Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

UM NOVO ROSTO PARA LUZIA?

Na noite de 02 de setembro de 2018, assistimos estarrecidos o incêndio de grandes proporções que destruiu quase a totalidade de um dos maiores acervos históricos do Brasil e do mundo, no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Independente dos culpados por esse descaso, fato é que lá se perdeu a ossada de “Luzia”, peça fundamental para o entendimento da ocupação da América.

Nos anos de 1990, ocorreu uma quebra de paradigma relacionado a essa ocupação. Até os anos de 1970, a visão norte americana indicava que ela ocorrera pela migração via Estreito de Bering, cerca de 13 mil anos atrás. Ao final da última Era Glacial (100 a 12 mil anos), o grupo que avançou formou a chamada cultura Clóvis, tornando-se caçadores-coletores nas estepes dos EUA.

Contudo, descobertas arqueológicas na América do Sul indicavam que grupos humanos se estabeleceram aqui a mais de 14 mil anos atrás, como é o caso de Monte Verde, no Chile. Ou seja, a datação da transposição do Estreito de Bering estava incorreta, e os arqueólogos norte americanos acabaram aceitando que a América do Sul possuía datações mais antigas que a da cultura Clovis.

Agora em 2018, ocorreu um novo paradigma, que só foi possível graças aos estudos da biologia molecular e do DNA fóssil. Segundo esses novos estudos, grupos humanos cruzaram o Estreito de Bering cerca de 17 mil anos atrás, em uma corrente migratória com DNA cuja afinidade se aproxima do norte da China e Sibéria; e não da África e Australásia, como se pensava antes. Essa onda migratória invadiu a América do Sul em três épocas distintas: 15 mil, 9 mil e 4,5 mil anos atrás, sendo esta última estabelecida pontualmente no Andes Centrais.

A pesquisa utilizou, entre outros, esqueletos encontrados na Lagoa Santa (Brasil), que revelaram ligações genéticas com o grupo Clovis (EUA). Portanto, ao contrário do que se pensava, o grupo brasileiro - incluindo Luzia (12.500 anos) - não possuía nenhuma proveniência africana ou aborígene. O famoso busto de Luzia - destruído no incêndio - foi concebido pelo britânico Richard Neave, na década de 1990, baseado nas feições africanas e aborígenes australianas.

Outra lição aprendida com a pesquisa de DNA, mostra que a formação morfológica craniana não são fontes confiáveis para recriações genéticas. Com essas novas informações em mãos, a especialista em reconstrução forense Caroline Wilkinson trabalha na reconstrução de outros fósseis provenientes de Lagoa Santa, na esperança de, desta vez, conseguir alcançar um resultado mais confiável do que o antigo busto de Luzia. Infelizmente, mais de 100 indivíduos - representados por fósseis - ainda não estudados, perderam-se com o terrível incêndio do Museu Nacional, limitando assim, pesquisas mais avançadas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 06/12/2018 às 16h26 | daltonmaziero@uol.com.br

A épica viagem oceânica de Tupac Yupangui

Existem inúmeros enigmas por resolver na história pré-colombiana. Talvez um dos mais curiosos seja a que fala de uma viagem oceânica feita por Túpac Yupanqui (1441-1493) em 1465, rumo a Polinésia. Túpac Yupanqui foi o 10º Governante Inca, e um dos maiores conquistadores de nosso continente. Suas andanças e explorações são comparáveis às de Alexandre o Grande, e podemos dizer seguramente, que o território peruano deve suas atuais fronteiras a Túpac.

Essa surpreendente navegação foi relatada por alguns cronistas, entre os quais Sarmiento de Gamboa, Miguel Cabello de Balboa e Martín Murúa. Sarmiento nos conta que o Inca, durante suas conquistas no litoral norte do Peru, viu aportar ali umas balsas de junco a vela, com mercadores oceânicos. Indagados das terras de onde vinham... “informaram que eram umas ilhas, chamadas uma Auachumbi e outra Niñachumbi, onde havia muita gente e ouro”. E Túpac, que parecia insaciável em suas conquistas, decidiu de imediato montar uma frota de balsas de junco e se lançar ao mar... “e para isso fez uma numerosíssima quantidade de balsas, nas quais embarcou mais de 20 mil soldados escolhidos”. E Sarmiento ainda completa sua crônica... “E navegou Túpac Inca e foi e descobriu as ilhas...e voltou de lá, trazendo gente negra e muito ouro...”

