Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

TÊXTEIS PRÉ-COLOMBIANOS

NECRÓPOLE [PARACAS NECROPOLIS], 200 A.C. [BC] - 200 D.C [AD]

A recente inauguração de uma mostra de tecidos pré-colombianos no MASP – Comodato MASP Landmann – Têxteis pré-colombianos – chega em momento oportuno para resgatar a importância dessa arte um pouco esquecida na antiga América: a arte da tecelagem. Mais do que isso, revelam uma arte de gênero, com sofisticadas concepções sobre a vida, a morte, o tempo e o cosmos.

No mundo andino, os têxteis não serviam apenas para decoração de casas e palácios. Da mesma forma que a cerâmica e metalurgia, a tecelagem gerava produtos com alto valor enquanto mercadoria. Foram símbolos de prosperidade para quem os possuía, oferendas religiosas de valor e presentes diplomáticos de grande estima. Apesar da qualidade de suas fibras, muito de sua riqueza estava impressa nos adornos e na diversidade de seus símbolos e cores.

Nos Andes, foram encontradas provas que a tecelagem exerceu forte influência sobre a criação da cerâmica e da metalurgia. Alguns exemplares datam do século VII aC, adquirindo importância simbólica e sagrada. Sabemos inclusive, que existiam cerimônias onde tecidos eram queimados como oferendas às divindades. Também eram usados como mantos fúnebres, envolvendo os restos mortais de nobres, em mantos ricamente adornados. Infelizmente, devido a perenidade deste material, poucos exemplares chegaram até nós.

Talvez a única exceção sejam os mantos Paracas, senhorio que habitou um dos desertos mais secos do mundo, no litoral sul do Peru. A Península de Paracas, hoje uma Reserva Natural, apresenta uma beleza selvagem singular. No passado, foi território sagrado, onde o povo de mesmo nome criava enormes necrópoles para seus mortos. Graças ao clima extremamente seco, muitos exemplares têxteis sobreviveram e hoje constituem um dos grandes tesouros do patrimônio pré-colombiano peruano.

O povo Paracas alcançou seu auge aproximadamente entre 400 aC e 200 dC. Foi descoberta pelo arqueólogo Julio C. Tello, que em 1925 desenterrou mais de 400 fardos funerários da necrópole de Wari Kayan. Boa parte do conhecimento que temos hoje sobre têxteis pré-colombianos, provém desta descoberta. Da necrópole mencionada, não foram desenterrados apenas fardos funerários envoltos em enormes mantos, mas também peças de vestimenta como saias, turbantes, gorros e camisas.

A riqueza e complexibilidade na confecção dos tecidos revelam não apenas uma avançada técnica, mas também uma sociedade estratificada, com funções bem definidas, que seguramente possuía grande número de tecelãs. A iconografia criada por essas profissionais - com personagens antropomorfos - conectam a natureza ao mundo sagrado, à mitologia, crenças de vida e cosmovisão.


Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)
 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 14/06/2019 às 10h10 | daltonmaziero@uol.com.br

OS ALUCINÓGENOS NO MUNDO PRÉ-COLOMBIANO

No início dos anos 1990, fiz uma incursão em território boliviano que jamais esquecerei. Por duas horas, caminhei em um labirinto de túneis montanha adentro, no que hoje é conhecido como Cerro Potosí. Foi uma visita tensas e estranhas. Passagens estreitas e escuras, um ar sufocante, assim como o cheiro de terra misturada ao metal queimado. O calor era insuportável. Levamos oferendas aos homens que trabalhavam naquelas minas de prata, a bem dizer folhas de coca e refrigerante gelado. As folhas de coca, além de aliviar o sofrimento dos mineradores, também serviam de oferenda ao “Tio” (Supaya), entidade que zelava pela vida no Inframundo.

Recentemente, na província de Sur Lípez (Bolívia) – não muito longe das minas de Potosí – foi realizada uma descoberta arqueológica que confirma e aprofunda a continuidade do uso de psicotrópicos. Em um abrigo conhecido como “Caverna do Chileno” – 4 mil metros de altitude – arqueólogos localizaram uma pequena bolsa de couro em uma sepultura de 4 mil anos. Nela, encontraram tabuletas para suporte de pó alucinógeno, um tubo para aspiração e vestígios de plantas e ervas secas. A análise química desse material revelou indícios de harmina (Banesteriopsis caapi) e da erva Psychotria viridis, dois dos mais importantes ingredientes da bebida Ayahuasca, usada comumente na região Amazônica. Além destes, indícios também de folhas de coca e sementes usadas para produção de outro alucinógeno conhecido como Bufotenina.

