para quem é diferente. Aliás, não falta muito para quem é igual ficar diferente também. Tenho me sentido mal por ser empresário, branco, hétero, escolarizado, não ser portador de deficiência física e ainda não ser idoso segundo o entendimento da lei. Falo isso por que o respeito é uma relação de mão dupla.

Por fim, não observo nenhum movimento no sentido de tornar o substantivo “gratidão” como regra existencial. Agradecer por estarmos vivos, por ser quem somos e por ter as relações que temos, por fim, de poder desfrutar de um mundo interessante e cheio de possibilidade.

Pra que simplificar se dá pra complicar né? Criar confusão parece ser  bem mais interessante.

 

Escrito por Fernando Baumann, 01/10/2018 às 12h22 | fernando@bba-reiki.com.br

Os bons amigos

 Hoje um amigo desde a infância e juventude partiu.

Tínhamos um time e futebol de salão que jogava semanalmente no Guadalajara. Ele não podia faltar, porque era o único que tinha algum talento. Muito inteligente, estava sempre entre os primeiros da classe naqueles tempos de João Goulart.

Lembro da vez em que já morando em Joinville fizemos de trem o caminho entre Curitiba e Paranaguá. E noutro momento em que fomos na fazendo do seu avô em Bom Retiro. Magro e alto, devia pesar no máximo 70 quilos.

Bons tempos de juventude. Podíamos dizer que Balneário Camboriú era “nossa”. Na turma tínhamos corcel, opala, dodginho, passat e kombi. Quando a avenida Brasil terminava na avenida Atlântica, um “cotovelo” um pouco antes do início do que é hoje a avenida Beira Rio era nosso desafio, muitas vezes contornado raspando espelho com espelho.

Essa pequena e unida turma cresceu junta. Aos 18 anos fizemos nossa primeira festa conjunta de aniversário na casa do Luizão. Depois vieram outras, sendo que a última foi para fechar a fatura, aos 40 anos. Um estrago.

Todos casaram, alguns descasaram, outros tiveram filhos. Poucos se afastaram, e àquele espírito de união nunca se abalou. Ao longo dos anos vários foram os momentos de confraternização e risadas, de gozação e cumplicidade. Uma turma unida que de certa forma se protegeu. Podíamos ficar tempo sem falar, ao primeiro encontro parecia que o último contato havia sido no dia anterior.

Mas a vida segue e tudo são escolhas, sendo cada um responsável pelas suas. Razões pessoais são inquestionáveis e cada qual as faz conforme sua intensão, não cabe julgar nem lamentar. Mas ele partiu muito cedo, e nós não conseguimos ajudar. Escapou dentre nós a olhos vistos, como que escorregando das mãos. Foi seu último drible.

Repensando em todos os momentos vividos sinto que tudo valeu, que as amizades valeram e que ajudaram o moldar quem sou. Sou grato a cada um pela influência e diferença que fez e faz na minha vida. Pela bronca, pelo riso e pela cumplicidade. Isso é o que realmente importa. Pena este sentimento de gratidão surgir apenas neste momento.

Rogério, meu irmão, obrigado por tudo! Siga em paz no retorno à sua Essência. Fique bem por que aqui estamos bem.

Apenas a saudade vai se acumular.

Até mais amigão!

 

Escrito por Fernando Baumann, 25/09/2018 às 10h47 | fernando@bba-reiki.com.br

Saintly

 Fico vagando entre esperar e esperançar.

Tenho esperança em um país melhor e mais justo, com acesso a ensino de qualidade e famílias comprometidas com a educação de seus filhos. Tenho esperança na nossa mudança de compreensão com relação ao compromisso com o outro. Tenho esperança que a vaidade, o orgulho e o egoísmo sejam gradativamente dilapidados da nossa existência, quando possamos viver em comunhão. Tenho esperança que a gratidão seja a palavra primeira em nosso vocabulário.

