Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Brasil
Confisco de luvas a respiradores opõe União e Estados

Brasil tem 3,6 mil respiradores fora de operação

Sexta, 27/3/2020 7:31.
EBC.

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Mateus Vargas
A corrida para aquisição de respiradores, essenciais para o tratamento de casos graves da covid-19, criou uma disputa entre o governo federal, Estados e municípios. Hospitais da rede privada também reclamam que ordens desencontradas para recolhimento de produtos ameaçam inviabilizar o atendimento de pacientes, além de expor equipes de saúde à contaminação por falta de insumos.

No Amapá, a União briga na Justiça para recolher 25 respiradores comprados pelo Estado. O caso chegou a ser levado às redes sociais pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), também reclama sobre o confisco de respiradores. Em videoconferência com o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, na quarta, Doria prometeu ir à Justiça para evitar bloqueio de produtos. "Não faz nenhum sentido confiscar equipamentos e insumos. Se essa questão for mantida, tomaremos medidas necessárias no ramo judicial."

O Ministério da Saúde quer que as compras e estoques de respiradores sejam centralizados pela União. Dessa forma, os produtos seriam distribuídos conforme o surgimento de novos casos no País. "Quando se tem uma crise dessa proporção, precisa ter calma e equilíbrio. No momento que temos um encurtamento de respiradores, fizemos o movimento para centralizar e para poder descentralizar de acordo com a epidemia", disse Mandetta a Doria Segundo o ministro, além de importações, a ideia é que quatro fábricas no Brasil produzam até 400 respiradores por semana. "Vamos conseguir assim abastecer todos os Estados. Não adianta cada local querer montar todos os aparelhos esperando casos. A gente vai mandando de acordo com a realidade de cada caso", completou o ministro.

Em outra disputa, a União perdeu nesta semana uma batalha por 200 respiradores comprados por Recife. O Tribunal Regional Federal da 5ª Região barrou a tentativa de bloqueio dos produtos A empresa nacional Magnamed avisou no começo desta semana a clientes que não teria como entregar respiradores já encomendados, pois o ministério havia requisitado em "caráter compulsório e imediato" que estes produtos fossem retidos. A medida impactou o estoque e a produção aos próximos 180 dias da indústria, segundo ofício da empresa.

Ao menos os governos de Minas Gerais, Pernambuco, Bahia, Paraná e Ceará, Paraíba, Alagoas, além de diversas prefeituras, editaram atos administrativos para requisitar insumos e produtos como respiradores durante a pandemia.

O governo federal prepara um edital pra compra de 30 mil respiradores, sendo metade do tipo "eletrônico portátil microprocessado" e o resto "ventilador pulmonar microprocessado" para pacientes adultos e pediátricos. A ideia é que os produtos sejam entregues até 30 dias após a escolha das melhores ofertas. Uma cobrança de municípios é que a União aproveite o mais rápido possível o seu poder de compra para ir ao mercado e buscar estes equipamentos. Segundo gestores, estes equipamentos ficam muito caros em compras pequenas das prefeituras.

Rede privada

O secretário-executivo da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), Marco Ferreira, disse que pedirá audiência com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, para apresentar reclamações do setor sobre os confiscos. A ideia, segundo ele, é buscar um "conjunto de regras" que "todas as pontas possam seguir".

A Anahp afirma que seus associados já tiveram problemas para entregas de respiradores, mas que o maior impacto dos confiscos, até agora, ocorre sobre equipamentos de proteção individual, como luvas e máscaras. Ele afirma que alguns hospitais estão sem estoque e já tiveram de afastar até 10% de sua equipe por sintoma ou contaminação pela covid-19.

A Associação Brasileira dos Importadores de Luvas para a Saúde (Abils) enviou um alerta ao Ministério da Economia informando que gera "grave insegurança jurídica" o bloqueio de seus produtos. Segundo a entidade, 95% dos insumos são importados e, por causa das restrições, as empresas podem deixar de buscá-los no exterior, reduzindo estoques no País.

A entidade pede uma resolução nacional para que não haja mais confisco de produtos por Estados e municípios. "Salientando-se que a continuidade de confiscos acarretará na interrupção total de toda a cadeia de fornecimentos dos produtos, essenciais neste momento de pandemia", disse a associação.

Brasil tem 3,6 mil respiradores fora de operação

Fabiana Cambricoli, com colaboração de Cleide Silva

Em meio ao surto do novo coronavírus e à corrida pela compra de mais respiradores para atender pacientes graves, o Brasil tem 3,6 mil desses aparelhos fora de operação por problemas como falta de manutenção. É o que mostra um levantamento feito pelo jornal O Estado de S. Paulo na base de dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), mantido pelo Ministério da Saúde no portal Datasus.

O balanço aponta a existência de 65.411 respiradores/ventiladores mecânicos nos hospitais públicos e privados do País, dos quais 61.772 estão em uso e o restante, parado. O número de aparatos que não podem ser utilizados equivale a 5,6% do total. Os respiradores são equipamentos considerados essenciais para o tratamento de pacientes que apresentam quadro grave da doença causada pelo coronavírus.

