Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Brasil
SP registrou quatro grandes incêndios em prédios nos últimos 50 anos

Prédio moderno e pioneiro se transformou emfavela vertical

Quarta, 2/5/2018 4:42.

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(FOLHAPRESS) - Incêndios como o da madrugada desta terça-feira (1º) já se repetiram outras três vezes na história recente da capital paulista. Nos últimos 50 anos, tragédias deixaram mais de 200 vítimas fatais.

Em 1972, 16 pessoas morreram no incêndio do Edifício Andraus, na avenida São João, no centro. O fogo começou no terceiro andar e rapidamente se espalhou pelos 27 andares da construção.

Dois anos depois, a mais emblemática das tragédias entrou para a história de São Paulo. No Edifício Joelma, um curto-circuito em uma máquina de ar-condicionado no 12º piso do prédio de 23 andares deixou 188 vítimas.

Já a década de 1980 começou com 16 mortes no edifício Grande Avenida, na avenida Paulista.

Moderno e pioneiro, prédio foi de sede da Polícia Federal a 'favela vertical'

Projetado na década de 1960, o edifício Wilton Paes de Almeida foi considerado marco de avanço na arquitetura de São Paulo e do país tanto por sua "pele de vidro", em referência a sua fachada, como por suas novidades tecnológicas e estruturais.

Tido como uma das obras mais famosas do arquiteto francês Roger Zmekhol (1928-1976), que foi professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, o prédio foi um dos primeiros a contar com central telefônica, sistema de ar-condicionado central, divisão em módulos e janelas em vidro que reflete a luz do sol.

A obra teve influência do arquiteto alemão Mies van der Rohe, em sua fase americana, e foi inspirado no edifício Lever House, de Nova York.

Encomendado pelo empresário Sebastião Paes de Almeida (1912-1975) para ser sede de uma empresa do setor de vidros, o que acabou não acontecendo, o edifício passou para o governo federal, que o transformou na sede da Polícia Federal por 23 anos e, até 2009, numa agência do INSS.

Em 1992, o prédio foi tombado pelo Compresp (órgão municipal de preservação) por sua relevância arquitetônica, histórica e paisagística.

A arquiteta Ana Mendes, 49, estudou a estrutura da instalação durante um ano, com amplo levantamento histórico do local, e fez um projeto, em 2014, para a transformação do prédio em uma escola de arquitetura.

"Com as ocupações constantes, a situação da estrutura do prédio, que era de vanguarda, foi ficando cada vez mais deteriorada e precária. O local, que foi um marco da arquitetura na América Latina tornou-se uma favela vertical."

Para Nadia Somekh, professora emérita da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Mackenzie, o edifício fazia parte da identidade da cidade.

"Estou muito infeliz pela perda histórica e cultural e pela ausência de uma política pública habitacional para os moradores do centro. Novas tragédias estão anunciadas."

Em nota, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo exaltou o valor da instalação, solidarizou-se com as famílias das vítimas e criticou o descaso do poder público com o que chamou de "ausência recorrente de uma política habitacional nacional consistente aliada à preservação do patrimônio histórico".

'Ouvi um 'bum' e só pensei em sair correndo', diz sobrevivente em SP

(DHIEGO MAIA) -A dona de casa Fabiana Ribeiro, 38, só pensou em sair correndo quando viu as labaredas de fogo caindo da ocupação onde ela, a filha, a neta e o marido moravam, no primeiro andar do edifício Wilton Paes de Almeida, na avenida Rio Branco, no centro da capital paulista.

"Ouvi um 'bum' seguido de outro 'bum'. Catei minha neta, gritei para o meu marido e minha filha e saímos sem nada, mas com a nossa vida de lá."

Fabiana Ribeiro, 38, sobrevivente do incêndio Dhiego Maia Foto da Fabiana, que sobreviveu ao incêndio.

Fabiana e o marido, Romário Santos da Silva, 24, acompanhavam atentos, na manhã deste 1º de Maio, os trabalhos do Corpo de Bombeiros que moviam os escombros em busca de possíveis sobreviventes. "Só sobrou isso que você está vendo", aponta Fabiana para o pijama que vestia.