O que separa essa descoberta arqueológica do caso relatado em Cerro Potosí - nos anos 1990 - é somente o tempo. O uso de psicotrópicos e compostos alucinógenos parece ter sido uma constante no passado da América do Sul. O pesquisador Santiago López-Pavillard, acredita que esse conhecimento das plantas e de sua manipulação foi resultado de milhares de anos de observações e experimentações. Foram erros e acertos, até a produção de alucinógenos distintos e precisos.

Essa produção só foi possível graças a uma incrível rede de comércio conhecida como “caravana de lhamas”, que transportava produtos das florestas tropicais, via altiplano, até o litoral do Chile e Peru. Mais do que um interesse comercial, essas caravanas faziam parte de um deslocar sagrado, que investiam seus participantes de status social pelo uso e fornecimento dos produtos e substâncias alucinógenas.

José Capriles, pesquisador da Universidade da Pensilvânia (EUA), acredita, contudo, que o uso de psicotrópicos iria além de necessidades ritualísticas. Para ele, seu uso pode ter sido realizado como atividades de interação social, e não apenas de uso animista.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 31/05/2019 às 12h23 | daltonmaziero@uol.com.br

PUCARÁ DE TILCARA

Para quem conhece a região do deserto do Atacama, sabe que ela se caracteriza por uma beleza natural bastante selvagem. O solo árido de altitude, o ar rarefeito, o horizonte infinito; a água perene, límpida e gelada, proveniente do degelo das montanhas. A luminosidade de uma coloração e nitidez que não consigo explicar em palavras. E no meio de tudo isso, a Cordilheira dos Andes!

Essa paisagem bela e austera não encontra limites nas fronteiras humanas. Ela expande além do Chile, em direção à Bolívia e Argentina. E é justamente nesse último país que encontramos o original sítio arqueológico de Pucará de Tilcara.

No mundo pré-colombiano, todo assentamento humano era realizado tendo em vista sua defesa, possibilidade de plantio e coleta d’água. O termo “Tilcara” designa um grupo específico, que fez parte de um grupo maior de características semelhantes, conhecido como Omaguacas (também chamados Humahuacas). Já “Pucará” - à grosso modo - significa “fortaleza”, um lugar onde a defesa é vantajosa.

Pucará de Tilcara está a 2.450 metros de altitude, avançando sobre um morro, distribuindo suas construções em leves plataformas. Está em um ponto geográfico próximo aos rios Grande e Huasamayo. Arqueólogos identificaram ali mais de 3 mil objetos que datam de aproximadamente 1160 dC, além de vários bairros demarcados, currais, um cemitério e um espaço cerimonial.

As principais escavações ocorreram entre 1908 e 1911. O etnógrafo Juan Bautista Ambrosetti (Diretor do Museu Etnográfico da Universidade de Buenos Aires) e seu discípulo Salvador Debenedetti, conseguiram reconstruir boa parte da vida rotineira daquele povo, antes da chegada dos espanhóis. Em 1929, Debenedetti ampliou as escavações juntamente com o arqueólogo Eduardo Casanova. Contudo, a reconstrução como a vemos hoje, é fruto de projeto de Casanova, que em 1948, criou também um museu arqueológico de sítio.

O povo Tilcara, ao que parece, vivia uma rotina pautada pelo plantio (batata, milho, quinoa) sem arado e com ferramentas simples; caça (vizcacha, vicuña, guanaco) e criação de animais como a lhama, de onde obtinham lã e carne. Mas também desenvolveram belos exemplares de cerâmica. Os Tilcaras sofreram a invasão Inca, mas mantiveram seus costumes. Somente com a chegada efetiva dos espanhóis em 1594 à região, é que foram submetidos, após uma longa resistência. Com a aplicação do Regime de Encomienda, foram separados e enviados a trabalhar em outras regiões, caindo o povoado em abandono.

Tilcará é considerada uma das povoações autônomas mais antigas da Argentina! Hoje é reconhecida não como uma cidade, mas como Monumento Histórico Nacional.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 20/05/2019 às 11h09 | daltonmaziero@uol.com.br

O MITO DA PEDRA DA GÁVEA

Existiu uma época no Brasil, em que teorias de colonização apontavam a presença de povos como os fenícios e vikings. Se hoje tais teorias são motivo de descrença – e até risos -, no século XIX e meados do XX eram levadas muito a sério, contribuindo para nosso imaginário popular. Os principais defensores de tais ideias foram Bernardo de Azevedo da Silva Ramos, Ludwig Schwennhagen e Paul Herrmann que escreveram nossa história, associando vestígios arqueológicos e línguas nativas às antigas civilizações indo-europeias.

