Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

CIEZA DE LEÓN – AS CRÔNICAS DO PERU

Crônica histórica é uma narrativa feita por pessoas que, no passado, vivenciaram determinado fato ou acontecimento. Embora esteja associada ao cotidiano das cidades, é também um relato particular, calcado na observação pessoal, de uma região, costumes e vida de culturas do passado. Existem algumas crônicas brilhantes da época da conquista da América, mas talvez nenhuma supere a Crônica del Peru (1553), escrita por um soldado espanhol de profunda sensibilidade e curiosidade. Através dela, podemos recuperar muito do universo incaico, de seus costumes, lendas e mistérios; assim como dos povos que recente estavam sob sua administração, como os collas, lupacas e pacajes.

Cieza de León descreveu todos os lugares por onde passou, mas de modo especial, nos trouxe informações preciosas sobre os antigos povos do Altiplano. Como muitos outros de sua época, o passado de Cieza perdeu-se em parte pela falta deregistros. Era um anônimo, como tantos outros. Sua história começa, para nós, em 1532, quando embarca ao Novo Mundo como ajudante de cavaleiro. Na época, era um adolescente subnutrido de apenas 14 anos de idade. Não se sabe exatamente os motivos que levaram o jovem Cieza a enfrentar a duríssima vida de soldado. Talvez a busca por riquezas ou, quem sabe, o ímpeto de ver, com seus próprios olhos, um Mundo Novo. O fato é que decidiu, em 1540, aos 22 anos, fazer um diário de tudo aquilo que tinha presenciando em terras peruanas. O livro que nos legou é surpreendente por dois motivos: por possuir um apurado senso crítico e por ser muito bem escrito. Isso já era por si, um fato raro na época em que vivia. Ele teve o privilégio de ver e participar dos primeiros anos de conquista da América, e nos legou informações preciosas sobre o passado dos povos pré-colombianos.

Cieza foi um curioso compulsivo, e um escritor irrefreável. Em uma famosa frase, deixa transparecer muito de sua personalidade:"A desoras, quando os outros soldados dormiam, eu cansava-me a mim mesmo, escrevendo. Nem a fadiga, nem a índole fragosa da paisagem, nem as montanhas, nem os rios, nem a fome torturante, nem os sofrimentos, foram suficientes, jamais, para obstruir a execução dos meus dois deveres: ode escrever a minha crônica, e o de seguir, sem resistência, a minha bandeira e o meu capitão".

Após 18 anos na América, o soldado volta à Espanha. Corria então o ano de 1550. Aos 32 anos, vivia miseravelmente nos porões da cidade de Sevilha, pobre e enfermo. Mesmo em condições tão adversas, compôs solitariamentesua crônica. Em determinado momento, escreve como se estivesse fazendo um desabafo pessoal: "As durezas que tiveram de ser suportadas, naqueles países, foram tão terríveis...Oh! Ter ido para lá, haver prejudicado a minha consciência, desperdiçado o meu tempo e perdido os meus dentes!"Morreu pouco tempo depois, abandonado, angustiado e doente, sem ter visto sua crônica impressa.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana.

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 24/03/2020 às 16h09 | daltonmaziero@uol.com.br

PARACAS – A TATUAGEM COMO STATUS SOCIAL

A Península de Paracas – litoral sul do Peru – é um local que ainda guarda aspectos geográficos que nos remetem a um período de ancestralidade. Essa paisagem árida e selvagem nem sempre foi assim, mas nos últimos 10 mil anos, moldou os costumes e forma de viver de um dos povos mais fascinantes da América do Sul: os Paracas! Um de seus aspectos mais curiosos, diz respeito às tatuagens corporais. Em 1927, o arqueólogo Julio C. Tello escavou na região o que parecia ser um grande cemitério. O local foi chamado de Warikayan (500 aC-100 dC), e classificado por Tello pertencente ao período Paracas Necrópolis (500 aC-200dC). Existe ainda uma discussão nos meios acadêmicos se os vestígios encontrados em Warikayan pertencem mesmo aos Paracas, ou se fazem parte de outra tradição conhecida como Topara. Mas, fato é que ali foram descobertos 429 fardos funerários do período, em excelente estado de conservação.

Do total de fardos descobertos em Warikayan, 100 deles foram abertos para estudos. E deste, constatou-se que 43% das múmias apresentavam tatuagens. Um estudo paleopatológico da epiderme revelou que as mais tatuadas eram as mulheres (65%), e que a idade média girava entre 35 e 49 anos. As múmias apresentavam também diversos símbolos de mandatários, portando adornos pessoais em diadema, narigueiras, braceletes, orelheiras, colares de conchas marinhas, penachos, perucas, abanadores de penas e varas de madeira.

