Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

CUMBE MAYO – PRIMÓRDIOS DA HIDRÁULICA ANDINA

Não é preciso ser nenhum especialista em hidráulica pré-colombiana para observar os evidentes sinais na paisagem Andina, da luta que travaram seus antigos habitantes pela busca da água. Seja em alta montanha como na região desértica, vemos indícios de uma brilhante técnica aplicada na forma de canais esculpidos em rocha viva; túneis que penetram o subsolo desértico em busca de veios ocultos e sistemas de captação da água derretida de geleiras que desafiam até hoje a surpreendente paisagem Andina. Essa antiga busca pela tecnologia ideal nos mostra o quanto os antigos povos das Américas foram inovadores! Essas soluções aplicadas representam a dimensão social e a capacidade criativa desses povos. 

Entre as diversas evidências desse antigo sistema hidráulico, um deles continua evocando dúvidas e surpresas devido a sua extrema antiguidade: Cumbe Mayo. Este sítio não é propriamente uma ruína arqueológica, mas sim um complexo que se estende por quilômetros, composto de inúmeros petroglifos, cavernas, estranhas formações rochosas e um surpreendente canal de água datado de 1500 aC. É uma das mais antigas estruturas – ainda em funcionamento – na América do Sul. A região fica a cerca de 20 km da atual cidade de Cajamarca, a uma altitude média de 3.500 metros.

Na língua quéchua, Cumbe Mayo (ou Kumbe Mayo) pode significar rio estreito ou canal de água bem construído. O termo é bastante apropriado, visto que o aqueduto pré-incaico se estende por quase 9 km, recolhendo a água da chuva e do derretimento das neves. Acredita-se que a obra seja de origem do povo Chavín, que na época ocupou a região e que possuía o conhecimento técnico necessário para tal feito. São notáveis algumas partes do aqueduto, com trechos em “zigue-zague” esculpidos na rocha, com o objetivo evidente de fazer diminuir a velocidade da água que descia da montanha. Quando o canal avançava por piso de terra, foram feitos muros de contenção e até mesmo pequenas pontes que elevavam o canal no ângulo correto, acima do terreno, vencendo assim erosões ou irregularidades do solo.

Na mesma região, afloram uma “floresta de rochas” vulcânicas que brinca com a imaginação dos transeuntes. Elas foram esculpidas pela erosão – vento e chuva – ao longo de centenas de anos e, devido às estranhas formas – algumas chegam a 18 metros de altura – resultantes desse desgaste natural, são chamadas popularmente “Los Frailones” ou “Los Monjes de Roca”. Até hoje a região das aflorações rochosas abrigam inúmeras grutas, dentro das quais foram localizados petroglifos – ainda indecifráveis –, pinturas rupestres e espaços cerimoniais, como indica Roger Ravines em seu estudo “Hidráulica agrícola préhispânica”, de 1980. A região de Cumbe Mayo evidencia assim, uma utilização social voltada a sacralização do solo.

Dalton Delfini Maziero é historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima. Visite o Blog “Arqueologia Americana” (http://arqueologiamericana.blogspot.com/) e a Página do Escritor (https://clubedeautores.com.br/livros/autores/dalton-delfini-maziero)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 22/03/2021 às 17h25 | daltonmaziero@uol.com.br

ESPIRULINA – SUPERALIMENTO ASTECA

Estudar a gastronomia da antiga América é um passo importante para nos conectar com nossa identidade ancestral. Cada vez mais, governos latino-americanos tem se mostrado sensíveis à recuperação de antigos costumes e tradições alimentares dos povos que habitaram nosso continente.

Em 1997, quando de minha expedição a pé no contorno do Lago Titicaca (Peru/Bolívia), tive a oportunidade de observar a recuperação de waruwarus (camellones), que são elevações artificiais de terra que fazem parte de um sistema de plantio sofisticado do povo Tiwanaku, cujo auge ocorreu entre 300 e 1000 de nossa era. Nesse sistema, batatas, quinua ou demais plantios atingiam uma produção 10 vezes maior do que o sistema de plantio imposto pelos colonizadores europeus.

No México, os antigos mexicas (astecas) também sabiam como tirar proveito da natureza para colher ou plantar produtos hoje considerados superalimentos. É o caso da espirulina (tecuitlatl), agora consumida por pessoas que buscam uma alimentação saudável e comercializada por empresas especializadas em produtos naturais. A espirulina é uma cyanobactéria, que produz energia por meio de fotossíntese. Ela se apresenta como uma espécie de alga de cor verde azulada. No mundo mexica, ela fazia parte da tradição alimentar deles e de outros povos mesoamericanos. Era encontrada de forma farta em lagos – como o Lago Texcoco, onde se encontrava a antiga capital mexica, Tenochtitlán–graças ao perfeito equilíbrio entre salinidade e alcalinidade.

