Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

PUMA PUNKU – UM QUEBRA CABEÇA EM 3D

Estive ao menos quatro vezes em Puma Punku, na Bolívia. Em todas, sai daquelas ruínas com a nítida impressão de estar diante de um dos maiores desafios arqueológicos das Américas. Puma Punku foi construída ao redor do século VI. É na realidade, um templo que parece erguido em forma de pirâmide escalonada. Está situado dentro das ruínas de Tiwanaku, uma enorme cidade pré-colombiana às margens do lago Titicaca, em pleno altiplano boliviano, partilhado também com o Peru.

Puma Punku é formada por quatro terraços ladeada por lousas de pedra. Sobre esses terraços, foram colocados estranhos blocos, formando um edifício que nunca foi finalizado. Suas dimensões totais são de aproximadamente 116 x 167 metros. Acredita-se que a altura esteja no passado, por volta de 18 metros. O que mais intriga os visitantes de Puma Punku são seus colossais blocos de pedras, cortados e polidos à exaustão. Alguns deles chegam a pesar 20 toneladas, apresentando recortes tão detalhados, que nos fazem pensar sobre sua real utilização, ou como na realidade, se encaixavam umas às outras.

Agora, uma iniciativa pioneira – apoiada em alta tecnologia – propõe recriar esse monumento. Uma vez que é impossível manusear fisicamente suas enormes pedra para buscar a forma original da construção, a Universidade de Berkeley (Califórnia, EUA) reproduziu-os em miniatura, com a ajuda de um software e impressora 3D. O resultado foi a criação de 157 peças que formam um “quebra cabeça” tridimensional.

O projeto foi concebido pelo arqueólogo Alexei Vranic que, baseado em rigorosas medidas, recriou as peças em uma escala que representa 4% de seu tamanho real. Dessa forma, a manipulação em busca da forma original do monumento ganha novas perspectivas. Segundo Alexei, “A intenção de nosso projeto era traduzir esses dados em algo que nossas mãos e nossas mentes pudessem compreender. A impressão em miniatura dos modelos em 3D das pedras, nos permitiu manejar e reorganizar rapidamente os blocos para tentar recriar a estrutura”.

A proposta de construção através do recurso 3D provavelmente irá ajudar os cientistas a decifrar o uso prático daquele templo. A primeira conclusão do experimento mostra que a duplicação de portas em diferentes tamanhos, ao se encaixarem, passam a impressão de um espelho, como se a pessoa que adentrasse ao templo contemplasse o infinito.

Com essa aplicação técnica em Puma Punku, é possível agora pensar na mesma ação em relação a outros sítios arqueológicos, como Angkor Wat ou Palmira, destruída nos recentes conflitos na Síria.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 18/01/2019 às 20h06 | daltonmaziero@uol.com.br

Museu da Natureza

Crédito fotográfico: André Pessoa

Depois de ver queimar – de forma inconsequente – o Museu Nacional no Rio de Janeiro, finalmente recebemos a boa notícia da criação do Museu da Natureza (Piauí), localizado na zona de entorno do Parque Nacional da Serra da Capivara. Ele não irá substituir as peças perdidas no Rio de Janeiro, mas certamente dará um novo fôlego, e quem sabe um novo direcionamento de maior respeito, ao Patrimônio Nacional, que conta com possibilidades incríveis de formação de coleções.

O Museu da Natureza não é um museu de arqueologia, embora reserve espaço para áreas afins. Sua preocupação é outra. A começar por sua inovadora arquitetura em forma de espiral, planejado e dividido em 12 grandes salas. Seu acervo explora a megafauna e natureza brasileira, situando-a dentro da história geológica do Brasil, do mundo e do universo. Sim, do Universo, pois ele se preocupa em explicar aos seus visitantes a origem da vida até os tempos atuais.

A exemplo dos modernos museus, suas salas são interativas. O visitante pode manusear experimentos com ímãs (atração de corpos celestes), observar rochas primitivas e meteoritos com microscópios ou brincar com massas terrestres em um globo gigante. A interatividade permite até um sobrevoo simulado sobre a Serra da Capivara e observação da fauna pré-histórica nos primórdios da caatinga, composta de tigres dente de sabre, dinossauros, ursos, preguiças gigantes, animais marinhos e trilobitas.

Segundo Marcello Dantas - Curador do Museu – a ideia inicial surgiu da arqueóloga Niède Guidon, pioneira no estudo do passado da região: “A ideia de construir o Museu da Natureza partiu de Niède Guidon. Ela achava que a nossa história não poderia se limitar à história do homem, pois as descobertas na Serra da Capivara revelaram muito sobre a evolução da natureza”. Niède tem razão!

