Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

A SENHORA DE EL PARAÍSO

A arqueologia de gênero está em moda ultimamente. E essa nova abordagem nos permite revisitar períodos históricos antes estagnados em uma espécie de consenso histórico. Assim, um novo olhar se torna necessário, muitas vezes baseado nas descobertas que a arqueologia e antropologia nos brindam.  Dentro desta nova abordagem, ganham destaque a posição social das mulheres, crianças, excluídos, minorias, negros ou mesmo o estudo de profissões consideradas pertencentes a um submundo social, como a prostituição ou pirataria.

Na América pré-colombiana, cada vez mais essa nova visão faz jus em destacar a posição das mulheres em nosso passado. Antes vistas como secundárias nos processos políticos e religiosos, ganham importância ao serem notadas como dignitárias pertencentes a uma nobre classe social e envolvidas na religião, rituais e política de sua época.

Um recente projeto levado a cabo pelo Museu Mineral Andrés Del Castillo, em Lima (Peru), reconstruiu o rosto de uma dessas mulheres, cujos restos mortais foram localizados próximo ao templo de El Paraíso. Datada de 3.700 anos de antiguidade, a mulher não tinha mais que 1,5 metros de altura, e idade aproximada de 23 anos. A arqueóloga Dayanna Carbonel, diretora da pesquisa, afirma não ser ainda possível detectar a causa da morte, mas destaca sua semelhança com o povo que hoje habita a região. Contudo, graças a uma patologia óssea de seu antebraço, puderam identificar que a Senhora de El Paraíso exerceu, muito provavelmente, a função de tecedora.

O estudo levou dois anos para ser concluído e foi fruto da mescla de ciência e arte, envolvendo antropometria craniana, que permite estimar os contornos da face e a espessura da carne que cobre o rosto. A parte final ficou por conta do artista plástico Teo Ugarte, que orientou a recriação das fibras musculares e do tecido da pele, com argila e gesso. A iniciativa de recriação facial não é nova no Peru, pois técnicas semelhantes foram utilizadas com a Sacerdotisa de Chornancap e com a Dama de Cao, ambas mulheres de grande importância no passado, mas de antiguidade não tão avançada como esta de El Paraíso.

Dayanna chama a atenção para o fato de mais enterros estarem localizados em El Paraíso. Ao todo 11 tumbas foram abertas, com restos mortais de diversas mulheres, infelizmente nem todas apresentando condições para realização de reconstrução craniana como a Senhora de El Paraíso. Além de determinarem sua possível atividade profissional, também sua arcada dentária revelou uma dieta composta por mandioca (yuca), raízes, mariscos e frijoles (feijões); e sinais de anemia, proveniente de uma alimentação pouco balanceada na infância.

Dalton Delfini Maziero é historiador, escritor, especialista em arqueólogia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima. Visite o Blog “Arqueologia Americana” (arqueologiamericana.blogspot.com) e a Página do Escritor (clubedeautores.com.br/livros/autores/dalton-delfini-maziero)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 12/01/2021 às 17h02 | daltonmaziero@uol.com.br

IXCHEL – A DEUSA MAYA DA LUA

Assim como Egito, Grécia e Mesopotâmia, também o mundo Maia apresentou uma diversidade de deuses que formaram uma rica mitologia. Muitas vezes, foram associados aos eventos da natureza, exercendo forte impacto sobre a vida das pessoas. Nesse contexto, surge Ixchel - a Senhora do Arco-íris, deusa da lua e das serpentes, na antiga América pré-colombiana.

Ixchel foi muito importante no mundo maia, devido a sua proximidade com a vida íntima dos antigos moradores da Península de Iucatã (México). Não sem motivos, ganhou seu próprio território: a ilha sagrada de Cozumel e também Isla de las Mujeres, onde possuía adoratórios e para onde migravam as mulheres que pediam seus favores para engravidar. Durante sua vida, uma mulher devia fazer duas vezes essa peregrinação: a primeira ainda criança, acompanhada da mãe; a segunda como mãe, acompanhando sua filha.

Além de ter sua representação associada à Lua, Ixchel também representava a fertilidade humana, a saúde, o parto, a sexualidade, o bem estar físico, a cura, a magia, a água e a tecelagem. Com todos esses atributos, não é de se espantar que ela fosse uma das mais populares e solicitadas deusas da antiga América, acolhida como protetora das mulheres e crianças. Devido a sua relação com a fertilidade, sexualidade e parto, os maias a representaram segurando um vaso invertido de onde corria, incessantemente, as águas da criação. Em sua imagem gráfica, além da serpente, estava associada a libélula e ao coelho, animais que representam a fertilidade ou que estiveram associados ao seu passado mitológico.