Antes da chegada dos espanhóis, a espirulina se apresentava como uma alga pastosa, que proliferava na superfície dos lagos e era recolhida e submetida a um processo natural de secagem. O produto resultante geralmente era transformado em pó e ingerido junto com tortilhas, milho, pimenta ou feijão (frijoles). Rica em proteínas (70%) era alimento ideal para mensageiros e viajantes que tinham que percorrer grandes distâncias. Além da proteína, ela é rica em aminoácidos, vitaminas e minerais, como o manganês, vitamina B e ferro. O conquistador espanhol Bernal Díaz delCastillo (1492-1584) escreve em suas memórias – A História verdadera de la conquista de la Nueva España – que uma espécie de limo coletado na superfície do lago era um composto usado para fabricação de um pão, e uma vez comido, apresentava o gosto semelhante a um queijo. Contudo, sua aparência gelatinosa in naturanão agradou ao paladar europeu. Com a drenagem do Lago Texcoco, o hábito de consumo da espirulina foi abandonado entre os mexicas.

Somente em 1960 a alga lacustre foi redescoberta e estudada no México. Hoje, várias granjas investem na produção de microalgas, fartamente utilizada em novos pratos e restaurantes mexicanos, que resgatam assim uma das mais antigas tradições de seu povo.

Dalton DelfiniMaziero é historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima. Visite o Blog “Arqueologia Americana” (http://arqueologiamericana.blogspot.com/) e a Página do Escritor (https://clubedeautores.com.br/livros/autores/dalton-delfini-maziero)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 22/02/2021 às 18h52 | daltonmaziero@uol.com.br

O FRISO GIGANTE DE CERRO AZUL

Em meados de 2019, um enorme painel com mais de 50 metros foi descoberto nas proximidades de Ribeirão Bonito, interior do Estado de São Paulo. O espaço está coberto de gravuras rupestres e se apresenta de forma tão significativa que tem capacidade de mudar o que conhecemos sobre a história da ocupação humana na região. As primeiras investigações apontam para uma datação próxima dos 12 mil anos de antiguidade. 

São muitas as manifestações desse tipo localizadas na América do Sul. Nem todas possuem a intensidade e características da de Ribeirão Bonito, mas igualmente contribuem para a compreensão da ocupação humana em nosso continente. Apenas para citar algumas: Pedra do Ingá (Brasil), Cumbe Maio (Peru), Vale de Azapa (Chile), Vale do Encanto (Chile), Tamataima (Venezuela), entre outros.

Ao final do ano de 2020, outra descoberta contribuiu de forma incontestável para a história de nosso continente. Surge em meio à floresta amazônica colombiana, um enorme painel muito bem preservado mostrando seus antigos habitantes vivendo e interagindo com plantas e animais da Era do Gelo, cerca de 12 mil anos atrás. Podermos ver claramente preguiças gigantes, camelídeos, mastodontes e cavalos; todos os animais de uma savana que já não mais existe, dando lugar a floresta que hoje conhecemos. Além destes, foram também registrados morcegos, serpentes, tartarugas, macacos, veados, crocodilos e porcos-espinhos.

Pesquisadores da Universidade de Exeter (Inglaterra), afirmam que muitos dos desenhos foram feitos em alturas inacessíveis, exigindo assim escadas ou estruturas para o pintor registrar o que pretendia. Esse detalhe ajudou em muito na preservação da obra. Também detectaram a predominância de um vibrante tom avermelhado, usado provavelmente ao longo de centenas de anos para constituir a obra que vemos hoje.

Todo esse impressionante conjunto de gravuras rupestres está distribuído em três abrigos rochosos distintos, sendo o mais importante conhecido como “Cerro Azul”, localizada na serra La Lindosa, atual Colômbia. Mark Robinson (Universidade de Exeter) acredita que os antigos habitantes aplainaram a superfície da rocha com fogo, antes de aplicarem seu pigmento. O arqueólogo José Iriarte acrescenta que a investigação faz parte de um projeto de cinco anos, que busca entender quando os humanos se estabeleceram pela primeira vez na região amazônica e como sua presença alterou a biodiversidade. As comunidades locais já conheciam Cerro Azul, mas a pesquisa só foi possível com a pacificação das FARCs em anos recentes.