A maior parte das tatuagens (37%), concentra-se nas mãos: palma, dorso e dedos. Contudo, algumas múmias apresentavam desenhos que cobriam quase 50% do corpo! Pesquisadores acreditam que essa prática está associada ao status social do indivíduo, pois as tintas e desenhos utilizados são os mesmos de cerâmica cerimonial e dos famosos mantos (têxteis), usados apenas por uma casta mais importante.

Sobre as tintas – aplicadas com uso de agulhas de espinhos e ossos – a maior incidência ocorre nas cores negro e azul. O negro é oriundo de fuligem residual de pedras queimadas e do carvão. Já o azul é proveniente de uma alteração residual do negro na pele. Um efeito óptico que ocorre com a perda de luz na pigmentação, gerando tons azulados na pele. Além destes, utilizavam também tinta orgânica, oriundas de material vegetal queimado. Quanto aos desenhos, podemos dividi-los nas seguintes categorias: Zoomorfos (aves, felinos, peixes), Geométricos (pontos, linhas, círculos), Figuras míticas e sobrenaturais (ser “oculado” e orca assassina) e símbolos sociais (greca escalonada). A greca escalonada é um símbolo de poder social, usado praticamente em toda América. A sofisticação do processo de tatuagem nos antigos Paracas parece, portanto, oriunda de uma sociedade hierarquizada, onde o poder espiritual e a liderança política confirmavam-se através da ornamentação da pele.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite nossa página “Arqueologia Americana” no Facebook (clique aqui)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 02/03/2020 às 11h52 | daltonmaziero@uol.com.br

INCA UYO - O TEMPLO DA FERTILIDADE

Chucuito é um singular povoado colonial, que conseguiu manter suas características, apesar da antiguidade. Localizado no Peru, às margens do lago Titicaca, foi a antiga capital do povo Lupaca. Como todas as demais cidades da região, possui ruínas e objetos soterrados aos montes. Na periferia e na montanha Atojja, já foram encontrados restos materiais pré-cerâmicos datando de aproximadamente 10000 aC.!

Contudo, a fama de Chucuito não vem somente de seu aspecto colonial, de suas igrejas, ou de restos pré-cerâmicos. Muitos viajantes deslocam-se a ela para visitar uma única ruína, desenterrada em 1970 pelo arqueólogo Ruiz Estrada. O lugar, de tão incomum, não possui um nome definido. Chamam-no de “Templo Inca” ou “Templo da Sexualidade”. Todos em Chucuito o conhecem. Trata-se de um "cercado", com aproximadamente dois metros de altura, formado por pedras muito bem lavradas. Uma grande caixa retangular (200 m²), com uma única e pequena entrada. Provavelmente, deve ter existido um teto, feito de material perecível. Dentro, enfileirados, pequenos "falos" de pedra ocupam o recinto de ponta a ponta! Uma única, de tamanho grande, fica posicionada bem de frente à pessoa que entra. São 75 peças fálicas ao todo. Quando estive lá em 1997, um senhor bastante idoso o chamou de Inca Uyo, que significa o "Membro Viril do Inca"!

Escavações na década de 1940 trouxeram diversos materiais como cerâmica e fragmentos de ossos. Contudo, revelou também que o templo estava em construção quando os espanhóis chegaram. Outra revelação importante é que os falos em pedra foram descobertos espalhados pela região, e não dentro do templo. Posteriormente foram postos ali pelas autoridades locais de Chucuito.

Em 1993, o pesquisador Enrique Morro confirma o fato dos falos estarem espalhados à décadas: "Embora não se encontrassem neste lugar, as esculturas estavam em ruínas de casebres e em torno de pequenas construções, sendo confeccionada pelos Incas, estavam sendo utilizadas nos alambrados, em vergas de portas, nos pátios para amarrar animais, entre outras utilizações".

