Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

O MITO DA PEDRA DA GÁVEA

Existiu uma época no Brasil, em que teorias de colonização apontavam a presença de povos como os fenícios e vikings. Se hoje tais teorias são motivo de descrença – e até risos -, no século XIX e meados do XX eram levadas muito a sério, contribuindo para nosso imaginário popular. Os principais defensores de tais ideias foram Bernardo de Azevedo da Silva Ramos, Ludwig Schwennhagen e Paul Herrmann que escreveram nossa história, associando vestígios arqueológicos e línguas nativas às antigas civilizações indo-europeias.

A tentativa de negar a presença ameríndia - e tudo o que realizaram em nosso continente -, faz parte da teoria Difusionista, amplamente utilizada pelos cientistas e viajantes europeus nos séculos XVIII e XIX. Nela, vestígios arqueológicos do Novo Mundo eram associados às antigas civilizações conhecidas (egípcia, fenícia, romana, grega, viking) ou, quando muito distintas, à civilizações imaginárias, como a Atlântida, Lemúria ou o Reino de Salomão.

Aqui no Brasil, tudo começou no século XIX, quando em 1839 o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil realizou oficialmente pesquisas relacionadas às supostas antigas inscrições encontradas em nosso território. Após um relatório positivista sobre as “inscrições” na Pedra da Gávea (Rio de Janeiro), o assunto foi retomado oficialmente apenas em 1931 e 1933, quando um grupo de alpinistas partiu com o objetivo de localizar o túmulo de um rei fenício coroado em 856 aC.

Dentro desse contexto, a Pedra da Gávea angariou por várias décadas, muitos adeptos defensores da presença fenícia no Brasil. Localizada na Cordilheira da Tijuca, ela possui cerca de 840 metros de altura, com formação geológica em granito e gnaisse. Toda a crença da presença de povos antigos no Brasil parte da mera observação de ranhuras na rocha, que muitos imaginaram ser escritas antigas, indicadoras de um túmulo real e/ou tesouro escondido no Rio de Janeiro. Colaborava para isso – no imaginário popular – um suposto “rosto” em uma das faces da montanha. Muitos queriam ver nesse rosto, a Esfinge de Gizé.

Diversas expedições foram realizadas no local em 1937, 1946 e 1972, sem nenhum resultado concreto. Na década de 1950, devido aos constantes comentários, o Ministério da Educação do Brasil alegou “que o exame feito por geólogos havia provado ser nada mais que o efeito da erosão o que parecia ser uma inscrição”. Contudo, o lançamento de filmes populares como “Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa” (1970) – no qual buscam um tesouro fenício no Rio de Janeiro, alimentaram o imaginário por mais algum tempo.

Fato é, contudo, que a Pedra da Gávea não oferece nenhum interesse arqueológico ou prova relacionada aos antigos povos europeus. Hoje, as supostas “escritas fenícias” são tratadas como simples erosão, e o “rosto” como paredolia, um fenômeno psicológico que nos faz ver figuras onde não existem.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 29/04/2019 às 10h29 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

Assina a coluna América Misteriosa

Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.


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O MITO DA PEDRA DA GÁVEA

Existiu uma época no Brasil, em que teorias de colonização apontavam a presença de povos como os fenícios e vikings. Se hoje tais teorias são motivo de descrença – e até risos -, no século XIX e meados do XX eram levadas muito a sério, contribuindo para nosso imaginário popular. Os principais defensores de tais ideias foram Bernardo de Azevedo da Silva Ramos, Ludwig Schwennhagen e Paul Herrmann que escreveram nossa história, associando vestígios arqueológicos e línguas nativas às antigas civilizações indo-europeias.

A tentativa de negar a presença ameríndia - e tudo o que realizaram em nosso continente -, faz parte da teoria Difusionista, amplamente utilizada pelos cientistas e viajantes europeus nos séculos XVIII e XIX. Nela, vestígios arqueológicos do Novo Mundo eram associados às antigas civilizações conhecidas (egípcia, fenícia, romana, grega, viking) ou, quando muito distintas, à civilizações imaginárias, como a Atlântida, Lemúria ou o Reino de Salomão.

Aqui no Brasil, tudo começou no século XIX, quando em 1839 o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil realizou oficialmente pesquisas relacionadas às supostas antigas inscrições encontradas em nosso território. Após um relatório positivista sobre as “inscrições” na Pedra da Gávea (Rio de Janeiro), o assunto foi retomado oficialmente apenas em 1931 e 1933, quando um grupo de alpinistas partiu com o objetivo de localizar o túmulo de um rei fenício coroado em 856 aC.

Dentro desse contexto, a Pedra da Gávea angariou por várias décadas, muitos adeptos defensores da presença fenícia no Brasil. Localizada na Cordilheira da Tijuca, ela possui cerca de 840 metros de altura, com formação geológica em granito e gnaisse. Toda a crença da presença de povos antigos no Brasil parte da mera observação de ranhuras na rocha, que muitos imaginaram ser escritas antigas, indicadoras de um túmulo real e/ou tesouro escondido no Rio de Janeiro. Colaborava para isso – no imaginário popular – um suposto “rosto” em uma das faces da montanha. Muitos queriam ver nesse rosto, a Esfinge de Gizé.

Diversas expedições foram realizadas no local em 1937, 1946 e 1972, sem nenhum resultado concreto. Na década de 1950, devido aos constantes comentários, o Ministério da Educação do Brasil alegou “que o exame feito por geólogos havia provado ser nada mais que o efeito da erosão o que parecia ser uma inscrição”. Contudo, o lançamento de filmes populares como “Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa” (1970) – no qual buscam um tesouro fenício no Rio de Janeiro, alimentaram o imaginário por mais algum tempo.

Fato é, contudo, que a Pedra da Gávea não oferece nenhum interesse arqueológico ou prova relacionada aos antigos povos europeus. Hoje, as supostas “escritas fenícias” são tratadas como simples erosão, e o “rosto” como paredolia, um fenômeno psicológico que nos faz ver figuras onde não existem.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 29/04/2019 às 10h29 | daltonmaziero@uol.com.br



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