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Depois de gastar R$ 80 milhões, Emasa continua poluindo o Rio Camboriú

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Ricardo Koeddermann
Dia 17 de fevereiro de 2016, começo da noite (20h30). Aqui deságua o esgoto tratado pela Emasa, o que o laboratório Freitag chamou de Ponto 1

Quarta, 13/4/2016 13:51.

Por Waldemar Cezar Neto

A contaminação do Rio Camboriú por bactérias no trecho entre a ponte da BR-101 e a Barra Sul é espantosa, conforme apurou laudo encomendado pelo Página 3 ao Laboratório Freitag, especializado em análises ambientais, sediado em Timbó. 

Os prejuízos à cidade são enormes, porque nessa região que é uma das preferidas dos turistas, se concentram empreendimentos imobiliários; investimentos em turismo; atividades de lazer náutico e praticamente toda frota pesqueira do Bairro da Barra.

Há fortes indícios de que o tratamento da Empresa Municipal de Água e Saneamento (Emasa), para eliminação de bactérias não é bem feito.

Os problemas são deliberadamente escondidos da sociedade, os laudos daquela autarquia sobre a qualidade do tratamento de esgoto estavam escondidos até esta semana quando o Página 3 cobrou a divulgação, porque ela é garantida em lei.

Os especialistas não sabem quanto a coleta e o tratamento deficitários do esgoto influenciam nos fenômenos que prejudicam a praia central, mas todos os consultados têm certeza que existem efeitos nefastos.

Um desses problemas são os briozoários, algas que deixam a praia central imunda, gerando custos extraordinários para a limpeza pública e prejuízos marcantes para o turismo. 

Hoje será lançado o Plano de Recursos Hídricos, que no futuro próximo, poderá ser uma ferramenta para normatizar a gestão dos recursos hídricos da bacia do Rio Camboriú.

Exames não deixam dúvidas sobre a poluição por esgotos

O laboratório contratado pelo jornal coletou amostras no dia 16 de março, em três pontos do Rio Camboriú. No Ponto 1, a saída do tratamento da Emasa foram constatadas 3.300.000 UFCs (Unidades Formadora de Colônias)/100 ml quando o ideal seria abaixo de 1.000/100 ml. Essa amostra é influenciada pela saída do tratamento e por um canal que vem do Parque Bandeirantes. 

O fedor no local é insuportável e a contaminação tão grande que altera a viscosidade da água, ela fica mais grossa. A poluição no local acontece há vários anos.

No segundo ponto de coleta, onde o Rio das Ostras chega ao Rio Camboriú, o laboratório Freitag apontou 3.900.000 UFC/100 ml. E no Ponto 3, no Rio Pedro Pinto (também conhecido como rio do Donatil), foram constatadas 2.500.000 UFC/100 ml.

Essa sujeira toda se espalha pelas várias marinas existentes no local, pelos atracadouros dos pescadores da Barra e dependendo do vento e outras condições climáticas, o fedor empesta o ar também para os turistas, frequentadores de restaurantes e moradores dos condomínios da Barra Sul e de parte da Avenida Atlântica.

Rede de esgoto continua incompleta em diversas regiões

A administração Edson Piriquito foi um caos para a Emasa, diretores sendo trocados com freqüência, licitações milionárias com divergências entre o contratado e o executado e fraudes grosseiras constatadas, mas a extensão de tudo isso só poderia ser conhecida após uma profunda auditoria.

Tempos atrás uma batida do Ministério Público resultou na apreensão de milhares de documentos, congelamento de bens de alguns diretores e um processo judicial até hoje sem desfecho.

Depois de gastar quase R$ 80 milhões em expansão da rede de esgotos, uma nova estação de tratamento e outras melhorias a Emasa, inexplicavelmente, continua sem cobertura em diversas áreas da cidade, inclusive algumas que foram licitadas.

Em algumas regiões onde o sistema de esgoto está disponível ele é quase inútil, porque a Emasa nunca exigiu que os consumidores se ligassem à rede que passa em frente às suas casas.