O Brasil, apesar de sua enorme riqueza e potencial em recursos naturais, apresenta ainda um baixo índice de unidades (Parques Nacionais) visitadas por nossa população. Só para se ter uma ideia, no Brasil são 10 milhões de visitas anuais, enquanto nos EUA, são mais de 307 milhões! Com a inauguração do Museu da Natureza, espera-se aumentar esse índice de visitação.

Foram mais de 50 anos de estudos na região para reunir provas e conhecimentos suficientes para a formação deste novo museu. E o local escolhido não poderia ser melhor! Localizado próximo ao Parque Nacional da Serra da Capivara - Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO - e considerada uma das maiores concentrações de sítios arqueológicos do mundo (1.354 sítios registrados) representados por milhares de pinturas rupestres datadas entre 6 a 12 mil anos de antiguidade. O Museu da Natureza aguarda agora, a nossa visita, para fortalecer sua existência e permitir seu reconhecimento.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 07/01/2019 às 10h24 | daltonmaziero@uol.com.br

O MITO DE CRIAÇÃO MUISCA

Se algum dia viajar por terras colombianas, certamente irá escutar a respeito dos Muíscas (ou chibchas), povo que migrou da América Central, estabelecendo-se nos planaltos da Colômbia, onde formou uma grande confederação político-administrativa. Uma das mais interessantes características desse povo, foi seu conceito mitológico da criação do mundo. Embora tenham habitado os atuais estados de Cundinamarca e Boyacá, foi nesse último – mais especificamente nos arredores de Villa de Leyva – que encontramos vestígios arqueológicos de sua presença e alguns territórios sagrados, como a Laguna de Iguaque. Nesta laguna ocorre o mito de Bachué, deusa e mãe dos Muíscas!

A laguna sagrada - situada a 3.800 metros de altitude - é fria, mas cercada de flores e vegetação rasteira. Segundo os Muíscas, em tempos imemoriais, suas águas começaram a borbulhar, e dela ergueu-se nua Bachué - também conhecida como Furachonga -, uma linda mulher esbelta e de longos cabelos. Trazia em seus braços uma criança, seu filho, de três anos. Caminhou assim sobre as águas da laguna, até atingir sua orla.

Bachué desceu da serra para terras mais baixas, onde construiu uma cabana e criou seu filho. Eram épocas de terras selvagens, ainda sem seres humanos ou outros animais. Quando a criança cresceu, iniciou sua missão de povoar a terra. Contraíram matrimônio, e Bachué de tão fértil, a cada parto gerava de quatro a seis filhos. Viajaram assim por várias regiões, povoando com seus filhos cada território. E os ensinou a cozinhar, tecer, cultivar a terra, construir casas, fazer potes de barro e trabalhar o metal.

Povoada a terra, Bachué e seu marido retornaram a laguna Iguaque. Lá, diante de vários de seus filhos, aconselhou-os a seguirem seus ensinamentos, suas leis, a pregarem a paz, os preceitos das leis e, principalmente, honrar seus deuses. Dito isso, mergulharam na laguna e desapareceram. Tempos depois, ressurgiram em forma de serpente, percorrendo a terra e anunciando que sempre estariam presentes na vida dos homens. A laguna Iguaque converteu-se em um lugar sagrado e ali iniciaram celebrações em homenagem a Bachué. Isso determinou o matriarcado no povo Muísca, onde a mulher exercia papel fundamental na transmissão dos costumes, tradições e valores culturais.

O mito criador de Bachué não é o único existente na Colômbia, mas evidencia uma forte tradição relacionada à fertilidade. Não sem motivo, relativamente perto da laguna Iguaque, fica o sítio arqueológico de “El Infiernito” - já descrito nestas crônicas - onde podemos encontrar um observatório celeste formado por enormes falos de pedra! O mito Muísca revela enfim, uma ordem social diferente da que conhecemos, onde a natureza e a fertilidade andavam parelhas, coligadas a imagem da mulher.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 19/12/2018 às 11h56 | daltonmaziero@uol.com.br

UM NOVO ROSTO PARA LUZIA?

Na noite de 02 de setembro de 2018, assistimos estarrecidos o incêndio de grandes proporções que destruiu quase a totalidade de um dos maiores acervos históricos do Brasil e do mundo, no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Independente dos culpados por esse descaso, fato é que lá se perdeu a ossada de “Luzia”, peça fundamental para o entendimento da ocupação da América.

