Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

ILHAS ARTIFICIAIS NO AMAZONAS

Crédito: José Capriles, Penn State.

A região da floresta Amazônica, seja no Brasil ou Bolívia, não deixa de nos surpreender. Recentemente, um novo estudo realizado em parceria com universidades do Brasil, América Latina e Europa, detectaram milhares de ilhas artificiais usadas para o que é considerado agora, um dos berços mundiais da domesticação da agricultura e manuseio de plantas.

As plantações datam de 10 mil anos e mudaram definitivamente a geografia local, uma vez que foram identificadas até o momento, 4.700 ilhas artificiais. Segundo José Iriarte (University of Exeter, Reino Unido), esse aglomerado dedicado ao cultivo representa a 5ª região mundial onde ocorreram os primórdios da domesticação de plantas. Outras quatro regiões foram identificadas, sendo duas delas na Europa e duas na América.

As investigações concentraram-se em Llanos de Moxos, no norte da Bolívia. Essa região costuma inundar entre dezembro e março, permanecendo seca no restante do ano. O princípio e lógica do sistema segue aquele, posteriormente usado no mundo pré-colombiano – em especial no altiplano do lago Titicaca – conhecido como Waru-Warus ou Camellones, que multiplicavam a capacidade do solo na produção de alimento. Criando microclimas em terreno hostil, os antigos habitantes conseguiam domesticar e expandir a biodiversidade vegetal, além de controlar o manejo de plantas, cultivando o milho, a abóbora e a mandioca. Tudo isso elevando o terreno de plantio artificialmente, acima da linha d’água. Contudo, com as novas descobertas, é possível que os waru-warus tenham como modelos essas ilhas artificiais da floresta amazônica.

Estruturas semelhantes às encontradas em Llanos de Moxos foram identificadas por toda a floresta, como em Marajó, no Pará e no Alto Solimões. Nesta última região, as plataformas elevadas – de formato piramidal – tinham a mesma função, mas a identificação de material cerâmico corrugado dos séculos XV e XVI os aproxima dos grupos tupis. Em outras elevações, foram identificadas cerâmicas do estilo hachurado zonada, pertencentes a grupos que ali viveram por volta de 1000 aC.

O arqueólogo Márcio Amaral, do Instituto Mamirauá (Amazônas), comenta estar impressionado com o volume de terra movimentada para a construção dessas ilhas artificiais; o que sugere uma capacidade tecnológica e organização social acima do imaginado até o momento. Embora não exista nenhum estudo associativo, fico imaginando se as enormes valas cavadas dos geoglifos amazônicos, não estavam ligadas à criação dessas ilhas, ou seja, terra retirada dos geoglifos, para formação das ilhas. Pelo visto, teremos ainda muitas surpresas vindas da região da floresta.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog “Arqueologia Americana”

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 31/07/2020 às 14h13 | daltonmaziero@uol.com.br

PUEBLO BONITO - A ÁRVORE DA VIDA

Existem alguns símbolos universais que são atemporais. Eles aparecem, em versões muito semelhantes, em diversos grupos humanos, independente de sua origem ou época. Um deles é conhecido como a Árvore da Vida. Sua mais famosa versão nos remete aos textos bíblicos, em Gênesis e Apocalipse. Contudo, referências suas podem ser encontradas também entre os egípcios, gregos, mexicas, japoneses, persas, fenícios, chineses, indianos e outros.

Na Mesoamérica, alguns textos antigos (Códex) representativos em especial dos povos maia e mexica, apresentam o desenho de uma árvore sagrada – Árvore de Nossa Vida –, cujos galhos partem em duas vertentes, do alto do tronco. A descoberta dessa ilustração levou muitos jesuítas a refletirem se aquela não seria a representação da Cruz, devido a sua semelhança simbólica. Partindo dessa premissa, arqueólogos sugeriram uma possibilidade interpretativa da Arvore da Vida, durante escavações realizadas em Pueblo Bonito (EUA), durante o ano de 1924. Financiados pela National Geographic Society, puseram a descoberto um curioso tronco (Pinus Ponderosa), com mais de seis metros de comprimento, enterrado em um dos mais importantes pátios do povoado. Na época, sugeriram a possibilidade daquela árvore representar a Árvore da Vida ou o Centro do Mundo, entre os nativos que ali viveram. A sugestão foi aceita e replicada por quase 100 anos, em livros e artigos.