Seria realmente um recinto dedicado a fertilidade humana? Por que motivo uma obra dessas estaria representada somente em Chucuito, se o território Inca era tão vasto? A construção foi, sem sombra de dúvida, realizada pelos incas. Mas... e os falos de pedra? Não seriam Lupacas? Seriam originais deste templo? Alguns arqueólogos defendem que os incas apenas teriam removido tais esculturas de outro local para este templo construído por eles. Outras pedras esculpidas, de diferentes formas, foram encontradas e estão expostas ao ar livre, ao redor do templo. Com certeza, o subsolo daquele terreno deve ainda guardar mais surpresas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 04/02/2020 às 12h38 | daltonmaziero@uol.com.br

AS MÚMIAS DE QILAKITSOQ

A Groelândia é um território quase esquecido da América do norte. Pouco ou nada se fala sobre o que acontece por lá, muito menos sobre descobertas arqueológicas naquele território tão inóspito. Contudo, em 1972, uma dupla de caçadores (Hans e Jokum Gronvold) localizou duas sepulturas congeladas do povo Inuit, no assentamento de Qilakitsoq (Península de Nuussuaq), contendo oito múmias incrivelmente bem preservadas. São seis mulheres, uma criança de dois anos e um bebê de apenas seis meses de vida. Na época da descoberta, após comunicado à polícia local, acreditou-se tratar de um assassinato recente.

As múmias foram localizadas em uma reentrância de um rochedo, recobertas com pele de rena e de foca. Pelo fato de a encosta rochosa estar voltada ao norte, a tumba recebeu ar seco e baixíssimas temperaturas, ajudando na preservação das múmias. Os corpos foram encontrados empilhados uns sobre os outros, separadas por apenas 1 metro. Entre eles, havia diversas camadas de peles de animais. Contou-se 78 peças de roupas. Com os artefatos identificados na tumba, datou-se o conjunto em 1475 dC. Também se identificou cinco mulheres com tatuagem no rosto. A tatuagem era prática comum entre os povos das Américas e uma forma de identificar um grupo social.

Os corpos estavam preparados para a caça, com roupas quentes, sacolas, anzóis e arpões. Contudo, nesse caso específico, a jornada era pós-morte. Os Inuites acreditavam que os mortos deveriam se preparar para a sobrevivência no além. Ao contrário do que muitos possam pensar, os corpos não foram tratados como ocorre nas múmias chinchorro ou egípcias. Elas simplesmente foram preservadas com suas roupas, pelo frio da região. Pesquisadores acreditam que o bebê de seis meses (um menino) foi enterrado vivo junto à mãe. Devido à questão de sobrevivência, um bebê órfão significava dificuldade de sustento alheio. A solução – uma decisão difícil – era colocá-la junto à mãe, para que esta levasse seu filho no pós-morte. Sendo assim, naquela época não era uma ocorrência incomum levar uma criança à morte de forma lenta, pela fome. Algo semelhante ocorreu com a criança de dois anos. Existem indícios que ele sofria de Síndrome de Dawn.

Para as seis mulheres, investigações detectaram uma situação de saúde precária. Elas possuíam diversos tumores, prisão de ventre, surdes, cegueira e pedras nos rins. A análise do DNA, contudo, mostrou uma conexão familiar. São três irmãs com idade aproximada de 50 anos; e três filhas, entre 18 e 30 anos. As duas crianças eram as netas das irmãs. Apesar de tudo, os cientistas não conseguiram determinar se morreram todos ao mesmo tempo ou não. As múmias de Qilakitsoq lançaram uma nova luz de conhecimento sobre a sociedade e vida cotidiana dos inuit no século XV, de seu modo de sobrevivência e suas crenças na morte. Contudo, ainda existem mais perguntas do que respostas nessa fascinante descoberta.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite: Arqueologia Americana no Facebook 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 02/01/2020 às 17h15 | daltonmaziero@uol.com.br

A ELABORADA ARTE DO POVO HOPEWELL

Os povos pré-colombianos da América do Norte são pouco – ou nada – conhecidos de nós, brasileiros. Quando especulamos sobre a vida e obra de grupos como Anasazi, Pueblo, Adena ou Hopewell, quase nenhuma referência nos vem à mente. Contudo, esses povos da América do Norte produziram alguns dos melhores e mais refinados trabalhos artísticos de nosso continente.

Os Hopewell – que viveram ao sul de Ohio (EUA) entre 100 e 500 dC – produziram obras em grande variedade e com um refinamento nunca visto. Além da pedra e cerâmica, exploravam as possibilidades de materiais exóticos, como a mica, dentes de animais (tubarões, ursos), ossos (animais e humanos), conchas do mar e pérolas de água doce; além de alguns metais, como a prata e o cobre. Muito do que sabemos sobre o povo Hopewell é proveniente de seus montes mortuários (Mounds), onde depositavam grandes quantidades de artefatos. Sítios arqueológicos como o Mound of Pipes e Tremper Site, geraram respectivamente 200 e 130 cachimbos de pedra finamente esculpidos, com reproduções de pássaros, veados, ursos e outros animais. Também trabalhavam de forma excepcional, as abstrações. Um dos exemplos mais importantes nessa linha de representação é a Mica Hand, localizada em Ross County (Ohio), uma delicada não humana estilizada, cortada em um pedaço de mica com 11 x 6 cm. Não se sabe a real utilização desta peça, se para ornamento ou processo ritualístico.

