Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

AS MÚMIAS DE QILAKITSOQ

A Groelândia é um território quase esquecido da América do norte. Pouco ou nada se fala sobre o que acontece por lá, muito menos sobre descobertas arqueológicas naquele território tão inóspito. Contudo, em 1972, uma dupla de caçadores (Hans e Jokum Gronvold) localizou duas sepulturas congeladas do povo Inuit, no assentamento de Qilakitsoq (Península de Nuussuaq), contendo oito múmias incrivelmente bem preservadas. São seis mulheres, uma criança de dois anos e um bebê de apenas seis meses de vida. Na época da descoberta, após comunicado à polícia local, acreditou-se tratar de um assassinato recente.

As múmias foram localizadas em uma reentrância de um rochedo, recobertas com pele de rena e de foca. Pelo fato de a encosta rochosa estar voltada ao norte, a tumba recebeu ar seco e baixíssimas temperaturas, ajudando na preservação das múmias. Os corpos foram encontrados empilhados uns sobre os outros, separadas por apenas 1 metro. Entre eles, havia diversas camadas de peles de animais. Contou-se 78 peças de roupas. Com os artefatos identificados na tumba, datou-se o conjunto em 1475 dC. Também se identificou cinco mulheres com tatuagem no rosto. A tatuagem era prática comum entre os povos das Américas e uma forma de identificar um grupo social.

Os corpos estavam preparados para a caça, com roupas quentes, sacolas, anzóis e arpões. Contudo, nesse caso específico, a jornada era pós-morte. Os Inuites acreditavam que os mortos deveriam se preparar para a sobrevivência no além. Ao contrário do que muitos possam pensar, os corpos não foram tratados como ocorre nas múmias chinchorro ou egípcias. Elas simplesmente foram preservadas com suas roupas, pelo frio da região. Pesquisadores acreditam que o bebê de seis meses (um menino) foi enterrado vivo junto à mãe. Devido à questão de sobrevivência, um bebê órfão significava dificuldade de sustento alheio. A solução – uma decisão difícil – era colocá-la junto à mãe, para que esta levasse seu filho no pós-morte. Sendo assim, naquela época não era uma ocorrência incomum levar uma criança à morte de forma lenta, pela fome. Algo semelhante ocorreu com a criança de dois anos. Existem indícios que ele sofria de Síndrome de Dawn.

Para as seis mulheres, investigações detectaram uma situação de saúde precária. Elas possuíam diversos tumores, prisão de ventre, surdes, cegueira e pedras nos rins. A análise do DNA, contudo, mostrou uma conexão familiar. São três irmãs com idade aproximada de 50 anos; e três filhas, entre 18 e 30 anos. As duas crianças eram as netas das irmãs. Apesar de tudo, os cientistas não conseguiram determinar se morreram todos ao mesmo tempo ou não. As múmias de Qilakitsoq lançaram uma nova luz de conhecimento sobre a sociedade e vida cotidiana dos inuit no século XV, de seu modo de sobrevivência e suas crenças na morte. Contudo, ainda existem mais perguntas do que respostas nessa fascinante descoberta.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite: Arqueologia Americana no Facebook 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 02/01/2020 às 17h15 | daltonmaziero@uol.com.br

A ELABORADA ARTE DO POVO HOPEWELL

Os povos pré-colombianos da América do Norte são pouco – ou nada – conhecidos de nós, brasileiros. Quando especulamos sobre a vida e obra de grupos como Anasazi, Pueblo, Adena ou Hopewell, quase nenhuma referência nos vem à mente. Contudo, esses povos da América do Norte produziram alguns dos melhores e mais refinados trabalhos artísticos de nosso continente.

Os Hopewell – que viveram ao sul de Ohio (EUA) entre 100 e 500 dC – produziram obras em grande variedade e com um refinamento nunca visto. Além da pedra e cerâmica, exploravam as possibilidades de materiais exóticos, como a mica, dentes de animais (tubarões, ursos), ossos (animais e humanos), conchas do mar e pérolas de água doce; além de alguns metais, como a prata e o cobre. Muito do que sabemos sobre o povo Hopewell é proveniente de seus montes mortuários (Mounds), onde depositavam grandes quantidades de artefatos. Sítios arqueológicos como o Mound of Pipes e Tremper Site, geraram respectivamente 200 e 130 cachimbos de pedra finamente esculpidos, com reproduções de pássaros, veados, ursos e outros animais. Também trabalhavam de forma excepcional, as abstrações. Um dos exemplos mais importantes nessa linha de representação é a Mica Hand, localizada em Ross County (Ohio), uma delicada não humana estilizada, cortada em um pedaço de mica com 11 x 6 cm. Não se sabe a real utilização desta peça, se para ornamento ou processo ritualístico.