Pueblo Bonito é o maior agrupamento pré-colombiano do povo Pueblo (ou Chaco) em Chaco Canyon, Novo México (EUA), uma região extremamente árida e ausente de árvores. O povoado teve seu auge entre 800 e 1200 de nossa era, tornando-se um importante entreposto comercial de turquesas. A descoberta desta árvore em seu pátio central, criou todo tipo de especulação sobre a existência de um culto ou práticas sagradas realizadas ao seu redor.

Contudo, estudos recentes liderados por Christopher Guiterman (Universidade do Arizonas) com a técnica chamada dendoproveniência – estudo dos padrões de crescimento dos anéis das árvores – aponta para outras conclusões. A primeira mostra que ela nasceu nas montanhas em Chuska, a 80 quilômetros de distância, e não em Chaco Canyon. A prova está em padrões existentes nos anéis, resultantes de tormentas de verão, típicas da região de Chuska. A árvore viveu entre os anos de 732 e 981 dC., ou seja, é provável que já estivesse morta quando de seu transporte para Pueblo Bonito.

Embora a teoria de Árvore da Vida tenha perdido força, não sabemos ao certo como foi transportada de tão longe; se serviu para algum objetivo específico – relógio de sol, por exemplo –, ou simplesmente esteve ali como sobra dos 25 mil troncos usados para a construção de Pueblo Bonito.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog “Arqueologia Americana”

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 13/07/2020 às 18h50 | daltonmaziero@uol.com.br

MACHU PICCHU – O ENIGMA DA FALHA TECTÔNICA

Muito tem se falado na incrível capacidade do povo inca, em se construir cidades em locais inimagináveis, escarpas montanhosas e cumes aparentemente inacessíveis. O principal exemplo dessa capacidade é, sem dúvida, Machu Picchu. Contudo, novas investigações estão relacionando essa capacidade de construção a locais geológicos previamente escolhidos.

Segundo as investigações de Rualdo Menegat (Instituto de Geociências da UFRGS), a escolha do local de um novo assentamento urbano, está associada à capacidade deste tornar a futura cidade orgânica, em relação à paisagem que o circunda. Mas quais os elementos os incas encontraram que podem tornar isso possível? Podemos citar uma rede de falhas tectônicas, a forma das montanhas ao redor e as pedras provenientes dessa falha geológica.

A teoria investe no princípio do menor esforço civilizatório. Isso significa que os incas viram, no topo da montanha Huayna Picchu, condições favoráveis para a construção de um assentamento. E que condições seriam estas? Em primeiro lugar, povoamentos construídos sobre falhas e fraturas geológicas dispõem naturalmente de afloramentos rochosos fragmentados, ou seja, abundância de material rochoso para suas construções. Nota-se que Machu Picchu – ao contrário de outras construções ciclópicas – não apresenta grandes rochas moldadas. Sua maior parte é formada por pedras de tamanhos médio e pequeno. Utilizar a matéria prima local já é, por si, uma economia de energia humana.

Outra vantagem nesse processo seria a de criar possibilidade em “moldar” mais facilmente o solo topográfico de acordo com o plano da cidade e seus patamares de plantio. A retirada de rochas fragmentadas permite adaptar os setores urbanos às elevações do terreno. Esse design orgânico nas construções incaicas fazia parte, inclusive, da identidade que esse povo queria passar aos demais, como uma marca registrada de capacidade técnica e poder. Também podemos mencionar aqui, que a escolha do local estava associada à segurança que este criava em relação a deslizamentos de terra. A escolha de um local alto, com solo rochoso, impedia possíveis avalanches.

Contudo, talvez a principal vantagem ao se construir uma cidade sobre uma fratura geológica, seja mesmo a de proporcionar excelentes aquíferos! Por meio das fissuras rochosas, a água corria de forma abundante, precisando “apenas” ser canalizada da forma correta. Em se tratando de canalização da água, os povos pré-colombianos são mestres no assunto. Em Machu Picchu, podemos observar como a água que brota das fraturas rochosas é controlada por filetes esculpidos e canais artificiais que as direcionam aos patamares de plantio e residências desse mítico povoamento incaico.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite nossa página “Arqueologia Americana” no Facebook.

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 15/06/2020 às 09h50 | daltonmaziero@uol.com.br

O CALENDÁRIO ASTECA

México. Em 17 de dezembro de 1790, um grupo de operários realizava processos de nivelamento da Praça de Armas, no centro da cidade. Ainda não se sabia, mas ali, onde hoje fica a catedral, uma série de templos mexicas (antes chamados astecas) possuíam suas fundações, incluindo o hoje famoso Templo Mayor. O artefato que esses operários localizaram tinha 22 toneladas, 4 metros de diâmetro e quase 1 metro de espessura. Era verdadeiramente impressionante, coberto de hieróglifos enigmáticos.

