Jornal Página 3
Coluna
Cá Pra Nós
Por Fernando Baumann

Proposta pública dois

 Jogue o plano de governo no lixo.

Isso mesmo, jogue fora. Plano de governo atende o interesse de um pequeno grupo que estará no poder por quatro ou eventualmente oito anos. Tenha um plano de trabalho baseado no desejo de cidade construído pela sociedade civil organizada. Incentive e apoie as entidades a construir uma visão de futuro, olhando vinte anos para frente. Envolva todas que estiverem regulares, e das mais diversas categorias e segmentos.

Por entidade para não pessoalizar a discussão.

Crie um plano de trabalho, este sim fundamental, e deixe que a parte estratégica a comunidade decide. Desde o primeiro dia de governo viabilize para que isto aconteça. Esqueça as diferença ideológicas, religiosas e tudo mais. Trabalhe incansavelmente para que no final do mandato as primeiras sementes estejam plantadas. Sim, por que isso demanda tempo, maturidade e alinhamento, muito difícil em tempos de “eu sei sobre tudo”.

Daqui a alguns anos o eleitor irá escolher entre os postulantes àquele que se comprometer em executar o plano de cidade. O plano, este propósito, compete ao dono, e o dono da cidade é quem mora nela, é ele quem decide o que fazer.

É isso, o plano de cidade decide o que fazer. O plano de trabalho decide como fazer.

Plano de cidade = morador através de entidade representativa

Plano de trabalho = executivo

Plano de governo = lixo 

Escrito por Fernando Baumann, 05/02/2020 às 14h54 | fernando@bba-reiki.com.br

Proposta pública um

 O setor público é diferente do privado, isto é verdade. No público só se pode fazer o que está permitido, e no privado o que não está proibido. Um detalhe que faz muita diferença.

Outra questão, o funcionalismo público tem direito a estabilidade de emprego e via de regra não tem meta de entrega. Se mais ou menos tanto faz. O funcionário privado está sempre com o dele na reta, sujeito a cortes inesperados e com relação direta entre entrega versus salário e/ou promoção. Estão comigo?

Então o fato de alguém ser bem sucedido na iniciativa privada não chancela seu passaporte para o setor público, por que não é a mesma coisa. Choque de gestão? Esquece. Mais um ponto, e aqui estou sendo cruelmente genérico, é de que na iniciativa privada você trabalha para você, e na pública para os outros, tanto que o funcionalismo é chamado de servidor, por servir ao outro.

Na iniciativa privada o gestor toma a decisão e coloca em prática. Pronto. Na pública ele depende da câmara, da ideologia(?) do partido, da base de apoio, da população... sem falar na turma que joga contra, que sou capaz de apostar que é da ordem de 30%.

Agora sim, nós podemos misturar as experiências pública e privada e extrair daí algo bem interessante. Um exemplo muito bacana que conheci em outra cidade brasileira é a figura do gerente municipal. Como funciona? Toda a parte política, pompa e circunstância do cargo fica com o prefeito, ele é a figura pública. O dia a dia, a operação em si, com o gerente municipal.

Mas qual a lógica disso? Muito simples, e é o que a iniciativa privada faz muito bem: análise de perfil. Cada macaco no seu galho. O prefeito é a pessoa que gosta de estar na rua, falando com as pessoas, distribuindo sorrisos e abraços, empático e carismático. Vai a jantares, aniversários e velórios. Emoção é sua palavra de ordem. O gerente é o técnico, o analista que gosta de estar no seu ambiente de trabalho, entre uma reunião e outra, tomando decisões equilibradas. Sabe lidar com conflitos e não cede a pressões. É durão e a razão é o seu “modus operandi”.

Não como uma conta matemática, nas relações humanas as diferenças somam e uma composição antagônica, certamente com respeito e tolerância, seria potencialmente eficiente. Infelizmente os agrupamentos políticos, vou chamar assim, se dão por interesse particular e não por complementariedade.