Essa diversidade artística conquistada pelos Hopewells ocorreu graças a uma ampla rede comercial que atingia terras dos atuais Canadá e México. O cobre era proveniente da região dos Grandes Lagos, e com ele faziam ornamentos como pulseiras, colares, peitorais e outros para orelhas. As conchas provinham do Golfo do México, a mica do estado das Carolinas e a obsidiana das Montanhas Rochosas

Assim como os geoglifos da América do Sul, existiam os Mounds da América do Norte. Estes foram formações artificiais terrestres, executadas com a força humana de muita gente. Mas, ao contrário dos geoglifos, os mounds muitas vezes abrigavam sepultamentos. Essas terraplanagens geométricas apresentavam formas quadradas, octogonais e circulares. Algumas delas continham grandes quantidades de artefatos, sugerindo uma hierarquia social. Um dos maiores exemplos de sepultamentos encontram-se em Mound City (Chillicote), que está sendo cotado para transformar-se em Patrimônio Mundial.

Por volta de 400 dC, praticamente todas as construções atribuídas aos hopewells estavam terminadas. Iniciou-se um rápido período de mudanças. As grandes construções são abandonadas e a arte perde importância. As aldeias aumentam de população, surgindo valas e muros de proteção. Alguns arqueólogos acreditam que esse declínio cultural ocorreu pelo abandono de antigas tradições.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 06/12/2019 às 10h53 | daltonmaziero@uol.com.br

PACHATAKA – A “FORCA” DO INCA

Para quem chega à pequena cidade de Copacabana, às margens do lago Titicaca (lado boliviano), irá se deparar com um monumento arqueológico popularmente chamada de “Forca do Inca” (Horca del Inca). Ele fica a não mais que 600 metros do centro da cidade, no morro de Quesasani, e pode ser atingido facilmente a pé.

O infeliz termo – “Forca” – foi atribuído na época da conquista espanhola, por conquistadores que viram ali, em traves de pedra apoiadas em colunas, o suporte necessário para o enforcamento de delinquentes no passado incaico. Muitos viajantes, ao longo do período colonial, reforçaram essa ideia e contribuíram para o desvio da compreensão daquele monumento. Em 1880, o viajante Charles Wiener (1851-1913) – buscando uma semelhança com monumentos europeus – chama as colunas de "dólmens", fazendo uma clara referência a Stonehenge, na Inglaterra.

O mistério da "Forca do Inca" só foi devidamente esclarecido em 1983, quando
Juan de la Cruz Zapata, especialista em física cósmica da Universidad Mayor de San Andrés, desenvolveu estudos nos quais concluiu que as colunas foram usadas para prever as mudanças de estações e solstícios de verão e inverno. Também, usariam o local para prever os movimentos lunares e a chegada de eclipses. Hoje, podemos dizer, com toda a certeza, que o monumento representou, outrora, um observatório astronômico!

Em finais da década de 80, o arqueólogo Oswaldo Rivera Sundt confirmou esta
tese. Descobriu pedras que foram rebaixadas, propositalmente, para que os raios solares pudessem projetar-se nos travessões erguidos. Estas "deformações" rochosas serviriam para marcar datas fundamentais. Através delas, os antigos povos puderam organizar seu ano e suas plantações. Em escavações arqueológicas, foram encontradas peças de cerâmica que dataram de 1764 a.C., situando o monumento dentro do período de ocupação Chiripa. Com o passar do tempo, o termo errôneo foi mudando, para o que muitos chamam hoje de Pachataka, que em aymara quer dizer “lugar onde se mede o tempo”.

Do alto do Quesasani, não é difícil imaginar os profissionais que trabalhavam com o objetivo de decifrar os raios solares no passado. Acredita-se por exemplo, que uma dessas ações ocorria às 8:05 da manhã de 21 de junho (hemisfério sul do planeta), quando no local um raio de sol projetava-se por um orifício na rocha, projetando-se a mais de 21 metros em uma das colunas ali existente. Essa era a confirmação do Solstício de Inverno, quando o sol atinge a maior distância angular em relação à linha do Equador. Com base nesse conhecimento, planejavam seu plantio e alimentavam sua cosmologia.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br)
 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 18/11/2019 às 12h19 | daltonmaziero@uol.com.br

ILOPANGO – O VULCÃO QUE ABALOU A CIVILIZAÇÃO MAIA

Durante décadas, geólogos e arqueólogos encontraram evidências de uma catástrofe nas Américas, com repercussões globais. Os primeiros sinais surgiram na Groenlândia e no gelo da Antártica. Ali, vestígios aprisionados no gelo davam mostra de dois eventos ocorridos nos anos de 536 e 540 dC. Os cálculos dos vestígios (sulfato) acumulados indicaram mais de 43 quilômetros cúbicos de rocha lançados na estratosfera, e posteriormente depositados no solo do planeta, sem contar o volume de enxofre espalhado. O volume é tão imenso que faz deste evento, o maior já presenciado pelo homem americano.