Até onde podemos crer nas palavras desses cronistas? Tecnicamente, seria possível um nativo Andino - de hábitos tradicionalmente terrestres - criar uma frota naval dessa magnitude? E que ilhas eram estas, de Auachumbi e Niñachumbi? Seriam as Galápagos ou a distante Polinésia?

Muitos historiadores acreditam hoje que Túpac realmente atingiu a Polinésia, numa viagem de 7 mil km. Na ilha de Mangareva, por exemplo, existe uma lenda do “Rei Tupa”, que chegou pelo mar de um distante país, com o objetivo de instruir as pessoas. Também é de se notar, que a ilha é uma das únicas a possuir embarcações estilo balsa à vela, como as que o Inca utilizou. Também na Ilha de Páscoa - retorno natural ao continente americano segundo as correntes marítimas do Pacífico - podemos encontrar vestígios intrigantes dessa viagem, como a existência de um muro de arquitetura igual à dos Incas. O local é conhecido como “Templo de Vinapú”, e sua semelhança com a arquitetura peruana da época de Túpac Yupanqui é assombrosa!

Em 1947, o navegante norueguês Thor Heyerdahl decidiu provar que era possível navegar da costa peruana à Polinésia em balsas de junco. A hoje lendária expedição “Kon-Tiki” aproveitou as correntes marítimas e venceu a distância em 101 dias, desembarcando em 07 de agosto de 1947 na Ilha Tuamotu, na Polinésia. Ou seja, podemos afirmar que, ao menos do ponto de vista técnico, a incrível viagem de Túpac Yupanqui foi uma realidade.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)Thomas Roe, 1611

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 19/11/2018 às 11h52 | daltonmaziero@uol.com.br

ISKANWAYA RENASCIDA!

Foi com muita felicidade que li a recente notícia da retomada das escavações de Iskanwaya (Bolívia) e do objetivo de fazer daquele local, um polo turístico. Mas tudo deve ser feito com muito cuidado! Afinal, são 325 km de distância da capital La Paz e já se vão mais de 30 anos desde as últimas escavações.

Segundo Carlos Lemuz (Presidente da SALP – Sociedade de Arqueólogos de La Paz): “Já no passado tentaram realizar projetos semelhantes, com resultados incompletos ou falidos, principalmente por falta de supervisão e fiscalização”. Eu mesmo vi o resultado de uma dessas tentativas em 1997, quando realizei uma caminhada pela Cordilheira - entre despenhadeiros traiçoeiros - até atingir Aucapata, o povoado mais próximo às ruínas. Na entrada do sítio, uma placa enferrujada alertava para o “Projeto Iskanwaya”. Na época, os moradores me disseram que aquele foi apenas mais uma das tentativas frustradas de fazer dali, um atrativo turístico.

Iskanwaya é um lugar difícil de ser atingido e compreendido. Espremida num pequeno espaço de terreno, apresenta "ruas" estreitas, separadas por enormes muralhas com leve grau de inclinação. Tudo ali fora meticulosamente planejado pelo povo Mollo. As ruínas são divididas em blocos, onde podemos distinguir vários agrupamentos de casas. Um deles, no entanto, é maior e mais completo, contendo todas as características típicas dos antigos mollos. Elas estão localizadas a 1700 metros de altitude, cobrindo uma área de aproximadamente 13 hectares. As inclinações de seus terraços e dos muros são de 1,5 graus em relação à perpendicular. Reclinadas, evitam possíveis deslizamentos.

Impossível não reparar as casas geminadas, originalmente pintadas de vermelho. Todas com duas dependências. A da frente é aberta para o pátio central da cidade. Cozinhavam, teciam e produziam seus objetos de cerâmica. Neste espaço, moíam seus grãos, esfregando-os sobre uma pedra côncava com o auxílio de outra circular. Ainda hoje podemos ver vários desses moedores em pedra! Já o cômodo dos fundos era fechado e acessado apenas por uma janela em forma de trapézio. Esse estilo de janela foi idealizado para suportar tremores de terra e, ao contrário do que dizem, não foi invenção dos Incas, mas sim dos Mollos!

Em Aucapata, me contaram uma interessante lenda sobre o abandono do lugar. Dizem que os mollos não conhecia o sol. Viviam de noite, e dormiam de dia. Então, os sábios de Iskanwaya - aos gritos - anunciando que uma desgraça iria se abater sobre a cidade. Falavam que uma grande bola de fogo (Sol) surgiria no céu, prognosticando uma série de calamidades. Apavorados, os moradores se trancaram em suas casas a fim de não presenciarem o acontecimento. Tão temerosos ficaram que pereceram todos de fome e medo. Assim, Iskanwaya caiu em abandono e ruína.


Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 31/10/2018 às 16h04 | daltonmaziero@uol.com.br

Novas descobertas na Ilha de Páscoa

A Ilha de Páscoa - território chileno - sempre foi sinônimo e exemplo de colapso de uma antiga civilização. As evidências arqueológicas e relatos de navegantes do XVIII nos legaram a imagem de um povo que não soube administrar sua terra e seus recursos naturais. Uma sociedade que, por esses motivos, implodir em guerras tribais por comida, madeira e sombra. Sim, sombra! Porque suas árvores foram todas cortadas para fabricação de barcos e toras de locomoção dos Moais, suas famosas estátuas ancestrais de tamanho colossal. Evidências inclusive revelam que ocorreu atos de canibalismo entre os últimos remanescentes desse povo hoje extinto.

Esses antigos habitantes da Ilha de Páscoa - os Rapanui - fazem parte de uma onda migratória polinésia, que teve início por volta de 900 dC. Em meio ao Pacífico - 3.700 Km da costa chilena -, esse povo construiu cerca de 900 estátuas ancestrais entre 1250 e 1500 dC. Quando o holandês Jakob Roggeveen aportou na ilha em 1722, encontrou evidências de uma sociedade decadente, bastante desestruturada. Mas não foi sempre assim.

Embora muitas evidências apontem para um rápido declínio social, outras bem mais recentes revelem que o povo Rapanui desenvolveu uma relação muito mais sofisticada do que imaginávamos; e que a colaboração interna foi – pelo menos durante um bom tempo – uma prática corriqueira. Os antropólogos Dale Simpson (Universidade Queensland) e Laure Dussubliex (Museu Field de História Natural de Chicago) analisaram a composição química existente em antigas ferramentas de lavrar a pedra, utilizadas para a construção dos Moais, e descobriram que havia muito mais colaboração e compartilhamento de informações, do que pudemos imaginar.

Uma das ideias vigentes, era a de que os diversos grupos – clãs – competiam entre si pelos recursos naturais e pela fabricação de estátuas, em um constante estado de beligerância. Mas não foi bem assim. Ao que tudo indica, ocorreu muita colaboração entre os clãs, seja no fornecimento de elementos naturais, seja no empréstimo de ferramentas. “Existia uma espécie de supervisão socioeconômica e política entre eles”, conta Dale. A equipe, que está a 35 anos estudando os vestígios dos Rapanui, analisou diversas ferramentas em sua estrutura microscópica, determinando sua procedência e uso nas pedreiras existentes na ilha.

Assim, agora são levados em consideração novas hipóteses avaliando o desgaste natural dos recursos, decorrente da instabilidade climática. Dessa forma, alguns antigos conceitos como o colapso e o esgotamento de recursos precisam ser revistos. Eles provavelmente ocorreram, mas talvez não da forma catastrófica e rápida como muitos autores descreveram no passado.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 24/09/2018 às 16h27 | daltonmaziero@uol.com.br

QORIKANCHA – O TEMPLO DO SOL

Em 1950, religiosos dominicanos se desesperaram nas ruas da cidade de Cusco (Peru). Um grande terremoto devastou vários edifícios, e fez vir abaixo - pela segunda vez - boa parte do Convento de Santo Domingo, que ocupava a região central desde 1534. Enquanto uns lamentavam a derrocada do Convento, outros viam a oportunidade para fazer renascer o verdadeiro templo local: O Qorikancha (Koricancha), ou Templo do Sol, construído e ampliado por vários dignitários Incas, em especial Tupa Yupanki.

O terremoto expôs uma das mais imponentes construções do Império Inca. Enquanto os edifícios modernos ruíam, os alicerces do Qorikancha suportaram os tremores, graças a primorosa arquitetura inca, com rochas habilmente encaixadas e reclinadas para suportarem tremores de terra.

O Qorikancha era mais que um templo. Foi um espaço sagrado de oração, e nele estavam além do Templo do Sol, o Templo Chuki Illapa (Trovões), o Templo da Lua, o Templo de Vênus e das Estrelas e o K’uychi, Templo do Arco Iris. Neste amplo espaço sagrado, só podiam adentrar o próprio Imperador, o sumo sacerdote (Willaq Umu), e um número restrito de sacerdotes e Virgens do Sol. Esse grupo de profissionais eram responsáveis pela celebração de datas importantes, cerimônias e monitoração de atividades celestes. O cronista “Inca” Garcilaso de La Veja (1501-1536), nos conta que no Templo do Sol estavam os corpos embalsamados dos Filhos do Sol (Imperadores), em um recinto onde tudo - mesas, cadeiras - era feito em ouro. Já no Templo da Lua, por ser considerada esposa do Sol, encontravam-se as Coyas, esposas dos Incas. Neste templo, os ornamentos eram feitos em prata.

