Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

O MUNDO SUBAQUÁTICO MAIA: CAMINHO PARA O INFRAMUNDO

Foto Herbert Meyrl - Proyecto Gam

No mundo pré-colombiano, a água possuía um importante papel. Não apenas em seu estado líquido, como fonte de vida e plantio; mas também por seu simbolismo como espaço etéreo e sublime. Um espaço idolatrado pelos vivos, mas onde podiam as entidades e mortos, avançar do plano terrestre ao Inframundo, ou mundo dos mortos.

Nos últimos anos, inúmeras descobertas foram realizadas por arqueólogos em diversos países americanos. Sejam em lagos, rios ou cavernas inundadas, vários artefatos encontrados revelaram a ligação existente entre os homens e este espaço fluido e sagrado. No norte da Guatemala, no lago Peten Itza, mergulhadores localizaram 800 peças, entre cerâmicas, taças cerimoniais e lâminas de obsidiana. Junto a elas, pequenos pedaços de ossos de vários animais, supostamente sacrificados. O ato de jogar artefatos nas profundezas das águas – provavelmente um rito cerimonial – vem de longa data, pois muitas das peças datam de 150 aC a 1697 dC; ou seja, mais de 170 anos após a conquista do México pelos espanhóis.

Da mesma forma que ocorreu no lago Titicaca (Peru/Bolívia) e no Guatavita (Colômbia), na Mesoamérica essas porções de água eram acessadas por meio de um barco ou balsa, cuja função era transportar um grupo de sacerdotes ao ponto mais profundo, lugar onde suas oferendas eram lançadas. Os artefatos encontrados no fundo desses locais, revelam muito sobre a cultura material dos antigos povos, assim como a relação que tinham com os seres sobrenaturais.

Na Mesoamérica, um impressionante sistema de cavernas submersas foi localizado no Estado mexicano de Quintana Roo (Yucatã). Esse complexo de mais de 346 quilômetros de extensão forma a maior caverna submersa do mundo. Guillermo de Anda, diretor do Projeto Gran Acuífero Maya, afirma que a caverna é também o mais importante sítio arqueológico submerso do planeta.

O mergulhador alemão Robert Schmittner explica que há mais de 20 anos explora esse labirinto subaquático, e que existem trechos com até 20 quilômetros de profundidade. O mais impressionante é observar a existência de muros, escadarias e altares nas profundezas. Espaços modificados pelos homens que faziam parte de antigas civilizações, entre elas os Maias.

Não importa se a água ocupava uma laguna ou um complexo gigantesco de cavernas submersas. Ela sempre ocupou um importante papel nas crenças humanas sobre o Inframundo. No caso particular das cavernas submersas de Yucatã, mais do que uma oferenda, os homens adentravam fisicamente nesse mundo das profundezas, inserindo-se e aproximando-se do que acreditavam ser, o espaço das entidades que idolatravam e lá viviam.


Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 05/08/2019 às 12h16 | daltonmaziero@uol.com.br

O maior painel de gravura rupestre de São Paulo

Uma impressionante descoberta ocorreu no interior do estado de São Paulo, suscitando uma série de indagações sobre o passado do sudeste brasileiro. Em Ribeirão Bonito, um painel com mais de 50 metros de gravuras rupestres pode alterar muito do que conhecemos sobre a ocupação humana na região.

A notícia foi dada pelo pesquisador Astolfo Araujo - Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) USP - que também é coordenador das escavações. É o maior painel de gravuras rupestres localizado em território paulista. Além das gravuras, foram encontrados também carvão queimado, ossos de animais e pedras lascadas.

Apesar da surpreendente descoberta, Astolfo é cauteloso ao interpretar os dados iniciais como revolucionários para a história da região. Segundo o pesquisador: “Com certeza o abrigo de Ribeirão Bonito foi uma surpresa enorme e muito agradável, mostra que em São Paulo temos um potencial muito grande para esse tipo de estudo, e que há aqui coisas tão interessantes como a Pedra do Ingá. Por outro lado, como temos sítios menores, mas com grafismos semelhantes em outros lugares do Sudeste de Sul do Brasil, torna-se mais uma questão de construir o conhecimento de maneira constante do que de uma revolução em si”.