Em termos de poder de destruição, essa antiga erupção vulcânica foi a maior dos últimos 7 mil anos, superando em mais de cem vezes, erupções clássicas como o Pinatubo (1991) ou Santa Elena (1980), e até maior que a assustadora explosão do Tambora (1815). Robert Dull – geólogo da Universidade Luterana da Califórnia – afirma que as implicações dessa erupção alcançaram em especial o hemisfério norte, fazendo as temperaturas globais caírem 2º graus.

Na Europa, relatos medievais dão conta que em 536, uma névoa escureceu o céu, ocultando o sol. As plantações foram devastadas. Em seguida, ocorreu um longo período de fome, com proliferação de doenças. Em 541, a Praga de Justiniano coincidiu com o auge do resfriamento global, matando milhões.

Agora, evidência seguras indicam que o epicentro dessa catástrofe ocorreu em Ilopango, um complexo vulcânico situado em El Salvador. A certeza veio do estudo de uma camada geológica conhecida como Terra Branca Jovem, de origem vulcânica, que se estendia inclusive por sedimentos marinhos. Em uma pedreira próxima ao vulcão Ilopango, foram encontradas árvores sedimentadas na camada de Terra Branca Jovem. Essa descoberta confirmou – através do radiocarbono – não apenas a data da explosão do vulcão, mas a certeza de que foram duas explosões com intervalo de quatro anos.

Arqueólogos estimam que cerca de 80 mil pessoas da civilização Maia pereceram imediatamente no evento da explosão. Vilas foram soterradas, as plantações destruídas e a água contaminada. O dia virou noite. Acredita-se que 400 mil maias da América Central foram afetados pelo Ilopango, causando uma migração em massa ao norte, em especial, à Guatemala e México. O vulcão não dizimou os maias, mas deu início ao período chamado Clássico Terminal, com evidente abandono de muitas regiões e aumento em outras; além de guerras deflagadas entre as novas cidades. Essa migração em massa teve consequências permanentes, mas também mostrou o poder de recuperação das antigas civilizações. Exemplo dessa renovação foi a descoberta de Joya de Cerén, uma cidade maia que surgiu em El Salvador, na região da catástrofe, para ser definitivamente soterrada por outra erupção ocorrida em 660 dC.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 31/10/2019 às 09h47 | daltonmaziero@uol.com.br

A CIVILIZAÇÃO CHIMÚ E O SACRIFÍCIO DE CRIANÇAS

A civilização Chimú (norte do Peru) é usualmente conhecida pela construção de Chan Chan, a maior cidade de barro do mundo. Aquele povo possuía engenhosos arquitetos, que desenvolveram um sistema hidráulico notável, capaz de trazer água de longe para abastecer sua capital em pleno deserto. Também possuíam hábeis artesãos e metalúrgicos. Entre os séculos X e XV, foram os senhores do norte, herdeiros dos antigos Mochicas.

Contudo, apesar dos avançados conhecimentos, estavam, assim como os demais povos pré-colombianos, presos a conceitos que hoje são de difícil aceitação moral. Recentemente, na região de Huanchaco, arqueólogos realizaram uma assustadora descoberta! Corpos de 227 crianças foram encontradas, no que é - até o momento - o maior sacrifício humano já descoberto. Elas tinham entre 4 e 12 anos. Segundo o arqueólogo Feren Castillo, as crianças tinham seus rostos voltados ao oceano Pacífico.

A região de Huanchaco é pródiga em revelar grandes depósitos de corpos em sacrifício, tanto de homens quanto de animais. Em 2018, localizaram em Pampa de la Cruz, 56 corpos. Em Huanchaquito - no mesmo ano - 140 crianças e 200 lhamas foram encontradas. No caso do desenterramento das 227 crianças, arqueólogos notaram um fino e preciso corte no externo (osso do peito), realizado provavelmente por profissional com muita habilidade. A faca utilizada para o procedimento também foi localizada nas escavações. Ao que tudo indica, os sacrifícios tinham o objetivo de agradar os deuses e pedir o fim dos desastres naturais causados pelo fenômeno climático conhecido como El Niño. Outros povos desenvolveram seus próprios rituais para aplacar a fúria do El Niño, como por exemplo, a criação de geoglifos no deserto, que faziam parte de pedidos envolvendo a chuva e a fertilidade da natureza.

