Ricardo Alves: Surfe, natureza, fotografia e um sonho realizado

Fotógrafo inaugurou a Galeria Bora Brasil há duas semanas na Brava

Marlise Schneider Cezar

O paulista de nascimento e catarinense de coração, Ricardo Alves, 40, surfista desde criança e apaixonado por fotografia desde a adolescência, juntou suas duas paixões para criar a Galeria Bora Brasil, inaugurada há duas semanas, na Praia Brava, onde vive desde 1998.

“Comecei a surfar com 8 anos e a fotografar na adolescência, quando ganhei uma câmera da minha mãe, herdada do meu avô. Uma década depois de escolher a Praia Brava para viver, fiz meus primeiros clicks dentro d´água”, contou.

A Galeria Bora Brasil reúne as melhores fotos da sua carreira profissional e conta muito da sua história como surfista e fotógrafo. Aberta ao público de terça a sexta, das 13h30 às 19h e aos finais de semana e feriados, das 11h às 19h, na Rua Delfim de Pádua Peixoto 1080, Praia Brava, Itajaí.

Ricardo contou ao Página3 sobre o surfe, a fotografia, a natureza sempre presente, as viagens e o sonho realizado de mostrar tudo isso em uma galeria de arte. Acompanhe:

JP3 – A nova galeria é resultado de duas paixões da tua vida, o surf e a fotografia?

Ricardo – A Galeria é resultado de uma vida dedicada ao surfe, fotografia e natureza e a concretização de um sonho que nasceu na adolescência.

Começou a surfar quando escolheu a Brava pra morar?

Escolhi a Praia Brava para morar aos 18 anos, pois sempre tive o sonho de morar na praia e pegar onda todos os dias. Até então, surfava apenas em finais de semana e férias escolares. Vim para o sul para estudar Oceanografia, mas acabei me formando em jornalismo em 2006.

Pensou em fazer carreira no esporte?

Nunca pensei em seguir carreira como surfista, mas sim dentro do surfe. Sempre sonhei em viver o estilo de vida dos fotógrafos do surfe. Viajar para lugares diferentes, ter uma vida saudável, publicar minhas fotos nas revistas e surfar todos os dias.

Quais foram os lugares mais incríveis que conheceu através do surf?

Conheci muitos lugares através do surfe e da fotografia como Fernando de Noronha, México, Indonésia e o Tahiti, onde tive a oportunidade de morar com a minha filha no ano passado e viver uma experiência mais do que incrível. Visitei países também como Peru e Chile, onde já estive por mais de 20 vezes e tenho um carinho realmente especial, principalmente pelas paisagens surreais do Deserto do Atacama.

O como e quando nasceu a paixão pela fotografia?

A paixão pela fotografia nasceu na adolescência, por volta dos 15 anos de idade, quando ganhei uma câmera da minha mãe e passei a fotografar os meus passeios para praias e cachoeiras e também o meu cotidiano com os amigos da escola. Sempre gostei da fotografia e recortava inúmeras revistas de surfe para decorar o meu quarto além de praticamente “viajar” para dentro delas.

“Sempre fui movido por desafios e quando consigo registrar momentos em condições adversas me encho de alegria”.

Quais foram as fotos mais expressivas que já fez?

Difícil falar das fotos mais expressivas que já fiz, mas as mais desafiadoras sem dúvida foram no Chile em ondas enormes e congelantes e no Tahiti, onde nadei em ondas de quase 10 metros. Sempre fui movido por desafios e quando consigo registrar momentos em condições adversas me encho de alegria.

E as mais famosas?

Fotos famosas? Acho que foram as capas de revistas que já tive o privilégio de fazer. Praia Brava, Deserto do Atacama, Tahiti entre outras…

Quem são os ‘modelos’ preferidos do surf?

Meu modelo favorito é o jovem Matheus Navarro que é um moleque super gente fina, surfa muito bem e é praticamente minha família. Trabalhamos e vivemos juntos há anos por isso temos uma conexão incrível dentro e fora d’água. Ele acredita muito no meu trabalho então quando peço para ele fazer qualquer coisa, está sempre disposto.

Quantas fotos selecionou para expor?

Foi muito difícil de selecionar as fotos que eu ia trabalhar. Entre mais de 10 mil fotos de toda a minha carreira escolhi 30 para expor em quadros de diversos tamanhos e molduras. Todos eles à venda e cerca de 180 para o acervo da Galeria, que servem como um catálogo para os clientes que quiserem fazer um quadro sob encomenda.

Qual a expectativa com a nova galeria?

Para ser bem sincero não tenho muitas expectativas com a Galeria, claro que quero prosperar e viver bem da minha fotografia, mas entreguei nas mãos de Deus e tenho vivido um dia de cada vez. O que mais me deixa feliz é poder mostrar o meu trabalho e um pouco do mundo, através das minhas lentes. A repercussão está super positiva e já vendi inúmeros quadros nas primeiras semanas. Falando em expectativas, já superou as que eu tinha.

“Nadei pela vida, fugi de ondas enormes e fotografei tubos que não imaginei nem nos meus melhores sonhos”

Qual a melhor história envolvendo surf e fotografia?

Não sei se é a melhor história mas uma das mais recentes vivi ano passado no Tahiti no dia que as ondas chegaram aos 10 metros. Um pouco antes da etapa do circuito mundial no Tahiti, uma ondulação imensa encostou na Polinésia Francesa. O surfista profissional de Balneário Camboriú, Willian Cardoso estava comigo e fomos, como de costume, checar as ondas pela manhã. Eu tinha uma pequena embarcação com motor de 30hp e quando chegamos para ver as ondas em Teahupoo, que é considerada a onda mais potente do mundo, nos deparamos com ondas gigantescas, como eu havia visto apenas em filmes e revistas. Não havia como parar o barco perto das ondas e de longe mal dava para ver a cena, porque lanhas imensas estavam na nossa frente. Navegamos por cerca de duas horas e eu mal consegui fazer uma foto, porque além dos barcos na frente eu ainda tinha que dirigir. Comecei a ficar maluco por não conseguir registrar o mar mais incrível de toda a minha vida, então voltei com o Willian até a nossa pousada, e ele me levou de carro até o lugar mais próximo, de onde eu poderia ir nadando. Com a caixa estanque montada e os pés de pato na mão cheguei na beira da água e logo consegui uma carona no jet ski de um gringo que estava indo para a onda. Ele me deixou no canal e nadei até o recife de coral onde vi e registrei as cenas mais alucinantes da minha vida. Nadei pela vida, fugi de ondas enormes e fotografei tubos que não imaginei nem nos meus melhores sonhos. Fiquei cerca de seis horas na água e não havia sequer um fotógrafo na zona de arrebentação, estavam todos dentro dos barcos, foi uma vitória para mim e como prêmio levei para a casa o cartão de memória recheado de momentos incríveis.