Ela afirmou que a família morava na ocupação há dois anos. O prédio de 24 andares, segundo Fabiana, era ocupado até o 10 andar porque, sem elevador em operação, ninguém se atrevia a morar nos pavimentos mais altos.

O cotidiano na ocupação vai deixar saudade, diz a dona de casa. "Eu tinha tudo o que vocês têm: geladeira, aparelho de TV, água e luz. Tinha vizinho que instalou até wi-fi".

Enquanto era entrevistada, a moradora segurava na mão o cadastro feito horas depois em uma barraca de emergência montada pela Secretaria de Habitação do governo paulista no Largo do Paissandu.

No papel, ela solicitou quatro colchões, kits de higiene e cobertores. "É muito triste porque voltei à estaca zero. Mas ao menos tenho vida. E quem não conseguiu sobreviver?", disse, entre lágrimas.

Para viver na ocupação, chefiada pela LMD (Luta por Moradia Digna), a família desembolsava R$ 250 por mês.

A dona de casa disse que sentiu a falta de muitos amigos e colegas que moravam entre o quinto e o décimo andares. "Não sabemos se eles conseguiram escapar."

CADÊ A SELMA?

Uma pergunta não parou de ser repetida entre os sobreviventes: cadê a Selma?. A mulher, que ninguém sabia o sobrenome, a idade e nem quanto tempo morava na ocupação, sumiu após o prédio cair.

Selma era mais conhecida entre seus vizinhos de ocupação por ser mãe de gêmeos idênticos -os meninos também seguem desaparecidos.

Em frente às escadarias da igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Paissandu, que virou um QG de doações para quem perdeu tudo, os desabrigados procuravam por ela.

Teve gente que fez até uma peregrinação pelo centro para localizar a mulher e seus gêmeos. "A nossa preocupação é de que a Selma tinha um sono muito pesado. Ela pode ter morrido sem conseguir fugir ou escapou e não quis mais voltar", disse Jéssica Matos, 20.

No começo da noite, 44 pessoas que haviam sido cadastradas em março entre os frequentadores do prédio ainda não tinham sido localizadas. Mas, como a rotatividade no local é alta, é possível que elas nem estivessem mais dormindo lá –assim como outras podem ter entrado desde então.

"Existem pessoas que estão desaparecidas, mas não temos como dizer se elas estão ali dentro", afirmou o capitão Marcos Palumbo, porta-voz da corporação.

O ACIDENTE

Tatuagem é a única vítima oficialmente contabilizada como desaparecida pelos bombeiros. O rapaz, que aparentava ter 30 anos, subiu até o 8º andar para ajudar no resgate às vítimas, mas acabou engolido pelo desabamento do prédio.

Após o desabamento, uma grande nuvem de fumaça e fogo tomou conta do quarteirão. Nas redes sociais, é possível ver o momento da queda do prédio.

Durante a manhã desta terça, bombeiros encontraram a corda que havia sido lançada pelos bombeiros para salvar Tatuagem. É nesse local que os bombeiros focam as buscas pela vítima.

Moradores do prédio que desabou afirmam que o incêndio começou por volta da 1h30 após uma explosão no quinto andar. Eles desconfiam que se trate de um botijão de gás. Após a explosão, houve fogo e fumaça pelo prédio.

Durante a madrugada, o incêndio atingiu outros prédios no entorno da antiga sede da PF. Entre eles, a Igreja Martin Luther teve sua estrutura danificada. O templo é a primeira paróquia evangélica luterana da capital, inaugurada em 1908.

Segundo a prefeitura, cerca de 150 famílias que moravam no local haviam sido cadastradas anteriormente pela Secretaria de Habitação. Destas, 25% eram de estrangeiros.

Depois do incêndio, 92 famílias, com 248 pessoas, foram encaminhadas a abrigos pela prefeitura.

A Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros dizem que somente a perícia poderá confirmar as causas do incêndio.

Foram enviados 160 agentes e 57 carros do Corpo de Bombeiros para a ocorrência, além de unidades da Polícia Militar, Samu, CET e Defesa Civil.