Cieza de León (1520-1554) nos dá uma descrição impressionante das riquezas nesse recinto sagrado: “era uma vasta muralha... [Qoricancha]... retangular de 400 passos de perímetro, construía em pedras secas, perfeitamente entalhadas e ajustadas umas às outras sem outro cimento além do betume ...[...]... As portas, inteiramente revestidas de ouro, abriam-se para um jardim coberto de fragmentos de ouro fino e plantado com um milho cujo caule, folhas e espigas eram igualmente de ouro. Em meio a essa vegetação artificial, passavam umas 20 lhamas de ouro em tamanho natural. No interior do jardim se elevavam quatro santuários cujos muros eram externas e inteiramente recobertos de placas do metal precioso”.

Podemos acreditar - literalmente - nas palavras de Garcilaso e de Cieza de Leon sobre o aspecto do Qoricancha? Acredito que uma boa parte seja verdade, embora talvez haja certo exagero em relação aos ornamentos de ouro. Quem sabe novas escavações não possam nos revelar detalhes ainda mais incríveis...

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 06/09/2018 às 15h44 | daltonmaziero@uol.com.br

O mistério dos geoglifos gaúchos

Existem no sul do Brasil, estranhas formações terrestres que desafiam a ciência. São círculos “anelados”, feitos de terra, que se assemelham muito aos recentes geoglifos descobertos no Acre. Porém, chamá-los de geoglifos é apenas uma forma de categorizá-los, de aproximá-los a algo que já conhecemos. Embora as tradições populares atribuam a eles a função de currais, a verdade é que não sabemos a que se destinavam.

Levantamentos terrestres - e através do Google Earth - detectaram mais de 1000 formações espalhadas entre o Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai. Contudo, a maior parte delas é feitas por pequenas muretas de pedra ou por cercas vivas de plantas. Mas existem também os gigantescos círculos formados por terra, que alcançam entre 20 e 170 metros de diâmetro. Algumas tradições populares apontam os círculos de terra como estruturas fabricadas por escravos, no início da colonização, cuja função seria a de um curral.

Círculos formados por árvores e palmas são citados na obra de Auguste Saint-Hilaire em 1820. Eram os chamados “currais de palmas”, que nem sempre eram palmas! Muitos foram cercados por ananás, pessegueiros, caibros de madeira, espinheiros, bananeiras ou cana de açúcar. Mas pesquisadores como Joaquim Dias e André Oliveira estimam que os círculos tenham mais de 200 anos, e que estariam associados ao movimento de tropeiros do século XVIII.

Contudo, apesar dessa associação natural com os antigos currais gaúchos de pedra e palmas, os círculos anelados de terra ganharam uma nova perspectiva após a descoberta dos geoglifos do Acre. Lá também existiam teorias que aproximavam as antigas valas às reservatórios indígenas de água ou mesmo a trincheiras da Revolução Acreana (1899-1903). Posteriormente, os arqueólogos provaram tratar-se de antigas estruturas arqueológicas. Seriam então, os círculos gaúchos, construções de povos pré-históricos, utilizados posteriormente como currais ao longo da colonização europeia?

Pesquisadores como Rodrigo Aguiar, André Prous e os arqueólogos Fábio Vergara Cerqueira e Alceu Ranzi, parecem estar convencidos que alguns deles realmente pertençam a uma tradição pré-histórica. Embora Prous – “O Brasil antes dos brasileiros”, 2006 – associe os círculos gaúchos com aqueles do Acre e os aproxime da cultura Taquara, outros estudiosos - como Ana Maria Ruthschlling - lembram que os mesmos não são originários da região, ou seja, pertencem a um movimento de invasão das terras sulistas. Sendo assim, os círculos podiam já estar ali muito antes de seu movimento migratório.

Tudo indica que os círculos anelados de terra do sul do Brasil ainda guardarão seus segredos por algumas décadas, até que decidam por escavá-los da forma como fizeram com seus semelhantes no Acre.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 23/08/2018 às 17h09 | daltonmaziero@uol.com.br



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Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.