O Estado de São Paulo, que reúne até agora o maior número de casos e mortes por covid-19 no País, é o que tem mais respiradores fora de uso: 770 (4,2%). No Rio de Janeiro, segundo Estado com mais contaminados pelo coronavírus, são 545 aparelhos parados, ou 7,2% do total.

Em números porcentuais, Roraima é a unidade da Federação com o maior índice de aparelhos fora de operação: 30,3% dos 152 respiradores do Estado estão sem condições de uso. "São equipamentos quebrados, em manutenção, mas que poderiam ser recuperados. Seria uma ótima estratégia reativar esses aparelhos nesse momento", comenta o médico intensivista Ederlon Rezende, do conselho consultivo da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib).

Ele afirma que o preço de cada aparelho do tipo novo varia de R$ 50 mil a R$ 90 mil. De acordo com o especialista, embora a complexidade dos reparos dependa do tipo de pane e da disponibilidade de peças de reposição, o conserto não costuma ser demorado.

A recuperação dos produtos deixaria o País menos dependente da aquisição de novos respiradores em um momento que a demanda mundial cresce significativamente sem que a indústria dê conta de atendê-la. De acordo com Rezende, o conserto pode ser rápido e costuma ser mais barato.

Como mostrou o Estado nesta quinta-feira, o Ministério da Saúde consultou os fabricantes dos equipamentos sobre a possibilidade de compra de 15 mil novos respiradores. A resposta do setor foi a de que a disponibilidade para entrega imediata é "praticamente nula". Segundo entidade que reúne os fabricantes, as indústrias conseguiriam iniciar o fornecimento de novas unidades em cerca de 15 dias, quando o Brasil já estará na fase de pico da doença, segundo projeções de especialistas e do Ministério da Saúde.

Conserto

Diante do cenário, a General Motors anunciou ontem força-tarefa para consertar aparelhos que não estão em operação por algum tipo de problema. Participam do grupo representantes do Ministério da Economia, Senai, Associação Brasileira de Engenharia Clínica (Abeclin), outras montadoras, como a Mercedes-Benz, e fabricantes de autopeças.

A empresa já está preparando áreas específicas nas fábricas de São Caetano do Sul, São José dos Campos (SP), Gravataí (RS), Joinville (SC) e seu centro de testes em Indaiatuba, também no interior de São Paulo, para realizar os consertos dos respiradores. Com ajuda do Senai, a General Motors também está treinando, online, pessoal técnico para a tarefa.


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Página 3
EBC.

Confisco de luvas a respiradores opõe União e Estados

Brasil tem 3,6 mil respiradores fora de operação

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Sexta, 27/3/2020 7:31.

Mateus Vargas
A corrida para aquisição de respiradores, essenciais para o tratamento de casos graves da covid-19, criou uma disputa entre o governo federal, Estados e municípios. Hospitais da rede privada também reclamam que ordens desencontradas para recolhimento de produtos ameaçam inviabilizar o atendimento de pacientes, além de expor equipes de saúde à contaminação por falta de insumos.

No Amapá, a União briga na Justiça para recolher 25 respiradores comprados pelo Estado. O caso chegou a ser levado às redes sociais pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), também reclama sobre o confisco de respiradores. Em videoconferência com o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, na quarta, Doria prometeu ir à Justiça para evitar bloqueio de produtos. "Não faz nenhum sentido confiscar equipamentos e insumos. Se essa questão for mantida, tomaremos medidas necessárias no ramo judicial."

O Ministério da Saúde quer que as compras e estoques de respiradores sejam centralizados pela União. Dessa forma, os produtos seriam distribuídos conforme o surgimento de novos casos no País. "Quando se tem uma crise dessa proporção, precisa ter calma e equilíbrio. No momento que temos um encurtamento de respiradores, fizemos o movimento para centralizar e para poder descentralizar de acordo com a epidemia", disse Mandetta a Doria Segundo o ministro, além de importações, a ideia é que quatro fábricas no Brasil produzam até 400 respiradores por semana. "Vamos conseguir assim abastecer todos os Estados. Não adianta cada local querer montar todos os aparelhos esperando casos. A gente vai mandando de acordo com a realidade de cada caso", completou o ministro.

Em outra disputa, a União perdeu nesta semana uma batalha por 200 respiradores comprados por Recife. O Tribunal Regional Federal da 5ª Região barrou a tentativa de bloqueio dos produtos A empresa nacional Magnamed avisou no começo desta semana a clientes que não teria como entregar respiradores já encomendados, pois o ministério havia requisitado em "caráter compulsório e imediato" que estes produtos fossem retidos. A medida impactou o estoque e a produção aos próximos 180 dias da indústria, segundo ofício da empresa.

Ao menos os governos de Minas Gerais, Pernambuco, Bahia, Paraná e Ceará, Paraíba, Alagoas, além de diversas prefeituras, editaram atos administrativos para requisitar insumos e produtos como respiradores durante a pandemia.