Contudo, a pergunta que fazemos é: Por que crianças? Sabemos sobre a existência de guerras rituais, forjadas com o único objetivo de capturar guerreiros adversários para os rituais de sacrifício. Isso era prática comum e aceitável entre os povos andinos. Contudo, é difícil imaginar que crianças fizessem parte desse “jogo” ritual de vida e morte. Talvez seu estado de infância fosse, aos olhos dos sacerdotes, um elemento valioso aos deuses. Um elemento de convencimento maior, que sobrepujava o sacrifício de guerreiros adultos capturados.

Por fim, em 1470 dC, a civilização Chimú foi conquistada e assimilada pela expansão Inca, em ofensiva de seu líder Túpac Yupanqui, que destruiu os sistemas de canalização de água, condenando a capital Chan Chan à escassez total. Sua gigantesca cidade sucumbiu, assim como os rituais de sacrifício aos deuses.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 27/09/2019 às 12h04 | daltonmaziero@uol.com.br

O CHOCOLATE MAIS ANTIGO DO MUNDO?

Existem diversas lendas que explicam a origem divina do chocolate. A mais famosa delas está associada aos Mexicas e ao deus Quetzalcóatl. Ele representava o planeta Vênus, a vegetação, a vida e o alimento. Diz a lenda, que Quetzacóatl um dia quis presentear a humanidade com um alimento que desse energia e prazer. O problema é que este presente – a semente do cacau – estava em uma árvore sagrada que não lhe pertencia. Quetzalcóatl então foi ao Reino do Sol e roubou as sementes. Pego pelos demais deuses, teve tempo ainda de as atirar em direção à terra, onde germinaram dando origem aos cacaueiros. Como punição, foi banido do Reino do Sol, jurando um dia voltar. E assim os homens aprenderam a manipular o cacau, criando o “xocolátl”, uma fusão entre o “xococ” (amargo) e “atl” (água), gerando assim uma bebida quente e amarga.

Lendas à parte, o chocolate é um dos produtos mais consumidos e queridos do mundo. Até bem pouco tempo, o consenso é que ele havia sido domesticado por volta de 3.900 anos, na região da América Central. Contudo, conhecimento é algo que está aí para ser revisto e reescrito.

Pensando assim, uma equipe de cientistas aprofundou os estudos genéticos da semente do Theobroma Cacao (o Cacau) e realizou importantes descobertas publicadas na revista Nature Ecology & Evolution. A imagem do cacau sempre esteve atrelada à América Central e ao mundo mesoamericano. Pesquisas nessa região revelaram que a semente era usada como moeda comercial, e que seu uso esteve associado a cultos e dias festivos. Michael Blake, um dos autores dessa pesquisa, apresentou provas genéticas de sementes da theobroma, localizadas no sítio arqueológico Santa Ana La Florida (Equador), do povo maio-chinchipe, datando de aproximadamente 5.450 anos de antiguidade. Ou seja, cerca de 1500 anos mais antigo do que se acreditava até então.

Vários fragmentos de cerâmicas de Santa Ana apresentaram moléculas de amido existentes apenas no theobroma; assim como resíduos de um alcaloide amargo, relacionado à semente. Como o local das amostras se encontra no litoral do Equador, acredita-se que as sementes tenham migrado através de uma rota comercial litorânea com a Mesoamérica.

Francisco Valdez, outro pesquisador da equipe, havia publicado um relatório preliminar à pesquisa em 2013. Nele, afirmava serem estas as provas inequívocas de que a domesticação do cacau era muito mais antiga do que se pensava, e que ela surgira na América do Sul, e não na América Central. Também nos estudos, foram criados biomarcadores (marcadores biológicos que detectam a presença de organismos) capazes de apontar a presença do cacau em qualquer artefato, como por exemplo, recipientes de cerâmica. Com a nova descoberta, as relações comerciais entre os povos pré-colombianos do sul e norte de nosso continente estão sendo revistas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 29/08/2019 às 09h17 | daltonmaziero@uol.com.br



1 2 3 4 5 6

Dalton Delfini Maziero

Assina a coluna América Misteriosa

Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.














Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br

Página 3
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

AS MÚMIAS DE QILAKITSOQ

A Groelândia é um território quase esquecido da América do norte. Pouco ou nada se fala sobre o que acontece por lá, muito menos sobre descobertas arqueológicas naquele território tão inóspito. Contudo, em 1972, uma dupla de caçadores (Hans e Jokum Gronvold) localizou duas sepulturas congeladas do povo Inuit, no assentamento de Qilakitsoq (Península de Nuussuaq), contendo oito múmias incrivelmente bem preservadas. São seis mulheres, uma criança de dois anos e um bebê de apenas seis meses de vida. Na época da descoberta, após comunicado à polícia local, acreditou-se tratar de um assassinato recente.

As múmias foram localizadas em uma reentrância de um rochedo, recobertas com pele de rena e de foca. Pelo fato de a encosta rochosa estar voltada ao norte, a tumba recebeu ar seco e baixíssimas temperaturas, ajudando na preservação das múmias. Os corpos foram encontrados empilhados uns sobre os outros, separadas por apenas 1 metro. Entre eles, havia diversas camadas de peles de animais. Contou-se 78 peças de roupas. Com os artefatos identificados na tumba, datou-se o conjunto em 1475 dC. Também se identificou cinco mulheres com tatuagem no rosto. A tatuagem era prática comum entre os povos das Américas e uma forma de identificar um grupo social.

Os corpos estavam preparados para a caça, com roupas quentes, sacolas, anzóis e arpões. Contudo, nesse caso específico, a jornada era pós-morte. Os Inuites acreditavam que os mortos deveriam se preparar para a sobrevivência no além. Ao contrário do que muitos possam pensar, os corpos não foram tratados como ocorre nas múmias chinchorro ou egípcias. Elas simplesmente foram preservadas com suas roupas, pelo frio da região. Pesquisadores acreditam que o bebê de seis meses (um menino) foi enterrado vivo junto à mãe. Devido à questão de sobrevivência, um bebê órfão significava dificuldade de sustento alheio. A solução – uma decisão difícil – era colocá-la junto à mãe, para que esta levasse seu filho no pós-morte. Sendo assim, naquela época não era uma ocorrência incomum levar uma criança à morte de forma lenta, pela fome. Algo semelhante ocorreu com a criança de dois anos. Existem indícios que ele sofria de Síndrome de Dawn.

Para as seis mulheres, investigações detectaram uma situação de saúde precária. Elas possuíam diversos tumores, prisão de ventre, surdes, cegueira e pedras nos rins. A análise do DNA, contudo, mostrou uma conexão familiar. São três irmãs com idade aproximada de 50 anos; e três filhas, entre 18 e 30 anos. As duas crianças eram as netas das irmãs. Apesar de tudo, os cientistas não conseguiram determinar se morreram todos ao mesmo tempo ou não. As múmias de Qilakitsoq lançaram uma nova luz de conhecimento sobre a sociedade e vida cotidiana dos inuit no século XV, de seu modo de sobrevivência e suas crenças na morte. Contudo, ainda existem mais perguntas do que respostas nessa fascinante descoberta.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite: Arqueologia Americana no Facebook 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 02/01/2020 às 17h15 | daltonmaziero@uol.com.br

A ELABORADA ARTE DO POVO HOPEWELL

Os povos pré-colombianos da América do Norte são pouco – ou nada – conhecidos de nós, brasileiros. Quando especulamos sobre a vida e obra de grupos como Anasazi, Pueblo, Adena ou Hopewell, quase nenhuma referência nos vem à mente. Contudo, esses povos da América do Norte produziram alguns dos melhores e mais refinados trabalhos artísticos de nosso continente.

Os Hopewell – que viveram ao sul de Ohio (EUA) entre 100 e 500 dC – produziram obras em grande variedade e com um refinamento nunca visto. Além da pedra e cerâmica, exploravam as possibilidades de materiais exóticos, como a mica, dentes de animais (tubarões, ursos), ossos (animais e humanos), conchas do mar e pérolas de água doce; além de alguns metais, como a prata e o cobre. Muito do que sabemos sobre o povo Hopewell é proveniente de seus montes mortuários (Mounds), onde depositavam grandes quantidades de artefatos. Sítios arqueológicos como o Mound of Pipes e Tremper Site, geraram respectivamente 200 e 130 cachimbos de pedra finamente esculpidos, com reproduções de pássaros, veados, ursos e outros animais. Também trabalhavam de forma excepcional, as abstrações. Um dos exemplos mais importantes nessa linha de representação é a Mica Hand, localizada em Ross County (Ohio), uma delicada não humana estilizada, cortada em um pedaço de mica com 11 x 6 cm. Não se sabe a real utilização desta peça, se para ornamento ou processo ritualístico.

