Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

Novas descobertas na Ilha de Páscoa

A Ilha de Páscoa - território chileno - sempre foi sinônimo e exemplo de colapso de uma antiga civilização. As evidências arqueológicas e relatos de navegantes do XVIII nos legaram a imagem de um povo que não soube administrar sua terra e seus recursos naturais. Uma sociedade que, por esses motivos, implodir em guerras tribais por comida, madeira e sombra. Sim, sombra! Porque suas árvores foram todas cortadas para fabricação de barcos e toras de locomoção dos Moais, suas famosas estátuas ancestrais de tamanho colossal. Evidências inclusive revelam que ocorreu atos de canibalismo entre os últimos remanescentes desse povo hoje extinto.

Esses antigos habitantes da Ilha de Páscoa - os Rapanui - fazem parte de uma onda migratória polinésia, que teve início por volta de 900 dC. Em meio ao Pacífico - 3.700 Km da costa chilena -, esse povo construiu cerca de 900 estátuas ancestrais entre 1250 e 1500 dC. Quando o holandês Jakob Roggeveen aportou na ilha em 1722, encontrou evidências de uma sociedade decadente, bastante desestruturada. Mas não foi sempre assim.

Embora muitas evidências apontem para um rápido declínio social, outras bem mais recentes revelem que o povo Rapanui desenvolveu uma relação muito mais sofisticada do que imaginávamos; e que a colaboração interna foi – pelo menos durante um bom tempo – uma prática corriqueira. Os antropólogos Dale Simpson (Universidade Queensland) e Laure Dussubliex (Museu Field de História Natural de Chicago) analisaram a composição química existente em antigas ferramentas de lavrar a pedra, utilizadas para a construção dos Moais, e descobriram que havia muito mais colaboração e compartilhamento de informações, do que pudemos imaginar.

Uma das ideias vigentes, era a de que os diversos grupos – clãs – competiam entre si pelos recursos naturais e pela fabricação de estátuas, em um constante estado de beligerância. Mas não foi bem assim. Ao que tudo indica, ocorreu muita colaboração entre os clãs, seja no fornecimento de elementos naturais, seja no empréstimo de ferramentas. “Existia uma espécie de supervisão socioeconômica e política entre eles”, conta Dale. A equipe, que está a 35 anos estudando os vestígios dos Rapanui, analisou diversas ferramentas em sua estrutura microscópica, determinando sua procedência e uso nas pedreiras existentes na ilha.

Assim, agora são levados em consideração novas hipóteses avaliando o desgaste natural dos recursos, decorrente da instabilidade climática. Dessa forma, alguns antigos conceitos como o colapso e o esgotamento de recursos precisam ser revistos. Eles provavelmente ocorreram, mas talvez não da forma catastrófica e rápida como muitos autores descreveram no passado.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 24/09/2018 às 16h27 | daltonmaziero@uol.com.br

QORIKANCHA – O TEMPLO DO SOL

Em 1950, religiosos dominicanos se desesperaram nas ruas da cidade de Cusco (Peru). Um grande terremoto devastou vários edifícios, e fez vir abaixo - pela segunda vez - boa parte do Convento de Santo Domingo, que ocupava a região central desde 1534. Enquanto uns lamentavam a derrocada do Convento, outros viam a oportunidade para fazer renascer o verdadeiro templo local: O Qorikancha (Koricancha), ou Templo do Sol, construído e ampliado por vários dignitários Incas, em especial Tupa Yupanki.

O terremoto expôs uma das mais imponentes construções do Império Inca. Enquanto os edifícios modernos ruíam, os alicerces do Qorikancha suportaram os tremores, graças a primorosa arquitetura inca, com rochas habilmente encaixadas e reclinadas para suportarem tremores de terra.

O Qorikancha era mais que um templo. Foi um espaço sagrado de oração, e nele estavam além do Templo do Sol, o Templo Chuki Illapa (Trovões), o Templo da Lua, o Templo de Vênus e das Estrelas e o K’uychi, Templo do Arco Iris. Neste amplo espaço sagrado, só podiam adentrar o próprio Imperador, o sumo sacerdote (Willaq Umu), e um número restrito de sacerdotes e Virgens do Sol. Esse grupo de profissionais eram responsáveis pela celebração de datas importantes, cerimônias e monitoração de atividades celestes. O cronista “Inca” Garcilaso de La Veja (1501-1536), nos conta que no Templo do Sol estavam os corpos embalsamados dos Filhos do Sol (Imperadores), em um recinto onde tudo - mesas, cadeiras - era feito em ouro. Já no Templo da Lua, por ser considerada esposa do Sol, encontravam-se as Coyas, esposas dos Incas. Neste templo, os ornamentos eram feitos em prata.

