Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Brasil
Morre João das Neves, um dos fundadores do político Grupo Opinião

Sexta, 24/8/2018 15:00.

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nome de peso da produção teatral brasileira durante a ditadura militar, o diretor e dramaturgo João das Neves morreu na manhã desta sexta (24), em sua casa, em Belo Horizonte. Ele tinha 84 anos e foi vítima de um câncer.

Nascido no Rio em 1984, João enfrentou vários reveses políticos na carreira. Seu grupo Os Duendes, formado em 1960, assumiu a administração do Teatro Arthur Azevedo, na periferia do Rio, mas logo foi expulso pelo governo de Carlos Lacerda, que o acusava de propaganda subversiva.

Foi para o Centro Popular de Cultura, onde cuidava da área de teatro de rua, mas com o golpe militar de 1964 o grupo foi colocado na ilegalidade.

Seus integrantes, entre eles Ferreira Gullar e Oduvaldo Vianna Filho, então fundaram o Grupo Opinião, coletivo que marcou a resistência contra a ditadura e ajudou a disseminar a dramaturgia brasileira.

Na companhia, João dirigiu importantes peças, como "A Saída, Onde Fica a Saída?" (1967), com texto de Armando Costa, Antônio Carlos Fontoura e Ferreira Gullar.

Em "O Último Carro", texto seu de 1976, usava a metáfora do trem desgovernado para retratar a vida na periferia. "A peça vai além da maioria dos textos sociais da época (...), não se contém nos limites do naturalismo", definiu o crítico Sábato Magaldi.

João sempre aliava o engajamento a um grande rigor estético. Mesmo com o fim do regime militar, não perdeu a verve política. Há três anos, quando foi tema de uma mostra no Itaú Cultural, disse à Folha: "O Brasil se livrou da ditadura, mas ainda somos um país de mentalidade muito retrógrada em muitos sentidos".

Um tanto decepcionado com os rumos artísticos depois da retomada da democracia, o encenador deixou o Rio no fim dos anos 1980 e se mudou para o Acre, onde conviveu com o ativista Chico Mendes e com índios da tribo kaxinawá. Foi com um convite para um projeto, mas permaneceu mais tempo. "Era para ficar seis meses e fiquei oito anos. A vida vai levando a gente", contou à Folha, em 2015.

Há cerca de 20 anos, foi para Minas Gerais, sua morada definitiva, onde dirigiu peças como "Madame Satã". Ali em terras mineiras também experimentou com espaços distintos. Em 1992, adaptou o livro "Primeiras Estórias", de Guimarães Rosa, numa encenação no parque Lagoa do Nado, em Belo Horizonte.

Sua produção não se restringia ao teatro. Ele ainda dirigiu diversos shows de nomes da MPB, como Chico Buarque, Baden Powell e a cantora Tiane, sua mulher, a quem deixa.


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Morre João das Neves, um dos fundadores do político Grupo Opinião

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Sexta, 24/8/2018 15:00.

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nome de peso da produção teatral brasileira durante a ditadura militar, o diretor e dramaturgo João das Neves morreu na manhã desta sexta (24), em sua casa, em Belo Horizonte. Ele tinha 84 anos e foi vítima de um câncer.

Nascido no Rio em 1984, João enfrentou vários reveses políticos na carreira. Seu grupo Os Duendes, formado em 1960, assumiu a administração do Teatro Arthur Azevedo, na periferia do Rio, mas logo foi expulso pelo governo de Carlos Lacerda, que o acusava de propaganda subversiva.

Foi para o Centro Popular de Cultura, onde cuidava da área de teatro de rua, mas com o golpe militar de 1964 o grupo foi colocado na ilegalidade.

Seus integrantes, entre eles Ferreira Gullar e Oduvaldo Vianna Filho, então fundaram o Grupo Opinião, coletivo que marcou a resistência contra a ditadura e ajudou a disseminar a dramaturgia brasileira.

Na companhia, João dirigiu importantes peças, como "A Saída, Onde Fica a Saída?" (1967), com texto de Armando Costa, Antônio Carlos Fontoura e Ferreira Gullar.

Em "O Último Carro", texto seu de 1976, usava a metáfora do trem desgovernado para retratar a vida na periferia. "A peça vai além da maioria dos textos sociais da época (...), não se contém nos limites do naturalismo", definiu o crítico Sábato Magaldi.

João sempre aliava o engajamento a um grande rigor estético. Mesmo com o fim do regime militar, não perdeu a verve política. Há três anos, quando foi tema de uma mostra no Itaú Cultural, disse à Folha: "O Brasil se livrou da ditadura, mas ainda somos um país de mentalidade muito retrógrada em muitos sentidos".

Um tanto decepcionado com os rumos artísticos depois da retomada da democracia, o encenador deixou o Rio no fim dos anos 1980 e se mudou para o Acre, onde conviveu com o ativista Chico Mendes e com índios da tribo kaxinawá. Foi com um convite para um projeto, mas permaneceu mais tempo. "Era para ficar seis meses e fiquei oito anos. A vida vai levando a gente", contou à Folha, em 2015.

Há cerca de 20 anos, foi para Minas Gerais, sua morada definitiva, onde dirigiu peças como "Madame Satã". Ali em terras mineiras também experimentou com espaços distintos. Em 1992, adaptou o livro "Primeiras Estórias", de Guimarães Rosa, numa encenação no parque Lagoa do Nado, em Belo Horizonte.

Sua produção não se restringia ao teatro. Ele ainda dirigiu diversos shows de nomes da MPB, como Chico Buarque, Baden Powell e a cantora Tiane, sua mulher, a quem deixa.


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