Jornal Página 3
Coluna
Cá Pra Nós
Por Fernando Baumann

Sobre verdades

 Nossa cidade é destaque em aparências. Talvez pela praia ou pelo clima, ou então pelo multiculturalismo, e também pela vida noturna. Possivelmente tudo isso junto e mais algumas coisas que não consigo alcançar.

O culto ao corpo encontra aqui forte adesão, junto com veículos espetaculares e apartamentos deslumbrantes. Balneário é lugar para aparecer e causar. Conheci algumas pessoas que em sua cidade de origem levavam vida simples e regrada, e que aqui se soltavam. Algo errado com isso? Acho que não, a “vibe” aqui é outra. E também os carnês na gaveta não importam, isso ninguém vê.

Quando comecei a usar bicicleta em meus deslocamentos diários, muito antes de virar moda e ter ciclovias, houve alguns conhecidos que me ligaram perguntando se eu estava precisando de ajuda, como se o veículo falasse da minha situação financeira. Eu ria e agradecia, dizendo que tinha muito pouco, mas o suficiente para viver com dignidade.

Teve inclusive uma passagem muito engraçada. Numa transmissão de presidência de uma importante entidade que já dirigi, realizada num hotel bem bacana aqui de Balneário, fui de bicicleta pela facilidade do estacionamento, já que o evento era em área central da cidade. Chegando lá de terno e gravata pretos o manobrista olhou para mim e num movimento rápido bateu dois dedos em cima do relógio de pulso e disse: “você está atrasado, os garçons já estão servindo os convidados”, e me encaminhou pela porta de serviços para um rápido acesso ao local de trabalho. Não falei nada e entrei no clima, me divertindo com a situação. Pena que no final da noite fiquei sem as gorjetas!

Não quero aqui impor meu olhar sobre o tema, pois cada um o faz conforme a sua medida. Ter ou ser. Ser ou ter. Cada um decide o seu caminho.

Essa é apenas a minha percepção de um mundo cada vez mais visual que valoriza posses antes de virtudes.

Escrito por Fernando Baumann, 16/11/2018 às 17h45 | fernando@bba-reiki.com.br

Pensando em ser

Era uma vez três sócios que tinham negócios diversos espalhados por várias regiões do país. Por necessidade de deslocamento rápido viajavam com frequência em aeronave própria.

Até que um dia, no interior do Mato Grosso sobrevoando uma de suas fazendas, o avião tem uma pane, perde altitude e cai no pasto limpo, deslizando “de barriga” por breve distância, parando em cima de uma cerca de arame farpado e pilastras de concreto.

Exceto um passageiro, todos os outros quatro e o piloto incluso perderam a vida no acidente. O sobrevivente teve apenas leve escoriação no lado esquerdo da cabeça, com perda de parte da orelha e couro cabeludo, provocado por uma das pilastras da cerca de arame farpado. A questão de 5 milímetros a mais seria o suficiente para acertar a fonte e provavelmente lhe ceifar a vida, como os demais.

Cinco milímetros, a fração de um metro, menos que a espessura de uma caneta salvou àquele homem. A vida na borda de uma pilastra de concreto, sensível, tênue e breve. Detalhes tão pequenos que decidiram o seu destino.

O sobrevivente jamais foi o mesmo. A dor da perda de pessoas tão próximas lhe custou muito sofrimento.

Entretanto, este evento lhe mostrou o quão frágil era, o tanto de tempo que desperdiçava com coisas inúteis, achando que tudo estava sob o seu controle e que sua verdade era absoluta.

Uma tragédia revestida de oportunidade para corrigir o rumo de sua vida, o ocaso do astro eu. Assim, em primeira pessoa.

Escrito por Fernando Baumann, 09/11/2018 às 17h51 | fernando@bba-reiki.com.br

A vigilância

 Acordei assustado com índios atacando a nossa casa. Ela era de madeira e o impacto das flechas produzia sons ensurdecedores. Estava sozinho naquele momento.