Essa diversidade artística conquistada pelos Hopewells ocorreu graças a uma ampla rede comercial que atingia terras dos atuais Canadá e México. O cobre era proveniente da região dos Grandes Lagos, e com ele faziam ornamentos como pulseiras, colares, peitorais e outros para orelhas. As conchas provinham do Golfo do México, a mica do estado das Carolinas e a obsidiana das Montanhas Rochosas

Assim como os geoglifos da América do Sul, existiam os Mounds da América do Norte. Estes foram formações artificiais terrestres, executadas com a força humana de muita gente. Mas, ao contrário dos geoglifos, os mounds muitas vezes abrigavam sepultamentos. Essas terraplanagens geométricas apresentavam formas quadradas, octogonais e circulares. Algumas delas continham grandes quantidades de artefatos, sugerindo uma hierarquia social. Um dos maiores exemplos de sepultamentos encontram-se em Mound City (Chillicote), que está sendo cotado para transformar-se em Patrimônio Mundial.

Por volta de 400 dC, praticamente todas as construções atribuídas aos hopewells estavam terminadas. Iniciou-se um rápido período de mudanças. As grandes construções são abandonadas e a arte perde importância. As aldeias aumentam de população, surgindo valas e muros de proteção. Alguns arqueólogos acreditam que esse declínio cultural ocorreu pelo abandono de antigas tradições.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 06/12/2019 às 10h53 | daltonmaziero@uol.com.br

PACHATAKA – A “FORCA” DO INCA

Para quem chega à pequena cidade de Copacabana, às margens do lago Titicaca (lado boliviano), irá se deparar com um monumento arqueológico popularmente chamada de “Forca do Inca” (Horca del Inca). Ele fica a não mais que 600 metros do centro da cidade, no morro de Quesasani, e pode ser atingido facilmente a pé.

O infeliz termo – “Forca” – foi atribuído na época da conquista espanhola, por conquistadores que viram ali, em traves de pedra apoiadas em colunas, o suporte necessário para o enforcamento de delinquentes no passado incaico. Muitos viajantes, ao longo do período colonial, reforçaram essa ideia e contribuíram para o desvio da compreensão daquele monumento. Em 1880, o viajante Charles Wiener (1851-1913) – buscando uma semelhança com monumentos europeus – chama as colunas de "dólmens", fazendo uma clara referência a Stonehenge, na Inglaterra.

O mistério da "Forca do Inca" só foi devidamente esclarecido em 1983, quando
Juan de la Cruz Zapata, especialista em física cósmica da Universidad Mayor de San Andrés, desenvolveu estudos nos quais concluiu que as colunas foram usadas para prever as mudanças de estações e solstícios de verão e inverno. Também, usariam o local para prever os movimentos lunares e a chegada de eclipses. Hoje, podemos dizer, com toda a certeza, que o monumento representou, outrora, um observatório astronômico!

Em finais da década de 80, o arqueólogo Oswaldo Rivera Sundt confirmou esta
tese. Descobriu pedras que foram rebaixadas, propositalmente, para que os raios solares pudessem projetar-se nos travessões erguidos. Estas "deformações" rochosas serviriam para marcar datas fundamentais. Através delas, os antigos povos puderam organizar seu ano e suas plantações. Em escavações arqueológicas, foram encontradas peças de cerâmica que dataram de 1764 a.C., situando o monumento dentro do período de ocupação Chiripa. Com o passar do tempo, o termo errôneo foi mudando, para o que muitos chamam hoje de Pachataka, que em aymara quer dizer “lugar onde se mede o tempo”.

Do alto do Quesasani, não é difícil imaginar os profissionais que trabalhavam com o objetivo de decifrar os raios solares no passado. Acredita-se por exemplo, que uma dessas ações ocorria às 8:05 da manhã de 21 de junho (hemisfério sul do planeta), quando no local um raio de sol projetava-se por um orifício na rocha, projetando-se a mais de 21 metros em uma das colunas ali existente. Essa era a confirmação do Solstício de Inverno, quando o sol atinge a maior distância angular em relação à linha do Equador. Com base nesse conhecimento, planejavam seu plantio e alimentavam sua cosmologia.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br)
 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 18/11/2019 às 12h19 | daltonmaziero@uol.com.br