Centro, Nações, Vila Real e Iate Clube estão com o esgoto funcionando, mas ninguém sabe a quantidade de ligações clandestinas, em especial nos bairros onde a rede foi feita mais recentemente.

No Bairro dos Municípios faltam quase 8 Km de rede e duas elevatórias. Na Barra e São Judas também falta rede em algumas áreas. No bairro Nova Esperança existem áreas com esgotos e um trecho sem porque depende de uma elevatória. No Parque Bandeirantes a cobertura é total, mas a Emasa não sabe se as residências estão ligadas ou não.

Na Barra, São Judas, Nova Esperança etc. o destino final do esgoto não tratado é o Rio Camboriú, contribuindo para a poluição do trecho objeto desta reportagem.

Emasa esconde do público as análises de água e esgoto

A legislação prevê que os cidadãos tenham amplo acesso aos relatórios da qualidade da água e do esgoto, mas a Emasa esconde os laudos dos exames que realiza. Ao ser consultada pela reportagem a diretora técnica da Emasa, Kelli Cristina Dacol, disse que o procedimento correto é publicar tudo e mandou que isso fosse feito.

Mesmo com a determinação da diretora, a divulgação por parte da Emasa foi incompleta. O responsável pelas análises do esgoto, Caio Cardinali Rebouças, disse que os exames eram semanais, mas não divulgou os laudos de julho de 2014 a julho de 2015.

Foram publicados os resultados de janeiro, fevereiro e março deste ano com um dos indicadores, a Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO), confirmando problemas no tratamento.

O comportamento dissimulado e ilegal do pessoal da Emasa em relação a esses relatórios levanta a suspeita que durante pelo menos um ano, entre julho de 2014 a julho de 2015 a estação tratou precariamente o esgoto.

Esconder os resultados dos exames laboratoriais é praxe e não exceção. Apenas um funcionário, Caio Cardinali, tem acesso aos documentos, comportamento bizarro numa empresa cuja qualidade do produto deveria ser de conhecimento geral, porque impacta diretamente a saúde dos consumidores.

O assessor de imprensa da Emasa, Aderbal Machado, conta que alertou diversas vezes sobre a ilegalidade de não publicar os laudos, mas não conseguiu obtê-los para colocar no portal da Emasa.

O presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Camboriú, Paulo Ricardo Schwingel, destacou que a falta de acesso à informação é um problema, há um ano e meio ele tenta obter os laudos da Emasa.

Sobre os laudos obtidos pelo Página 3, Schwingel disse que o Comitê desconhecia que os níveis de contaminação eram tão elevados. “Esta análise é bem preocupante, temos um problema no rio que tem que ser sanado, vou levar na próxima assembléia do Comitê e a Emasa terá que se posicionar”, antecipou.

Outro documento importante, o Relatório Anual da Qualidade Ambiental, previsto em lei municipal desde 2010, nunca foi produzido. Caberia à Secretaria Municipal do Meio ambiente fazê-lo, incluindo os laudos de água e esgoto. A direção de secretaria (que está sem secretário) explicou que sequer tinha conhecimento desta lei.

Para completar, o vereador Orlando Angioletti, integrante da comissão permanente de Preservação do Meio Ambiente, disse que nunca recebeu um relatório da Emasa.

Agência que deveria regular a Emasa não regula nada

A Agência de Regulação de Serviços Públicos de Santa Catarina (Aresc), que deveria fiscalizar a Emasa, custou no ano passado R$ 438 mil aos contribuintes de Balneário Camboriú e pode-se dizer que foi um dinheiro jogado fora.

A última análise de esgoto feita pela Agência em Balneário Camboriú foi em 15 de dezembro do ano passado e não serve para muita coisa, porque não mediram coliformes fecais (UFCs) indicador que não é exigido na legislação (por lobby das empresas de saneamento), mas é fundamental para avaliar a qualidade do tratamento.