Essa diversidade artística conquistada pelos Hopewells ocorreu graças a uma ampla rede comercial que atingia terras dos atuais Canadá e México. O cobre era proveniente da região dos Grandes Lagos, e com ele faziam ornamentos como pulseiras, colares, peitorais e outros para orelhas. As conchas provinham do Golfo do México, a mica do estado das Carolinas e a obsidiana das Montanhas Rochosas

Assim como os geoglifos da América do Sul, existiam os Mounds da América do Norte. Estes foram formações artificiais terrestres, executadas com a força humana de muita gente. Mas, ao contrário dos geoglifos, os mounds muitas vezes abrigavam sepultamentos. Essas terraplanagens geométricas apresentavam formas quadradas, octogonais e circulares. Algumas delas continham grandes quantidades de artefatos, sugerindo uma hierarquia social. Um dos maiores exemplos de sepultamentos encontram-se em Mound City (Chillicote), que está sendo cotado para transformar-se em Patrimônio Mundial.

Por volta de 400 dC, praticamente todas as construções atribuídas aos hopewells estavam terminadas. Iniciou-se um rápido período de mudanças. As grandes construções são abandonadas e a arte perde importância. As aldeias aumentam de população, surgindo valas e muros de proteção. Alguns arqueólogos acreditam que esse declínio cultural ocorreu pelo abandono de antigas tradições.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 06/12/2019 às 10h53 | daltonmaziero@uol.com.br

PACHATAKA – A “FORCA” DO INCA

Para quem chega à pequena cidade de Copacabana, às margens do lago Titicaca (lado boliviano), irá se deparar com um monumento arqueológico popularmente chamada de “Forca do Inca” (Horca del Inca). Ele fica a não mais que 600 metros do centro da cidade, no morro de Quesasani, e pode ser atingido facilmente a pé.

O infeliz termo – “Forca” – foi atribuído na época da conquista espanhola, por conquistadores que viram ali, em traves de pedra apoiadas em colunas, o suporte necessário para o enforcamento de delinquentes no passado incaico. Muitos viajantes, ao longo do período colonial, reforçaram essa ideia e contribuíram para o desvio da compreensão daquele monumento. Em 1880, o viajante Charles Wiener (1851-1913) – buscando uma semelhança com monumentos europeus – chama as colunas de "dólmens", fazendo uma clara referência a Stonehenge, na Inglaterra.

O mistério da "Forca do Inca" só foi devidamente esclarecido em 1983, quando
Juan de la Cruz Zapata, especialista em física cósmica da Universidad Mayor de San Andrés, desenvolveu estudos nos quais concluiu que as colunas foram usadas para prever as mudanças de estações e solstícios de verão e inverno. Também, usariam o local para prever os movimentos lunares e a chegada de eclipses. Hoje, podemos dizer, com toda a certeza, que o monumento representou, outrora, um observatório astronômico!

Em finais da década de 80, o arqueólogo Oswaldo Rivera Sundt confirmou esta
tese. Descobriu pedras que foram rebaixadas, propositalmente, para que os raios solares pudessem projetar-se nos travessões erguidos. Estas "deformações" rochosas serviriam para marcar datas fundamentais. Através delas, os antigos povos puderam organizar seu ano e suas plantações. Em escavações arqueológicas, foram encontradas peças de cerâmica que dataram de 1764 a.C., situando o monumento dentro do período de ocupação Chiripa. Com o passar do tempo, o termo errôneo foi mudando, para o que muitos chamam hoje de Pachataka, que em aymara quer dizer “lugar onde se mede o tempo”.

Do alto do Quesasani, não é difícil imaginar os profissionais que trabalhavam com o objetivo de decifrar os raios solares no passado. Acredita-se por exemplo, que uma dessas ações ocorria às 8:05 da manhã de 21 de junho (hemisfério sul do planeta), quando no local um raio de sol projetava-se por um orifício na rocha, projetando-se a mais de 21 metros em uma das colunas ali existente. Essa era a confirmação do Solstício de Inverno, quando o sol atinge a maior distância angular em relação à linha do Equador. Com base nesse conhecimento, planejavam seu plantio e alimentavam sua cosmologia.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br)
 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 18/11/2019 às 12h19 | daltonmaziero@uol.com.br

ILOPANGO – O VULCÃO QUE ABALOU A CIVILIZAÇÃO MAIA

Durante décadas, geólogos e arqueólogos encontraram evidências de uma catástrofe nas Américas, com repercussões globais. Os primeiros sinais surgiram na Groenlândia e no gelo da Antártica. Ali, vestígios aprisionados no gelo davam mostra de dois eventos ocorridos nos anos de 536 e 540 dC. Os cálculos dos vestígios (sulfato) acumulados indicaram mais de 43 quilômetros cúbicos de rocha lançados na estratosfera, e posteriormente depositados no solo do planeta, sem contar o volume de enxofre espalhado. O volume é tão imenso que faz deste evento, o maior já presenciado pelo homem americano.