Nos anos de 1990, ocorreu uma quebra de paradigma relacionado a essa ocupação. Até os anos de 1970, a visão norte americana indicava que ela ocorrera pela migração via Estreito de Bering, cerca de 13 mil anos atrás. Ao final da última Era Glacial (100 a 12 mil anos), o grupo que avançou formou a chamada cultura Clóvis, tornando-se caçadores-coletores nas estepes dos EUA.

Contudo, descobertas arqueológicas na América do Sul indicavam que grupos humanos se estabeleceram aqui a mais de 14 mil anos atrás, como é o caso de Monte Verde, no Chile. Ou seja, a datação da transposição do Estreito de Bering estava incorreta, e os arqueólogos norte americanos acabaram aceitando que a América do Sul possuía datações mais antigas que a da cultura Clovis.

Agora em 2018, ocorreu um novo paradigma, que só foi possível graças aos estudos da biologia molecular e do DNA fóssil. Segundo esses novos estudos, grupos humanos cruzaram o Estreito de Bering cerca de 17 mil anos atrás, em uma corrente migratória com DNA cuja afinidade se aproxima do norte da China e Sibéria; e não da África e Australásia, como se pensava antes. Essa onda migratória invadiu a América do Sul em três épocas distintas: 15 mil, 9 mil e 4,5 mil anos atrás, sendo esta última estabelecida pontualmente no Andes Centrais.

A pesquisa utilizou, entre outros, esqueletos encontrados na Lagoa Santa (Brasil), que revelaram ligações genéticas com o grupo Clovis (EUA). Portanto, ao contrário do que se pensava, o grupo brasileiro - incluindo Luzia (12.500 anos) - não possuía nenhuma proveniência africana ou aborígene. O famoso busto de Luzia - destruído no incêndio - foi concebido pelo britânico Richard Neave, na década de 1990, baseado nas feições africanas e aborígenes australianas.

Outra lição aprendida com a pesquisa de DNA, mostra que a formação morfológica craniana não são fontes confiáveis para recriações genéticas. Com essas novas informações em mãos, a especialista em reconstrução forense Caroline Wilkinson trabalha na reconstrução de outros fósseis provenientes de Lagoa Santa, na esperança de, desta vez, conseguir alcançar um resultado mais confiável do que o antigo busto de Luzia. Infelizmente, mais de 100 indivíduos - representados por fósseis - ainda não estudados, perderam-se com o terrível incêndio do Museu Nacional, limitando assim, pesquisas mais avançadas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 06/12/2018 às 16h26 | daltonmaziero@uol.com.br

A épica viagem oceânica de Tupac Yupangui

Existem inúmeros enigmas por resolver na história pré-colombiana. Talvez um dos mais curiosos seja a que fala de uma viagem oceânica feita por Túpac Yupanqui (1441-1493) em 1465, rumo a Polinésia. Túpac Yupanqui foi o 10º Governante Inca, e um dos maiores conquistadores de nosso continente. Suas andanças e explorações são comparáveis às de Alexandre o Grande, e podemos dizer seguramente, que o território peruano deve suas atuais fronteiras a Túpac.

Essa surpreendente navegação foi relatada por alguns cronistas, entre os quais Sarmiento de Gamboa, Miguel Cabello de Balboa e Martín Murúa. Sarmiento nos conta que o Inca, durante suas conquistas no litoral norte do Peru, viu aportar ali umas balsas de junco a vela, com mercadores oceânicos. Indagados das terras de onde vinham... “informaram que eram umas ilhas, chamadas uma Auachumbi e outra Niñachumbi, onde havia muita gente e ouro”. E Túpac, que parecia insaciável em suas conquistas, decidiu de imediato montar uma frota de balsas de junco e se lançar ao mar... “e para isso fez uma numerosíssima quantidade de balsas, nas quais embarcou mais de 20 mil soldados escolhidos”. E Sarmiento ainda completa sua crônica... “E navegou Túpac Inca e foi e descobriu as ilhas...e voltou de lá, trazendo gente negra e muito ouro...”

Até onde podemos crer nas palavras desses cronistas? Tecnicamente, seria possível um nativo Andino - de hábitos tradicionalmente terrestres - criar uma frota naval dessa magnitude? E que ilhas eram estas, de Auachumbi e Niñachumbi? Seriam as Galápagos ou a distante Polinésia?