O artefato ficou conhecido como “Pedra do Sol”, devido a imagem central do deus Tonatuih (Deus Sol). Após sua descoberta, a pedra ficou exposta na parede externa da Catedral (torre ocidental), até o ano de 1885, momento em que o general José de la Cruz Porfírio Diaz Mori (1830-1915) a mandou recolher para exposição e preservação, no Museu Nacional. Na ocasião, os países americanos recém-independentes, buscavam por símbolos de construção de sua própria identidade. E a descoberta desse artefato contribuiu em muito, com esse intuito. Alguns estudiosos acreditam que a pedra foi esculpida ao longo de 50 anos (século XV), e que sua elaboração exigiu um profundo conhecimento dos hieróglifos mexicas associados aos símbolos do tempo. É muito provável que a pedra, na prática, tenha funcionado como calendário de ciclos rituais e agrícolas; mas também como altar de sacrifícios em ocasiões especiais.

Os antigos mexicanos contavam seus anos através da combinação de 4 signos (Tlalpilli Tochtli, Acatl, Tecpatl e Calli) mais 13 signos variáveis que, juntos, formavam um período de 52 anos, chamado Xiuhnelpilli. Da mesma forma, as semanas e os anos recebiam símbolos próprios, muitas vezes associando animais (ou eventos climáticos) aos deuses: chuva = Tláloc; vento = Chantico; jaguar = Quetzalcoatl; macaco = Patecatl, e assim por diante. O ciclo ritual tinha 260 dias (260 Tónalpóhualli), divididos em 20 signos com 13 dias cada. Já o ciclo agrícola contava com 365 dias divididos em 18 meses de 20 dias cada. A estes se acrescentava um tempo extra de 5 dias.

Os dois ciclos (ritual e agrícola) caminhavam independentes, mas a cada 52 anos, eles coincidiam. Era então um momento muito especial na vida dos mexicas, quando ocorria grande número de sacrifícios solicitando à Tonatuih, que brilhasse por mais 52 anos, com seus raios solares. Esse ritual era chamado Fogo Novo, e tinha uma duração de aproximadamente 12 dias. Segundo informações do Museu Nacional de Antropologia do México – onde hoje está exposta – o artefato nunca foi finalizado devido a uma fratura na rocha. Segundo a mesma fonte, “se trata de um grande altar de sacrifícios gladiatórios, conhecido como temalacatl...foi utilizado com o propósito de sustentar a luta de guerreiros na cerimônia de tlacaxipehualiztli”

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite nossa página “Arqueologia Americana” no Facebook (clique aqui)
 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 27/05/2020 às 11h07 | daltonmaziero@uol.com.br

USME – UMA NECRÓPOLE PRÉ-COLOMBIANA

Em 2007, uma fantástica descoberta arqueológica ocorreu na fazenda El Carmen (Usme), Colômbia. Uma cápsula do tempo, uma necrópole, que se soube depois, abrigava mais de 3 mil corpos dos povosmuisca e herrera. Ao todo, o terreno ocupa uma área de 30 hectares, convertendo-se na primeira área de conservação arqueológica de Bogotá. A descoberta só foi possível graças à um projeto social da empresa Metrovivienda, que projetava ali, mais de 3.500 residências do que seria um novo bairro popular. Quando uma retroescavadeira arrancou da terra, uma dúzia de corpos, deu-se conta da descoberta.

Ernesto Montenegro (ICANH – Instituto Colombiano de Antropologia e História) acredita que a descoberta jogará luz sobre o cotidiano e o modo de vida dos herreras e muiscas entre 800 e 1600 dC. Em sua opinião, “o que impressiona é que durante tantos séculos, havia sido esse local o escolhido por diversas culturas para enterrar seus mortos”. Para Virgílio Becerra (Universidade de Sorbona), o caráter sagrado do lugar está intimamente relacionado à presença da água, que brota em abundânciados rios Funcha, Requilina e Água Dulce. Segundo a mitologia muisca, a água era como o leite, que brotava dos seios da deusa Bachué, para alimentar os povos da terra.

Um dado interessante revelado, foi o da relação entre os últimos muiscas e os primeiros colonos da região. Isso foi comprovado nas escavações, com a descoberta de colares com contas de vidro italiano e em ossadas que apresentavam ferimentos de armas de fogo. Além disso, foram desenterradas 35 vasilhas completas, 300 mil fragmentos de cerâmica, peças em cobre, sementes, colares e ossos de animais. A estimativa é que nem 1% do potencial do sítio foi explorado ainda.