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América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

UM NOVO ROSTO PARA LUZIA?

Na noite de 02 de setembro de 2018, assistimos estarrecidos o incêndio de grandes proporções que destruiu quase a totalidade de um dos maiores acervos históricos do Brasil e do mundo, no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Independente dos culpados por esse descaso, fato é que lá se perdeu a ossada de “Luzia”, peça fundamental para o entendimento da ocupação da América.

Nos anos de 1990, ocorreu uma quebra de paradigma relacionado a essa ocupação. Até os anos de 1970, a visão norte americana indicava que ela ocorrera pela migração via Estreito de Bering, cerca de 13 mil anos atrás. Ao final da última Era Glacial (100 a 12 mil anos), o grupo que avançou formou a chamada cultura Clóvis, tornando-se caçadores-coletores nas estepes dos EUA.

Contudo, descobertas arqueológicas na América do Sul indicavam que grupos humanos se estabeleceram aqui a mais de 14 mil anos atrás, como é o caso de Monte Verde, no Chile. Ou seja, a datação da transposição do Estreito de Bering estava incorreta, e os arqueólogos norte americanos acabaram aceitando que a América do Sul possuía datações mais antigas que a da cultura Clovis.

Agora em 2018, ocorreu um novo paradigma, que só foi possível graças aos estudos da biologia molecular e do DNA fóssil. Segundo esses novos estudos, grupos humanos cruzaram o Estreito de Bering cerca de 17 mil anos atrás, em uma corrente migratória com DNA cuja afinidade se aproxima do norte da China e Sibéria; e não da África e Australásia, como se pensava antes. Essa onda migratória invadiu a América do Sul em três épocas distintas: 15 mil, 9 mil e 4,5 mil anos atrás, sendo esta última estabelecida pontualmente no Andes Centrais.

A pesquisa utilizou, entre outros, esqueletos encontrados na Lagoa Santa (Brasil), que revelaram ligações genéticas com o grupo Clovis (EUA). Portanto, ao contrário do que se pensava, o grupo brasileiro - incluindo Luzia (12.500 anos) - não possuía nenhuma proveniência africana ou aborígene. O famoso busto de Luzia - destruído no incêndio - foi concebido pelo britânico Richard Neave, na década de 1990, baseado nas feições africanas e aborígenes australianas.

Outra lição aprendida com a pesquisa de DNA, mostra que a formação morfológica craniana não são fontes confiáveis para recriações genéticas. Com essas novas informações em mãos, a especialista em reconstrução forense Caroline Wilkinson trabalha na reconstrução de outros fósseis provenientes de Lagoa Santa, na esperança de, desta vez, conseguir alcançar um resultado mais confiável do que o antigo busto de Luzia. Infelizmente, mais de 100 indivíduos - representados por fósseis - ainda não estudados, perderam-se com o terrível incêndio do Museu Nacional, limitando assim, pesquisas mais avançadas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 06/12/2018 às 16h26 | daltonmaziero@uol.com.br

A épica viagem oceânica de Tupac Yupangui

Existem inúmeros enigmas por resolver na história pré-colombiana. Talvez um dos mais curiosos seja a que fala de uma viagem oceânica feita por Túpac Yupanqui (1441-1493) em 1465, rumo a Polinésia. Túpac Yupanqui foi o 10º Governante Inca, e um dos maiores conquistadores de nosso continente. Suas andanças e explorações são comparáveis às de Alexandre o Grande, e podemos dizer seguramente, que o território peruano deve suas atuais fronteiras a Túpac.

Essa surpreendente navegação foi relatada por alguns cronistas, entre os quais Sarmiento de Gamboa, Miguel Cabello de Balboa e Martín Murúa. Sarmiento nos conta que o Inca, durante suas conquistas no litoral norte do Peru, viu aportar ali umas balsas de junco a vela, com mercadores oceânicos. Indagados das terras de onde vinham... “informaram que eram umas ilhas, chamadas uma Auachumbi e outra Niñachumbi, onde havia muita gente e ouro”. E Túpac, que parecia insaciável em suas conquistas, decidiu de imediato montar uma frota de balsas de junco e se lançar ao mar... “e para isso fez uma numerosíssima quantidade de balsas, nas quais embarcou mais de 20 mil soldados escolhidos”. E Sarmiento ainda completa sua crônica... “E navegou Túpac Inca e foi e descobriu as ilhas...e voltou de lá, trazendo gente negra e muito ouro...”