Assim como ocorre com a Pedra do Ingá (PE), os pesquisadores acreditam que dificilmente conseguiremos saber o significado exato de tais símbolos. Seu estudo ocorre pelo registro dos padrões, e pela comparação com outros achados, pautados nas similaridades e diferenças. Dessa forma, a descoberta de Ribeirão Bonito, neste momento, cria mais indagações do que respostas.

Outro problema a ser resolvido é sobre a datação do painel. Existem nas proximidades, sítios com mais de 12 mil anos. Segundo Astolfo, “O Sítio Bastos, em Dourado, que foi datado em 12.500 anos está bem próximo do abrigo com arte rupestre e é muito possível que a mesma população tenha circulado nos dois locais. O problema é que ainda não temos datações confiáveis e nem material escavado suficiente no abrigo para comparar os dois sítios. Vamos precisar pedir mais verba para pesquisa”.

Existe a possibilidade ainda, que o grafismo rupestre signifique uma demarcação territorial. Talvez não uma indicação de caminho a seguir, mas sim um recado do tipo “este local faz parte de nosso território”, uma vez que o alto índice de grafismos sugira uma população constante na região. Além de todas as indagações científicas, a descoberta abre também a possibilidade futura para um “tour arqueológico” nos arredores. Segundo Astolfo, “Seria ótimo para a região, com certeza. Por que não? Na região de Analândia isso funciona muito bem!”.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 12/07/2019 às 18h23 | daltonmaziero@uol.com.br

TÊXTEIS PRÉ-COLOMBIANOS

NECRÓPOLE [PARACAS NECROPOLIS], 200 A.C. [BC] - 200 D.C [AD]

A recente inauguração de uma mostra de tecidos pré-colombianos no MASP – Comodato MASP Landmann – Têxteis pré-colombianos – chega em momento oportuno para resgatar a importância dessa arte um pouco esquecida na antiga América: a arte da tecelagem. Mais do que isso, revelam uma arte de gênero, com sofisticadas concepções sobre a vida, a morte, o tempo e o cosmos.

No mundo andino, os têxteis não serviam apenas para decoração de casas e palácios. Da mesma forma que a cerâmica e metalurgia, a tecelagem gerava produtos com alto valor enquanto mercadoria. Foram símbolos de prosperidade para quem os possuía, oferendas religiosas de valor e presentes diplomáticos de grande estima. Apesar da qualidade de suas fibras, muito de sua riqueza estava impressa nos adornos e na diversidade de seus símbolos e cores.

Nos Andes, foram encontradas provas que a tecelagem exerceu forte influência sobre a criação da cerâmica e da metalurgia. Alguns exemplares datam do século VII aC, adquirindo importância simbólica e sagrada. Sabemos inclusive, que existiam cerimônias onde tecidos eram queimados como oferendas às divindades. Também eram usados como mantos fúnebres, envolvendo os restos mortais de nobres, em mantos ricamente adornados. Infelizmente, devido a perenidade deste material, poucos exemplares chegaram até nós.

Talvez a única exceção sejam os mantos Paracas, senhorio que habitou um dos desertos mais secos do mundo, no litoral sul do Peru. A Península de Paracas, hoje uma Reserva Natural, apresenta uma beleza selvagem singular. No passado, foi território sagrado, onde o povo de mesmo nome criava enormes necrópoles para seus mortos. Graças ao clima extremamente seco, muitos exemplares têxteis sobreviveram e hoje constituem um dos grandes tesouros do patrimônio pré-colombiano peruano.

O povo Paracas alcançou seu auge aproximadamente entre 400 aC e 200 dC. Foi descoberta pelo arqueólogo Julio C. Tello, que em 1925 desenterrou mais de 400 fardos funerários da necrópole de Wari Kayan. Boa parte do conhecimento que temos hoje sobre têxteis pré-colombianos, provém desta descoberta. Da necrópole mencionada, não foram desenterrados apenas fardos funerários envoltos em enormes mantos, mas também peças de vestimenta como saias, turbantes, gorros e camisas.

A riqueza e complexibilidade na confecção dos tecidos revelam não apenas uma avançada técnica, mas também uma sociedade estratificada, com funções bem definidas, que seguramente possuía grande número de tecelãs. A iconografia criada por essas profissionais - com personagens antropomorfos - conectam a natureza ao mundo sagrado, à mitologia, crenças de vida e cosmovisão.


Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)
 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 14/06/2019 às 10h10 | daltonmaziero@uol.com.br

OS ALUCINÓGENOS NO MUNDO PRÉ-COLOMBIANO

No início dos anos 1990, fiz uma incursão em território boliviano que jamais esquecerei. Por duas horas, caminhei em um labirinto de túneis montanha adentro, no que hoje é conhecido como Cerro Potosí. Foi uma visita tensas e estranhas. Passagens estreitas e escuras, um ar sufocante, assim como o cheiro de terra misturada ao metal queimado. O calor era insuportável. Levamos oferendas aos homens que trabalhavam naquelas minas de prata, a bem dizer folhas de coca e refrigerante gelado. As folhas de coca, além de aliviar o sofrimento dos mineradores, também serviam de oferenda ao “Tio” (Supaya), entidade que zelava pela vida no Inframundo.

Recentemente, na província de Sur Lípez (Bolívia) – não muito longe das minas de Potosí – foi realizada uma descoberta arqueológica que confirma e aprofunda a continuidade do uso de psicotrópicos. Em um abrigo conhecido como “Caverna do Chileno” – 4 mil metros de altitude – arqueólogos localizaram uma pequena bolsa de couro em uma sepultura de 4 mil anos. Nela, encontraram tabuletas para suporte de pó alucinógeno, um tubo para aspiração e vestígios de plantas e ervas secas. A análise química desse material revelou indícios de harmina (Banesteriopsis caapi) e da erva Psychotria viridis, dois dos mais importantes ingredientes da bebida Ayahuasca, usada comumente na região Amazônica. Além destes, indícios também de folhas de coca e sementes usadas para produção de outro alucinógeno conhecido como Bufotenina.

O que separa essa descoberta arqueológica do caso relatado em Cerro Potosí - nos anos 1990 - é somente o tempo. O uso de psicotrópicos e compostos alucinógenos parece ter sido uma constante no passado da América do Sul. O pesquisador Santiago López-Pavillard, acredita que esse conhecimento das plantas e de sua manipulação foi resultado de milhares de anos de observações e experimentações. Foram erros e acertos, até a produção de alucinógenos distintos e precisos.

Essa produção só foi possível graças a uma incrível rede de comércio conhecida como “caravana de lhamas”, que transportava produtos das florestas tropicais, via altiplano, até o litoral do Chile e Peru. Mais do que um interesse comercial, essas caravanas faziam parte de um deslocar sagrado, que investiam seus participantes de status social pelo uso e fornecimento dos produtos e substâncias alucinógenas.

José Capriles, pesquisador da Universidade da Pensilvânia (EUA), acredita, contudo, que o uso de psicotrópicos iria além de necessidades ritualísticas. Para ele, seu uso pode ter sido realizado como atividades de interação social, e não apenas de uso animista.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 31/05/2019 às 12h23 | daltonmaziero@uol.com.br

PUCARÁ DE TILCARA

Para quem conhece a região do deserto do Atacama, sabe que ela se caracteriza por uma beleza natural bastante selvagem. O solo árido de altitude, o ar rarefeito, o horizonte infinito; a água perene, límpida e gelada, proveniente do degelo das montanhas. A luminosidade de uma coloração e nitidez que não consigo explicar em palavras. E no meio de tudo isso, a Cordilheira dos Andes!

Essa paisagem bela e austera não encontra limites nas fronteiras humanas. Ela expande além do Chile, em direção à Bolívia e Argentina. E é justamente nesse último país que encontramos o original sítio arqueológico de Pucará de Tilcara.

No mundo pré-colombiano, todo assentamento humano era realizado tendo em vista sua defesa, possibilidade de plantio e coleta d’água. O termo “Tilcara” designa um grupo específico, que fez parte de um grupo maior de características semelhantes, conhecido como Omaguacas (também chamados Humahuacas). Já “Pucará” - à grosso modo - significa “fortaleza”, um lugar onde a defesa é vantajosa.

Pucará de Tilcara está a 2.450 metros de altitude, avançando sobre um morro, distribuindo suas construções em leves plataformas. Está em um ponto geográfico próximo aos rios Grande e Huasamayo. Arqueólogos identificaram ali mais de 3 mil objetos que datam de aproximadamente 1160 dC, além de vários bairros demarcados, currais, um cemitério e um espaço cerimonial.