Segundo o Drº Ernesto Montenegro (ICANH), “Outro aspecto muito importante é que, historicamente, se falava dos Herreras e dos Muiscas como períodos diferentes da história. Todavia, nesta necrópole encontramos restos de pessoas do período Herrera (600 a 1000 dC) e Muisca (1200 a 1600 dC) sem que houvesse cortes temporais. É a primeira vez que se realiza uma descoberta que testemunhe essa continuidade”. Outro dado interessante foi a descoberta de fauna amazônica nos enterramentos. Isso prova que existia uma relação muito viva entre as duas regiões.

Embora a Necrópole de Usme não se enquadre na categoria de sítio monumental, como San Agustín ou Ciudad Perdida, é sem dúvida de vital importância para a reconstrução da história dos povos pré-colombianos. Segundo Clarisa Ruiz – Secretaria de Cultura de Bogotá – o objetivo é criar um projeto de um Parque Arqueológico, de interesse cultural, com museu e trilhas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite nossa página “Arqueologia Americana” no Facebook.

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 04/05/2020 às 16h14 | daltonmaziero@uol.com.br

WARU WARUS - ALIMENTO NO MUNDO PRÉ-COLOMBIANO

 

Em 1997, quando contornei a pé o Lago Titicaca (Peru/Bolívia), tive a oportunidade de conhecer uma das maiores criações do mundo pré-colombiano: os WaruWarus ou Camellones, como também são conhecidos. Trata-se de um sistema de plantio quenão foi superado por nenhum outro povo do passado. Eu os vi em pleno Altiplano, em um experimento comunitário.

Existem camellones de vários tamanhos. Os maiores foram localizados nas proximidades da antigaTiwanaku, na Bolívia. Possuíam 50 metros de largura por 200 de comprimento. O termo “camellones” provém de sua semelhança às corcovas de um camelo. Na verdade, são plataformas artificiais, construídas em camadas, aproveitando terrenos baixos e alagados. Essa fabulosa engenharia agronômica foi aplicada principalmente para o plantio de batatas e quinua. Para se ter uma ideia de seu potencial, basta fazer uma comparação: em terreno normal, um hectare produz 2 mil quilos de batata; nos camellones essa produção sobre para 20 mil quilos!

Em 1920, o arqueólogo Max Uhle chamou a atenção para o potencial dos waruwarus. Em recentes experimentos governamentais, vi fotos de batatas enormes, quase do tamanho da cabeça de uma pessoa. Vestígios desse sistema forma encontrados em uso no ano 1000 aC. Com isso, muitos conseguiram uma superprodução agrícola. O segredo do sistema está na criação de morros artificiais entremeados por canais de água. Dentro desses morros, foram encontrados quatro estratos: ao nível d'água (base), colocavam uma camada de pedras. Por cima desta, uma de argila impermeável. Em seguida, vinham duas camadas de cascalho, sendo a de cima mais fina. Por cima de tudo, vinha a terra para o plantio.O sistema foi utilizado pelos povos chiripa, púcara, tiwanaku, colla, pacajes, lupacas, entre outros. Além da superprodução resultante, este sistema tem outras vantagens para a região: com a distribuição das águas, cria-se um microclima que ameniza as bruscas mudanças, inclusive sobre os efeitos da geada. Permite trazer para cima, uma terra considerada menos alcalina. Protege a terra de inundações, aproveitando terrenos em desuso. Amenizam a estiagem com as águas acumuladas nos canais e recuperam drenagem deficiente.

O homem andino é agricultor por tradição. Se ele atingiu o conhecimentonecessário para dominar o meio ambiente do Altiplano foi, certamente, àscustas de muito trabalho e observação. Olhando para o céu, sabe exatamente quando e como plantar. As técnicas desenvolvidas foram resultado dessas observaçõespor centenas de anos. Trabalhando em conjunto, previne-se contra geadas e intempéries com criatividade e sabedoria. Ao plantar, nunca o faz em um único local. Diferentes sementes são cultivadas em diferentes terrenos. Ao pressentir uma geada, saem para acender suas fogueiras. A fumaça - sabe o andino - altera o clima, criando uma barreira contra geadas. Neste mundo hostil, alguns produzem mais do que os outros; mas no final, ninguém morre de fome.

Dalton DelfiniMaziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite nossa página “Arqueologia Americana” no Facebook

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 08/04/2020 às 12h46 | daltonmaziero@uol.com.br



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Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.














