Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Brasil
Empresas transportam cargas por aviões para escaparem de roubos

No Rio, blindados para transportar carne

Domingo, 25/2/2018 9:00.
EBC.
Via Dutra, que liga Rio e São Paulo.

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ANA ESTELA DE SOUSA PINTO E JOANA CUNHA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Remédios e celulares estão abandonando estradas e viajando só de avião no Brasil.

A escolha tem sido feita até para trajetos curtos, como São Paulo-Rio, em que por terra a carga chega no mesmo dia, relatam o diretor-geral da Latam Cargo Brasil, Diogo Elias, e o diretor de Cargas da Gol, Eduardo Calderon.

No aeroporto de Viracopos, segundo principal terminal de cargas do país, o valor dos itens transportados subiu 17% entre 2016 e 2017, e o volume, 11% -ou seja, cada metro cúbico foi ocupado por carga mais valiosa.

A concessionária BH Airport registrou em 2017 alta de aproximadamente 19% no volume de cargas domésticas.

O movimento é confirmado não só por empresas aéreas e aeroportos mas também pelas transportadoras, que, antes, enviavam parte desses produtos por terra.

O motivo é o roubo nas estradas, cujo número de ocorrências quase dobrou no país de 2011 a 2016, segundo a Firjan (federação das indústrias do Rio), para 22.547 em 2016.

Mais assaltos significam risco maior do frete terrestre, e, quanto mais valiosa for a carga, maiores serão as exigências das seguradoras para cobrir esse risco.

BLINDAGEM

Carregado de remédios, por exemplo, um caminhão pode levar até R$ 3 milhões, carga que só será segurada se houver escolta dupla, iscas de rastreamento ou até blindagem da cabine de direção.

A solução seria distribuir os produtos por vários veículos, cada um carregando um valor total menor -mas, nesse caso, em vez de contratar cinco carretas para ir ao Rio, passa a valer a pena despachar por avião.

"Esse custo da segurança no transporte rodoviário acabou se somando às vantagens que o avião já tinha, como rapidez e flexibilidade", afirma Elias, da Latam, que viu aumentar a procura por transporte de remédios, eletrônicos e autopeças.

O diretor de operações de Viracopos, Marcelo Mota, acrescenta que há hoje trechos terrestres entre o Rio e São Paulo para os quais as seguradoras nem oferecem mais cobertura. E motoristas têm se recusado a passar por trechos mais visados pelos ladrões de carga, diz Elias.

Segundo o JCC Annual Cargo Forum, divulgada pela Firjan, os pontos mais críticos estão na BR-116 (entre Rio e SP e dali a Curitiba, no Paraná), na BR-050 (Santos-Distrito Federal) e na SP-330 (Santos-Uberaba, que liga o litoral paulista ao interior de Minas Gerais). Essas rodovias colocam o Brasil entre os dez piores países do mundo em 2017, ao lado de Síria, Iraque, Líbia e Afeganistão.

Avaliado em 3,7 (muito alto), o risco das vias terrestres brasileiras é igual ao da Somália, onde há também pirataria e conflitos armados.
As rodovias são vistas pelas seguradoras como o pior modal em termos de risco, e ele cresce com a distância percorrida, o que não ocorre no avião: o risco avaliado para um voo São Paulo-Rio equivale ao de Rio-Belém.

Especializada na logística de medicamentos, a RV Ímola usa apenas a via aérea para distâncias superiores a 800 km, diz Roberto Vilela, presidente da empresa.

O superintendente da empresa de transporte aéreo de carga Aeropress, Jacinto Souza Santos Júnior, relata outro efeito da insegurança: alta anual de mais de 30% no transporte de câmeras e outros equipamentos de vigilância (índice 50% maior do que o de outras cargas valiosas).
O resultado final é mais custo para o consumidor, já que o frete aéreo é mais caro.

Enviar produtos valiosos por avião, porém, levanta o problema da segurança nos aeroportos. Viracopos inaugurou em 2016 uma caixa-forte construída em parceria com a Brinks, instalou portões de confinamento e dilaceradores de pneu.

Mas há limites para substituir caminhão por avião, diz Bruno Batista, diretor-executivo da CNT (Confederação Nacional do Transporte), como a falta de aeroportos regionais. "Em algum momento, precisa do caminhão."

No Rio, empresas pedem blindados até para levar carne

Caminhões blindados para transportar carne, comboios de redes de supermercado para fazer entrega, escoltas armadas e trocas frequentes de roteiros são a nova rotina do transporte de carga no Rio, segundo a Firjan (federação das indústrias do Estado).

Estudo da entidade indica 10.599 ocorrências de roubo de cargas em 2017, ou um a cada 50 minutos. A alta sobre 2016 foi de 7,3%. "A situação é grave a ponto de já impedir a entrega de alguns produtos e a execução de serviços, como o dos Correios", afirma o coordenador de Estudos Econômicos do Sistema Firjan, William Figueiredo.