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Dalton Delfini Maziero

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Por Dalton Delfini Maziero

CIEZA DE LEÓN – AS CRÔNICAS DO PERU

Crônica histórica é uma narrativa feita por pessoas que, no passado, vivenciaram determinado fato ou acontecimento. Embora esteja associada ao cotidiano das cidades, é também um relato particular, calcado na observação pessoal, de uma região, costumes e vida de culturas do passado. Existem algumas crônicas brilhantes da época da conquista da América, mas talvez nenhuma supere a Crônica del Peru (1553), escrita por um soldado espanhol de profunda sensibilidade e curiosidade. Através dela, podemos recuperar muito do universo incaico, de seus costumes, lendas e mistérios; assim como dos povos que recente estavam sob sua administração, como os collas, lupacas e pacajes.

Cieza de León descreveu todos os lugares por onde passou, mas de modo especial, nos trouxe informações preciosas sobre os antigos povos do Altiplano. Como muitos outros de sua época, o passado de Cieza perdeu-se em parte pela falta deregistros. Era um anônimo, como tantos outros. Sua história começa, para nós, em 1532, quando embarca ao Novo Mundo como ajudante de cavaleiro. Na época, era um adolescente subnutrido de apenas 14 anos de idade. Não se sabe exatamente os motivos que levaram o jovem Cieza a enfrentar a duríssima vida de soldado. Talvez a busca por riquezas ou, quem sabe, o ímpeto de ver, com seus próprios olhos, um Mundo Novo. O fato é que decidiu, em 1540, aos 22 anos, fazer um diário de tudo aquilo que tinha presenciando em terras peruanas. O livro que nos legou é surpreendente por dois motivos: por possuir um apurado senso crítico e por ser muito bem escrito. Isso já era por si, um fato raro na época em que vivia. Ele teve o privilégio de ver e participar dos primeiros anos de conquista da América, e nos legou informações preciosas sobre o passado dos povos pré-colombianos.

Cieza foi um curioso compulsivo, e um escritor irrefreável. Em uma famosa frase, deixa transparecer muito de sua personalidade:"A desoras, quando os outros soldados dormiam, eu cansava-me a mim mesmo, escrevendo. Nem a fadiga, nem a índole fragosa da paisagem, nem as montanhas, nem os rios, nem a fome torturante, nem os sofrimentos, foram suficientes, jamais, para obstruir a execução dos meus dois deveres: ode escrever a minha crônica, e o de seguir, sem resistência, a minha bandeira e o meu capitão".

Após 18 anos na América, o soldado volta à Espanha. Corria então o ano de 1550. Aos 32 anos, vivia miseravelmente nos porões da cidade de Sevilha, pobre e enfermo. Mesmo em condições tão adversas, compôs solitariamentesua crônica. Em determinado momento, escreve como se estivesse fazendo um desabafo pessoal: "As durezas que tiveram de ser suportadas, naqueles países, foram tão terríveis...Oh! Ter ido para lá, haver prejudicado a minha consciência, desperdiçado o meu tempo e perdido os meus dentes!"Morreu pouco tempo depois, abandonado, angustiado e doente, sem ter visto sua crônica impressa.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana.

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 24/03/2020 às 16h09 | daltonmaziero@uol.com.br

PARACAS – A TATUAGEM COMO STATUS SOCIAL

A Península de Paracas – litoral sul do Peru – é um local que ainda guarda aspectos geográficos que nos remetem a um período de ancestralidade. Essa paisagem árida e selvagem nem sempre foi assim, mas nos últimos 10 mil anos, moldou os costumes e forma de viver de um dos povos mais fascinantes da América do Sul: os Paracas! Um de seus aspectos mais curiosos, diz respeito às tatuagens corporais. Em 1927, o arqueólogo Julio C. Tello escavou na região o que parecia ser um grande cemitério. O local foi chamado de Warikayan (500 aC-100 dC), e classificado por Tello pertencente ao período Paracas Necrópolis (500 aC-200dC). Existe ainda uma discussão nos meios acadêmicos se os vestígios encontrados em Warikayan pertencem mesmo aos Paracas, ou se fazem parte de outra tradição conhecida como Topara. Mas, fato é que ali foram descobertos 429 fardos funerários do período, em excelente estado de conservação.

Do total de fardos descobertos em Warikayan, 100 deles foram abertos para estudos. E deste, constatou-se que 43% das múmias apresentavam tatuagens. Um estudo paleopatológico da epiderme revelou que as mais tatuadas eram as mulheres (65%), e que a idade média girava entre 35 e 49 anos. As múmias apresentavam também diversos símbolos de mandatários, portando adornos pessoais em diadema, narigueiras, braceletes, orelheiras, colares de conchas marinhas, penachos, perucas, abanadores de penas e varas de madeira.