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América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

ILHAS ARTIFICIAIS NO AMAZONAS

Crédito: José Capriles, Penn State.

A região da floresta Amazônica, seja no Brasil ou Bolívia, não deixa de nos surpreender. Recentemente, um novo estudo realizado em parceria com universidades do Brasil, América Latina e Europa, detectaram milhares de ilhas artificiais usadas para o que é considerado agora, um dos berços mundiais da domesticação da agricultura e manuseio de plantas.

As plantações datam de 10 mil anos e mudaram definitivamente a geografia local, uma vez que foram identificadas até o momento, 4.700 ilhas artificiais. Segundo José Iriarte (University of Exeter, Reino Unido), esse aglomerado dedicado ao cultivo representa a 5ª região mundial onde ocorreram os primórdios da domesticação de plantas. Outras quatro regiões foram identificadas, sendo duas delas na Europa e duas na América.

As investigações concentraram-se em Llanos de Moxos, no norte da Bolívia. Essa região costuma inundar entre dezembro e março, permanecendo seca no restante do ano. O princípio e lógica do sistema segue aquele, posteriormente usado no mundo pré-colombiano – em especial no altiplano do lago Titicaca – conhecido como Waru-Warus ou Camellones, que multiplicavam a capacidade do solo na produção de alimento. Criando microclimas em terreno hostil, os antigos habitantes conseguiam domesticar e expandir a biodiversidade vegetal, além de controlar o manejo de plantas, cultivando o milho, a abóbora e a mandioca. Tudo isso elevando o terreno de plantio artificialmente, acima da linha d’água. Contudo, com as novas descobertas, é possível que os waru-warus tenham como modelos essas ilhas artificiais da floresta amazônica.

Estruturas semelhantes às encontradas em Llanos de Moxos foram identificadas por toda a floresta, como em Marajó, no Pará e no Alto Solimões. Nesta última região, as plataformas elevadas – de formato piramidal – tinham a mesma função, mas a identificação de material cerâmico corrugado dos séculos XV e XVI os aproxima dos grupos tupis. Em outras elevações, foram identificadas cerâmicas do estilo hachurado zonada, pertencentes a grupos que ali viveram por volta de 1000 aC.

O arqueólogo Márcio Amaral, do Instituto Mamirauá (Amazônas), comenta estar impressionado com o volume de terra movimentada para a construção dessas ilhas artificiais; o que sugere uma capacidade tecnológica e organização social acima do imaginado até o momento. Embora não exista nenhum estudo associativo, fico imaginando se as enormes valas cavadas dos geoglifos amazônicos, não estavam ligadas à criação dessas ilhas, ou seja, terra retirada dos geoglifos, para formação das ilhas. Pelo visto, teremos ainda muitas surpresas vindas da região da floresta.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog “Arqueologia Americana”

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 31/07/2020 às 14h13 | daltonmaziero@uol.com.br

PUEBLO BONITO - A ÁRVORE DA VIDA

Existem alguns símbolos universais que são atemporais. Eles aparecem, em versões muito semelhantes, em diversos grupos humanos, independente de sua origem ou época. Um deles é conhecido como a Árvore da Vida. Sua mais famosa versão nos remete aos textos bíblicos, em Gênesis e Apocalipse. Contudo, referências suas podem ser encontradas também entre os egípcios, gregos, mexicas, japoneses, persas, fenícios, chineses, indianos e outros.

Na Mesoamérica, alguns textos antigos (Códex) representativos em especial dos povos maia e mexica, apresentam o desenho de uma árvore sagrada – Árvore de Nossa Vida –, cujos galhos partem em duas vertentes, do alto do tronco. A descoberta dessa ilustração levou muitos jesuítas a refletirem se aquela não seria a representação da Cruz, devido a sua semelhança simbólica. Partindo dessa premissa, arqueólogos sugeriram uma possibilidade interpretativa da Arvore da Vida, durante escavações realizadas em Pueblo Bonito (EUA), durante o ano de 1924. Financiados pela National Geographic Society, puseram a descoberto um curioso tronco (Pinus Ponderosa), com mais de seis metros de comprimento, enterrado em um dos mais importantes pátios do povoado. Na época, sugeriram a possibilidade daquela árvore representar a Árvore da Vida ou o Centro do Mundo, entre os nativos que ali viveram. A sugestão foi aceita e replicada por quase 100 anos, em livros e artigos.