Até onde podemos crer nas palavras desses cronistas? Tecnicamente, seria possível um nativo Andino - de hábitos tradicionalmente terrestres - criar uma frota naval dessa magnitude? E que ilhas eram estas, de Auachumbi e Niñachumbi? Seriam as Galápagos ou a distante Polinésia?

Muitos historiadores acreditam hoje que Túpac realmente atingiu a Polinésia, numa viagem de 7 mil km. Na ilha de Mangareva, por exemplo, existe uma lenda do “Rei Tupa”, que chegou pelo mar de um distante país, com o objetivo de instruir as pessoas. Também é de se notar, que a ilha é uma das únicas a possuir embarcações estilo balsa à vela, como as que o Inca utilizou. Também na Ilha de Páscoa - retorno natural ao continente americano segundo as correntes marítimas do Pacífico - podemos encontrar vestígios intrigantes dessa viagem, como a existência de um muro de arquitetura igual à dos Incas. O local é conhecido como “Templo de Vinapú”, e sua semelhança com a arquitetura peruana da época de Túpac Yupanqui é assombrosa!

Em 1947, o navegante norueguês Thor Heyerdahl decidiu provar que era possível navegar da costa peruana à Polinésia em balsas de junco. A hoje lendária expedição “Kon-Tiki” aproveitou as correntes marítimas e venceu a distância em 101 dias, desembarcando em 07 de agosto de 1947 na Ilha Tuamotu, na Polinésia. Ou seja, podemos afirmar que, ao menos do ponto de vista técnico, a incrível viagem de Túpac Yupanqui foi uma realidade.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)Thomas Roe, 1611

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 19/11/2018 às 11h52 | daltonmaziero@uol.com.br

ISKANWAYA RENASCIDA!

Foi com muita felicidade que li a recente notícia da retomada das escavações de Iskanwaya (Bolívia) e do objetivo de fazer daquele local, um polo turístico. Mas tudo deve ser feito com muito cuidado! Afinal, são 325 km de distância da capital La Paz e já se vão mais de 30 anos desde as últimas escavações.

Segundo Carlos Lemuz (Presidente da SALP – Sociedade de Arqueólogos de La Paz): “Já no passado tentaram realizar projetos semelhantes, com resultados incompletos ou falidos, principalmente por falta de supervisão e fiscalização”. Eu mesmo vi o resultado de uma dessas tentativas em 1997, quando realizei uma caminhada pela Cordilheira - entre despenhadeiros traiçoeiros - até atingir Aucapata, o povoado mais próximo às ruínas. Na entrada do sítio, uma placa enferrujada alertava para o “Projeto Iskanwaya”. Na época, os moradores me disseram que aquele foi apenas mais uma das tentativas frustradas de fazer dali, um atrativo turístico.

Iskanwaya é um lugar difícil de ser atingido e compreendido. Espremida num pequeno espaço de terreno, apresenta "ruas" estreitas, separadas por enormes muralhas com leve grau de inclinação. Tudo ali fora meticulosamente planejado pelo povo Mollo. As ruínas são divididas em blocos, onde podemos distinguir vários agrupamentos de casas. Um deles, no entanto, é maior e mais completo, contendo todas as características típicas dos antigos mollos. Elas estão localizadas a 1700 metros de altitude, cobrindo uma área de aproximadamente 13 hectares. As inclinações de seus terraços e dos muros são de 1,5 graus em relação à perpendicular. Reclinadas, evitam possíveis deslizamentos.

Impossível não reparar as casas geminadas, originalmente pintadas de vermelho. Todas com duas dependências. A da frente é aberta para o pátio central da cidade. Cozinhavam, teciam e produziam seus objetos de cerâmica. Neste espaço, moíam seus grãos, esfregando-os sobre uma pedra côncava com o auxílio de outra circular. Ainda hoje podemos ver vários desses moedores em pedra! Já o cômodo dos fundos era fechado e acessado apenas por uma janela em forma de trapézio. Esse estilo de janela foi idealizado para suportar tremores de terra e, ao contrário do que dizem, não foi invenção dos Incas, mas sim dos Mollos!

Em Aucapata, me contaram uma interessante lenda sobre o abandono do lugar. Dizem que os mollos não conhecia o sol. Viviam de noite, e dormiam de dia. Então, os sábios de Iskanwaya - aos gritos - anunciando que uma desgraça iria se abater sobre a cidade. Falavam que uma grande bola de fogo (Sol) surgiria no céu, prognosticando uma série de calamidades. Apavorados, os moradores se trancaram em suas casas a fim de não presenciarem o acontecimento. Tão temerosos ficaram que pereceram todos de fome e medo. Assim, Iskanwaya caiu em abandono e ruína.


Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 31/10/2018 às 16h04 | daltonmaziero@uol.com.br

Novas descobertas na Ilha de Páscoa

A Ilha de Páscoa - território chileno - sempre foi sinônimo e exemplo de colapso de uma antiga civilização. As evidências arqueológicas e relatos de navegantes do XVIII nos legaram a imagem de um povo que não soube administrar sua terra e seus recursos naturais. Uma sociedade que, por esses motivos, implodir em guerras tribais por comida, madeira e sombra. Sim, sombra! Porque suas árvores foram todas cortadas para fabricação de barcos e toras de locomoção dos Moais, suas famosas estátuas ancestrais de tamanho colossal. Evidências inclusive revelam que ocorreu atos de canibalismo entre os últimos remanescentes desse povo hoje extinto.

Esses antigos habitantes da Ilha de Páscoa - os Rapanui - fazem parte de uma onda migratória polinésia, que teve início por volta de 900 dC. Em meio ao Pacífico - 3.700 Km da costa chilena -, esse povo construiu cerca de 900 estátuas ancestrais entre 1250 e 1500 dC. Quando o holandês Jakob Roggeveen aportou na ilha em 1722, encontrou evidências de uma sociedade decadente, bastante desestruturada. Mas não foi sempre assim.

Embora muitas evidências apontem para um rápido declínio social, outras bem mais recentes revelem que o povo Rapanui desenvolveu uma relação muito mais sofisticada do que imaginávamos; e que a colaboração interna foi – pelo menos durante um bom tempo – uma prática corriqueira. Os antropólogos Dale Simpson (Universidade Queensland) e Laure Dussubliex (Museu Field de História Natural de Chicago) analisaram a composição química existente em antigas ferramentas de lavrar a pedra, utilizadas para a construção dos Moais, e descobriram que havia muito mais colaboração e compartilhamento de informações, do que pudemos imaginar.

Uma das ideias vigentes, era a de que os diversos grupos – clãs – competiam entre si pelos recursos naturais e pela fabricação de estátuas, em um constante estado de beligerância. Mas não foi bem assim. Ao que tudo indica, ocorreu muita colaboração entre os clãs, seja no fornecimento de elementos naturais, seja no empréstimo de ferramentas. “Existia uma espécie de supervisão socioeconômica e política entre eles”, conta Dale. A equipe, que está a 35 anos estudando os vestígios dos Rapanui, analisou diversas ferramentas em sua estrutura microscópica, determinando sua procedência e uso nas pedreiras existentes na ilha.

Assim, agora são levados em consideração novas hipóteses avaliando o desgaste natural dos recursos, decorrente da instabilidade climática. Dessa forma, alguns antigos conceitos como o colapso e o esgotamento de recursos precisam ser revistos. Eles provavelmente ocorreram, mas talvez não da forma catastrófica e rápida como muitos autores descreveram no passado.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 24/09/2018 às 16h27 | daltonmaziero@uol.com.br

QORIKANCHA – O TEMPLO DO SOL

Em 1950, religiosos dominicanos se desesperaram nas ruas da cidade de Cusco (Peru). Um grande terremoto devastou vários edifícios, e fez vir abaixo - pela segunda vez - boa parte do Convento de Santo Domingo, que ocupava a região central desde 1534. Enquanto uns lamentavam a derrocada do Convento, outros viam a oportunidade para fazer renascer o verdadeiro templo local: O Qorikancha (Koricancha), ou Templo do Sol, construído e ampliado por vários dignitários Incas, em especial Tupa Yupanki.

O terremoto expôs uma das mais imponentes construções do Império Inca. Enquanto os edifícios modernos ruíam, os alicerces do Qorikancha suportaram os tremores, graças a primorosa arquitetura inca, com rochas habilmente encaixadas e reclinadas para suportarem tremores de terra.

O Qorikancha era mais que um templo. Foi um espaço sagrado de oração, e nele estavam além do Templo do Sol, o Templo Chuki Illapa (Trovões), o Templo da Lua, o Templo de Vênus e das Estrelas e o K’uychi, Templo do Arco Iris. Neste amplo espaço sagrado, só podiam adentrar o próprio Imperador, o sumo sacerdote (Willaq Umu), e um número restrito de sacerdotes e Virgens do Sol. Esse grupo de profissionais eram responsáveis pela celebração de datas importantes, cerimônias e monitoração de atividades celestes. O cronista “Inca” Garcilaso de La Veja (1501-1536), nos conta que no Templo do Sol estavam os corpos embalsamados dos Filhos do Sol (Imperadores), em um recinto onde tudo - mesas, cadeiras - era feito em ouro. Já no Templo da Lua, por ser considerada esposa do Sol, encontravam-se as Coyas, esposas dos Incas. Neste templo, os ornamentos eram feitos em prata.

