Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

As tumbas de Tlalpan

Em 2006, a Universidade Pontifícia do México (Tlalpan) – localizada ao sul da capital – decidiu ampliar as instalações de sua Biblioteca e construir mais sete módulos de dormitórios. O que era para ser apenas uma reforma rotineira, deu lugar a uma intrigante descoberta arqueológica.

A cerca de 1,5 metros de profundidade, os arquitetos encontraram indícios de vestígios arqueológicos muito antigos. Como rege a lei mexicana, ao menor sinal de vestígios do passado, devem ser acionados os arqueólogos do INAH (Instituto Nacional de Antropologia e Historia), neste caso, capitaneado pelo arqueólogo Alejandro Meraz Moreno e por Jimena Rivera Escamilla. O que encontraram foi além de todas as expectativas: um fosso, com um enterramento formado por 10 esqueletos em espiral! Junto a eles, vestígios do mais antigo assentamento da zona sul do México, datando de aproximadamente 2.500 anos no passado.

Tecnicamente, o que localizaram foi um fosso cônico, com a abertura de superfície menor em relação ao seu interior. Esse tipo de construção foi usada no passado para armazenamento de grãos abaixo do solo, mas também como sepultura. A datação dos artefatos de cerâmica junto aos esqueletos, apontaram para um período entre 500 aC e 200 dC, uma época chamada de Formativo pelos estudiosos mesoamericanos. Somente depois disso, no período Pré-clássico, é que os habitantes dessa região começaram a mudar de vida, intensificando a agricultura, sua alimentação e ampliando as aldeias.

Os corpos encontrados tinham seus braços e pernas entrelaçados, formando uma espécie de “tecido humano”, o que sugere alguma espécie de ritual. Junto aos corpos (adultos, jovens e crianças), havia também ossos de um cachorro.

Este surpreendente sepultamento deve ter relação com o abandono da aldeia de Tlalpan - alguns anos depois no Pré-clássico - devido a erupção do vulcão Xitle. Geólogos da Universidade Nacional Autônoma do México apontam a erupção entre 50 e 280 de nossa era, resultando no abandono da região e interrupção do desenvolvimento das aldeias locais. Segundo Alejandro Meraz, a história registra um súbito aumento populacional na região de Texcoco, na zona norte da capital mexicana, entre 200 e 300 dC.

Essa descoberta traz a tona toda uma discussão social sobre a importância dos estudos arqueológicos preliminares nos casos de construções modernas. O México é provavelmente, o segundo país do mundo com mais vestígios arqueológicos em seu subsolo. Megacidades como a do México, impõem barreiras nessas pesquisas, que precisam ser desenvolvidas em conformidade com as necessidades dos tempos modernos.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 21/05/2018 às 10h05 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.


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