Pueblo Bonito é o maior agrupamento pré-colombiano do povo Pueblo (ou Chaco) em Chaco Canyon, Novo México (EUA), uma região extremamente árida e ausente de árvores. O povoado teve seu auge entre 800 e 1200 de nossa era, tornando-se um importante entreposto comercial de turquesas. A descoberta desta árvore em seu pátio central, criou todo tipo de especulação sobre a existência de um culto ou práticas sagradas realizadas ao seu redor.

Contudo, estudos recentes liderados por Christopher Guiterman (Universidade do Arizonas) com a técnica chamada dendoproveniência – estudo dos padrões de crescimento dos anéis das árvores – aponta para outras conclusões. A primeira mostra que ela nasceu nas montanhas em Chuska, a 80 quilômetros de distância, e não em Chaco Canyon. A prova está em padrões existentes nos anéis, resultantes de tormentas de verão, típicas da região de Chuska. A árvore viveu entre os anos de 732 e 981 dC., ou seja, é provável que já estivesse morta quando de seu transporte para Pueblo Bonito.

Embora a teoria de Árvore da Vida tenha perdido força, não sabemos ao certo como foi transportada de tão longe; se serviu para algum objetivo específico – relógio de sol, por exemplo –, ou simplesmente esteve ali como sobra dos 25 mil troncos usados para a construção de Pueblo Bonito.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog “Arqueologia Americana”

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 13/07/2020 às 18h50 | daltonmaziero@uol.com.br

MACHU PICCHU – O ENIGMA DA FALHA TECTÔNICA

Muito tem se falado na incrível capacidade do povo inca, em se construir cidades em locais inimagináveis, escarpas montanhosas e cumes aparentemente inacessíveis. O principal exemplo dessa capacidade é, sem dúvida, Machu Picchu. Contudo, novas investigações estão relacionando essa capacidade de construção a locais geológicos previamente escolhidos.

Segundo as investigações de Rualdo Menegat (Instituto de Geociências da UFRGS), a escolha do local de um novo assentamento urbano, está associada à capacidade deste tornar a futura cidade orgânica, em relação à paisagem que o circunda. Mas quais os elementos os incas encontraram que podem tornar isso possível? Podemos citar uma rede de falhas tectônicas, a forma das montanhas ao redor e as pedras provenientes dessa falha geológica.

A teoria investe no princípio do menor esforço civilizatório. Isso significa que os incas viram, no topo da montanha Huayna Picchu, condições favoráveis para a construção de um assentamento. E que condições seriam estas? Em primeiro lugar, povoamentos construídos sobre falhas e fraturas geológicas dispõem naturalmente de afloramentos rochosos fragmentados, ou seja, abundância de material rochoso para suas construções. Nota-se que Machu Picchu – ao contrário de outras construções ciclópicas – não apresenta grandes rochas moldadas. Sua maior parte é formada por pedras de tamanhos médio e pequeno. Utilizar a matéria prima local já é, por si, uma economia de energia humana.

Outra vantagem nesse processo seria a de criar possibilidade em “moldar” mais facilmente o solo topográfico de acordo com o plano da cidade e seus patamares de plantio. A retirada de rochas fragmentadas permite adaptar os setores urbanos às elevações do terreno. Esse design orgânico nas construções incaicas fazia parte, inclusive, da identidade que esse povo queria passar aos demais, como uma marca registrada de capacidade técnica e poder. Também podemos mencionar aqui, que a escolha do local estava associada à segurança que este criava em relação a deslizamentos de terra. A escolha de um local alto, com solo rochoso, impedia possíveis avalanches.

Contudo, talvez a principal vantagem ao se construir uma cidade sobre uma fratura geológica, seja mesmo a de proporcionar excelentes aquíferos! Por meio das fissuras rochosas, a água corria de forma abundante, precisando “apenas” ser canalizada da forma correta. Em se tratando de canalização da água, os povos pré-colombianos são mestres no assunto. Em Machu Picchu, podemos observar como a água que brota das fraturas rochosas é controlada por filetes esculpidos e canais artificiais que as direcionam aos patamares de plantio e residências desse mítico povoamento incaico.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite nossa página “Arqueologia Americana” no Facebook.

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 15/06/2020 às 09h50 | daltonmaziero@uol.com.br

O CALENDÁRIO ASTECA

México. Em 17 de dezembro de 1790, um grupo de operários realizava processos de nivelamento da Praça de Armas, no centro da cidade. Ainda não se sabia, mas ali, onde hoje fica a catedral, uma série de templos mexicas (antes chamados astecas) possuíam suas fundações, incluindo o hoje famoso Templo Mayor. O artefato que esses operários localizaram tinha 22 toneladas, 4 metros de diâmetro e quase 1 metro de espessura. Era verdadeiramente impressionante, coberto de hieróglifos enigmáticos.