A tentativa de negar a presença ameríndia - e tudo o que realizaram em nosso continente -, faz parte da teoria Difusionista, amplamente utilizada pelos cientistas e viajantes europeus nos séculos XVIII e XIX. Nela, vestígios arqueológicos do Novo Mundo eram associados às antigas civilizações conhecidas (egípcia, fenícia, romana, grega, viking) ou, quando muito distintas, à civilizações imaginárias, como a Atlântida, Lemúria ou o Reino de Salomão.

Aqui no Brasil, tudo começou no século XIX, quando em 1839 o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil realizou oficialmente pesquisas relacionadas às supostas antigas inscrições encontradas em nosso território. Após um relatório positivista sobre as “inscrições” na Pedra da Gávea (Rio de Janeiro), o assunto foi retomado oficialmente apenas em 1931 e 1933, quando um grupo de alpinistas partiu com o objetivo de localizar o túmulo de um rei fenício coroado em 856 aC.

Dentro desse contexto, a Pedra da Gávea angariou por várias décadas, muitos adeptos defensores da presença fenícia no Brasil. Localizada na Cordilheira da Tijuca, ela possui cerca de 840 metros de altura, com formação geológica em granito e gnaisse. Toda a crença da presença de povos antigos no Brasil parte da mera observação de ranhuras na rocha, que muitos imaginaram ser escritas antigas, indicadoras de um túmulo real e/ou tesouro escondido no Rio de Janeiro. Colaborava para isso – no imaginário popular – um suposto “rosto” em uma das faces da montanha. Muitos queriam ver nesse rosto, a Esfinge de Gizé.

Diversas expedições foram realizadas no local em 1937, 1946 e 1972, sem nenhum resultado concreto. Na década de 1950, devido aos constantes comentários, o Ministério da Educação do Brasil alegou “que o exame feito por geólogos havia provado ser nada mais que o efeito da erosão o que parecia ser uma inscrição”. Contudo, o lançamento de filmes populares como “Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa” (1970) – no qual buscam um tesouro fenício no Rio de Janeiro, alimentaram o imaginário por mais algum tempo.

Fato é, contudo, que a Pedra da Gávea não oferece nenhum interesse arqueológico ou prova relacionada aos antigos povos europeus. Hoje, as supostas “escritas fenícias” são tratadas como simples erosão, e o “rosto” como paredolia, um fenômeno psicológico que nos faz ver figuras onde não existem.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 29/04/2019 às 10h29 | daltonmaziero@uol.com.br

A PIRÂMIDE REDONDA DE CUICUILCO

 

Existe na cidade do México e arredores, uma infinidade de atrações arqueológicas. Basta abrir um guia de viagem para ver ali relacionado o Templo Mayor Asteca (Mexica), os Atlantes de Tula, o Museu Nacional de Antropologia ou as ruínas da famosa cidade de Teotihuacán, com sua gigantesca Pirâmide do Sol. Contudo, poucos conhecem ou ouviram falar de Cuicuilco e sua pirâmide redonda, um dos únicos exemplares conhecidos neste estilo.

Cuicuilco é provavelmente a mais antiga zona arqueológica dentro do Vale do México. Mais antiga ainda que Teotihuacán! Sua construção data de 800 aC a 250 dC.; sendo, portanto, contemporânea do povo Olmeca, um dos mais antigos e influenciadores na Mesoamérica. Por este motivo, em Cuicuilco encontramos traços primevos de arquitetura, do entendimento cosmológico e das observações climáticas que dariam posteriormente os dados para a criação de um calendário solar. Também em Cuicuilco foram encontradas as referências mais antigas ao Deus do Fogo, relacionado a um vulcão que mais tarde os destruiria.

Ainda hoje podemos ver os vestígios de uma cidade que abrigou 40 mil pessoas, contendo ruas, templos, praças, terraços e dezenas de pirâmides, entre as quais a enorme pirâmide redonda, conhecida oficialmente como “El Gran Basamento”, cuja construção data de 600-400 aC. Ela é uma das primeiras grandes estruturas de pedra conhecida em toda Mesoamérica – com 110 metros de diâmetro – e o primeiro edifício criado para funcionar como um calendário. De seu topo, ainda hoje é possível observar o equinócio – quando o movimento solar torna iguais dias e noites – detrás do vulcão El Papayo. A pirâmide de forma elíptica tornou-se uma arquitetura precursora, usando de patamares e com utilização de altares em sua parte superior e antecâmara na parte inferior, ornada com pinturas.