Muitos historiadores acreditam hoje que Túpac realmente atingiu a Polinésia, numa viagem de 7 mil km. Na ilha de Mangareva, por exemplo, existe uma lenda do “Rei Tupa”, que chegou pelo mar de um distante país, com o objetivo de instruir as pessoas. Também é de se notar, que a ilha é uma das únicas a possuir embarcações estilo balsa à vela, como as que o Inca utilizou. Também na Ilha de Páscoa - retorno natural ao continente americano segundo as correntes marítimas do Pacífico - podemos encontrar vestígios intrigantes dessa viagem, como a existência de um muro de arquitetura igual à dos Incas. O local é conhecido como “Templo de Vinapú”, e sua semelhança com a arquitetura peruana da época de Túpac Yupanqui é assombrosa!

Em 1947, o navegante norueguês Thor Heyerdahl decidiu provar que era possível navegar da costa peruana à Polinésia em balsas de junco. A hoje lendária expedição “Kon-Tiki” aproveitou as correntes marítimas e venceu a distância em 101 dias, desembarcando em 07 de agosto de 1947 na Ilha Tuamotu, na Polinésia. Ou seja, podemos afirmar que, ao menos do ponto de vista técnico, a incrível viagem de Túpac Yupanqui foi uma realidade.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)Thomas Roe, 1611

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 19/11/2018 às 11h52 | daltonmaziero@uol.com.br

ISKANWAYA RENASCIDA!

Foi com muita felicidade que li a recente notícia da retomada das escavações de Iskanwaya (Bolívia) e do objetivo de fazer daquele local, um polo turístico. Mas tudo deve ser feito com muito cuidado! Afinal, são 325 km de distância da capital La Paz e já se vão mais de 30 anos desde as últimas escavações.

Segundo Carlos Lemuz (Presidente da SALP – Sociedade de Arqueólogos de La Paz): “Já no passado tentaram realizar projetos semelhantes, com resultados incompletos ou falidos, principalmente por falta de supervisão e fiscalização”. Eu mesmo vi o resultado de uma dessas tentativas em 1997, quando realizei uma caminhada pela Cordilheira - entre despenhadeiros traiçoeiros - até atingir Aucapata, o povoado mais próximo às ruínas. Na entrada do sítio, uma placa enferrujada alertava para o “Projeto Iskanwaya”. Na época, os moradores me disseram que aquele foi apenas mais uma das tentativas frustradas de fazer dali, um atrativo turístico.

Iskanwaya é um lugar difícil de ser atingido e compreendido. Espremida num pequeno espaço de terreno, apresenta "ruas" estreitas, separadas por enormes muralhas com leve grau de inclinação. Tudo ali fora meticulosamente planejado pelo povo Mollo. As ruínas são divididas em blocos, onde podemos distinguir vários agrupamentos de casas. Um deles, no entanto, é maior e mais completo, contendo todas as características típicas dos antigos mollos. Elas estão localizadas a 1700 metros de altitude, cobrindo uma área de aproximadamente 13 hectares. As inclinações de seus terraços e dos muros são de 1,5 graus em relação à perpendicular. Reclinadas, evitam possíveis deslizamentos.

Impossível não reparar as casas geminadas, originalmente pintadas de vermelho. Todas com duas dependências. A da frente é aberta para o pátio central da cidade. Cozinhavam, teciam e produziam seus objetos de cerâmica. Neste espaço, moíam seus grãos, esfregando-os sobre uma pedra côncava com o auxílio de outra circular. Ainda hoje podemos ver vários desses moedores em pedra! Já o cômodo dos fundos era fechado e acessado apenas por uma janela em forma de trapézio. Esse estilo de janela foi idealizado para suportar tremores de terra e, ao contrário do que dizem, não foi invenção dos Incas, mas sim dos Mollos!

Em Aucapata, me contaram uma interessante lenda sobre o abandono do lugar. Dizem que os mollos não conhecia o sol. Viviam de noite, e dormiam de dia. Então, os sábios de Iskanwaya - aos gritos - anunciando que uma desgraça iria se abater sobre a cidade. Falavam que uma grande bola de fogo (Sol) surgiria no céu, prognosticando uma série de calamidades. Apavorados, os moradores se trancaram em suas casas a fim de não presenciarem o acontecimento. Tão temerosos ficaram que pereceram todos de fome e medo. Assim, Iskanwaya caiu em abandono e ruína.


Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 31/10/2018 às 16h04 | daltonmaziero@uol.com.br



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Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.


