Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

Mochicas - O uso sagrado de plantas alucinógenas

Durante certo tempo, pensou-se que alguns temas das crônicas espanholas sobre o Novo Mundo (América), eram apenas uma forma de difamar e justificar a conquista sobre os nativos. A questão do sacrifício humano foi um desses temas polêmicos. Na América do Sul em especial, vários autores negaram a existência de sacrifícios. Principalmente entre os Incas e outras civilizações consideradas pacíficas. Contudo, hoje sabemos que eles o realizavam, e que a prática remonta a 3.000 anos de antiguidade na região norte do Peru. A cerâmica Mochica (ou Moche) retratou esses sacrifícios elaborados, que eram até então interpretados como ações de caráter mítico.

Os Mochicas habitaram o litoral desértico do Peru, com seu auge entre 100 e 750 dC. Além de incríveis complexos piramidais - conhecidos como Huacas – eram hábeis ourives, ceramistas e guerreiros. Formaram uma sociedade complexa e estratificada, com forte poderio representado por uma classe sacerdotal, e com espaço para mulheres poderosas nos primeiros séculos de sua existência. Com o controle da água, obtiveram um excedente agrícola e, consequentemente, um aumento populacional.

Na última década, escavações realizadas em algumas Huacas (como Luna e Perro Viejo) e sepulturas como Sipán, revelaram centenas de esqueletos com incisões em seus ossos. Era a prova definitiva que os rituais de sacrifício foram reais e não mitológicos, como muitos pensavam.

Segundo a iconografia da cerâmica encontrada – e também de murais ilustrativos nas Huacas – os sacrificados eram, em geral, guerreiros cativos. Eles faziam parte de um cerimonial propiciatório de culto à divindade Aia-Paec, o Deus Decapitador. A ele, os Mochicas pediam boas colheitas, abundância de água e fertilidade humana. Dentro da complexibilidade ritual dos sacrifícios, um contexto que merece destaque é o uso de plantas e sementes alucinógenas.

Os guerreiros capturados, antes do ritual de sacrifício, passavam por uma longa preparação, que incluía o uso de sementes de Nectandra ap (hamalas)., cactos de San Pedro, e Datura Stramonium; todas plantas e sementes capazes de causar efeito analgésico, narcótico e alucinógeno. Inclusive alguma dessas sementes, como as hamalas e o ulluchu, possuíam efeito anticoagulante para o sangue.

O uso de hamalas foi detectado não apenas nas escavações Mochicas, mas também nas sepulturas de altitudes dos Incas, como na conhecida múmia “Juanita”. Além dessa, o Chamico (Erva do Diabo) foi outra planta alucinógena utilizada em profusão no mundo pré-colombiano. Evidencias de sua utilização foram encontradas nas culturas Nasca e Valdívia, sempre associadas à manipulação da consciência pelos sacerdotes locais.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 16/01/2018 às 18h11 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.


















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