A antiga Cuicuilco ocupava cerca de 400 hectares, de modo que podemos ver restos desta cidade espalhados em parques e ruas distantes cerca de 1,5 km de distância de sua maior pirâmide. Segundo a arqueóloga Zelia María Magdalena Nuttall (1857-1933), o termo “Cuicuilco” pode significar “lugar onde se dança e canta”, talvez uma menção ao seu caráter e uso sagrado. Seja como for, tudo leva a crer que sua sociedade foi bastante avançada – como revelam os sofisticados canais de água – e hierarquizada, contendo camponeses, artesãos, guerreiros, médicos, sacerdotes e governantes.

Contudo, boa parte das ruinas de Cuicuilco continuam debaixo de uma capa de lava seca que chega a atingir 10 metros de espessura. Tudo porque, em 250 dC, o Vulcão Xitlé explodiu, engolindo a cidade e dispersando sua população, que migrou para Toluca e para a nova grande cidade de Teotihuacán, que se tornaria em breve a maior metrópole mesoamericana.


Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 12/04/2019 às 21h37 | daltonmaziero@uol.com.br

HUACA PUCLLANA – OS ADORADORES DO MAR

A cidade de Lima está situada na costa desértica do Peru, banhada pelo Oceano Pacífico. O viajante que chega de avião costuma ficar impressionado com a monocromia da paisagem e a secura da terra. É difícil imaginar que ali, viveram grandes civilizações. Contudo, Lima guarda alguns dos maiores tesouros arqueológicos de nosso continente. Um deles – Huaca Pucllana – na forma de uma enorme pirâmide de adobe encravada hoje em meio à cidade moderna. Para os viajantes, é bastante estranho ver tamanha construção de tijolos de adobe em contraste aos edifícios modernos. O nome verdadeiro deste templo do antigo povo Lima, perdeu-se no tempo. O termo “pucllana” é de origem quéchua e foi criado no século XVI.

O povo Lima viveu na região litorânea do Peru entre 200 e 700 dC. Ocupou todos os vales próximos à atual capital, dedicando-se economicamente à pesca, coleta de produtos naturais, plantio de legumes e frutas, assim como artigos manufaturados, como cerâmica e tecidos. A cerâmica foi uma de suas atividades mais importantes, pois eram utilizadas tanto nos afazeres cotidianos como em suas cerimônias religiosas. É notável de observar seus desenhos estilizados, geralmente feitos em apenas três cores: branco, negro e vermelho. Uma de suas criações mais famosas é o de um tubarão com duas cabeças, que parece representar a força oriunda dos oceanos.

A Huaca Pucllana era parte fundamental na religião e administração do povo Lima. Possui mais de 25 metros de altura e ocupa cerca de 6 hectares. Ela ergueu-se sobre sete plataformas escalonadas, local onde foram enfileirados milhares de tijolos de barro feitos à mão. Ali criaram recintos administrativos, praças, depósitos, salas de reuniões e espaços para atividades sagradas, que incluía banquetes com carne de tubarão, rompimento de vasilhas de cerâmica sagrada (com imagens marinhas), oferendas de peixes e animais marinhos, e eventuais sacrifícios humanos com crianças e mulheres. Uma das principais funções de Huaca Pucllana era servir a uma casta de sacerdotes que buscavam controlar os recursos hídricos naturais, dos rios e oceano.

Assim como outras construções regionais, Pucllana foi abandonada por volta de 750 dC. Arqueólogos notaram um declínio nas oferendas e mesmo na arquitetura local. Recintos elaborados foram substituídos por pequenas edificações de material reciclado e tosco. Pouco depois, a presença do povo Wari submete o que restou dos Lima, transformando a antiga Pucllana em necrópole entre 800 e 1000 dC. Uma vez utilizada como cemitério, a enorme pirâmide passa a ser venerada, transformando-se em “Nawpallacta” (estrutura ou povoado antigo de caráter sagrado). E assim permaneceu ao longo do domínio Inca até a chegada dos espanhóis. Hoje, a pirâmide é uma das principais atrações arqueológicas da capital peruana.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 21/03/2019 às 13h41 | daltonmaziero@uol.com.br



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Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.


