Jornal Página 3
Coluna
ALBC Ecos Literários
Por Academia de Letras

Polarização e Facebook

A queda de Roma não se deu no virar da página do livro de história. As mudanças são processos. Não faz muito tempo era o Orkut a rede social que fazia sucesso e concentrava nossos amigos e grupos. Hoje nem mais existe. Quem não se lembra do MSN para troca de mensagens? Atualmente a unanimidade é o WhatsApp.

A polarização gerada pela política pode fazer como vítima de bala perdida aquele transeunte que nem sabia que estava ocorrendo um tiroteio: o Facebook.

Essa rede social, que tanto se expandiu, que revelou caminhos compartilhados num simples “check in” onde se postava o restaurante, a casa da cunhada, o prato de almoço ou jantar parece estremecer. Entraram os amigos, depois os pais, os tios, os avós, aqueles que não encontrávamos há 30 anos, e se fez uma rede gigantesca, onde o cardume humano entrou para ser apanhado.

O excesso de exposição gerou enfraquecimento da segurança pessoal mas, pior que isso, aflorou nossas ebulições internas. No churrasco regado a cerveja, a discórdia passa longe dos “grenais” e “flaflus”. Os posicionamentos se distanciaram do Equador. Cada um em seu polo congelado de convicção.

Não existem mais papos mornos em noites enluaradas, apenas a vontade que o outro se cale, que seja breve, que a palavra volte para nós para discorrermos sobre nossas certezas.
E nessa contemporaneidade, as convicções são escarpas intransponíveis, beirando o absoluto.
Só se seguem os assemelhados. Para os demais, o sono de 30 dias e para os radicais, no sentido oposto, um clique para parar de seguir, uma vez que a exclusão significa o maior dos desacatos, um assassinato virtual sem atenuantes.

As redes sociais continuam fortes, nossos celulares são a extensão natural de nossas mãos e olhos.
Mas os ventos mudam, o dinheiro troca de mãos, novas necessidades são criadas disputando nossa atenção. Muita gente já frequenta outras plataformas e diz que não olha mais o Facebook. No redemoinho humano, a rede social poderá ser a próxima vítima.

Eliana Jimenez
Presidente da ALBC

Escrito por Academia de Letras, 07/11/2018 às 11h30 | elianarjz@gmail.com

O livro e o professor

Homenagem da ALBC - Academia de Letras de Balneário Camboriú ao dia do professor

Abrem o livro
de cores intensas
profundas mensagens
na sala de aula.

Desfilam os mestres
em seus pedestais
Drummond e Bilac
em tons magistrais.

Pintores, autores
vão ser retratados
nas folhas macias
tão bem decoradas.

Despertam talvez
a arte escondida
no aluno que vê
na aluna que lê.

E aí professor,
aí está você
em meio aos grandes
é grande também
alcançando o sentido
de fazer o bem.

Escrito por Academia de Letras, 15/10/2018 às 10h19 | elianarjz@gmail.com

CORDÃO ETERNO

No colo, o filho
nas mãos, o livro:
leitura.
Olhinhos brilhantes
sorriso aberto
dedinhos
tocando figuras:
curiosidade.
A trama se inunda
de porquês.
A mãe explica
floreia
recria
recreio
prepara o caminho
de um novo leitor.
O pequeno herói
das fábulas e aventuras
se rende ao sono.
Na cama,
o aconchego.
O livro aguarda
no aparador.
No dia seguinte
um novo ritual
que para sempre
será saudade.
Mãe e filho
cordão umbilical
de leitura e amor.


Eliana Jimenez

Selecionado para Antologia:
5º Prêmio Literário Sérgio Farina - São Leopoldo - RS

Escrito por Academia de Letras, 08/10/2018 às 14h40 | elianarjz@gmail.com

Teus olhos serenos

Teu Corpo eterno,
No aguardo do tempo
O brilho da alma!
O febril sentimento
Eu falo em versos
Diversos, inversos
Mantenho a distância
Do teu teorema
Tua língua na minha
Meu velho dilema
Amar sem medidas
Com nós e feridas
Desato , num ato
Num simples poema.