Em termos de poder de destruição, essa antiga erupção vulcânica foi a maior dos últimos 7 mil anos, superando em mais de cem vezes, erupções clássicas como o Pinatubo (1991) ou Santa Elena (1980), e até maior que a assustadora explosão do Tambora (1815). Robert Dull – geólogo da Universidade Luterana da Califórnia – afirma que as implicações dessa erupção alcançaram em especial o hemisfério norte, fazendo as temperaturas globais caírem 2º graus.

Na Europa, relatos medievais dão conta que em 536, uma névoa escureceu o céu, ocultando o sol. As plantações foram devastadas. Em seguida, ocorreu um longo período de fome, com proliferação de doenças. Em 541, a Praga de Justiniano coincidiu com o auge do resfriamento global, matando milhões.

Agora, evidência seguras indicam que o epicentro dessa catástrofe ocorreu em Ilopango, um complexo vulcânico situado em El Salvador. A certeza veio do estudo de uma camada geológica conhecida como Terra Branca Jovem, de origem vulcânica, que se estendia inclusive por sedimentos marinhos. Em uma pedreira próxima ao vulcão Ilopango, foram encontradas árvores sedimentadas na camada de Terra Branca Jovem. Essa descoberta confirmou – através do radiocarbono – não apenas a data da explosão do vulcão, mas a certeza de que foram duas explosões com intervalo de quatro anos.

Arqueólogos estimam que cerca de 80 mil pessoas da civilização Maia pereceram imediatamente no evento da explosão. Vilas foram soterradas, as plantações destruídas e a água contaminada. O dia virou noite. Acredita-se que 400 mil maias da América Central foram afetados pelo Ilopango, causando uma migração em massa ao norte, em especial, à Guatemala e México. O vulcão não dizimou os maias, mas deu início ao período chamado Clássico Terminal, com evidente abandono de muitas regiões e aumento em outras; além de guerras deflagadas entre as novas cidades. Essa migração em massa teve consequências permanentes, mas também mostrou o poder de recuperação das antigas civilizações. Exemplo dessa renovação foi a descoberta de Joya de Cerén, uma cidade maia que surgiu em El Salvador, na região da catástrofe, para ser definitivamente soterrada por outra erupção ocorrida em 660 dC.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 31/10/2019 às 09h47 | daltonmaziero@uol.com.br

A CIVILIZAÇÃO CHIMÚ E O SACRIFÍCIO DE CRIANÇAS

A civilização Chimú (norte do Peru) é usualmente conhecida pela construção de Chan Chan, a maior cidade de barro do mundo. Aquele povo possuía engenhosos arquitetos, que desenvolveram um sistema hidráulico notável, capaz de trazer água de longe para abastecer sua capital em pleno deserto. Também possuíam hábeis artesãos e metalúrgicos. Entre os séculos X e XV, foram os senhores do norte, herdeiros dos antigos Mochicas.

Contudo, apesar dos avançados conhecimentos, estavam, assim como os demais povos pré-colombianos, presos a conceitos que hoje são de difícil aceitação moral. Recentemente, na região de Huanchaco, arqueólogos realizaram uma assustadora descoberta! Corpos de 227 crianças foram encontradas, no que é - até o momento - o maior sacrifício humano já descoberto. Elas tinham entre 4 e 12 anos. Segundo o arqueólogo Feren Castillo, as crianças tinham seus rostos voltados ao oceano Pacífico.

A região de Huanchaco é pródiga em revelar grandes depósitos de corpos em sacrifício, tanto de homens quanto de animais. Em 2018, localizaram em Pampa de la Cruz, 56 corpos. Em Huanchaquito - no mesmo ano - 140 crianças e 200 lhamas foram encontradas. No caso do desenterramento das 227 crianças, arqueólogos notaram um fino e preciso corte no externo (osso do peito), realizado provavelmente por profissional com muita habilidade. A faca utilizada para o procedimento também foi localizada nas escavações. Ao que tudo indica, os sacrifícios tinham o objetivo de agradar os deuses e pedir o fim dos desastres naturais causados pelo fenômeno climático conhecido como El Niño. Outros povos desenvolveram seus próprios rituais para aplacar a fúria do El Niño, como por exemplo, a criação de geoglifos no deserto, que faziam parte de pedidos envolvendo a chuva e a fertilidade da natureza.