As principais escavações ocorreram entre 1908 e 1911. O etnógrafo Juan Bautista Ambrosetti (Diretor do Museu Etnográfico da Universidade de Buenos Aires) e seu discípulo Salvador Debenedetti, conseguiram reconstruir boa parte da vida rotineira daquele povo, antes da chegada dos espanhóis. Em 1929, Debenedetti ampliou as escavações juntamente com o arqueólogo Eduardo Casanova. Contudo, a reconstrução como a vemos hoje, é fruto de projeto de Casanova, que em 1948, criou também um museu arqueológico de sítio.

O povo Tilcara, ao que parece, vivia uma rotina pautada pelo plantio (batata, milho, quinoa) sem arado e com ferramentas simples; caça (vizcacha, vicuña, guanaco) e criação de animais como a lhama, de onde obtinham lã e carne. Mas também desenvolveram belos exemplares de cerâmica. Os Tilcaras sofreram a invasão Inca, mas mantiveram seus costumes. Somente com a chegada efetiva dos espanhóis em 1594 à região, é que foram submetidos, após uma longa resistência. Com a aplicação do Regime de Encomienda, foram separados e enviados a trabalhar em outras regiões, caindo o povoado em abandono.

Tilcará é considerada uma das povoações autônomas mais antigas da Argentina! Hoje é reconhecida não como uma cidade, mas como Monumento Histórico Nacional.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 20/05/2019 às 11h09 | daltonmaziero@uol.com.br

O MITO DA PEDRA DA GÁVEA

Existiu uma época no Brasil, em que teorias de colonização apontavam a presença de povos como os fenícios e vikings. Se hoje tais teorias são motivo de descrença – e até risos -, no século XIX e meados do XX eram levadas muito a sério, contribuindo para nosso imaginário popular. Os principais defensores de tais ideias foram Bernardo de Azevedo da Silva Ramos, Ludwig Schwennhagen e Paul Herrmann que escreveram nossa história, associando vestígios arqueológicos e línguas nativas às antigas civilizações indo-europeias.

A tentativa de negar a presença ameríndia - e tudo o que realizaram em nosso continente -, faz parte da teoria Difusionista, amplamente utilizada pelos cientistas e viajantes europeus nos séculos XVIII e XIX. Nela, vestígios arqueológicos do Novo Mundo eram associados às antigas civilizações conhecidas (egípcia, fenícia, romana, grega, viking) ou, quando muito distintas, à civilizações imaginárias, como a Atlântida, Lemúria ou o Reino de Salomão.

Aqui no Brasil, tudo começou no século XIX, quando em 1839 o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil realizou oficialmente pesquisas relacionadas às supostas antigas inscrições encontradas em nosso território. Após um relatório positivista sobre as “inscrições” na Pedra da Gávea (Rio de Janeiro), o assunto foi retomado oficialmente apenas em 1931 e 1933, quando um grupo de alpinistas partiu com o objetivo de localizar o túmulo de um rei fenício coroado em 856 aC.

Dentro desse contexto, a Pedra da Gávea angariou por várias décadas, muitos adeptos defensores da presença fenícia no Brasil. Localizada na Cordilheira da Tijuca, ela possui cerca de 840 metros de altura, com formação geológica em granito e gnaisse. Toda a crença da presença de povos antigos no Brasil parte da mera observação de ranhuras na rocha, que muitos imaginaram ser escritas antigas, indicadoras de um túmulo real e/ou tesouro escondido no Rio de Janeiro. Colaborava para isso – no imaginário popular – um suposto “rosto” em uma das faces da montanha. Muitos queriam ver nesse rosto, a Esfinge de Gizé.

Diversas expedições foram realizadas no local em 1937, 1946 e 1972, sem nenhum resultado concreto. Na década de 1950, devido aos constantes comentários, o Ministério da Educação do Brasil alegou “que o exame feito por geólogos havia provado ser nada mais que o efeito da erosão o que parecia ser uma inscrição”. Contudo, o lançamento de filmes populares como “Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa” (1970) – no qual buscam um tesouro fenício no Rio de Janeiro, alimentaram o imaginário por mais algum tempo.

Fato é, contudo, que a Pedra da Gávea não oferece nenhum interesse arqueológico ou prova relacionada aos antigos povos europeus. Hoje, as supostas “escritas fenícias” são tratadas como simples erosão, e o “rosto” como paredolia, um fenômeno psicológico que nos faz ver figuras onde não existem.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 29/04/2019 às 10h29 | daltonmaziero@uol.com.br



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Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.