Audo Morel da Silva

Escrito por Academia de Letras, 19/09/2018 às 17h50 | elianarjz@gmail.com

A brisa d’alma

Alguns ouvem a melodia da vida,
Outros sentem a brisa que toca a alma,
Tem aqueles que percebem muito além dos sentidos,
Há também os que se tocam e, por isso, tocam corações,
Alguns ainda conseguem ouvir o inaudível e decifrar a grandiosidade da vida
E tem, com certeza, os que reconhecem o aroma da excelência do ser,
Esses são os que se tornam um com o Todo, revelando A Divina melodia da própria
existência.
Nesse estado de graça, tudo é possível, o encontro se dá em cada olhar
E a cada gesto, reconhecemos a manifestação do
Imponderável.

Miriam de Almeida

Escrito por Academia de Letras, 13/09/2018 às 12h24 | elianarjz@gmail.com

Tração Humana

Crônica de Eliana Jimenez selecionada para antologia no Prêmio SESC de Literatura: Crônicas Rubem Braga – Brasília/DF – 2013.

Sábado, 8h de uma manhã de inverno. Dirigia devagar sem familiaridade com as ruas daquele bairro distante. Numa colina logo à frente reduzi a velocidade ao ver uma carroça de duas rodas amontoada com toda sorte de materiais recicláveis, reaproveitáveis ou nem tanto. Pilhas de papelão, teclados de computador, monitores antigos, embalagens plásticas, vidros e até uma cadeira de três pés.

A carroça vencia a subida metro a metro penosamente e não havia espaço para ultrapassagem. Atrás de mim o motorista de um carro de luxo começou a buzinar incessantemente. Pelo retrovisor observei que fazia gestos obscenos e depois começou a bater ensandecido com as duas mãos no volante num acesso de fúria.

Tentou por duas vezes me ultrapassar de maneira perigosa, mas acabou demovido do intento pelo fluxo de carros em sentido contrário.

Sem pressa e somente quando tive segurança, ultrapassei a carroça. Observei o homem que a arrastava: idoso, com longa barba branca, vestindo uma roupa surrada e descalço. Confesso que se tal carga fosse conduzida por um cavalo, já me traria comoção pelos maus-tratos ao animal, mas era muito pior. Uma carroça de despojos de toda sorte conduzida por tração humana, na verdade tração desumana.

Assim que terminei a ultrapassagem, o carro de luxo já passou por mim e mais uma vez acionou a buzina registrando o seu protesto por ter sido retido em seu trajeto.

Trocamos olhares durante os segundos em que nossos carros ficaram emparelhados. Tinha o semblante enfurecido e balbuciou um xingamento na minha direção, daqueles fáceis de entender por leitura labial. Seguiu o homem do carro de luxo cantando pneus, indiferente ao padecimento alheio.

Observei mais uma vez o carroceiro. Um pobre coitado que carregava o peso do descaso de uma sociedade desigual. Um homem sem chances, sem dignidade, em estado de miséria, cuja visibilidade passa a existir somente no momento em que atrapalha o fluxo de trânsito.

Acabei por me sentir mal em também passar por aquele homem sem dar-lhe nenhum conforto além de uma solidariedade em pensamento, que de nada lhe adiantaria.

As pessoas estão preocupadas apenas com a própria vida, no máximo com a própria genética, cuidando dos seus familiares sem se imaginarem como componentes de uma família única e universal de seres humanos com as mesmas necessidades e os mesmos anseios.

A indiferença precisa ser combatida. Olhar o outro como o próximo, espalhar atitudes fraternas, atenuar fronteiras, não separar as pessoas por crenças, opções ou religiões é o caminho que leva ao bem comum.

No meu trajeto naquela manhã fria, sonhei com um mundo de mãos justapostas, iguais e diferentes, calejadas, bem tratadas, coloridas, antigas, recém-nascidas, mas que fossem mãos enlaçadas, engajadas na busca de um novo tempo de trabalhos dignos, pés calçados e sofrimentos apaziguados.