Quer ver uma coisa bem bacana seria o vice-prefeito ser o técnico. Além do equilíbrio de forças evitaria a disputa por holofotes e nova contratação. Mas para fazer o papel tem que ter perfil para isto, e a construção começa muito antes da eleição, quem sabe até como proposta de trabalho que convença o eleitor.

 

 

Escrito por Fernando Baumann, 01/02/2020 às 11h54 | fernando@bba-reiki.com.br

O candidato e a semente

 Mais um ano eleitoral se inicia e com ele todos os trâmites necessários para o pleito, que entendo ser o mais importante de todos. É na cidade que moro e é aqui que as coisas acontecem.

Conversas amiúdes tomam forma e proporção. Amizades são desfeitas e interesses aproximam desconhecidos. Como já participei do processo fico magnetizado por este momento. Até parece que o sangue circula mais rápido e os poros dilatam. Alta sensibilidade!

Mas foi só um “flash”, já passou.

De volta ao que interessa, parece que apesar da grande mobilização dos últimos anos em prol de uma nova política, nada de novo efetivamente tem acontecido. O vício de origem permanece e a forma continua a mesma. E não é por falta de vontade, vejo muitos bem intencionados.

A questão aqui é fazer a roda girar ao contrário, inverter a lógica da política como a conhecemos. Mas é necessário grande esforço de aprendizagem e desapego. Ou melhor, desapego e aprendizagem. Zerar e fazer de novo.

Entendo que a diferença entre o novo e o velho é a capacidade de continuar aprendendo. O novo que parou de aprender é velho, e o velho que continua aprendendo é novo. Então ser apenas jovem não basta, isto não é novo.

Exemplos do que é velho: pessoalizar as discussões; o nós e eles; criticar sem apontar solução; os puxa sacos; projeto de poder; ofertar e/ou aceitar benesses em troca de apoio; ser autoridade; defender interesses pessoais; ter plano de governo; falar sem ouvir; andar de automóvel chapa branca com motorista; sorrir por obrigação.

Exemplos do que é novo: propor ampla discussão de ideias; defender uma única cidade independente de posicionamento político-partidário; ser engajado por convicção; não ser dono da verdade; ter plano de cidade; entender que a autoridade é o eleitor; ser representante dos interesses coletivos; saber ouvir para falar; andar a pé, de bicicleta e transporte coletivo para sentir a cidade; ser natural.

Vamos discutir isso? 

Escrito por Fernando Baumann, 24/01/2020 às 16h46 | fernando@bba-reiki.com.br

Boa nova

 Dia nublado, olho e não entendo. Onde está a nuvem, dentro ou fora de mim? Uma vez por ano é assim, lente embaçada com dia certo pra chegar. Vejo a alegria contagiante de muitos, ansiosos por comemorar. Eu me recolho.

Pra mim é diferente. Quando criança gostava de dias de chuva pra poder ficar dentro de casa, perdido em meu mundo de brincadeiras e sonhos. Talvez seja isso que ainda aconteça neste dia, o menino que quer ficar só.

Alguns anos eu sumia, em outros eu ia visitar meus avós em seus lares póstumos. Saudade do que vivemos ou lembrança do que deixamos de viver. Queria silêncio e não ruídos.

Um olhar para dentro, como que buscando minha essência e verdade. Uma data interessante para refletir sobre o que já fiz e o que ainda vou querer fazer.

Um tanto egoísta, mas é o “efeito mola” em ação, quando encolho pra depois expandir, impulsionar.

Depois a nuvem dissipa.

Escrito por Fernando Baumann, 20/09/2019 às 09h42 | fernando@bba-reiki.com.br

A terceirização do cérebro

Tenho pensado sobre as enormes facilidade que temos hoje e o quanto a tecnologia auxiliou a humanidade a dar vários passos à frente. Coisas incríveis aconteceram e encurtaram a distância entre o homem e a máquina. Mas nada sai de graça.