O medo era tanto que me escondi em baixo do cobertor e enrijeci meu corpo para não ser descoberto. Fiquei desta forma por tanto tempo que nem sei o quanto.

Desesperado, pensava como havia sido abandonado daquele jeito. Como que puderam fazer isso comigo? Nem fui eu que os provoquei, aliás, não havia feito nada que os motivasse a isso, que eu lembrasse. Minha família também sempre se deu bem com todos e tinha bons amigos. Então por que?

O ataque não cessava, ora menos intenso ora mais intenso. Pela quantidade eu imaginava que devia ser mais de uma tribo. Meu queixo doía por conta da tensão nervosa, só não consegui dizer isso para a minha bexiga, que em determinado tempo decidiu espontaneamente liberar o líquido acondicionado, borrando lençol, cobertor e tudo mais.

Por vezes junto com os estalos ao fundo vinha o som de um uivo distante. Esperava que a qualquer momento a parede fosse derrubada e o cacique entrasse triunfante naquele local e me fizesse refém, depois levado a sua tribo onde seria escalpelado para divertimento deles.

Quanta tensão!!

Então amanhece o dia e vejo minha mãe se levantando da cama ao lado. O que aconteceu? Onde estão os índios, o cacique e o ataque? Ela vem em minha direção e me dá um reconfortante beijo. Assustado e choroso conto a ela a minha experiência, com a linguagem que conhecia na época. Ela também percebeu o estrago na cama.

Então carinhosamente ela me pega no colo e conta que naquela noite deu um vento muito forte na nossa cidade. Me leva para fora de casa e mostra o grande coqueiro que havia ao lado da nossa garagem, que era ao lado do nosso quarto, e que com o vento os coquinhos caíram em cima do telhado, provocando todo aquele barulho.

Um pouco mais aliviado eu a abracei com força, tendo certeza naquele momento de que ela jamais me abandonaria. O amor dela era inquestionável, mas a história do vento e dos coquinhos não me convenceu muito, por que tem certas coisas que adulto não entende.

Isso foi lá pelo ano de 1972, em nossa casa defronte à delegacia na rua 800, um beco. Dali para traz era só mato, para mim uma floresta, e com certeza lá dentro tinha muito índio. Ah, tinha sim!

Escrito por Fernando Baumann, 01/11/2018 às 10h41 | fernando@bba-reiki.com.br

O tempo não para

 

 

É difícil se dar conta disso. Embalado pelas atribuições diárias vivemos dia após dia sem se dar conta de que o tempo não para e as coisas mudam. Aliás, de todas as certezas que tenho essa é a mais certa: tudo muda; e como!

Nunca simpatizei com espelhos, mas recentemente em rápida passada pela frente de um de grandes dimensões me ative instantes para me observar. Sim, as coisas mudam. Tive a sensação de que a imagem refletida não era a minha. Até achei que fosse uma “fake” de mim mesmo. Mas não era, aquela jaca diante dos meus olhos era eu mesmo. Eu mexia a mão, ela também. Dei pulinhos, ela também. Mostrei a língua pra ela e ela ao mesmo tempo pra mim.

Triste constatação.

Aí volta uma antiga reflexão de grande valia: qual o meu maior patrimônio, àquilo que de fato é mais importante para mim? Família, trabalho, saúde, dinheiro, sexo, amigos ou poder? Pois é, nada disso está em primeiro lugar, por mais que haja defesa contrária. Nem meu fusca ou bicicletas são tão importantes.

O mais importante, àquilo que de fato nos dá condição de exercer todas àquelas ações anteriores é o momento presente, o fato de estarmos aqui e agora. Estar vivo, isto é o mais importante, o resto é consequência.

E o que estamos fazendo com esse tempo? Qual o uso que damos ao bem mais importante que temos, a vida? Olha só, quando fazemos aniversário comemoramos por mais um ano de vida, mas quero aqui dizer que não é “mais um ano”, é “menos um ano”. É como o tanque de combustível de um automóvel. Quando nascemos o tanque está cheio, e assim que entramos na reserva e o combustível acaba Papai do céu nos chama de volta. O tempo de cada um é o tamanho do seu tanque.