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América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

PUMA PUNKU – UM QUEBRA CABEÇA EM 3D

Estive ao menos quatro vezes em Puma Punku, na Bolívia. Em todas, sai daquelas ruínas com a nítida impressão de estar diante de um dos maiores desafios arqueológicos das Américas. Puma Punku foi construída ao redor do século VI. É na realidade, um templo que parece erguido em forma de pirâmide escalonada. Está situado dentro das ruínas de Tiwanaku, uma enorme cidade pré-colombiana às margens do lago Titicaca, em pleno altiplano boliviano, partilhado também com o Peru.

Puma Punku é formada por quatro terraços ladeada por lousas de pedra. Sobre esses terraços, foram colocados estranhos blocos, formando um edifício que nunca foi finalizado. Suas dimensões totais são de aproximadamente 116 x 167 metros. Acredita-se que a altura esteja no passado, por volta de 18 metros. O que mais intriga os visitantes de Puma Punku são seus colossais blocos de pedras, cortados e polidos à exaustão. Alguns deles chegam a pesar 20 toneladas, apresentando recortes tão detalhados, que nos fazem pensar sobre sua real utilização, ou como na realidade, se encaixavam umas às outras.

Agora, uma iniciativa pioneira – apoiada em alta tecnologia – propõe recriar esse monumento. Uma vez que é impossível manusear fisicamente suas enormes pedra para buscar a forma original da construção, a Universidade de Berkeley (Califórnia, EUA) reproduziu-os em miniatura, com a ajuda de um software e impressora 3D. O resultado foi a criação de 157 peças que formam um “quebra cabeça” tridimensional.

O projeto foi concebido pelo arqueólogo Alexei Vranic que, baseado em rigorosas medidas, recriou as peças em uma escala que representa 4% de seu tamanho real. Dessa forma, a manipulação em busca da forma original do monumento ganha novas perspectivas. Segundo Alexei, “A intenção de nosso projeto era traduzir esses dados em algo que nossas mãos e nossas mentes pudessem compreender. A impressão em miniatura dos modelos em 3D das pedras, nos permitiu manejar e reorganizar rapidamente os blocos para tentar recriar a estrutura”.

A proposta de construção através do recurso 3D provavelmente irá ajudar os cientistas a decifrar o uso prático daquele templo. A primeira conclusão do experimento mostra que a duplicação de portas em diferentes tamanhos, ao se encaixarem, passam a impressão de um espelho, como se a pessoa que adentrasse ao templo contemplasse o infinito.

Com essa aplicação técnica em Puma Punku, é possível agora pensar na mesma ação em relação a outros sítios arqueológicos, como Angkor Wat ou Palmira, destruída nos recentes conflitos na Síria.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 18/01/2019 às 20h06 | daltonmaziero@uol.com.br

Museu da Natureza

Crédito fotográfico: André Pessoa

Depois de ver queimar – de forma inconsequente – o Museu Nacional no Rio de Janeiro, finalmente recebemos a boa notícia da criação do Museu da Natureza (Piauí), localizado na zona de entorno do Parque Nacional da Serra da Capivara. Ele não irá substituir as peças perdidas no Rio de Janeiro, mas certamente dará um novo fôlego, e quem sabe um novo direcionamento de maior respeito, ao Patrimônio Nacional, que conta com possibilidades incríveis de formação de coleções.

O Museu da Natureza não é um museu de arqueologia, embora reserve espaço para áreas afins. Sua preocupação é outra. A começar por sua inovadora arquitetura em forma de espiral, planejado e dividido em 12 grandes salas. Seu acervo explora a megafauna e natureza brasileira, situando-a dentro da história geológica do Brasil, do mundo e do universo. Sim, do Universo, pois ele se preocupa em explicar aos seus visitantes a origem da vida até os tempos atuais.

A exemplo dos modernos museus, suas salas são interativas. O visitante pode manusear experimentos com ímãs (atração de corpos celestes), observar rochas primitivas e meteoritos com microscópios ou brincar com massas terrestres em um globo gigante. A interatividade permite até um sobrevoo simulado sobre a Serra da Capivara e observação da fauna pré-histórica nos primórdios da caatinga, composta de tigres dente de sabre, dinossauros, ursos, preguiças gigantes, animais marinhos e trilobitas.

Segundo Marcello Dantas - Curador do Museu – a ideia inicial surgiu da arqueóloga Niède Guidon, pioneira no estudo do passado da região: “A ideia de construir o Museu da Natureza partiu de Niède Guidon. Ela achava que a nossa história não poderia se limitar à história do homem, pois as descobertas na Serra da Capivara revelaram muito sobre a evolução da natureza”. Niède tem razão!