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SP registrou quatro grandes incêndios em prédios nos últimos 50 anos

Prédio moderno e pioneiro se transformou emfavela vertical

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Quarta, 2/5/2018 4:42.

(FOLHAPRESS) - Incêndios como o da madrugada desta terça-feira (1º) já se repetiram outras três vezes na história recente da capital paulista. Nos últimos 50 anos, tragédias deixaram mais de 200 vítimas fatais.

Em 1972, 16 pessoas morreram no incêndio do Edifício Andraus, na avenida São João, no centro. O fogo começou no terceiro andar e rapidamente se espalhou pelos 27 andares da construção.

Dois anos depois, a mais emblemática das tragédias entrou para a história de São Paulo. No Edifício Joelma, um curto-circuito em uma máquina de ar-condicionado no 12º piso do prédio de 23 andares deixou 188 vítimas.

Já a década de 1980 começou com 16 mortes no edifício Grande Avenida, na avenida Paulista.

Moderno e pioneiro, prédio foi de sede da Polícia Federal a 'favela vertical'

Projetado na década de 1960, o edifício Wilton Paes de Almeida foi considerado marco de avanço na arquitetura de São Paulo e do país tanto por sua "pele de vidro", em referência a sua fachada, como por suas novidades tecnológicas e estruturais.

Tido como uma das obras mais famosas do arquiteto francês Roger Zmekhol (1928-1976), que foi professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, o prédio foi um dos primeiros a contar com central telefônica, sistema de ar-condicionado central, divisão em módulos e janelas em vidro que reflete a luz do sol.

A obra teve influência do arquiteto alemão Mies van der Rohe, em sua fase americana, e foi inspirado no edifício Lever House, de Nova York.

Encomendado pelo empresário Sebastião Paes de Almeida (1912-1975) para ser sede de uma empresa do setor de vidros, o que acabou não acontecendo, o edifício passou para o governo federal, que o transformou na sede da Polícia Federal por 23 anos e, até 2009, numa agência do INSS.

Em 1992, o prédio foi tombado pelo Compresp (órgão municipal de preservação) por sua relevância arquitetônica, histórica e paisagística.

A arquiteta Ana Mendes, 49, estudou a estrutura da instalação durante um ano, com amplo levantamento histórico do local, e fez um projeto, em 2014, para a transformação do prédio em uma escola de arquitetura.

"Com as ocupações constantes, a situação da estrutura do prédio, que era de vanguarda, foi ficando cada vez mais deteriorada e precária. O local, que foi um marco da arquitetura na América Latina tornou-se uma favela vertical."

Para Nadia Somekh, professora emérita da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Mackenzie, o edifício fazia parte da identidade da cidade.

"Estou muito infeliz pela perda histórica e cultural e pela ausência de uma política pública habitacional para os moradores do centro. Novas tragédias estão anunciadas."

Em nota, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo exaltou o valor da instalação, solidarizou-se com as famílias das vítimas e criticou o descaso do poder público com o que chamou de "ausência recorrente de uma política habitacional nacional consistente aliada à preservação do patrimônio histórico".

'Ouvi um 'bum' e só pensei em sair correndo', diz sobrevivente em SP

(DHIEGO MAIA) -A dona de casa Fabiana Ribeiro, 38, só pensou em sair correndo quando viu as labaredas de fogo caindo da ocupação onde ela, a filha, a neta e o marido moravam, no primeiro andar do edifício Wilton Paes de Almeida, na avenida Rio Branco, no centro da capital paulista.

"Ouvi um 'bum' seguido de outro 'bum'. Catei minha neta, gritei para o meu marido e minha filha e saímos sem nada, mas com a nossa vida de lá."

Fabiana Ribeiro, 38, sobrevivente do incêndio Dhiego Maia Foto da Fabiana, que sobreviveu ao incêndio.

Fabiana e o marido, Romário Santos da Silva, 24, acompanhavam atentos, na manhã deste 1º de Maio, os trabalhos do Corpo de Bombeiros que moviam os escombros em busca de possíveis sobreviventes. "Só sobrou isso que você está vendo", aponta Fabiana para o pijama que vestia.