Sou frequentador assíduo de mercados, padarias e pequenos comércios. Ainda não me acostumei a usar cartão para todos os pagamentos, então para pequenos valores acabo utilizando dinheiro, talvez por vergonha pessoal, ter algum valor no bolso para mim é importante. O que me chama a atenção é que invariavelmente quem recebe o valor em espécie faz conta na máquina para dar o troco, independente de ser valor fracionado ou inteiro. Facilidades que a máquina de calcular trouxe. Não precisa pensar.

Viajo bastante, e há não muito tempo atrás para encontrar algum endereço recorria a mapas e informações de taxistas e frentistas de posto de combustível. Eram idas e vindas até localizar. Hoje os sistemas disponíveis me colocam no endereço sem saber como cheguei lá, ou então como faço para sair. De novo não precisa pensar.

Meu telefone atual faz chamadas de um arquivo chamado “contatos”, que guarda todos os dados necessários, não exigindo de minha parte nenhum esforço para decorar números. Se você me perguntar para responder rápido qual o meu número, talvez eu me atrapalhe em dizer. Mais uma vez não precisa pensar.

 Vi recentemente uma reportagem que retrata a dificuldade do jovem americano em guiar veículos manuais, pois a muito o câmbio automático dominou o mercado de lá. Também controle de tração, estabilidade, estacionamento, etc. Facilidades que melhoram a relação homem e máquina, exigindo menos do primeiro.

Acho tudo isso extraordinário, àquilo que poucos desenvolvem para muitos utilizarem. A capacidade criativa do ser humano não tem limites, e a busca pelo conforto, privacidade e segurança trazem a nós facilidades jamais imaginadas.

Mas me parece que o custo será alto, muito alto. A total alienação a máquina está de certa forma ceifando nossa capacidade de raciocinar, nos deixando mais preguiçosos e dependentes.

Pode ser uma bobagem minha, mas fazer contas de cabeça, encontrar lugares sem auxílio tecnológico, decorar números de telefone e dirigir a minha Kombi são excelentes exercícios para manter o cérebro ativo, lúcido.

Talvez a grande onda seja a terceirização do cérebro, e isso é muito perigoso.

Escrito por Fernando Baumann, 29/07/2019 às 15h18 | fernando@bba-reiki.com.br

Fones de ouvido

 A cidade se movimenta apressada. Aliás, a cidade não, mas as pessoas que a habitam. Interessante observar como plateia que aprecia um espetáculo. As nuances, o enredo e a sonoplastia.

As motos impacientes querendo sempre a preferência e o ônibus atrasado pelo trânsito que pára em cima da pista para o embarque de novos passageiros, embaralhando mais ainda o que vem atrás. Bicicletas num zigue-zague frenético disputando espaços escassos e carros enuviados pela fumaça, vidros fechados e motoristas mais ainda. Por fim pedestres aguardando o semáforo abrir para atravessar a larga avenida, muitos na faixa de pedestres, outros não.

Vida corrida, atores enlouquecidos pela lida diária de compromissos e afazeres, sem trégua, vítimas e cúmplices de uma vida moderna cheia de curvas, subidas e descidas. Nada fácil, convém lembrar.

A observar, vidas que vivem em comunidade, próximas mas distantes. O trânsito, local onde tudo acontece e todos se encontram, é o cenário democrático que acolhe ricos e pobres, tímidos e extrovertidos, mansos e ignorantes, os gêneros e mais. 

Tudo parece matéria e pouco humanizado. Ninguém se cumprimenta e gentileza pouco se observa. Algo parece errado e fora do controle. Os humanos que ali estão são mais máquinas quanto as máquinas que os locomovem. Frios e individualizados.

No descarte da perturbação poucos atentam para a criança sentada a beira da calçada, maltrapilha e sem perspectivas, abandonada a própria sorte de abusos e explorações. Triste caminho!

Cada um pensa em si, e ninguém pensa no outro.

Fones de ouvido. Meu som, meu mundo, minha privacidade. Nada mais importa.

Por favor não atrapalhe

Escrito por Fernando Baumann, 16/04/2019 às 23h05 | fernando@bba-reiki.com.br



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Fernando Baumann

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Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.