Desde sua concepção, Ixchel foi ganhando camadas de complexidade até tornar-se um arquétipo representativo das fases de uma mulher. Por isso encontramos sua imagem em três versões: uma mulher jovem (A Grande Mãe), uma de meia idade (A Senhora da Terra) ou uma sábia anciã (A Dama Velha). Em sua terceira versão – a anciã – Ixchel aproxima-se da habilidade enquanto tecelã; mas aqui a tecelagem não se refere exatamente ao fio de lã, mas sim a sua habilidade em “tecer” a vida, o exato momento em que verterá sua água na Terra, fertilizando a criação.

Embora fosse gentil e piedosa Ixchel era também uma deusa cruel, pois representava a face oposta da vida. No conceito pré-colombiano, a vida e morte eram indissociáveis. Ela atuava segundo as fases da Lua, incorporando, portanto diferentes aspectos e personalidades. Possuía o poder de conceber a vida, e também o de tirá-la. Se por um lado era representada por coelhos e libélulas, por outro também o era com ossos, caveiras e dona das almas. Em seu estado de fúria, Ixchel esteve associada às tempestades, tormentas e inundações. Atualmente, a adoração a Ixchel está renascendo, incentivada pelo turismo mexicano a seus adoratórios, resgatando assim antigas tradições.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Na Profundeza do Mar Azul”. Visite o Blog “Arqueologia Americana” (http://arqueologiamericana.blogspot.com/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 07/12/2020 às 17h51 | daltonmaziero@uol.com.br

MONTE SIERPE – O MAIOR GEOGLIFO PERUANO

Para alguns mistérios das Américas, ainda não existem respostas plausíveis. Esse é o caso de Monte Sierpe (Montanha da Serpente), localizado há apenas 5 quilômetros das ruínas de Tambo Colorado, em Pisco, Peru.

Monte Sierpe foi descoberto em 1931, por ocasião da expedição aérea “Shippee-Johnson” de fotografia, realizada por Robert Shippee e George R. Johnson, publicada na National Geographic Magazine em 1933. Uma das fotos mostrou ao mundo uma estranha formação esculpida ao longo de 1,5 quilômetros serpenteando as montanhas e atravessando fendas. Entre 1957 e 1958, o arqueólogo norte-americano Dwight T. Wallace estudou a parte baixa dos vales de Pisco e Chincha, anotando um trecho dessa formação, com uma série de buracos (hoyos) que “são aproximadamente circulares e tem um diâmetro ao redor de 1 metro”. Não demorou a curiosos e aventureiros explorarem o local de forma particular, divulgando teorias nada científicas que envolviam a presença de extraterrestres, sepulturas verticais ou simplesmente “arte” pré-colombiana, em uma modalidade diferente dos geoglifo.

Recentemente, os arqueólogos Charles Stanish e Henry Tantaleán (UCLA –University of California, Los Angeles) tem se dedicado a desvendar esse mistério. Suas medições apontam para um total de 5.430 buracos artificiais, com diâmetro entre 80 e 180 cm; e profundidade entre 40 e 120 cm. A formação inteira alcança 1.564 metros de comprimento, sendo 17,5 metros sua largura média. Eles opinam que “com uma tecnologia pré-colombiana de pás e arados, um jovem poderia cavar um desses buracos facilmente em cerca de duas ou três horas, em média [...] Uma estimativa muito conservadora é que um trabalhador poderia facilmente cavar ou construir dois buracos por dia [...] Um cálculo simples revela que 10 trabalhadores poderiam ter feito toda a obra em 300 dias; 50 trabalhadores em 60; e 100 trabalhadores em um mês. Quinhentos trabalhadores, adequadamente gerenciados, poderiam finalizar isso em algumas semanas”.

Mas se esta impressionante obra não necessita de uma técnica tão sofisticada para sua realização, a questão recai na pergunta Por quê? Existem duas teorias plausíveis até o momento. A primeira fala em um espaço de coleta de tributos ao Inca. Nessa teoria, cada Ayllu (grupos territoriais familiares) depositaria seus produtos separados por comunidade e tipo de mercadoria. Nenhum vestígio de sementes foi encontrado até agora nos buracos, mas a ideia não é absurda, pois existem provas de sistema semelhante em Inkawasi, cerca de 100 quilômetros de Monte Sierpe. Outra teoria aproxima-o dos geoglifos, relacionando-o a formações terrestres voltadas a ritos de fertilidade e precipitação de chuvas. Seja qual for a real função de Monte Sierpe, ele certamente manterá ainda, por um bom tempo, seus mistérios.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog “Arqueologia Americana”  