Senhores da guerra, da bravata e da prepotência se encontram hoje em algum lugar esquecidos, dependendo de outros para sobreviver. Como o sal corrói o aço, o tempo corrói a vaidade, o orgulho e o egoísmo.

Sou pai e o amor que sinto pelos meus filhos não permite julgá-los. Se sou humano e pequeno diante do amor que o Criador tem por mim, então posso acreditar que ele mais que eu será incapaz de me julgar, mas certamente irá me perguntar o que fiz com o tempo que ele me concedeu, ai f....

Observe aqui a beleza da criação. O bem mais significativo que nos foi concedido por graça Divina não é necessariamente palpável. O tempo, que não é possível engarrafar ou armazenar de outra forma, esvaia-se segundo a segundo, queiramos ou não.

A prova é que tudo muda, o tempo é o senhor da mudança e o espelho é o vilão da história.

Quebrei o espelho!

 

Escrito por Fernando Baumann, 26/10/2018 às 17h02 | fernando@bba-reiki.com.br

Pobres homens bons

 Levado pelo momento, onde ataques morais ganham relevância subjugando a beleza da criação humana, estava eu buscando entender qual o nosso elemento vital, àquilo que de fato nos caracteriza, que nos faz ser bons ou não, se é que isso existe.

Entendo por crença particular que todos os seres são bons. Trazemos isto em nossa característica essencial, no sopro existencial da origem. Talvez a natureza, a combinação específica de qualidades e não qualidades, seja o ponto de inflexão.

Mas como esta natureza se compõe? Não sei exatamente, mas penso que seja um somatório de muitas variáveis difíceis de se repetir mais de uma vez. Para começar, a razão pela qual cada um nasceu, que entendo diferente dado o nível de evolução individual. Depois vem a herança genética e histórica da família. Também a educação (princípios, valores e limites) que cada um recebeu. Por fim o ambiente onde tudo isso se desenvolveu, se terra fértil ou arrasada.

Numa comparação, arrisco a dizer que a essência é o veículo, a natureza é o motorista e o propósito é o destino. Com a natureza consolidada, seguimos então o caminho em busca do nosso propósito, desconhecendo o outro veículo que está ao lado.

 Então quem é cada um de nós para julgar o outro, para apontar o que é certo ou errado, classificando os bons e os não bons? Claro, tudo em sua devida proporção.

Ataques verbais que objetivam desconstruir a conduta moral de oponentes me parece muito mais uma reação a incapacidade de discutir ideias e pontos de vista do que propriamente um alerta sobre possíveis ameaças comportamentais. Eu entendo o ataque como uma fraqueza, o avanço sobre uma ameaça.

O ringue eleitoral expõe o apodrecimento comportamental das relações coletivas. Mas também não é apenas neste ambiente. Vivemos uma sociedade histérica e doentia que gosta de sangue e se alimenta da carniça ética e moral, àquilo que sobrou de nós.

Mas a essência é pura e a natureza é manipulável. Apesar dos gladiadores modernos, continuo acreditando que somos todos bons. Ruim é o que fazemos com isso.

 

Escrito por Fernando Baumann, 19/10/2018 às 13h21 | fernando@bba-reiki.com.br

Nuances

 Percebo, olho, desconfio,

A forte presença de enxofre no ar,

Pólvora na mão denuncia,

A ideia agora é matar.

 

Matar a opinião alheia,

Porque a verdade comigo está,

De jeito nenhum eu aceito,

O que o outro de mim discordar.

 

Tempos estranhos, tudo parece fora do lugar;

A justa forma sobreposta ao padrão,

onde o padrão fora de moda está.

 

Amigos te enquadram querendo saber de que lado está,

Como se fosse possível construir um país,

Tomando gosto de cá ou de lá.

 

 

 

Escrito por Fernando Baumann, 10/10/2018 às 15h11 | fernando@bba-reiki.com.br



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Fernando Baumann

Assina a coluna Cá Pra Nós

Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.