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 Jogue o plano de governo no lixo.

Isso mesmo, jogue fora. Plano de governo atende o interesse de um pequeno grupo que estará no poder por quatro ou eventualmente oito anos. Tenha um plano de trabalho baseado no desejo de cidade construído pela sociedade civil organizada. Incentive e apoie as entidades a construir uma visão de futuro, olhando vinte anos para frente. Envolva todas que estiverem regulares, e das mais diversas categorias e segmentos.

Por entidade para não pessoalizar a discussão.

Crie um plano de trabalho, este sim fundamental, e deixe que a parte estratégica a comunidade decide. Desde o primeiro dia de governo viabilize para que isto aconteça. Esqueça as diferença ideológicas, religiosas e tudo mais. Trabalhe incansavelmente para que no final do mandato as primeiras sementes estejam plantadas. Sim, por que isso demanda tempo, maturidade e alinhamento, muito difícil em tempos de “eu sei sobre tudo”.

Daqui a alguns anos o eleitor irá escolher entre os postulantes àquele que se comprometer em executar o plano de cidade. O plano, este propósito, compete ao dono, e o dono da cidade é quem mora nela, é ele quem decide o que fazer.

É isso, o plano de cidade decide o que fazer. O plano de trabalho decide como fazer.

Plano de cidade = morador através de entidade representativa

Plano de trabalho = executivo

Plano de governo = lixo 

Escrito por Fernando Baumann, 05/02/2020 às 14h54 | fernando@bba-reiki.com.br

Proposta pública um

 O setor público é diferente do privado, isto é verdade. No público só se pode fazer o que está permitido, e no privado o que não está proibido. Um detalhe que faz muita diferença.

Outra questão, o funcionalismo público tem direito a estabilidade de emprego e via de regra não tem meta de entrega. Se mais ou menos tanto faz. O funcionário privado está sempre com o dele na reta, sujeito a cortes inesperados e com relação direta entre entrega versus salário e/ou promoção. Estão comigo?

Então o fato de alguém ser bem sucedido na iniciativa privada não chancela seu passaporte para o setor público, por que não é a mesma coisa. Choque de gestão? Esquece. Mais um ponto, e aqui estou sendo cruelmente genérico, é de que na iniciativa privada você trabalha para você, e na pública para os outros, tanto que o funcionalismo é chamado de servidor, por servir ao outro.

Na iniciativa privada o gestor toma a decisão e coloca em prática. Pronto. Na pública ele depende da câmara, da ideologia(?) do partido, da base de apoio, da população... sem falar na turma que joga contra, que sou capaz de apostar que é da ordem de 30%.

Agora sim, nós podemos misturar as experiências pública e privada e extrair daí algo bem interessante. Um exemplo muito bacana que conheci em outra cidade brasileira é a figura do gerente municipal. Como funciona? Toda a parte política, pompa e circunstância do cargo fica com o prefeito, ele é a figura pública. O dia a dia, a operação em si, com o gerente municipal.

Mas qual a lógica disso? Muito simples, e é o que a iniciativa privada faz muito bem: análise de perfil. Cada macaco no seu galho. O prefeito é a pessoa que gosta de estar na rua, falando com as pessoas, distribuindo sorrisos e abraços, empático e carismático. Vai a jantares, aniversários e velórios. Emoção é sua palavra de ordem. O gerente é o técnico, o analista que gosta de estar no seu ambiente de trabalho, entre uma reunião e outra, tomando decisões equilibradas. Sabe lidar com conflitos e não cede a pressões. É durão e a razão é o seu “modus operandi”.

Não como uma conta matemática, nas relações humanas as diferenças somam e uma composição antagônica, certamente com respeito e tolerância, seria potencialmente eficiente. Infelizmente os agrupamentos políticos, vou chamar assim, se dão por interesse particular e não por complementariedade.