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América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

O MUNDO SUBAQUÁTICO MAIA: CAMINHO PARA O INFRAMUNDO

Foto Herbert Meyrl - Proyecto Gam

No mundo pré-colombiano, a água possuía um importante papel. Não apenas em seu estado líquido, como fonte de vida e plantio; mas também por seu simbolismo como espaço etéreo e sublime. Um espaço idolatrado pelos vivos, mas onde podiam as entidades e mortos, avançar do plano terrestre ao Inframundo, ou mundo dos mortos.

Nos últimos anos, inúmeras descobertas foram realizadas por arqueólogos em diversos países americanos. Sejam em lagos, rios ou cavernas inundadas, vários artefatos encontrados revelaram a ligação existente entre os homens e este espaço fluido e sagrado. No norte da Guatemala, no lago Peten Itza, mergulhadores localizaram 800 peças, entre cerâmicas, taças cerimoniais e lâminas de obsidiana. Junto a elas, pequenos pedaços de ossos de vários animais, supostamente sacrificados. O ato de jogar artefatos nas profundezas das águas – provavelmente um rito cerimonial – vem de longa data, pois muitas das peças datam de 150 aC a 1697 dC; ou seja, mais de 170 anos após a conquista do México pelos espanhóis.

Da mesma forma que ocorreu no lago Titicaca (Peru/Bolívia) e no Guatavita (Colômbia), na Mesoamérica essas porções de água eram acessadas por meio de um barco ou balsa, cuja função era transportar um grupo de sacerdotes ao ponto mais profundo, lugar onde suas oferendas eram lançadas. Os artefatos encontrados no fundo desses locais, revelam muito sobre a cultura material dos antigos povos, assim como a relação que tinham com os seres sobrenaturais.

Na Mesoamérica, um impressionante sistema de cavernas submersas foi localizado no Estado mexicano de Quintana Roo (Yucatã). Esse complexo de mais de 346 quilômetros de extensão forma a maior caverna submersa do mundo. Guillermo de Anda, diretor do Projeto Gran Acuífero Maya, afirma que a caverna é também o mais importante sítio arqueológico submerso do planeta.

O mergulhador alemão Robert Schmittner explica que há mais de 20 anos explora esse labirinto subaquático, e que existem trechos com até 20 quilômetros de profundidade. O mais impressionante é observar a existência de muros, escadarias e altares nas profundezas. Espaços modificados pelos homens que faziam parte de antigas civilizações, entre elas os Maias.

Não importa se a água ocupava uma laguna ou um complexo gigantesco de cavernas submersas. Ela sempre ocupou um importante papel nas crenças humanas sobre o Inframundo. No caso particular das cavernas submersas de Yucatã, mais do que uma oferenda, os homens adentravam fisicamente nesse mundo das profundezas, inserindo-se e aproximando-se do que acreditavam ser, o espaço das entidades que idolatravam e lá viviam.


Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 05/08/2019 às 12h16 | daltonmaziero@uol.com.br

O maior painel de gravura rupestre de São Paulo

Uma impressionante descoberta ocorreu no interior do estado de São Paulo, suscitando uma série de indagações sobre o passado do sudeste brasileiro. Em Ribeirão Bonito, um painel com mais de 50 metros de gravuras rupestres pode alterar muito do que conhecemos sobre a ocupação humana na região.

A notícia foi dada pelo pesquisador Astolfo Araujo - Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) USP - que também é coordenador das escavações. É o maior painel de gravuras rupestres localizado em território paulista. Além das gravuras, foram encontrados também carvão queimado, ossos de animais e pedras lascadas.

Apesar da surpreendente descoberta, Astolfo é cauteloso ao interpretar os dados iniciais como revolucionários para a história da região. Segundo o pesquisador: “Com certeza o abrigo de Ribeirão Bonito foi uma surpresa enorme e muito agradável, mostra que em São Paulo temos um potencial muito grande para esse tipo de estudo, e que há aqui coisas tão interessantes como a Pedra do Ingá. Por outro lado, como temos sítios menores, mas com grafismos semelhantes em outros lugares do Sudeste de Sul do Brasil, torna-se mais uma questão de construir o conhecimento de maneira constante do que de uma revolução em si”.