Contudo, a pergunta que fazemos é: Por que crianças? Sabemos sobre a existência de guerras rituais, forjadas com o único objetivo de capturar guerreiros adversários para os rituais de sacrifício. Isso era prática comum e aceitável entre os povos andinos. Contudo, é difícil imaginar que crianças fizessem parte desse “jogo” ritual de vida e morte. Talvez seu estado de infância fosse, aos olhos dos sacerdotes, um elemento valioso aos deuses. Um elemento de convencimento maior, que sobrepujava o sacrifício de guerreiros adultos capturados.

Por fim, em 1470 dC, a civilização Chimú foi conquistada e assimilada pela expansão Inca, em ofensiva de seu líder Túpac Yupanqui, que destruiu os sistemas de canalização de água, condenando a capital Chan Chan à escassez total. Sua gigantesca cidade sucumbiu, assim como os rituais de sacrifício aos deuses.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 27/09/2019 às 12h04 | daltonmaziero@uol.com.br

O CHOCOLATE MAIS ANTIGO DO MUNDO?

Existem diversas lendas que explicam a origem divina do chocolate. A mais famosa delas está associada aos Mexicas e ao deus Quetzalcóatl. Ele representava o planeta Vênus, a vegetação, a vida e o alimento. Diz a lenda, que Quetzacóatl um dia quis presentear a humanidade com um alimento que desse energia e prazer. O problema é que este presente – a semente do cacau – estava em uma árvore sagrada que não lhe pertencia. Quetzalcóatl então foi ao Reino do Sol e roubou as sementes. Pego pelos demais deuses, teve tempo ainda de as atirar em direção à terra, onde germinaram dando origem aos cacaueiros. Como punição, foi banido do Reino do Sol, jurando um dia voltar. E assim os homens aprenderam a manipular o cacau, criando o “xocolátl”, uma fusão entre o “xococ” (amargo) e “atl” (água), gerando assim uma bebida quente e amarga.

Lendas à parte, o chocolate é um dos produtos mais consumidos e queridos do mundo. Até bem pouco tempo, o consenso é que ele havia sido domesticado por volta de 3.900 anos, na região da América Central. Contudo, conhecimento é algo que está aí para ser revisto e reescrito.

Pensando assim, uma equipe de cientistas aprofundou os estudos genéticos da semente do Theobroma Cacao (o Cacau) e realizou importantes descobertas publicadas na revista Nature Ecology & Evolution. A imagem do cacau sempre esteve atrelada à América Central e ao mundo mesoamericano. Pesquisas nessa região revelaram que a semente era usada como moeda comercial, e que seu uso esteve associado a cultos e dias festivos. Michael Blake, um dos autores dessa pesquisa, apresentou provas genéticas de sementes da theobroma, localizadas no sítio arqueológico Santa Ana La Florida (Equador), do povo maio-chinchipe, datando de aproximadamente 5.450 anos de antiguidade. Ou seja, cerca de 1500 anos mais antigo do que se acreditava até então.

Vários fragmentos de cerâmicas de Santa Ana apresentaram moléculas de amido existentes apenas no theobroma; assim como resíduos de um alcaloide amargo, relacionado à semente. Como o local das amostras se encontra no litoral do Equador, acredita-se que as sementes tenham migrado através de uma rota comercial litorânea com a Mesoamérica.

Francisco Valdez, outro pesquisador da equipe, havia publicado um relatório preliminar à pesquisa em 2013. Nele, afirmava serem estas as provas inequívocas de que a domesticação do cacau era muito mais antiga do que se pensava, e que ela surgira na América do Sul, e não na América Central. Também nos estudos, foram criados biomarcadores (marcadores biológicos que detectam a presença de organismos) capazes de apontar a presença do cacau em qualquer artefato, como por exemplo, recipientes de cerâmica. Com a nova descoberta, as relações comerciais entre os povos pré-colombianos do sul e norte de nosso continente estão sendo revistas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 29/08/2019 às 09h17 | daltonmaziero@uol.com.br



1 2 3 4 5 6

Dalton Delfini Maziero

Assina a coluna América Misteriosa

Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.