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 17/11/2020 às 15h32 | daltonmaziero@uol.com.br

A GENÉTICA DOS POVOS PRÉ-COLOMBIANOS

A arqueologia pré-colombiana ganhou recentemente, um poderoso aliado para o estudo de suas antigas civilizações. Até poucas décadas atrás, tudo o que sabíamos de povos como os Incas, Wari, Moche, Nazca, Tiwanaku, entre outro, era fruto de escavações, ou resultado de descrições – por vezes fantasiosas – dos primeiros conquistadores espanhóis.

Agora, uma equipe de investigação internacional, formada por arqueólogos, geneticistas, cientistas e historiadores da Alemanha, Peru, Argentina, Estados Unidos, Chile, Reino Unido, Bolívia e Austrália, conseguiu realizar o primeiro estudo em grande escala, da história genética das antigas civilizações Sul-Americanas. O estudo concentrou-se em especial, nos povos Andinos que viveram nas montanhas e no litoral. Essa pesquisa irá trazer informações reveladoras sobre o passado das Américas, como eles interagiam, como migravam entre as regiões ou os motivos que os levaram a desaparecer.

Os primeiros resultados desse estudo revelam uma surpreendente continuidade genética de alguns grupos – mesmo diante de um cenário marcado por guerras e invasões –, e epicentros cosmopolitas, de grande mescla genética, como foi nas regiões das antigas Tiwanaku (Lago Titicaca) e Cusco. Para obter essas informações, cientistas estudaram o genoma de 89 pessoas que viveram no antigo Peru entre 500 e 9 mil anos atrás. Dessa seleção, conseguiram sequenciar os genomas de 64 indivíduos, que viveram entre 500 e 4.500 anos atrás.

Segundo David Reich (Blavatnik Institute – Harvard Medical School), “a grande maioria de estudos de DNA antigos publicados até a data centraram-se no oeste da Eurásia [...] Este estudo na América do Sul nos permite começar a distinguir com grandes detalhes a história dos movimentos humanos nesta parte extraordinariamente importante do mundo”. Os cientistas comentam ainda seu especial interesse nos Andes Centrais, local de antigas e complexas civilizações, onde a agricultura foi inventada sem que modelos tivessem sido adotados de outras regiões, como aconteceu na Europa e Oriente Médio.

Outro dado interessante é que, há 5 mil anos atrás, os grupos que viviam na Cordilheira, no litoral, no norte e sul do Peru, apresentavam sequências genéticas bastante diferentes; uma distinção que pode ser observada ainda hoje na sociedade peruana. José Capriles (Penn State University) comenta que “isso é significativo para a arqueologia dos Andes, pois agora nos permitirá fazer perguntas mais específicas com respeito às demografias locais e as redes culturais”. O estudo genético está apenas no início, mas já aponta para futuras descobertas incríveis sobre o passado de nosso continente.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog “Arqueologia Americana” (http://arqueologiamericana.blogspot.com/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 23/10/2020 às 20h07 | daltonmaziero@uol.com.br

A ESTRADA BRANCA DE COBÁ

De tempos em tempos, surge alguma nova tecnologia que revoluciona os estudos arqueológicos. Muitas vezes, ela nem é concebida com esse fim, mas adaptada para tal. Foi assim com o LIDAR – detecção e alcance da luz –, usado por meteorologistas para o estudo das nuvens. Esse pequeno aparelho, geralmente transportado por aeronaves de baixa altitude, é capaz de lançar pulsos rápidos de luz (laser) contra o solo abaixo, detectando estruturas sob a terra e florestas, criando um mapa 3D digital daquilo que não podemos ver.

Aplicando a técnica do LIDAR em uma antiga descoberta de Yucatã (México), a arqueóloga Traci Ardren (University of Miami) procura desvendar um mistério. Em 1930, arqueólogos do Instituto Carnegie de Washington mapearam – apenas com o auxílio de bússolas e fitas métricas – uma gigantesca estrada maia de 6 metros de largura e mais de 100 quilômetros, ligando supostamente as cidades de Cobá a Yaxuná, no século 7 dC.