O artefato ficou conhecido como “Pedra do Sol”, devido a imagem central do deus Tonatuih (Deus Sol). Após sua descoberta, a pedra ficou exposta na parede externa da Catedral (torre ocidental), até o ano de 1885, momento em que o general José de la Cruz Porfírio Diaz Mori (1830-1915) a mandou recolher para exposição e preservação, no Museu Nacional. Na ocasião, os países americanos recém-independentes, buscavam por símbolos de construção de sua própria identidade. E a descoberta desse artefato contribuiu em muito, com esse intuito. Alguns estudiosos acreditam que a pedra foi esculpida ao longo de 50 anos (século XV), e que sua elaboração exigiu um profundo conhecimento dos hieróglifos mexicas associados aos símbolos do tempo. É muito provável que a pedra, na prática, tenha funcionado como calendário de ciclos rituais e agrícolas; mas também como altar de sacrifícios em ocasiões especiais.

Os antigos mexicanos contavam seus anos através da combinação de 4 signos (Tlalpilli Tochtli, Acatl, Tecpatl e Calli) mais 13 signos variáveis que, juntos, formavam um período de 52 anos, chamado Xiuhnelpilli. Da mesma forma, as semanas e os anos recebiam símbolos próprios, muitas vezes associando animais (ou eventos climáticos) aos deuses: chuva = Tláloc; vento = Chantico; jaguar = Quetzalcoatl; macaco = Patecatl, e assim por diante. O ciclo ritual tinha 260 dias (260 Tónalpóhualli), divididos em 20 signos com 13 dias cada. Já o ciclo agrícola contava com 365 dias divididos em 18 meses de 20 dias cada. A estes se acrescentava um tempo extra de 5 dias.

Os dois ciclos (ritual e agrícola) caminhavam independentes, mas a cada 52 anos, eles coincidiam. Era então um momento muito especial na vida dos mexicas, quando ocorria grande número de sacrifícios solicitando à Tonatuih, que brilhasse por mais 52 anos, com seus raios solares. Esse ritual era chamado Fogo Novo, e tinha uma duração de aproximadamente 12 dias. Segundo informações do Museu Nacional de Antropologia do México – onde hoje está exposta – o artefato nunca foi finalizado devido a uma fratura na rocha. Segundo a mesma fonte, “se trata de um grande altar de sacrifícios gladiatórios, conhecido como temalacatl...foi utilizado com o propósito de sustentar a luta de guerreiros na cerimônia de tlacaxipehualiztli”

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite nossa página “Arqueologia Americana” no Facebook (clique aqui)
 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 27/05/2020 às 11h07 | daltonmaziero@uol.com.br

USME – UMA NECRÓPOLE PRÉ-COLOMBIANA

Em 2007, uma fantástica descoberta arqueológica ocorreu na fazenda El Carmen (Usme), Colômbia. Uma cápsula do tempo, uma necrópole, que se soube depois, abrigava mais de 3 mil corpos dos povosmuisca e herrera. Ao todo, o terreno ocupa uma área de 30 hectares, convertendo-se na primeira área de conservação arqueológica de Bogotá. A descoberta só foi possível graças à um projeto social da empresa Metrovivienda, que projetava ali, mais de 3.500 residências do que seria um novo bairro popular. Quando uma retroescavadeira arrancou da terra, uma dúzia de corpos, deu-se conta da descoberta.

Ernesto Montenegro (ICANH – Instituto Colombiano de Antropologia e História) acredita que a descoberta jogará luz sobre o cotidiano e o modo de vida dos herreras e muiscas entre 800 e 1600 dC. Em sua opinião, “o que impressiona é que durante tantos séculos, havia sido esse local o escolhido por diversas culturas para enterrar seus mortos”. Para Virgílio Becerra (Universidade de Sorbona), o caráter sagrado do lugar está intimamente relacionado à presença da água, que brota em abundânciados rios Funcha, Requilina e Água Dulce. Segundo a mitologia muisca, a água era como o leite, que brotava dos seios da deusa Bachué, para alimentar os povos da terra.

Um dado interessante revelado, foi o da relação entre os últimos muiscas e os primeiros colonos da região. Isso foi comprovado nas escavações, com a descoberta de colares com contas de vidro italiano e em ossadas que apresentavam ferimentos de armas de fogo. Além disso, foram desenterradas 35 vasilhas completas, 300 mil fragmentos de cerâmica, peças em cobre, sementes, colares e ossos de animais. A estimativa é que nem 1% do potencial do sítio foi explorado ainda.