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TÊXTEIS PRÉ-COLOMBIANOS

NECRÓPOLE [PARACAS NECROPOLIS], 200 A.C. [BC] - 200 D.C [AD]

A recente inauguração de uma mostra de tecidos pré-colombianos no MASP – Comodato MASP Landmann – Têxteis pré-colombianos – chega em momento oportuno para resgatar a importância dessa arte um pouco esquecida na antiga América: a arte da tecelagem. Mais do que isso, revelam uma arte de gênero, com sofisticadas concepções sobre a vida, a morte, o tempo e o cosmos.

No mundo andino, os têxteis não serviam apenas para decoração de casas e palácios. Da mesma forma que a cerâmica e metalurgia, a tecelagem gerava produtos com alto valor enquanto mercadoria. Foram símbolos de prosperidade para quem os possuía, oferendas religiosas de valor e presentes diplomáticos de grande estima. Apesar da qualidade de suas fibras, muito de sua riqueza estava impressa nos adornos e na diversidade de seus símbolos e cores.

Nos Andes, foram encontradas provas que a tecelagem exerceu forte influência sobre a criação da cerâmica e da metalurgia. Alguns exemplares datam do século VII aC, adquirindo importância simbólica e sagrada. Sabemos inclusive, que existiam cerimônias onde tecidos eram queimados como oferendas às divindades. Também eram usados como mantos fúnebres, envolvendo os restos mortais de nobres, em mantos ricamente adornados. Infelizmente, devido a perenidade deste material, poucos exemplares chegaram até nós.

Talvez a única exceção sejam os mantos Paracas, senhorio que habitou um dos desertos mais secos do mundo, no litoral sul do Peru. A Península de Paracas, hoje uma Reserva Natural, apresenta uma beleza selvagem singular. No passado, foi território sagrado, onde o povo de mesmo nome criava enormes necrópoles para seus mortos. Graças ao clima extremamente seco, muitos exemplares têxteis sobreviveram e hoje constituem um dos grandes tesouros do patrimônio pré-colombiano peruano.

O povo Paracas alcançou seu auge aproximadamente entre 400 aC e 200 dC. Foi descoberta pelo arqueólogo Julio C. Tello, que em 1925 desenterrou mais de 400 fardos funerários da necrópole de Wari Kayan. Boa parte do conhecimento que temos hoje sobre têxteis pré-colombianos, provém desta descoberta. Da necrópole mencionada, não foram desenterrados apenas fardos funerários envoltos em enormes mantos, mas também peças de vestimenta como saias, turbantes, gorros e camisas.

A riqueza e complexibilidade na confecção dos tecidos revelam não apenas uma avançada técnica, mas também uma sociedade estratificada, com funções bem definidas, que seguramente possuía grande número de tecelãs. A iconografia criada por essas profissionais - com personagens antropomorfos - conectam a natureza ao mundo sagrado, à mitologia, crenças de vida e cosmovisão.


Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)
 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 14/06/2019 às 10h10 | daltonmaziero@uol.com.br

OS ALUCINÓGENOS NO MUNDO PRÉ-COLOMBIANO

No início dos anos 1990, fiz uma incursão em território boliviano que jamais esquecerei. Por duas horas, caminhei em um labirinto de túneis montanha adentro, no que hoje é conhecido como Cerro Potosí. Foi uma visita tensas e estranhas. Passagens estreitas e escuras, um ar sufocante, assim como o cheiro de terra misturada ao metal queimado. O calor era insuportável. Levamos oferendas aos homens que trabalhavam naquelas minas de prata, a bem dizer folhas de coca e refrigerante gelado. As folhas de coca, além de aliviar o sofrimento dos mineradores, também serviam de oferenda ao “Tio” (Supaya), entidade que zelava pela vida no Inframundo.

Recentemente, na província de Sur Lípez (Bolívia) – não muito longe das minas de Potosí – foi realizada uma descoberta arqueológica que confirma e aprofunda a continuidade do uso de psicotrópicos. Em um abrigo conhecido como “Caverna do Chileno” – 4 mil metros de altitude – arqueólogos localizaram uma pequena bolsa de couro em uma sepultura de 4 mil anos. Nela, encontraram tabuletas para suporte de pó alucinógeno, um tubo para aspiração e vestígios de plantas e ervas secas. A análise química desse material revelou indícios de harmina (Banesteriopsis caapi) e da erva Psychotria viridis, dois dos mais importantes ingredientes da bebida Ayahuasca, usada comumente na região Amazônica. Além destes, indícios também de folhas de coca e sementes usadas para produção de outro alucinógeno conhecido como Bufotenina.

