Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

ESPIRULINA – SUPERALIMENTO ASTECA

Estudar a gastronomia da antiga América é um passo importante para nos conectar com nossa identidade ancestral. Cada vez mais, governos latino-americanos tem se mostrado sensíveis à recuperação de antigos costumes e tradições alimentares dos povos que habitaram nosso continente.

Em 1997, quando de minha expedição a pé no contorno do Lago Titicaca (Peru/Bolívia), tive a oportunidade de observar a recuperação de waruwarus (camellones), que são elevações artificiais de terra que fazem parte de um sistema de plantio sofisticado do povo Tiwanaku, cujo auge ocorreu entre 300 e 1000 de nossa era. Nesse sistema, batatas, quinua ou demais plantios atingiam uma produção 10 vezes maior do que o sistema de plantio imposto pelos colonizadores europeus.

No México, os antigos mexicas (astecas) também sabiam como tirar proveito da natureza para colher ou plantar produtos hoje considerados superalimentos. É o caso da espirulina (tecuitlatl), agora consumida por pessoas que buscam uma alimentação saudável e comercializada por empresas especializadas em produtos naturais. A espirulina é uma cyanobactéria, que produz energia por meio de fotossíntese. Ela se apresenta como uma espécie de alga de cor verde azulada. No mundo mexica, ela fazia parte da tradição alimentar deles e de outros povos mesoamericanos. Era encontrada de forma farta em lagos – como o Lago Texcoco, onde se encontrava a antiga capital mexica, Tenochtitlán–graças ao perfeito equilíbrio entre salinidade e alcalinidade.

Antes da chegada dos espanhóis, a espirulina se apresentava como uma alga pastosa, que proliferava na superfície dos lagos e era recolhida e submetida a um processo natural de secagem. O produto resultante geralmente era transformado em pó e ingerido junto com tortilhas, milho, pimenta ou feijão (frijoles). Rica em proteínas (70%) era alimento ideal para mensageiros e viajantes que tinham que percorrer grandes distâncias. Além da proteína, ela é rica em aminoácidos, vitaminas e minerais, como o manganês, vitamina B e ferro. O conquistador espanhol Bernal Díaz delCastillo (1492-1584) escreve em suas memórias – A História verdadera de la conquista de la Nueva España – que uma espécie de limo coletado na superfície do lago era um composto usado para fabricação de um pão, e uma vez comido, apresentava o gosto semelhante a um queijo. Contudo, sua aparência gelatinosa in naturanão agradou ao paladar europeu. Com a drenagem do Lago Texcoco, o hábito de consumo da espirulina foi abandonado entre os mexicas.

Somente em 1960 a alga lacustre foi redescoberta e estudada no México. Hoje, várias granjas investem na produção de microalgas, fartamente utilizada em novos pratos e restaurantes mexicanos, que resgatam assim uma das mais antigas tradições de seu povo.

Dalton DelfiniMaziero é historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima. Visite o Blog “Arqueologia Americana” (http://arqueologiamericana.blogspot.com/) e a Página do Escritor (https://clubedeautores.com.br/livros/autores/dalton-delfini-maziero)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 22/02/2021 às 18h52 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

Assina a coluna América Misteriosa

Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.














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ESPIRULINA – SUPERALIMENTO ASTECA

Estudar a gastronomia da antiga América é um passo importante para nos conectar com nossa identidade ancestral. Cada vez mais, governos latino-americanos tem se mostrado sensíveis à recuperação de antigos costumes e tradições alimentares dos povos que habitaram nosso continente.

Em 1997, quando de minha expedição a pé no contorno do Lago Titicaca (Peru/Bolívia), tive a oportunidade de observar a recuperação de waruwarus (camellones), que são elevações artificiais de terra que fazem parte de um sistema de plantio sofisticado do povo Tiwanaku, cujo auge ocorreu entre 300 e 1000 de nossa era. Nesse sistema, batatas, quinua ou demais plantios atingiam uma produção 10 vezes maior do que o sistema de plantio imposto pelos colonizadores europeus.

No México, os antigos mexicas (astecas) também sabiam como tirar proveito da natureza para colher ou plantar produtos hoje considerados superalimentos. É o caso da espirulina (tecuitlatl), agora consumida por pessoas que buscam uma alimentação saudável e comercializada por empresas especializadas em produtos naturais. A espirulina é uma cyanobactéria, que produz energia por meio de fotossíntese. Ela se apresenta como uma espécie de alga de cor verde azulada. No mundo mexica, ela fazia parte da tradição alimentar deles e de outros povos mesoamericanos. Era encontrada de forma farta em lagos – como o Lago Texcoco, onde se encontrava a antiga capital mexica, Tenochtitlán–graças ao perfeito equilíbrio entre salinidade e alcalinidade.

Antes da chegada dos espanhóis, a espirulina se apresentava como uma alga pastosa, que proliferava na superfície dos lagos e era recolhida e submetida a um processo natural de secagem. O produto resultante geralmente era transformado em pó e ingerido junto com tortilhas, milho, pimenta ou feijão (frijoles). Rica em proteínas (70%) era alimento ideal para mensageiros e viajantes que tinham que percorrer grandes distâncias. Além da proteína, ela é rica em aminoácidos, vitaminas e minerais, como o manganês, vitamina B e ferro. O conquistador espanhol Bernal Díaz delCastillo (1492-1584) escreve em suas memórias – A História verdadera de la conquista de la Nueva España – que uma espécie de limo coletado na superfície do lago era um composto usado para fabricação de um pão, e uma vez comido, apresentava o gosto semelhante a um queijo. Contudo, sua aparência gelatinosa in naturanão agradou ao paladar europeu. Com a drenagem do Lago Texcoco, o hábito de consumo da espirulina foi abandonado entre os mexicas.

Somente em 1960 a alga lacustre foi redescoberta e estudada no México. Hoje, várias granjas investem na produção de microalgas, fartamente utilizada em novos pratos e restaurantes mexicanos, que resgatam assim uma das mais antigas tradições de seu povo.

Dalton DelfiniMaziero é historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima. Visite o Blog “Arqueologia Americana” (http://arqueologiamericana.blogspot.com/) e a Página do Escritor (https://clubedeautores.com.br/livros/autores/dalton-delfini-maziero)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 22/02/2021 às 18h52 | daltonmaziero@uol.com.br



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