Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

TÊXTEIS PRÉ-COLOMBIANOS

NECRÓPOLE [PARACAS NECROPOLIS], 200 A.C. [BC] - 200 D.C [AD]

A recente inauguração de uma mostra de tecidos pré-colombianos no MASP – Comodato MASP Landmann – Têxteis pré-colombianos – chega em momento oportuno para resgatar a importância dessa arte um pouco esquecida na antiga América: a arte da tecelagem. Mais do que isso, revelam uma arte de gênero, com sofisticadas concepções sobre a vida, a morte, o tempo e o cosmos.

No mundo andino, os têxteis não serviam apenas para decoração de casas e palácios. Da mesma forma que a cerâmica e metalurgia, a tecelagem gerava produtos com alto valor enquanto mercadoria. Foram símbolos de prosperidade para quem os possuía, oferendas religiosas de valor e presentes diplomáticos de grande estima. Apesar da qualidade de suas fibras, muito de sua riqueza estava impressa nos adornos e na diversidade de seus símbolos e cores.

Nos Andes, foram encontradas provas que a tecelagem exerceu forte influência sobre a criação da cerâmica e da metalurgia. Alguns exemplares datam do século VII aC, adquirindo importância simbólica e sagrada. Sabemos inclusive, que existiam cerimônias onde tecidos eram queimados como oferendas às divindades. Também eram usados como mantos fúnebres, envolvendo os restos mortais de nobres, em mantos ricamente adornados. Infelizmente, devido a perenidade deste material, poucos exemplares chegaram até nós.

Talvez a única exceção sejam os mantos Paracas, senhorio que habitou um dos desertos mais secos do mundo, no litoral sul do Peru. A Península de Paracas, hoje uma Reserva Natural, apresenta uma beleza selvagem singular. No passado, foi território sagrado, onde o povo de mesmo nome criava enormes necrópoles para seus mortos. Graças ao clima extremamente seco, muitos exemplares têxteis sobreviveram e hoje constituem um dos grandes tesouros do patrimônio pré-colombiano peruano.

O povo Paracas alcançou seu auge aproximadamente entre 400 aC e 200 dC. Foi descoberta pelo arqueólogo Julio C. Tello, que em 1925 desenterrou mais de 400 fardos funerários da necrópole de Wari Kayan. Boa parte do conhecimento que temos hoje sobre têxteis pré-colombianos, provém desta descoberta. Da necrópole mencionada, não foram desenterrados apenas fardos funerários envoltos em enormes mantos, mas também peças de vestimenta como saias, turbantes, gorros e camisas.

A riqueza e complexibilidade na confecção dos tecidos revelam não apenas uma avançada técnica, mas também uma sociedade estratificada, com funções bem definidas, que seguramente possuía grande número de tecelãs. A iconografia criada por essas profissionais - com personagens antropomorfos - conectam a natureza ao mundo sagrado, à mitologia, crenças de vida e cosmovisão.


Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)
 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 14/06/2019 às 10h10 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

Assina a coluna América Misteriosa

Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.


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NECRÓPOLE [PARACAS NECROPOLIS], 200 A.C. [BC] - 200 D.C [AD]

A recente inauguração de uma mostra de tecidos pré-colombianos no MASP – Comodato MASP Landmann – Têxteis pré-colombianos – chega em momento oportuno para resgatar a importância dessa arte um pouco esquecida na antiga América: a arte da tecelagem. Mais do que isso, revelam uma arte de gênero, com sofisticadas concepções sobre a vida, a morte, o tempo e o cosmos.

No mundo andino, os têxteis não serviam apenas para decoração de casas e palácios. Da mesma forma que a cerâmica e metalurgia, a tecelagem gerava produtos com alto valor enquanto mercadoria. Foram símbolos de prosperidade para quem os possuía, oferendas religiosas de valor e presentes diplomáticos de grande estima. Apesar da qualidade de suas fibras, muito de sua riqueza estava impressa nos adornos e na diversidade de seus símbolos e cores.

Nos Andes, foram encontradas provas que a tecelagem exerceu forte influência sobre a criação da cerâmica e da metalurgia. Alguns exemplares datam do século VII aC, adquirindo importância simbólica e sagrada. Sabemos inclusive, que existiam cerimônias onde tecidos eram queimados como oferendas às divindades. Também eram usados como mantos fúnebres, envolvendo os restos mortais de nobres, em mantos ricamente adornados. Infelizmente, devido a perenidade deste material, poucos exemplares chegaram até nós.

Talvez a única exceção sejam os mantos Paracas, senhorio que habitou um dos desertos mais secos do mundo, no litoral sul do Peru. A Península de Paracas, hoje uma Reserva Natural, apresenta uma beleza selvagem singular. No passado, foi território sagrado, onde o povo de mesmo nome criava enormes necrópoles para seus mortos. Graças ao clima extremamente seco, muitos exemplares têxteis sobreviveram e hoje constituem um dos grandes tesouros do patrimônio pré-colombiano peruano.

O povo Paracas alcançou seu auge aproximadamente entre 400 aC e 200 dC. Foi descoberta pelo arqueólogo Julio C. Tello, que em 1925 desenterrou mais de 400 fardos funerários da necrópole de Wari Kayan. Boa parte do conhecimento que temos hoje sobre têxteis pré-colombianos, provém desta descoberta. Da necrópole mencionada, não foram desenterrados apenas fardos funerários envoltos em enormes mantos, mas também peças de vestimenta como saias, turbantes, gorros e camisas.

A riqueza e complexibilidade na confecção dos tecidos revelam não apenas uma avançada técnica, mas também uma sociedade estratificada, com funções bem definidas, que seguramente possuía grande número de tecelãs. A iconografia criada por essas profissionais - com personagens antropomorfos - conectam a natureza ao mundo sagrado, à mitologia, crenças de vida e cosmovisão.


Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)
 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 14/06/2019 às 10h10 | daltonmaziero@uol.com.br



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