Desde sua descoberta, algumas questões pairam sobre essa estrada, considerada hoje uma maravilha da engenharia. Nos primeiros relatórios, ainda nos anos de 1930, a estrada foi referenciada como uma linha reta, cujo motivo seria a de transportar um exército de Cobá para a tomada de Yaxuná. Na época, a rainha de Cobá – K’awiil Ajaw – encomendara a construção dessa via revestida em gesso branco e elevada do solo. Seria mesmo, tamanho feito de engenharia, apenas para transportar um exército? O Projeto de Interação do Centro de Yucatã, do qual Traci Ardren participa, começa finalmente a lançar luz sobre esse passado misterioso. Com o LIDAR, conseguiram identificar que a estrada não era reta, mas fazia diversas curvas, interligando milhares de estruturas e pequenos povoados no caminho entre Cobá e Yaxuná. Foram identificadas mais de 8 mil estruturas.

A teoria então formulada por Ardren e seus colegal, baseada nessas novas informações, era que a estrada possuía uma função expansionista, mas não propriamente foi construída para uma invasão específica. Ela fazia parte de um projeto de expansão orquestrado pela rainha K’awiil Ajaw de Cobá, que levando sua influência a outros povoados da região, visava barrar a ascensão de uma nova potência, representada por Chichén Itzá, uma das mais importantes cidades maias do Yucatã. Contudo, essa é uma teoria por provar.

Outro dado interessante fornecido pelo LIDAR, foi que a população maia era muito maior do que prevíamos. O que leva a crer que a floresta que hoje vemos em Yucatã seria muito menor, visto o uso da madeira para a construção de tantas e gigantescas cidades; e a queima dela para a fabricação do calcário branco, que revestia essa fabulosa estrada. 

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog “Arqueologia Americana” (http://arqueologiamericana.blogspot.com/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 06/10/2020 às 14h13 | daltonmaziero@uol.com.br

OS GEOGLIFOS DE CORO

Quando falamos em geoglifos, imediatamente nos recordamos das famosas Linhas de Nazca-Palpa (Peru), como símbolo máximo desse tipo de manifestação arqueológica. E com razão, observamos que a cada dia, a América do Sul torna-se a região com maior incidência de geoglifos no planeta. Sabe-se atualmente que todo o continente foi utilizado de algum modo, como suporte para a criação de enormes figuras no solo, algumas delas ultrapassando os 300 metros de comprimento. Apenas para mencionar alguns desses aglomerados de geoglifos, citamos aqui o de Nazca-Palpa (Peru), os do Acre (Brasil) e os de Pintados (Chile).

Contudo, há pouco mais de duas semanas, outro enorme campo de geoglifos foi descoberto nas proximidades de Coro (Venezuela); em um litoral semidesértico não muito distante das paradisíacas ilhas de Aruba e Curaçao. Arqueólogos e zoólogos da Universidade Nacional Experimental Francisco de Miranda (Unefm) anunciaram a descoberta de cerca de 60 geoglifos representando animais, árvores e figuras geométricas. Nenhuma figura antropomorfa (humana) foi localizada até o momento. Curioso notar que a descoberta foi realizada graças ao uso de satélites. Segundo Felipe Torrealba (Centro de Investigaciones Antropológicas y Paleontológicas de Unefm) o achado ocorreu quando buscavam o local de impacto de um meteorito no povoado de Pedregal.

Este novo agrupamento de geoglifos está situado em um platô a 700 metros de altura e ocupando uma superfície de 18 hectares. Um dos exemplares mais intrigantes é uma formação geométrica que atinge 350 metros de comprimento por 170 de largura. Toda a região entre Coro e Pedregal é formada hoje por um semideserto litorâneo, que pode ter sido no passado, ainda mais seco. Se isso de fato ocorreu, é provável que suas condições climáticas fossem muito propícias para a manifestação dos geoglifos.

Torrealba explica a semelhança com os demais desenhos conhecidos no Peru pelo procedimento em sua execução. Da mesma maneira que no Peru, na Venezuela também os nativos aplicavam basicamente duas técnicas: usavam a oxidação do solo a seu favor, retirando as pedras escuras da superfície e deixando o solo claro em evidência; ou amontoavam essas mesmas pedras escuras formando linhas que determinavam a obra.

Ainda é cedo para apontar os motivos que levaram os antigos habitantes daquela região a executarem tamanha obra. Não sabemos quais foram suas reais intenções. No momento, Torrealba juntamente com a Drª Angela Martino e o Drº Alexis Arends (zoólogos da Unefm) planejam uma expedição para coletar dados e tentar lançar alguma luz sobre essa incrível descoberta.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “América Misteriosa – Crônicas de um continente mágico”. Visite o Blog “Arqueologia Americana” 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 08/09/2020 às 09h47 | daltonmaziero@uol.com.br



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Dalton Delfini Maziero

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América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

A SENHORA DE EL PARAÍSO

A arqueologia de gênero está em moda ultimamente. E essa nova abordagem nos permite revisitar períodos históricos antes estagnados em uma espécie de consenso histórico. Assim, um novo olhar se torna necessário, muitas vezes baseado nas descobertas que a arqueologia e antropologia nos brindam.  Dentro desta nova abordagem, ganham destaque a posição social das mulheres, crianças, excluídos, minorias, negros ou mesmo o estudo de profissões consideradas pertencentes a um submundo social, como a prostituição ou pirataria.