Cieza de León (1520-1554) nos dá uma descrição impressionante das riquezas nesse recinto sagrado: “era uma vasta muralha... [Qoricancha]... retangular de 400 passos de perímetro, construía em pedras secas, perfeitamente entalhadas e ajustadas umas às outras sem outro cimento além do betume ...[...]... As portas, inteiramente revestidas de ouro, abriam-se para um jardim coberto de fragmentos de ouro fino e plantado com um milho cujo caule, folhas e espigas eram igualmente de ouro. Em meio a essa vegetação artificial, passavam umas 20 lhamas de ouro em tamanho natural. No interior do jardim se elevavam quatro santuários cujos muros eram externas e inteiramente recobertos de placas do metal precioso”.

Podemos acreditar - literalmente - nas palavras de Garcilaso e de Cieza de Leon sobre o aspecto do Qoricancha? Acredito que uma boa parte seja verdade, embora talvez haja certo exagero em relação aos ornamentos de ouro. Quem sabe novas escavações não possam nos revelar detalhes ainda mais incríveis...

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 06/09/2018 às 15h44 | daltonmaziero@uol.com.br

O mistério dos geoglifos gaúchos

Existem no sul do Brasil, estranhas formações terrestres que desafiam a ciência. São círculos “anelados”, feitos de terra, que se assemelham muito aos recentes geoglifos descobertos no Acre. Porém, chamá-los de geoglifos é apenas uma forma de categorizá-los, de aproximá-los a algo que já conhecemos. Embora as tradições populares atribuam a eles a função de currais, a verdade é que não sabemos a que se destinavam.

Levantamentos terrestres - e através do Google Earth - detectaram mais de 1000 formações espalhadas entre o Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai. Contudo, a maior parte delas é feitas por pequenas muretas de pedra ou por cercas vivas de plantas. Mas existem também os gigantescos círculos formados por terra, que alcançam entre 20 e 170 metros de diâmetro. Algumas tradições populares apontam os círculos de terra como estruturas fabricadas por escravos, no início da colonização, cuja função seria a de um curral.

Círculos formados por árvores e palmas são citados na obra de Auguste Saint-Hilaire em 1820. Eram os chamados “currais de palmas”, que nem sempre eram palmas! Muitos foram cercados por ananás, pessegueiros, caibros de madeira, espinheiros, bananeiras ou cana de açúcar. Mas pesquisadores como Joaquim Dias e André Oliveira estimam que os círculos tenham mais de 200 anos, e que estariam associados ao movimento de tropeiros do século XVIII.

Contudo, apesar dessa associação natural com os antigos currais gaúchos de pedra e palmas, os círculos anelados de terra ganharam uma nova perspectiva após a descoberta dos geoglifos do Acre. Lá também existiam teorias que aproximavam as antigas valas às reservatórios indígenas de água ou mesmo a trincheiras da Revolução Acreana (1899-1903). Posteriormente, os arqueólogos provaram tratar-se de antigas estruturas arqueológicas. Seriam então, os círculos gaúchos, construções de povos pré-históricos, utilizados posteriormente como currais ao longo da colonização europeia?

Pesquisadores como Rodrigo Aguiar, André Prous e os arqueólogos Fábio Vergara Cerqueira e Alceu Ranzi, parecem estar convencidos que alguns deles realmente pertençam a uma tradição pré-histórica. Embora Prous – “O Brasil antes dos brasileiros”, 2006 – associe os círculos gaúchos com aqueles do Acre e os aproxime da cultura Taquara, outros estudiosos - como Ana Maria Ruthschlling - lembram que os mesmos não são originários da região, ou seja, pertencem a um movimento de invasão das terras sulistas. Sendo assim, os círculos podiam já estar ali muito antes de seu movimento migratório.

Tudo indica que os círculos anelados de terra do sul do Brasil ainda guardarão seus segredos por algumas décadas, até que decidam por escavá-los da forma como fizeram com seus semelhantes no Acre.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 23/08/2018 às 17h09 | daltonmaziero@uol.com.br

PARIME – O LAGO LENDÁRIO

Se olharmos com cuidado para a América do Sul - entre os séculos XV e XVIII - veremos nos mapas um gigantesco lago localizado em Roraima e sul das Guianas. Depois, ele desaparece da cartografia! Essa geografia imaginária foi referência para exploradores europeus que buscavam o mítico Reino de El Dorado, ou Manoa. Terá mesmo existido o Parime, este lago imaginário?