Mas não há muito o que esperar, há muito o que fazer. Não espero que nossos governantes resolvam nossas dificuldades, não espero que o outro motorista seja gentil, não espero que meu vizinho não deposite seu lixo na frente da minha casa, e também não espero que meu colega de trabalho vá resolver o que cabe a mim. Esperar e esperançar são graficamente semelhantes, mas muito distintas em seus significados.

Sendo menos teórico e mais prático, eu tenho muita esperança que os próximos eleitos em outubro deste ano cumpram com sua missão de forma digna e adequada, melhor do que os que serão substituídos, mas não espero milagres.

O milagre para mim não vai existir porque os santos continuam os mesmos. Os santos e os fiéis.

Por mais que se fale em renovação e que os discursos ataquem as mazelas sociais, não há fórmula mágica se não houver mudança comportamental, que está longe de existir. Pego exemplo dos candidatos ao legislativo estadual e federal de nossa região, a quantidade de nomes em campanha é simplesmente incompreensível, sujeito a eleger ninguém. É a velha política travestida de novo, e o mesmo projeto de poder de sempre. E porquê? Novamente por conta da vaidade, do orgulho e do egoísmo. Não vi até agora proposta concreta a ser defendida em prol de nossa região, apenas falácias e balelas. Não há nada em discussão com a sociedade, e já está provado que super-heróis não existem.

Também o eleitor não mudou a forma de avaliar os candidatos, pois o “nome conhecido” é o mais seguro. Vale ser redundante e lembrar que o legislativo de Balneário Camboriú  em 2016 reelegeu 80% dos que concorreram à reeleição. E falamos de uma região com bom nível de esclarecimento!

Bom, quanto ao número de candidatos eu tenho mais um palpite: querem aproveitar 2018 e firmar seu nome para 2020, que é o que verdadeiramente interessa. Meu caro (e)leitor, vou deixar perguntas para você avaliar: nos enganamos ou somos enganados? Esperamos ou esperançamos?

Aí podemos voltar no segundo parágrafo e refletir sobre nossa educação e conhecimento, família e escola.

Santo sem virtude é charlatão.

Escrito por Fernando Baumann, 24/08/2018 às 10h14 | fernando@bba-reiki.com.br

A estupidez

 Tinha acabado de fazer 40 anos e comprado uma moto nova. Me achava “o cara” no auge da crise da meia idade, querendo provar não sei o que para não sei quem. Coisas de jovem senhor abestalhado.

Sempre que podia utilizava a moto para viagens. Então surgiu um compromisso na Associação Empresarial de Rio do Sul e lá fui eu em disparada com minha moto. O dia estava ótimo para andar, com céu limpo e temperatura agradável.

Não tinha pra ninguém. Eu estava possuído em cima do meu cavalo mecânico. Passando por Ascurra placas de sinalização surgiram avisando que a estrada estava em reforma, e que era para os motoristas estarem atentos. Eu nem ai continuei enrolando o cabo. Na ponte em curva sobre o rio Itajaí-açu entrei forte, parecia que a moto ia sair de baixo de mim. Os “S” na sequência da rodovia atiçaram ainda mais meu desejo insano.

Então a sequência de placas se intensificou e no início de uma longa reta um pouco antes da entrada de Ibirama percebo os veículos parando em cima da pista. Tranquilamente começo a frear a moto mas....quem diz que ela para? A traseira de um Celta branco começou a crescer no visor do meu capacete. Caramba!!!

Não tinha mais o que fazer, então usei a experiência de competição e dei uma “alicatada” no freio dianteiro, derrubando a moto que deslizou até bater no carro, e eu sair rolando pelo acostamento.

Enquanto rolava sentido acostamento pensei: será que isto está acontecendo comigo? Quando parei de rolar já estatelado no chão pensei: será que isso aconteceu comigo? Quando consegui levantar e entender o estrago na minha perna direita pensei: isso realmente aconteceu comigo!!