Na América pré-colombiana, cada vez mais essa nova visão faz jus em destacar a posição das mulheres em nosso passado. Antes vistas como secundárias nos processos políticos e religiosos, ganham importância ao serem notadas como dignitárias pertencentes a uma nobre classe social e envolvidas na religião, rituais e política de sua época.

Um recente projeto levado a cabo pelo Museu Mineral Andrés Del Castillo, em Lima (Peru), reconstruiu o rosto de uma dessas mulheres, cujos restos mortais foram localizados próximo ao templo de El Paraíso. Datada de 3.700 anos de antiguidade, a mulher não tinha mais que 1,5 metros de altura, e idade aproximada de 23 anos. A arqueóloga Dayanna Carbonel, diretora da pesquisa, afirma não ser ainda possível detectar a causa da morte, mas destaca sua semelhança com o povo que hoje habita a região. Contudo, graças a uma patologia óssea de seu antebraço, puderam identificar que a Senhora de El Paraíso exerceu, muito provavelmente, a função de tecedora.

O estudo levou dois anos para ser concluído e foi fruto da mescla de ciência e arte, envolvendo antropometria craniana, que permite estimar os contornos da face e a espessura da carne que cobre o rosto. A parte final ficou por conta do artista plástico Teo Ugarte, que orientou a recriação das fibras musculares e do tecido da pele, com argila e gesso. A iniciativa de recriação facial não é nova no Peru, pois técnicas semelhantes foram utilizadas com a Sacerdotisa de Chornancap e com a Dama de Cao, ambas mulheres de grande importância no passado, mas de antiguidade não tão avançada como esta de El Paraíso.

Dayanna chama a atenção para o fato de mais enterros estarem localizados em El Paraíso. Ao todo 11 tumbas foram abertas, com restos mortais de diversas mulheres, infelizmente nem todas apresentando condições para realização de reconstrução craniana como a Senhora de El Paraíso. Além de determinarem sua possível atividade profissional, também sua arcada dentária revelou uma dieta composta por mandioca (yuca), raízes, mariscos e frijoles (feijões); e sinais de anemia, proveniente de uma alimentação pouco balanceada na infância.

Dalton Delfini Maziero é historiador, escritor, especialista em arqueólogia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima. Visite o Blog “Arqueologia Americana” (arqueologiamericana.blogspot.com) e a Página do Escritor (clubedeautores.com.br/livros/autores/dalton-delfini-maziero)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 12/01/2021 às 17h02 | daltonmaziero@uol.com.br

IXCHEL – A DEUSA MAYA DA LUA

Assim como Egito, Grécia e Mesopotâmia, também o mundo Maia apresentou uma diversidade de deuses que formaram uma rica mitologia. Muitas vezes, foram associados aos eventos da natureza, exercendo forte impacto sobre a vida das pessoas. Nesse contexto, surge Ixchel - a Senhora do Arco-íris, deusa da lua e das serpentes, na antiga América pré-colombiana.

Ixchel foi muito importante no mundo maia, devido a sua proximidade com a vida íntima dos antigos moradores da Península de Iucatã (México). Não sem motivos, ganhou seu próprio território: a ilha sagrada de Cozumel e também Isla de las Mujeres, onde possuía adoratórios e para onde migravam as mulheres que pediam seus favores para engravidar. Durante sua vida, uma mulher devia fazer duas vezes essa peregrinação: a primeira ainda criança, acompanhada da mãe; a segunda como mãe, acompanhando sua filha.

Além de ter sua representação associada à Lua, Ixchel também representava a fertilidade humana, a saúde, o parto, a sexualidade, o bem estar físico, a cura, a magia, a água e a tecelagem. Com todos esses atributos, não é de se espantar que ela fosse uma das mais populares e solicitadas deusas da antiga América, acolhida como protetora das mulheres e crianças. Devido a sua relação com a fertilidade, sexualidade e parto, os maias a representaram segurando um vaso invertido de onde corria, incessantemente, as águas da criação. Em sua imagem gráfica, além da serpente, estava associada a libélula e ao coelho, animais que representam a fertilidade ou que estiveram associados ao seu passado mitológico.