Para ele, os roubos não apenas geram prejuízos a fabricantes, transportadoras e consumidores como reduzem os investimentos no Estado.

Marcelo Christiansen, presidente da Abrablin (associação de empresas de blindagem), conta que a entidade se surpreendeu ao receber procura por blindagem de cabines de caminhões.

"Chegam a perguntar se pode blindar o caminhão inteiro. Mas é complexo. Um caminhão com capacidade de carregar 20 toneladas perderia 8 só na blindagem. Perde eficácia e encarece o frete."

A Brinks, maior transportadora de valores do país, já foi sondada para transportar carnes e outros alimentos, cigarros e pneus, diz Roberto Martins, diretor da Brinks Global Services. "São produtos visados pelos assaltantes, e medidas de segurança tradicionalmente usadas, como escolta e iscas de rastreamento, não têm sido suficientes", diz ele.

A Brinks, porém, não faz o transporte dessas mercadorias. "Somos um remédio muito forte para a doença deles. É preciso achar soluções intermediárias."

Se fosse encher um caminhão com carne, por exemplo, a empresa transportaria um valor de cerca de R$ 700 mil, muito abaixo dos até R$ 15 milhões que levaria em eletrônicos ou medicamentos.

SEGURO

Algumas seguradoras deixaram de cobrir o transporte de produtos como cigarros, brinquedos ou armas, porque o cálculo do risco extrapolou níveis praticáveis no mercado. Desde novembro, a Federação Nacional de Seguros Gerais deixou de se manifestar sobre o assunto.

Já as transportadoras investem hoje até 14% de seu faturamento bruto em gerenciamento de risco, equipamentos e seguros, segundo Tayguara Helou, presidente do Setcesp (sindicato do setor em São Paulo). Há cinco anos, o investimento era metade, segundo a entidade.

Eduardo Rebuzzi, presidente da Fetranscarga (federação de transportadores do Rio de Janeiro), diz que nos últimos anos ampliou-se o foco dos ladrões de carga.

Itens como frango, leite, chocolate e refrigerante se tornaram visados. "Frango é uma mercadoria muito barata, que não faz seguro, mas está sendo roubado porque pode ser imediatamente revendido no pequeno comércio."

"Para as empresas que distribuem em todo o país, esse prejuízo se diluiu. Mas, para as regionais, está difícil. Algumas tiveram de parar de operar", diz ele.


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Página 3
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Via Dutra, que liga Rio e São Paulo.
Via Dutra, que liga Rio e São Paulo.

Empresas transportam cargas por aviões para escaparem de roubos

No Rio, blindados para transportar carne

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Domingo, 25/2/2018 9:00.

ANA ESTELA DE SOUSA PINTO E JOANA CUNHA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Remédios e celulares estão abandonando estradas e viajando só de avião no Brasil.

A escolha tem sido feita até para trajetos curtos, como São Paulo-Rio, em que por terra a carga chega no mesmo dia, relatam o diretor-geral da Latam Cargo Brasil, Diogo Elias, e o diretor de Cargas da Gol, Eduardo Calderon.

No aeroporto de Viracopos, segundo principal terminal de cargas do país, o valor dos itens transportados subiu 17% entre 2016 e 2017, e o volume, 11% -ou seja, cada metro cúbico foi ocupado por carga mais valiosa.

A concessionária BH Airport registrou em 2017 alta de aproximadamente 19% no volume de cargas domésticas.

O movimento é confirmado não só por empresas aéreas e aeroportos mas também pelas transportadoras, que, antes, enviavam parte desses produtos por terra.

O motivo é o roubo nas estradas, cujo número de ocorrências quase dobrou no país de 2011 a 2016, segundo a Firjan (federação das indústrias do Rio), para 22.547 em 2016.

Mais assaltos significam risco maior do frete terrestre, e, quanto mais valiosa for a carga, maiores serão as exigências das seguradoras para cobrir esse risco.

BLINDAGEM

Carregado de remédios, por exemplo, um caminhão pode levar até R$ 3 milhões, carga que só será segurada se houver escolta dupla, iscas de rastreamento ou até blindagem da cabine de direção.

A solução seria distribuir os produtos por vários veículos, cada um carregando um valor total menor -mas, nesse caso, em vez de contratar cinco carretas para ir ao Rio, passa a valer a pena despachar por avião.

"Esse custo da segurança no transporte rodoviário acabou se somando às vantagens que o avião já tinha, como rapidez e flexibilidade", afirma Elias, da Latam, que viu aumentar a procura por transporte de remédios, eletrônicos e autopeças.

O diretor de operações de Viracopos, Marcelo Mota, acrescenta que há hoje trechos terrestres entre o Rio e São Paulo para os quais as seguradoras nem oferecem mais cobertura. E motoristas têm se recusado a passar por trechos mais visados pelos ladrões de carga, diz Elias.