A maior parte das tatuagens (37%), concentra-se nas mãos: palma, dorso e dedos. Contudo, algumas múmias apresentavam desenhos que cobriam quase 50% do corpo! Pesquisadores acreditam que essa prática está associada ao status social do indivíduo, pois as tintas e desenhos utilizados são os mesmos de cerâmica cerimonial e dos famosos mantos (têxteis), usados apenas por uma casta mais importante.

Sobre as tintas – aplicadas com uso de agulhas de espinhos e ossos – a maior incidência ocorre nas cores negro e azul. O negro é oriundo de fuligem residual de pedras queimadas e do carvão. Já o azul é proveniente de uma alteração residual do negro na pele. Um efeito óptico que ocorre com a perda de luz na pigmentação, gerando tons azulados na pele. Além destes, utilizavam também tinta orgânica, oriundas de material vegetal queimado. Quanto aos desenhos, podemos dividi-los nas seguintes categorias: Zoomorfos (aves, felinos, peixes), Geométricos (pontos, linhas, círculos), Figuras míticas e sobrenaturais (ser “oculado” e orca assassina) e símbolos sociais (greca escalonada). A greca escalonada é um símbolo de poder social, usado praticamente em toda América. A sofisticação do processo de tatuagem nos antigos Paracas parece, portanto, oriunda de uma sociedade hierarquizada, onde o poder espiritual e a liderança política confirmavam-se através da ornamentação da pele.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite nossa página “Arqueologia Americana” no Facebook (clique aqui)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 02/03/2020 às 11h52 | daltonmaziero@uol.com.br

INCA UYO - O TEMPLO DA FERTILIDADE

Chucuito é um singular povoado colonial, que conseguiu manter suas características, apesar da antiguidade. Localizado no Peru, às margens do lago Titicaca, foi a antiga capital do povo Lupaca. Como todas as demais cidades da região, possui ruínas e objetos soterrados aos montes. Na periferia e na montanha Atojja, já foram encontrados restos materiais pré-cerâmicos datando de aproximadamente 10000 aC.!

Contudo, a fama de Chucuito não vem somente de seu aspecto colonial, de suas igrejas, ou de restos pré-cerâmicos. Muitos viajantes deslocam-se a ela para visitar uma única ruína, desenterrada em 1970 pelo arqueólogo Ruiz Estrada. O lugar, de tão incomum, não possui um nome definido. Chamam-no de “Templo Inca” ou “Templo da Sexualidade”. Todos em Chucuito o conhecem. Trata-se de um "cercado", com aproximadamente dois metros de altura, formado por pedras muito bem lavradas. Uma grande caixa retangular (200 m²), com uma única e pequena entrada. Provavelmente, deve ter existido um teto, feito de material perecível. Dentro, enfileirados, pequenos "falos" de pedra ocupam o recinto de ponta a ponta! Uma única, de tamanho grande, fica posicionada bem de frente à pessoa que entra. São 75 peças fálicas ao todo. Quando estive lá em 1997, um senhor bastante idoso o chamou de Inca Uyo, que significa o "Membro Viril do Inca"!

Escavações na década de 1940 trouxeram diversos materiais como cerâmica e fragmentos de ossos. Contudo, revelou também que o templo estava em construção quando os espanhóis chegaram. Outra revelação importante é que os falos em pedra foram descobertos espalhados pela região, e não dentro do templo. Posteriormente foram postos ali pelas autoridades locais de Chucuito.

Em 1993, o pesquisador Enrique Morro confirma o fato dos falos estarem espalhados à décadas: "Embora não se encontrassem neste lugar, as esculturas estavam em ruínas de casebres e em torno de pequenas construções, sendo confeccionada pelos Incas, estavam sendo utilizadas nos alambrados, em vergas de portas, nos pátios para amarrar animais, entre outras utilizações".