Assim como ocorre com a Pedra do Ingá (PE), os pesquisadores acreditam que dificilmente conseguiremos saber o significado exato de tais símbolos. Seu estudo ocorre pelo registro dos padrões, e pela comparação com outros achados, pautados nas similaridades e diferenças. Dessa forma, a descoberta de Ribeirão Bonito, neste momento, cria mais indagações do que respostas.

Outro problema a ser resolvido é sobre a datação do painel. Existem nas proximidades, sítios com mais de 12 mil anos. Segundo Astolfo, “O Sítio Bastos, em Dourado, que foi datado em 12.500 anos está bem próximo do abrigo com arte rupestre e é muito possível que a mesma população tenha circulado nos dois locais. O problema é que ainda não temos datações confiáveis e nem material escavado suficiente no abrigo para comparar os dois sítios. Vamos precisar pedir mais verba para pesquisa”.

Existe a possibilidade ainda, que o grafismo rupestre signifique uma demarcação territorial. Talvez não uma indicação de caminho a seguir, mas sim um recado do tipo “este local faz parte de nosso território”, uma vez que o alto índice de grafismos sugira uma população constante na região. Além de todas as indagações científicas, a descoberta abre também a possibilidade futura para um “tour arqueológico” nos arredores. Segundo Astolfo, “Seria ótimo para a região, com certeza. Por que não? Na região de Analândia isso funciona muito bem!”.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 12/07/2019 às 18h23 | daltonmaziero@uol.com.br

TÊXTEIS PRÉ-COLOMBIANOS

NECRÓPOLE [PARACAS NECROPOLIS], 200 A.C. [BC] - 200 D.C [AD]

A recente inauguração de uma mostra de tecidos pré-colombianos no MASP – Comodato MASP Landmann – Têxteis pré-colombianos – chega em momento oportuno para resgatar a importância dessa arte um pouco esquecida na antiga América: a arte da tecelagem. Mais do que isso, revelam uma arte de gênero, com sofisticadas concepções sobre a vida, a morte, o tempo e o cosmos.

No mundo andino, os têxteis não serviam apenas para decoração de casas e palácios. Da mesma forma que a cerâmica e metalurgia, a tecelagem gerava produtos com alto valor enquanto mercadoria. Foram símbolos de prosperidade para quem os possuía, oferendas religiosas de valor e presentes diplomáticos de grande estima. Apesar da qualidade de suas fibras, muito de sua riqueza estava impressa nos adornos e na diversidade de seus símbolos e cores.

Nos Andes, foram encontradas provas que a tecelagem exerceu forte influência sobre a criação da cerâmica e da metalurgia. Alguns exemplares datam do século VII aC, adquirindo importância simbólica e sagrada. Sabemos inclusive, que existiam cerimônias onde tecidos eram queimados como oferendas às divindades. Também eram usados como mantos fúnebres, envolvendo os restos mortais de nobres, em mantos ricamente adornados. Infelizmente, devido a perenidade deste material, poucos exemplares chegaram até nós.

Talvez a única exceção sejam os mantos Paracas, senhorio que habitou um dos desertos mais secos do mundo, no litoral sul do Peru. A Península de Paracas, hoje uma Reserva Natural, apresenta uma beleza selvagem singular. No passado, foi território sagrado, onde o povo de mesmo nome criava enormes necrópoles para seus mortos. Graças ao clima extremamente seco, muitos exemplares têxteis sobreviveram e hoje constituem um dos grandes tesouros do patrimônio pré-colombiano peruano.

O povo Paracas alcançou seu auge aproximadamente entre 400 aC e 200 dC. Foi descoberta pelo arqueólogo Julio C. Tello, que em 1925 desenterrou mais de 400 fardos funerários da necrópole de Wari Kayan. Boa parte do conhecimento que temos hoje sobre têxteis pré-colombianos, provém desta descoberta. Da necrópole mencionada, não foram desenterrados apenas fardos funerários envoltos em enormes mantos, mas também peças de vestimenta como saias, turbantes, gorros e camisas.

A riqueza e complexibilidade na confecção dos tecidos revelam não apenas uma avançada técnica, mas também uma sociedade estratificada, com funções bem definidas, que seguramente possuía grande número de tecelãs. A iconografia criada por essas profissionais - com personagens antropomorfos - conectam a natureza ao mundo sagrado, à mitologia, crenças de vida e cosmovisão.


Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)
 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 14/06/2019 às 10h10 | daltonmaziero@uol.com.br

OS ALUCINÓGENOS NO MUNDO PRÉ-COLOMBIANO

No início dos anos 1990, fiz uma incursão em território boliviano que jamais esquecerei. Por duas horas, caminhei em um labirinto de túneis montanha adentro, no que hoje é conhecido como Cerro Potosí. Foi uma visita tensas e estranhas. Passagens estreitas e escuras, um ar sufocante, assim como o cheiro de terra misturada ao metal queimado. O calor era insuportável. Levamos oferendas aos homens que trabalhavam naquelas minas de prata, a bem dizer folhas de coca e refrigerante gelado. As folhas de coca, além de aliviar o sofrimento dos mineradores, também serviam de oferenda ao “Tio” (Supaya), entidade que zelava pela vida no Inframundo.

Recentemente, na província de Sur Lípez (Bolívia) – não muito longe das minas de Potosí – foi realizada uma descoberta arqueológica que confirma e aprofunda a continuidade do uso de psicotrópicos. Em um abrigo conhecido como “Caverna do Chileno” – 4 mil metros de altitude – arqueólogos localizaram uma pequena bolsa de couro em uma sepultura de 4 mil anos. Nela, encontraram tabuletas para suporte de pó alucinógeno, um tubo para aspiração e vestígios de plantas e ervas secas. A análise química desse material revelou indícios de harmina (Banesteriopsis caapi) e da erva Psychotria viridis, dois dos mais importantes ingredientes da bebida Ayahuasca, usada comumente na região Amazônica. Além destes, indícios também de folhas de coca e sementes usadas para produção de outro alucinógeno conhecido como Bufotenina.

O que separa essa descoberta arqueológica do caso relatado em Cerro Potosí - nos anos 1990 - é somente o tempo. O uso de psicotrópicos e compostos alucinógenos parece ter sido uma constante no passado da América do Sul. O pesquisador Santiago López-Pavillard, acredita que esse conhecimento das plantas e de sua manipulação foi resultado de milhares de anos de observações e experimentações. Foram erros e acertos, até a produção de alucinógenos distintos e precisos.

Essa produção só foi possível graças a uma incrível rede de comércio conhecida como “caravana de lhamas”, que transportava produtos das florestas tropicais, via altiplano, até o litoral do Chile e Peru. Mais do que um interesse comercial, essas caravanas faziam parte de um deslocar sagrado, que investiam seus participantes de status social pelo uso e fornecimento dos produtos e substâncias alucinógenas.

José Capriles, pesquisador da Universidade da Pensilvânia (EUA), acredita, contudo, que o uso de psicotrópicos iria além de necessidades ritualísticas. Para ele, seu uso pode ter sido realizado como atividades de interação social, e não apenas de uso animista.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 31/05/2019 às 12h23 | daltonmaziero@uol.com.br

PUCARÁ DE TILCARA

Para quem conhece a região do deserto do Atacama, sabe que ela se caracteriza por uma beleza natural bastante selvagem. O solo árido de altitude, o ar rarefeito, o horizonte infinito; a água perene, límpida e gelada, proveniente do degelo das montanhas. A luminosidade de uma coloração e nitidez que não consigo explicar em palavras. E no meio de tudo isso, a Cordilheira dos Andes!

Essa paisagem bela e austera não encontra limites nas fronteiras humanas. Ela expande além do Chile, em direção à Bolívia e Argentina. E é justamente nesse último país que encontramos o original sítio arqueológico de Pucará de Tilcara.

No mundo pré-colombiano, todo assentamento humano era realizado tendo em vista sua defesa, possibilidade de plantio e coleta d’água. O termo “Tilcara” designa um grupo específico, que fez parte de um grupo maior de características semelhantes, conhecido como Omaguacas (também chamados Humahuacas). Já “Pucará” - à grosso modo - significa “fortaleza”, um lugar onde a defesa é vantajosa.

Pucará de Tilcara está a 2.450 metros de altitude, avançando sobre um morro, distribuindo suas construções em leves plataformas. Está em um ponto geográfico próximo aos rios Grande e Huasamayo. Arqueólogos identificaram ali mais de 3 mil objetos que datam de aproximadamente 1160 dC, além de vários bairros demarcados, currais, um cemitério e um espaço cerimonial.