Na análise que o Página 3 encomendou ao Laboratório Freitag, foram apurados 45 indicadores, contra 5 da análise da Agência Reguladora.
Cópia do laudo encomendado pelo Página 3 foi enviado à gerente de fiscalização de Agência, Luíza Kaschny Borges, que prometeu enviar uma equipa para realizar uma fiscalização emergencial nesta semana. 

Esta agência é a mesma que prometeu para o ano passado -e até hoje não fez- um estudo tarifário que poderia reduzir a tarifa dos condomínios de Balneário Camboriú.

 

Pode estar ocorrendo tratamento incompleto

Algumas pessoas que conhecem a rotina da Estação de Tratamento de Esgotos, localizada no bairro Nova Esperança, asseguram que é comum a Emasa deixar de fazer uma das importantes etapas do tratamento, a remoção de coliformes e outros organismos potencialmente causadores de doenças.

É um crime ambiental, coloca a saúde das pessoas em risco, mas fontes que só concordaram falar sob sigilo, asseguraram que presenciaram o fato e em mais de uma ocasião.

Essa etapa, uma espécie de esterilização da água que era esgoto e passou pela remoção dos sólidos, é feita ao final do processo e quando bem executada deve zerar os patogênicos, matando todos os organismos vivos.

As informações sobre compras dos produtos usados nesta etapa, disponíveis no Portal da Transparência da Emasa, não tem transparência alguma, é impossível calcular quanto desses produtos químicos foram adquiridos em diferentes datas. Na verdade até editais de licitação sumiram do sistema.

Diretora da Emasa diz que é preciso identificar os clandestinos

A diretora técnica da Emasa, Kelli Cristina Dacol, entende que para eliminar problemas como a poluição do Canal do Marambaia não adianta ações midiáticas, é necessário um trabalho formiguinha, de casa em casa, buscando aquelas que não estão ligadas à rede.

O raciocínio está correto, no trecho final o Canal do Marambaia recebe forte contribuição do Bairro Ariribá e do Bairro das Nações, onde Kelli acredita que é “provável o alto índice de esgotos clandestinos”.

O diagnóstico correto não exime a diretora de co-responsabilidade no tratamento político dado ao problema. O governo Piriquito há anos evita obrigar os consumidores a se ligarem à rede porque isso gera constrangimentos e despesas para o cidadão, é politicamente antipático, mesmo se tratando de um crime ambiental.

Não tem outra forma de interpretar o fato da Emasa não saber, por exemplo, quais as casas que estão ligadas ou não à rede no pequeno Parque Bandeirantes.

Já está constatado que a rede de escoamento da água da chuva, a pluvial, recebe esgotos que deveriam ser descarregados na rede cloacal que em tese seria estanque e levaria os dejetos da casa do consumidor até a estação de tratamento, sem deixar nada pelo caminho.

Hoje a realidade não é assim, mas poderia ser, porque a Emasa é uma empresa milionária, usando um termo que define bem suas múltiplas realidades, joga dinheiro pelo ladrão.

"Plano diretor" da bacia, lançado hoje, traz esperanças

Hoje (13), o secretário do Desenvolvimento Econômico Sustentável (SDS), Carlos Chiodini, assinará a autorização do início dos trabalhos de elaboração do Plano de Bacia do Rio Camboriú - uma espécie de Plano Diretor do rio e que além de determinar diretrizes para a gestão dos recursos hídricos, vai legitimar o Comitê Camboriú como órgão responsável pelos conflitos envolvendo o uso do água. É a esperança de coibir a conivência do poder público com os abusos silenciosos sofridos pelo Rio Camboriú.

O evento será às 16h, no auditório do Instituto Federal Catarinense, em Camboriú. “O estudo vai apontar a situação hídrica do Rio Camboriú, em termos de qualidade e quantidade. A partir do diagnóstico, poderemos traçar estratégias e definir metas para recuperação e proteção da bacia hidrográfica”, salientou Chiodini.

O investimento será de R$ 1.143.433,26, proveniente do Fundo de Recursos Hídricos (Fehidro), administrado pela SDS. O Plano tem um ano e meio para ficar pronto. Leia mais aqui.