Seria realmente um recinto dedicado a fertilidade humana? Por que motivo uma obra dessas estaria representada somente em Chucuito, se o território Inca era tão vasto? A construção foi, sem sombra de dúvida, realizada pelos incas. Mas... e os falos de pedra? Não seriam Lupacas? Seriam originais deste templo? Alguns arqueólogos defendem que os incas apenas teriam removido tais esculturas de outro local para este templo construído por eles. Outras pedras esculpidas, de diferentes formas, foram encontradas e estão expostas ao ar livre, ao redor do templo. Com certeza, o subsolo daquele terreno deve ainda guardar mais surpresas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 04/02/2020 às 12h38 | daltonmaziero@uol.com.br

AS MÚMIAS DE QILAKITSOQ

A Groelândia é um território quase esquecido da América do norte. Pouco ou nada se fala sobre o que acontece por lá, muito menos sobre descobertas arqueológicas naquele território tão inóspito. Contudo, em 1972, uma dupla de caçadores (Hans e Jokum Gronvold) localizou duas sepulturas congeladas do povo Inuit, no assentamento de Qilakitsoq (Península de Nuussuaq), contendo oito múmias incrivelmente bem preservadas. São seis mulheres, uma criança de dois anos e um bebê de apenas seis meses de vida. Na época da descoberta, após comunicado à polícia local, acreditou-se tratar de um assassinato recente.

As múmias foram localizadas em uma reentrância de um rochedo, recobertas com pele de rena e de foca. Pelo fato de a encosta rochosa estar voltada ao norte, a tumba recebeu ar seco e baixíssimas temperaturas, ajudando na preservação das múmias. Os corpos foram encontrados empilhados uns sobre os outros, separadas por apenas 1 metro. Entre eles, havia diversas camadas de peles de animais. Contou-se 78 peças de roupas. Com os artefatos identificados na tumba, datou-se o conjunto em 1475 dC. Também se identificou cinco mulheres com tatuagem no rosto. A tatuagem era prática comum entre os povos das Américas e uma forma de identificar um grupo social.

Os corpos estavam preparados para a caça, com roupas quentes, sacolas, anzóis e arpões. Contudo, nesse caso específico, a jornada era pós-morte. Os Inuites acreditavam que os mortos deveriam se preparar para a sobrevivência no além. Ao contrário do que muitos possam pensar, os corpos não foram tratados como ocorre nas múmias chinchorro ou egípcias. Elas simplesmente foram preservadas com suas roupas, pelo frio da região. Pesquisadores acreditam que o bebê de seis meses (um menino) foi enterrado vivo junto à mãe. Devido à questão de sobrevivência, um bebê órfão significava dificuldade de sustento alheio. A solução – uma decisão difícil – era colocá-la junto à mãe, para que esta levasse seu filho no pós-morte. Sendo assim, naquela época não era uma ocorrência incomum levar uma criança à morte de forma lenta, pela fome. Algo semelhante ocorreu com a criança de dois anos. Existem indícios que ele sofria de Síndrome de Dawn.

Para as seis mulheres, investigações detectaram uma situação de saúde precária. Elas possuíam diversos tumores, prisão de ventre, surdes, cegueira e pedras nos rins. A análise do DNA, contudo, mostrou uma conexão familiar. São três irmãs com idade aproximada de 50 anos; e três filhas, entre 18 e 30 anos. As duas crianças eram as netas das irmãs. Apesar de tudo, os cientistas não conseguiram determinar se morreram todos ao mesmo tempo ou não. As múmias de Qilakitsoq lançaram uma nova luz de conhecimento sobre a sociedade e vida cotidiana dos inuit no século XV, de seu modo de sobrevivência e suas crenças na morte. Contudo, ainda existem mais perguntas do que respostas nessa fascinante descoberta.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite: Arqueologia Americana no Facebook 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 02/01/2020 às 17h15 | daltonmaziero@uol.com.br

A ELABORADA ARTE DO POVO HOPEWELL

Os povos pré-colombianos da América do Norte são pouco – ou nada – conhecidos de nós, brasileiros. Quando especulamos sobre a vida e obra de grupos como Anasazi, Pueblo, Adena ou Hopewell, quase nenhuma referência nos vem à mente. Contudo, esses povos da América do Norte produziram alguns dos melhores e mais refinados trabalhos artísticos de nosso continente.

Os Hopewell – que viveram ao sul de Ohio (EUA) entre 100 e 500 dC – produziram obras em grande variedade e com um refinamento nunca visto. Além da pedra e cerâmica, exploravam as possibilidades de materiais exóticos, como a mica, dentes de animais (tubarões, ursos), ossos (animais e humanos), conchas do mar e pérolas de água doce; além de alguns metais, como a prata e o cobre. Muito do que sabemos sobre o povo Hopewell é proveniente de seus montes mortuários (Mounds), onde depositavam grandes quantidades de artefatos. Sítios arqueológicos como o Mound of Pipes e Tremper Site, geraram respectivamente 200 e 130 cachimbos de pedra finamente esculpidos, com reproduções de pássaros, veados, ursos e outros animais. Também trabalhavam de forma excepcional, as abstrações. Um dos exemplos mais importantes nessa linha de representação é a Mica Hand, localizada em Ross County (Ohio), uma delicada não humana estilizada, cortada em um pedaço de mica com 11 x 6 cm. Não se sabe a real utilização desta peça, se para ornamento ou processo ritualístico.