O primeiro a falar dele - e de Manoa - foi o corsário inglês Walter Raleigh. Mesmo sem ter atingido o Parime, Raleigh o descreve com entusiasmo em sua obra “The Discoverie of the Large, Rich e Bewtiful Empyre of Guiana” (1596). Segundo o autor, todo o ouro de Manoa era proveniente dos inúmeros afluentes que desembocavam no lago. Hoje, sabemos que Raleigh sequer chegou perto da região, mas sua descrição impulsionou diversos exploradores.

Baseados na descrição do corsário, muitos cartógrafos incluíram-no em seus trabalhos. Jodocus Hondius foi um dos pioneiros, publicando em 1598 seu “Nieuwe Caerte van het Wonderbaer”. Nele, descreve Manoa como a maior cidade do mundo! Um ano depois, Theodore de Bry publica sua “Grands Voyages”, também citando o Parime. Podemos encontrar o lago em alguns mapas do início do XIX, mas em 1730 sua existência era posta em dúvida. Neste ano, Guillaume Delisle inclui o Parime em sua cartografia, mas com a seguinte nota: “É nessa região que a maioria dos autores coloca o Lago Parime e Cidade de Manoa de El Dorado”. Interessante notar que, com o passar dos anos – e o fracasso em localizá-lo – os cartógrafos mudavam o lago de lugar, empurrando-o sempre para alguma região mais e mais remota do território.

Entre os grandes exploradores que buscaram pelo Parime e Manoa, podemos citar Thomas Roe (1611); Walter Raleigh (1617) que perdeu seu filho nessa segunda expedição; o jesuíta Samuel Fritz (1689); Nicholas Horstman (1739) enviado pelo governo holandês e preso pelos portugueses; Charles Marie de La Condamine (1743) cientista que duvidou do mito; Alexander Humboldt e Aimé Bonpland (1799-1803) que desmistificam o Parime e Manoa; Charles Waterton (1812) que aposta ser o lago uma inundação sazonal; Robert Schomburgk (1840) que diz ser o lago Amicu o verdadeiro Parime; e Jacob van Heuvel (1844) que aposta também tratar-se de uma inundação sazonal.

Contudo, estudos realizados pelo explorador Roland Stevenson e pelos geólogos Gert Woeltje e Frederico G. Cruz entre 1977 e 1985, detectou evidências de um lago extinto na região. Hoje seco, deixou uma linha no horizonte detectável, com estimativa de ter possuído 400 km de diâmetro e cerca de 80 mil km². Sua drenagem natural, segundo dados geológicos, ocorreu ao final do XVIII e início do XIX, quando mais se assemelhava a uma série de pequenas lagunas. Às vezes, um mito pode oferecer evidências e surpresas por muitas décadas ainda!

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 07/08/2018 às 12h07 | daltonmaziero@uol.com.br

A ILHA TRIQUET

São quase nulas as notícias que nos chegam sobre o distante Canadá. Quando o assunto é arqueologia, as informações se tornam cada vez mais raras. Contudo, em 2017, uma impressionante descoberta ocorreu na Ilha Triquet (Columbia Britânica), que pode mudar as teorias sobre a ocupação das Américas.

A Ilha Triquet – banhada pelo Pacífico Norte – é um dos poucos lugares do planeta que manteve o nível de seu litoral praticamente igual ao da última glaciação, que terminou por volta de 12 mil aC. Nela, foram encontrados vestígios de um vilarejo de 14 mil anos de idade. A datação provém de artefatos como anzóis, e outros utilizados para produzir fogo. O mais surpreendente é que, além de objetos de pedra, foram encontrados outros confeccionados em madeira e ossos, preservados graças ao frio da região. A confirmação dessa datação colocou Triquet em um patamar de antiguidade que supera em muito, as Pirâmides do Egito ou as cidades da Mesopotâmia.

Os arqueólogos envolvidos na escavação – entre eles Alisha Gauvreau, Daryl Fedje e Duncan McLaren da Universidade de Victoria e o Instituto Hakai – acreditam que Triquet contribua para a hipótese da ocupação das Américas, que defende a ideia de um deslocamento pautado por fundações.