Desde sua concepção, Ixchel foi ganhando camadas de complexidade até tornar-se um arquétipo representativo das fases de uma mulher. Por isso encontramos sua imagem em três versões: uma mulher jovem (A Grande Mãe), uma de meia idade (A Senhora da Terra) ou uma sábia anciã (A Dama Velha). Em sua terceira versão – a anciã – Ixchel aproxima-se da habilidade enquanto tecelã; mas aqui a tecelagem não se refere exatamente ao fio de lã, mas sim a sua habilidade em “tecer” a vida, o exato momento em que verterá sua água na Terra, fertilizando a criação.

Embora fosse gentil e piedosa Ixchel era também uma deusa cruel, pois representava a face oposta da vida. No conceito pré-colombiano, a vida e morte eram indissociáveis. Ela atuava segundo as fases da Lua, incorporando, portanto diferentes aspectos e personalidades. Possuía o poder de conceber a vida, e também o de tirá-la. Se por um lado era representada por coelhos e libélulas, por outro também o era com ossos, caveiras e dona das almas. Em seu estado de fúria, Ixchel esteve associada às tempestades, tormentas e inundações. Atualmente, a adoração a Ixchel está renascendo, incentivada pelo turismo mexicano a seus adoratórios, resgatando assim antigas tradições.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Na Profundeza do Mar Azul”. Visite o Blog “Arqueologia Americana” (http://arqueologiamericana.blogspot.com/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 07/12/2020 às 17h51 | daltonmaziero@uol.com.br

MONTE SIERPE – O MAIOR GEOGLIFO PERUANO

Para alguns mistérios das Américas, ainda não existem respostas plausíveis. Esse é o caso de Monte Sierpe (Montanha da Serpente), localizado há apenas 5 quilômetros das ruínas de Tambo Colorado, em Pisco, Peru.

Monte Sierpe foi descoberto em 1931, por ocasião da expedição aérea “Shippee-Johnson” de fotografia, realizada por Robert Shippee e George R. Johnson, publicada na National Geographic Magazine em 1933. Uma das fotos mostrou ao mundo uma estranha formação esculpida ao longo de 1,5 quilômetros serpenteando as montanhas e atravessando fendas. Entre 1957 e 1958, o arqueólogo norte-americano Dwight T. Wallace estudou a parte baixa dos vales de Pisco e Chincha, anotando um trecho dessa formação, com uma série de buracos (hoyos) que “são aproximadamente circulares e tem um diâmetro ao redor de 1 metro”. Não demorou a curiosos e aventureiros explorarem o local de forma particular, divulgando teorias nada científicas que envolviam a presença de extraterrestres, sepulturas verticais ou simplesmente “arte” pré-colombiana, em uma modalidade diferente dos geoglifo.

Recentemente, os arqueólogos Charles Stanish e Henry Tantaleán (UCLA –University of California, Los Angeles) tem se dedicado a desvendar esse mistério. Suas medições apontam para um total de 5.430 buracos artificiais, com diâmetro entre 80 e 180 cm; e profundidade entre 40 e 120 cm. A formação inteira alcança 1.564 metros de comprimento, sendo 17,5 metros sua largura média. Eles opinam que “com uma tecnologia pré-colombiana de pás e arados, um jovem poderia cavar um desses buracos facilmente em cerca de duas ou três horas, em média [...] Uma estimativa muito conservadora é que um trabalhador poderia facilmente cavar ou construir dois buracos por dia [...] Um cálculo simples revela que 10 trabalhadores poderiam ter feito toda a obra em 300 dias; 50 trabalhadores em 60; e 100 trabalhadores em um mês. Quinhentos trabalhadores, adequadamente gerenciados, poderiam finalizar isso em algumas semanas”.