O que separa essa descoberta arqueológica do caso relatado em Cerro Potosí - nos anos 1990 - é somente o tempo. O uso de psicotrópicos e compostos alucinógenos parece ter sido uma constante no passado da América do Sul. O pesquisador Santiago López-Pavillard, acredita que esse conhecimento das plantas e de sua manipulação foi resultado de milhares de anos de observações e experimentações. Foram erros e acertos, até a produção de alucinógenos distintos e precisos.

Essa produção só foi possível graças a uma incrível rede de comércio conhecida como “caravana de lhamas”, que transportava produtos das florestas tropicais, via altiplano, até o litoral do Chile e Peru. Mais do que um interesse comercial, essas caravanas faziam parte de um deslocar sagrado, que investiam seus participantes de status social pelo uso e fornecimento dos produtos e substâncias alucinógenas.

José Capriles, pesquisador da Universidade da Pensilvânia (EUA), acredita, contudo, que o uso de psicotrópicos iria além de necessidades ritualísticas. Para ele, seu uso pode ter sido realizado como atividades de interação social, e não apenas de uso animista.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 31/05/2019 às 12h23 | daltonmaziero@uol.com.br

PUCARÁ DE TILCARA

Para quem conhece a região do deserto do Atacama, sabe que ela se caracteriza por uma beleza natural bastante selvagem. O solo árido de altitude, o ar rarefeito, o horizonte infinito; a água perene, límpida e gelada, proveniente do degelo das montanhas. A luminosidade de uma coloração e nitidez que não consigo explicar em palavras. E no meio de tudo isso, a Cordilheira dos Andes!

Essa paisagem bela e austera não encontra limites nas fronteiras humanas. Ela expande além do Chile, em direção à Bolívia e Argentina. E é justamente nesse último país que encontramos o original sítio arqueológico de Pucará de Tilcara.

No mundo pré-colombiano, todo assentamento humano era realizado tendo em vista sua defesa, possibilidade de plantio e coleta d’água. O termo “Tilcara” designa um grupo específico, que fez parte de um grupo maior de características semelhantes, conhecido como Omaguacas (também chamados Humahuacas). Já “Pucará” - à grosso modo - significa “fortaleza”, um lugar onde a defesa é vantajosa.

Pucará de Tilcara está a 2.450 metros de altitude, avançando sobre um morro, distribuindo suas construções em leves plataformas. Está em um ponto geográfico próximo aos rios Grande e Huasamayo. Arqueólogos identificaram ali mais de 3 mil objetos que datam de aproximadamente 1160 dC, além de vários bairros demarcados, currais, um cemitério e um espaço cerimonial.

As principais escavações ocorreram entre 1908 e 1911. O etnógrafo Juan Bautista Ambrosetti (Diretor do Museu Etnográfico da Universidade de Buenos Aires) e seu discípulo Salvador Debenedetti, conseguiram reconstruir boa parte da vida rotineira daquele povo, antes da chegada dos espanhóis. Em 1929, Debenedetti ampliou as escavações juntamente com o arqueólogo Eduardo Casanova. Contudo, a reconstrução como a vemos hoje, é fruto de projeto de Casanova, que em 1948, criou também um museu arqueológico de sítio.

O povo Tilcara, ao que parece, vivia uma rotina pautada pelo plantio (batata, milho, quinoa) sem arado e com ferramentas simples; caça (vizcacha, vicuña, guanaco) e criação de animais como a lhama, de onde obtinham lã e carne. Mas também desenvolveram belos exemplares de cerâmica. Os Tilcaras sofreram a invasão Inca, mas mantiveram seus costumes. Somente com a chegada efetiva dos espanhóis em 1594 à região, é que foram submetidos, após uma longa resistência. Com a aplicação do Regime de Encomienda, foram separados e enviados a trabalhar em outras regiões, caindo o povoado em abandono.

Tilcará é considerada uma das povoações autônomas mais antigas da Argentina! Hoje é reconhecida não como uma cidade, mas como Monumento Histórico Nacional.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 20/05/2019 às 11h09 | daltonmaziero@uol.com.br

O MITO DA PEDRA DA GÁVEA

Existiu uma época no Brasil, em que teorias de colonização apontavam a presença de povos como os fenícios e vikings. Se hoje tais teorias são motivo de descrença – e até risos -, no século XIX e meados do XX eram levadas muito a sério, contribuindo para nosso imaginário popular. Os principais defensores de tais ideias foram Bernardo de Azevedo da Silva Ramos, Ludwig Schwennhagen e Paul Herrmann que escreveram nossa história, associando vestígios arqueológicos e línguas nativas às antigas civilizações indo-europeias.