Segundo Elroy White – arqueólogo e membro da cultura Heiltsuk – a Ilha Triquet na tradição oral representa uma antiga ocupação que funcionava como “encruzilhada” de quem vinha do norte, sul e leste. Sua nação se orgulha em dizer que seus antepassados sobreviveram à Idade do Gelo, vivendo “em uma faixa de terra que não congelou”. Para os Heiltsuk, a ilha é um local de importância quase sagrada, de onde surgiu o grande movimento de expansão humana pelas Américas. Esse grupo humano é, na verdade, uma junção de cinco grupos que partilham as mesmas expressões culturais e linguísticas. Entre essas expressões, a história de sua origem antiquíssima. São famosos mundialmente por suas expressões artísticas e cerimoniais; e conhecidos por construir vilas de inverno permanentes durante os meses mais frios.

A arqueóloga Gauvreau apresentou os resultados de sua pesquisa para a Sociedade Americana de Arqueologia, e busca agora ampliar a busca por mais evidências em outras ilhas. A ideia com isso é traçar um mapa de progressão dos primeiros habitantes costeiros, que supostamente rumaram ao sul, em busca de novas terras e maiores oportunidades de caça. Ainda segundo Gauvreau, essa descoberta reforma a ideia de uma migração por navegação costeira: "Esta descoberta dá uma pista de que o primeiro povoamento importante da América ocorreu em um corredor de geleiras, mas também ao longo da costa oeste por um povo marítimo. Então, isso muda a história um pouco e a maneira como achamos que o primeiro povoamento chegou".

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 27/07/2018 às 10h32 | daltonmaziero@uol.com.br

O SOROCHE E A COCA

Para enfrentar as altas montanhas, os aymaras tomam certas precauções. Quando saem para longas caminhadas, carregar uma pequena dose de álcool e um pedaço de batata desidratada. Além de alimentar, esses produtos estimulam o corpo contra o frio e o cansaço. Mas, em se tratando de altitude, nada substitui a folha de coca. Ela é tão importante para o aymara como o dinheiro para nós. Só que eles têm um motivo a mais para empregá-la: seu uso é cultural, um gesto quase sagrado. Quando caminham nas altitudes, tentam combater a todo custo o soroche, também conhecido como "Mal dos Andes".

O soroche é um efeito causado pela falta de oxigênio. Apresenta sintomas perigosos: indisposição geral, seguida de forte dor de cabeça e uma ânsia de vômito incontrolável. Ele ataca principalmente quem não faz uma aclimatação adequada. Os aymaras, que vivem a 4000 metros, são naturalmente adaptados. Possuem um pulmão mais fundo e um coração maior que o nosso. Além disso, seu corpo fabrica maior quantidade de glóbulos vermelhos, conseguindo com isso, carregar oxigênio acima do normal. Em minhas viagens, presenciei pessoas fortes como um touro caírem ao solo, vítimas do soroche.

Há muito tempo, a coca é utilizada para combater tal problema. Para se precaver deste mal, basta mascar algumas folhas com uma massa de cinza calcária, chamada llipta, que tem o poder de fazer reagir o princípio ativo da folha, liberando a droga. Muitas lendas nos remetem à origem desta planta, com uma série de variantes, conforme a região e a cultura a que pertencem. 

Certa vez, um grupo de indígenas havia ultrapassado os cumes mais elevados da Cordilheira Real, seguindo a região conhecida como Yungas. Nela, decidiram limpar os terrenos para plantação, ateando fogo. Assim fizeram, levantando uma enorme coluna de fumaça que sujou os cumes do Illampu e do Illimani. Os homens não haviam feito aquilo por maldade, mas acabaram irritando o deus Khuno, que tinha seu reino estabelecido nas neves eternas. Sua fúria foi imediata, lançando sobre a região dos Yungas uma tempestade como nunca haviam visto. Muitos homens morreram, enquanto outros, abrigados em cavernas, viam as terras serem completamente destruída por vendavais e chuvas torrenciais. Quando finalmente a tempestade passou, os que sobraram saíram temerosos de suas cavernas deparando-se com um mundo arruinado. Isolados e desesperados, foram atingidos pela fome. Comiam o que ainda havia sobrado. Uma das poucas plantas que restava em meio ao caos, era um pequeno arbusto de folhas verde brilhante. Apanharam um punhado delas e imediatamente começaram a mastigar. Para surpresa geral, uma maravilhosa sensação de bem estar surgiu! A fome havia passado e sentiam-se fortes novamente para escaparem dos Yungas. Em poucos dias, estavam de volta ao seu povoado, onde entregaram as folhas milagrosas aos sábios locais. Assim, os aymaras conheceram a coca.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 10/07/2018 às 13h17 | daltonmaziero@uol.com.br



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Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.