Dalton Delfini Maziero é historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima. Visite o Blog “Arqueologia Americana” (http://arqueologiamericana.blogspot.com/) e a Página do Escritor (https://clubedeautores.com.br/livros/autores/dalton-delfini-maziero)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 05/02/2021 às 19h47 | daltonmaziero@uol.com.br

A SENHORA DE EL PARAÍSO

A arqueologia de gênero está em moda ultimamente. E essa nova abordagem nos permite revisitar períodos históricos antes estagnados em uma espécie de consenso histórico. Assim, um novo olhar se torna necessário, muitas vezes baseado nas descobertas que a arqueologia e antropologia nos brindam.  Dentro desta nova abordagem, ganham destaque a posição social das mulheres, crianças, excluídos, minorias, negros ou mesmo o estudo de profissões consideradas pertencentes a um submundo social, como a prostituição ou pirataria.

Na América pré-colombiana, cada vez mais essa nova visão faz jus em destacar a posição das mulheres em nosso passado. Antes vistas como secundárias nos processos políticos e religiosos, ganham importância ao serem notadas como dignitárias pertencentes a uma nobre classe social e envolvidas na religião, rituais e política de sua época.

Um recente projeto levado a cabo pelo Museu Mineral Andrés Del Castillo, em Lima (Peru), reconstruiu o rosto de uma dessas mulheres, cujos restos mortais foram localizados próximo ao templo de El Paraíso. Datada de 3.700 anos de antiguidade, a mulher não tinha mais que 1,5 metros de altura, e idade aproximada de 23 anos. A arqueóloga Dayanna Carbonel, diretora da pesquisa, afirma não ser ainda possível detectar a causa da morte, mas destaca sua semelhança com o povo que hoje habita a região. Contudo, graças a uma patologia óssea de seu antebraço, puderam identificar que a Senhora de El Paraíso exerceu, muito provavelmente, a função de tecedora.

O estudo levou dois anos para ser concluído e foi fruto da mescla de ciência e arte, envolvendo antropometria craniana, que permite estimar os contornos da face e a espessura da carne que cobre o rosto. A parte final ficou por conta do artista plástico Teo Ugarte, que orientou a recriação das fibras musculares e do tecido da pele, com argila e gesso. A iniciativa de recriação facial não é nova no Peru, pois técnicas semelhantes foram utilizadas com a Sacerdotisa de Chornancap e com a Dama de Cao, ambas mulheres de grande importância no passado, mas de antiguidade não tão avançada como esta de El Paraíso.

Dayanna chama a atenção para o fato de mais enterros estarem localizados em El Paraíso. Ao todo 11 tumbas foram abertas, com restos mortais de diversas mulheres, infelizmente nem todas apresentando condições para realização de reconstrução craniana como a Senhora de El Paraíso. Além de determinarem sua possível atividade profissional, também sua arcada dentária revelou uma dieta composta por mandioca (yuca), raízes, mariscos e frijoles (feijões); e sinais de anemia, proveniente de uma alimentação pouco balanceada na infância.

Dalton Delfini Maziero é historiador, escritor, especialista em arqueólogia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima. Visite o Blog “Arqueologia Americana” (arqueologiamericana.blogspot.com) e a Página do Escritor (clubedeautores.com.br/livros/autores/dalton-delfini-maziero)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 12/01/2021 às 17h02 | daltonmaziero@uol.com.br

IXCHEL – A DEUSA MAYA DA LUA

Assim como Egito, Grécia e Mesopotâmia, também o mundo Maia apresentou uma diversidade de deuses que formaram uma rica mitologia. Muitas vezes, foram associados aos eventos da natureza, exercendo forte impacto sobre a vida das pessoas. Nesse contexto, surge Ixchel - a Senhora do Arco-íris, deusa da lua e das serpentes, na antiga América pré-colombiana.

Ixchel foi muito importante no mundo maia, devido a sua proximidade com a vida íntima dos antigos moradores da Península de Iucatã (México). Não sem motivos, ganhou seu próprio território: a ilha sagrada de Cozumel e também Isla de las Mujeres, onde possuía adoratórios e para onde migravam as mulheres que pediam seus favores para engravidar. Durante sua vida, uma mulher devia fazer duas vezes essa peregrinação: a primeira ainda criança, acompanhada da mãe; a segunda como mãe, acompanhando sua filha.

Além de ter sua representação associada à Lua, Ixchel também representava a fertilidade humana, a saúde, o parto, a sexualidade, o bem estar físico, a cura, a magia, a água e a tecelagem. Com todos esses atributos, não é de se espantar que ela fosse uma das mais populares e solicitadas deusas da antiga América, acolhida como protetora das mulheres e crianças. Devido a sua relação com a fertilidade, sexualidade e parto, os maias a representaram segurando um vaso invertido de onde corria, incessantemente, as águas da criação. Em sua imagem gráfica, além da serpente, estava associada a libélula e ao coelho, animais que representam a fertilidade ou que estiveram associados ao seu passado mitológico.