A tentativa de negar a presença ameríndia - e tudo o que realizaram em nosso continente -, faz parte da teoria Difusionista, amplamente utilizada pelos cientistas e viajantes europeus nos séculos XVIII e XIX. Nela, vestígios arqueológicos do Novo Mundo eram associados às antigas civilizações conhecidas (egípcia, fenícia, romana, grega, viking) ou, quando muito distintas, à civilizações imaginárias, como a Atlântida, Lemúria ou o Reino de Salomão.

Aqui no Brasil, tudo começou no século XIX, quando em 1839 o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil realizou oficialmente pesquisas relacionadas às supostas antigas inscrições encontradas em nosso território. Após um relatório positivista sobre as “inscrições” na Pedra da Gávea (Rio de Janeiro), o assunto foi retomado oficialmente apenas em 1931 e 1933, quando um grupo de alpinistas partiu com o objetivo de localizar o túmulo de um rei fenício coroado em 856 aC.

Dentro desse contexto, a Pedra da Gávea angariou por várias décadas, muitos adeptos defensores da presença fenícia no Brasil. Localizada na Cordilheira da Tijuca, ela possui cerca de 840 metros de altura, com formação geológica em granito e gnaisse. Toda a crença da presença de povos antigos no Brasil parte da mera observação de ranhuras na rocha, que muitos imaginaram ser escritas antigas, indicadoras de um túmulo real e/ou tesouro escondido no Rio de Janeiro. Colaborava para isso – no imaginário popular – um suposto “rosto” em uma das faces da montanha. Muitos queriam ver nesse rosto, a Esfinge de Gizé.

Diversas expedições foram realizadas no local em 1937, 1946 e 1972, sem nenhum resultado concreto. Na década de 1950, devido aos constantes comentários, o Ministério da Educação do Brasil alegou “que o exame feito por geólogos havia provado ser nada mais que o efeito da erosão o que parecia ser uma inscrição”. Contudo, o lançamento de filmes populares como “Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa” (1970) – no qual buscam um tesouro fenício no Rio de Janeiro, alimentaram o imaginário por mais algum tempo.

Fato é, contudo, que a Pedra da Gávea não oferece nenhum interesse arqueológico ou prova relacionada aos antigos povos europeus. Hoje, as supostas “escritas fenícias” são tratadas como simples erosão, e o “rosto” como paredolia, um fenômeno psicológico que nos faz ver figuras onde não existem.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 29/04/2019 às 10h29 | daltonmaziero@uol.com.br

A PIRÂMIDE REDONDA DE CUICUILCO

 

Existe na cidade do México e arredores, uma infinidade de atrações arqueológicas. Basta abrir um guia de viagem para ver ali relacionado o Templo Mayor Asteca (Mexica), os Atlantes de Tula, o Museu Nacional de Antropologia ou as ruínas da famosa cidade de Teotihuacán, com sua gigantesca Pirâmide do Sol. Contudo, poucos conhecem ou ouviram falar de Cuicuilco e sua pirâmide redonda, um dos únicos exemplares conhecidos neste estilo.

Cuicuilco é provavelmente a mais antiga zona arqueológica dentro do Vale do México. Mais antiga ainda que Teotihuacán! Sua construção data de 800 aC a 250 dC.; sendo, portanto, contemporânea do povo Olmeca, um dos mais antigos e influenciadores na Mesoamérica. Por este motivo, em Cuicuilco encontramos traços primevos de arquitetura, do entendimento cosmológico e das observações climáticas que dariam posteriormente os dados para a criação de um calendário solar. Também em Cuicuilco foram encontradas as referências mais antigas ao Deus do Fogo, relacionado a um vulcão que mais tarde os destruiria.

Ainda hoje podemos ver os vestígios de uma cidade que abrigou 40 mil pessoas, contendo ruas, templos, praças, terraços e dezenas de pirâmides, entre as quais a enorme pirâmide redonda, conhecida oficialmente como “El Gran Basamento”, cuja construção data de 600-400 aC. Ela é uma das primeiras grandes estruturas de pedra conhecida em toda Mesoamérica – com 110 metros de diâmetro – e o primeiro edifício criado para funcionar como um calendário. De seu topo, ainda hoje é possível observar o equinócio – quando o movimento solar torna iguais dias e noites – detrás do vulcão El Papayo. A pirâmide de forma elíptica tornou-se uma arquitetura precursora, usando de patamares e com utilização de altares em sua parte superior e antecâmara na parte inferior, ornada com pinturas.