Segundo o Drº Ernesto Montenegro (ICANH), “Outro aspecto muito importante é que, historicamente, se falava dos Herreras e dos Muiscas como períodos diferentes da história. Todavia, nesta necrópole encontramos restos de pessoas do período Herrera (600 a 1000 dC) e Muisca (1200 a 1600 dC) sem que houvesse cortes temporais. É a primeira vez que se realiza uma descoberta que testemunhe essa continuidade”. Outro dado interessante foi a descoberta de fauna amazônica nos enterramentos. Isso prova que existia uma relação muito viva entre as duas regiões.

Embora a Necrópole de Usme não se enquadre na categoria de sítio monumental, como San Agustín ou Ciudad Perdida, é sem dúvida de vital importância para a reconstrução da história dos povos pré-colombianos. Segundo Clarisa Ruiz – Secretaria de Cultura de Bogotá – o objetivo é criar um projeto de um Parque Arqueológico, de interesse cultural, com museu e trilhas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite nossa página “Arqueologia Americana” no Facebook.

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 04/05/2020 às 16h14 | daltonmaziero@uol.com.br

WARU WARUS - ALIMENTO NO MUNDO PRÉ-COLOMBIANO

 

Em 1997, quando contornei a pé o Lago Titicaca (Peru/Bolívia), tive a oportunidade de conhecer uma das maiores criações do mundo pré-colombiano: os WaruWarus ou Camellones, como também são conhecidos. Trata-se de um sistema de plantio quenão foi superado por nenhum outro povo do passado. Eu os vi em pleno Altiplano, em um experimento comunitário.

Existem camellones de vários tamanhos. Os maiores foram localizados nas proximidades da antigaTiwanaku, na Bolívia. Possuíam 50 metros de largura por 200 de comprimento. O termo “camellones” provém de sua semelhança às corcovas de um camelo. Na verdade, são plataformas artificiais, construídas em camadas, aproveitando terrenos baixos e alagados. Essa fabulosa engenharia agronômica foi aplicada principalmente para o plantio de batatas e quinua. Para se ter uma ideia de seu potencial, basta fazer uma comparação: em terreno normal, um hectare produz 2 mil quilos de batata; nos camellones essa produção sobre para 20 mil quilos!

Em 1920, o arqueólogo Max Uhle chamou a atenção para o potencial dos waruwarus. Em recentes experimentos governamentais, vi fotos de batatas enormes, quase do tamanho da cabeça de uma pessoa. Vestígios desse sistema forma encontrados em uso no ano 1000 aC. Com isso, muitos conseguiram uma superprodução agrícola. O segredo do sistema está na criação de morros artificiais entremeados por canais de água. Dentro desses morros, foram encontrados quatro estratos: ao nível d'água (base), colocavam uma camada de pedras. Por cima desta, uma de argila impermeável. Em seguida, vinham duas camadas de cascalho, sendo a de cima mais fina. Por cima de tudo, vinha a terra para o plantio.O sistema foi utilizado pelos povos chiripa, púcara, tiwanaku, colla, pacajes, lupacas, entre outros. Além da superprodução resultante, este sistema tem outras vantagens para a região: com a distribuição das águas, cria-se um microclima que ameniza as bruscas mudanças, inclusive sobre os efeitos da geada. Permite trazer para cima, uma terra considerada menos alcalina. Protege a terra de inundações, aproveitando terrenos em desuso. Amenizam a estiagem com as águas acumuladas nos canais e recuperam drenagem deficiente.

O homem andino é agricultor por tradição. Se ele atingiu o conhecimentonecessário para dominar o meio ambiente do Altiplano foi, certamente, àscustas de muito trabalho e observação. Olhando para o céu, sabe exatamente quando e como plantar. As técnicas desenvolvidas foram resultado dessas observaçõespor centenas de anos. Trabalhando em conjunto, previne-se contra geadas e intempéries com criatividade e sabedoria. Ao plantar, nunca o faz em um único local. Diferentes sementes são cultivadas em diferentes terrenos. Ao pressentir uma geada, saem para acender suas fogueiras. A fumaça - sabe o andino - altera o clima, criando uma barreira contra geadas. Neste mundo hostil, alguns produzem mais do que os outros; mas no final, ninguém morre de fome.

Dalton DelfiniMaziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite nossa página “Arqueologia Americana” no Facebook

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 08/04/2020 às 12h46 | daltonmaziero@uol.com.br



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Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.