Desde sua concepção, Ixchel foi ganhando camadas de complexidade até tornar-se um arquétipo representativo das fases de uma mulher. Por isso encontramos sua imagem em três versões: uma mulher jovem (A Grande Mãe), uma de meia idade (A Senhora da Terra) ou uma sábia anciã (A Dama Velha). Em sua terceira versão – a anciã – Ixchel aproxima-se da habilidade enquanto tecelã; mas aqui a tecelagem não se refere exatamente ao fio de lã, mas sim a sua habilidade em “tecer” a vida, o exato momento em que verterá sua água na Terra, fertilizando a criação.

Embora fosse gentil e piedosa Ixchel era também uma deusa cruel, pois representava a face oposta da vida. No conceito pré-colombiano, a vida e morte eram indissociáveis. Ela atuava segundo as fases da Lua, incorporando, portanto diferentes aspectos e personalidades. Possuía o poder de conceber a vida, e também o de tirá-la. Se por um lado era representada por coelhos e libélulas, por outro também o era com ossos, caveiras e dona das almas. Em seu estado de fúria, Ixchel esteve associada às tempestades, tormentas e inundações. Atualmente, a adoração a Ixchel está renascendo, incentivada pelo turismo mexicano a seus adoratórios, resgatando assim antigas tradições.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Na Profundeza do Mar Azul”. Visite o Blog “Arqueologia Americana” (http://arqueologiamericana.blogspot.com/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 07/12/2020 às 17h51 | daltonmaziero@uol.com.br

MONTE SIERPE – O MAIOR GEOGLIFO PERUANO

Para alguns mistérios das Américas, ainda não existem respostas plausíveis. Esse é o caso de Monte Sierpe (Montanha da Serpente), localizado há apenas 5 quilômetros das ruínas de Tambo Colorado, em Pisco, Peru.

Monte Sierpe foi descoberto em 1931, por ocasião da expedição aérea “Shippee-Johnson” de fotografia, realizada por Robert Shippee e George R. Johnson, publicada na National Geographic Magazine em 1933. Uma das fotos mostrou ao mundo uma estranha formação esculpida ao longo de 1,5 quilômetros serpenteando as montanhas e atravessando fendas. Entre 1957 e 1958, o arqueólogo norte-americano Dwight T. Wallace estudou a parte baixa dos vales de Pisco e Chincha, anotando um trecho dessa formação, com uma série de buracos (hoyos) que “são aproximadamente circulares e tem um diâmetro ao redor de 1 metro”. Não demorou a curiosos e aventureiros explorarem o local de forma particular, divulgando teorias nada científicas que envolviam a presença de extraterrestres, sepulturas verticais ou simplesmente “arte” pré-colombiana, em uma modalidade diferente dos geoglifo.

Recentemente, os arqueólogos Charles Stanish e Henry Tantaleán (UCLA –University of California, Los Angeles) tem se dedicado a desvendar esse mistério. Suas medições apontam para um total de 5.430 buracos artificiais, com diâmetro entre 80 e 180 cm; e profundidade entre 40 e 120 cm. A formação inteira alcança 1.564 metros de comprimento, sendo 17,5 metros sua largura média. Eles opinam que “com uma tecnologia pré-colombiana de pás e arados, um jovem poderia cavar um desses buracos facilmente em cerca de duas ou três horas, em média [...] Uma estimativa muito conservadora é que um trabalhador poderia facilmente cavar ou construir dois buracos por dia [...] Um cálculo simples revela que 10 trabalhadores poderiam ter feito toda a obra em 300 dias; 50 trabalhadores em 60; e 100 trabalhadores em um mês. Quinhentos trabalhadores, adequadamente gerenciados, poderiam finalizar isso em algumas semanas”.

Mas se esta impressionante obra não necessita de uma técnica tão sofisticada para sua realização, a questão recai na pergunta Por quê? Existem duas teorias plausíveis até o momento. A primeira fala em um espaço de coleta de tributos ao Inca. Nessa teoria, cada Ayllu (grupos territoriais familiares) depositaria seus produtos separados por comunidade e tipo de mercadoria. Nenhum vestígio de sementes foi encontrado até agora nos buracos, mas a ideia não é absurda, pois existem provas de sistema semelhante em Inkawasi, cerca de 100 quilômetros de Monte Sierpe. Outra teoria aproxima-o dos geoglifos, relacionando-o a formações terrestres voltadas a ritos de fertilidade e precipitação de chuvas. Seja qual for a real função de Monte Sierpe, ele certamente manterá ainda, por um bom tempo, seus mistérios.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog “Arqueologia Americana”  

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 17/11/2020 às 15h32 | daltonmaziero@uol.com.br



1 2 3 4 5 6

Dalton Delfini Maziero

Assina a coluna América Misteriosa

Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.














Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: [email protected]

Página 3
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

CUMBE MAYO – PRIMÓRDIOS DA HIDRÁULICA ANDINA

Não é preciso ser nenhum especialista em hidráulica pré-colombiana para observar os evidentes sinais na paisagem Andina, da luta que travaram seus antigos habitantes pela busca da água. Seja em alta montanha como na região desértica, vemos indícios de uma brilhante técnica aplicada na forma de canais esculpidos em rocha viva; túneis que penetram o subsolo desértico em busca de veios ocultos e sistemas de captação da água derretida de geleiras que desafiam até hoje a surpreendente paisagem Andina. Essa antiga busca pela tecnologia ideal nos mostra o quanto os antigos povos das Américas foram inovadores! Essas soluções aplicadas representam a dimensão social e a capacidade criativa desses povos. 

Entre as diversas evidências desse antigo sistema hidráulico, um deles continua evocando dúvidas e surpresas devido a sua extrema antiguidade: Cumbe Mayo. Este sítio não é propriamente uma ruína arqueológica, mas sim um complexo que se estende por quilômetros, composto de inúmeros petroglifos, cavernas, estranhas formações rochosas e um surpreendente canal de água datado de 1500 aC. É uma das mais antigas estruturas – ainda em funcionamento – na América do Sul. A região fica a cerca de 20 km da atual cidade de Cajamarca, a uma altitude média de 3.500 metros.

Na língua quéchua, Cumbe Mayo (ou Kumbe Mayo) pode significar rio estreito ou canal de água bem construído. O termo é bastante apropriado, visto que o aqueduto pré-incaico se estende por quase 9 km, recolhendo a água da chuva e do derretimento das neves. Acredita-se que a obra seja de origem do povo Chavín, que na época ocupou a região e que possuía o conhecimento técnico necessário para tal feito. São notáveis algumas partes do aqueduto, com trechos em “zigue-zague” esculpidos na rocha, com o objetivo evidente de fazer diminuir a velocidade da água que descia da montanha. Quando o canal avançava por piso de terra, foram feitos muros de contenção e até mesmo pequenas pontes que elevavam o canal no ângulo correto, acima do terreno, vencendo assim erosões ou irregularidades do solo.

Na mesma região, afloram uma “floresta de rochas” vulcânicas que brinca com a imaginação dos transeuntes. Elas foram esculpidas pela erosão – vento e chuva – ao longo de centenas de anos e, devido às estranhas formas – algumas chegam a 18 metros de altura – resultantes desse desgaste natural, são chamadas popularmente “Los Frailones” ou “Los Monjes de Roca”. Até hoje a região das aflorações rochosas abrigam inúmeras grutas, dentro das quais foram localizados petroglifos – ainda indecifráveis –, pinturas rupestres e espaços cerimoniais, como indica Roger Ravines em seu estudo “Hidráulica agrícola préhispânica”, de 1980. A região de Cumbe Mayo evidencia assim, uma utilização social voltada a sacralização do solo.

Dalton Delfini Maziero é historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima. Visite o Blog “Arqueologia Americana” (http://arqueologiamericana.blogspot.com/) e a Página do Escritor (https://clubedeautores.com.br/livros/autores/dalton-delfini-maziero)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 22/03/2021 às 17h25 | daltonmaziero@uol.com.br

ESPIRULINA – SUPERALIMENTO ASTECA

Estudar a gastronomia da antiga América é um passo importante para nos conectar com nossa identidade ancestral. Cada vez mais, governos latino-americanos tem se mostrado sensíveis à recuperação de antigos costumes e tradições alimentares dos povos que habitaram nosso continente.

Em 1997, quando de minha expedição a pé no contorno do Lago Titicaca (Peru/Bolívia), tive a oportunidade de observar a recuperação de waruwarus (camellones), que são elevações artificiais de terra que fazem parte de um sistema de plantio sofisticado do povo Tiwanaku, cujo auge ocorreu entre 300 e 1000 de nossa era. Nesse sistema, batatas, quinua ou demais plantios atingiam uma produção 10 vezes maior do que o sistema de plantio imposto pelos colonizadores europeus.

No México, os antigos mexicas (astecas) também sabiam como tirar proveito da natureza para colher ou plantar produtos hoje considerados superalimentos. É o caso da espirulina (tecuitlatl), agora consumida por pessoas que buscam uma alimentação saudável e comercializada por empresas especializadas em produtos naturais. A espirulina é uma cyanobactéria, que produz energia por meio de fotossíntese. Ela se apresenta como uma espécie de alga de cor verde azulada. No mundo mexica, ela fazia parte da tradição alimentar deles e de outros povos mesoamericanos. Era encontrada de forma farta em lagos – como o Lago Texcoco, onde se encontrava a antiga capital mexica, Tenochtitlán–graças ao perfeito equilíbrio entre salinidade e alcalinidade.