Essa diversidade artística conquistada pelos Hopewells ocorreu graças a uma ampla rede comercial que atingia terras dos atuais Canadá e México. O cobre era proveniente da região dos Grandes Lagos, e com ele faziam ornamentos como pulseiras, colares, peitorais e outros para orelhas. As conchas provinham do Golfo do México, a mica do estado das Carolinas e a obsidiana das Montanhas Rochosas

Assim como os geoglifos da América do Sul, existiam os Mounds da América do Norte. Estes foram formações artificiais terrestres, executadas com a força humana de muita gente. Mas, ao contrário dos geoglifos, os mounds muitas vezes abrigavam sepultamentos. Essas terraplanagens geométricas apresentavam formas quadradas, octogonais e circulares. Algumas delas continham grandes quantidades de artefatos, sugerindo uma hierarquia social. Um dos maiores exemplos de sepultamentos encontram-se em Mound City (Chillicote), que está sendo cotado para transformar-se em Patrimônio Mundial.

Por volta de 400 dC, praticamente todas as construções atribuídas aos hopewells estavam terminadas. Iniciou-se um rápido período de mudanças. As grandes construções são abandonadas e a arte perde importância. As aldeias aumentam de população, surgindo valas e muros de proteção. Alguns arqueólogos acreditam que esse declínio cultural ocorreu pelo abandono de antigas tradições.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 06/12/2019 às 10h53 | daltonmaziero@uol.com.br

PACHATAKA – A “FORCA” DO INCA

Para quem chega à pequena cidade de Copacabana, às margens do lago Titicaca (lado boliviano), irá se deparar com um monumento arqueológico popularmente chamada de “Forca do Inca” (Horca del Inca). Ele fica a não mais que 600 metros do centro da cidade, no morro de Quesasani, e pode ser atingido facilmente a pé.

O infeliz termo – “Forca” – foi atribuído na época da conquista espanhola, por conquistadores que viram ali, em traves de pedra apoiadas em colunas, o suporte necessário para o enforcamento de delinquentes no passado incaico. Muitos viajantes, ao longo do período colonial, reforçaram essa ideia e contribuíram para o desvio da compreensão daquele monumento. Em 1880, o viajante Charles Wiener (1851-1913) – buscando uma semelhança com monumentos europeus – chama as colunas de "dólmens", fazendo uma clara referência a Stonehenge, na Inglaterra.

O mistério da "Forca do Inca" só foi devidamente esclarecido em 1983, quando
Juan de la Cruz Zapata, especialista em física cósmica da Universidad Mayor de San Andrés, desenvolveu estudos nos quais concluiu que as colunas foram usadas para prever as mudanças de estações e solstícios de verão e inverno. Também, usariam o local para prever os movimentos lunares e a chegada de eclipses. Hoje, podemos dizer, com toda a certeza, que o monumento representou, outrora, um observatório astronômico!

Em finais da década de 80, o arqueólogo Oswaldo Rivera Sundt confirmou esta
tese. Descobriu pedras que foram rebaixadas, propositalmente, para que os raios solares pudessem projetar-se nos travessões erguidos. Estas "deformações" rochosas serviriam para marcar datas fundamentais. Através delas, os antigos povos puderam organizar seu ano e suas plantações. Em escavações arqueológicas, foram encontradas peças de cerâmica que dataram de 1764 a.C., situando o monumento dentro do período de ocupação Chiripa. Com o passar do tempo, o termo errôneo foi mudando, para o que muitos chamam hoje de Pachataka, que em aymara quer dizer “lugar onde se mede o tempo”.

Do alto do Quesasani, não é difícil imaginar os profissionais que trabalhavam com o objetivo de decifrar os raios solares no passado. Acredita-se por exemplo, que uma dessas ações ocorria às 8:05 da manhã de 21 de junho (hemisfério sul do planeta), quando no local um raio de sol projetava-se por um orifício na rocha, projetando-se a mais de 21 metros em uma das colunas ali existente. Essa era a confirmação do Solstício de Inverno, quando o sol atinge a maior distância angular em relação à linha do Equador. Com base nesse conhecimento, planejavam seu plantio e alimentavam sua cosmologia.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br)
 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 18/11/2019 às 12h19 | daltonmaziero@uol.com.br



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Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.