O Brasil, apesar de sua enorme riqueza e potencial em recursos naturais, apresenta ainda um baixo índice de unidades (Parques Nacionais) visitadas por nossa população. Só para se ter uma ideia, no Brasil são 10 milhões de visitas anuais, enquanto nos EUA, são mais de 307 milhões! Com a inauguração do Museu da Natureza, espera-se aumentar esse índice de visitação.

Foram mais de 50 anos de estudos na região para reunir provas e conhecimentos suficientes para a formação deste novo museu. E o local escolhido não poderia ser melhor! Localizado próximo ao Parque Nacional da Serra da Capivara - Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO - e considerada uma das maiores concentrações de sítios arqueológicos do mundo (1.354 sítios registrados) representados por milhares de pinturas rupestres datadas entre 6 a 12 mil anos de antiguidade. O Museu da Natureza aguarda agora, a nossa visita, para fortalecer sua existência e permitir seu reconhecimento.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 07/01/2019 às 10h24 | daltonmaziero@uol.com.br

O MITO DE CRIAÇÃO MUISCA

Se algum dia viajar por terras colombianas, certamente irá escutar a respeito dos Muíscas (ou chibchas), povo que migrou da América Central, estabelecendo-se nos planaltos da Colômbia, onde formou uma grande confederação político-administrativa. Uma das mais interessantes características desse povo, foi seu conceito mitológico da criação do mundo. Embora tenham habitado os atuais estados de Cundinamarca e Boyacá, foi nesse último – mais especificamente nos arredores de Villa de Leyva – que encontramos vestígios arqueológicos de sua presença e alguns territórios sagrados, como a Laguna de Iguaque. Nesta laguna ocorre o mito de Bachué, deusa e mãe dos Muíscas!

A laguna sagrada - situada a 3.800 metros de altitude - é fria, mas cercada de flores e vegetação rasteira. Segundo os Muíscas, em tempos imemoriais, suas águas começaram a borbulhar, e dela ergueu-se nua Bachué - também conhecida como Furachonga -, uma linda mulher esbelta e de longos cabelos. Trazia em seus braços uma criança, seu filho, de três anos. Caminhou assim sobre as águas da laguna, até atingir sua orla.

Bachué desceu da serra para terras mais baixas, onde construiu uma cabana e criou seu filho. Eram épocas de terras selvagens, ainda sem seres humanos ou outros animais. Quando a criança cresceu, iniciou sua missão de povoar a terra. Contraíram matrimônio, e Bachué de tão fértil, a cada parto gerava de quatro a seis filhos. Viajaram assim por várias regiões, povoando com seus filhos cada território. E os ensinou a cozinhar, tecer, cultivar a terra, construir casas, fazer potes de barro e trabalhar o metal.

Povoada a terra, Bachué e seu marido retornaram a laguna Iguaque. Lá, diante de vários de seus filhos, aconselhou-os a seguirem seus ensinamentos, suas leis, a pregarem a paz, os preceitos das leis e, principalmente, honrar seus deuses. Dito isso, mergulharam na laguna e desapareceram. Tempos depois, ressurgiram em forma de serpente, percorrendo a terra e anunciando que sempre estariam presentes na vida dos homens. A laguna Iguaque converteu-se em um lugar sagrado e ali iniciaram celebrações em homenagem a Bachué. Isso determinou o matriarcado no povo Muísca, onde a mulher exercia papel fundamental na transmissão dos costumes, tradições e valores culturais.

O mito criador de Bachué não é o único existente na Colômbia, mas evidencia uma forte tradição relacionada à fertilidade. Não sem motivo, relativamente perto da laguna Iguaque, fica o sítio arqueológico de “El Infiernito” - já descrito nestas crônicas - onde podemos encontrar um observatório celeste formado por enormes falos de pedra! O mito Muísca revela enfim, uma ordem social diferente da que conhecemos, onde a natureza e a fertilidade andavam parelhas, coligadas a imagem da mulher.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 19/12/2018 às 11h56 | daltonmaziero@uol.com.br

UM NOVO ROSTO PARA LUZIA?

Na noite de 02 de setembro de 2018, assistimos estarrecidos o incêndio de grandes proporções que destruiu quase a totalidade de um dos maiores acervos históricos do Brasil e do mundo, no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Independente dos culpados por esse descaso, fato é que lá se perdeu a ossada de “Luzia”, peça fundamental para o entendimento da ocupação da América.