Mas se esta impressionante obra não necessita de uma técnica tão sofisticada para sua realização, a questão recai na pergunta Por quê? Existem duas teorias plausíveis até o momento. A primeira fala em um espaço de coleta de tributos ao Inca. Nessa teoria, cada Ayllu (grupos territoriais familiares) depositaria seus produtos separados por comunidade e tipo de mercadoria. Nenhum vestígio de sementes foi encontrado até agora nos buracos, mas a ideia não é absurda, pois existem provas de sistema semelhante em Inkawasi, cerca de 100 quilômetros de Monte Sierpe. Outra teoria aproxima-o dos geoglifos, relacionando-o a formações terrestres voltadas a ritos de fertilidade e precipitação de chuvas. Seja qual for a real função de Monte Sierpe, ele certamente manterá ainda, por um bom tempo, seus mistérios.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog “Arqueologia Americana”  

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 17/11/2020 às 15h32 | daltonmaziero@uol.com.br

A GENÉTICA DOS POVOS PRÉ-COLOMBIANOS

A arqueologia pré-colombiana ganhou recentemente, um poderoso aliado para o estudo de suas antigas civilizações. Até poucas décadas atrás, tudo o que sabíamos de povos como os Incas, Wari, Moche, Nazca, Tiwanaku, entre outro, era fruto de escavações, ou resultado de descrições – por vezes fantasiosas – dos primeiros conquistadores espanhóis.

Agora, uma equipe de investigação internacional, formada por arqueólogos, geneticistas, cientistas e historiadores da Alemanha, Peru, Argentina, Estados Unidos, Chile, Reino Unido, Bolívia e Austrália, conseguiu realizar o primeiro estudo em grande escala, da história genética das antigas civilizações Sul-Americanas. O estudo concentrou-se em especial, nos povos Andinos que viveram nas montanhas e no litoral. Essa pesquisa irá trazer informações reveladoras sobre o passado das Américas, como eles interagiam, como migravam entre as regiões ou os motivos que os levaram a desaparecer.

Os primeiros resultados desse estudo revelam uma surpreendente continuidade genética de alguns grupos – mesmo diante de um cenário marcado por guerras e invasões –, e epicentros cosmopolitas, de grande mescla genética, como foi nas regiões das antigas Tiwanaku (Lago Titicaca) e Cusco. Para obter essas informações, cientistas estudaram o genoma de 89 pessoas que viveram no antigo Peru entre 500 e 9 mil anos atrás. Dessa seleção, conseguiram sequenciar os genomas de 64 indivíduos, que viveram entre 500 e 4.500 anos atrás.

Segundo David Reich (Blavatnik Institute – Harvard Medical School), “a grande maioria de estudos de DNA antigos publicados até a data centraram-se no oeste da Eurásia [...] Este estudo na América do Sul nos permite começar a distinguir com grandes detalhes a história dos movimentos humanos nesta parte extraordinariamente importante do mundo”. Os cientistas comentam ainda seu especial interesse nos Andes Centrais, local de antigas e complexas civilizações, onde a agricultura foi inventada sem que modelos tivessem sido adotados de outras regiões, como aconteceu na Europa e Oriente Médio.

Outro dado interessante é que, há 5 mil anos atrás, os grupos que viviam na Cordilheira, no litoral, no norte e sul do Peru, apresentavam sequências genéticas bastante diferentes; uma distinção que pode ser observada ainda hoje na sociedade peruana. José Capriles (Penn State University) comenta que “isso é significativo para a arqueologia dos Andes, pois agora nos permitirá fazer perguntas mais específicas com respeito às demografias locais e as redes culturais”. O estudo genético está apenas no início, mas já aponta para futuras descobertas incríveis sobre o passado de nosso continente.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog “Arqueologia Americana” (http://arqueologiamericana.blogspot.com/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 23/10/2020 às 20h07 | daltonmaziero@uol.com.br

A ESTRADA BRANCA DE COBÁ

De tempos em tempos, surge alguma nova tecnologia que revoluciona os estudos arqueológicos. Muitas vezes, ela nem é concebida com esse fim, mas adaptada para tal. Foi assim com o LIDAR – detecção e alcance da luz –, usado por meteorologistas para o estudo das nuvens. Esse pequeno aparelho, geralmente transportado por aeronaves de baixa altitude, é capaz de lançar pulsos rápidos de luz (laser) contra o solo abaixo, detectando estruturas sob a terra e florestas, criando um mapa 3D digital daquilo que não podemos ver.

Aplicando a técnica do LIDAR em uma antiga descoberta de Yucatã (México), a arqueóloga Traci Ardren (University of Miami) procura desvendar um mistério. Em 1930, arqueólogos do Instituto Carnegie de Washington mapearam – apenas com o auxílio de bússolas e fitas métricas – uma gigantesca estrada maia de 6 metros de largura e mais de 100 quilômetros, ligando supostamente as cidades de Cobá a Yaxuná, no século 7 dC.