Escrito por Academia de Letras, 03/09/2018 às 16h03 | elianarjz@gmail.com



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Polarização e Facebook

A queda de Roma não se deu no virar da página do livro de história. As mudanças são processos. Não faz muito tempo era o Orkut a rede social que fazia sucesso e concentrava nossos amigos e grupos. Hoje nem mais existe. Quem não se lembra do MSN para troca de mensagens? Atualmente a unanimidade é o WhatsApp.

A polarização gerada pela política pode fazer como vítima de bala perdida aquele transeunte que nem sabia que estava ocorrendo um tiroteio: o Facebook.

Essa rede social, que tanto se expandiu, que revelou caminhos compartilhados num simples “check in” onde se postava o restaurante, a casa da cunhada, o prato de almoço ou jantar parece estremecer. Entraram os amigos, depois os pais, os tios, os avós, aqueles que não encontrávamos há 30 anos, e se fez uma rede gigantesca, onde o cardume humano entrou para ser apanhado.

O excesso de exposição gerou enfraquecimento da segurança pessoal mas, pior que isso, aflorou nossas ebulições internas. No churrasco regado a cerveja, a discórdia passa longe dos “grenais” e “flaflus”. Os posicionamentos se distanciaram do Equador. Cada um em seu polo congelado de convicção.

Não existem mais papos mornos em noites enluaradas, apenas a vontade que o outro se cale, que seja breve, que a palavra volte para nós para discorrermos sobre nossas certezas.
E nessa contemporaneidade, as convicções são escarpas intransponíveis, beirando o absoluto.
Só se seguem os assemelhados. Para os demais, o sono de 30 dias e para os radicais, no sentido oposto, um clique para parar de seguir, uma vez que a exclusão significa o maior dos desacatos, um assassinato virtual sem atenuantes.

As redes sociais continuam fortes, nossos celulares são a extensão natural de nossas mãos e olhos.
Mas os ventos mudam, o dinheiro troca de mãos, novas necessidades são criadas disputando nossa atenção. Muita gente já frequenta outras plataformas e diz que não olha mais o Facebook. No redemoinho humano, a rede social poderá ser a próxima vítima.

Eliana Jimenez
Presidente da ALBC

Escrito por Academia de Letras, 07/11/2018 às 11h30 | elianarjz@gmail.com

O livro e o professor

Homenagem da ALBC - Academia de Letras de Balneário Camboriú ao dia do professor

Abrem o livro
de cores intensas
profundas mensagens
na sala de aula.

Desfilam os mestres
em seus pedestais
Drummond e Bilac
em tons magistrais.

Pintores, autores
vão ser retratados
nas folhas macias
tão bem decoradas.

Despertam talvez
a arte escondida
no aluno que vê
na aluna que lê.

E aí professor,
aí está você
em meio aos grandes
é grande também
alcançando o sentido
de fazer o bem.

Escrito por Academia de Letras, 15/10/2018 às 10h19 | elianarjz@gmail.com

CORDÃO ETERNO

No colo, o filho
nas mãos, o livro:
leitura.
Olhinhos brilhantes
sorriso aberto
dedinhos
tocando figuras:
curiosidade.
A trama se inunda
de porquês.
A mãe explica
floreia
recria
recreio
prepara o caminho
de um novo leitor.
O pequeno herói
das fábulas e aventuras
se rende ao sono.
Na cama,
o aconchego.
O livro aguarda
no aparador.
No dia seguinte
um novo ritual
que para sempre
será saudade.
Mãe e filho
cordão umbilical
de leitura e amor.


Eliana Jimenez

Selecionado para Antologia:
5º Prêmio Literário Sérgio Farina - São Leopoldo - RS

Escrito por Academia de Letras, 08/10/2018 às 14h40 | elianarjz@gmail.com

Teus olhos serenos

Teu Corpo eterno,
No aguardo do tempo
O brilho da alma!
O febril sentimento
Eu falo em versos
Diversos, inversos
Mantenho a distância
Do teu teorema
Tua língua na minha
Meu velho dilema
Amar sem medidas
Com nós e feridas
Desato , num ato
Num simples poema.