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América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

Novas descobertas na Ilha de Páscoa

A Ilha de Páscoa - território chileno - sempre foi sinônimo e exemplo de colapso de uma antiga civilização. As evidências arqueológicas e relatos de navegantes do XVIII nos legaram a imagem de um povo que não soube administrar sua terra e seus recursos naturais. Uma sociedade que, por esses motivos, implodir em guerras tribais por comida, madeira e sombra. Sim, sombra! Porque suas árvores foram todas cortadas para fabricação de barcos e toras de locomoção dos Moais, suas famosas estátuas ancestrais de tamanho colossal. Evidências inclusive revelam que ocorreu atos de canibalismo entre os últimos remanescentes desse povo hoje extinto.

Esses antigos habitantes da Ilha de Páscoa - os Rapanui - fazem parte de uma onda migratória polinésia, que teve início por volta de 900 dC. Em meio ao Pacífico - 3.700 Km da costa chilena -, esse povo construiu cerca de 900 estátuas ancestrais entre 1250 e 1500 dC. Quando o holandês Jakob Roggeveen aportou na ilha em 1722, encontrou evidências de uma sociedade decadente, bastante desestruturada. Mas não foi sempre assim.

Embora muitas evidências apontem para um rápido declínio social, outras bem mais recentes revelem que o povo Rapanui desenvolveu uma relação muito mais sofisticada do que imaginávamos; e que a colaboração interna foi – pelo menos durante um bom tempo – uma prática corriqueira. Os antropólogos Dale Simpson (Universidade Queensland) e Laure Dussubliex (Museu Field de História Natural de Chicago) analisaram a composição química existente em antigas ferramentas de lavrar a pedra, utilizadas para a construção dos Moais, e descobriram que havia muito mais colaboração e compartilhamento de informações, do que pudemos imaginar.

Uma das ideias vigentes, era a de que os diversos grupos – clãs – competiam entre si pelos recursos naturais e pela fabricação de estátuas, em um constante estado de beligerância. Mas não foi bem assim. Ao que tudo indica, ocorreu muita colaboração entre os clãs, seja no fornecimento de elementos naturais, seja no empréstimo de ferramentas. “Existia uma espécie de supervisão socioeconômica e política entre eles”, conta Dale. A equipe, que está a 35 anos estudando os vestígios dos Rapanui, analisou diversas ferramentas em sua estrutura microscópica, determinando sua procedência e uso nas pedreiras existentes na ilha.

Assim, agora são levados em consideração novas hipóteses avaliando o desgaste natural dos recursos, decorrente da instabilidade climática. Dessa forma, alguns antigos conceitos como o colapso e o esgotamento de recursos precisam ser revistos. Eles provavelmente ocorreram, mas talvez não da forma catastrófica e rápida como muitos autores descreveram no passado.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 24/09/2018 às 16h27 | daltonmaziero@uol.com.br

QORIKANCHA – O TEMPLO DO SOL

Em 1950, religiosos dominicanos se desesperaram nas ruas da cidade de Cusco (Peru). Um grande terremoto devastou vários edifícios, e fez vir abaixo - pela segunda vez - boa parte do Convento de Santo Domingo, que ocupava a região central desde 1534. Enquanto uns lamentavam a derrocada do Convento, outros viam a oportunidade para fazer renascer o verdadeiro templo local: O Qorikancha (Koricancha), ou Templo do Sol, construído e ampliado por vários dignitários Incas, em especial Tupa Yupanki.

O terremoto expôs uma das mais imponentes construções do Império Inca. Enquanto os edifícios modernos ruíam, os alicerces do Qorikancha suportaram os tremores, graças a primorosa arquitetura inca, com rochas habilmente encaixadas e reclinadas para suportarem tremores de terra.

O Qorikancha era mais que um templo. Foi um espaço sagrado de oração, e nele estavam além do Templo do Sol, o Templo Chuki Illapa (Trovões), o Templo da Lua, o Templo de Vênus e das Estrelas e o K’uychi, Templo do Arco Iris. Neste amplo espaço sagrado, só podiam adentrar o próprio Imperador, o sumo sacerdote (Willaq Umu), e um número restrito de sacerdotes e Virgens do Sol. Esse grupo de profissionais eram responsáveis pela celebração de datas importantes, cerimônias e monitoração de atividades celestes. O cronista “Inca” Garcilaso de La Veja (1501-1536), nos conta que no Templo do Sol estavam os corpos embalsamados dos Filhos do Sol (Imperadores), em um recinto onde tudo - mesas, cadeiras - era feito em ouro. Já no Templo da Lua, por ser considerada esposa do Sol, encontravam-se as Coyas, esposas dos Incas. Neste templo, os ornamentos eram feitos em prata.