Nos anos de 1990, ocorreu uma quebra de paradigma relacionado a essa ocupação. Até os anos de 1970, a visão norte americana indicava que ela ocorrera pela migração via Estreito de Bering, cerca de 13 mil anos atrás. Ao final da última Era Glacial (100 a 12 mil anos), o grupo que avançou formou a chamada cultura Clóvis, tornando-se caçadores-coletores nas estepes dos EUA.

Contudo, descobertas arqueológicas na América do Sul indicavam que grupos humanos se estabeleceram aqui a mais de 14 mil anos atrás, como é o caso de Monte Verde, no Chile. Ou seja, a datação da transposição do Estreito de Bering estava incorreta, e os arqueólogos norte americanos acabaram aceitando que a América do Sul possuía datações mais antigas que a da cultura Clovis.

Agora em 2018, ocorreu um novo paradigma, que só foi possível graças aos estudos da biologia molecular e do DNA fóssil. Segundo esses novos estudos, grupos humanos cruzaram o Estreito de Bering cerca de 17 mil anos atrás, em uma corrente migratória com DNA cuja afinidade se aproxima do norte da China e Sibéria; e não da África e Australásia, como se pensava antes. Essa onda migratória invadiu a América do Sul em três épocas distintas: 15 mil, 9 mil e 4,5 mil anos atrás, sendo esta última estabelecida pontualmente no Andes Centrais.

A pesquisa utilizou, entre outros, esqueletos encontrados na Lagoa Santa (Brasil), que revelaram ligações genéticas com o grupo Clovis (EUA). Portanto, ao contrário do que se pensava, o grupo brasileiro - incluindo Luzia (12.500 anos) - não possuía nenhuma proveniência africana ou aborígene. O famoso busto de Luzia - destruído no incêndio - foi concebido pelo britânico Richard Neave, na década de 1990, baseado nas feições africanas e aborígenes australianas.

Outra lição aprendida com a pesquisa de DNA, mostra que a formação morfológica craniana não são fontes confiáveis para recriações genéticas. Com essas novas informações em mãos, a especialista em reconstrução forense Caroline Wilkinson trabalha na reconstrução de outros fósseis provenientes de Lagoa Santa, na esperança de, desta vez, conseguir alcançar um resultado mais confiável do que o antigo busto de Luzia. Infelizmente, mais de 100 indivíduos - representados por fósseis - ainda não estudados, perderam-se com o terrível incêndio do Museu Nacional, limitando assim, pesquisas mais avançadas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 06/12/2018 às 16h26 | daltonmaziero@uol.com.br

A épica viagem oceânica de Tupac Yupangui

Existem inúmeros enigmas por resolver na história pré-colombiana. Talvez um dos mais curiosos seja a que fala de uma viagem oceânica feita por Túpac Yupanqui (1441-1493) em 1465, rumo a Polinésia. Túpac Yupanqui foi o 10º Governante Inca, e um dos maiores conquistadores de nosso continente. Suas andanças e explorações são comparáveis às de Alexandre o Grande, e podemos dizer seguramente, que o território peruano deve suas atuais fronteiras a Túpac.

Essa surpreendente navegação foi relatada por alguns cronistas, entre os quais Sarmiento de Gamboa, Miguel Cabello de Balboa e Martín Murúa. Sarmiento nos conta que o Inca, durante suas conquistas no litoral norte do Peru, viu aportar ali umas balsas de junco a vela, com mercadores oceânicos. Indagados das terras de onde vinham... “informaram que eram umas ilhas, chamadas uma Auachumbi e outra Niñachumbi, onde havia muita gente e ouro”. E Túpac, que parecia insaciável em suas conquistas, decidiu de imediato montar uma frota de balsas de junco e se lançar ao mar... “e para isso fez uma numerosíssima quantidade de balsas, nas quais embarcou mais de 20 mil soldados escolhidos”. E Sarmiento ainda completa sua crônica... “E navegou Túpac Inca e foi e descobriu as ilhas...e voltou de lá, trazendo gente negra e muito ouro...”

Até onde podemos crer nas palavras desses cronistas? Tecnicamente, seria possível um nativo Andino - de hábitos tradicionalmente terrestres - criar uma frota naval dessa magnitude? E que ilhas eram estas, de Auachumbi e Niñachumbi? Seriam as Galápagos ou a distante Polinésia?

