Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

KJARISIRI – A lenda do degolador

A América Latina é repleta de lendas e mitos, por vezes, assustadores. Muitos deles são fusões entre lendas pré-colombianas e superstições europeias da época da conquista espanhola. Esta que segue, recolhi junto aos aymaras, em minhas andanças ao redor do lago Titicaca.

Nakaq, Nakajj, Nakkaq, Nacaj, entre outras variantes, vem de Nakay ou Nak'ay, que significa "aquele que degola". São conhecidos também como Kjarisiri, Llik'ichiri ou simplesmente, "Chupa Sebo". A variedade com que descrevem este lendário personagem no Peru e Bolívia é impressionante. No Peru pré-colombiano, Nacac significava "carniceiro". Não como açougueiro, mas sim na função em que uma pessoa esfolava animais para um sacrifício religioso.

No Titicaca, é muito difundida a versão do "Chupa Sebo", homem comum que vaga solitariamente pelas montanhas em busca de viajantes desavisados. Muitos acreditam nele e nas maldades que é capaz de realizar. Segundo os aymaras, o Kjarisiri atuar assim: Escolhe a vítima, aproximando-se sorridente, ganhando sua confiança. Depois oferece uma bebida que a deixa desacordada. Em seguida, opera a vítima - sem deixar cicatrizes - com o auxílio de uma faca, recolhendo sua gordura em uma vasilha. Na manhã seguinte, o viajante acorda e segue seu caminho sem lembrar do ocorrido. Logo adoece e morre, depois de dois dias. Segundo uma das versões, a gordura recolhida era vendida aos hospitais, para utilização em operações!

Entre 1570 e 1584, o padre Cristóbal de Molina anotou, enquanto trabalhava no hospital para indígenas de Cusco, uma série de lendas e tradições que seus próprios pacientes lhe transmitiam. Elas foram registradas em sua obra, "Ritos e fábulas dos incas" (1571). Nele, o autor deixa um relato que mostra serem os boatos sobre pessoas que recolhiam sebo, algo muito antigo: "No ano de 71 (1571) ...acreditavam os índios, que da Espanha haviam mandado (os espanhóis) a este reino por gordura dos índios para curar certas doenças que não se encontravam para ela medicina (cura) senão na citada gordura, (por isso) andavam os índios muito recatados e se estranhavam dos espanhóis com tanto agrado, que a lenha, ervas e outras coisas não a queriam levar a casa de espanhol, por dizer que os matassem ali dentro para retirar-lhes a gordura."

Outra versão fala do Kjarisiri como padres franciscanos, saindo em bandos de seus Conventos. Nela, seriam capazes de fazer adormecer suas vítimas com um pó mágico, soprado em seus rostos. Além de sua túnica, carregavam uma corda, faca e sinos, em sua marcha macabra. Os camponeses os descrevem como pessoas baixas, troncudas, com barba e cabelos compridos. Para muitos, é sinônimo de morte. Contudo, ele pode ser evitado através do alho, a exemplo das superstições europeias sobre vampiros. Apesar de macabras, são histórias fascinantes que enriquecem a mitologia de nosso continente.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 16/11/2017 às 15h28 | daltonmaziero@uol.com.br

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Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.
















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