Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

OS ALUCINÓGENOS NO MUNDO PRÉ-COLOMBIANO

No início dos anos 1990, fiz uma incursão em território boliviano que jamais esquecerei. Por duas horas, caminhei em um labirinto de túneis montanha adentro, no que hoje é conhecido como Cerro Potosí. Foi uma visita tensas e estranhas. Passagens estreitas e escuras, um ar sufocante, assim como o cheiro de terra misturada ao metal queimado. O calor era insuportável. Levamos oferendas aos homens que trabalhavam naquelas minas de prata, a bem dizer folhas de coca e refrigerante gelado. As folhas de coca, além de aliviar o sofrimento dos mineradores, também serviam de oferenda ao “Tio” (Supaya), entidade que zelava pela vida no Inframundo.

Recentemente, na província de Sur Lípez (Bolívia) – não muito longe das minas de Potosí – foi realizada uma descoberta arqueológica que confirma e aprofunda a continuidade do uso de psicotrópicos. Em um abrigo conhecido como “Caverna do Chileno” – 4 mil metros de altitude – arqueólogos localizaram uma pequena bolsa de couro em uma sepultura de 4 mil anos. Nela, encontraram tabuletas para suporte de pó alucinógeno, um tubo para aspiração e vestígios de plantas e ervas secas. A análise química desse material revelou indícios de harmina (Banesteriopsis caapi) e da erva Psychotria viridis, dois dos mais importantes ingredientes da bebida Ayahuasca, usada comumente na região Amazônica. Além destes, indícios também de folhas de coca e sementes usadas para produção de outro alucinógeno conhecido como Bufotenina.

O que separa essa descoberta arqueológica do caso relatado em Cerro Potosí - nos anos 1990 - é somente o tempo. O uso de psicotrópicos e compostos alucinógenos parece ter sido uma constante no passado da América do Sul. O pesquisador Santiago López-Pavillard, acredita que esse conhecimento das plantas e de sua manipulação foi resultado de milhares de anos de observações e experimentações. Foram erros e acertos, até a produção de alucinógenos distintos e precisos.

Essa produção só foi possível graças a uma incrível rede de comércio conhecida como “caravana de lhamas”, que transportava produtos das florestas tropicais, via altiplano, até o litoral do Chile e Peru. Mais do que um interesse comercial, essas caravanas faziam parte de um deslocar sagrado, que investiam seus participantes de status social pelo uso e fornecimento dos produtos e substâncias alucinógenas.

José Capriles, pesquisador da Universidade da Pensilvânia (EUA), acredita, contudo, que o uso de psicotrópicos iria além de necessidades ritualísticas. Para ele, seu uso pode ter sido realizado como atividades de interação social, e não apenas de uso animista.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 31/05/2019 às 12h23 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

Assina a coluna América Misteriosa

Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.


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OS ALUCINÓGENOS NO MUNDO PRÉ-COLOMBIANO

No início dos anos 1990, fiz uma incursão em território boliviano que jamais esquecerei. Por duas horas, caminhei em um labirinto de túneis montanha adentro, no que hoje é conhecido como Cerro Potosí. Foi uma visita tensas e estranhas. Passagens estreitas e escuras, um ar sufocante, assim como o cheiro de terra misturada ao metal queimado. O calor era insuportável. Levamos oferendas aos homens que trabalhavam naquelas minas de prata, a bem dizer folhas de coca e refrigerante gelado. As folhas de coca, além de aliviar o sofrimento dos mineradores, também serviam de oferenda ao “Tio” (Supaya), entidade que zelava pela vida no Inframundo.

Recentemente, na província de Sur Lípez (Bolívia) – não muito longe das minas de Potosí – foi realizada uma descoberta arqueológica que confirma e aprofunda a continuidade do uso de psicotrópicos. Em um abrigo conhecido como “Caverna do Chileno” – 4 mil metros de altitude – arqueólogos localizaram uma pequena bolsa de couro em uma sepultura de 4 mil anos. Nela, encontraram tabuletas para suporte de pó alucinógeno, um tubo para aspiração e vestígios de plantas e ervas secas. A análise química desse material revelou indícios de harmina (Banesteriopsis caapi) e da erva Psychotria viridis, dois dos mais importantes ingredientes da bebida Ayahuasca, usada comumente na região Amazônica. Além destes, indícios também de folhas de coca e sementes usadas para produção de outro alucinógeno conhecido como Bufotenina.

O que separa essa descoberta arqueológica do caso relatado em Cerro Potosí - nos anos 1990 - é somente o tempo. O uso de psicotrópicos e compostos alucinógenos parece ter sido uma constante no passado da América do Sul. O pesquisador Santiago López-Pavillard, acredita que esse conhecimento das plantas e de sua manipulação foi resultado de milhares de anos de observações e experimentações. Foram erros e acertos, até a produção de alucinógenos distintos e precisos.

Essa produção só foi possível graças a uma incrível rede de comércio conhecida como “caravana de lhamas”, que transportava produtos das florestas tropicais, via altiplano, até o litoral do Chile e Peru. Mais do que um interesse comercial, essas caravanas faziam parte de um deslocar sagrado, que investiam seus participantes de status social pelo uso e fornecimento dos produtos e substâncias alucinógenas.

José Capriles, pesquisador da Universidade da Pensilvânia (EUA), acredita, contudo, que o uso de psicotrópicos iria além de necessidades ritualísticas. Para ele, seu uso pode ter sido realizado como atividades de interação social, e não apenas de uso animista.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 31/05/2019 às 12h23 | daltonmaziero@uol.com.br



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