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Por Fernando Baumann

Sobre verdades

 Nossa cidade é destaque em aparências. Talvez pela praia ou pelo clima, ou então pelo multiculturalismo, e também pela vida noturna. Possivelmente tudo isso junto e mais algumas coisas que não consigo alcançar.

O culto ao corpo encontra aqui forte adesão, junto com veículos espetaculares e apartamentos deslumbrantes. Balneário é lugar para aparecer e causar. Conheci algumas pessoas que em sua cidade de origem levavam vida simples e regrada, e que aqui se soltavam. Algo errado com isso? Acho que não, a “vibe” aqui é outra. E também os carnês na gaveta não importam, isso ninguém vê.

Quando comecei a usar bicicleta em meus deslocamentos diários, muito antes de virar moda e ter ciclovias, houve alguns conhecidos que me ligaram perguntando se eu estava precisando de ajuda, como se o veículo falasse da minha situação financeira. Eu ria e agradecia, dizendo que tinha muito pouco, mas o suficiente para viver com dignidade.

Teve inclusive uma passagem muito engraçada. Numa transmissão de presidência de uma importante entidade que já dirigi, realizada num hotel bem bacana aqui de Balneário, fui de bicicleta pela facilidade do estacionamento, já que o evento era em área central da cidade. Chegando lá de terno e gravata pretos o manobrista olhou para mim e num movimento rápido bateu dois dedos em cima do relógio de pulso e disse: “você está atrasado, os garçons já estão servindo os convidados”, e me encaminhou pela porta de serviços para um rápido acesso ao local de trabalho. Não falei nada e entrei no clima, me divertindo com a situação. Pena que no final da noite fiquei sem as gorjetas!

Não quero aqui impor meu olhar sobre o tema, pois cada um o faz conforme a sua medida. Ter ou ser. Ser ou ter. Cada um decide o seu caminho.

Essa é apenas a minha percepção de um mundo cada vez mais visual que valoriza posses antes de virtudes.

Escrito por Fernando Baumann, 16/11/2018 às 17h45 | fernando@bba-reiki.com.br

Pensando em ser

Era uma vez três sócios que tinham negócios diversos espalhados por várias regiões do país. Por necessidade de deslocamento rápido viajavam com frequência em aeronave própria.

Até que um dia, no interior do Mato Grosso sobrevoando uma de suas fazendas, o avião tem uma pane, perde altitude e cai no pasto limpo, deslizando “de barriga” por breve distância, parando em cima de uma cerca de arame farpado e pilastras de concreto.

Exceto um passageiro, todos os outros quatro e o piloto incluso perderam a vida no acidente. O sobrevivente teve apenas leve escoriação no lado esquerdo da cabeça, com perda de parte da orelha e couro cabeludo, provocado por uma das pilastras da cerca de arame farpado. A questão de 5 milímetros a mais seria o suficiente para acertar a fonte e provavelmente lhe ceifar a vida, como os demais.

Cinco milímetros, a fração de um metro, menos que a espessura de uma caneta salvou àquele homem. A vida na borda de uma pilastra de concreto, sensível, tênue e breve. Detalhes tão pequenos que decidiram o seu destino.

O sobrevivente jamais foi o mesmo. A dor da perda de pessoas tão próximas lhe custou muito sofrimento.

Entretanto, este evento lhe mostrou o quão frágil era, o tanto de tempo que desperdiçava com coisas inúteis, achando que tudo estava sob o seu controle e que sua verdade era absoluta.

Uma tragédia revestida de oportunidade para corrigir o rumo de sua vida, o ocaso do astro eu. Assim, em primeira pessoa.

Escrito por Fernando Baumann, 09/11/2018 às 17h51 | fernando@bba-reiki.com.br

A vigilância

 Acordei assustado com índios atacando a nossa casa. Ela era de madeira e o impacto das flechas produzia sons ensurdecedores. Estava sozinho naquele momento.