Muitos historiadores acreditam hoje que Túpac realmente atingiu a Polinésia, numa viagem de 7 mil km. Na ilha de Mangareva, por exemplo, existe uma lenda do “Rei Tupa”, que chegou pelo mar de um distante país, com o objetivo de instruir as pessoas. Também é de se notar, que a ilha é uma das únicas a possuir embarcações estilo balsa à vela, como as que o Inca utilizou. Também na Ilha de Páscoa - retorno natural ao continente americano segundo as correntes marítimas do Pacífico - podemos encontrar vestígios intrigantes dessa viagem, como a existência de um muro de arquitetura igual à dos Incas. O local é conhecido como “Templo de Vinapú”, e sua semelhança com a arquitetura peruana da época de Túpac Yupanqui é assombrosa!

Em 1947, o navegante norueguês Thor Heyerdahl decidiu provar que era possível navegar da costa peruana à Polinésia em balsas de junco. A hoje lendária expedição “Kon-Tiki” aproveitou as correntes marítimas e venceu a distância em 101 dias, desembarcando em 07 de agosto de 1947 na Ilha Tuamotu, na Polinésia. Ou seja, podemos afirmar que, ao menos do ponto de vista técnico, a incrível viagem de Túpac Yupanqui foi uma realidade.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)Thomas Roe, 1611

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 19/11/2018 às 11h52 | daltonmaziero@uol.com.br

ISKANWAYA RENASCIDA!

Foi com muita felicidade que li a recente notícia da retomada das escavações de Iskanwaya (Bolívia) e do objetivo de fazer daquele local, um polo turístico. Mas tudo deve ser feito com muito cuidado! Afinal, são 325 km de distância da capital La Paz e já se vão mais de 30 anos desde as últimas escavações.

Segundo Carlos Lemuz (Presidente da SALP – Sociedade de Arqueólogos de La Paz): “Já no passado tentaram realizar projetos semelhantes, com resultados incompletos ou falidos, principalmente por falta de supervisão e fiscalização”. Eu mesmo vi o resultado de uma dessas tentativas em 1997, quando realizei uma caminhada pela Cordilheira - entre despenhadeiros traiçoeiros - até atingir Aucapata, o povoado mais próximo às ruínas. Na entrada do sítio, uma placa enferrujada alertava para o “Projeto Iskanwaya”. Na época, os moradores me disseram que aquele foi apenas mais uma das tentativas frustradas de fazer dali, um atrativo turístico.

Iskanwaya é um lugar difícil de ser atingido e compreendido. Espremida num pequeno espaço de terreno, apresenta "ruas" estreitas, separadas por enormes muralhas com leve grau de inclinação. Tudo ali fora meticulosamente planejado pelo povo Mollo. As ruínas são divididas em blocos, onde podemos distinguir vários agrupamentos de casas. Um deles, no entanto, é maior e mais completo, contendo todas as características típicas dos antigos mollos. Elas estão localizadas a 1700 metros de altitude, cobrindo uma área de aproximadamente 13 hectares. As inclinações de seus terraços e dos muros são de 1,5 graus em relação à perpendicular. Reclinadas, evitam possíveis deslizamentos.

Impossível não reparar as casas geminadas, originalmente pintadas de vermelho. Todas com duas dependências. A da frente é aberta para o pátio central da cidade. Cozinhavam, teciam e produziam seus objetos de cerâmica. Neste espaço, moíam seus grãos, esfregando-os sobre uma pedra côncava com o auxílio de outra circular. Ainda hoje podemos ver vários desses moedores em pedra! Já o cômodo dos fundos era fechado e acessado apenas por uma janela em forma de trapézio. Esse estilo de janela foi idealizado para suportar tremores de terra e, ao contrário do que dizem, não foi invenção dos Incas, mas sim dos Mollos!

Em Aucapata, me contaram uma interessante lenda sobre o abandono do lugar. Dizem que os mollos não conhecia o sol. Viviam de noite, e dormiam de dia. Então, os sábios de Iskanwaya - aos gritos - anunciando que uma desgraça iria se abater sobre a cidade. Falavam que uma grande bola de fogo (Sol) surgiria no céu, prognosticando uma série de calamidades. Apavorados, os moradores se trancaram em suas casas a fim de não presenciarem o acontecimento. Tão temerosos ficaram que pereceram todos de fome e medo. Assim, Iskanwaya caiu em abandono e ruína.


Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 31/10/2018 às 16h04 | daltonmaziero@uol.com.br



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Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.


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