Desde sua descoberta, algumas questões pairam sobre essa estrada, considerada hoje uma maravilha da engenharia. Nos primeiros relatórios, ainda nos anos de 1930, a estrada foi referenciada como uma linha reta, cujo motivo seria a de transportar um exército de Cobá para a tomada de Yaxuná. Na época, a rainha de Cobá – K’awiil Ajaw – encomendara a construção dessa via revestida em gesso branco e elevada do solo. Seria mesmo, tamanho feito de engenharia, apenas para transportar um exército? O Projeto de Interação do Centro de Yucatã, do qual Traci Ardren participa, começa finalmente a lançar luz sobre esse passado misterioso. Com o LIDAR, conseguiram identificar que a estrada não era reta, mas fazia diversas curvas, interligando milhares de estruturas e pequenos povoados no caminho entre Cobá e Yaxuná. Foram identificadas mais de 8 mil estruturas.

A teoria então formulada por Ardren e seus colegal, baseada nessas novas informações, era que a estrada possuía uma função expansionista, mas não propriamente foi construída para uma invasão específica. Ela fazia parte de um projeto de expansão orquestrado pela rainha K’awiil Ajaw de Cobá, que levando sua influência a outros povoados da região, visava barrar a ascensão de uma nova potência, representada por Chichén Itzá, uma das mais importantes cidades maias do Yucatã. Contudo, essa é uma teoria por provar.

Outro dado interessante fornecido pelo LIDAR, foi que a população maia era muito maior do que prevíamos. O que leva a crer que a floresta que hoje vemos em Yucatã seria muito menor, visto o uso da madeira para a construção de tantas e gigantescas cidades; e a queima dela para a fabricação do calcário branco, que revestia essa fabulosa estrada. 

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog “Arqueologia Americana” (http://arqueologiamericana.blogspot.com/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 06/10/2020 às 14h13 | daltonmaziero@uol.com.br

OS GEOGLIFOS DE CORO

Quando falamos em geoglifos, imediatamente nos recordamos das famosas Linhas de Nazca-Palpa (Peru), como símbolo máximo desse tipo de manifestação arqueológica. E com razão, observamos que a cada dia, a América do Sul torna-se a região com maior incidência de geoglifos no planeta. Sabe-se atualmente que todo o continente foi utilizado de algum modo, como suporte para a criação de enormes figuras no solo, algumas delas ultrapassando os 300 metros de comprimento. Apenas para mencionar alguns desses aglomerados de geoglifos, citamos aqui o de Nazca-Palpa (Peru), os do Acre (Brasil) e os de Pintados (Chile).

Contudo, há pouco mais de duas semanas, outro enorme campo de geoglifos foi descoberto nas proximidades de Coro (Venezuela); em um litoral semidesértico não muito distante das paradisíacas ilhas de Aruba e Curaçao. Arqueólogos e zoólogos da Universidade Nacional Experimental Francisco de Miranda (Unefm) anunciaram a descoberta de cerca de 60 geoglifos representando animais, árvores e figuras geométricas. Nenhuma figura antropomorfa (humana) foi localizada até o momento. Curioso notar que a descoberta foi realizada graças ao uso de satélites. Segundo Felipe Torrealba (Centro de Investigaciones Antropológicas y Paleontológicas de Unefm) o achado ocorreu quando buscavam o local de impacto de um meteorito no povoado de Pedregal.

Este novo agrupamento de geoglifos está situado em um platô a 700 metros de altura e ocupando uma superfície de 18 hectares. Um dos exemplares mais intrigantes é uma formação geométrica que atinge 350 metros de comprimento por 170 de largura. Toda a região entre Coro e Pedregal é formada hoje por um semideserto litorâneo, que pode ter sido no passado, ainda mais seco. Se isso de fato ocorreu, é provável que suas condições climáticas fossem muito propícias para a manifestação dos geoglifos.

Torrealba explica a semelhança com os demais desenhos conhecidos no Peru pelo procedimento em sua execução. Da mesma maneira que no Peru, na Venezuela também os nativos aplicavam basicamente duas técnicas: usavam a oxidação do solo a seu favor, retirando as pedras escuras da superfície e deixando o solo claro em evidência; ou amontoavam essas mesmas pedras escuras formando linhas que determinavam a obra.

Ainda é cedo para apontar os motivos que levaram os antigos habitantes daquela região a executarem tamanha obra. Não sabemos quais foram suas reais intenções. No momento, Torrealba juntamente com a Drª Angela Martino e o Drº Alexis Arends (zoólogos da Unefm) planejam uma expedição para coletar dados e tentar lançar alguma luz sobre essa incrível descoberta.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “América Misteriosa – Crônicas de um continente mágico”. Visite o Blog “Arqueologia Americana” 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 08/09/2020 às 09h47 | daltonmaziero@uol.com.br



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Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.