Antes da chegada dos espanhóis, a espirulina se apresentava como uma alga pastosa, que proliferava na superfície dos lagos e era recolhida e submetida a um processo natural de secagem. O produto resultante geralmente era transformado em pó e ingerido junto com tortilhas, milho, pimenta ou feijão (frijoles). Rica em proteínas (70%) era alimento ideal para mensageiros e viajantes que tinham que percorrer grandes distâncias. Além da proteína, ela é rica em aminoácidos, vitaminas e minerais, como o manganês, vitamina B e ferro. O conquistador espanhol Bernal Díaz delCastillo (1492-1584) escreve em suas memórias – A História verdadera de la conquista de la Nueva España – que uma espécie de limo coletado na superfície do lago era um composto usado para fabricação de um pão, e uma vez comido, apresentava o gosto semelhante a um queijo. Contudo, sua aparência gelatinosa in naturanão agradou ao paladar europeu. Com a drenagem do Lago Texcoco, o hábito de consumo da espirulina foi abandonado entre os mexicas.

Somente em 1960 a alga lacustre foi redescoberta e estudada no México. Hoje, várias granjas investem na produção de microalgas, fartamente utilizada em novos pratos e restaurantes mexicanos, que resgatam assim uma das mais antigas tradições de seu povo.

Dalton DelfiniMaziero é historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima. Visite o Blog “Arqueologia Americana” (http://arqueologiamericana.blogspot.com/) e a Página do Escritor (https://clubedeautores.com.br/livros/autores/dalton-delfini-maziero)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 22/02/2021 às 18h52 | daltonmaziero@uol.com.br

O FRISO GIGANTE DE CERRO AZUL

Em meados de 2019, um enorme painel com mais de 50 metros foi descoberto nas proximidades de Ribeirão Bonito, interior do Estado de São Paulo. O espaço está coberto de gravuras rupestres e se apresenta de forma tão significativa que tem capacidade de mudar o que conhecemos sobre a história da ocupação humana na região. As primeiras investigações apontam para uma datação próxima dos 12 mil anos de antiguidade. 

São muitas as manifestações desse tipo localizadas na América do Sul. Nem todas possuem a intensidade e características da de Ribeirão Bonito, mas igualmente contribuem para a compreensão da ocupação humana em nosso continente. Apenas para citar algumas: Pedra do Ingá (Brasil), Cumbe Maio (Peru), Vale de Azapa (Chile), Vale do Encanto (Chile), Tamataima (Venezuela), entre outros.

Ao final do ano de 2020, outra descoberta contribuiu de forma incontestável para a história de nosso continente. Surge em meio à floresta amazônica colombiana, um enorme painel muito bem preservado mostrando seus antigos habitantes vivendo e interagindo com plantas e animais da Era do Gelo, cerca de 12 mil anos atrás. Podermos ver claramente preguiças gigantes, camelídeos, mastodontes e cavalos; todos os animais de uma savana que já não mais existe, dando lugar a floresta que hoje conhecemos. Além destes, foram também registrados morcegos, serpentes, tartarugas, macacos, veados, crocodilos e porcos-espinhos.

Pesquisadores da Universidade de Exeter (Inglaterra), afirmam que muitos dos desenhos foram feitos em alturas inacessíveis, exigindo assim escadas ou estruturas para o pintor registrar o que pretendia. Esse detalhe ajudou em muito na preservação da obra. Também detectaram a predominância de um vibrante tom avermelhado, usado provavelmente ao longo de centenas de anos para constituir a obra que vemos hoje.

Todo esse impressionante conjunto de gravuras rupestres está distribuído em três abrigos rochosos distintos, sendo o mais importante conhecido como “Cerro Azul”, localizada na serra La Lindosa, atual Colômbia. Mark Robinson (Universidade de Exeter) acredita que os antigos habitantes aplainaram a superfície da rocha com fogo, antes de aplicarem seu pigmento. O arqueólogo José Iriarte acrescenta que a investigação faz parte de um projeto de cinco anos, que busca entender quando os humanos se estabeleceram pela primeira vez na região amazônica e como sua presença alterou a biodiversidade. As comunidades locais já conheciam Cerro Azul, mas a pesquisa só foi possível com a pacificação das FARCs em anos recentes.