Bom, o primeiro sentimento pós choque foi de vergonha pela lambança que fiz. Na sequência junta uma pequena multidão querendo saber como eu estava, e outra que foi levantar a moto caída no asfalto. Interessante a comoção de todos e eu não sabendo onde enfiar a minha cara.

O carro que bati na traseira já estava um tanto detonado, e o impacto não modificou muito o estado dele. Então o motorista me deu um tapa nas costas e me desejou juízo, indo embora.

Olhando o estado da moto percebi que mesmo bastante danificada tinha condições de andar. Minha perna apesar da desconexão do joelho com o resto que tinha para baixo ainda permitia pilotar a moto. Talvez por ainda estar aquecido ou pela adrenalina me despachei sentido Rio do Sul bem “queridinho” em cima da moto.

Chegando lá o pessoal da ACIRS me levou para o hospital, onde foi constatado semi-ruptura de dois ligamentos, ruptura do ligamento cruzado anterior e leve fratura do joelho. Dali para frente foram seis meses de muita fisioterapia e tratamento para recuperar o movimento do joelho.

Na volta para Balneário de carona no veículo da Associação uma voz me soou nos ouvidos dizendo: “seu bobo, te derrubamos para salvar a tua vida. Do jeito que estava indo não ia chegar vivo no destino”. Fechei os olhos e cheio de lágrimas agradeci aos meus anjos a nova chance que recebi.

Escrito por Fernando Baumann, 17/08/2018 às 10h06 | fernando@bba-reiki.com.br

Detalhes tão pequenos

 Tinha o hábito de assistir um programa sobre desastres aéreos num canal pago. A questão que me prendia ao seriado não era a tragédia em si, mas aos fatos que levavam ela a ocorrer.

Uma das que mais me marcou foi o acidente com um dos últimos aviões concorde em operação, no aeroporto Charles de Gaulle na França no ano de 2000.  O concorde era um avião de bico fino e levemente arcado para baixo, com design marcante, o jato supersônico viajava a aproximadamente dois mil quilômetros por hora, o dobro dos jatos tradicionais. O assento custava muito caro, mas valia a pena para quem não tinha tempo a perder.

O voo 4590 da Air France entre Paris e Nova Iorque era um voo regular. Naquele 25 de julho assim que decolou explodiu, ainda no final da cabeceira da pista, sem conseguir ganhar altitude, matando todos os seus ocupantes.

Como de praxe, os restos da aeronave foram recolhidos para iniciar a investigação e determinar as causas do acidente, sempre com o objetivo de assegurar melhores condições de segurança para os voos futuros.

A primeira descoberta foi de que houve uma ruptura no tanque de combustível número 5, que cheio vazou e deu ignição à explosão. O próximo passo foi descobrir o que provocou esta ruptura. Em visita à pista de decolagem que estava fechada enquanto a perícia prosseguia, encontraram um parafuso bem na rota do pneu do trem de pouso, e pela marcação foi identificado como pertencente a um DC 10 que levantara voo instantes antes. Numa análise mais técnica e apurada perceberam que faltava uma lasca do pneu do trem de pouso do concorde.  

Na conclusão do relatório técnico a constatação da trágica sequência de fatos. Um parafuso mal apertado de outra aeronave que decolou anteriormente caiu na pista na rota da decolagem, que atingiu o pneu exatamente na posição em que rasgou um pedaço, e que esse pedaço foi projetado com velocidade exatamente na direção da asa, que furou e vazou combustível, causando a explosão.

No relatório prático, a lição de que a causa de um acidente não é apenas um único e derradeiro fato, mas sim a sequência de pequenos acontecimentos que isoladamente seriam irrelevantes, mas que no conjunto se potencializam e podem derrubar um avião.

Os detalhes! Na conversão do aprendizado, fica registrado a importância de cuidar das pequenas coisas, das decisões diárias que ao final de uma vida irão representar a relevância da existência de cada um. O caminho reto ou o caminho torto.