Quer ver uma coisa bem bacana seria o vice-prefeito ser o técnico. Além do equilíbrio de forças evitaria a disputa por holofotes e nova contratação. Mas para fazer o papel tem que ter perfil para isto, e a construção começa muito antes da eleição, quem sabe até como proposta de trabalho que convença o eleitor.

 

 

Escrito por Fernando Baumann, 01/02/2020 às 11h54 | fernando@bba-reiki.com.br

O candidato e a semente

 Mais um ano eleitoral se inicia e com ele todos os trâmites necessários para o pleito, que entendo ser o mais importante de todos. É na cidade que moro e é aqui que as coisas acontecem.

Conversas amiúdes tomam forma e proporção. Amizades são desfeitas e interesses aproximam desconhecidos. Como já participei do processo fico magnetizado por este momento. Até parece que o sangue circula mais rápido e os poros dilatam. Alta sensibilidade!

Mas foi só um “flash”, já passou.

De volta ao que interessa, parece que apesar da grande mobilização dos últimos anos em prol de uma nova política, nada de novo efetivamente tem acontecido. O vício de origem permanece e a forma continua a mesma. E não é por falta de vontade, vejo muitos bem intencionados.

A questão aqui é fazer a roda girar ao contrário, inverter a lógica da política como a conhecemos. Mas é necessário grande esforço de aprendizagem e desapego. Ou melhor, desapego e aprendizagem. Zerar e fazer de novo.

Entendo que a diferença entre o novo e o velho é a capacidade de continuar aprendendo. O novo que parou de aprender é velho, e o velho que continua aprendendo é novo. Então ser apenas jovem não basta, isto não é novo.

Exemplos do que é velho: pessoalizar as discussões; o nós e eles; criticar sem apontar solução; os puxa sacos; projeto de poder; ofertar e/ou aceitar benesses em troca de apoio; ser autoridade; defender interesses pessoais; ter plano de governo; falar sem ouvir; andar de automóvel chapa branca com motorista; sorrir por obrigação.

Exemplos do que é novo: propor ampla discussão de ideias; defender uma única cidade independente de posicionamento político-partidário; ser engajado por convicção; não ser dono da verdade; ter plano de cidade; entender que a autoridade é o eleitor; ser representante dos interesses coletivos; saber ouvir para falar; andar a pé, de bicicleta e transporte coletivo para sentir a cidade; ser natural.

Vamos discutir isso? 

Escrito por Fernando Baumann, 24/01/2020 às 16h46 | fernando@bba-reiki.com.br

Boa nova

 Dia nublado, olho e não entendo. Onde está a nuvem, dentro ou fora de mim? Uma vez por ano é assim, lente embaçada com dia certo pra chegar. Vejo a alegria contagiante de muitos, ansiosos por comemorar. Eu me recolho.

Pra mim é diferente. Quando criança gostava de dias de chuva pra poder ficar dentro de casa, perdido em meu mundo de brincadeiras e sonhos. Talvez seja isso que ainda aconteça neste dia, o menino que quer ficar só.

Alguns anos eu sumia, em outros eu ia visitar meus avós em seus lares póstumos. Saudade do que vivemos ou lembrança do que deixamos de viver. Queria silêncio e não ruídos.

Um olhar para dentro, como que buscando minha essência e verdade. Uma data interessante para refletir sobre o que já fiz e o que ainda vou querer fazer.

Um tanto egoísta, mas é o “efeito mola” em ação, quando encolho pra depois expandir, impulsionar.

Depois a nuvem dissipa.

Escrito por Fernando Baumann, 20/09/2019 às 09h42 | fernando@bba-reiki.com.br

A terceirização do cérebro

Tenho pensado sobre as enormes facilidade que temos hoje e o quanto a tecnologia auxiliou a humanidade a dar vários passos à frente. Coisas incríveis aconteceram e encurtaram a distância entre o homem e a máquina. Mas nada sai de graça.