Cieza de León (1520-1554) nos dá uma descrição impressionante das riquezas nesse recinto sagrado: “era uma vasta muralha... [Qoricancha]... retangular de 400 passos de perímetro, construía em pedras secas, perfeitamente entalhadas e ajustadas umas às outras sem outro cimento além do betume ...[...]... As portas, inteiramente revestidas de ouro, abriam-se para um jardim coberto de fragmentos de ouro fino e plantado com um milho cujo caule, folhas e espigas eram igualmente de ouro. Em meio a essa vegetação artificial, passavam umas 20 lhamas de ouro em tamanho natural. No interior do jardim se elevavam quatro santuários cujos muros eram externas e inteiramente recobertos de placas do metal precioso”.

Podemos acreditar - literalmente - nas palavras de Garcilaso e de Cieza de Leon sobre o aspecto do Qoricancha? Acredito que uma boa parte seja verdade, embora talvez haja certo exagero em relação aos ornamentos de ouro. Quem sabe novas escavações não possam nos revelar detalhes ainda mais incríveis...

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 06/09/2018 às 15h44 | daltonmaziero@uol.com.br

O mistério dos geoglifos gaúchos

Existem no sul do Brasil, estranhas formações terrestres que desafiam a ciência. São círculos “anelados”, feitos de terra, que se assemelham muito aos recentes geoglifos descobertos no Acre. Porém, chamá-los de geoglifos é apenas uma forma de categorizá-los, de aproximá-los a algo que já conhecemos. Embora as tradições populares atribuam a eles a função de currais, a verdade é que não sabemos a que se destinavam.

Levantamentos terrestres - e através do Google Earth - detectaram mais de 1000 formações espalhadas entre o Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai. Contudo, a maior parte delas é feitas por pequenas muretas de pedra ou por cercas vivas de plantas. Mas existem também os gigantescos círculos formados por terra, que alcançam entre 20 e 170 metros de diâmetro. Algumas tradições populares apontam os círculos de terra como estruturas fabricadas por escravos, no início da colonização, cuja função seria a de um curral.

Círculos formados por árvores e palmas são citados na obra de Auguste Saint-Hilaire em 1820. Eram os chamados “currais de palmas”, que nem sempre eram palmas! Muitos foram cercados por ananás, pessegueiros, caibros de madeira, espinheiros, bananeiras ou cana de açúcar. Mas pesquisadores como Joaquim Dias e André Oliveira estimam que os círculos tenham mais de 200 anos, e que estariam associados ao movimento de tropeiros do século XVIII.

Contudo, apesar dessa associação natural com os antigos currais gaúchos de pedra e palmas, os círculos anelados de terra ganharam uma nova perspectiva após a descoberta dos geoglifos do Acre. Lá também existiam teorias que aproximavam as antigas valas às reservatórios indígenas de água ou mesmo a trincheiras da Revolução Acreana (1899-1903). Posteriormente, os arqueólogos provaram tratar-se de antigas estruturas arqueológicas. Seriam então, os círculos gaúchos, construções de povos pré-históricos, utilizados posteriormente como currais ao longo da colonização europeia?

Pesquisadores como Rodrigo Aguiar, André Prous e os arqueólogos Fábio Vergara Cerqueira e Alceu Ranzi, parecem estar convencidos que alguns deles realmente pertençam a uma tradição pré-histórica. Embora Prous – “O Brasil antes dos brasileiros”, 2006 – associe os círculos gaúchos com aqueles do Acre e os aproxime da cultura Taquara, outros estudiosos - como Ana Maria Ruthschlling - lembram que os mesmos não são originários da região, ou seja, pertencem a um movimento de invasão das terras sulistas. Sendo assim, os círculos podiam já estar ali muito antes de seu movimento migratório.

Tudo indica que os círculos anelados de terra do sul do Brasil ainda guardarão seus segredos por algumas décadas, até que decidam por escavá-los da forma como fizeram com seus semelhantes no Acre.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 23/08/2018 às 17h09 | daltonmaziero@uol.com.br

PARIME – O LAGO LENDÁRIO

Se olharmos com cuidado para a América do Sul - entre os séculos XV e XVIII - veremos nos mapas um gigantesco lago localizado em Roraima e sul das Guianas. Depois, ele desaparece da cartografia! Essa geografia imaginária foi referência para exploradores europeus que buscavam o mítico Reino de El Dorado, ou Manoa. Terá mesmo existido o Parime, este lago imaginário?