Moradores relatam os problemas para quem vive próximo ao rio

Nelson Nitz (tem uma casa com marina na altura do Poço das Pedras): “Falta de responsabilidade dos administradores da prefeitura e da Emasa que depois de tantos anos não deram uma solução. É na praia toda, quando chove se vê bocas de lobo transbordando. Toda parte norte é uma vergonha, o Ministério Público tem que tomar providências. Às vezes aqui em casa está limpo e passando a ponte da BR-101 vem aquela nojeira das lagoas da Emasa”.

Acari Fiuza Lima (proprietário da Vila Maria Marina Clube): “O pessoal reclama muito, tem um grupo que se reúne aqui, moradores do Costão da Barra (prédio na Avenida Atlântica) e eles têm que fechar os apartamentos para poder almoçar. Pessoal reclama geral. Quero distância dos políticos são tudo mentirosos, não cumprem o que prometem. Só decepção”.

Renato Portes (morador de um apartamento na Barra Sul e pescado amador): “De vez em quando tem cheiro e é de m**** pura. Aquele trecho do cano de esgoto da Emasa, o trecho da m**** tem uns seis anos que está daquele jeito. É insuportável”.

Ricardo Henrique Koeddermann (mergulhador profissional, mora na beira do rio há 30 anos): Ali é onde tem a m**** mesmo. Aqui para cima (na altura do Clube Beira Rio) nunca teve cheiro, até robalo os meus guris pescam. O problema mesmo é da ponte da BR-101 para baixo. Foi piorando, tem mais de 15 anos que está piorando e piorou de uma vez. No verão jogam tudo direto para o rio e geralmente é à noite. Pelo que vejo no Brasil todo para despoluir o rio tem que junto com o tratamento fazer um emissário submarino do esgoto”.

Elizeu Pereira (vereador, morador da Barra): “Na safra do camarão essa água (do Rio Pedro Pinto) é ruim, o pessoal limpa bastante camarão e vai para o rio. É um fedor e reclamam muito do mau cheiro. O Rio das Ostras, claro, recebe o esgoto do Nova Esperança, Dona Lili, Loteamento Schultz... cai tudo ali. Me preocupa como vereador, este esgoto tem que funcionar com urgência”.

Margit Schumacher Todt (moradora da Barra Sul): “Venho sempre comentando sobre este "fedor". Passamos por noites horríveis chegando a arder as narinas pelo cheiro que vem do rio ou da lagoa da Emasa, vergonhoso. Isto acontece há muito tempo e nada é feito.
Receber visita? Chego a me envergonhar principalmente quando vem de outras cidades”.

Emasa - Principais investimentos em esgoto desde 2008

2008
Obras de ampliação da rede de esgoto
R$ 4.857.938,28
2009
Rede de esgoto da Praia dos Amores
R$ 1.253.000,00
2010
Sistema de aeração da estação de esgoto
R$ 6.978.000,00
2010
Ampliação da rede para vários bairros
R$ 30.080.015,80
2010
Serviços na estação
R$ 464.762,02
2011
Sistema de Desinfecção de Esgoto
R$ 641.345,70
2011
Tanque de Aeração
R$ 1.194.823,08
2011
Subestação de energia
R$ 1.677.557,10
2011
Tubos para esgoto
R$ 426.182,58
2011
Diversos materiais e serviços
564.000,00
2012
Rede de esgotos nas praias agrestes
R$ 5.772.122,59
2012
Tubos e outros materiais
R$ 2.482.000,00
2013
Tubos e outros materiais
R$ 604.000,00
2013
Emissário pressurizado de esgoto
R$ 402.164,66
2014
Removedor de Lodo da estação de esgoto
R$ 710.000,00
2014
3º Decantador da ETE Nova Esperança
R$ 1.648.943,76
2015
Rede coletora em várias ruas
R$ 542.000,00
2015
Complementação Bairro dos Município
R$ 5.559.174,54
2015
Outras obras e produtos
R$ 750.000,00
-
Ajustes de materiais e serviços no período
R$ 3.000.00,00
 
Total corrigido monetariamente
R$ 87 milhões

 


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