Dalton Delfini Maziero é historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima. Visite o Blog “Arqueologia Americana” (http://arqueologiamericana.blogspot.com/) e a Página do Escritor (https://clubedeautores.com.br/livros/autores/dalton-delfini-maziero)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 05/02/2021 às 19h47 | daltonmaziero@uol.com.br

A SENHORA DE EL PARAÍSO

A arqueologia de gênero está em moda ultimamente. E essa nova abordagem nos permite revisitar períodos históricos antes estagnados em uma espécie de consenso histórico. Assim, um novo olhar se torna necessário, muitas vezes baseado nas descobertas que a arqueologia e antropologia nos brindam.  Dentro desta nova abordagem, ganham destaque a posição social das mulheres, crianças, excluídos, minorias, negros ou mesmo o estudo de profissões consideradas pertencentes a um submundo social, como a prostituição ou pirataria.

Na América pré-colombiana, cada vez mais essa nova visão faz jus em destacar a posição das mulheres em nosso passado. Antes vistas como secundárias nos processos políticos e religiosos, ganham importância ao serem notadas como dignitárias pertencentes a uma nobre classe social e envolvidas na religião, rituais e política de sua época.

Um recente projeto levado a cabo pelo Museu Mineral Andrés Del Castillo, em Lima (Peru), reconstruiu o rosto de uma dessas mulheres, cujos restos mortais foram localizados próximo ao templo de El Paraíso. Datada de 3.700 anos de antiguidade, a mulher não tinha mais que 1,5 metros de altura, e idade aproximada de 23 anos. A arqueóloga Dayanna Carbonel, diretora da pesquisa, afirma não ser ainda possível detectar a causa da morte, mas destaca sua semelhança com o povo que hoje habita a região. Contudo, graças a uma patologia óssea de seu antebraço, puderam identificar que a Senhora de El Paraíso exerceu, muito provavelmente, a função de tecedora.

O estudo levou dois anos para ser concluído e foi fruto da mescla de ciência e arte, envolvendo antropometria craniana, que permite estimar os contornos da face e a espessura da carne que cobre o rosto. A parte final ficou por conta do artista plástico Teo Ugarte, que orientou a recriação das fibras musculares e do tecido da pele, com argila e gesso. A iniciativa de recriação facial não é nova no Peru, pois técnicas semelhantes foram utilizadas com a Sacerdotisa de Chornancap e com a Dama de Cao, ambas mulheres de grande importância no passado, mas de antiguidade não tão avançada como esta de El Paraíso.

Dayanna chama a atenção para o fato de mais enterros estarem localizados em El Paraíso. Ao todo 11 tumbas foram abertas, com restos mortais de diversas mulheres, infelizmente nem todas apresentando condições para realização de reconstrução craniana como a Senhora de El Paraíso. Além de determinarem sua possível atividade profissional, também sua arcada dentária revelou uma dieta composta por mandioca (yuca), raízes, mariscos e frijoles (feijões); e sinais de anemia, proveniente de uma alimentação pouco balanceada na infância.

Dalton Delfini Maziero é historiador, escritor, especialista em arqueólogia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima. Visite o Blog “Arqueologia Americana” (arqueologiamericana.blogspot.com) e a Página do Escritor (clubedeautores.com.br/livros/autores/dalton-delfini-maziero)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 12/01/2021 às 17h02 | daltonmaziero@uol.com.br

IXCHEL – A DEUSA MAYA DA LUA

Assim como Egito, Grécia e Mesopotâmia, também o mundo Maia apresentou uma diversidade de deuses que formaram uma rica mitologia. Muitas vezes, foram associados aos eventos da natureza, exercendo forte impacto sobre a vida das pessoas. Nesse contexto, surge Ixchel - a Senhora do Arco-íris, deusa da lua e das serpentes, na antiga América pré-colombiana.

Ixchel foi muito importante no mundo maia, devido a sua proximidade com a vida íntima dos antigos moradores da Península de Iucatã (México). Não sem motivos, ganhou seu próprio território: a ilha sagrada de Cozumel e também Isla de las Mujeres, onde possuía adoratórios e para onde migravam as mulheres que pediam seus favores para engravidar. Durante sua vida, uma mulher devia fazer duas vezes essa peregrinação: a primeira ainda criança, acompanhada da mãe; a segunda como mãe, acompanhando sua filha.

Além de ter sua representação associada à Lua, Ixchel também representava a fertilidade humana, a saúde, o parto, a sexualidade, o bem estar físico, a cura, a magia, a água e a tecelagem. Com todos esses atributos, não é de se espantar que ela fosse uma das mais populares e solicitadas deusas da antiga América, acolhida como protetora das mulheres e crianças. Devido a sua relação com a fertilidade, sexualidade e parto, os maias a representaram segurando um vaso invertido de onde corria, incessantemente, as águas da criação. Em sua imagem gráfica, além da serpente, estava associada a libélula e ao coelho, animais que representam a fertilidade ou que estiveram associados ao seu passado mitológico.