O primeiro a falar dele - e de Manoa - foi o corsário inglês Walter Raleigh. Mesmo sem ter atingido o Parime, Raleigh o descreve com entusiasmo em sua obra “The Discoverie of the Large, Rich e Bewtiful Empyre of Guiana” (1596). Segundo o autor, todo o ouro de Manoa era proveniente dos inúmeros afluentes que desembocavam no lago. Hoje, sabemos que Raleigh sequer chegou perto da região, mas sua descrição impulsionou diversos exploradores.

Baseados na descrição do corsário, muitos cartógrafos incluíram-no em seus trabalhos. Jodocus Hondius foi um dos pioneiros, publicando em 1598 seu “Nieuwe Caerte van het Wonderbaer”. Nele, descreve Manoa como a maior cidade do mundo! Um ano depois, Theodore de Bry publica sua “Grands Voyages”, também citando o Parime. Podemos encontrar o lago em alguns mapas do início do XIX, mas em 1730 sua existência era posta em dúvida. Neste ano, Guillaume Delisle inclui o Parime em sua cartografia, mas com a seguinte nota: “É nessa região que a maioria dos autores coloca o Lago Parime e Cidade de Manoa de El Dorado”. Interessante notar que, com o passar dos anos – e o fracasso em localizá-lo – os cartógrafos mudavam o lago de lugar, empurrando-o sempre para alguma região mais e mais remota do território.

Entre os grandes exploradores que buscaram pelo Parime e Manoa, podemos citar Thomas Roe (1611); Walter Raleigh (1617) que perdeu seu filho nessa segunda expedição; o jesuíta Samuel Fritz (1689); Nicholas Horstman (1739) enviado pelo governo holandês e preso pelos portugueses; Charles Marie de La Condamine (1743) cientista que duvidou do mito; Alexander Humboldt e Aimé Bonpland (1799-1803) que desmistificam o Parime e Manoa; Charles Waterton (1812) que aposta ser o lago uma inundação sazonal; Robert Schomburgk (1840) que diz ser o lago Amicu o verdadeiro Parime; e Jacob van Heuvel (1844) que aposta também tratar-se de uma inundação sazonal.

Contudo, estudos realizados pelo explorador Roland Stevenson e pelos geólogos Gert Woeltje e Frederico G. Cruz entre 1977 e 1985, detectou evidências de um lago extinto na região. Hoje seco, deixou uma linha no horizonte detectável, com estimativa de ter possuído 400 km de diâmetro e cerca de 80 mil km². Sua drenagem natural, segundo dados geológicos, ocorreu ao final do XVIII e início do XIX, quando mais se assemelhava a uma série de pequenas lagunas. Às vezes, um mito pode oferecer evidências e surpresas por muitas décadas ainda!

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 07/08/2018 às 12h07 | daltonmaziero@uol.com.br

A ILHA TRIQUET

São quase nulas as notícias que nos chegam sobre o distante Canadá. Quando o assunto é arqueologia, as informações se tornam cada vez mais raras. Contudo, em 2017, uma impressionante descoberta ocorreu na Ilha Triquet (Columbia Britânica), que pode mudar as teorias sobre a ocupação das Américas.

A Ilha Triquet – banhada pelo Pacífico Norte – é um dos poucos lugares do planeta que manteve o nível de seu litoral praticamente igual ao da última glaciação, que terminou por volta de 12 mil aC. Nela, foram encontrados vestígios de um vilarejo de 14 mil anos de idade. A datação provém de artefatos como anzóis, e outros utilizados para produzir fogo. O mais surpreendente é que, além de objetos de pedra, foram encontrados outros confeccionados em madeira e ossos, preservados graças ao frio da região. A confirmação dessa datação colocou Triquet em um patamar de antiguidade que supera em muito, as Pirâmides do Egito ou as cidades da Mesopotâmia.

Os arqueólogos envolvidos na escavação – entre eles Alisha Gauvreau, Daryl Fedje e Duncan McLaren da Universidade de Victoria e o Instituto Hakai – acreditam que Triquet contribua para a hipótese da ocupação das Américas, que defende a ideia de um deslocamento pautado por fundações.