A antiga Cuicuilco ocupava cerca de 400 hectares, de modo que podemos ver restos desta cidade espalhados em parques e ruas distantes cerca de 1,5 km de distância de sua maior pirâmide. Segundo a arqueóloga Zelia María Magdalena Nuttall (1857-1933), o termo “Cuicuilco” pode significar “lugar onde se dança e canta”, talvez uma menção ao seu caráter e uso sagrado. Seja como for, tudo leva a crer que sua sociedade foi bastante avançada – como revelam os sofisticados canais de água – e hierarquizada, contendo camponeses, artesãos, guerreiros, médicos, sacerdotes e governantes.

Contudo, boa parte das ruinas de Cuicuilco continuam debaixo de uma capa de lava seca que chega a atingir 10 metros de espessura. Tudo porque, em 250 dC, o Vulcão Xitlé explodiu, engolindo a cidade e dispersando sua população, que migrou para Toluca e para a nova grande cidade de Teotihuacán, que se tornaria em breve a maior metrópole mesoamericana.


Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 12/04/2019 às 21h37 | daltonmaziero@uol.com.br

HUACA PUCLLANA – OS ADORADORES DO MAR

A cidade de Lima está situada na costa desértica do Peru, banhada pelo Oceano Pacífico. O viajante que chega de avião costuma ficar impressionado com a monocromia da paisagem e a secura da terra. É difícil imaginar que ali, viveram grandes civilizações. Contudo, Lima guarda alguns dos maiores tesouros arqueológicos de nosso continente. Um deles – Huaca Pucllana – na forma de uma enorme pirâmide de adobe encravada hoje em meio à cidade moderna. Para os viajantes, é bastante estranho ver tamanha construção de tijolos de adobe em contraste aos edifícios modernos. O nome verdadeiro deste templo do antigo povo Lima, perdeu-se no tempo. O termo “pucllana” é de origem quéchua e foi criado no século XVI.

O povo Lima viveu na região litorânea do Peru entre 200 e 700 dC. Ocupou todos os vales próximos à atual capital, dedicando-se economicamente à pesca, coleta de produtos naturais, plantio de legumes e frutas, assim como artigos manufaturados, como cerâmica e tecidos. A cerâmica foi uma de suas atividades mais importantes, pois eram utilizadas tanto nos afazeres cotidianos como em suas cerimônias religiosas. É notável de observar seus desenhos estilizados, geralmente feitos em apenas três cores: branco, negro e vermelho. Uma de suas criações mais famosas é o de um tubarão com duas cabeças, que parece representar a força oriunda dos oceanos.

A Huaca Pucllana era parte fundamental na religião e administração do povo Lima. Possui mais de 25 metros de altura e ocupa cerca de 6 hectares. Ela ergueu-se sobre sete plataformas escalonadas, local onde foram enfileirados milhares de tijolos de barro feitos à mão. Ali criaram recintos administrativos, praças, depósitos, salas de reuniões e espaços para atividades sagradas, que incluía banquetes com carne de tubarão, rompimento de vasilhas de cerâmica sagrada (com imagens marinhas), oferendas de peixes e animais marinhos, e eventuais sacrifícios humanos com crianças e mulheres. Uma das principais funções de Huaca Pucllana era servir a uma casta de sacerdotes que buscavam controlar os recursos hídricos naturais, dos rios e oceano.

Assim como outras construções regionais, Pucllana foi abandonada por volta de 750 dC. Arqueólogos notaram um declínio nas oferendas e mesmo na arquitetura local. Recintos elaborados foram substituídos por pequenas edificações de material reciclado e tosco. Pouco depois, a presença do povo Wari submete o que restou dos Lima, transformando a antiga Pucllana em necrópole entre 800 e 1000 dC. Uma vez utilizada como cemitério, a enorme pirâmide passa a ser venerada, transformando-se em “Nawpallacta” (estrutura ou povoado antigo de caráter sagrado). E assim permaneceu ao longo do domínio Inca até a chegada dos espanhóis. Hoje, a pirâmide é uma das principais atrações arqueológicas da capital peruana.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 21/03/2019 às 13h41 | daltonmaziero@uol.com.br



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Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.


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