É tudo soma das escolhas que fizemos.

B x P = D, onde “B” é a bússola(princípios, valores e crenças),  “P” são os passos(fazer ou não fazer) e “D” é o destino.

Muito simples.

Escrito por Fernando Baumann, 13/08/2018 às 10h20 | fernando@bba-reiki.com.br

Apenas provas de amor

 Quando levanto de manhã, ato contínuo a higiene básica é ler as principais notícias nos jornais que tenho acesso. Demoro um bom tempo nisso. O Página 3 de hoje fala sobre importantes obras viárias licitadas pela prefeitura municipal de Balneário Camboriú, que visam melhorar o fluxo de veículos. Li e guardei a informação no “meu” HD.

Moro na região da Quarta Avenida e trabalho no bairro Nova Esperança. Sempre que possível vou de bicicleta, por três objetivos: ativar meu corpo, não poluir e colaborar com um carro a menos. Hoje foi um desses dias. Temperatura agradável e céu claro atiçaram meu desejo de pedalar, sem falar que não tinha nenhum compromisso fora da empresa.

Este trecho demora em média 15 minutos de bicicleta, no que aproveito para repassar minha agenda ou então para refletir sobre qualquer assunto, deixando minha mente livre para fluir por onde desejar.

Já na Quarta Avenida indo para a minha empresa, nos cruzamentos com semáforos, deparo com a dificuldade por conta de não haver sinalização para as bicicletas. Em que momento eu posso passar? Passo quando está aberto para a avenida ou para quando está aberto para a rua transversal? Então busco no “meu” HD a informação que li no Página 3 hoje de manhã. Novas vias, ligações, novas ruas...

As eleições municipais de 2016 já ocorreram num cenário de indignação e mudanças. Lembro que os primeiros movimentos mais substanciais aconteceram em 2013. Quando fomos às urnas já falávamos de uma nova consciência e de um novo perfil dos postulantes aos cargos públicos, e também da melhoria na qualidade das escolhas e de uma nova ordem pública.

Novas ideias, novo sangue e juventude.

Tento muito perceber mudanças, mas não consigo. Talvez seja consequência da minha visão míope ou da minha incapacidade de entender as entranhas do poder e a dificuldade de movimentar este mastodonte.

Ouço e leio sobre mega projetos daqui e dali, mas não vejo nada com relação aos detalhes, ao carinho que os munícipes merecem receber nas pequenas ações. Vou exemplificar: apesar de existir em boa quantidade, as ciclovias são péssimas, mal projetadas e mal executadas(a recém inaugurada no prolongamento da Quarta Avenida empossa água); as calçadas não tem cuidado algum, cheias de desníveis e inclinações, sem falar nas lixeiras plantadas em cima delas, um risco eminente; sinaleiras sem estágio para travessia de pedestres; pedintes e desocupados por todos os cantos; venda de produtos em sinaleiras, farto consumo de drogas na orla  e assim vai. Tenho uma relação enorme para publicar se necessário, fáceis de executar, é só querer fazer.

Mas aí vem o ponto central deste texto. Aonde estão as figuras públicas responsáveis por isso? Àquelas eleitas em 2016 para uma nova ordem? Cadê os vereadores para fiscalizar, que é a principal função deles? Ah desculpe, não havia lembrado, estão preocupados em conceder homenagens e participar da próxima corrida eleitoral. Realmente uma grande atribuição para este tempo que exige mudanças urgentes.

Sou um eterno otimista e sempre acredito que, mesmo piorando, as coisas podem melhorar. Tenho muita alegria em viver numa das melhores regiões que, apesar de tudo, está a frente de muitas outras. Mas apenas novas ideias não bastam, é preciso ter novas atitudes. E então se está bom vamos cuidar para não piorar. 

Escrito por Fernando Baumann, 08/08/2018 às 09h52 | fernando@bba-reiki.com.br



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Fernando Baumann

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Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.


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