O medo era tanto que me escondi em baixo do cobertor e enrijeci meu corpo para não ser descoberto. Fiquei desta forma por tanto tempo que nem sei o quanto.

Desesperado, pensava como havia sido abandonado daquele jeito. Como que puderam fazer isso comigo? Nem fui eu que os provoquei, aliás, não havia feito nada que os motivasse a isso, que eu lembrasse. Minha família também sempre se deu bem com todos e tinha bons amigos. Então por que?

O ataque não cessava, ora menos intenso ora mais intenso. Pela quantidade eu imaginava que devia ser mais de uma tribo. Meu queixo doía por conta da tensão nervosa, só não consegui dizer isso para a minha bexiga, que em determinado tempo decidiu espontaneamente liberar o líquido acondicionado, borrando lençol, cobertor e tudo mais.

Por vezes junto com os estalos ao fundo vinha o som de um uivo distante. Esperava que a qualquer momento a parede fosse derrubada e o cacique entrasse triunfante naquele local e me fizesse refém, depois levado a sua tribo onde seria escalpelado para divertimento deles.

Quanta tensão!!

Então amanhece o dia e vejo minha mãe se levantando da cama ao lado. O que aconteceu? Onde estão os índios, o cacique e o ataque? Ela vem em minha direção e me dá um reconfortante beijo. Assustado e choroso conto a ela a minha experiência, com a linguagem que conhecia na época. Ela também percebeu o estrago na cama.

Então carinhosamente ela me pega no colo e conta que naquela noite deu um vento muito forte na nossa cidade. Me leva para fora de casa e mostra o grande coqueiro que havia ao lado da nossa garagem, que era ao lado do nosso quarto, e que com o vento os coquinhos caíram em cima do telhado, provocando todo aquele barulho.

Um pouco mais aliviado eu a abracei com força, tendo certeza naquele momento de que ela jamais me abandonaria. O amor dela era inquestionável, mas a história do vento e dos coquinhos não me convenceu muito, por que tem certas coisas que adulto não entende.

Isso foi lá pelo ano de 1972, em nossa casa defronte à delegacia na rua 800, um beco. Dali para traz era só mato, para mim uma floresta, e com certeza lá dentro tinha muito índio. Ah, tinha sim!

Escrito por Fernando Baumann, 01/11/2018 às 10h41 | fernando@bba-reiki.com.br

O tempo não para

 

 

É difícil se dar conta disso. Embalado pelas atribuições diárias vivemos dia após dia sem se dar conta de que o tempo não para e as coisas mudam. Aliás, de todas as certezas que tenho essa é a mais certa: tudo muda; e como!

Nunca simpatizei com espelhos, mas recentemente em rápida passada pela frente de um de grandes dimensões me ative instantes para me observar. Sim, as coisas mudam. Tive a sensação de que a imagem refletida não era a minha. Até achei que fosse uma “fake” de mim mesmo. Mas não era, aquela jaca diante dos meus olhos era eu mesmo. Eu mexia a mão, ela também. Dei pulinhos, ela também. Mostrei a língua pra ela e ela ao mesmo tempo pra mim.

Triste constatação.

Aí volta uma antiga reflexão de grande valia: qual o meu maior patrimônio, àquilo que de fato é mais importante para mim? Família, trabalho, saúde, dinheiro, sexo, amigos ou poder? Pois é, nada disso está em primeiro lugar, por mais que haja defesa contrária. Nem meu fusca ou bicicletas são tão importantes.

O mais importante, àquilo que de fato nos dá condição de exercer todas àquelas ações anteriores é o momento presente, o fato de estarmos aqui e agora. Estar vivo, isto é o mais importante, o resto é consequência.

E o que estamos fazendo com esse tempo? Qual o uso que damos ao bem mais importante que temos, a vida? Olha só, quando fazemos aniversário comemoramos por mais um ano de vida, mas quero aqui dizer que não é “mais um ano”, é “menos um ano”. É como o tanque de combustível de um automóvel. Quando nascemos o tanque está cheio, e assim que entramos na reserva e o combustível acaba Papai do céu nos chama de volta. O tempo de cada um é o tamanho do seu tanque.

