Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

O SOROCHE E A COCA

Para enfrentar as altas montanhas, os aymaras tomam certas precauções. Quando saem para longas caminhadas, carregar uma pequena dose de álcool e um pedaço de batata desidratada. Além de alimentar, esses produtos estimulam o corpo contra o frio e o cansaço. Mas, em se tratando de altitude, nada substitui a folha de coca. Ela é tão importante para o aymara como o dinheiro para nós. Só que eles têm um motivo a mais para empregá-la: seu uso é cultural, um gesto quase sagrado. Quando caminham nas altitudes, tentam combater a todo custo o soroche, também conhecido como "Mal dos Andes".

O soroche é um efeito causado pela falta de oxigênio. Apresenta sintomas perigosos: indisposição geral, seguida de forte dor de cabeça e uma ânsia de vômito incontrolável. Ele ataca principalmente quem não faz uma aclimatação adequada. Os aymaras, que vivem a 4000 metros, são naturalmente adaptados. Possuem um pulmão mais fundo e um coração maior que o nosso. Além disso, seu corpo fabrica maior quantidade de glóbulos vermelhos, conseguindo com isso, carregar oxigênio acima do normal. Em minhas viagens, presenciei pessoas fortes como um touro caírem ao solo, vítimas do soroche.

Há muito tempo, a coca é utilizada para combater tal problema. Para se precaver deste mal, basta mascar algumas folhas com uma massa de cinza calcária, chamada llipta, que tem o poder de fazer reagir o princípio ativo da folha, liberando a droga. Muitas lendas nos remetem à origem desta planta, com uma série de variantes, conforme a região e a cultura a que pertencem. 

Certa vez, um grupo de indígenas havia ultrapassado os cumes mais elevados da Cordilheira Real, seguindo a região conhecida como Yungas. Nela, decidiram limpar os terrenos para plantação, ateando fogo. Assim fizeram, levantando uma enorme coluna de fumaça que sujou os cumes do Illampu e do Illimani. Os homens não haviam feito aquilo por maldade, mas acabaram irritando o deus Khuno, que tinha seu reino estabelecido nas neves eternas. Sua fúria foi imediata, lançando sobre a região dos Yungas uma tempestade como nunca haviam visto. Muitos homens morreram, enquanto outros, abrigados em cavernas, viam as terras serem completamente destruída por vendavais e chuvas torrenciais. Quando finalmente a tempestade passou, os que sobraram saíram temerosos de suas cavernas deparando-se com um mundo arruinado. Isolados e desesperados, foram atingidos pela fome. Comiam o que ainda havia sobrado. Uma das poucas plantas que restava em meio ao caos, era um pequeno arbusto de folhas verde brilhante. Apanharam um punhado delas e imediatamente começaram a mastigar. Para surpresa geral, uma maravilhosa sensação de bem estar surgiu! A fome havia passado e sentiam-se fortes novamente para escaparem dos Yungas. Em poucos dias, estavam de volta ao seu povoado, onde entregaram as folhas milagrosas aos sábios locais. Assim, os aymaras conheceram a coca.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 10/07/2018 às 13h17 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.


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