Sou frequentador assíduo de mercados, padarias e pequenos comércios. Ainda não me acostumei a usar cartão para todos os pagamentos, então para pequenos valores acabo utilizando dinheiro, talvez por vergonha pessoal, ter algum valor no bolso para mim é importante. O que me chama a atenção é que invariavelmente quem recebe o valor em espécie faz conta na máquina para dar o troco, independente de ser valor fracionado ou inteiro. Facilidades que a máquina de calcular trouxe. Não precisa pensar.

Viajo bastante, e há não muito tempo atrás para encontrar algum endereço recorria a mapas e informações de taxistas e frentistas de posto de combustível. Eram idas e vindas até localizar. Hoje os sistemas disponíveis me colocam no endereço sem saber como cheguei lá, ou então como faço para sair. De novo não precisa pensar.

Meu telefone atual faz chamadas de um arquivo chamado “contatos”, que guarda todos os dados necessários, não exigindo de minha parte nenhum esforço para decorar números. Se você me perguntar para responder rápido qual o meu número, talvez eu me atrapalhe em dizer. Mais uma vez não precisa pensar.

 Vi recentemente uma reportagem que retrata a dificuldade do jovem americano em guiar veículos manuais, pois a muito o câmbio automático dominou o mercado de lá. Também controle de tração, estabilidade, estacionamento, etc. Facilidades que melhoram a relação homem e máquina, exigindo menos do primeiro.

Acho tudo isso extraordinário, àquilo que poucos desenvolvem para muitos utilizarem. A capacidade criativa do ser humano não tem limites, e a busca pelo conforto, privacidade e segurança trazem a nós facilidades jamais imaginadas.

Mas me parece que o custo será alto, muito alto. A total alienação a máquina está de certa forma ceifando nossa capacidade de raciocinar, nos deixando mais preguiçosos e dependentes.

Pode ser uma bobagem minha, mas fazer contas de cabeça, encontrar lugares sem auxílio tecnológico, decorar números de telefone e dirigir a minha Kombi são excelentes exercícios para manter o cérebro ativo, lúcido.

Talvez a grande onda seja a terceirização do cérebro, e isso é muito perigoso.

Escrito por Fernando Baumann, 29/07/2019 às 15h18 | fernando@bba-reiki.com.br

Fones de ouvido

 A cidade se movimenta apressada. Aliás, a cidade não, mas as pessoas que a habitam. Interessante observar como plateia que aprecia um espetáculo. As nuances, o enredo e a sonoplastia.

As motos impacientes querendo sempre a preferência e o ônibus atrasado pelo trânsito que pára em cima da pista para o embarque de novos passageiros, embaralhando mais ainda o que vem atrás. Bicicletas num zigue-zague frenético disputando espaços escassos e carros enuviados pela fumaça, vidros fechados e motoristas mais ainda. Por fim pedestres aguardando o semáforo abrir para atravessar a larga avenida, muitos na faixa de pedestres, outros não.

Vida corrida, atores enlouquecidos pela lida diária de compromissos e afazeres, sem trégua, vítimas e cúmplices de uma vida moderna cheia de curvas, subidas e descidas. Nada fácil, convém lembrar.

A observar, vidas que vivem em comunidade, próximas mas distantes. O trânsito, local onde tudo acontece e todos se encontram, é o cenário democrático que acolhe ricos e pobres, tímidos e extrovertidos, mansos e ignorantes, os gêneros e mais. 

Tudo parece matéria e pouco humanizado. Ninguém se cumprimenta e gentileza pouco se observa. Algo parece errado e fora do controle. Os humanos que ali estão são mais máquinas quanto as máquinas que os locomovem. Frios e individualizados.

No descarte da perturbação poucos atentam para a criança sentada a beira da calçada, maltrapilha e sem perspectivas, abandonada a própria sorte de abusos e explorações. Triste caminho!

Cada um pensa em si, e ninguém pensa no outro.

Fones de ouvido. Meu som, meu mundo, minha privacidade. Nada mais importa.

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Escrito por Fernando Baumann, 16/04/2019 às 23h05 | fernando@bba-reiki.com.br



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Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.