Senhores da guerra, da bravata e da prepotência se encontram hoje em algum lugar esquecidos, dependendo de outros para sobreviver. Como o sal corrói o aço, o tempo corrói a vaidade, o orgulho e o egoísmo.

Sou pai e o amor que sinto pelos meus filhos não permite julgá-los. Se sou humano e pequeno diante do amor que o Criador tem por mim, então posso acreditar que ele mais que eu será incapaz de me julgar, mas certamente irá me perguntar o que fiz com o tempo que ele me concedeu, ai f....

Observe aqui a beleza da criação. O bem mais significativo que nos foi concedido por graça Divina não é necessariamente palpável. O tempo, que não é possível engarrafar ou armazenar de outra forma, esvaia-se segundo a segundo, queiramos ou não.

A prova é que tudo muda, o tempo é o senhor da mudança e o espelho é o vilão da história.

Quebrei o espelho!

 

Escrito por Fernando Baumann, 26/10/2018 às 17h02 | fernando@bba-reiki.com.br

Pobres homens bons

 Levado pelo momento, onde ataques morais ganham relevância subjugando a beleza da criação humana, estava eu buscando entender qual o nosso elemento vital, àquilo que de fato nos caracteriza, que nos faz ser bons ou não, se é que isso existe.

Entendo por crença particular que todos os seres são bons. Trazemos isto em nossa característica essencial, no sopro existencial da origem. Talvez a natureza, a combinação específica de qualidades e não qualidades, seja o ponto de inflexão.

Mas como esta natureza se compõe? Não sei exatamente, mas penso que seja um somatório de muitas variáveis difíceis de se repetir mais de uma vez. Para começar, a razão pela qual cada um nasceu, que entendo diferente dado o nível de evolução individual. Depois vem a herança genética e histórica da família. Também a educação (princípios, valores e limites) que cada um recebeu. Por fim o ambiente onde tudo isso se desenvolveu, se terra fértil ou arrasada.

Numa comparação, arrisco a dizer que a essência é o veículo, a natureza é o motorista e o propósito é o destino. Com a natureza consolidada, seguimos então o caminho em busca do nosso propósito, desconhecendo o outro veículo que está ao lado.

 Então quem é cada um de nós para julgar o outro, para apontar o que é certo ou errado, classificando os bons e os não bons? Claro, tudo em sua devida proporção.

Ataques verbais que objetivam desconstruir a conduta moral de oponentes me parece muito mais uma reação a incapacidade de discutir ideias e pontos de vista do que propriamente um alerta sobre possíveis ameaças comportamentais. Eu entendo o ataque como uma fraqueza, o avanço sobre uma ameaça.

O ringue eleitoral expõe o apodrecimento comportamental das relações coletivas. Mas também não é apenas neste ambiente. Vivemos uma sociedade histérica e doentia que gosta de sangue e se alimenta da carniça ética e moral, àquilo que sobrou de nós.

Mas a essência é pura e a natureza é manipulável. Apesar dos gladiadores modernos, continuo acreditando que somos todos bons. Ruim é o que fazemos com isso.

 

Escrito por Fernando Baumann, 19/10/2018 às 13h21 | fernando@bba-reiki.com.br

Nuances

 Percebo, olho, desconfio,

A forte presença de enxofre no ar,

Pólvora na mão denuncia,

A ideia agora é matar.

 

Matar a opinião alheia,

Porque a verdade comigo está,

De jeito nenhum eu aceito,

O que o outro de mim discordar.

 

Tempos estranhos, tudo parece fora do lugar;

A justa forma sobreposta ao padrão,

onde o padrão fora de moda está.

 

Amigos te enquadram querendo saber de que lado está,

Como se fosse possível construir um país,

Tomando gosto de cá ou de lá.

 

 

 

Escrito por Fernando Baumann, 10/10/2018 às 15h11 | fernando@bba-reiki.com.br



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Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.


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