As principais escavações ocorreram entre 1908 e 1911. O etnógrafo Juan Bautista Ambrosetti (Diretor do Museu Etnográfico da Universidade de Buenos Aires) e seu discípulo Salvador Debenedetti, conseguiram reconstruir boa parte da vida rotineira daquele povo, antes da chegada dos espanhóis. Em 1929, Debenedetti ampliou as escavações juntamente com o arqueólogo Eduardo Casanova. Contudo, a reconstrução como a vemos hoje, é fruto de projeto de Casanova, que em 1948, criou também um museu arqueológico de sítio.

O povo Tilcara, ao que parece, vivia uma rotina pautada pelo plantio (batata, milho, quinoa) sem arado e com ferramentas simples; caça (vizcacha, vicuña, guanaco) e criação de animais como a lhama, de onde obtinham lã e carne. Mas também desenvolveram belos exemplares de cerâmica. Os Tilcaras sofreram a invasão Inca, mas mantiveram seus costumes. Somente com a chegada efetiva dos espanhóis em 1594 à região, é que foram submetidos, após uma longa resistência. Com a aplicação do Regime de Encomienda, foram separados e enviados a trabalhar em outras regiões, caindo o povoado em abandono.

Tilcará é considerada uma das povoações autônomas mais antigas da Argentina! Hoje é reconhecida não como uma cidade, mas como Monumento Histórico Nacional.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 20/05/2019 às 11h09 | daltonmaziero@uol.com.br

O MITO DA PEDRA DA GÁVEA

Existiu uma época no Brasil, em que teorias de colonização apontavam a presença de povos como os fenícios e vikings. Se hoje tais teorias são motivo de descrença – e até risos -, no século XIX e meados do XX eram levadas muito a sério, contribuindo para nosso imaginário popular. Os principais defensores de tais ideias foram Bernardo de Azevedo da Silva Ramos, Ludwig Schwennhagen e Paul Herrmann que escreveram nossa história, associando vestígios arqueológicos e línguas nativas às antigas civilizações indo-europeias.

A tentativa de negar a presença ameríndia - e tudo o que realizaram em nosso continente -, faz parte da teoria Difusionista, amplamente utilizada pelos cientistas e viajantes europeus nos séculos XVIII e XIX. Nela, vestígios arqueológicos do Novo Mundo eram associados às antigas civilizações conhecidas (egípcia, fenícia, romana, grega, viking) ou, quando muito distintas, à civilizações imaginárias, como a Atlântida, Lemúria ou o Reino de Salomão.

Aqui no Brasil, tudo começou no século XIX, quando em 1839 o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil realizou oficialmente pesquisas relacionadas às supostas antigas inscrições encontradas em nosso território. Após um relatório positivista sobre as “inscrições” na Pedra da Gávea (Rio de Janeiro), o assunto foi retomado oficialmente apenas em 1931 e 1933, quando um grupo de alpinistas partiu com o objetivo de localizar o túmulo de um rei fenício coroado em 856 aC.

Dentro desse contexto, a Pedra da Gávea angariou por várias décadas, muitos adeptos defensores da presença fenícia no Brasil. Localizada na Cordilheira da Tijuca, ela possui cerca de 840 metros de altura, com formação geológica em granito e gnaisse. Toda a crença da presença de povos antigos no Brasil parte da mera observação de ranhuras na rocha, que muitos imaginaram ser escritas antigas, indicadoras de um túmulo real e/ou tesouro escondido no Rio de Janeiro. Colaborava para isso – no imaginário popular – um suposto “rosto” em uma das faces da montanha. Muitos queriam ver nesse rosto, a Esfinge de Gizé.

Diversas expedições foram realizadas no local em 1937, 1946 e 1972, sem nenhum resultado concreto. Na década de 1950, devido aos constantes comentários, o Ministério da Educação do Brasil alegou “que o exame feito por geólogos havia provado ser nada mais que o efeito da erosão o que parecia ser uma inscrição”. Contudo, o lançamento de filmes populares como “Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa” (1970) – no qual buscam um tesouro fenício no Rio de Janeiro, alimentaram o imaginário por mais algum tempo.

Fato é, contudo, que a Pedra da Gávea não oferece nenhum interesse arqueológico ou prova relacionada aos antigos povos europeus. Hoje, as supostas “escritas fenícias” são tratadas como simples erosão, e o “rosto” como paredolia, um fenômeno psicológico que nos faz ver figuras onde não existem.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 29/04/2019 às 10h29 | daltonmaziero@uol.com.br



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Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.


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