Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

O CHOCOLATE MAIS ANTIGO DO MUNDO?

Existem diversas lendas que explicam a origem divina do chocolate. A mais famosa delas está associada aos Mexicas e ao deus Quetzalcóatl. Ele representava o planeta Vênus, a vegetação, a vida e o alimento. Diz a lenda, que Quetzacóatl um dia quis presentear a humanidade com um alimento que desse energia e prazer. O problema é que este presente – a semente do cacau – estava em uma árvore sagrada que não lhe pertencia. Quetzalcóatl então foi ao Reino do Sol e roubou as sementes. Pego pelos demais deuses, teve tempo ainda de as atirar em direção à terra, onde germinaram dando origem aos cacaueiros. Como punição, foi banido do Reino do Sol, jurando um dia voltar. E assim os homens aprenderam a manipular o cacau, criando o “xocolátl”, uma fusão entre o “xococ” (amargo) e “atl” (água), gerando assim uma bebida quente e amarga.

Lendas à parte, o chocolate é um dos produtos mais consumidos e queridos do mundo. Até bem pouco tempo, o consenso é que ele havia sido domesticado por volta de 3.900 anos, na região da América Central. Contudo, conhecimento é algo que está aí para ser revisto e reescrito.

Pensando assim, uma equipe de cientistas aprofundou os estudos genéticos da semente do Theobroma Cacao (o Cacau) e realizou importantes descobertas publicadas na revista Nature Ecology & Evolution. A imagem do cacau sempre esteve atrelada à América Central e ao mundo mesoamericano. Pesquisas nessa região revelaram que a semente era usada como moeda comercial, e que seu uso esteve associado a cultos e dias festivos. Michael Blake, um dos autores dessa pesquisa, apresentou provas genéticas de sementes da theobroma, localizadas no sítio arqueológico Santa Ana La Florida (Equador), do povo maio-chinchipe, datando de aproximadamente 5.450 anos de antiguidade. Ou seja, cerca de 1500 anos mais antigo do que se acreditava até então.

Vários fragmentos de cerâmicas de Santa Ana apresentaram moléculas de amido existentes apenas no theobroma; assim como resíduos de um alcaloide amargo, relacionado à semente. Como o local das amostras se encontra no litoral do Equador, acredita-se que as sementes tenham migrado através de uma rota comercial litorânea com a Mesoamérica.

Francisco Valdez, outro pesquisador da equipe, havia publicado um relatório preliminar à pesquisa em 2013. Nele, afirmava serem estas as provas inequívocas de que a domesticação do cacau era muito mais antiga do que se pensava, e que ela surgira na América do Sul, e não na América Central. Também nos estudos, foram criados biomarcadores (marcadores biológicos que detectam a presença de organismos) capazes de apontar a presença do cacau em qualquer artefato, como por exemplo, recipientes de cerâmica. Com a nova descoberta, as relações comerciais entre os povos pré-colombianos do sul e norte de nosso continente estão sendo revistas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 29/08/2019 às 09h17 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

Assina a coluna América Misteriosa

Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.


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O CHOCOLATE MAIS ANTIGO DO MUNDO?

Existem diversas lendas que explicam a origem divina do chocolate. A mais famosa delas está associada aos Mexicas e ao deus Quetzalcóatl. Ele representava o planeta Vênus, a vegetação, a vida e o alimento. Diz a lenda, que Quetzacóatl um dia quis presentear a humanidade com um alimento que desse energia e prazer. O problema é que este presente – a semente do cacau – estava em uma árvore sagrada que não lhe pertencia. Quetzalcóatl então foi ao Reino do Sol e roubou as sementes. Pego pelos demais deuses, teve tempo ainda de as atirar em direção à terra, onde germinaram dando origem aos cacaueiros. Como punição, foi banido do Reino do Sol, jurando um dia voltar. E assim os homens aprenderam a manipular o cacau, criando o “xocolátl”, uma fusão entre o “xococ” (amargo) e “atl” (água), gerando assim uma bebida quente e amarga.

Lendas à parte, o chocolate é um dos produtos mais consumidos e queridos do mundo. Até bem pouco tempo, o consenso é que ele havia sido domesticado por volta de 3.900 anos, na região da América Central. Contudo, conhecimento é algo que está aí para ser revisto e reescrito.

Pensando assim, uma equipe de cientistas aprofundou os estudos genéticos da semente do Theobroma Cacao (o Cacau) e realizou importantes descobertas publicadas na revista Nature Ecology & Evolution. A imagem do cacau sempre esteve atrelada à América Central e ao mundo mesoamericano. Pesquisas nessa região revelaram que a semente era usada como moeda comercial, e que seu uso esteve associado a cultos e dias festivos. Michael Blake, um dos autores dessa pesquisa, apresentou provas genéticas de sementes da theobroma, localizadas no sítio arqueológico Santa Ana La Florida (Equador), do povo maio-chinchipe, datando de aproximadamente 5.450 anos de antiguidade. Ou seja, cerca de 1500 anos mais antigo do que se acreditava até então.

Vários fragmentos de cerâmicas de Santa Ana apresentaram moléculas de amido existentes apenas no theobroma; assim como resíduos de um alcaloide amargo, relacionado à semente. Como o local das amostras se encontra no litoral do Equador, acredita-se que as sementes tenham migrado através de uma rota comercial litorânea com a Mesoamérica.

Francisco Valdez, outro pesquisador da equipe, havia publicado um relatório preliminar à pesquisa em 2013. Nele, afirmava serem estas as provas inequívocas de que a domesticação do cacau era muito mais antiga do que se pensava, e que ela surgira na América do Sul, e não na América Central. Também nos estudos, foram criados biomarcadores (marcadores biológicos que detectam a presença de organismos) capazes de apontar a presença do cacau em qualquer artefato, como por exemplo, recipientes de cerâmica. Com a nova descoberta, as relações comerciais entre os povos pré-colombianos do sul e norte de nosso continente estão sendo revistas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 29/08/2019 às 09h17 | daltonmaziero@uol.com.br



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