Cieza de León (1520-1554) nos dá uma descrição impressionante das riquezas nesse recinto sagrado: “era uma vasta muralha... [Qoricancha]... retangular de 400 passos de perímetro, construía em pedras secas, perfeitamente entalhadas e ajustadas umas às outras sem outro cimento além do betume ...[...]... As portas, inteiramente revestidas de ouro, abriam-se para um jardim coberto de fragmentos de ouro fino e plantado com um milho cujo caule, folhas e espigas eram igualmente de ouro. Em meio a essa vegetação artificial, passavam umas 20 lhamas de ouro em tamanho natural. No interior do jardim se elevavam quatro santuários cujos muros eram externas e inteiramente recobertos de placas do metal precioso”.

Podemos acreditar - literalmente - nas palavras de Garcilaso e de Cieza de Leon sobre o aspecto do Qoricancha? Acredito que uma boa parte seja verdade, embora talvez haja certo exagero em relação aos ornamentos de ouro. Quem sabe novas escavações não possam nos revelar detalhes ainda mais incríveis...

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 06/09/2018 às 15h44 | daltonmaziero@uol.com.br

O mistério dos geoglifos gaúchos

Existem no sul do Brasil, estranhas formações terrestres que desafiam a ciência. São círculos “anelados”, feitos de terra, que se assemelham muito aos recentes geoglifos descobertos no Acre. Porém, chamá-los de geoglifos é apenas uma forma de categorizá-los, de aproximá-los a algo que já conhecemos. Embora as tradições populares atribuam a eles a função de currais, a verdade é que não sabemos a que se destinavam.

Levantamentos terrestres - e através do Google Earth - detectaram mais de 1000 formações espalhadas entre o Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai. Contudo, a maior parte delas é feitas por pequenas muretas de pedra ou por cercas vivas de plantas. Mas existem também os gigantescos círculos formados por terra, que alcançam entre 20 e 170 metros de diâmetro. Algumas tradições populares apontam os círculos de terra como estruturas fabricadas por escravos, no início da colonização, cuja função seria a de um curral.

Círculos formados por árvores e palmas são citados na obra de Auguste Saint-Hilaire em 1820. Eram os chamados “currais de palmas”, que nem sempre eram palmas! Muitos foram cercados por ananás, pessegueiros, caibros de madeira, espinheiros, bananeiras ou cana de açúcar. Mas pesquisadores como Joaquim Dias e André Oliveira estimam que os círculos tenham mais de 200 anos, e que estariam associados ao movimento de tropeiros do século XVIII.

Contudo, apesar dessa associação natural com os antigos currais gaúchos de pedra e palmas, os círculos anelados de terra ganharam uma nova perspectiva após a descoberta dos geoglifos do Acre. Lá também existiam teorias que aproximavam as antigas valas às reservatórios indígenas de água ou mesmo a trincheiras da Revolução Acreana (1899-1903). Posteriormente, os arqueólogos provaram tratar-se de antigas estruturas arqueológicas. Seriam então, os círculos gaúchos, construções de povos pré-históricos, utilizados posteriormente como currais ao longo da colonização europeia?

Pesquisadores como Rodrigo Aguiar, André Prous e os arqueólogos Fábio Vergara Cerqueira e Alceu Ranzi, parecem estar convencidos que alguns deles realmente pertençam a uma tradição pré-histórica. Embora Prous – “O Brasil antes dos brasileiros”, 2006 – associe os círculos gaúchos com aqueles do Acre e os aproxime da cultura Taquara, outros estudiosos - como Ana Maria Ruthschlling - lembram que os mesmos não são originários da região, ou seja, pertencem a um movimento de invasão das terras sulistas. Sendo assim, os círculos podiam já estar ali muito antes de seu movimento migratório.

Tudo indica que os círculos anelados de terra do sul do Brasil ainda guardarão seus segredos por algumas décadas, até que decidam por escavá-los da forma como fizeram com seus semelhantes no Acre.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 23/08/2018 às 17h09 | daltonmaziero@uol.com.br



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Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.


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