Segundo Elroy White – arqueólogo e membro da cultura Heiltsuk – a Ilha Triquet na tradição oral representa uma antiga ocupação que funcionava como “encruzilhada” de quem vinha do norte, sul e leste. Sua nação se orgulha em dizer que seus antepassados sobreviveram à Idade do Gelo, vivendo “em uma faixa de terra que não congelou”. Para os Heiltsuk, a ilha é um local de importância quase sagrada, de onde surgiu o grande movimento de expansão humana pelas Américas. Esse grupo humano é, na verdade, uma junção de cinco grupos que partilham as mesmas expressões culturais e linguísticas. Entre essas expressões, a história de sua origem antiquíssima. São famosos mundialmente por suas expressões artísticas e cerimoniais; e conhecidos por construir vilas de inverno permanentes durante os meses mais frios.

A arqueóloga Gauvreau apresentou os resultados de sua pesquisa para a Sociedade Americana de Arqueologia, e busca agora ampliar a busca por mais evidências em outras ilhas. A ideia com isso é traçar um mapa de progressão dos primeiros habitantes costeiros, que supostamente rumaram ao sul, em busca de novas terras e maiores oportunidades de caça. Ainda segundo Gauvreau, essa descoberta reforma a ideia de uma migração por navegação costeira: "Esta descoberta dá uma pista de que o primeiro povoamento importante da América ocorreu em um corredor de geleiras, mas também ao longo da costa oeste por um povo marítimo. Então, isso muda a história um pouco e a maneira como achamos que o primeiro povoamento chegou".

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 27/07/2018 às 10h32 | daltonmaziero@uol.com.br

O SOROCHE E A COCA

Para enfrentar as altas montanhas, os aymaras tomam certas precauções. Quando saem para longas caminhadas, carregar uma pequena dose de álcool e um pedaço de batata desidratada. Além de alimentar, esses produtos estimulam o corpo contra o frio e o cansaço. Mas, em se tratando de altitude, nada substitui a folha de coca. Ela é tão importante para o aymara como o dinheiro para nós. Só que eles têm um motivo a mais para empregá-la: seu uso é cultural, um gesto quase sagrado. Quando caminham nas altitudes, tentam combater a todo custo o soroche, também conhecido como "Mal dos Andes".

O soroche é um efeito causado pela falta de oxigênio. Apresenta sintomas perigosos: indisposição geral, seguida de forte dor de cabeça e uma ânsia de vômito incontrolável. Ele ataca principalmente quem não faz uma aclimatação adequada. Os aymaras, que vivem a 4000 metros, são naturalmente adaptados. Possuem um pulmão mais fundo e um coração maior que o nosso. Além disso, seu corpo fabrica maior quantidade de glóbulos vermelhos, conseguindo com isso, carregar oxigênio acima do normal. Em minhas viagens, presenciei pessoas fortes como um touro caírem ao solo, vítimas do soroche.

Há muito tempo, a coca é utilizada para combater tal problema. Para se precaver deste mal, basta mascar algumas folhas com uma massa de cinza calcária, chamada llipta, que tem o poder de fazer reagir o princípio ativo da folha, liberando a droga. Muitas lendas nos remetem à origem desta planta, com uma série de variantes, conforme a região e a cultura a que pertencem. 

Certa vez, um grupo de indígenas havia ultrapassado os cumes mais elevados da Cordilheira Real, seguindo a região conhecida como Yungas. Nela, decidiram limpar os terrenos para plantação, ateando fogo. Assim fizeram, levantando uma enorme coluna de fumaça que sujou os cumes do Illampu e do Illimani. Os homens não haviam feito aquilo por maldade, mas acabaram irritando o deus Khuno, que tinha seu reino estabelecido nas neves eternas. Sua fúria foi imediata, lançando sobre a região dos Yungas uma tempestade como nunca haviam visto. Muitos homens morreram, enquanto outros, abrigados em cavernas, viam as terras serem completamente destruída por vendavais e chuvas torrenciais. Quando finalmente a tempestade passou, os que sobraram saíram temerosos de suas cavernas deparando-se com um mundo arruinado. Isolados e desesperados, foram atingidos pela fome. Comiam o que ainda havia sobrado. Uma das poucas plantas que restava em meio ao caos, era um pequeno arbusto de folhas verde brilhante. Apanharam um punhado delas e imediatamente começaram a mastigar. Para surpresa geral, uma maravilhosa sensação de bem estar surgiu! A fome havia passado e sentiam-se fortes novamente para escaparem dos Yungas. Em poucos dias, estavam de volta ao seu povoado, onde entregaram as folhas milagrosas aos sábios locais. Assim, os aymaras conheceram a coca.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 10/07/2018 às 13h17 | daltonmaziero@uol.com.br



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Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.


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