Ela afirmou que a família morava na ocupação há dois anos. O prédio de 24 andares, segundo Fabiana, era ocupado até o 10 andar porque, sem elevador em operação, ninguém se atrevia a morar nos pavimentos mais altos.

O cotidiano na ocupação vai deixar saudade, diz a dona de casa. "Eu tinha tudo o que vocês têm: geladeira, aparelho de TV, água e luz. Tinha vizinho que instalou até wi-fi".

Enquanto era entrevistada, a moradora segurava na mão o cadastro feito horas depois em uma barraca de emergência montada pela Secretaria de Habitação do governo paulista no Largo do Paissandu.

No papel, ela solicitou quatro colchões, kits de higiene e cobertores. "É muito triste porque voltei à estaca zero. Mas ao menos tenho vida. E quem não conseguiu sobreviver?", disse, entre lágrimas.

Para viver na ocupação, chefiada pela LMD (Luta por Moradia Digna), a família desembolsava R$ 250 por mês.

A dona de casa disse que sentiu a falta de muitos amigos e colegas que moravam entre o quinto e o décimo andares. "Não sabemos se eles conseguiram escapar."

CADÊ A SELMA?

Uma pergunta não parou de ser repetida entre os sobreviventes: cadê a Selma?. A mulher, que ninguém sabia o sobrenome, a idade e nem quanto tempo morava na ocupação, sumiu após o prédio cair.

Selma era mais conhecida entre seus vizinhos de ocupação por ser mãe de gêmeos idênticos -os meninos também seguem desaparecidos.

Em frente às escadarias da igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Paissandu, que virou um QG de doações para quem perdeu tudo, os desabrigados procuravam por ela.

Teve gente que fez até uma peregrinação pelo centro para localizar a mulher e seus gêmeos. "A nossa preocupação é de que a Selma tinha um sono muito pesado. Ela pode ter morrido sem conseguir fugir ou escapou e não quis mais voltar", disse Jéssica Matos, 20.

No começo da noite, 44 pessoas que haviam sido cadastradas em março entre os frequentadores do prédio ainda não tinham sido localizadas. Mas, como a rotatividade no local é alta, é possível que elas nem estivessem mais dormindo lá –assim como outras podem ter entrado desde então.

"Existem pessoas que estão desaparecidas, mas não temos como dizer se elas estão ali dentro", afirmou o capitão Marcos Palumbo, porta-voz da corporação.

O ACIDENTE

Tatuagem é a única vítima oficialmente contabilizada como desaparecida pelos bombeiros. O rapaz, que aparentava ter 30 anos, subiu até o 8º andar para ajudar no resgate às vítimas, mas acabou engolido pelo desabamento do prédio.

Após o desabamento, uma grande nuvem de fumaça e fogo tomou conta do quarteirão. Nas redes sociais, é possível ver o momento da queda do prédio.

Durante a manhã desta terça, bombeiros encontraram a corda que havia sido lançada pelos bombeiros para salvar Tatuagem. É nesse local que os bombeiros focam as buscas pela vítima.

Moradores do prédio que desabou afirmam que o incêndio começou por volta da 1h30 após uma explosão no quinto andar. Eles desconfiam que se trate de um botijão de gás. Após a explosão, houve fogo e fumaça pelo prédio.

Durante a madrugada, o incêndio atingiu outros prédios no entorno da antiga sede da PF. Entre eles, a Igreja Martin Luther teve sua estrutura danificada. O templo é a primeira paróquia evangélica luterana da capital, inaugurada em 1908.

Segundo a prefeitura, cerca de 150 famílias que moravam no local haviam sido cadastradas anteriormente pela Secretaria de Habitação. Destas, 25% eram de estrangeiros.

Depois do incêndio, 92 famílias, com 248 pessoas, foram encaminhadas a abrigos pela prefeitura.

A Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros dizem que somente a perícia poderá confirmar as causas do incêndio.

Foram enviados 160 agentes e 57 carros do Corpo de Bombeiros para a ocorrência, além de unidades da Polícia Militar, Samu, CET e Defesa Civil.


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