Desde sua concepção, Ixchel foi ganhando camadas de complexidade até tornar-se um arquétipo representativo das fases de uma mulher. Por isso encontramos sua imagem em três versões: uma mulher jovem (A Grande Mãe), uma de meia idade (A Senhora da Terra) ou uma sábia anciã (A Dama Velha). Em sua terceira versão – a anciã – Ixchel aproxima-se da habilidade enquanto tecelã; mas aqui a tecelagem não se refere exatamente ao fio de lã, mas sim a sua habilidade em “tecer” a vida, o exato momento em que verterá sua água na Terra, fertilizando a criação.

Embora fosse gentil e piedosa Ixchel era também uma deusa cruel, pois representava a face oposta da vida. No conceito pré-colombiano, a vida e morte eram indissociáveis. Ela atuava segundo as fases da Lua, incorporando, portanto diferentes aspectos e personalidades. Possuía o poder de conceber a vida, e também o de tirá-la. Se por um lado era representada por coelhos e libélulas, por outro também o era com ossos, caveiras e dona das almas. Em seu estado de fúria, Ixchel esteve associada às tempestades, tormentas e inundações. Atualmente, a adoração a Ixchel está renascendo, incentivada pelo turismo mexicano a seus adoratórios, resgatando assim antigas tradições.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Na Profundeza do Mar Azul”. Visite o Blog “Arqueologia Americana” (http://arqueologiamericana.blogspot.com/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 07/12/2020 às 17h51 | daltonmaziero@uol.com.br

MONTE SIERPE – O MAIOR GEOGLIFO PERUANO

Para alguns mistérios das Américas, ainda não existem respostas plausíveis. Esse é o caso de Monte Sierpe (Montanha da Serpente), localizado há apenas 5 quilômetros das ruínas de Tambo Colorado, em Pisco, Peru.

Monte Sierpe foi descoberto em 1931, por ocasião da expedição aérea “Shippee-Johnson” de fotografia, realizada por Robert Shippee e George R. Johnson, publicada na National Geographic Magazine em 1933. Uma das fotos mostrou ao mundo uma estranha formação esculpida ao longo de 1,5 quilômetros serpenteando as montanhas e atravessando fendas. Entre 1957 e 1958, o arqueólogo norte-americano Dwight T. Wallace estudou a parte baixa dos vales de Pisco e Chincha, anotando um trecho dessa formação, com uma série de buracos (hoyos) que “são aproximadamente circulares e tem um diâmetro ao redor de 1 metro”. Não demorou a curiosos e aventureiros explorarem o local de forma particular, divulgando teorias nada científicas que envolviam a presença de extraterrestres, sepulturas verticais ou simplesmente “arte” pré-colombiana, em uma modalidade diferente dos geoglifo.

Recentemente, os arqueólogos Charles Stanish e Henry Tantaleán (UCLA –University of California, Los Angeles) tem se dedicado a desvendar esse mistério. Suas medições apontam para um total de 5.430 buracos artificiais, com diâmetro entre 80 e 180 cm; e profundidade entre 40 e 120 cm. A formação inteira alcança 1.564 metros de comprimento, sendo 17,5 metros sua largura média. Eles opinam que “com uma tecnologia pré-colombiana de pás e arados, um jovem poderia cavar um desses buracos facilmente em cerca de duas ou três horas, em média [...] Uma estimativa muito conservadora é que um trabalhador poderia facilmente cavar ou construir dois buracos por dia [...] Um cálculo simples revela que 10 trabalhadores poderiam ter feito toda a obra em 300 dias; 50 trabalhadores em 60; e 100 trabalhadores em um mês. Quinhentos trabalhadores, adequadamente gerenciados, poderiam finalizar isso em algumas semanas”.

Mas se esta impressionante obra não necessita de uma técnica tão sofisticada para sua realização, a questão recai na pergunta Por quê? Existem duas teorias plausíveis até o momento. A primeira fala em um espaço de coleta de tributos ao Inca. Nessa teoria, cada Ayllu (grupos territoriais familiares) depositaria seus produtos separados por comunidade e tipo de mercadoria. Nenhum vestígio de sementes foi encontrado até agora nos buracos, mas a ideia não é absurda, pois existem provas de sistema semelhante em Inkawasi, cerca de 100 quilômetros de Monte Sierpe. Outra teoria aproxima-o dos geoglifos, relacionando-o a formações terrestres voltadas a ritos de fertilidade e precipitação de chuvas. Seja qual for a real função de Monte Sierpe, ele certamente manterá ainda, por um bom tempo, seus mistérios.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombianos” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog “Arqueologia Americana”  

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 17/11/2020 às 15h32 | daltonmaziero@uol.com.br



1 2 3 4 5 6

Dalton Delfini Maziero

Assina a coluna América Misteriosa

Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.