Audo Morel da Silva

Escrito por Academia de Letras, 19/09/2018 às 17h50 | elianarjz@gmail.com

A brisa d’alma

Alguns ouvem a melodia da vida,
Outros sentem a brisa que toca a alma,
Tem aqueles que percebem muito além dos sentidos,
Há também os que se tocam e, por isso, tocam corações,
Alguns ainda conseguem ouvir o inaudível e decifrar a grandiosidade da vida
E tem, com certeza, os que reconhecem o aroma da excelência do ser,
Esses são os que se tornam um com o Todo, revelando A Divina melodia da própria
existência.
Nesse estado de graça, tudo é possível, o encontro se dá em cada olhar
E a cada gesto, reconhecemos a manifestação do
Imponderável.

Miriam de Almeida

Escrito por Academia de Letras, 13/09/2018 às 12h24 | elianarjz@gmail.com

Tração Humana

Crônica de Eliana Jimenez selecionada para antologia no Prêmio SESC de Literatura: Crônicas Rubem Braga – Brasília/DF – 2013.

Sábado, 8h de uma manhã de inverno. Dirigia devagar sem familiaridade com as ruas daquele bairro distante. Numa colina logo à frente reduzi a velocidade ao ver uma carroça de duas rodas amontoada com toda sorte de materiais recicláveis, reaproveitáveis ou nem tanto. Pilhas de papelão, teclados de computador, monitores antigos, embalagens plásticas, vidros e até uma cadeira de três pés.

A carroça vencia a subida metro a metro penosamente e não havia espaço para ultrapassagem. Atrás de mim o motorista de um carro de luxo começou a buzinar incessantemente. Pelo retrovisor observei que fazia gestos obscenos e depois começou a bater ensandecido com as duas mãos no volante num acesso de fúria.

Tentou por duas vezes me ultrapassar de maneira perigosa, mas acabou demovido do intento pelo fluxo de carros em sentido contrário.

Sem pressa e somente quando tive segurança, ultrapassei a carroça. Observei o homem que a arrastava: idoso, com longa barba branca, vestindo uma roupa surrada e descalço. Confesso que se tal carga fosse conduzida por um cavalo, já me traria comoção pelos maus-tratos ao animal, mas era muito pior. Uma carroça de despojos de toda sorte conduzida por tração humana, na verdade tração desumana.

Assim que terminei a ultrapassagem, o carro de luxo já passou por mim e mais uma vez acionou a buzina registrando o seu protesto por ter sido retido em seu trajeto.

Trocamos olhares durante os segundos em que nossos carros ficaram emparelhados. Tinha o semblante enfurecido e balbuciou um xingamento na minha direção, daqueles fáceis de entender por leitura labial. Seguiu o homem do carro de luxo cantando pneus, indiferente ao padecimento alheio.

Observei mais uma vez o carroceiro. Um pobre coitado que carregava o peso do descaso de uma sociedade desigual. Um homem sem chances, sem dignidade, em estado de miséria, cuja visibilidade passa a existir somente no momento em que atrapalha o fluxo de trânsito.

Acabei por me sentir mal em também passar por aquele homem sem dar-lhe nenhum conforto além de uma solidariedade em pensamento, que de nada lhe adiantaria.

As pessoas estão preocupadas apenas com a própria vida, no máximo com a própria genética, cuidando dos seus familiares sem se imaginarem como componentes de uma família única e universal de seres humanos com as mesmas necessidades e os mesmos anseios.

A indiferença precisa ser combatida. Olhar o outro como o próximo, espalhar atitudes fraternas, atenuar fronteiras, não separar as pessoas por crenças, opções ou religiões é o caminho que leva ao bem comum.

No meu trajeto naquela manhã fria, sonhei com um mundo de mãos justapostas, iguais e diferentes, calejadas, bem tratadas, coloridas, antigas, recém-nascidas, mas que fossem mãos enlaçadas, engajadas na busca de um novo tempo de trabalhos dignos, pés calçados e sofrimentos apaziguados.

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