Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

Pachamama – A criação do mundo andino

Os aymaras (Altiplano do Lago Titicaca, Peru/Bolívia) possuem uma visão bastante particular sobre a existência da terra. Sim, porque a concebem como única e indivisível! Até a chegada incaica na região, o cultivo da terra tinha uma função coletiva, e um objetivo quase religioso. Plantavam em conjunto, mesmo que em um terreno particular, mas com resultados que favoreciam a coletividade. Pachamama gera a vida para que seja partilhada entre os homens, não para ser aproveitada de forma particular.

O respeito e veneração são tamanhos, que os aymaras criaram certos códigos com os quais podem relacionar-se e compreender as vontades e desgostos da Mãe Terra, ou Pachamama, como usualmente é chamada. Contudo, o conceito utilizado de Mãe Terra, não se refere somente a ela, no sentido material. Seu significado é muito mais complexo. Pachamama encontra-se em todos os lugares ao mesmo tempo. É a criadora benevolente da vida, e por consequência, extrapola o simples conceito de tempo. Tanto, que não existe uma data comemorativa. Tornou-se inseparável do cotidiano das pessoas. Não representa somente o solo divinizado, abençoado pelo alimento que nasce.

A determinação de Mãe, usado constantemente, significa apenas o termo mais próximo que foi encontrado pelos ocidentais para tentar compreendê-la. Não existe uma terminologia nas línguas ocidentais que possa, ou consiga expressar o seu verdadeiro significado. Pachamama é o próprio tempo em movimento. É o espaço indivisível, e por isto também, onipresente. Algo complexo demais para ser traduzido em palavras. Talvez seja a própria vida, em seu sentido mais amplo.

De qualquer modo, os aymaras a concebem como uma entidade viva, portadora de desejos e benevolências. Como todo ser vivo, comunica-se, alimenta-se e responde aos seres vivos de acordo com o tratamento que recebe. Existe toda uma mitologia para identificá-la. Dessa forma, encontramos entidades míticas que fazem parceria, interferindo em seu modo de ser. Os aymaras conceberam assim, Huara Tata, deus dos ventos, tempestades e furacões. Segundo a crença nativa, ele vive no topo de enormes montanhas, quando desce para impor seu "poder" sobre Pachamama. O poder aqui não é concebido em sentido ditatorial. É o poder de criação. Pachamama é essencialmente feminina e, portanto, geradora de vidas. Huara Tata é seu parceiro masculino, que desce das montanhas para fecunda-la, gerando novos filhos. O raciocínio aymara é simples e objetivo: vento que varre os pampas e montanhas é quem trás as sementes e provoca a chuva. É ele que remove a terra da superfície, que faz as águas de lagos e rios subirem, para depois cair em forma de chuva. Portanto, ele fecunda Pachamama, que possui a graça da vida. Proteja a Terra para não sofrer depois com as consequências. Em sua mentalidade, o camponês tem a certeza que Pachamama é como uma mãe.

 

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 17/04/2018 às 10h12 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.


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