Segundo o JCC Annual Cargo Forum, divulgada pela Firjan, os pontos mais críticos estão na BR-116 (entre Rio e SP e dali a Curitiba, no Paraná), na BR-050 (Santos-Distrito Federal) e na SP-330 (Santos-Uberaba, que liga o litoral paulista ao interior de Minas Gerais). Essas rodovias colocam o Brasil entre os dez piores países do mundo em 2017, ao lado de Síria, Iraque, Líbia e Afeganistão.

Avaliado em 3,7 (muito alto), o risco das vias terrestres brasileiras é igual ao da Somália, onde há também pirataria e conflitos armados.
As rodovias são vistas pelas seguradoras como o pior modal em termos de risco, e ele cresce com a distância percorrida, o que não ocorre no avião: o risco avaliado para um voo São Paulo-Rio equivale ao de Rio-Belém.

Especializada na logística de medicamentos, a RV Ímola usa apenas a via aérea para distâncias superiores a 800 km, diz Roberto Vilela, presidente da empresa.

O superintendente da empresa de transporte aéreo de carga Aeropress, Jacinto Souza Santos Júnior, relata outro efeito da insegurança: alta anual de mais de 30% no transporte de câmeras e outros equipamentos de vigilância (índice 50% maior do que o de outras cargas valiosas).
O resultado final é mais custo para o consumidor, já que o frete aéreo é mais caro.

Enviar produtos valiosos por avião, porém, levanta o problema da segurança nos aeroportos. Viracopos inaugurou em 2016 uma caixa-forte construída em parceria com a Brinks, instalou portões de confinamento e dilaceradores de pneu.

Mas há limites para substituir caminhão por avião, diz Bruno Batista, diretor-executivo da CNT (Confederação Nacional do Transporte), como a falta de aeroportos regionais. "Em algum momento, precisa do caminhão."

No Rio, empresas pedem blindados até para levar carne

Caminhões blindados para transportar carne, comboios de redes de supermercado para fazer entrega, escoltas armadas e trocas frequentes de roteiros são a nova rotina do transporte de carga no Rio, segundo a Firjan (federação das indústrias do Estado).

Estudo da entidade indica 10.599 ocorrências de roubo de cargas em 2017, ou um a cada 50 minutos. A alta sobre 2016 foi de 7,3%. "A situação é grave a ponto de já impedir a entrega de alguns produtos e a execução de serviços, como o dos Correios", afirma o coordenador de Estudos Econômicos do Sistema Firjan, William Figueiredo.

Para ele, os roubos não apenas geram prejuízos a fabricantes, transportadoras e consumidores como reduzem os investimentos no Estado.

Marcelo Christiansen, presidente da Abrablin (associação de empresas de blindagem), conta que a entidade se surpreendeu ao receber procura por blindagem de cabines de caminhões.

"Chegam a perguntar se pode blindar o caminhão inteiro. Mas é complexo. Um caminhão com capacidade de carregar 20 toneladas perderia 8 só na blindagem. Perde eficácia e encarece o frete."

A Brinks, maior transportadora de valores do país, já foi sondada para transportar carnes e outros alimentos, cigarros e pneus, diz Roberto Martins, diretor da Brinks Global Services. "São produtos visados pelos assaltantes, e medidas de segurança tradicionalmente usadas, como escolta e iscas de rastreamento, não têm sido suficientes", diz ele.

A Brinks, porém, não faz o transporte dessas mercadorias. "Somos um remédio muito forte para a doença deles. É preciso achar soluções intermediárias."

Se fosse encher um caminhão com carne, por exemplo, a empresa transportaria um valor de cerca de R$ 700 mil, muito abaixo dos até R$ 15 milhões que levaria em eletrônicos ou medicamentos.

SEGURO

Algumas seguradoras deixaram de cobrir o transporte de produtos como cigarros, brinquedos ou armas, porque o cálculo do risco extrapolou níveis praticáveis no mercado. Desde novembro, a Federação Nacional de Seguros Gerais deixou de se manifestar sobre o assunto.

Já as transportadoras investem hoje até 14% de seu faturamento bruto em gerenciamento de risco, equipamentos e seguros, segundo Tayguara Helou, presidente do Setcesp (sindicato do setor em São Paulo). Há cinco anos, o investimento era metade, segundo a entidade.

Eduardo Rebuzzi, presidente da Fetranscarga (federação de transportadores do Rio de Janeiro), diz que nos últimos anos ampliou-se o foco dos ladrões de carga.

Itens como frango, leite, chocolate e refrigerante se tornaram visados. "Frango é uma mercadoria muito barata, que não faz seguro, mas está sendo roubado porque pode ser imediatamente revendido no pequeno comércio."

"Para as empresas que distribuem em todo o país, esse prejuízo se diluiu. Mas, para as regionais, está difícil. Algumas tiveram de parar de operar", diz ele.


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