O governo federal prepara um edital pra compra de 30 mil respiradores, sendo metade do tipo "eletrônico portátil microprocessado" e o resto "ventilador pulmonar microprocessado" para pacientes adultos e pediátricos. A ideia é que os produtos sejam entregues até 30 dias após a escolha das melhores ofertas. Uma cobrança de municípios é que a União aproveite o mais rápido possível o seu poder de compra para ir ao mercado e buscar estes equipamentos. Segundo gestores, estes equipamentos ficam muito caros em compras pequenas das prefeituras.

Rede privada

O secretário-executivo da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), Marco Ferreira, disse que pedirá audiência com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, para apresentar reclamações do setor sobre os confiscos. A ideia, segundo ele, é buscar um "conjunto de regras" que "todas as pontas possam seguir".

A Anahp afirma que seus associados já tiveram problemas para entregas de respiradores, mas que o maior impacto dos confiscos, até agora, ocorre sobre equipamentos de proteção individual, como luvas e máscaras. Ele afirma que alguns hospitais estão sem estoque e já tiveram de afastar até 10% de sua equipe por sintoma ou contaminação pela covid-19.

A Associação Brasileira dos Importadores de Luvas para a Saúde (Abils) enviou um alerta ao Ministério da Economia informando que gera "grave insegurança jurídica" o bloqueio de seus produtos. Segundo a entidade, 95% dos insumos são importados e, por causa das restrições, as empresas podem deixar de buscá-los no exterior, reduzindo estoques no País.

A entidade pede uma resolução nacional para que não haja mais confisco de produtos por Estados e municípios. "Salientando-se que a continuidade de confiscos acarretará na interrupção total de toda a cadeia de fornecimentos dos produtos, essenciais neste momento de pandemia", disse a associação.

Brasil tem 3,6 mil respiradores fora de operação

Fabiana Cambricoli, com colaboração de Cleide Silva

Em meio ao surto do novo coronavírus e à corrida pela compra de mais respiradores para atender pacientes graves, o Brasil tem 3,6 mil desses aparelhos fora de operação por problemas como falta de manutenção. É o que mostra um levantamento feito pelo jornal O Estado de S. Paulo na base de dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), mantido pelo Ministério da Saúde no portal Datasus.

O balanço aponta a existência de 65.411 respiradores/ventiladores mecânicos nos hospitais públicos e privados do País, dos quais 61.772 estão em uso e o restante, parado. O número de aparatos que não podem ser utilizados equivale a 5,6% do total. Os respiradores são equipamentos considerados essenciais para o tratamento de pacientes que apresentam quadro grave da doença causada pelo coronavírus.

O Estado de São Paulo, que reúne até agora o maior número de casos e mortes por covid-19 no País, é o que tem mais respiradores fora de uso: 770 (4,2%). No Rio de Janeiro, segundo Estado com mais contaminados pelo coronavírus, são 545 aparelhos parados, ou 7,2% do total.

Em números porcentuais, Roraima é a unidade da Federação com o maior índice de aparelhos fora de operação: 30,3% dos 152 respiradores do Estado estão sem condições de uso. "São equipamentos quebrados, em manutenção, mas que poderiam ser recuperados. Seria uma ótima estratégia reativar esses aparelhos nesse momento", comenta o médico intensivista Ederlon Rezende, do conselho consultivo da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib).

Ele afirma que o preço de cada aparelho do tipo novo varia de R$ 50 mil a R$ 90 mil. De acordo com o especialista, embora a complexidade dos reparos dependa do tipo de pane e da disponibilidade de peças de reposição, o conserto não costuma ser demorado.

A recuperação dos produtos deixaria o País menos dependente da aquisição de novos respiradores em um momento que a demanda mundial cresce significativamente sem que a indústria dê conta de atendê-la. De acordo com Rezende, o conserto pode ser rápido e costuma ser mais barato.

Como mostrou o Estado nesta quinta-feira, o Ministério da Saúde consultou os fabricantes dos equipamentos sobre a possibilidade de compra de 15 mil novos respiradores. A resposta do setor foi a de que a disponibilidade para entrega imediata é "praticamente nula". Segundo entidade que reúne os fabricantes, as indústrias conseguiriam iniciar o fornecimento de novas unidades em cerca de 15 dias, quando o Brasil já estará na fase de pico da doença, segundo projeções de especialistas e do Ministério da Saúde.

Conserto

Diante do cenário, a General Motors anunciou ontem força-tarefa para consertar aparelhos que não estão em operação por algum tipo de problema. Participam do grupo representantes do Ministério da Economia, Senai, Associação Brasileira de Engenharia Clínica (Abeclin), outras montadoras, como a Mercedes-Benz, e fabricantes de autopeças.

A empresa já está preparando áreas específicas nas fábricas de São Caetano do Sul, São José dos Campos (SP), Gravataí (RS), Joinville (SC) e seu centro de testes em Indaiatuba, também no interior de São Paulo, para realizar os consertos dos respiradores. Com ajuda do Senai, a General Motors também está treinando, online, pessoal técnico para a tarefa.


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